Título: O caçador de pipas Original: The kite runner Autor: Khaled Hosseini Editora: Nova Fronteira Páginas: 365 Ano: 2005 Tradução: Maria Helena Rouanet
Sinopse
“O Caçador de Pipas” é um romance com tintas autobiográficas que conta a história da amizade de Amir e Hassan, dois meninos quase da mesma idade, que vivem vidas muito diferentes no Afeganistão da década de 1970.
Amir é rico e bem-nascido, um pouco covarde, e sempre busca a aprovação de seu próprio pai. Hassan, que não sabe ler nem escrever, é conhecido pela coragem e bondade. Os dois, no entanto, são loucos por histórias antigas de grandes guerreiros, filmes de caubói americanos e pipas. E é justamente durante um campeonato de pipas, no inverno de 1975, que Hassan dá a Amir a chance de ser um grande homem, mas ele não enxerga sua redenção. Após este episódio, Amir vai para os Estados Unidos, fugindo da invasão soviética ao Afeganistão, mas 20 anos depois Hassan e a pipa azul o fazem voltar à sua terra natal para acertar contas com o passado.
Best-seller mundial, este livro vendeu mais de 5 milhões no mundo todo e ganhou uma versão cinematográfica.
Resenha
Apesar de ser uma obra tão conhecida, mergulhei na leitura de O caçador de pipas sabendo apenas que era um desses livros que precisamos ler ao menos uma vez na vida.
“— As crianças não são cadernos de colorir. Você não tem de preenchê-lo com suas cores favoritas”
Como não poderia deixar de ser em uma obra escrita por um autor que não está no eixo euro americano, realizar esta leitura foi me dar conta, mais uma vez, do quão pouco sei. Seja sobre outras culturas, sobre religião, sobre os conflitos que marcam o Oriente Médio e também sobre as relações humanas.
“— Bem… — disse eu. Mas nunca consegui acabar aquela frase. Porque, de repente, o Afeganistão mudou para sempre”
A obra se inicia na infância de Amir, que é o narrador desta história.
“Era esquisito, mas fiquei feliz vendo que alguém sabia exatamente quem eu era. Já estava cansado de fingir”
Uma infância bem privilegiada, uma vez que seu pai era muito rico e respeitado e Amir ainda podia contar com o fiel amigo e servo Hassan.
“No inverno de 1975 vi Hassan correr atrás de uma pipa pela última vez”
Mas estamos falando de uma infância no Afeganistão e, da noite para o dia, toda essa vida aparentemente perfeita, ruiu.
“Meu pai passou a vida inteira enfrentando ursos. Perdeu a jovem esposa. Teve de criar um filho sozinho. Precisou abandonar a sua querida terra natal, o seu watan. Conheceu a pobreza. A indignidade. Até que, afinal, apareceu um urso que ele não conseguiu derrotar”
Acontece que, lendo esta narrativa da perspectiva de Amir, sabemos que as coisas já estavam difíceis muito antes dele ter de sair de sua terra natal.
“Para mim, os Estados Unidos eram o lugar onde podia enterrar as minhas lembranças”
Sua mãe morrera no parto e, desde a infância, Amir apenas queria conquistar o amor e a admiração de seu pai. Sentimentos esses, aliás, que ele parecia nutrir muito mais facilmente por Hassan.
“Sempre dói mais ter algo e perdê-lo do que não ter aquilo desde o começo”
Essa relação (ou a falta dela) entre pai e filho é um fio condutor importante na obra, sendo o propulsor da maioria das ações e decisões (sobretudo ruins) do narrador, além de trazer um plot interessante ao final.
“Pensei em todos os espaços vazios que baba ia deixar atrás de si depois que se fosse, e fiz um esforço enorme para pensar em outra coisa”
A lealdade também é um tema recorrente ao longo das páginas deste livro, assim como a culpa, que permeia cada vírgula desta história.
“Acho que certas histórias não precisam ser contadas”
O caçador de pipas pode ser uma história bem amarga, não apenas por tudo aquilo que o narrador carrega consigo, mas também porque há alguns pontos da cultura afegã que podem ser difíceis – sobretudo para as mulheres – de digerir.
“E toda mulher precisa de um marido. Mesmo que ele faça calar a canção que existe nela”
Violência – física e psicológica – também marcam diversos pontos desta narrativa, que realmente tem o poder de tocar seus leitores.
“Eles não permitem que a gente seja humano”
Se você ainda não leu O caçador de pipas, clique abaixo para saber mais.
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O post de hoje vai para você que ainda não se convenceu a ler A cor púrpura, escrito por Alice Walker.
Uma obra que, para além de um clássico, realmente tem muito a nos transmitir, falando, por exemplo, sobre pertencimento.
“Pela primeira vez na minha vida, eu sinto que tô no meu lugar”
Sobre o respeito ao próximo, mesmo que o próximo seja uma mulher vivendo numa sociedade extremamente machista.
“Eu num brigo as briga da Sofia, ele fala. Meu negócio é amar ela e levar ela pra onde ela quer ir”
Uma história sobre amores, não apenas românticos (aliás, este talvez seja o menos presente) e sobre exemplos.
“Talvez só de morarmos juntos, amar as pessoas faz com que elas se pareçam com a gente, eu falei. Você sabe como algumas pessoas casadas há muito tempo se parecem”
Mas, acima de tudo, uma obra sobre preconceitos, desrespeito e sobre vencer diariamente muitas batalhas.
“Eu sei que os branco nunca escutam os negro, e pronto. Se eles escutam, eles só escutam o bastante pra poder dizer procê o que você deve fazer”
Se você acha que precisa ler esta obra (e spoiler: precisa mesmo) clique na resenha para saber mais sobre ela e garantir o seu exemplar.
Título: As grandes navegações Autor: Gael Rodrigues Editora: Publicação independente Páginas: 193 Ano: 2023
Sinopse
UMA AMIZADE QUE CRUZARÁ OCEANOS E O TEMPO
Leonildo nasce em cima de um baobá durante uma enchente. É albino, o que antes parece um milagre para o povo de Beira, Moçambique, aos poucos se torna maldição. O menino precisa ser escondido para seu corpo não ser transformado em amuleto.
Guilherme ao perceber o que é, foge da Paraíba para São Paulo, depois é expulso da casa da tia religiosa. Espera pela operação de redesignação sexual até que vem a pandemia e seu corpo é interrompido junto ao tempo.
Dois homens vivendo em ocupações que antes foram hotéis de luxo. Dois países distantes mas que dividem a mesma exploração original e parecem repetir a mesma história. Uma amizade improvável e inesquecível, que com ajuda dos sonhos é capaz de atravessar oceanos.
Resenha
As grandes navegações é uma história que nos transporta para dois universos tão diferentes e tão semelhantes entre si, através de uma narrativa em prosa quase onírica.
“Contar essa história é cartografar o universo único de dois amigos. É também um mapa para se compreender a segunda e definitiva morte de Leonildo”
Na primeira parte da história estamos em Beira, uma cidade moçambicana.
“Era um povo acostumado a desgraças. Desde cedo, empilhavam uma sobre outra, o dia a dia ensinando a carregar mais peso”
Uma realidade difícil, de grande pobreza e marcada por catástrofes naturais.
“Uma mulher feito terra conquistada à força e, depois de roubado o viço e riquezas, abandonada. Uma mulher-Moçambique”
Em Beira, Fauzi e Bomani se conhecem e se apaixonam e desse amor nasce Leonildo (ou Nido).
“O encontro de dois desconhecidos é terra seca à espera. Entre os olhares ergue-se uma ponte. Do toque, funda-se um prédio”
O casal passa a viver junto no Grande Hotel, um antigo hotel de luxo, hoje abandonado e ocupado. E apesar das dificuldades, eles parecem se amar. Até que toda a vitalidade de ambos é sugada pela dura realidade e o amor parece não mais resistir.
“Ela precisava ser forte para continuar sendo ela, era o que a avó a ensinou. Ser ela era ser todas antes dela”
O nascimento de Nido é quase a morte de Fauzia. Um nascimento duríssimo, mas considerado um milagre: ele é parido no topo de uma árvore, em meio a uma tempestade. E há ainda um detalhe: Nido é albino.
“Ele enxergava pouco, assim como outros albinos, mas isso ele não sabia, porque, ao menos ali no prédio, não havia outro como ele”
Nessa primeira parte da obra, navegamos pela infância de Nido. Uma infância duríssima, ainda mais para ele, que não pode sair à luz do dia e que, inclusive, passa boa parte da infância escondido, contribuindo para a encenação de sua mãe de que ele morrera, ideia que ela teve para protegê-lo (até que ponto realmente conseguiu?).
“Normalmente, o menino saía apenas depois da chegada da noite”
Já na segunda parte da obra, estamos em São Paulo. O ano é 2020 e a pandemia assola o mundo.
“As coisas iam voltar aos eixos, apesar do mundo ainda de cabeça para baixo. Em breve, encontrariam uma vacina, o mundo iria se aquietar”
Aqui o protagonista é Guilherme, que nascera Alice e nunca se encontrara em seu corpo feminino.
“Eu mudei as linhas do meu corpo todo santo dia para tentar não constranger alguém. E todo santo dia eu constrangi alguém”
Não bastasse toda a luta para mudar de sexo, Guilherme também leva uma vida quase miserável, morando numa ocupação, em um prédio abandonado.
“A vida é repetição e repetimos os outros”
É justamente no centro de São Paulo que as histórias de Nido e Guilherme se cruzam e se tornam uma.
“Se essa é a história de uma amizade, ela precisa ao menos de duas pessoas que se encontram, criam laços, riem juntas, arquitetam planos. A história de dois amigos há de conter abraços”
Há ainda Alima, a moça dos olhos violetas, que conhece Nido ainda em Beira e que vem procurá-lo em São Paulo, onde também conhece Guilherme.
“Quem mais poderia, além do sonho, nos colocar em lugares que nunca pisamos, voar, mesmo sem ter asas, e conhecer pessoas tantas que não caberiam na geografia”
É difícil falar sobre As grandes navegações, porque cada personagem colocado ali tem um papel importante para a história, constrói algo essencial na narrativa.
“Era um sábado à noite, e apesar de tanta gente na sala, de tantos apertos de mãos, de perguntas e respostas ensaiadas num balé do desinteresse, nossos olhos se encontraram e se reconheceram”
Enquanto de Nido conhecemos toda a infância, de Guilherme pouco sabemos e apenas juntamos alguns fragmentos de sua história.
“Acompanhar a infância de Leonildo tem tanto significado quanto omitir a infância de Guilherme”
Além disso, as temáticas são muito fortes e variadas, sem que o fio da meada se perca ao longo das páginas. A amizade é, sem dúvidas, um ponto crucial, mas antes deles muitos outros temas permeiam as páginas deste livro de maneira igualmente importante.
“A amizade é o sentimento mais forte do mundo”
Um livro que nos faz refletir sobre medos, perdas, a dureza da vida e, apesar de tudo, as suas belezas e a importância do sonhar.
“Apesar de também ser cheio, alegre, colorido, o sonho é lugar onde se prepara para a guerra’”
Tive a sorte de ganhar um ebook de As grandes navegações de presente, da Geovana, do capitulo_20 (indico demais, não deixe de seguir), e agora que tive a oportunidade de ler esta obra, sou ainda mais grata pelo presente! Somente depois de entrar em contato com esta narrativa é que pude compreender como e porque ela foi finalista do Prêmio Kindle.
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Recentemente, tive a sorte de ser apresentada ao rock progressivo (que os conhecedores chamam mais simplesmente de prog). E, como se não bastasse poder conhecer um estilo musical que estou adorando ouvir, também fui apresentada a grupos italianos de prog!
Por isso, trago aqui a tradução de uma resenha que fala sobre um grupo de prog italiano bem interessante, cujo nome despertou minha atenção logo de cara: Il paese dei balocchi.
Eu sabia que este nome não me era estranho e que estava ligado ao universo literário. E a resposta veio fácil: Pinocchio. Quer algo mais italiano que isso?
O texto que trago aqui fala sobre a banda, mas também sobre o único disco dela, que tem o mesmo nome. E se a pulga já estava atrás da orelha, bastou ver os títulos das músicas e apertar o play para pensar: eu PRECISO saber mais sobre isso.
Antes de passar para a tradução em si, porém, uma explicação sobre o que é, em Pinocchio, Il paese dei balocchi, porque isso não vai aparecer ao longo do artigo, mas acho que esta introdução pode deixar as coisas ainda mais interessantes.
Il paese dei balocchi (ou “O país dos brinquedos, da diversão”) é um lugar mágico, onde as crianças podem fazer o que querem, sem regras ou responsabilidades. Seria o paraíso, se não fosse por um detalhe: quem fica muito tempo por lá se transforma em burro.
Pinocchio é uma história infantil e Il paese dei balocchi tem a sua função ali: simbolizar que viver uma vida sem disciplina, trabalho e responsabilidade traz consequências.
O que isso tudo tem a ver com um disco de prog italiano? Bom, leia a tradução abaixo, deste texto aqui, originalmente publicado no site Donato Ruggiero, em março de 2020.
Tradução
Estamos em 1972, ano de publicação de muitas obras primas do prog italiano (só para citar alguns, o álbum homônimo e “Darwin”, dos Banco, “Us” do Balletto di Bronzo, “Nuda”, dos Garybaldi, “Jumbo” e “DNA”, dos Jumbo, “Uomo di pezza” do Orme, “Storia di un minuto” e “Per un amico”, do PFM) e entre eles encontramos uma pequena pérola, desconhecida para a maioria: Il Paese dei Balocchi, disco da banda homônima, formada em Roma.
Nascido das cinzas dos Under 2000, ativos desde 1965, o PdB, em 1971, foi notado pelo produtor Adriano Fabi, que propôs a gravação de um álbum. Isso aconteceu no ano seguinte e as gravações duraram somente duas semanas. Fizeram parte delas também o maestro Claudio Gizzi (futuro membro dos Automat, com Musumarra) que cuidou dos arranjos das cordas.
A obra que nasce das mentes de Armando Paone (voz, teclado), Fabio Fabiani (guitarra), Marcello Martorelli (baixo) e Sandro Laudadio (bateria, voz), é um álbum conceito de temática muito pessimista “porque naqueles tempos não acreditávamos nas instituições ‘oficias’ e estávamos enjoados e oprimidos por tudo o que nos rodeava (Vietnã, política, conformismo hipócrita,…) em que os ‘porquês’ eram tantos e sem respostas convincentes. Nos inspiramos espiritualmente em tudo isso para a criação do nosso LP… Justamente procurando ‘AS’ respostas. O nosso LP, em linhas gerais, é uma viagem do homem dentro de si mesmo… (‘si mesmo’… aqui imaginado como um Paese dei Balocchi, aquele onde todos nós gostaríamos de viver, fugindo de uma realidade que não nos empolga e onde quem tem os fios do poder… é um rei déspota que nos manobra como ‘fantoches’). É a busca por nós mesmos, ou melhor, pela própria identidade humana, passando através do bem e do mal, tentando entender quem somos, porque estamos aqui e aonde estamos indo, até chegar à esperança… vã, porque no final da viagem descobrimos que a ‘crua’ realidade na qual vivemos, nada mais é do que um espelho no qual podemos ver o reflexo da nossa própria alma” (da entrevista de Fabio Fabiani, concedida a Augusto Croce).
A divulgação do álbum acontece também com a participação da banda em dois grandes eventos organizados naquele ano: o grande concerto de Villa Pamphili, em Roma, e a Mostra d’Oltremare, em Napoli. Do disco, lembra Laudadio, foram publicadas somente 1800 cópias.
A capa, onde se pode ver diversos pedaços de tecido coloridos costurados, representa em cheio a colagem de sons (clássicos e eletrônicos) e atmosferas (forçadamente melancólica) presentes no álbum, que não deve ser entendido como uma composição confusa, mas como uma grande habilidade técnica e capacidade de fazer malabarismos no complicado universo do “conhecer a si mesmo”.
A primeira faixa do álbum, com um longo título, é Il trionfo dell’egoismo, della violenza, della presunzione e dell’indifferenza(o triunfo do egoísmo, da violência, da presunção e da indiferença). O início é arrebatador: um passeio que nos lembra uma pequena parte, depois do solo de bateria no início, de Il tramonto di un popolo (O pôr do sol de um povo), música do Capitolo 6, presente no álbum Frutti per Kagua (publicado no mesmo ano). Neste o destaque é a flauta, enquanto naquele não tem um elemento que se sobressai, mas é a sublime mistura entre guitarra, órgão, baixo e bateria que se impõe. E então uma mudança abrupta: entram os instrumentos de corda, criando um suspense, e a música muda completamente. Os últimos segundos são muito relaxantes.
Música multifacetada é Impotenza dell’umiltà e della rassegnazione (Impotência da humildade e da resignação). Em apenas quatro minutos, Il paese dei balocchi se aventura em numerosas e repentinas mudanças que desorientam o ouvinte. O começo é bem minimalista, com uma guitarra “distante” e um tema de poucas notas, retomados pouco depois, de maneira decidida, por uma guitarra distorcida. A evolução da música é introduzida pelo baixo de Martorelli e a sucessiva entrada de toda a banda, acompanhada por coros (presentes já um pouco antes da entrada do baixo). Pouco depois, o órgão, sozinho, tenta trazer calma, mas só aparentemente: os coros entram novamente com uma guitarra toda em estilo “western”. Em seguida, um breve trecho de teclado ao estilo de Battiato. A música termina com um bom e puro prog “made in 1972”.
Com Canzone della speranza (Música da esperança), o PdB “respira” um pouco. É a primeira faixa cantada do álbum. Um leve arpejo dá início a uma balada melancólica (estado de espírito endossado pelos coros). A tristeza base da música está presente também nos instrumentos de corda, na voz e no texto: “Eu vendo tudo e vou embora, todos os sonhos, a melancolia / deixo a tranquilidade por um pouco de liberdade / uma sobra de sinceridade, a fé, um pouco de caridade / procuro coisas que nunca tive / as mãos estendidas de um amigo, talvez um sorriso / palavras doces que nunca ouvi / perdi o país com o qual sonhei, o vento vai me levar / mundo mais novo, estou aqui para você / cores vivas me curarão / o amor que agora não está em mim, verá”.
Evasione(Evasão) tem um sabor onírico, psicodélico (sensação criada pelo som “aquoso” da guitarra na primeira parte da canção). A partir do segundo minuto, a atmosfera de sonho ganha mais força com a entrada do teclado e da bateria. Vale notar algumas esporádicas inserções de sintetizador e um final mais encorpado.
Risveglio e visione del paese dei balocchi(Despertar e visão do país dos brinquedos) tem uma estrutura e ainda cria uma atmosfera capaz de ser usada sem problemas como música de filme. O riff de baixo do interlúdio parece tirado de uma faixa dos Banco.
Música de dupla personalidade é Ingresso e incontro con i baloccanti(Entrada e encontro com os brincalhões). A primeira parte tem uma introdução muito animada, que exala algo de medieval. A segunda parte foi confiada apenas à voz, que se exibe em um canto de tom “monástico”.
A breve, mas intensa, Canzone della verità(Música da verdade), realizada apenas com cordas, lembra muito de perto músicas presentes nos três “Concerto Grosso” do New Trolls.
Outra música bem curta é Narcisismo della perfezione(Narcisismo da perfeição). Os únicos participantes da “contenda” são guitarra e voz. Enxerga-se ali algo que será próprio de Angelo Branduardi nos anos seguintes.
Vanità dell’intuizione fantastica(Vaidade da intuição fantástica). depois de dois minutos de som “em baixo volume” (órgão e guitarra), é o baixo, acompanhado das percussões, que dá sentido à música. Eles preparam o terreno para um bom trecho de prog. O solo de órgão presente aqui soa muito britânico. A última parte da música tem sonoridades mais psicodélicas.
É uma “prova de força” do órgão, muito bem tocado por Paone, que ocupa os mais de quatro minutos de Ritorno alla condizione umana(Retorno à condição humana). Para a ocasião foi usado um órgão Mescioni, de 1947, presente na igreja de S. Euclide, igreja na qual também foram registrados alguns coros (para aproveitar a reverberação) presentes no disco. Para complementar, algumas intervenções de sintetizador.
Conclusão
Se você, assim como eu, não conhecia nada disso, espero que tenha gostado. E se já conhecia, que esta tradução ao menos tenha trazido algumas informações novas.
Sigo escutando Il paese dei balocchi, tentando unir a sonoridade a todas essas possíveis interpretações e significados que cada uma das músicas (e são apenas 10, passa tão rápido!) pode ter.
Título: Contos aleatórios da vida (i)rreal Autora: Fernanda Frankka Editora: Publicação independente Páginas: 23 Ano: 2021
Sinopse
Três contos que passeiam desde a comédia, o romance até o terror. Casos que poderiam ou não ser reais no nosso mundo atual. Aqui, vocês vão conhecer Henrique, Jack e Anne. Personagens que podem te fazer sonhar ou, nunca pensar em colocar seus pés numa casa de campo no meio do nada.
Resenha
Para quem busca uma leitura bem rápida, aqui vai uma dica interessante, porque em apenas 23 páginas, Fernanda Frankka consegue transitar por estilos literários diversos e nos apresentar três histórias deliciosas de ler.
“Três histórias aleatórias, de gêneros diferentes, igualmente escritos por uma mente que não para de pensar. Espero que sintam a euforia dos que procuram, o frescor dos que amam e da lealdade dos que se conectam”
O primeiro conto desta breve coletânea é No compasso da vidae nele conhecemos Henrique — ou Kito —, um desses caras que adora ir para a balada com os amigos e não sai de lá sem uma mulher.
“Ou a pessoa diz logo o que quer ou então não faz graça”
(No compasso da vida)
Bem no estilo “só pego, não me apego”, Henrique não é um personagem cativante. Muito pelo contrário: que cara chatíssimo! E ainda preconceituoso. Mas ele tinha de ser assim, se não essa história nem existiria.
O título é quase uma grande ironia, porque a vida de Henrique está bem descompassada. E apesar dele ser horrível, quase dá para sentir uma leve dó, por ele ter perdido a chance de talvez conhecer uma garota incrível.
“Pena que a vida não é feita somente de sonhos”
(No compasso da vida)
O segundo conto desta obra é Perfume de amore este me arrancou algumas gargalhadas de indignação com a criatividade da autora.
Os protagonistas são dois nerds e amigos de infância — Jack e Gabe — e a história toda se desenrola porque Jack se meteu em uma grande enrascada.
Basicamente, ele criou uma poção do amor… E o feitiço virou contra o feiticeiro.
Por fim, temos Terror no campo, para deixar a respiração em suspenso e sentir uns calafrios.
“Eu só quero voltar pra casa e, embora queira esquecer tudo o que aconteceu essa noite, sei que não vou conseguir”
(Terror no campo)
Quatro amigos decidem passar uns dias na casa de campo da família de dois deles, os irmãos Maicon e Anne.
Uma casa de campo, no meio do nada e praticamente abandonada… Como poderia sair algo de bom disso?
E mais: uma casa que tantas pessoas diziam ser… Sim, mal assombrada.
“Penso no diário de minha tia e quantos mais segredos podem estar impressos lá. Mas é algo que não cabe à mim saber. Não mais”
(Terror no campo)
Por mais clichê que possa parecer, o conto é bem construído e é extremamente interessante de ler, nos dando frio na barriga e nos fazendo repensar nossas teorias a cada palavra lida.
Não posso deixar de dizer que além de ter adorado ler esta obra, ótima para termos uma ideia de como é a escrita da autora, a Fernanda é uma fofa e você pode acompanhá-la em suas redes sociais (Instagram | Twitter).
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Quero andar de mãos dadas, como comentei na resenha, foi uma obra que comecei a ler sem esperar muita coisa e que me surpreendeu bastante.
“Algumas coisas chamam nossa atenção e nos fazem ficar presos a elas de uma maneira quase hipnótica”
A obra, escrita por Victor Lopes, aborda diversos assuntos delicados, mas necessários, como as mentiras que contamos, muitas vezes numa tentativa de nos proteger ou sobreviver.
“As mentiras da minha vida ficavam cada vez maiores e nada de bom surgia delas. Nada de bom. Só surgia dor”
“Mais uma mentira contada. Agora era só esperar pela próxima”
No caso desta história, essas mentiras são a forma que os protagonistas encontram para se defender num mundo que, mesmo se dizendo tão evoluído, ainda é tão retrógrado.
“Deveria ter colocado um ponto final, pois sei melhor do que ninguém que não vai dar certo, que não posso gostar dele e deixar acontecer o que quer que seja que poderia acontecer”
“— A verdade é que nós sempre precisamos fazer as coisas mais comuns meio escondidos, isso se não quisermos que nos xinguem, ou nos batam ou tentem nos matar. Desculpa, não queria te assustar.
— De boa. Eu sei como é. 2014 e as pessoas ainda não aceitam”
“Meus sonhos de encontrar alguém por quem eu me apaixonasse trouxeram com eles o pesadelo da realidade”
“As pessoas me olhavam e eu tinha certeza de que elas viam em meus olhos o que acontecera, conseguiam ver minhas mentiras e me julgavam por ser gay. É isso o que as pessoas fazem, não importa quem sejam. Nada importa para elas se você não for igual a elas”
E, como não poderia deixar de ser, o medo se faz bem presente.
“Talvez esse seja o motivo pelo qual não nos falamos normalmente ontem, porque estamos com medo de nossos sentimentos”
“Resolvi enfrentar esse medo, mesmo sabendo que não podia haver muitas consequências positivas”
Medo esse que faz um dos protagonistas não conseguir agir como gostaria. O impede de ser quem realmente é.
“Eu não posso ser outra pessoa, ainda que queira”
“Essa minha cara é a cara de alguém que não pode ser quem é e não pode viver o que quer por medo do que vocês vão fazer e pensar e do que vai acontecer com nossa família”
“Cada coisa que eu deixava de fazer para poder manter meu segredo, era uma tonelada a mais colocada sobre meus ombros”
“— Eu estragaria tudo para eles.
— Você prefere estragar tudo para você?
— É só o que posso fazer agora”
“Eu não posso fazer o que quero fazer e preciso aceitar isso”
“Eu fiz um pedido. Pedi que tudo mudasse. Pedi que eu pudesse viver”
Uma hora, porém, quando guardamos demais dentro de nós, as coisas acabam extravasando.
“E certo dia foi exatamente o que aconteceu. Eu explodi”
À espreita, nesta história, há muito mais. A morte, principalmente, está sempre rondando, de mãos dadas com muita angústia e ansiedade.
“Um dia eu chegaria da escola e ela não estaria mais lá. Eu só torcia para que esse dia não fosse hoje”
“Eu não via como era possível existir desse jeito com coisas tão boas acontecendo e sendo substituídas, transformadas quase num passe de mágica, em sentimentos desesperadores”
“Depois de um fim, algo começa”
“E eu fiz. Às três e meia da manhã, eu fiz a dor por dentro parar. A dor por fora era muito mais libertadora. No meio do quarto escuro tudo ficou vermelho e eu vi todas as luzes se apagarem antes mesmo de conseguir pedir ajuda”
Porém nem só de dor e tristeza vivem as páginas desta obra. Há também muito amor e companheirismo.
“Meu mundo estava em meus braços e eu não queria largar”
“Por fim, acho que fiz a coisa certa, por mais doloroso que possa ser para ele, eu precisava tocar no assunto, mostrar que estaria ao lado dele e que existem coisas mais importantes do que o que a família pensa sobre ele. Mas será que eu disse tudo isso?”
Se você se interessou por esses trechos, leia a resenha completa clicando abaixo e garanta seu exemplar.
Depois de muito tempo, venho resgatar esta seção do Blog (um pouco “esquecida” ultimamente porque acho que o conteúdo que eu postava aqui faz mais sentido na newsletter) porque quero muito (e preciso muito) divulgar um evento que vai rolar ainda esse mês na cidade de São Paulo.
No dia 20 de julho, na Jai Club, vai acontecer o Citrus Fest II, um festival de bandas independentes que fazem um som delicioso de se ouvir.
Na ocasião, será lançando o primeiro álbum da banda Refúgio: Velhos Hábitos.
Além disso, o público poderá curtir Theo Huppes & Enrico Bertagnoli e a banda Mrs. Bloom.
E por que eu precisava muito divulgar esse evento?
Porque desde o ano passado eu acompanho o trabalho de toda essa galera e, de verdade: eu adoro! Mas sabemos que não é fácil produzir arte (de qualquer tipo) no Brasil, então resolvi tentar trazer para cá esse povo e, quem sabe, chegar a mais uma ou duas pessoas fora da minha bolha.
Se você quer ter uma idea do que estou falando, antes de qualquer outra coisa, deixo alguns links aqui:
E se você acha que pode ser interessante conhecê-los ao vivo, aqui vão as informações completas do Festival:
Data: 20/07/2024 (sábado) Horário: das 16 às 22 Local: Jai Club — Rua Verguerio 2676 Ingressos: https://hoppin.com.br/citrusfest Para ficar por dentro das novidades: https://www.instagram.com/citrusmusic/
Se você não é de São Paulo, mas conheça quem é e pode se interessar, por favor, não deixe de divulgar também! Será de grande ajuda.
E se você for de São Paulo e resolver ir… Dá um alô!
Se você é uma atriz famosa, não siga o seu ex (leia-se cantor mundialmente conhecido) no Instagram.
Depois de um longo hiato na carreira, Beatriz está pronta para voltar às telas. Superado o luto, um coração partido e uma pandemia que mudou o mundo, nada pode estragar o seu retorno… Exceto ela mesma.
Ao seguir – acidentalmente – o babaca que a abandonou no pior momento de sua vida, a garota vê uma fofoca comprometer seu grande retorno. E esse furacão promete prejudicar não só ela, mas também Guilherme Almeida, (_leia-se o babaca_) agora um astro internacional, que retorna ao Brasil após anos fora com sua banda, a Vicious Bonds, com o projeto de conquistar os fãs brasileiros — e abalar todas as convicções de ódio que Beatriz tinha sobre ele.
Pressionados pela opinião pública, os dois concordam que apenas uma coisa pode salvar suas reputações: Um namoro falso. Mas uma mentirinha em nome das próprias carreiras pode se transformar em uma montanha russa de emoções, desafiando Beatriz e Guilherme a confrontarem seus sentimentos, destrincharem o passado e redescobrirem o significado de segundas chances.
Resenha
Comecei a leitura de Um faking date com benefícios só esperando quando esse livro ia me pegar de jeito e fiquei feliz que esse momento demorou a chegar. Mas também, veio com tudo.
“Raios caem duas vezes no mesmo lugar, estrelas cadentes não”
E sim, eu sabia que em algum momento essa história cutucaria alguma ferida, porque é isso que a Tayana Alvez sempre faz (e quem acompanha este blog sabe que eu leio todos os livros dela, mesmo que ela não pague a minha terapia depois).
“É fácil esquecer por algumas horas, mas não sei como seria a vida toda”
Como a autora costuma fazer, a obra é narrada, alternadamente, pelos dois protagonistas: Guilherme e Beatriz.
“— Porque eu acho que eu gosto dele.
— Ah, você acha?”
Guilherme mora fora do Brasil e é o vocalista de uma banda internacionalmente conhecida: a Vicious Bond.
“A Vicious Bonds parece uma daquelas piadas de péssimo gosto que nossos tios favoritos contavam quando éramos crianças: um brasileiro, um francês, um canadense e um inglês entram num bar”
Mais do que uma banda, aliás, eles são uma família que teve a sorte de se constituir e que canta músicas que arrastam multidões de Vagabonders, como são chamadas as fãs deles.
“Assim como as carinhas deles, as músicas são ótimas. A melodia carrega alma, as letras têm dor, paixão, tristeza e amor. É tudo muito intenso”
Beatriz, por sua vez, é atriz e está voltando às telas brasileiras após alguns anos longe delas (anos que incluem a pandemia).
“Apesar da pandemia, apesar do mundo ter virado de cabeça para baixo, apesar de eu ter ficado quase quatro anos sem atuar e ter perdido muito mais do que isso pelo caminho, o céu daqui ainda é azul o bastante, as ondas vêm e vão da mesma maneira que o vento derruba os arbustos na Serra, e as pessoas já não me assustam tanto”
Assim, aos poucos, vamos conhecendo esses dois personagens e, claro, o passado que eles têm em comum e que vem à tona derrubando toda e qualquer crença — deles e nossas.
“Quanto tempo um amor pode fingir que morreu?”
Beatriz e Guilherme se conheceram muito jovens e tiveram um relacionamento daqueles de fazer inveja. Até que, da noite pro dia, Guilherme terminou tudo e deixou o Brasil. Assim, sem mais nem menos!
“O fato de que boa parte dos fãs da GenZ me odeia porque terminei com a Beatriz do nada e fui embora é um assunto sensível”
Isso é muito claro desde o começo, mas leva um tempo para desconfiarmos das motivações de Guilherme e mais outro tempo para termos a nossa confirmação.
“É culpa do destino. E a gente não pode brigar com o destino; eu já tentei, não dá certo”
Até porque, se tem outra coisa que fica bem evidente é que esses dois ainda se amam. E muito.
“Durante os quatro anos do nosso relacionamento, Beatriz representou tudo o que eu entendia sobre o amor. Depois da minha partida, ela se tornou as verdades não ditas sobre minha aflição. Anos depois, em nosso primeiro reencontro, ela é uma mistura dos dois, e nunca vai saber disso”
Só que a dor da Beatriz que foi abandonada ainda é muito real e, caramba, como doeu ler tudo isso. São tantos pontos de identificação com essa história, ao mesmo tempo que ela é tão única que é até difícil explicar.
“— Queria poder gostar de Guilherme e lutar para fazer dar certo. — afirmo, mais para mim do que para ela. — Mas a partida dele quebrou alguma coisa no meu coração, e deixá-lo entrar de novo desse jeito é injusto com a Beatriz que ele abandonou.
— E talvez, não o deixar entrar seja injusto com todo o resto da sua vida, Beatriz”
O reencontro entre Guilherme e Beatriz acontece porque ela, num momento de stalk e inabilidade com redes sociais, acaba seguindo o ex no Instagram o que acaba levado os dois a ter de fingir, diante da imprensa, que reataram.
“Quero que isso seja encenação. Mas também não quero. E não sei exatamente como lidar com essa antinomia”
E o acordo é claro: esse relacionamento de mentirinha vai durar dois meses. O tempo que a Vicious Bond estará no Brasil.
“Demorei demais para me refazer depois dele para deixar tudo desmoronar por causa de um reencontro com data de validade”
A narrativa, então, se passa num intervalo de um pouco mais de dois meses, mas é tanta intensidade, que poderia ser muito mais também.
“Cada uma dessas palavras foi planejada há meses, agora parecem erradas. Parte de uma mentira que eu não quero mais contar”
Diante de todos esses fatos, é importante destacar que esta história fala muito sobre como as histórias não têm um ou dois lados. Às vezes têm muito mais.
“Mas foi interessante de um jeito estranho saber que, apesar de tudo, há lugar no qual Guilherme escolheu não nos apagar”
E como a culpa é muito mais complexa do que podemos imaginar.
“É difícil ficar sem quem a gente ama. Dói ser esquecido. Mas pior do que todas essas coisas é o fato de que eu sei que a culpa é minha”
Mas também é uma história sobre o poder das amizades e do amor. Aliás, os demais personagens nos encantam (alguns até mais que o próprio Guilherme) e fico feliz em saber que eles ainda voltarão em outros volumes (porque sim, este é só o primeiro…)
“Enfrentei a dor da perda do meu pai segurando a mão da Nina e, mesmo que eu nunca vá conseguir agradecer o suficiente, sei que não estaria aqui se não fosse por ela”
Um fake dating com benefícios também nos faz refletir muito sobre o perdão.
“Se tem uma coisa que eu percebi nos últimos tempos é que é perfeitamente possível você perdoar uma pessoa e amar essa pessoa, de todo o seu coração, e, ainda assim, não conseguir ignorar toda a dor que ela te faz sentir”
E, como sempre, a diagramação do ebook pode ser simples, mas com detalhes que encantam e que tornam a leitura de tudo isso ainda melhor.
Então se essa história é para você, clique abaixo para saber mais e não deixe de seguir a autora em suas redes sociais (Instagram | Twitter)
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Em junho eu tive a grande oportunidade de ouvir Marisa Monte ao vivo e, desde então, tenho estado um pouco (muito) mais fascinada com essa artista e, sobretudo, com suas músicas, que falam tão bem dos mais diversos momentos de nossas vidas.
Foi durante o show — num momento um tanto quanto chocante, diga-se de passagem — que me veio o estalo de que eu ainda não tinha trazido para cá a música Amor I love you e, principalmente, a intertextualidade que acontece nela. Mas vamos por partes.
Em primeiro lugar, é preciso dizer que o “momento chocante” do show foi perceber que ninguém mais ninguém menos que o próprio Arnaldo Antunes subiu ao palco para recitar os 10 segundos da obra que dialoga diretamente com Amor I love you. E é a partir daqui que este post começa de verdade.
Amor I love youfaz parte do álbum Memórias, Crônicas e Declarações de amor, gravado em 2000. A letra foi composta por Carlinhos Brown e Marisa Monte e, como mencionado, conta com uma participação especial do Arnaldo Antunes.
Num primeiro momento, pelo título e pela letra, parece apenas mais uma música romântica, uma declaração de amor. Mas, basta um olhar mais atento e percebemos que esse é… um amor que não pode ser declarado e vivido como se espera?
É, é só assistir o clipe oficial (que colocarei ao final deste post) e essa suspeita acaba se confirmando: um casal idoso, apaixonado, mas cuja mulher esconde um grande segredo. Seu verdadeiro amor não é o seu marido.
Quando chegamos na metade da música, tudo se confirma: Arnaldo Antunes entra recitando Primo Basílio do Eça de Queirós, uma obra literária com a seguinte sinopse:
“Durante uma viagem prolongada de seu marido, Luísa se deixa seduzir por Basílio, um primo seu que voltava a Portugal depois de uma temporada no Brasil. Imprudentes e indiscretos, os amantes acabam flagrados por Juliana, a empregada da casa, que passa a chantagear a patroa. Com o anúncio da iminente volta do marido, está armado o cenário para um caso exemplar de decadência do estilo de vida pequeno-burguês, com seus preconceitos e moralismos, seus tipos parasitários, suas relações amesquinhadas e seu frágil equilíbrio”
Uma história em que a protagonista busca amor e romantismo (como a música parece carregar quase em excesso) e acaba por encontrá-los não em seu “verdadeiro” relacionamento, mas no amor e na atenção que lhe são entregues fora do casamento.
E por que a música, sendo inspirada em uma obra literária portuguesa, carrega em seu título e refrão a expressão do amor em inglês?
Aqui são muitas as explicações possíveis. A começar pelo fato de que, inserindo I love you, o amor expresso na música torna-se quase “universal”.
Mas há também a época em que a música foi gravada. Se hoje ainda somos muito “submissos” à cultura norte-americana, antes talvez fôssemos ainda mais.
E ao cantar esse amor verdadeiro, mas não “tradicional”, com um romantismo exagerado, Marisa Monte (e Carlinhos Brown) também ironizam um pouco daquilo que se via como o melhor que se produzia em termos de cultura (músicas melosas e com backing vocals igualmente melosos).
Lendo agora o texto (e a citação) de Amor I love you o que você acha disso tudo? Eu só acho tudo ainda mais genial agora que parei para refletir sobre o assunto.
Deixa eu dizer que te amo Deixa eu pensar em você Isso me acalma, me acolhe a alma Isso me ajuda a viver
Hoje contei pras paredes Coisas do meu coração Passeei no tempo, caminhei nas horas Mais do que passo a paixão É o espelho sem razão Quer amor, fique aqui
Meu peito agora dispara Vivo em constante alegria É o amor que está aqui
Amor, I love you Amor, I love you Amor, I love you Amor, I love you
Tinha suspirado Tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam Aquelas sentimentalidades
E o seu orgulho dilatava-se Ao calor amoroso que saía delas Como um corpo ressequido Que se estira num banho tépido
Sentia um acréscimo de estima por si mesma E parecia-lhe que entrava Enfim, numa existência Superiormente interessante
Onde cada hora tinha o seu encanto diferente Cada passo conduzia a um êxtase E a alma se cobria De um luxo radioso de sensações!
Amor, I love you Amor, I love you Amor, I love you Amor, I love you
Título: Tash e Tolstói Original: Tash hearts Tolstoy Autora: Kathryn Ormsbee Editora: Seguinte Páginas: 375 Ano: 2017 Tradução: Lígia Azevedo
Sinopse
Natasha Zelenka é apaixonada por filmes antigos, livros clássicos e pelo escritor russo Liev Tolstói. Tanto que Famílias Infelizes, a websérie que a garota produz no YouTube com Jack, sua melhor amiga, é uma adaptação moderna de Anna Kariênina. Quando o canal viraliza da noite para o dia, a súbita fama rende milhares de seguidores ― e, para surpresa de todos, uma indicação à Tuba Dourada, o Oscar das webséries. Esse evento é a grande chance de Tash conhecer pessoalmente Thom, um youtuber de quem sempre foi a fim. Agora, só falta criar coragem para contar a ele que é uma assexual romântica ― ou seja, ela se interessa romanticamente por garotos, mas não sente atração sexual por eles. O que Tash mais gostaria de saber é: o que Tolstói faria?
Resenha
Eu poderia ter quebrado a cara com esse livro, porque a expectativa estava lá em cima. Mas a verdade é que na primeira página eu já não queria mais largar a história.
“Não importa o que aconteça no futuro, temos isto: contamos uma história que não poderíamos ter contado sem a ajuda um do outro”
Há anos sendo um item da minha wishlist literária, o que sempre me chamou a atenção neste livro foi o fato dele ter uma protagonista assexual romântica. E, por conta disso, sempre ignorei que o Tolstói do título fosse… Tolstói!
“Nos abraçamos todas essas vezes e este abraço é exatamente igual aos outros e totalmente diferente deles”
Tash ainda está indo para o último ano do colégio, mas já tem uma vida e tanto: com sua melhor amiga, ela escreve e dirige uma websérie — Famílias Infelizes — que é, nada mais nada menos, que uma adaptação de Anna Kariênina — livro que, aliás, agora preciso muito ler (aceito opiniões nos comentários).
“Solto um suspiro, tentando manter a calma. Às vezes dirigir é como cuidar de uma criança pequena: requer muita paciência, pulmões fortes e a habilidade de convencer criaturas egoístas a fazer o que você quer”
Como se isso já não fosse enredo suficiente para um livro, a websérie acaba viralizando da noite para o dia, então Tash, Jack e todo o elenco têm de lidar com a fama repentina (e com tudo o que ela traz, inclusive o hate), bem como a realização de alguns sonhos e o surgimento de muitas dúvidas.
“Algumas pessoas são um livro aberto — dá para saber o que sentem sem muita dificuldade”
Só que Tash e Tolstói ainda tem muito mais. O livro trabalha temas como amizade e relações familiares, bem como pontos onde esses dois assuntos se misturam e se confundem.
“Não tenho certeza de que estou totalmente bem com isso, mas vou estar. Em algum momento”
E, claro, tem a questão da (as)sexualidade da Tash, que poucas vezes vi tão bem trabalhada quanto vi neste livro.
“Não é engraçado como algo pode ser sério por tanto tempo até que de repente não seja mais? Um dia, vira uma piada”
Talvez o mais fascinante desse livro — que eu fiz questão de devorar, ao mesmo tempo que não queria que acabasse nunca — seja o fato de que nada fica forçado na narrativa. Temas sérios são abordados com leveza e com personagens que possuem suas personalidades tão únicas.
“Quando é um momento oportuno para más notícias?”
E mesmo sendo narrado em primeira pessoa — pela Tash — a narrativa nos permite conhecer em boa medida a Jack, a Klaudie (irmã da Tash, responsável por boa parte — mas não toda — das questões familiares desta história), o Paul (irmão da Jack e melhor amigo da Tash, com um papel importante em suas descobertas) e todo o elenco de Famílias Infelizes.
Por se passar nos Estados Unidos, a história também nos lembra de questões relativas ao ensino superior por lá: nem todo mundo tem a oportunidade de realmente fazer o que quiser (ok, não só por lá, mas lendo o livro dá para entender o que é diferente daqui do Brasil).
“Às vezes você tem que seguir as regras injustas da vida”
A história se passa em alguns poucos meses, mas temos flashes de anos anteriores, necessários para a construção da narrativa. E esses poucos meses do presente também valem por muitos. Quanta coisa pode acontecer em dois ou três meses?
“Não é engraçado como algo pode ser uma piada por muito tempo e de repente não ser mais?”
Acho que isso é o que posso falar desse livro sem dar muitos spoilers. E sim, em alguns momentos você vai sentir raiva de certos personagens. Inclusive da Tash. Mas nas páginas finais você vai querer muito saber como essa história pode terminar. E eu gostei da forma que a autora uniu o início ao fim da narrativa.
Se quiser saber mais, clica aí embaixo!
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