Ler é bom, por que nós não gostamos? [tradução 18]

Dia desses vi alguém comentando que hoje, mais do que nunca, ler é importante. Difícil discordar, né? Quer dizer, acho que ler sempre foi importante, mas às vezes a gente perde a dimensão do quanto um livro pode nos abrir muitas portas. Por outro lado, sabemos como existem muitos não leitores por aí, mesmo com tantos estudos e publicações que demonstram os benefícios que esse hábito nos traz.

E foi pensando nessas questões que me deparei com um texto (quase uma entrevista de uma pergunta só) que achei muito interessante e que acrescentou alguns pontos à minha reflexão, principalmente por mencionar o papel das escolas (e, em menor grau, dos pais) nisso tudo. O texto em questão foi publicado com o título “Leggere è bello, perché non ci piace?”, no Popolis, em 25 de julho de 2002 e, abaixo, você poderá ler a tradução que fiz dele.

Antes, porém, gostaria de ressaltar que talvez a opinião do autor possa gerar uma pequena polêmica, ainda mais se pensarmos no contexto brasileiro, que carece de tantas coisas: investimento material e intelectual, incentivos, formação adequada… Ainda assim, acredito que podemos retirar dessas palavras uma reflexão válida e que pode nos ajudar a encontrar um norte interessante e, quem sabe, até mais eficiente para o incentivo à leitura.


Prezado Mario Lodi, somos estudantes da IV de Bùssero, na província de Milão. Sabemos que ler é bom, mas nem todos nós lemos sempre de boa vontade e espontaneamente, mesmo sabendo que isso é importante para aprender a nos expressar de maneira correta, para experimentar novas emoções, enriquecer a nossa fantasia, sonhar e estimular nosso pensamento e criatividade. Por quê?

Responde Mario Lodi

Caros amigos, vivemos em um tempo em que se lê cada vez menos, sejamos adultos ou crianças. O fenômeno do abandono da leitura por parte dos jovens americanos havia se tornando quase generalizado e a opinião pública pensava que fosse por causa da televisão.

O psicólogo Bruno Bettelheim, com um grupo de outros cientistas, estudou o problema e publicou os resultados da pesquisa em um livro, traduzido também na Itália, com o título “Imparare a leggere” [aprender a ler] (Editora Feltrinelli). Eles descobriram que a culpa do abandono da leitura não era da televisão, mas da escola, ou melhor, do primeiro livro que a primeira professora oferece à criança na primeira aula, no momento “mágico” no qual ensina a usar os sinais alfabéticos para ler e escrever. Naquele momento, diz Bettelheim, as crianças estão prontas para entrar, através da leitura, nos jardins da cultura, com os livros mais lindos que existem.

As escolas, porém, oferecem às crianças de quase todo o mundo os livros mais chatos que existem, aqueles escolares, iguais para todos. Então as crianças, que são curiosas de tudo, recorrem à televisão. Mas se elas tivessem descoberto de início os bons livros, a leitura se tornaria a mais bela aventura criativa, e uma necessidade. Os pais e os professores, portanto, deveriam substituir os textos escolares e chatos, pelos livros mais lindos e adaptados às crianças de todas as idades.

E quando encontram um, deveriam ler junto, sem fazer exercícios de gramática, e depois procurar outro, e depois outro… Assim nascerá a vontade dos livros como descoberta do mundo real e fantástico. Quem não teve a sorte de, imediatamente, ler bons livros, prefere a TV, mais cômoda, e torna-se preguiçoso diante do monitor. A sua fantasia adormece, o seu pensamento para. E quando o pensamento para é quase impossível colocá-lo em movimento novamente. Boas leituras, caros amigos.


E aí, qual é a sua opinião sobre isso? Não deixe de me contar nos comentários!

“Musica leggerissima” o significado da música de Colapesce e Di Martino [tradução 17]

Se tem uma coisa que eu adoro é poder usar música nas minhas aulas. E faço isso não apenas pelo fato de que eu sempre gostei de música, mas também porque é bem comum os próprios alunos pedirem indicações. Então, ao invés de simplesmente jogar um monte de informação de uma vez, vou compartilhando as poucos as músicas que conheço ou vou conhecendo.

Tento sempre buscar músicas que tenham a ver com o assunto da aula em questão ou então que usem muito alguma construção que será trabalhada, o que pode ajudá-los a entender e praticar tal construção. Mas, para não correr o risco de transformar as músicas em um mero instrumento gramatical, também gosto de entender o texto de cada uma, pesquisando seus possíveis significados. É impressionante o quanto já me surpreendi com músicas que diziam muito mais do que parecia em um primeiro momento.

Foi em meio a essas pesquisas que encontrei o texto que traduzirei aqui. Estava procurando sobre Musica leggerissima, uma das participantes do Festival de Sanremo de 2021. Esse é o mais importante festival de música italiana e esta é uma daquelas canções que ficam na nossa cabeça por alguns dias e que dá muita vontade de sair dançando, o que faz jus ao nome da canção.

Para além disso, porém, eu já adorava o fato de que é uma música sobre música e que usa termos do léxico musical — não apenas o leggerissima, que seria um tipo de música e que aqui traduzirei como música pop, mas também termos como crescendo, que pode ser encontrado em partituras, além de nomes de instrumentos musicais e situações nas quais costumamos ouvir música.

Foi só pesquisando um pouco, porém, que percebi que havia muito mais naquelas palavras. E acho que o artigo que traduzirei abaixo, escrito por Eleonora Damiani e publicado em 15 de março de 2021, neste site, já nos dá uma dimensão de como há profundidade em Musica leggerissima.


Italo Calvino dizia que “leveza não é superficialidade, mas planar acima das coisas, não ter pedras no coração”. Encontramos esse mesmo sentido de leveza no texto de Sanremo 2021 de Lorenzo Urcillo, conhecido como Colapesce, e de Antonio Di Martino.

É muito fácil cair na armadilha de etiquetar alguém como “superficial”, não vendo o quanto a pessoa que temos diante de nós está cheia de precisar permanecer na superfície das coisas para sobreviver. De fato, nem todos nós somo dotados de uma máscara e um cilindro de oxigênio que nos permitem descer às profundezas e quando o mar interior se mostra escuro, agitado e cheio de elementos que parecem assustadores, podemos apenas sentir a necessidade de permanecer na superfície. O mesmo vale para quando começa a acabar o fornecimento do cilindro e a pessoa sente a necessidade de subir novamente.

“Cantam-na os soldados, os filhos alcoolizados, os padres progressistas”

Seja o soldado em meio à guerra, seja o filho que depende do álcool, seja o padre que precisa combater pelos direitos humanos em uma Igreja ancorada no julgamento, têm-se em comum um elemento: todos se encontram lutando, seja em casa, seja no trabalho ou no fronte, pelos direitos humanos próprios e dos outros e justamente as lutas mais difíceis são cheias de sangue e lama.

TODOS NÓS TEMOS A NECESSIDADE DE VOLTAR PARA A SUPERFÍCIE

O ser humano não é feito para ficar muito tempo submerso na dor profunda. A mente precisa, de vez em quando, voltar à superfície, tomar um ar e isolar-se em suas zonas confortáveis. O termo “autista”, nos dias de hoje, nos faz imediatamente pensar no Distúrbio do Espectro Autista, mas cada um de nós tem uma zona de conforto, uma pequena zona autista salvadora, na qual podemos encontrar um pouco de espaço para fugir da dor quando ela se torna sufocante. Essa é a mensagem que parece nos transmitir Musica leggerissima: o ser humano precisa flutuar ou surfar sobre uma vivência interna emotiva que poderia nos levar para baixo como os pesos nas laterais de um mergulhador.

O buraco negro é algo que absorve, um lugar indefinido onde podemos nos perder para sempre, mas somente se o vemos assim. Na verdade, por mais que nos assustemos, os nossos lados mais profundos não são buracos negros, mas podem ser percebidos assim porque são intocáveis. As nossas partes escondidas, que fazem parte de nós, são mais parecidas a um abismo e do abismo pode-se voltar, munindo-se das ferramentas necessárias.

COLOQUE UM POUCO DE MÚSICA POP…

Coloque um pouco de música pop porque não estou com vontade de nada, ou melhor, muito pop, palavras sem mistério, alegre mas não muito é o pedido de que está sobrecarregado de vivências interiores pesadas e precisa enlevezar-se, não conseguindo entrar ou permanecer na profundidade.

Nós escavamos o buraco negro quando permitimos que pensamentos depreciativos tomem conta de nós, como repense sua vida, as coisas que você deixou cair no espaço da sua indiferença selvagem. Conseguimos transformar dentro de nós os irreparáveis buracos negros em abismos exploráveis a ponto de poder escutar e aceitar aquela nossa parte que, de tempos em tempos, precisa de música pop?

Os italianos falam com as mãos [tradução 16]

Se tem uma aula que eu adoro preparar e dar é a aula sobre gestos italianos. Porque por mais que isso pareça apenas um estereótipo, existem verdadeiramente muitos gestos usados na comunicação italiana (e não só, pense bem), tornando tudo mais expressivo e expansivo.

Uma vez, lendo sobre o assunto, deparei-me com o artigo que resolvi traduzir aqui hoje. Ele foi escrito por Elisa Torretta e publicado em março de 2010, aqui neste site (sim, é blog sobre italianos em Paris. Como cheguei até ele? Não faço nem ideia). Vejamos o que ela tem a dizer sobre o assunto.


Existem muitos hábitos italianos, para nós absolutamente normais, que os estrangeiros acham surpreendentes ou inexplicáveis. Por exemplo: usar quase sempre óculos de sol ou falar alto. Entre os hábitos que suscitam mais curiosidade, talvez, está aquele de gesticular enquanto falamos.

De fato, muitos estrangeiros não entendem a necessidade de mover as mãos para comunicar e, em geral, chegam a uma simples conclusão: “os italianos falam com as mãos”. Em primeiro lugar, gostaria de precisar que nós, italianos, falamos com palavras, de acordo com uma sintaxe e uma gramática precisas. A prova disso é que é possível falar italiano inclusive ao telefone (coisa que conseguimos fazer muito bem, mesmo que continuemos a gesticular com o aparelho em mãos…), e que é possível também escrever e ler em língua italiana, sem imagens explicativas.

Então para que serve agitar-se tanto enquanto se fala? As palavras não são suficientes?

Naturalmente, as palavras são suficientes, mas por que limitar-se às palavras quando podemos usar todo o corpo? O gesto não substitui a palavra, mas a enriquece. É uma linguagem paralela, que adiciona nuances o muda o significado do nosso discurso. Experimente falar sem mover um músculo: a sua voz será monótona e insignificante.

Talvez, para quem olhe de fora, os gestos sejam apenas uma dança incompreensível, uma série de movimentos sem sentido. Mas, na Itália, o gestual é um elemento cultural muito importante e não um simples folclore. Os gestos são uma linguagem decodificada e precisa e têm um significado claro para quem sabe interpretá-los.

Não quero oferecer uma explicação dos numerosos gestos existentes, mas apenas lembrar a importância deles para nós, na comunicação. Com o gesto podemos exprimir uma emoção melhor que com muitas palavras, porque o movimento é mais espontâneo e sincero que a palavra. Podemos demonstrar raiva ou alegria, indiferença ou surpresa, e mudar a amplitude e a intensidade de acordo com o estado de ânimo e a situação.

Como todas as línguas, o gestual se aprende somente depois de anos de exercício e observação. Portanto, aconselho os estrangeiros a não tentar usar os gestos “à italiana” quando falam a nossa língua, porque poderiam não ser entendidos ou ser mal interpretados.

Por exemplo, o gesto mais célebre é a mão “em pinha”: as pontas dos dedos unidos em direção ao alto e a mão que se move para cima e para baixo. É um gesto que, em geral, acompanha uma pergunta ou uma dúvida. Portanto, é muito estranho agitar as mãos dessa forma e, ao mesmo tempo, dizer bom dia, como, por vezes, fazem os estrangeiros que imitam os italianos. Parece muito um falso pizzaiolo em um filme americano.

Influenciados pelas boas maneiras anglo-saxãs, hoje, usar muito as mãos quando falamos é considerado vulgar e simplório. Mas é amplamente tolerado, quase obrigatório, em casos de particular excitação, como uma briga ou uma partida de futebol.

De qualquer forma, gesticular continua sendo sempre um costume enraizado na nossa cultura. Faz parte da nossa identidade: através dos nossos gestos, podemos nos reconhecer imediatamente, mesmo no exterior, e podemos nos entender melhor entre nós, mesmo na Itália, para além dos dialetos e das barreiras sociais.

Diz-se, de fato, que desenvolvemos os gesto para poder nos entender entre nós, porque no passado, as pessoas falavam principalmente os dialetos e não o italiano.

Para mim, é também um sintoma do nosso constante desejo de comunicar ou, simplesmente, da nossa exuberância. Para nós, com efeito, é normal dividir com os outros os nossos sentimentos. Com o gesto, mesmo quem não pode nos ouvir, entende do que estamos falando.

Não, a discrição não faz parte da nossa bagagem cultural… Mas isso é realmente um defeito tão intolerável?


Depois desse texto, sempre sinto a necessidade de lembrar uma coisa: os gestos italianos são uma coisa totalmente diferente dos sinais das línguas de sinais. Mesmo da língua de sinais italiana, que foi reconhecida neste ano como língua oficial. E, mais que isso, cada país tem a sua língua de sinais, que assim como qualquer língua oral, é muito rica e singular. E é, como estou chamando aqui, uma língua, não uma linguagem! Os gestos italianos — que enriquecem a língua falada—, como você pode ter notado ao longo da leitura, são chamados apenas de linguagem, não de língua. Uma diferença que pode parecer sutil, mas que, no fundo, não é.

Agora me conta aqui: que gestos italianos você conhece? E o que achou deste artigo?

O que os italianos leem? [tradução 15]

“O que os italianos leem” é uma pergunta que vira e mexe salta em minha cabeça — tanto é que fui conferir se eu realmente nunca havia traduzido um artigo do tipo —, principalmente quando ouço as pessoas dizendo que brasileiro não lê, que nós não valorizamos a nossa literatura. Pergunto-me se é assim apenas aqui ou em todo o mundo (ou ao menos em outros lugares do mundo).

Nas minhas buscas por artigos para traduzir para este espaço do blog, já me deparei mais de uma vez com afirmações de que os italianos leem pouco. Sim, a mesma afirmação que fazemos sobre nós mesmos. Faltava responder apenas o que, afinal, leem os italianos.

Por isso, no post de hoje, trago a tradução deste artigo, escrito por Enzo Scudieri e postado em 21 de novembro de 2020 no site habitante.it. Para ler o original, basta clicar aí em cima, no “deste artigo” que você chegará ao post em italiano. E vamos à tradução?


Ler livros é uma forma de viajar para milhares de mundos diversos, conhecer pessoas e apaixonar-se por histórias. Mas qual é a relação dos italianos com a leitura, o que e quanto leem?

Os italianos amam ler?

A paixão pela leitura te impede de dormir à noite, porque você está tão arrebatado por aquilo que está lendo que não quer parar; amar os livros significa comprar novos exemplares, mesmo já tendo a casa invadida por livros que você ainda precisa ler. Ler ajuda a abrir a mente e desenvolver ideias; a cultura da leitura gera progresso social, econômico e, obviamente, cultural.

Através das últimas estatísticas sobre o que os italianos leem, descobrimos que lê-se mais no norte, entre as mulheres e entre pessoas com mais títulos acadêmicos. As compras de livros são direcionadas prevalentemente aos romances e contos, de faixa econômica médio-baixa.

O relatório publicado pelo Istat* em 2019 sobre Produção e leitura de livros na Itália revela que 40,6% da população lê ao menos um livro por ano, dado estável no último triênio. 78,4% dos leitores leem só livros físicos, 7,9% somente ebook ou livros on line.

Diferentemente daquilo que se pode imaginar, a quantidade mais alta de leitores continua a ser aquela dos jovens: em 2018, os leitores entre 15 e 17 anos eram em 54,5%, quantidade em crescimento em relação aos 47,1% de 2016. Entre homens e mulheres existe uma lacuna relevante: o percentual de leitoras é de 46,2% contra 34,7% de leitores. Em absoluto, porém, o público mais afeiçoado à leitura é representado por garotas entre 11 e 19 anos (mais de 60% leu pelo menos um livro no ano).

O que os italianos leem?

Os rankings falam claramente e, deixem-me dizer, são sempre muito iguais ano a ano. Existem autores que estão sempre no “top ten”: Smith, Camilleri, Tamaro, Grishmam. Depois estão os personagens do momento, aqueles que escrevem livros para desfrutar de uma notoriedade sazonal, autores no estilo Fabio Volo, por exemplo.

Nunca faltam nos rankings, também, escritores como Stefano Benni e Beppe Servagnini. E não nos esqueçamos, depois, de toda a vertente bibliográfica de personagens famosos, muitas vezes ainda vivos, que decidem, justamente, escrever um livro para contar a sua história.

Fecharei esta lista com os agora indispensáveis livros de cozinha: encontramos um pouco de tudo, dos chef famosos para o grande público, graças às participações em reality shows, à vizinha de casa, que conta no seu blog as receitas da avó. E o sucesso do blog é, então, traduzido em livro.

As grandes livrarias

As livrarias de grandes redes geralmente estão cheias de pessoas entre as prateleiras, curiosas ou ocupadas, folheando um livro ou bebendo um café na cafeteria da própria livraria. Nos últimos anos, de fato, assistimos a uma transformação das livrarias em verdadeiros “centros comerciais”.

Feltrinelli, Mondadori, Mel Bookstore, Giunti al punto, apenas para citar algumas, abandonaram as aparências de simples livrarias. Tudo é dividido, separado e exposto em setores específicos, identificados por placas realmente muito similares àquelas das seções dos supermercados: em evidência é possível encontrar imediatamente os livros do ranking nacional e também os inesquecíveis “conselhos” de compras.

E, caminhando pelas seções, pode-se encontrar também toda uma oferta de multimídias como dvd, cd e videogame. A seção de papelaria também tem uma oferta muito rica de canetas, agendas, cadernos e papéis de vários tipos e cores. Essas redes, se por um lado multiplicam a oferta e a enriquecem com outras comodidades, por outro correm o risco de perder sua vocação original e a relação de confiança livreiro-leitor.

As livrarias independentes e lojas online

Do relatório ISTAT surge, porém, um dado contraditório. As modalidades de distribuição consideradas mais estratégicas pelos editores são as livrarias independentes, os canais de distribuição online e os eventos como feiras, festivais e salões de leitura.

As grandes distribuições organizadas (supermercados, grandes lojas) e os pontos de vendas genéricos (bancas, papelarias, autogrill, correios) são considerados canais de distribuição relativamente menos eficazes para aumentar a demanda e ampliar o mercado editorial.

Os editores, além disso, estão investindo sempre mais, também, na oferta de títulos em formato e-book: o percentual de obras publicadas em formato físico, disponíveis também em versão digital, em apenas dois anos, passou de 35,8% a quase 40%. A versão digital é mais comum para:

  • aventura e suspense (82,1%)
  • informática (62,9%) e matemática (61,4%)
  • atualidade político-social e econômica (56,1%)

Os grandes editores publicam mais de 90% dos livros em formato e-book, com uma cobertura de obras publicadas fisicamente de 45,8%.

Lê-se mais no Norte e nas grandes cidades

No Norte, uma pessoa a cada duas, na Sicília, só uma a cada quatro. A leitura está muito mais difundida nas regiões do Norte: 49,9% das pessoas que moram no Noroeste leu pelo menos um livro e 48,4% no Nordeste. No Sul, a cota de leitores cai para 26,7% enquanto nas ilhas observa-se uma realidade muito diferente entre a Sicília (24,9%) e a Sardenha (44,7%).

O hábito da leitura, além disso, é muito difundido nas cidades centrais de áreas metropolitanas, onde declaram-se leitores pouco menos da metade dos habitantes (49,2%) enquanto a cota cai para 36,1% nas cidades de menos de 2 mil habitantes.

O nível de instrução também se confirma como um elemento determinante: leem livros 73,6% dos graduados, 46,7% dos diplomados e só 26,5% dos que possuem acima do nível elementar.

A leitura é mais fortemente influenciada pelo ambiente familiar: as crianças e adolescentes são certamente favorecidos se os pais têm esse hábito. Por exemplo, entre os jovens abaixo de 18 anos, 74,9% entre quem tem mães e pais leitores e só 36,2% entre aqueles que têm ambos os pais não leitores.

Pílulas de curiosidade. Eu não sabia e você?

  • As bibliotecas mais frequentadas da Itália são aquelas do Trentino Alto-Adige e do Valle d’Aosta.
  • As motivações que encorajam as pessoas a irem a uma biblioteca são “pegar um livro emprestado” (57,1%) e “ler e estudar” (40,1%).
  • Na Itália são cerca de 8 milhões e 960 mil pessoas que foram a uma biblioteca pelo menos uma vez por ano.

* O ISTAT é o Instituto Nacional de Pesquisa italiano (o correspondente ao nosso IBGE) e eles sempre têm dados sobre os mais diversos assuntos.


E aí, o que achou deste artigo e dos dados que ele traz? Você imaginava algo assim?

Livros em suspenso e mensagens secretas [tradução 14]

Tempos atrás, também através da tradução de um artigo, falei sobre os “livros no escuro“, ou seja, o ato de comprar um livro que você não sabe qual é, nem mesmo quem é o autor. No post mencionado eu explico isso um pouco melhor.

Hoje, porém, quero falar sobre outra iniciativa bem interessante (e antiga) relacionada a esse universo: os livros “em suspenso” e as mensagens “secretas”. Do que será que eu estou falando?

Para isso, escolhi este artigo, escrito por Beatrice, há sete anos (portanto, em 2014, mas acredito que ainda existam iniciativas do tipo), no Blog L’angolo dei libri, que, de maneira relativamente esporádica, ainda publica novos conteúdos.

Vamos ao que interessa? A tradução do título do artigo original é o que dá nome ao meu post e aqui embaixo você encontra a tradução do conteúdo.


A Itália, por antonomásia o país dos não leitores (de acordo com as estatísticas), continua produzindo iniciativas para promover a leitura: do #livroemsuspenso às citações escondidas entre as páginas de “quem deixa um bilhete, deixa um tesouro“. Não dê ouvidos aos dados: o marketing literário se faz no boca a boca

Se alguma vez você já foi a Napoli ou tem amigos napolitanos, talvez conheça a tradição do café em suspenso. Vai-se à lanchonete e pagam-se dois cafés: um você toma e o outro fica pago para quem vier depois, seja lá quem for. Uma bela ideia, não? Imagine que agora é possível fazer isso com os livros também. De fato, começou, algumas semanas atrás, a iniciativa #livroemsuspenso: passa-se na livraria e compra-se um volume, deixando-o à disposição de quem passará depois.

Na verdade, tudo começou em 2011, na livraria Modus Vivendi, em Palermo e, de vez em quando, outra pequena realidade independente se inspira nisto, como aconteceu nos últimos meses com a Ex Libris, em Salerno, e em Milão, com a livraria Il mio libro.

Levando em conta a generosidade da iniciativa (e talvez esperando por um pouco de marketing), até as livrarias Feltrinelli entraram nessa: entre os dias 23 de abril a 5 de maio, foi promovida a ideia de deixar um livro em suspenso para um outro leitor apaixonado. Porque a ideia é justamente essa: difundir a leitura e deixar as suas marcas. É mais ou menos como se eu te sugerisse um dos meus livros preferidos, mas ao invés de só te passar o título e o autor, te desse logo um exemplar.

Ainda melhor, porém é deixar uma mensagem entre as páginas, uma citação ou um conselho adicional para quem pegar aquele livro, como acontece com a iniciativa “quem deixa um bilhete, deixa um tesouro”, de Laura Cau. A jovem estudante de Cagliari lançou essa ideia entre os seus seguidores no Facebook e parece que está tendo um ótimo sucesso.

As regras para participar do jogo são muito simples: basta escrever em um pedaço qualquer de papel uma frase ou um pensamento e inserir o bilhete entre as páginas de um livro, em uma livraria ou biblioteca. Mas sem, no entanto, comprá-lo. É fundamental deixar o livro onde está, para fazê-lo ser encontrado por outro leitor. No bilhete também vai o escrito “siga-nos no Facebook, na página Um bom livro um ótimo amigo: aqui você poderá encontrar foto de todos os “papeizinhos” encontrados pelos amantes dos livros.


Sei que no Brasil livros físicos costumam ser caros, mas você teria coragem de comprar um a mais e deixar para outra pessoa que você sequer sabe quem é? E um bilhetinho, você deixaria?

Quando eu envio um livro em trocas no Skoob, costumo sempre enviar um bilhetinho junto, mas é coisa simples, apenas desejando uma boa leitura. Mas também já realizei a leitura de alguns livros pensando numa pessoa específica e grifando alguns trechos ou mesmo deixando recados.

Se conhecer outras iniciativas como essa, me conte nos comentários!

Ressaca literária: o que estou fazendo para superá-la [tradução 13]

Para a tradução deste mês, resolvi falar sobre um assunto que todo leitor, em algum momento, fala: a famosa ressaca literária.

E escolhi esse tema porque tenho visto muitas pessoas com dificuldade para ler nesses últimos tempos. É a soma de notícias ruins, mais de um ano vivendo uma grande incógnita e, em alguns casos (e me encaixo nessa) uma correria danada, apesar de tudo.

O artigo original, porém, foi escrito em janeiro de 2018 (ou seja, um contexto bem diferente do nosso, né?), por Chiara Nicolazzo, e pode ser lido aqui. Espero que alguma dessas dicas possa ser útil!

Também gostaria de ressaltar que uma tradução mais literal do título seria algo como “o bloqueio do leitor”, mas adoro esse termo “ressaca” que adotamos por aqui. Então vamos ao que interessa?


Começo a escrever este post sem muita enrolação, mas partindo de uma confissão. Estou de ressaca literária. Uma ótima situação para alguém que administra um blog no qual se fala principalmente de livros, né?

Devo dizer que nunca fui uma daquelas leitoras que se importa com o número de livros lidos, mas é um fato: se vocês acompanham a minha coluna os livros do mês, vocês provavelmente perceberam que ultimamente tenho lido pouco. O que está acontecendo?, perguntei-me. A única resposta que consegui me dar foi que nos últimos meses tenho acumulado muito stress. A experiência de comprar e reestruturar uma casa com certeza foi emocionante, mas também foi um projeto que me sugou tudo. Paciência, tempo, energia mental. Desde setembro comecei a enfrentar situações antipáticas para alguém que se define como uma leitora compulsiva. Leio e percebo que não estou atenta, porque a minha mente vaga para outros cantos. Olho os livros à espera de serem lidos e não tenho vontade nem mesmo de pegá-los. Digo a mim mesma que estou lendo muito pouco e percebo que não me importo com isso.

Inicialmente, pensei que uma vez que passasse o caos de trabalhadores dentro de casa e os problemas mais urgentes, a situação melhoraria. No entanto, continuo me sentindo presa a uma situação que não me pertence. Mais ligada às tarefas cotidianas que às aventuras fantásticas que vivem nos livros.

Pensei, portanto, que poderia ser útil falar com vocês. O que estou fazendo para mudar essa situação? Digamos que não existem regras mágicas, busco apenas escutar o meu instinto e devo dizer que, devagar, as coisas estão melhorando. Então resolvi contar a vocês a minha experiência através das 5 coisas que estou fazendo para superar a ressaca literária.

1) Não me forçar

Percebi que é inútil me forçar. Se eu leio quando não tenho vontade e estou pensando em outras coisas, ler torna-se simplesmente algo automático. E não é bom, porque não aproveito o momento e não gravo nada. Consequentemente, me irrito. Ler apenas por dever, apenas para não perder o hábito, torna-se mais uma daquelas ações que cotidianamente “tenho que fazer”, não uma daquelas que “quero fazer”.

2) Não experimentar

Nesses meses, tentei por diversas vezes ler algum dos livros que estavam pegando poeira na minha cabeceira, à espera de serem lidos. Em sua maioria, são livros que comprei ao acaso, apenas porque custavam pouco, ou que recebi de brinde de alguma editora. Em ambos os casos, são livros que acabaram nas minhas mãos quase por acaso, não porque eu os desejasse ler há muito tempo. Percebi, portanto, que é inútil experimentar novas leituras neste período, porque esta se revelou uma atividade improdutiva.

3) Estabelecer quantas páginas ler por dia

Ter ressaca literária significa que existem dias que encontro mil desculpas e mil tarefas para fazer só para não abrir um livro. Nos últimos tempos, por exemplo, estou acompanhando várias séries televisivas e voltei a fazer crochê com o objetivo de fazer um suéter (mas isso é uma outra história). Entendi, portanto, que é eficaz sim, dizer a mim mesma “Chiara, você tem que ler pelo menos vinte páginas e depois pode fazer o que bem entender“. Comigo funciona. Isso de estabelecer um total de páginas para ler por dia me permite reestabelecer uma conexão entre eu e o livro que, sem isso, não seria possível.

4) Reler o meu livro/autor preferido

Um sintoma dessa situação é o de ter perdido o entusiasmo de me perder em uma história. Percebi, porém, que isso não acontece quando releio um livro que amo muito ou aproximando-me de escritores que eu curto. Por isso que ultimamente reli diversos livros que sempre têm o poder de me levar de volta para casa. Entre os livros que tirei das caixas estão, por exemplo, L’ora di tutti de Maria Corti e Se non ti vedo non esisti de Levante e, depois, também foi fundamental, como sempre, a minha escritora preferida Isabel Allende, de quem reli alguns trechos dos meus romances preferidos, o seu último trabalho, Além do inverno, e agora estou relendo inteiramente Il quaderno di Maya. Além disso, justamente ontem fiz uma compra online contendo dois títulos que gostaria de ler há muito tempo e que, por diversos motivos, nunca comprei. Acredito que esse seja o caminho.

5) Me dar um tempo

É inútil me desesperar por uma situação que, eu sei, não mudará da noite para o dia, mas que se desenrolará naturalmente e com alguma prudência da minha parte. Não posso me culpar por todo o stress que interiorizei nos últimos tempos e que saiu de mim desta forma. Tudo o que eu posso fazer é me dar um tempo para reencontrar o entusiasmo pela leitura nos autores e nas palavras que amo dia após dia.

Preciso dizer que resolvi dividir com vocês a minha situação porque acho que confrontar essa situação pode ser uma arma a meu favor e talvez também a favor de alguém mais que possa estar na mesma situação. Eu gostaria, portanto, se vocês quiserem, de ouvir as histórias de vocês o seus conselhos.


E aí, o que você faz quando está de ressaca literária? Ou você é uma pessoa tão abençoada que nunca passou por essa situação?

Eu concordo com a autora do texto que é preciso ir ao poucos e não se forçar. Às vezes dá uma sensação de que não vai passar nunca, mas aí a gente reencontra a vontade sim. A única coisa que não costumo fazer, nem mesmo nesses casos, e reler alguma obra. Mas recorro ao meu gênero favorito: um bom romance clichê!

Anglicismos: por que usamos cada vez mais palavras em inglês? [tradução 12]

Acabo de perceber que dei início a este projeto de traduzir um artigo por mês há um ano! E tem sido bem gostoso fazer isso, poder conversar com vocês sobre assuntos pertinentes ao blog e, ao mesmo tempo, exercitar minha tradução do italiano para o português.

Inicialmente, pensei que o artigo de hoje faria mais sentido para os italianos que para nós, pois tenho a impressão de que eles realmente usam muito mais o inglês em expressões nas quais poderiam usar a própria língua (um exemplo bem cotidiano: eles poderiam falar fine settimana, para se referir ao final de semana, mas acabam usando weekend). Porém, foi só pensar no universo literário que logo me deparei com inúmeras palavras em inglês (não só desse universo, mas muito usadas aqui): TBR (to be read), wishlist, hype, spoiler

Então vamos ver o que PrM 1 achava sobre o assunto em 6 de maio de 2017, conforme artigo publicado aqui.


Tem que a ame e a use despropositadamente, e quem, por outro lado, a odeie e se desdobre em traduções às vezes imprecisas. As palavras estrangeiras usadas em italiano, cujo nome técnico é estrangeirismo, não são uma novidade da última década. Todas as línguas estão sujeitas a trocas e empréstimos e, assim, nós, italianos, acabamos dizendo toilette e os falantes de cerca de 37 línguas se cumprimentam com o nosso ciao. O mundo de hoje, cada vez mais globalizado e internacional, nos faz, porém, progressivamente adotar palavras estrangeiras no nosso dicionário dia após dia, a maior parte das quais são anglicismos, isto é, palavras inglesas.

Cada vez mais internacionais

Nos dias de hoje, quase todo mundo sabe ao menos duas línguas e quem não sabe tenta aprender pelo menos o inglês com a ajuda de site e aplicativos como o Duolingo, que conta com cerca de 300 milhões de usuários de todo o mundo. Mesmo sem se empenhar muito, porém, estamos em contato com palavras em inglês todos os dias, simplesmente ligando a TV ou folheando um jornal. O inglês é, de fato, a língua franca atual e todos os negócios políticos e econômicos internacionais são realizados nesta língua. Os termos técnicos, portanto, sequer são traduzidos, para facilitar a compreensão de ambas as partes. Uma características dessas palavras é, de fato, a ausência de uma real tradução para o italiano, ou, quando existe, o termo em inglês indica uma nuance específica. Assim, o selfie, hit de 2013, não é simplesmente um autorretrato.

O advento da internet e das redes sociais deu vida a um novo e riquíssimo vocabulário. Muitas destas palavras não existiam antes no dicionário e coube aos usuários escolher entre usar uma tradução ou mantê-las em inglês. O inglês, na maioria das vezes, ganhou, inclusive porque certas palavras traduzidas ao italiano soam um pouco mal. Internet se liga, também, ao conceito de globalização: graças à rede, a cada dia temos a oportunidade de ler conteúdos em outras línguas, seguir as tendências estrangeiras e nos manter em contato com nossos amigos que estão no exterior. Desta forma, entramos em contato com palavras estrangeiras que, involuntariamente, adotamos na nossa linguagem e que nos convém manter em inglês para facilitar a comunicação com todos aqueles que estão na internet e que não falam a nossa língua.

Palavras diferentes, mundos diferentes

Se os anglicismos permeiam a vida cotidiana, existem âmbitos nos quais eles são mais difundidos. Muitos desses são, claro, relacionados ao mundo da internet ou das relações internacionais, mas a ligação não é sempre óbvia assim. No mundo universitário, pelo fato de que a pesquisa e o desenvolvimento em certos campos acontecem principalmente no exterior, são adotados diversos termos estrangeiros e um diplomado fala, muitas vezes, do seu campo usando vocabulários específicos em inglês. O mundo do trabalho das empresas é cada vez mais internacional e tem adotado cada vez mais termos estrangeiros. Hoje é mais fácil ouvir no escritório palavras como brief, call, deadline ao invés de reunião, telefonema, prazo final. As nuances de significado são parecidas, mas essas palavras são usadas estritamente para o léxico relacionado a trabalho. Outros termos como freelance não são exatamente traduzíveis e um freelancer precisa entender de anglicismos para trilhar seu caminho no mundo do trabalho. Para ampliar sua rede de cliente, muitas vezes precisa contar com sites como UpWork e pode acabar trabalhando até para clientes não italianos. Outro ambiente rico em termos ingleses é o das apostas. Abrindo qualquer site de jogos é fácil perceber que atualmente os termos mais usados em um jogo e o próprio nome dele são, geralmente, em inglês. Assim, os giros geralmente são spin ou free spin e os símbolos são chamados de wild e scatter. Mesmo nesse caso, dada a origem estrangeira desses jogos, as traduções não são sempre necessárias e os termos em inglês tornam-se específicos para este campo. Desde a fundação do Facebook, em 2014, houve uma inundação de novas redes sociais e de novos termos usados para descrever as várias funções delas. Abrindo uma rede social qualquer, portanto, contaremos os nossos follower e olharemos a página de alguns influencer. Os termos das redes, porém, são aqueles mais italianizados, dando vida a nova palavras que são um misto de inglês e italiano, como taggare ou addare. Se as amamos ou odiamos, não podemos mais viver sem algumas palavras inglesas na nossa língua cotidiana, porque nos faltariam alguns instrumentos comunicativos fundamentais. Só nos resta integrar a nossa língua a esses novos termos e torná-los nossos, talvez pronunciando-os de uma maneira totalmente italiana.


E aí, qual a sua opinião sobre o assunto? Creio que podemos fazer muitas ressalvas a esse texto, ainda mais se pensarmos que o contexto brasileiro é bem diferente do italiano. Mas também há algumas reflexões bem interessantes, não?

Para concluir de verdade, só queria dizer que foi engraçado traduzir este artigo, pois realmente há mais termos que os italianos continuam a usar em inglês e que, na tradução, consegui passar para o português, como redes sociais (apesar de existir rete sociali eles acabam usando social). Por outro lado, há um momento em que usei o termo hit e, neste caso, no texto italiano, havia um termo na língua deles que, em português, não há uma tradução muito exata e que seja melhor que hit.

Agora imagine você o nó que deu aqui para traduzir tudo isso, hein!?

Livros tradicionais e audiolivros [tradução 11]

Hoje é dia de traduzir mais um artigo italiano e a escolha da vez foi Livros tradicionais e audiolivros: segundo a ciência, são (quase) iguais. O artigo original foi postado no site Focus, em 4 de setembro de 2019, por Chiara Guzzonato.

Para variar, encontrei esse artigo enquanto preparava aula, e o título chamou a minha atenção porque sou uma pessoa que não se imagina ouvindo um audiolivro. Nada contra a tecnologia em si, mas vejo como coisas diferentes. Não sou uma pessoa de ver muito filme ou vídeos, porque gosto bastante do silêncio e a leitura me permite isso. Também sinto que absorvo melhor lendo e isso é algo que varia muito de pessoa para pessoa, cada um aprende melhor de uma forma.

Vamos à tradução?


Ler e ouvir colocariam em atividade as mesmas regiões do cérebro, fazendo-as trabalhar da mesma forma. Alguns especialistas, porém, ressaltam as diferenças entre as duas modalidades.

Livros: melhor lê-los ou… escutá-los? Segundo um estudo conduzido pela Universidade da Califórnia e publicado no Jornal de Neurociência, em níveis práticos, não faz diferença. “As informações semânticas são elaboradas de maneira similar”, explica Fatma Deniz, pesquisadora em neurociência e chefe do estúdio. “Sabíamos que quando lemos ou escutamos uma palavra algumas regiões do nosso cérebro se ativam de maneira análoga, mas não esperávamos que as duas modalidades estimulassem as mesmas áreas emocionais e cognitivas”, destaca um pouco surpresa.

Mapas cerebrais (quase) idênticos

O estudo envolveu nove voluntários que primeiro escutaram uma história transmitida pela BBC e, depois, leram a transcrição.

A atividade cerebral era praticamente igual em ambos os casos: as palavras, de acordo com seu significado, ativavam diversas regiões do cérebro. “O mapa semântico que surgiu (ou seja, a representação gráfica das áreas do cérebro que se ativam quando escutamos uma palavra, ndr) nos permitiu prever com precisão quais partes do cérebro seriam estimuladas pelas várias palavras”, explica a doutora Deniz.

Culturalmente superior

Nem sempre, porém, a ciência está alinhada com as percepções que nós, meros mortais, temos. Conforme uma pesquisa de 2016, conduzida pela YouGov, de fato, só 10% dos britânicos considera que escutar um livro seja equivalente a lê-lo: a maior parte está convencida, ao contrário, que a leitura é culturalmente superior à escuta. Opiniões fundamentadas ou não? Para alguns especialistas, ainda que não se possa falar em “superioridade cultural”, igualar a leitura à escuta não é correto.

“Realmente faz rir!”. Como você leu essa exclamação? Como um sincero elogio ou uma irônica brincadeira? Se você tivesse escutado essa frase, não teria dúvida sobre o seu significado, como nos faz notar Daniel Willingham, professor de psicologia da Universidade de Virgínia e jornalista do New York Times, uma das principais diferenças entre o falado e o escrito é a prosódia. “No texto, falta o tom, o tempo, o ritmo do discurso falado”, explica Willingham em um artigo dedicado ao tema.

Problemas de compreensão

Em uma pesquisa de 2010, foi colocada à prova a capacidade de compreensão de alguns estudantes: uma parte deles escutou uma gravação de 22 minutos; a outra leu a transcrição. Ainda que os dois grupos tivessem usado o mesmo tempo para assimilar o texto nas duas modalidades, 41% dos ouvintes não passou no teste de compreensão feito dois dias depois, contra apenas 19% de “reprovados” entre os leitores.

“O grupo de ouvintes foi pior que aquele de leitores, de longe, não ligeiramente”, ressalta David Daniel, professor de psicologia na Universidade James Madison (Virginia, USA) e coautor da pesquisa. Os estudantes que ouviram a gravação sabiam que não tinham aprendido muito: “antes de começar o experimento, poucos queriam fazer parte do grupo de leitores”, afirma Daniel. “Mas depois de ouvir o podcast, antes do teste de compreensão, quase todos tinham mudado de ideia: se pudessem voltar atrás, teriam escolhido o grupo de leitura”.

Afinal, melhor ler ou ouvir? A resposta é: depende. Se você tivesse que estudar um livro (ou seja, entendê-lo e assimilar o seu conteúdo), talvez fosse melhor seguir fiel ao papel (ou ao e-reader). Se, por outro lado, é apenas lazer, sinal verde para os audiolivros: “eu escuto vários, inclusive enquanto estou no carro e dirigindo”, declara Willingham. “Mas jamais escutarei algo de importante para o meu trabalho. Quando estou concentrado, diminuo o ritmo, releio as partes mais difíceis. Tudo coisas muito mais fáceis de se fazer em se tratando de voltar uma página”.


Agora me conta aqui: qual é a sua opinião sobre o tema? Já ouviu algum audiolivro? Gostou da experiência? Notou alguma diferença com relação à leitura?

Livros no escuro Feltrinelli [tradução 10]

Pensando no que traduzir este mês, aqui para o blog, deparei-me, entre as opções, com o tema “livros no escuro”. Na hora em que vi esse tema, lembrei-me do post Papo de clube: Tag, experiências literárias, da Nati, do Napolitano como meu pé e, pesquisando um pouco, encontrei um artigo que achei bem interessante (e talvez um pouco ácido — perdoa os italianos, gente) de traduzir aqui.

Por isso, hoje trago a vocês a tradução de Libri al buio Feltrinelli, escrito por Andrea Cabassi, em 19 de julho de 2016.

Apenas a título de curiosidade, a Feltrinelli é uma das maiores e mais conhecidas redes de livraria da Itália, e é também uma grande editora.


Eu estava, pela enésima vez, aproveitando o ócio na Feltrinelli, quando os meus olhos curiosos se depararam com um expositor que me deixou completamente perplexo.

Tratava-se da prateleira da iniciativa Livros no escuro, ou seja, uma seleção especial de títulos colocados à venda em uma caixa fechada, sem que seja possível conhecer o título, autor ou capa do livro. Únicos indícios: três adjetivos e um mini comentário escrito pelos vendedores da loja.

Movido pela curiosidade, fui até o caixa e fiz algumas perguntas ao Vendedor Misterioso, que, para não comprometer a segurança dos seus amigos e familiares, permanecerá anônimo.

Andrea Cabassi: Oi. Gostaria de pedir algumas informações sobre os Livros no escuro: como funciona?

Vendedor Misterioso: Nós, vendedores, escolhemos os títulos, dividindo entre nós os livros necessários para preencher o expositor. Uma vez selecionados, escolhemos para cada um desses três adjetivos que, para nós, são representativos daquele livro, e depois escrevemos um breve comentário ou copiamos uma citação do livro que tenha particularmente nos tocado. A escolha é basicamente orientada pelo gosto pessoal, ou então pensando naquilo que pode agradar aos clientes e fazem parte todas as editoras, não só os livros da Feltrinelli.

Andrea Cabassi: Você conhece o Appuntamento al buio con un libro [Encontro no escuro com um livro], de Sperling & Kupfer?

Vendedor Misterioso: Não, devo dizer que é a primeira vez que ouço falar. Sei que não inventamos nada, por exemplo: me disseram que no exterior é uma prática difundida há anos, portanto, não temos a pretensão de ter feito a descoberta do século. Mas não sabia que alguém na Itália já tivesse feito… O nosso, porém, é um trabalho manual, não uma produção automatizada de alguns títulos escolhidos, cada pacote tem um conteúdo diferente do outro… Pelo menos uma diferença importante existe!

Andrea Cabassi: E as vendas, como estão?

Vendedor Misterioso: Te digo: no início eu estava cético, me parecia uma jogada irresponsável. Como leitor, eu pensava que dificilmente alguém pudesse escolher um livro sem folheá-lo, ler o início ou qualquer outra página, menos ainda sem conhecer o título. Mas me enganei: os Livros no escuro estão tendo um bom sucesso e ontem mesmo uma senhora me cumprimentou pelo comentário que escrevi sobre um livro que ela comprou e me perguntou quando irei preparar o próximo… No momento, os meus Livros no escuro estão todos vendidos!

Andrea Cabassi: Você acha que a sua colega Anna Paola sabe a diferença entre um adjetivo e um substantivo?

Vendedor Misterioso: (não responde)

Fotografei alguns, pode-se ver que é realmente um trabalho artesanal. Ainda me lembram muito o Appuntamento al buio con un libro de Sperling & Kupfer e ainda me fazem arrepiar mas, resumindo, as diferenças são significativas:

  • São escolhidos pelos vendedores entre todo o catálogo da livraria, não se trata do estoque de um único editor.
  • Cada pacote é único, não tem aquela caixa de livros com papel amarelo que escondem todos o mesmo título
  • Voltamos à sensação que se tinha quando existiam os livreiros no lugar dos vendedores, com que podíamos conversar e escutar as sugestões.

Neste ponto, agradeço-o satisfeito e vou dar uma olhada nos livros. Não antes de captar o comentário de uma cliente que esclarece, definitivamente, a questão, dizendo mais ou menos o seguinte:

“Algumas dessas avaliações são muito bonitas, mas o risco de que te caia em mãos um livro de Fabio Volo é muito alto. Me valho da faculdade de escolher!”


Agora me diga uma coisa: você teria coragem de comprar um livro sem saber absolutamente nada sobre ele? Ou você já assina algum clube (que, de certa forma, é como comprar um livro no escuro)?

Ler em voz alta: eis porque é útil não apenas para as crianças [tradução 9]

Para a tradução de hoje, escolhi falar sobre a importância de ler em voz alta. E, confesso, vou descobrir com vocês quais são as vantagens desta prática, uma vez que sempre realizo minhas leituras apenas para mim mesma, em silêncio.

O post original pode ser encontrado aqui e foi escrito por Alessandra Graziottin, em janeiro de 2017.


Ler em voz alta é muito útil, aliás indispensável, com e para as crianças, a fim de melhorar e otimizar a capacidade deles de aprender e se expressar, para superar dificuldades de aprendizagem, para ter mais confiança em si, para superar a timidez, medo da rejeição e outras ânsias “sociais”. Todos os pais e avós de crianças e adolescentes em idade escolar, além dos professores, deveriam encorajar a leitura em voz alta. Mas deveriam fazê-lo também para si, pelas muitas vantagens que este tipo de leitura oferece inclusive aos adultos.

Como fazer para ler bem em voz alta? Para começar, o primeiro objetivo é o de se permitir sentir, e, assim, escutar. A voz deve ser clara e, possivelmente, límpida. A velocidade e o modo de cadenciar as palavras deve variar com a idade dos ouvintes e o nível cultural deles. Um bom leitor escolherá falar de maneira pausada, se falar com crianças, e de aumentar o tom da voz, falando mais forte e claro, se falar com idosos.

Não se fala apenas com a voz, mas com todo o corpo: para falar bem em voz alta é importante visualizar a própria boca, os movimentos que faz e olhar-se no espelho enquanto se fala em voz alta. Em paralelo, é importante olhar o interlocutor, caso ele exista, comunicando também com os olhos.

Para ler bem em voz alta é preciso conhecer o texto e preparar-se bem, como em todas as coisas, lendo-o várias vezes, para captar plenamente o seu significado e nuances: somente assim você poderá transmiti-lo de maneira eficaz. Além disso, as palavras não devem ficar suspensas no ar: devem ser metaforicamente acompanhadas com atenção e gentileza durante sua viagem entre quem lê e quem escuta. Portanto, a voz deve ter uma direção precisa e ser acompanhada de todo o corpo.

Enquanto fala, é indispensável escutar a si mesmo: não apenas com o ouvido, mas com todos os sentidos. Na leitura em voz alta temos três protagonistas: o texto, com o sentido das palavras; o leitor; o público. Neste triângulo mágico, o bom leitor será capaz não apenas de comunicar a percepção do verdadeiro significado do texto, mas de fazê-lo ressoar em seu público, seja ele uma criança, um adulto ou um maior número de pessoas. O resultado máximo é obtido quando, através da leitura, alcança-se o envolvimento emocional do ouvinte; neste caso, a leitura atingiu seu pleno potencial. E alcançou o pico da eficácia se o conteúdo tornou-se inesquecível, graças às emoções que a acompanhou.

Linguagem e comunicação à parte, ler em voz alta é útil para a saúde? Sim, principalmente do cérebro. Para todas as idades, a leitura em voz alta é uma extraordinária ginástica para o cérebro: brain fitness, como eu gosto de chamar. Para as crianças, pelos vários estímulos cerebrais que a leitura em voz alta provoca: estímulos fonéticos, linguísticos, cognitivos, emotivos, motores e também nervosos, pelas emoções que uma boa leitura carrega consigo, para quem lê e quem escuta. Uma fábula lida com participação, ternura e paixão, tem um extraordinário poder calmante e reconfortante para cada criança. É uma carícia musical e sugestiva que jamais se esquece. É um antissolidão por excelência. Para os adultos, pelo papel ativo que a leitura comporta, pelos múltiplos aspectos da performance mental. Nos idosos, porque estimula ainda mais a neuroplasticidade, ou seja, a capacidade do cérebro de formar novas conexões e reparações celulares, combatendo a deterioração, seja a espontânea, seja a pós-traumática.

Em um eficaz projeto de envelhecimento saudável, a leitura em voz alta também tem o seu papel. Por que não redescobrir os seus muitos usos preventivos e terapêuticos? É agradável, faz companhia e, por fim, não custa nada! Por que não praticá-la, inclusive com grupos de leitura? É um belo modo de estar junto, aprender, comentar e conversar, em uma atmosfera afetuosamente relaxada. Um prazer antigo e sempre novo.


Depois de ler esta tradução, me conta uma coisa: você tem o hábito de ler em voz alta?