Usar ou não palavras em inglês na língua italiana [tradução 19]

Se tem um assunto que vira e mexe ressurge é a presença e o uso de termos em inglês nas demais línguas. Eu mesma já traduzi por aqui um artigo sobre isso, como você pode conferir aqui. O artigo em questão é bem interessante e pode ser uma boa introdução à discussão de hoje (ou seja: se você ainda não leu, vai lá ler!).

Recentemente, porém, uma aluna perguntou sobre isso e a minha curiosidade sobre o assunto retornou. Parece que nunca é satisfatório o nosso conhecimento sobre determinados temas e há sempre algo novo a se encontrar. Então resolvi trazer novamente o assunto à tona por aqui.

Desta vez, porém, com um artigo cujo título completo é Usar ou não palavras em inglês na língua italiana: o parecer da Accademia della Crusca. Para quem não sabe, a Crusca é a maior entidade linguística da língua italiana. Para nós, reles mortais (principalmente não falantes nativos), se “a Crusca” falou, tá falado.

O artigo em questão é bem recente, tendo sido publicado em 02 de abril de 2021. Foi escrito por Michele Razzetti e você pode conferir o original aqui. Traz, ainda, o seguinte cabeçalho: “Os ‘empréstimos linguísticos’ acendem sempre intensos debates. O último se intensifica há algumas semanas, tendo parte nisso Mario Draghi. Pedimos a Claudio Giovanardi, da Crusca, para nos esclarecer. Inclusive sobre um termo que há mais de um ano ouvimos com frequência, que é ‘lockdown'”.

Como você poderá conferir abaixo, porém, o artigo está longe de nos trazer uma resposta, mas carrega uma reflexão importante sobre o contexto no qual usamos palavras emprestadas de outras línguas. Então vamos para a tradução?


Em intervalos regulares, se reacende o debate sobre o uso de palavras inglesas, tecnicamente anglismo ou anglicismo (Tullio de Mauro, em 2016, apontava que este último termo também o é), na nossa língua. Aconteceu inclusive recentemente, depois da consideração improvisada de Mario Draghi, ao final da visita ao centro de vacinação anti-Covid do Aeroporto de Fiumicino, sobre a inglesização do vocabulário comum italiano.

Os tons do debate são geralmente exasperados e veem em oposição estrangeiristas declarados, prontos a aceitar sem críticas tudo o que chega de um país estrangeiro, e aqueles que gostariam de um italiano feito só de palavras não estrangeiras, como se isso sem dúvidas fosse realmente possível. Polarizar o confronto não faz bem a ninguém. Mas para superá-lo pedimos ajuda a Claudio Giovanardi, membro da Academia della Crusca, docente de Linguística italiana na Universidade Roma Tre e autor de Inglês-italiano 1 a 1. Traduzir ou não traduzir as palavras inglesas? (Manni), que se ocupou do assunto também no decorrer de 6per6, o festival que pela primeira vez colocou as ciências da linguagem ao vivo no Instagram.

A linguística histórica ajuda a colocar o debate em perspectiva e nos faz entender de imediato uma coisa: as línguas se confundem e se emprestam termos continuamente. Claro, aquelas que gozam de um prestígio sócio-cultural maior — o que, atenção, muda com o tempo — tendem a disseminá-los no mundo com força maior. “O inglês teve uma entrada explosiva no italiano a partir do final dos anos 70 até se tornar praticamente a única língua estrangeira estudada nas escolas em que se prevê apenas uma. Sobretudo aquele estadunidense, naquele tempo carregava consigo o poder político, econômico, cultural e científico. Mas não nos esqueçamos que pouco antes, o mais estudado foi o francês”.

O sucesso dos anglicismos é registrado também pelos vocabulários e pelas coleções de neologismos, instrumentos que medem a temperatura lexical de uma língua. “As pessoas nos dizem que existe um aumento significativo de palavras estrangeiras em italiano, sobretudo nos últimos 30 anos. O mundo empresarial faz um grandíssimo uso delas, assim como o meio acadêmico. As instituições culturais geralmente são as que mais se valem das palavras em inglês, fazendo um uso inútil destas.

De um ponto de vista teórico é interessante se perguntar se seria possível dispensar esses empréstimos. Para Giovannardi, sem dúvidas, sim: “Em seu próprio repertório uma língua de cultura rica como o italiano pode encontrar os recursos certos para evitar o uso do inglês; é compreensível que os objetos do âmbito tecnológico, por exemplo, nos cheguem com o nome em inglês, mas isso não significa que o italiano não possa ter os recursos internos para substituí-los“. Como, de um ponto de vista prático? Com uma tradução, um sinônimo ou uma adaptação. “Certo, é preciso entender se essa operação é econômica, porque muitos desses termos têm uma circulação europeia, ou até mesmo global”.

É preciso perguntar-se também se o inglês deve ser em todos os casos, evitado, demonizado como gostariam alguns. A resposta é negativa, porque o verdadeiro discriminativo para um uso sensato dos anglicismos é o contexto comunicativo, como muitas vezes acontece quando se fala uma língua. “Pessoalmente não tenho uma particular intolerância nos confrontos de um uso privado dos anglicismos. O grande problema diz respeito às palavras estrangeiras usadas nos contextos de comunicação pública. Contra este fenômeno é um dever cívico lutar“.

E é isso que faz o grupo Incipit da Accademia della Crusca, ao qual o próprio Giovanardi pertence: eles não pretendem traduzir todo e qualquer termo inglês, mas assinalar a entrada das palavras que impactam na vida pública (em detrimento daquelas sedimentadas e mais complexas de intervir). “Se uma lei é proposta a um cidadão, deve ser colocada em condições que se possam entender; depois, no bar, em casa ou debaixo do guarda-sol cada um pode falar como preferir”.

Mas nos discursos públicos, aqueles produzidos pelas instituições políticas, por exemplo, o inglês parece desempenhar um objetivo comunicativo de honestidade duvidosa. “Parece que usando um termo inglês para uma medida ou um evento potencialmente indesejado à opinião pública, possa-se amenizá-lo: penso na famosa spending review*, que nada mais é do que um corte nas despesas públicas. Sendo maliciosos, temos de pensar que o inglês consiga fazer passar essas medidas sem levantar grandes rebuliços”*.

Uma escolha precisa que não encontra respaldo em outras grandes democracias europeias. Não na Espanha e na França,** com as quais um confronto linguístico imediato é possível graças também à pandemia na qual nos vemos envolvidos. “Na Itália, logo enchemos a boca com lockdown, mas na França falou-se em confinement e na Espanha em confinamiento*. Talvez, nos contextos informais, espanhóis e franceses usem o anglicismos lockdown, mas nas comunicações públicas isso não acontece. Nós não poderíamos usar também confinamento? Talvez assim tivéssemos feito algo por todos aqueles que não têm familiaridade com a língua inglesa”*.

Em suma, talvez em uma situação de emergência como essa que estamos vivendo há meses, se pudesse esperar um mínimo de consciência linguística da parte de quem, quando fala, possui um importante papel de porta-voz.


E então, qual a sua opinião sobre o assunto? Eu gostei muito da ênfase dada na questão da situação em que acontece a comunicação e, ao mesmo tempo, para o fato de que, realmente, quando pensamos em um âmbito político-social é necessário pensar bem na escolha dos termos usados, afinal, se cada país tem a sua língua oficial, isso não é por acaso, certo?

6 comentários em “Usar ou não palavras em inglês na língua italiana [tradução 19]

  1. Eu não sou contra o uso da língua inglesa em nenhum outro idioma. Mas as vezes falamos palavras em inglês que nem sabemos o significado 😅. Gostei demais dessa tradução 👏🏽👏🏽👏🏽

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  2. Texto de responsa. Obrigado por me apresentar a Crusca. Quanto ao idioma, sou totalmente a favor dos empréstimos, seja em Italiano ou mesmo Português. As línguas evoluem assim.

    Aquele abraço!

    Curtido por 1 pessoa

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