Anglicismos: por que usamos cada vez mais palavras em inglês? [tradução 12]

Acabo de perceber que dei início a este projeto de traduzir um artigo por mês há um ano! E tem sido bem gostoso fazer isso, poder conversar com vocês sobre assuntos pertinentes ao blog e, ao mesmo tempo, exercitar minha tradução do italiano para o português.

Inicialmente, pensei que o artigo de hoje faria mais sentido para os italianos que para nós, pois tenho a impressão de que eles realmente usam muito mais o inglês em expressões nas quais poderiam usar a própria língua (um exemplo bem cotidiano: eles poderiam falar fine settimana, para se referir ao final de semana, mas acabam usando weekend). Porém, foi só pensar no universo literário que logo me deparei com inúmeras palavras em inglês (não só desse universo, mas muito usadas aqui): TBR (to be read), wishlist, hype, spoiler

Então vamos ver o que PrM 1 achava sobre o assunto em 6 de maio de 2017, conforme artigo publicado aqui.


Tem que a ame e a use despropositadamente, e quem, por outro lado, a odeie e se desdobre em traduções às vezes imprecisas. As palavras estrangeiras usadas em italiano, cujo nome técnico é estrangeirismo, não são uma novidade da última década. Todas as línguas estão sujeitas a trocas e empréstimos e, assim, nós, italianos, acabamos dizendo toilette e os falantes de cerca de 37 línguas se cumprimentam com o nosso ciao. O mundo de hoje, cada vez mais globalizado e internacional, nos faz, porém, progressivamente adotar palavras estrangeiras no nosso dicionário dia após dia, a maior parte das quais são anglicismos, isto é, palavras inglesas.

Cada vez mais internacionais

Nos dias de hoje, quase todo mundo sabe ao menos duas línguas e quem não sabe tenta aprender pelo menos o inglês com a ajuda de site e aplicativos como o Duolingo, que conta com cerca de 300 milhões de usuários de todo o mundo. Mesmo sem se empenhar muito, porém, estamos em contato com palavras em inglês todos os dias, simplesmente ligando a TV ou folheando um jornal. O inglês é, de fato, a língua franca atual e todos os negócios políticos e econômicos internacionais são realizados nesta língua. Os termos técnicos, portanto, sequer são traduzidos, para facilitar a compreensão de ambas as partes. Uma características dessas palavras é, de fato, a ausência de uma real tradução para o italiano, ou, quando existe, o termo em inglês indica uma nuance específica. Assim, o selfie, hit de 2013, não é simplesmente um autorretrato.

O advento da internet e das redes sociais deu vida a um novo e riquíssimo vocabulário. Muitas destas palavras não existiam antes no dicionário e coube aos usuários escolher entre usar uma tradução ou mantê-las em inglês. O inglês, na maioria das vezes, ganhou, inclusive porque certas palavras traduzidas ao italiano soam um pouco mal. Internet se liga, também, ao conceito de globalização: graças à rede, a cada dia temos a oportunidade de ler conteúdos em outras línguas, seguir as tendências estrangeiras e nos manter em contato com nossos amigos que estão no exterior. Desta forma, entramos em contato com palavras estrangeiras que, involuntariamente, adotamos na nossa linguagem e que nos convém manter em inglês para facilitar a comunicação com todos aqueles que estão na internet e que não falam a nossa língua.

Palavras diferentes, mundos diferentes

Se os anglicismos permeiam a vida cotidiana, existem âmbitos nos quais eles são mais difundidos. Muitos desses são, claro, relacionados ao mundo da internet ou das relações internacionais, mas a ligação não é sempre óbvia assim. No mundo universitário, pelo fato de que a pesquisa e o desenvolvimento em certos campos acontecem principalmente no exterior, são adotados diversos termos estrangeiros e um diplomado fala, muitas vezes, do seu campo usando vocabulários específicos em inglês. O mundo do trabalho das empresas é cada vez mais internacional e tem adotado cada vez mais termos estrangeiros. Hoje é mais fácil ouvir no escritório palavras como brief, call, deadline ao invés de reunião, telefonema, prazo final. As nuances de significado são parecidas, mas essas palavras são usadas estritamente para o léxico relacionado a trabalho. Outros termos como freelance não são exatamente traduzíveis e um freelancer precisa entender de anglicismos para trilhar seu caminho no mundo do trabalho. Para ampliar sua rede de cliente, muitas vezes precisa contar com sites como UpWork e pode acabar trabalhando até para clientes não italianos. Outro ambiente rico em termos ingleses é o das apostas. Abrindo qualquer site de jogos é fácil perceber que atualmente os termos mais usados em um jogo e o próprio nome dele são, geralmente, em inglês. Assim, os giros geralmente são spin ou free spin e os símbolos são chamados de wild e scatter. Mesmo nesse caso, dada a origem estrangeira desses jogos, as traduções não são sempre necessárias e os termos em inglês tornam-se específicos para este campo. Desde a fundação do Facebook, em 2014, houve uma inundação de novas redes sociais e de novos termos usados para descrever as várias funções delas. Abrindo uma rede social qualquer, portanto, contaremos os nossos follower e olharemos a página de alguns influencer. Os termos das redes, porém, são aqueles mais italianizados, dando vida a nova palavras que são um misto de inglês e italiano, como taggare ou addare. Se as amamos ou odiamos, não podemos mais viver sem algumas palavras inglesas na nossa língua cotidiana, porque nos faltariam alguns instrumentos comunicativos fundamentais. Só nos resta integrar a nossa língua a esses novos termos e torná-los nossos, talvez pronunciando-os de uma maneira totalmente italiana.


E aí, qual a sua opinião sobre o assunto? Creio que podemos fazer muitas ressalvas a esse texto, ainda mais se pensarmos que o contexto brasileiro é bem diferente do italiano. Mas também há algumas reflexões bem interessantes, não?

Para concluir de verdade, só queria dizer que foi engraçado traduzir este artigo, pois realmente há mais termos que os italianos continuam a usar em inglês e que, na tradução, consegui passar para o português, como redes sociais (apesar de existir rete sociali eles acabam usando social). Por outro lado, há um momento em que usei o termo hit e, neste caso, no texto italiano, havia um termo na língua deles que, em português, não há uma tradução muito exata e que seja melhor que hit.

Agora imagine você o nó que deu aqui para traduzir tudo isso, hein!?

Livros tradicionais e audiolivros [tradução 11]

Hoje é dia de traduzir mais um artigo italiano e a escolha da vez foi Livros tradicionais e audiolivros: segundo a ciência, são (quase) iguais. O artigo original foi postado no site Focus, em 4 de setembro de 2019, por Chiara Guzzonato.

Para variar, encontrei esse artigo enquanto preparava aula, e o título chamou a minha atenção porque sou uma pessoa que não se imagina ouvindo um audiolivro. Nada contra a tecnologia em si, mas vejo como coisas diferentes. Não sou uma pessoa de ver muito filme ou vídeos, porque gosto bastante do silêncio e a leitura me permite isso. Também sinto que absorvo melhor lendo e isso é algo que varia muito de pessoa para pessoa, cada um aprende melhor de uma forma.

Vamos à tradução?


Ler e ouvir colocariam em atividade as mesmas regiões do cérebro, fazendo-as trabalhar da mesma forma. Alguns especialistas, porém, ressaltam as diferenças entre as duas modalidades.

Livros: melhor lê-los ou… escutá-los? Segundo um estudo conduzido pela Universidade da Califórnia e publicado no Jornal de Neurociência, em níveis práticos, não faz diferença. “As informações semânticas são elaboradas de maneira similar”, explica Fatma Deniz, pesquisadora em neurociência e chefe do estúdio. “Sabíamos que quando lemos ou escutamos uma palavra algumas regiões do nosso cérebro se ativam de maneira análoga, mas não esperávamos que as duas modalidades estimulassem as mesmas áreas emocionais e cognitivas”, destaca um pouco surpresa.

Mapas cerebrais (quase) idênticos

O estudo envolveu nove voluntários que primeiro escutaram uma história transmitida pela BBC e, depois, leram a transcrição.

A atividade cerebral era praticamente igual em ambos os casos: as palavras, de acordo com seu significado, ativavam diversas regiões do cérebro. “O mapa semântico que surgiu (ou seja, a representação gráfica das áreas do cérebro que se ativam quando escutamos uma palavra, ndr) nos permitiu prever com precisão quais partes do cérebro seriam estimuladas pelas várias palavras”, explica a doutora Deniz.

Culturalmente superior

Nem sempre, porém, a ciência está alinhada com as percepções que nós, meros mortais, temos. Conforme uma pesquisa de 2016, conduzida pela YouGov, de fato, só 10% dos britânicos considera que escutar um livro seja equivalente a lê-lo: a maior parte está convencida, ao contrário, que a leitura é culturalmente superior à escuta. Opiniões fundamentadas ou não? Para alguns especialistas, ainda que não se possa falar em “superioridade cultural”, igualar a leitura à escuta não é correto.

“Realmente faz rir!”. Como você leu essa exclamação? Como um sincero elogio ou uma irônica brincadeira? Se você tivesse escutado essa frase, não teria dúvida sobre o seu significado, como nos faz notar Daniel Willingham, professor de psicologia da Universidade de Virgínia e jornalista do New York Times, uma das principais diferenças entre o falado e o escrito é a prosódia. “No texto, falta o tom, o tempo, o ritmo do discurso falado”, explica Willingham em um artigo dedicado ao tema.

Problemas de compreensão

Em uma pesquisa de 2010, foi colocada à prova a capacidade de compreensão de alguns estudantes: uma parte deles escutou uma gravação de 22 minutos; a outra leu a transcrição. Ainda que os dois grupos tivessem usado o mesmo tempo para assimilar o texto nas duas modalidades, 41% dos ouvintes não passou no teste de compreensão feito dois dias depois, contra apenas 19% de “reprovados” entre os leitores.

“O grupo de ouvintes foi pior que aquele de leitores, de longe, não ligeiramente”, ressalta David Daniel, professor de psicologia na Universidade James Madison (Virginia, USA) e coautor da pesquisa. Os estudantes que ouviram a gravação sabiam que não tinham aprendido muito: “antes de começar o experimento, poucos queriam fazer parte do grupo de leitores”, afirma Daniel. “Mas depois de ouvir o podcast, antes do teste de compreensão, quase todos tinham mudado de ideia: se pudessem voltar atrás, teriam escolhido o grupo de leitura”.

Afinal, melhor ler ou ouvir? A resposta é: depende. Se você tivesse que estudar um livro (ou seja, entendê-lo e assimilar o seu conteúdo), talvez fosse melhor seguir fiel ao papel (ou ao e-reader). Se, por outro lado, é apenas lazer, sinal verde para os audiolivros: “eu escuto vários, inclusive enquanto estou no carro e dirigindo”, declara Willingham. “Mas jamais escutarei algo de importante para o meu trabalho. Quando estou concentrado, diminuo o ritmo, releio as partes mais difíceis. Tudo coisas muito mais fáceis de se fazer em se tratando de voltar uma página”.


Agora me conta aqui: qual é a sua opinião sobre o tema? Já ouviu algum audiolivro? Gostou da experiência? Notou alguma diferença com relação à leitura?

Livros no escuro Feltrinelli [tradução 10]

Pensando no que traduzir este mês, aqui para o blog, deparei-me, entre as opções, com o tema “livros no escuro”. Na hora em que vi esse tema, lembrei-me do post Papo de clube: Tag, experiências literárias, da Nati, do Napolitano como meu pé e, pesquisando um pouco, encontrei um artigo que achei bem interessante (e talvez um pouco ácido — perdoa os italianos, gente) de traduzir aqui.

Por isso, hoje trago a vocês a tradução de Libri al buio Feltrinelli, escrito por Andrea Cabassi, em 19 de julho de 2016.

Apenas a título de curiosidade, a Feltrinelli é uma das maiores e mais conhecidas redes de livraria da Itália, e é também uma grande editora.


Eu estava, pela enésima vez, aproveitando o ócio na Feltrinelli, quando os meus olhos curiosos se depararam com um expositor que me deixou completamente perplexo.

Tratava-se da prateleira da iniciativa Livros no escuro, ou seja, uma seleção especial de títulos colocados à venda em uma caixa fechada, sem que seja possível conhecer o título, autor ou capa do livro. Únicos indícios: três adjetivos e um mini comentário escrito pelos vendedores da loja.

Movido pela curiosidade, fui até o caixa e fiz algumas perguntas ao Vendedor Misterioso, que, para não comprometer a segurança dos seus amigos e familiares, permanecerá anônimo.

Andrea Cabassi: Oi. Gostaria de pedir algumas informações sobre os Livros no escuro: como funciona?

Vendedor Misterioso: Nós, vendedores, escolhemos os títulos, dividindo entre nós os livros necessários para preencher o expositor. Uma vez selecionados, escolhemos para cada um desses três adjetivos que, para nós, são representativos daquele livro, e depois escrevemos um breve comentário ou copiamos uma citação do livro que tenha particularmente nos tocado. A escolha é basicamente orientada pelo gosto pessoal, ou então pensando naquilo que pode agradar aos clientes e fazem parte todas as editoras, não só os livros da Feltrinelli.

Andrea Cabassi: Você conhece o Appuntamento al buio con un libro [Encontro no escuro com um livro], de Sperling & Kupfer?

Vendedor Misterioso: Não, devo dizer que é a primeira vez que ouço falar. Sei que não inventamos nada, por exemplo: me disseram que no exterior é uma prática difundida há anos, portanto, não temos a pretensão de ter feito a descoberta do século. Mas não sabia que alguém na Itália já tivesse feito… O nosso, porém, é um trabalho manual, não uma produção automatizada de alguns títulos escolhidos, cada pacote tem um conteúdo diferente do outro… Pelo menos uma diferença importante existe!

Andrea Cabassi: E as vendas, como estão?

Vendedor Misterioso: Te digo: no início eu estava cético, me parecia uma jogada irresponsável. Como leitor, eu pensava que dificilmente alguém pudesse escolher um livro sem folheá-lo, ler o início ou qualquer outra página, menos ainda sem conhecer o título. Mas me enganei: os Livros no escuro estão tendo um bom sucesso e ontem mesmo uma senhora me cumprimentou pelo comentário que escrevi sobre um livro que ela comprou e me perguntou quando irei preparar o próximo… No momento, os meus Livros no escuro estão todos vendidos!

Andrea Cabassi: Você acha que a sua colega Anna Paola sabe a diferença entre um adjetivo e um substantivo?

Vendedor Misterioso: (não responde)

Fotografei alguns, pode-se ver que é realmente um trabalho artesanal. Ainda me lembram muito o Appuntamento al buio con un libro de Sperling & Kupfer e ainda me fazem arrepiar mas, resumindo, as diferenças são significativas:

  • São escolhidos pelos vendedores entre todo o catálogo da livraria, não se trata do estoque de um único editor.
  • Cada pacote é único, não tem aquela caixa de livros com papel amarelo que escondem todos o mesmo título
  • Voltamos à sensação que se tinha quando existiam os livreiros no lugar dos vendedores, com que podíamos conversar e escutar as sugestões.

Neste ponto, agradeço-o satisfeito e vou dar uma olhada nos livros. Não antes de captar o comentário de uma cliente que esclarece, definitivamente, a questão, dizendo mais ou menos o seguinte:

“Algumas dessas avaliações são muito bonitas, mas o risco de que te caia em mãos um livro de Fabio Volo é muito alto. Me valho da faculdade de escolher!”


Agora me diga uma coisa: você teria coragem de comprar um livro sem saber absolutamente nada sobre ele? Ou você já assina algum clube (que, de certa forma, é como comprar um livro no escuro)?

Ler em voz alta: eis porque é útil não apenas para as crianças [tradução 9]

Para a tradução de hoje, escolhi falar sobre a importância de ler em voz alta. E, confesso, vou descobrir com vocês quais são as vantagens desta prática, uma vez que sempre realizo minhas leituras apenas para mim mesma, em silêncio.

O post original pode ser encontrado aqui e foi escrito por Alessandra Graziottin, em janeiro de 2017.


Ler em voz alta é muito útil, aliás indispensável, com e para as crianças, a fim de melhorar e otimizar a capacidade deles de aprender e se expressar, para superar dificuldades de aprendizagem, para ter mais confiança em si, para superar a timidez, medo da rejeição e outras ânsias “sociais”. Todos os pais e avós de crianças e adolescentes em idade escolar, além dos professores, deveriam encorajar a leitura em voz alta. Mas deveriam fazê-lo também para si, pelas muitas vantagens que este tipo de leitura oferece inclusive aos adultos.

Como fazer para ler bem em voz alta? Para começar, o primeiro objetivo é o de se permitir sentir, e, assim, escutar. A voz deve ser clara e, possivelmente, límpida. A velocidade e o modo de cadenciar as palavras deve variar com a idade dos ouvintes e o nível cultural deles. Um bom leitor escolherá falar de maneira pausada, se falar com crianças, e de aumentar o tom da voz, falando mais forte e claro, se falar com idosos.

Não se fala apenas com a voz, mas com todo o corpo: para falar bem em voz alta é importante visualizar a própria boca, os movimentos que faz e olhar-se no espelho enquanto se fala em voz alta. Em paralelo, é importante olhar o interlocutor, caso ele exista, comunicando também com os olhos.

Para ler bem em voz alta é preciso conhecer o texto e preparar-se bem, como em todas as coisas, lendo-o várias vezes, para captar plenamente o seu significado e nuances: somente assim você poderá transmiti-lo de maneira eficaz. Além disso, as palavras não devem ficar suspensas no ar: devem ser metaforicamente acompanhadas com atenção e gentileza durante sua viagem entre quem lê e quem escuta. Portanto, a voz deve ter uma direção precisa e ser acompanhada de todo o corpo.

Enquanto fala, é indispensável escutar a si mesmo: não apenas com o ouvido, mas com todos os sentidos. Na leitura em voz alta temos três protagonistas: o texto, com o sentido das palavras; o leitor; o público. Neste triângulo mágico, o bom leitor será capaz não apenas de comunicar a percepção do verdadeiro significado do texto, mas de fazê-lo ressoar em seu público, seja ele uma criança, um adulto ou um maior número de pessoas. O resultado máximo é obtido quando, através da leitura, alcança-se o envolvimento emocional do ouvinte; neste caso, a leitura atingiu seu pleno potencial. E alcançou o pico da eficácia se o conteúdo tornou-se inesquecível, graças às emoções que a acompanhou.

Linguagem e comunicação à parte, ler em voz alta é útil para a saúde? Sim, principalmente do cérebro. Para todas as idades, a leitura em voz alta é uma extraordinária ginástica para o cérebro: brain fitness, como eu gosto de chamar. Para as crianças, pelos vários estímulos cerebrais que a leitura em voz alta provoca: estímulos fonéticos, linguísticos, cognitivos, emotivos, motores e também nervosos, pelas emoções que uma boa leitura carrega consigo, para quem lê e quem escuta. Uma fábula lida com participação, ternura e paixão, tem um extraordinário poder calmante e reconfortante para cada criança. É uma carícia musical e sugestiva que jamais se esquece. É um antissolidão por excelência. Para os adultos, pelo papel ativo que a leitura comporta, pelos múltiplos aspectos da performance mental. Nos idosos, porque estimula ainda mais a neuroplasticidade, ou seja, a capacidade do cérebro de formar novas conexões e reparações celulares, combatendo a deterioração, seja a espontânea, seja a pós-traumática.

Em um eficaz projeto de envelhecimento saudável, a leitura em voz alta também tem o seu papel. Por que não redescobrir os seus muitos usos preventivos e terapêuticos? É agradável, faz companhia e, por fim, não custa nada! Por que não praticá-la, inclusive com grupos de leitura? É um belo modo de estar junto, aprender, comentar e conversar, em uma atmosfera afetuosamente relaxada. Um prazer antigo e sempre novo.


Depois de ler esta tradução, me conta uma coisa: você tem o hábito de ler em voz alta?

Filhos que não leem: instruções de uso [tradução 8]

Escrever para papais e mamães nunca me passou pela cabeça, mas a verdade é que as dicas que encontrei no post Figli che non leggono: istruzioni per l’uso (e que traduzirei aqui embaixo), podem ser úteis não apenas para pais, mas também para professores ou mesmo para qualquer pessoa que tenha contato com jovens (e, por que não? Adultos) que não gostam de ler.

O post original encontra-se no site Cultura18, e foi publicado em maio de 2019, por Erica Regalin. Confira aqui.


A maioria dos pais reclama que os filhos não leem o suficiente; mas é difícil competir com tablet e smartphone: o display iluminado parece ter a capacidade de aprisionar o usuário em um vórtice que não deixa espaço para dar atenção a outras atividades! As novas gerações estão habituadas a receber milhares de estímulos simultaneamente e as mídias sociais fossilizam as mentes para a leitura de textos breves e velozes; faz-se, portanto, necessário treinar novamente os jovens a encarar um bom número de páginas (inclusive de uma certa complexidade). Não todos, porém, aproximam-se dos livros espontaneamente, sendo, portanto, necessário utilizar táticas estratégicas para colocar um exemplar nas mãos dos próprios filhos!

O QUE NÃO É PRECISO FAZER

Obrigá-los a ler: insistir não te levará a lugar nenhum; o único efeito obtido será o de fazê-los odiar os livros, o que é bem diferente de não amá-los.

Criticar as demais atividades: cada uma delas sempre agrega valor, o que contribui para o crescimento e o estabelecimento da personalidade deles.

Gritar com eles ou diminuí-los diante dos outros porque não leem: desmerecer um jovem em fase de crescimento e fazê-lo sentir-se um erro pode causar insegurança.

Impor os próprios gostos: você não é o seu filho, portanto é necessário tratá-lo como uma pessoa única e aceitar que ele pode apreciar inclusive as leituras que você mais detesta!

O QUE É PRECISO FAZER

Dar o bom exemplo! Se os pais não transformam a leitura em uma prioridade, optando por ativamente dedicar um tempo a ela, não podem esperar que o filho o faça. Ninguém gosta de hipocrisia!

Proibir alguns livros em casa: a curiosidade é a característica dos jovens que mais facilmente pode ser desfrutada. O objeto proibido sobre o qual criar esse misticismo pode ser um exemplar com ilustrações peculiares ou um projeto gráfico interessante.

Responder às perguntas deles com um livro! Demonstrar a utilidade dos textos os encoraja a utilizá-los. Pode também ser divertido planejar uma “caça” às informações com os livros de casa, colocando-os como base útil para qualquer tipo de pesquisa e premiando o vencedor com um bom lanche.

Criar um espaço para os livros deles. Por que devemos considerar algo importante se nem mesmo temos um espaço para isso? Construir e personalizar uma prateleira ou uma biblioteca com os próprios pais relaciona simbolicamente aos livros uma ótima recordação!

Perguntar a opinião sobre o que leram ou estão lendo (independentemente do tipo de livro). O diálogo é um enriquecimento contínuo, principalmente se a sua opinião interessa a alguém.

Presentear com livros que correspondem aos gostos pessoais dos filhos: não é preciso limitar-se às narrativas, mas explorar também álbuns ilustrados e graphic novel; o conteúdo poderá ser aprofundado através de livros cada vez mais precisos e complexos.

Estimule-os a acabar com os livros: é muito bom avaliar criticamente uma obra, principalmente aquelas que não gostamos. Encoraje-os a falar de cada elemento que não gostaram e, se possível… Esteja ao lado deles!

Tablet e smartphone nem sempre são inimigos: existem diversas plataformas que permitem a leitura de ebook e fan-fiction. Talvez o fascínio da tela luminosa desta vez possa ser positiva aos olhos ali “colados”.

Encorajar as novas gerações a ler talvez não seja assim tão difícil: são múltiplas as ações possíveis de realizar. Cada pessoa, porém, é diferente, portanto a criatividade, a imaginação e a vontade de fazer continuam a ser o melhor instrumento para usar para encontrar novas soluções e metodologias. O importante é reinventar-se sempre!

O que é uma biblioteca viva? [tradução 7]

Preparando aulas de italiano, deparei-me com o termo “biblioteca viva”. Nunca tinha ouvido falar e achei um conceito muito interessante e que, claro, merecia um espacinho por aqui. Uni o útil ao agradável e, por isso, a tradução de hoje será justamente sobre esse tema. O post original pode ser lido aqui, junto a outras muitas informações sobre o projeto.


O que é uma biblioteca viva?

Biblioteca Viva, tradução do termo Human Library, é um método inovador, simples e concreto para promover o diálogo, diminuir os preconceitos, quebrar estereótipos e melhorar a compreensão entre pessoas de diferentes idades, sexos, estilos de vida e background cultural.

Como funciona?

A biblioteca viva apresenta-se como uma biblioteca de verdade, com bibliotecários e um catálogo de títulos entre os quais escolher. A diferença está no fato de que para ler os livros você não precisa folhear as páginas mas… conversar, porque os livros são pessoas em carne e osso! Esses “livros vivos” são “emprestados” para a conversa: cada leitor escolhe o seu livro.

Quem são os livros vivos?

Os livros vivos são pessoas que têm consciência de pertencer a uma minoria sujeita a estereótipos e preconceitos. Com o desejo de destruir isso, essas pessoas colocam-se à disposição para discutir as próprias experiências e os próprios valores com os outros.

Os títulos são, preferencialmente, bem diretos, como por exemplo “moça lésbica”, “mulher islâmica com véu”, “imigrante albanês”, justamente para suscitar reações emocionais dos potenciais leitores, ativando sua curiosidade, mas também os estereótipos e preconceitos.

A biblioteca viva oferece aos leitores a oportunidade de entrar em contato com pessoas com as quais dificilmente elas poderiam confrontar-se. O encontro torna concreta e única a pessoa que temos diante de nós, que deixa, portanto, de ser percebida como representante de uma categoria baseada em uma generalização e que passa a ser reconhecida em sua unicidade, uma pessoa que não representa ninguém a não ser a própria experiência e história.

Quanto dura?

Biblioteca viva — envolvendo pessoas de carne e osso — é um evento muito limitado temporalmente, geralmente de um ou dois dias; em alguns raros casos, pode chegar a três ou quatro dias. A conversa, ou seja, a leitura de um livro vivo, dura, na maioria das vezes, cerca de meia hora.

Feedback

Entrevistados, sejam os livros, sejam os leitores, descrevem esta como uma experiência de grande impacto, que enriqueceu significativamente suas humanidades.

Um pouco de história

Nascida em Copenhague, a Human Library foi criada por um pequeno grupo de jovens, em resposta às agressões de cunho racista sofridas por um amigo, em 1993. Convencidos de que a compreensão fosse uma pré-condição para a tolerância, os jovens fundaram a associação “Stop The Violence”, alcançando, em pouco tempo, 30.000 adesões entre os jovens dinamarqueses. Solicitada a preparar uma grande intervenção para o festival de Roskilde, em 2000, “Stop The Violence” colocou em prática o método Human Library, que coloca as pessoas de frente aos seus prejuízos, oferecendo um espaço protegido para hospedar um diálogo franco e aberto. A iniciativa teve um grande sucesso e, desde 2003 é reconhecida pelo Conselho Europeu como uma boa prática e, como tal, é encorajada. Daí em diante, foi exportada em todo o mundo com grande sucesso.


Como eu disse no início deste post, não conhecia esse conceito de biblioteca viva e achei muito interessante! E você, já conhecia? Já viu algo semelhante no Brasil? Pensei até na possibilidade de se trabalhar algo do tipo em escolas, seria uma experiência e tanto!

Por que amamos ler? [tradução 6]

Este post é uma tradução. O original pode ser lido aqui (em italiano) e foi postado em 22 de janeiro de 2013. Deixo claro que, para minha sorte, a situação aqui em casa, com meu irmão, é bem diferente do retratado abaixo, mas é muito gostoso poder pensar porque amamos ler.

Aqui em casa, convivo com um contra leitor por natureza: meu irmão. Ele definitivamente não gosta de ler, acha isso chato e inútil. E muitas vezes ele me reprova quando me vê voltar para casa com um livro novo: “Mais livros? Mas o que você vai fazer com todos esses livros!”. Ele prefere jogar um bom videogame (que eu vejo da mesma forma que ele vê a minha paixão) ou assistir TV.

Definitivamente não nos entendemos e ontem veio a fatídica pergunta: por que você gosta de ler? (veja as perguntas que trazemos à tona para não ter que fazer a lição de casa).

E quer saber de uma coisa, naquele momento não consegui responder como eu gostaria. Existem tantos motivos pelos quais uma devoradora de livros como eu adora ler que, naquele momento, eu não sabia por qual começar. E assim fiquei me remoendo. Uma escritora precisa de papel e caneta para poder se exprimir da melhor forma. Então: por que nós, leitores, amamos ler?

Talvez seja até por algum fator biológico ou físico; talvez sejamos dotados de um gene da leitura (que o meu irmãozinho não tem, ainda que eu tenha tentado, de todas as formas, transmitir essa paixão), e sem dúvidas deve-se também a certa influência que algumas pessoas tiveram (estas também amantes dos livros) durante a nossa infância. Mas o resto é tudo mérito nosso.

Por que eu gosto de ler?

Eu não gosto simplesmente de ler, eu amo os livros! Gosto da forma deles, da consistências das páginas, do perfume. Gosto de segurar um livro entre as mãos, olhando e admirando a capa (ainda mais quando é muito bonita), passar o dedo sobre as letras do título, quando são em relevo, e folheá-lo. Sentar-me comodamente em uma poltrona (ou deitar na cama) e mergulhar nos mundos que os livros me oferecem. Adoro ler porque a leitura me permite desligar o cérebro e entregar-me totalmente à história, porque, por alguns instantes, sou qualquer outra pessoa e visito mundos que, fisicamente, não poderei visitar nunca.

Ler é uma forma de voar sem asas. É o meu remédio para o tédio e para a tristeza. Os livros foram a presença mais constante na minha vida (logo depois da minha família, claro), estão presentes em muitas das minhas lembranças. Eles me deixam feliz e muitas vezes me dão esperança.

Eu gosto de destacar as frases que mais me marcaram e, depois de concluída a leitura, copiá-las no meu caderno (para depois poder lê-las quando precisar). Adoro vê-los bem alinhados e em ordem na minha biblioteca (que agora não tem mais espaço) e pensar que esse será o tesouro que deixarei para os meus filhos e netos, uma parte de mim que permanecerá mesmo quando eu não estiver mais aqui.

 Ler, para mim, não significa apenas algo no sentido literal. Uma leitura é feita de tantos gestos: a procura na internet, horas e horas passadas na livraria verificando as prateleiras, voltar para casa feliz, com um volume novo (ainda que eu tenha gastado as minhas economias), escrever o meu nome na primeira página e ler a última palavra da última página, olhar quantas páginas tem, imergir em um novo mundo, colocá-lo na prateleira de novo e esperar para dizer “Mãe, posso ler esse livro?”.

E vocês, por que amam ler? Deixem, caso tenham a resposta, aqui nos comentários.

O que você gosta nos livros que você curte? [tradução 5]

Vamos de mais uma tradução? Já estamos indo! E mais: sobre um tema que também estou planejando trazer para cá a minha opinião, pois tenho pensado muito sobre e ouvido falar muito também. Isso mesmo, vamos falar sobre avaliações de livros. Para aquecer os motores, porém, trago essa tradução. O post original, em italiano, você encontra aqui, e ele foi publicado em 2011!

Confesso que, “aquecer os motores” foi modo de dizer, porque vamos é começar o assunto com tudo! Depois dele, o que terei a dizer será quase nada. E vamos que vamos!


É inevitável que, de vez em quando, nos perguntemos com quais instrumentos e critérios julgamos os livros que lemos.

Tem quem se pergunte se, por acaso, o hábito de julgar os livros e exprimir-se em termos de “gosto/não gosto” não seja um mero atalho que nos mantém superficiais, fazendo das palavras que dedicamos aos livros que lemos um mero falatório. (Aproveitamos para falar disso, também, devido ao sucesso de participação dos leitores em nossos posts sobre os livros mais lindos e algumas observações que um ou outro leitor fez sobre o excesso de simplicidade que comporta um julgamento seco como esse, baseado em “gosto/não gosto”).

Fica o questionamento: o leitor comum — ou seja, nós — tem uma espécie de “dever” intelectual de aprender a usar algum instrumento crítico? Existe um espaço pleno de sentido entre o mero falatório e a crítica profissional?

É uma pergunta que, por sorte, muita crítica, principalmente anglo-saxônica, se esforça há anos para responder, “divulgando” os instrumentos da própria “ciência”.

A propósito, alguns meses atrás, eu havia indicado James Wood, que publicou um livro dedicado exatamente a isso: Como funciona a ficção (Sesi Editora). Uma obra que já faz um certo tempo que tenho sempre à mão, principalmente porque eu me divirto, de vez em quando, em testá-lo com os livros e contos que leio.

Recentemente, também (cito outro como exemplo, acredito que existem centenas que poderiam ser mencionados aqui) o crítico inglês John Sutherland escreveu um livro similar, pelo menos na questão da aplicação: 50 Literature Ideias you Really Need to Know.

Tento, portanto, quase como um jogo, listar as perguntas que eu deveria/gostaria de fazer enquanto leio um livro, se eu não quisesse ser um leitor comum, mas um “como se deve” (usarei Wood, mas podemos pensar outras dezenas de perguntas, basta tentar):

1) Qual é o tipo de narrador que o escritor incumbiu de contar a história? Para além das questões técnicas (onisciente, narrador personagem, uso do estilo indireto livre, primeira pessoa…), é um narrador que sentimos perto de nós? Quanto e como usa a ironia dramática? O quanto está perto ou longe de seus personagens?

2) Como é o jogo entre os detalhes narrativos mostrados? Por exemplo, entre aqueles importante e aqueles (aparentemente) insignificantes; do contraste entre eles depende muito da eficácia das cenas, por exemplo, na capacidade de desenvolver as tensões. É nos detalhes, que se corre o risco de cair no convencional

3) O que procuramos nos personagens? Como eles devem ser para que possamos senti-los vibrar nas páginas, para que possamos vê-los e apreciá-los com a sutiliza necessária que os faz viver? Somos objetivos com a estética do personagem ou julgamos com base em uma qualidade moral presumida?

4) E a consciência dos personagens? Como entramos no pensamento deles? E mais: entramos realmente ou o autor no engana, nos mostra uma imitação da consciência?

5) O livro que lemos é uma máquina de empatia? Conseguimos ver, sentir e compreender a complexidade do nosso “tecido moral” (“nosso” entendido como “condição humana”).

6) A linguagem contém uma multiplicidade de registros, harmonias e dissonâncias, mudanças e saltos de estilo que trazem a complexidade do mundo retratado? As metáforas sabem nos surpreender ou são óbvias, batidas e previsíveis?

7) A história e a trama nos surpreendem? Ou são óbvias, forçadas? Ou então as narrativas são tão elaboradas e centrais que esmagam todo o resto, nos fazendo esquecer que o livro é muito mais e vai muito além de uma única narrativa.

Vocês têm critérios claros de julgamento? Ou não? Me ajudem a enriquecer a lista (ou a eliminar alguns itens, se preferirem)?

Make Blackout Poetry, a poesia que nasce do escuro [tradução 4]

O procedimento é aparentemente simples: pegue uma página de um livro, de um jornal ou de uma revista e risque todo o texto, deixando apenas algumas poucas palavras que irão compor uma poesia. Funciona assim, de maneira bem resumida, Make Blackout Poetry, a poesia que nasce do escuro.

Make Blackout Poetry é uma espécie de grupo espontâneo, nascido quatro anos atrás, com a iniciativa de John Carroll, um escritor que, naquele período, estava passando por um momento de dificuldade. Ele começou, assim, a publicar em seu site e redes sociais as suas criações, dando vida a uma “comunidade de esperança”.

Atualmente*, no Instagram o perfil de Make Blackout Poetry é seguido por mais de 45.000 pessoas e, a cada semana, faz uma espécie de concurso, no qual todos podem participar, apresentando a sua poesia “fora do escuro”.

Criatividade, espírito de observação e capacidade de criar novas conexões entre as palavras de um texto são as chaves para decodificar as “mensagens de esperança escondidas” com as quais Make Blackout Poetry busca iluminar a escuridão.

Por que não experimentamos também?


*O texto acima é uma tradução e o original foi publicado em 2015, portanto o termo “atualmente” não refere-se, exatamente, à atualidade. Para ler o original, clique aqui. O site do Make Blackout Poetry não existe mais, mas a conta do Instagram sim, ainda que esteja parada desde 2019.


Vocês já ouviram falar de Blackout Poetry? Descobri um pouco mais sobre essa arte quando estava preparando uma aula de italiano e, por isso, resolvi trazer o tema em um dos posts de tradução. Há, porém, muito material disponível em português também, e é algo que vale a pena conferir, principalmente para quem está precisando de um pouco de inspiração para escrever!

O gênio literário de Carlos Ruiz Zafón [tradução 3]

Acordei hoje com uma notícia sobre a morte do escritor Carlos Ruiz Zafón. Li “A sombra do vento” em 2014 e até hoje, mesmo tendo gostado muito desse primeiro volume, não terminei de ler a série “O cemitério dos livros esquecidos”. A notícia desta manhã deixou um gosto agridoce na boca e a lembrança de uma escrita deliciosa. Escolhi, então, traduzir esse post que encontrei sobre o autor. Zafón era espanhol, mas um autor conhecido mundialmente, inclusive na minha cara Itália, como poderemos ver abaixo. O texto é de 2016, então não estranhem as referências temporais.


Foi publicado, no último novembro, O labirinto dos espíritos, último livro do escritor espanhol Carlos Ruiz Zafón. Já se passavam quatro anos desde que um romance seu aparecera entre as prateleiras de uma livraria. Se os leitores estavam ansiosos para saber algo sobre o capítulo final da saga dedicada ao Cemitério dos Livros Esquecidos, agora posso afirmar, sem sombra de dúvida, que vale a pena esperar quatro anos se o resultado é um romance de oitocentas páginas de altíssimo nível.

As pessoas ao meu redor (e mesmo aquelas que apenas passam por mim, para dizer a verdade) logo de cara percebem a minha predileção pelo romancista espanhol e geralmente me perguntam a qual gênero pertencem os seus livros. Sempre sinto dificuldade em responder essa pergunta. Os livros de Zafón não são classificáveis, não estão associados uma determinada e inflexível categoria. Não. São uma mistura de gêneros. Como se o autor quisesse homenagear toda a literatura.

Outra particularidade é que os livros fazem parte de um ciclo composto por quatro romances — iniciado com A sombra do vento — do Cemitério dos Livros Esquecidos. Contudo, cada volume oferece uma história independente e fechada. Isso nos permite, antes de mais nada, ler as obras na ordem que quisermos, inclusive de maneira separada e independente, e sem que sejamos forçados a seguir a ordem de publicação. Deste modo, o leitor tem a possibilidade de aproveitar novas nuances, novas relações, novas informações, novas perspectivas. Cada livro se torna uma nova porta de entrada.

A escrita do autor é uma das mais evocativas e poéticas que conheço: bastam as primeiras linhas do romance para sermos jogados na Barcelona do pós guerra; bastam poucas linhas para nos sentirmos nos grãos de pólen que vagueiam imóveis no ar como luz em pó; bastam poucas palavras para sermos uma daquelas pessoas paradas que aparecem congeladas como figuras em uma velha fotografia. Não são necessários esforços, a sua escrita está ali, como se fosse impressa e pintada em nossa mente. Conquista e fascina.

Carlos Ruiz Zafón é um dos maiores escritores a nível internacional, capaz de tecer múltiplos fios na trama sem jamais tropeçar, criar mistérios que contém outros tantos, construir histórias dentro das histórias e livros dentro dos livros, em um crescendo contínuo de emoções e reviravoltas. De dar vida a personagens que, quando você está passeando pela Ramblas de Barcelona, não pode deixar de ver com seus próprios olhos e sentir a sua presença por perto.

Quando terminei de ler, duas noites atrás, O labirinto dos espíritos, chorei. Chorei porque senti aquele vazio do abandono que apenas alguns livros têm a capacidade de nos fazer sentir. Porque não estava pronta para me despedir dos personagens. Mas também chorei de alegria, porque inúmeras belas páginas agora fazem parte da minha alma.


Texto escrito por Valentina Zanin. Para ler o texto original, em italiano, clique aqui.