Atualidade em Romeu e Julieta [tradução 27]

Leia este post ao som de E daí (Gal Gosta)

Outro dia, movida por uma curiosidade repentina, resolvi preparar uma aula sobre Romeu e Julieta.

A pergunta que havia surgido em mim era sobre o porquê da história se passar na Itália, tendo sido escrita por Shakespeare. 

Em minhas pesquisas para a preparação da aula em questão, encontrei textos interessantes e um, especificamente, acabei separando para trazer para este espaço.

Por isso, a tradução de hoje, que você pode ler abaixo, é do artigo Attualità di Romeo e Giulietta, escrito por Goffredo Fofi e publicado em 20 de outubro de 2016 no Messaggero Santo Antonio, tendo sido atualizado, ainda, em junho de 2017.


Uma amiga que trabalha em uma escola de italiano para jovens imigrantes me conta sobre os preconceitos étnicos contra os quais tem que lutar, entre alunos asiáticos, africanos, norte africanos, latino americanos, europeus do leste e do sul, mas também, por sorte, sobre as histórias de amor que aconteceram entre alguns deles e terminaram bem.

Isso provavelmente também se deva ao grande esforço que ela e seus colegas empregam para quebrar aquelas barreiras. Ela me conta com satisfação de alguns casais que souberam resistir aos preconceitos, mesmo àqueles, os mais duros de combater, das próprias famílias. De vez em quando o amor vence o preconceito e qualquer outro conflito entre “famílias” e a história de Romeu e Julieta tem um final feliz. Viva.

Aquela de Romeu e Julieta, na versão que nos deu William Shakespeare, é certamente uma das histórias mais contadas no mundo, talvez, quem sabe, a mais contada de todas. Pelo simples motivo de que continua a ser uma história verdadeira, um daqueles tropeços destinados a se reproduzir na vida das sociedades e das comunidades, sempre e onde for. Existem centenas de versões dessa narrativa na história da literatura (e da fábula), a inglesa vem de fontes italianas, de Massiccio Salernitano, de Luigi da Porto, de Matteo Bandello.

A história de dois adolescentes que se amam mas pertencem a duas famílias ou classes sociais ou etnias ou vilas ou partidos ou países em guerra ou simplesmente a bairros de uma mesma cidade, a grupos que entre eles se odeiam, rivalizam, conflituam, reproduziu-se e se reproduz nas situações mais dispares e nas mais diferentes épocas.

Hoje, entre italianos e estrangeiros ou entre estrangeiros de diversas proveniências, de diversos países, de diversas cores de pele, de diversos hábitos culturais e, principalmente, aliás, de diversos credos religiosos, a vitória do amor sobre o preconceito é possível, mas geralmente, muito geralmente, esse amor tem um fim trágico ou, em alguns casos, infeliz, e deixa sozinhos dois jovens que poderiam ter se tornado um casal, um exemplo de uma convivência feliz e possível. Nas artes — no cinema, no teatro, nos quadrinhos, nos romances — raramente acontece dessas histórias acabarem bem: ele pobre, ela rica; ele branco, ela negra; ele chinês, ela latina; ele protestante, ela católica; ele sueco, ela siciliana; etc. Sobretudo, hoje, ele cristão, ela muçulmana. Algumas vezes acaba bem e se trata, nesse caso, de uma comédia e não de uma tragédia.

Li ou vi histórias, romances, filmes nos quais essas histórias acabam mal. Mas também ouvi músicas de bêbados sobre jovens comunistas e garotas cristãs democráticas, e li ficções nova iorquinas do final do século XIX sobre o amor entre um jovem imigrante hebreu e uma irlandesa, no qual os bate-boca eram explosivos, mas nos quais, graças ao amor, tudo acabava bem.

Hoje a diferença mais grave é aquela entre cristãos e mulçumanos. Mas mesmo aqui algumas histórias acabam bem, e os Capuleto e os Montecchio se reconciliam não no funeral dos filhos, mas no casamento deles. 


E então, qual é a sua opinião sobre isso? Ainda temos muito a melhorar como pessoas e sociedade, não?

Em você me (re)conheço. O poder curativo das palavras [tradução 26]

Depois de muito tempo sem trazer uma tradução por aqui, resolvi voltar com uma que, logo de cara, chamou a minha atenção pelo título — forte, não? — e que, depois, mostrou-se um pouco diferente do que costumo trazer nesta seção.

Quer dizer, o artigo ainda fala sobre leitura e literatura, mas, dessa vez, com um pouco de psicologia também. Não à toa, ele foi escrito pela doutora Anna Rossi, uma psicoterapeuta.

Encontrei o texto no site da própria doutora Anna, sem a data de publicação. Caso queira conferir o original, basta clicar aqui. E abaixo você poderá ler a minha tradução.


“Cada leitor, quando lê, lê a si mesmo” (Marcel Proust)

“Essa é a parte mais bonita de toda a literatura: descobrir que os seus desejos são desejos universais, que você não está só ou isolado de ninguém. Você pertence” (Francis Scott Fitzgerald)

Contar sobre si faz bem. Sabem bem disso os psicoterapeutas que descobrem nas narrações de histórias de vida dos pacientes o meio pelo qual alcançar maiores níveis de bem-estar.

Falar sobre si nos torna visíveis, a nós mesmos e ao mundo. Abre um espaço de compartilhamento com o outro, talvez justamente no território tão temido das fragilidades humanas. Dá às histórias vividas a possibilidade de serem escutadas e acolhidas com curiosidade, que vem do latim “cuidado”, com interesse autêntico e sem julgamentos. Contar histórias cria alianças, nos liga intimamente a quem as escuta.

Contar sobre si equivale a percorrer de novo as experiências de vida passadas, na presença de uma testemunha, para atualizá-las e conferir-lhes finalmente um sentido. Um sentido que talvez seja precário, remodelável, não definitivo. Mas que, mesmo assim, é sentido e, como tal, é capaz de oferecer continuidade, coerência e unidade àquilo que somos e sentimos. Falar sobre si na terapia significa escrever e reescrever a própria história. De maneira inédita, pessoal, criativa, que seja fonte de paz com o passado e trampolim para um salto responsável em direção ao possível.

Contar-se através da escrita, para além do espaço terapêutico, é, no fundo, algo muito parecido ao que acabamos de dizer. E talvez já soubessem bem disso aqueles autores do presente e do passado que fizeram da escrita seu antídoto pessoal contra a dor. Que através da criação de mundos e histórias deram espaço ao vivido, aos desejos, ao sofrimento e àquelas insistentes questões existenciais que não encontraram outro lugar no mundo lá fora. Que, assim, deram direito ao próprio ponto de vista de existir no mundo, mesmo que este fosse cheio de zonas sombrias e de contradições não resolvidas. Que puderam finalmente confiar a nomes e personagens aquela pluralidade de vozes guardada em suas almas e um significado àquilo, pouco ou muito, que da vida puderam experimentar. 

Se contar histórias faz bem, e faz, o que acontece quando abrimos as portas às histórias de um outro? Marielle Macé, diretora de pesquisa no CNRS e docente de literatura na EHESS e na Universidade de Nova York, se coloca a pesquisar sobre aquilo que acontece na mente do leitor de uma perspectiva que faz referência à atividade, atualmente já mais conhecida, dos neurônios espelho. Em Façons de lire, manières d’être ela afirma: “a experiência concreta do sentido tem uma verdadeira dimensão motora, e não apenas intelectual. Olhando o fazer ou o pensar dos personagens, nós esboçamos gestou ou pseudo gestos; […] a compreensão não é inerte, consiste precisamente no ativar em nós simulações gestuais […]”. E não podemos não estar de acordo com ela. Ler desempenha uma importante função na compreensão da mente dos outros e na potencialização da empatia. Permite desenvolver uma melhor teoria da mente, como demonstra o estudo de David Comer Kidd e Emanuele Castano da Nova Escola de Pesquisa Social de Nova Iorque, cujos resultados foram publicados na revista Science. “Exatamente como na vida real, a literatura é rica de indivíduos complexos, cujo mundo interior não podemos compreender se não com uma capacidade de investigação psicológica bastante refinada” explica Castanos. Através da escuta de uma história o leitor consegue acessar o mundo emotivo e cognitivo dos personagens, observar as variações e as evoluções dos estados de ânimos deles, visualizar as consequências dos sentimentos e das ações deles. Ler histórias é como ser jogado dentro de um espaço laboratorial onde se pode experimentar as infinitas nuances da emotividade humana e as múltiplas declinações da identidade. Onde poder viver, simulando, inúmeros acontecimentos. E através desta experimentação, aprender a refletir sobre si, a compreender melhor o próprio mundo interno, as suas facetas e a sua complexidade. A se tornar mais consciente dos mecanismos que estão sujeitos ao sofrimento, a entender que essa é uma experiência universal que nos une aos outros e não que nos separa. A perdoar os nossos limites e a ser mais compassivo com as nossas vulnerabilidades. A cultivar a confiança nas mudanças que, afinal, são a lei da vida.

As histórias dos outros nos dão a possibilidade de encontrar e nos aproximar, gradualmente e sem sobressaltos àquelas emoções que nos dizem respeito mas que tendemos a fugir por medo de ter de reconhecê-las em nós e ter de confrontá-las. Vê-las agindo em personagens que não somos nós, nos ajuda a torná-las familiares, menos assustadoras. Nos ensina a tê-las por perto sem medo.

A narrativa é, portanto, para todos os efeitos, um potente instrumento de autoexploração e cuidado. E, durante a terapia, pode ser o lugar pelo qual o paciente e o terapeuta se encontram para depois, juntos, encaminhar-se em direção a outras possibilidades.


E aí, o que achou?

Já li muitos texto que falam sobre como pessoas que leem muito são mais empáticas, mas achei interessante que, nesse texto, há todo um destaque para a importância de não apenas ouvirmos outras histórias, mas também contarmos a nossa.

Dia mundial do livro: 8 motivos pelos quais livros melhoram a sua vida [tradução 25]

Que eu sou apaixonada por livros, isso não é segredo para ninguém. Mas sou muito ruim com datas literárias e, por pouco, não perco o timing desta tradução.

Procurando algo bacana para trazer aqui, encontrei este artigo escrito por Federica Ponza, em 23 de abril de 2019, e publicado no site Solo Libri.

Abaixo você encontra a tradução desse artigo, com 8 motivos pelos quais, de acordo com Federica Ponza, os livros melhoram a nossa vida


No dia 23 de abril é celebrada o dia mundial do livro e achamos que não há ocasião melhor para elencar os motivos pelos quais os livros tornam a sua vida melhor.

Os leitores sabem que um livro pode fazer a diferença na vida e cada um tem os seus motivos para amá-los, mas existem alguns que mais ou menos acomunam todos aqueles que são apaixonados pela leitura e pelos livros.

O dia mundial do livro e dos direitos autorais é um evento patrocinado pela UNESCO e que nasceu para promover e incentivar a leitura, a publicação dos livros, além da proteção da propriedade intelectual com o copyright.

Agora, mais que nunca, é bom lembrar quais são os motivos para escolher ler ou comprar um livro, mesmo à luz dos últimos dados do ISTAT sobre a leitura, que não deixam um quadro muito encorajador. Por esse motivo, aqui vão alguns motivos pelos quais os livros melhoram a vida.

1. Nunca te deixam sozinho/a

“Os livros, eles nunca te abandonam. Você certamente os abandona vez ou outra, os livros, os traí também; eles, pelo contrário, não te viram jamais as costas: no mais completo silêncio e con imensa humildade, eles te esperam sobre as prateleiras” (Amos Oz)

Um leitor sabe bem: com um livro na bolsa, a solidão desaparece ou assume um significado totalmente diferente.

Os livros, de fato, têm essa maravilhosa capacidade de te manter sempre acompanhado: quem poderia se sentir só e abandonado quando passa suas horas em companhia de belíssimos personagens que a literatura sabe e soube nos presentear?

Um leitor não teme a solidão, mas sabe apreciá-la e desfrutá-la ao máximo para mergulhar nas páginas de um lindo livro e viver uma nova aventura.

2. O cheiro das páginas esconde o segredo da felicidade

“Entre na livraria e aspire aquele cheiro de papel e magia que, inexplicavelmente, ninguém ainda pensou em engarrafar” (Carlos Ruiz Zafón)

Cada leitor verdadeiro sabe que no cheiro das páginas dos livros se esconde o segredo da felicidade: basta abrir um livro e mergulhar o nariz dentro das páginas para sentir uma inexplicável sensação de alegria e paz com o mundo.

Não importa se são livros novos ou usados, quando abrimos um livro, sentimos sempre uma grande e (aparentemente) inexplicável alegria.

Em suma, diante do cheiro das páginas dos livros não existe chateação ou mau humor que resista: o sorriso volta imediatamente aos lábios.

3. Te levam para onde você quiser

“Esta longa viagem imóvel que chamamos de leitura” (Guy Goffette)

Um livro sabe te fazer viajar e ir longe, mesmo estando sempre no mesmo lugar. Uma das maiores qualidades de um livro, de fato, é que eles são capazes de te levar onde for: quer seja na floresta da Malásia, com Sandokan, quer seja entre os corredores de uma escola de magia, com Harry Potter, os lugares nos quais te permite viajar são realmente infinitos.

4. Te ajudam a conhecer melhor a você mesmo/a

“Cada leitor, quando lê, lê a si mesmo. A obra do escritor é apenas uma espécie de instrumento ótico oferecido ao leitor para lhe permitir discernir o que, sem ela, talvez não pudesse ver em si mesmo” (Marcel Proust)

Acontece com frequência de lermos um livro e encontrarmos algo que fala de nós mesmos: você não entende como os personagens e as histórias são parecidas àquelas da sua vida ou mesmo quando completamente diferentes, encontram um modo de te revelar algo a mais sobre aquilo que você é.

Muitos leitores, aliás, se surpreendem pensando em si mesmos ou nos eventos da própria vida de maneira diferente depois da leitura de um belo livro. E, em muitas ocasiões, ler um livro pode concretamente fazer a diferença na vida e nas experiências das pessoas. Experimente para acreditar.

5. Te presenteiam com novos olhos para enxergar o mundo

Os livros têm a grande qualidade de te impulsionar a ver o mundo ao seu redor de modo diferente: cada um deles sabe te presentear com novos olhos para observar, abrindo portas e mundos que você não achava que fossem possíveis.

Uma qualidade não pequena, principalmente para aquelas pessoas que são naturalmente curiosas e amam ver as coisas de todos os pontos de vista possíveis.

Um livro, com efeito, contém o ponto de vista de um outro alguém sobre as coisas: se você parar para pensar, são um dos poucos instrumentos que te permitem realmente se colocar no lugar do outro e olhar através dos seus olhos.

6. Abrem a mente e o coração

“Os livros me enchiam a cabeça e alargavam a testa. Lê-los era como desencalhar o barco: o nariz era a proa; as linha, ondas” (Erri De Luca)

Um livro tem um poder realmente imenso: aquele de abrir seja a mente, seja o coração:

  • A mente porque te ajuda a conhecer novas coisas e a aprender sempre mais, mantendo o cérebro ativo e fazendo com que a sua cabeça não pare nunca de trabalhar da melhor maneira possível.
  • O coração porque, através das emoções que as histórias contidas nele sabem desapertar, pode-se experimentar todas as sensações que o ser humano conhece e vive.

Amor, medo, ternura, ansiedade, tristeza, alegria: de página em página, em uma viagem realmente única.

7. Te fazem viver muitas vidas

“Quem não lê, aos 70 anos terá vivido uma só vida: a própria. Quem lê, terá vivido 5000 anos: era vivo quando Caim matou Abel, quando Renzo casou com Lucia, quando Leopardi admirava o infinito… porque a leitura é uma imortalidade de trás para frente” (Umberto Eco)

Nada de mais verdadeiro: ser leitor de livros significa estender a própria existência a infinitas outras, vivendo todas aquelas dos personagens que se encontrarão entre uma página e outra. 

Sem exageros, os livros são uma das poucas coisas que te permitem se aproximar à sensação de infinito.

8. São companheiros de vida extraordinários

“Você entende que leu um bom livro quando vira a última página e se sente como se tivesse perdido um amigo” (Paul Sweeney)

Quem ama ler livros não tem dúvidas: estão entre as melhores companhias que se pode ter! Eliminam o tédio, apagam a solidão, te fazer conhecer pessoas extraordinárias (de verdade ou inventadas), fazem você se apaixonar, são os seus melhores amigos, te dão alegria, te fazem refletir, te acompanham em cada viagem ou experiência, te fazem se sentir abraçado.

Essas são algumas das características que tornam os livros companheiros de vida realmente extraordinários, como um verdadeiro amigo que você conhece a vida toda e que está sempre ali por você. Um amor para toda a vida.

Agora que te demos os nossos motivos pelos quais um livro pode melhorar a sua vida, nos conte quais são os seus nos comentários deste artigo.


E aí, qual é a sua opinião? Acha que ficou faltando algo nessa lista? Então não deixe de comentar!

Algumas considerações sobre grupos de leitura [tradução 24]

Imersa no segmento literário das redes sociais, muitas foram as vezes que vi chamadas para leituras coletivas e clubes de leitura. Nunca tive coragem, porém, de me aventurar nesses universos.

Reconheço, contudo, que essas práticas têm muito a agregar e trazem inúmeros benefícios a seus participantes e, por isso, hoje resolvi trazer a tradução de um artigo que fala justamente sobre essa temática.

O texto original foi escrito por Morgan Palmas, em 30/10/2009, no site Sul Romanzo, e você pode conferi-lo aqui. Apesar de publicado há anos, é impressionante como ele continua atual e certeiro.


Na Itália, a prática da leitura está em declínio, como se sabe, mas, por outro lado — ou talvez justamente por isso — percebe-se, por parte de quem lê habitualmente, uma forte necessidade de encontrar-se e dividi-la. Porque essa categoria de pessoa existe e é bem presente, mesmo que rara: cada biblioteca ou livraria tem os seus habitués, talvez apenas um ou dois, mas eles são muito presentes, amam os livros e amam falar de livros.

Na esteira de um hábito difundido principalmente em países anglófanos e hispânicos, estão espalhando-se entre nós, então, aqueles que são chamados Grupos de Leitura.

Moda? Imitação?

Claro, às vezes o pontapé inicial para a criação de um grupo também pode ser esse, mas muitas vezes reunir-se é uma necessidade real dos indivíduos para compartilhar interesses e paixões

Mas o que é um Grupo de Leitura?

É uma ponte entre a leitura individual e aquela coletiva.

No primeiro caso temos um leitor sozinho consigo mesmo e o seu livro em uma leitura silenciosa e íntima. No segundo, uma ou mais pessoas que se alternam lendo em voz alta um texto para os outros.

No Grupo de Leitura, “mais pessoas leem ao mesmo tempo um livro” (para usar uma definição agora consolidada) e depois se reúnem para discutir, juntas, sensações e problemáticas que ele provocou nelas.

O objetivo é justamente aprofundar e enriquecer-se mutuamente em uma análise de leitura não imposta (como pode acabar sendo uma palestra crítica ou mesmo uma leitura coletiva), mas elaborada pelo indivíduo e desenvolvida na pluralidade.

Aquilo que move as pessoas a juntar-se, além disso, é o interesse pela leitura em si, não circunscrita a um único texto ou livro.

Mas onde e quando se reúne um Grupo de Leitura?

Não há a necessidade de sedes especiais: na prática, basta um cômodo tranquilo com um círculo de cadeiras, de modo que todos possam olhar-se cara a cara. Geralmente quem patrocina ou propõe a iniciativa é uma Biblioteca ou uma Livraria, mas também conheço Grupos de Leitura que se encontram em Círculos Culturais ou Associações várias. Não é o lugar que cria o grupo, mas a vontade de se encontrar. No verão, uma solução simpática pode ser um jardim ou um quintal sombreado.

O único requisito é a vontade e a disponibilidade para ouvir e compartilhar.

A frequência (semanal, mensal ou qual for) é decidida pelo grupo mesmo, conforme os tempos e as exigências dos participantes.

Que regras deve ter um Grupo de Leitura?

No âmbito inglês foi elaborado um regulamento muito rígido, mas, pessoalmente, acho isso um pouco limitante. Acho que para além das regras comuns da boa educação, depende do grupo se autodeterminar as regras adequadas ao próprio caso.

De maneira geral, vale aquela (bem óbvia) de que só quem leu o livro pode pedir a palavra, mas as perguntas ou intervenções mesmo de quem não leu podem ser escutadas, principalmente quando se abordam temas mais gerais retirados da leitura.

Um coordenador pode ser útil, sobretudo no começo, e para fazer e atualizar a lista dos participantes (caso desejem fazê-la para simplificar as eventuais comunicações entre um encontro e outro) e gerenciar as questões práticas relacionadas, por exemplo, ao local. O importante é que a pessoa tenha a capacidade de permanecer no círculo, de ser justo com os outros, sem abuso e sem firmar-se como centro da reunião, caso contrário tudo descamba em uma exposição passiva, não em uma participação coral.

É importante lembrar que cada grupo é um mundo em si, em contínua evolução, depende somente da vontade dos participantes que podem mudar, suceder-se, alterna-se nos vários encontros.

Mas como se escolhe um livro?

O grupo o escolhe. Pela maioria, fazendo uma seleção entre alguns propostos, ao acaso pela internet, seguindo um gênero ou uma temática… Pode-se elaborar um calendário sazonal, por exemplo, ou estabelecer a cada encontro.

O importante é que sejam textos que podem gerar discussões dentro do grupo.

Em geral, para a primeira reunião, aqueles de quem parte a iniciativa escolhem um livro que sabem que podem interessar o maior número de pessoas, não para impor as coisas, mas justamente para dar o pontapé inicial e quebrar o gelo.

Quem participa de um Grupo de Leitura?

Quem ama ler e falar sobre aquilo que leu. Bastam duas pessoas (em tese) para formar um Grupo. Obviamente, quanto mais pessoas participam, mais se sente o enriquecimento, mas também só de poder falar com outra pessoa já é positivo.

Geralmente, a predominância feminina nesses encontros é esmagadora.

Mas, em resumo, por que eu deveria participar de um Grupo de Leitura?

Para além do simples prazer de compartilhar e comunicar para os outros as próprias impressões, pode-se encontrar um enriquecimento pessoal inesperado.

Impelidos pela vontade de participar, podemos encontrar livros ou gêneros que jamais, por preconceito ou outros motivos, teríamos aberto ou que jamais teríamos ido além das primeiras páginas por nossa própria conta. Acontece. Como pode acontecer de descobrirmos que gostamos ou que ao menos valia a pena lê-los.

Quando lemos, colocamos muito de nós na leitura, notamos detalhes, interpretamos fatos. Mas as chaves de leitura são diversas e incontáveis: perceber, através dos comentários sobre o mesmo texto, fatos dos outros, com outros percursos e outros pontos de vista é muito estimulante e ajuda a expandir os horizontes. De repente, sentimos vontade de reler, de perceber coisas que nos fugiram. Ou, por outro lado, destacar aquilo que fugiu aos outros. Ou aprofundar por nossa conta temas não abordados antes.

Um diferencial pode ser, durante a reunião, a leitura de frases ou pequenos trechos que os participantes tenham achado, de alguma maneira, estimulantes para a conversação.

Em geral, discutir junto permite refletir sobre o quanto se leu, não esquecer de imediato, mas elaborar a leitura e focar melhor os conceitos e sensações. Parar, apropriar-se de tempos que muitas vezes perdemos, arrastados pela fúria do fazer.

Enfim, para retomar o início do discurso, reunir-se dá a sensação de não estar sozinho em uma ocupação tão pouco considerada nos dias de hoje, que é a leitura.

Vale reiterar que ler não é inútil.

Na internet, muitos são os sites que se ocupam de Grupos de Leitura ou que os organizam, lembro, dentre estes: http://gruppodilettura.wordpress.com/


Ufa, chegou até aqui? Qual é a sua opinião sobre grupos de leitura? Participa de algum?

Quero aproveitar o tema para deixar uma super dica para você que, além de ler, estuda italiano: conheça o grupo de leitura Leggiamo Tutti e se inscreva! O primeiro encontro será dia 12 de março, não fique de fora.

Presentear quem você ama com um livro [tradução 22]

Já que hoje é um dia especial para mim (meu aniversário) e também dia de tradução por aqui, resolvi falar um pouco sobre o hábito de dar livros de presente.

Confesso que, para muitas pessoas, a primeira coisa que penso em comprar quando chega a hora de presentear é, claro, em livros. Mas também me esforço para não dar sempre livros, mesmo sabendo que cada um é único e é um universo.

No final das contas, o artigo escolhido para hoje fala justamente sobre isso: sobre o poder dos livros e como eles são um presente e tanto.

Então te deixo aqui com a tradução de Regalare un libro a chi si ama, escrito por Valeria Sabater, em 15 de novembro de 2021, no site La mente è meravigliosa.


Quando amamos alguém, dar um livro de presente é o melhor que podemos fazer. Se você tem um amigo com quem se importa, escolha um livro especial para ele. Que seja um romance, um ensaio, um manual de autoajuda, um livro de culinária ou uma antologia, cada livro contém um universo de conhecimentos que nos enriquece e, ao mesmo tempo, nos torna mais livres.

O dia 23 de abril é a jornada mundial do livro. Como bem sabemos, este dia é rico em eventos voltados para a leitura, que nos colocam em contato com os nossos escritores preferidos, nos fazendo refletir sobre o trabalho deles e também nos lembrando da importância das bibliotecas.

Um mundo sem livros não seria um mundo. Estaríamos perdidos em um prédio nu, sem portas para o aprendizado, a aventura, a descoberta. Valorizar o mundo dos livros e da leitura é fundamental. Descobrir novos autores e nos abrir para outros gêneros para tomar consciência da imensidão dessa babel é uma experiência magnífica.

Além disso, como dizia Jorge Luis Borges, de todos os instrumentos inventados pelo homem, o mais surpreendente é o livro, porque é uma maravilhosa extensão da nossa imaginação e memória.

Porque presentear com um livro quem amamos

Existem livros mal escritos e livros inesquecíveis. Existem livros para passar o tempo e outros que deixam uma marca. Alguns nos fazem descobrir novas perspectivas, outros nos envolvem em suas tramas policiais e com outros ainda experimentamos arrepios de terror.

Dizem, também, que não existe nada como as primeiras leituras da infância e da adolescência, momentos nos quais alguns títulos mudaram nossas vidas e conseguiram abrir a nossa mente para novas paixões, conhecimentos e hobbies.

Os primeiros contatos com a leitura podem acontecer com Jules Verne ou Arthur Conan Doyle para depois chegar à maturidade, devorando todos os gêneros e autores. Às vezes precisamos dos clássicos como Cechov, voltar à Montanha Mágica, de Thomas Mann, ou descobrir as últimas novidades de Joël Dicker ou Ian McEwan. Ou seja, o que conta, depois de tudo, é o prazer em mergulhar em um mar de palavras e se deixar levar.

Em Viagem à Inglaterra, um estudante diz ao personagem, que nos filmes é interpretado por Anthony Hopkins, que as pessoas leem para não se sentirem sozinhas. Talvez seja verdade, talvez não, mas os autores desejam despertar o nosso interesse pela leitura: quanto mais lermos, melhor será.

No entanto, os verdadeiros amantes da leitura não fazem das livrarias a sua segunda casa somente pelo prazer em ler. Os livros oferecem a oportunidade de pensar.

A arte de escolher um título para uma pessoa especial

Quando temos uma pessoa de particular estima, o ideal é presentear com um livro. Um livro não é um objeto de uso, não é somente uma capa ou um amontoado de folhas. O conhecimento é inerente ao seu interior. Em cada página existem dezenas de pensamentos e reflexões. Se se trata de uma romance, passaremos um tempo, muitas vezes inesquecível, com os personagens e as suas emoções.

Geralmente, quando presenteamos alguém com um livro, não o fazemos de maneira casual. Muitas vezes, aliás, tendemos a escolher os títulos que nos fascinaram.

Desejamos que a pessoa que receberá o nosso presente experimente aquilo que nós experimentamos com aquela leitura. Não vemos a hora de compartilhar experiências e viajar em direção aos mesmos mundos descritos na trama.

Companheiro, amigo, colega ou filho… Dê um livro de presente!

Existem livros para entender o mundo. Existem livros que nos ensinam, que nos ajudam. Existem aqueles que nos entretêm e também aqueles que nos marcam para sempre. Se você conhece alguém que, como você, sofre de bibliofilia, dê-lhe um livro, um que te tenha fascinado e que você não consegue esquecer.

Se você tem um amigo, um familiar ou um colega que prefere as séries à leitura, não jogue a toalha: presenteie-o com um livro. O importante é escolhê-lo bem. Sondar os seus gostos e surpreendê-lo com um título ao qual não poderá resistir.

Por outro lado, se você tem filhos, sobrinhos, irmãos ou amigos com crianças, não hesite em dar a eles um livro, não importa quantos anos tenham. Você fará um favor a eles, dando-lhes uma chave para viajar, descobrir, ser livres e voar alto.

Quando descobrimos o prazer de ler durante a infância, não existe remédio. É um veneno sem antídoto, mas com um tratamento paliativo: leituras frequentes, e quanto mais, melhor.

Cedo ou tarde, como dizia Thomas Carlyle, descobriremos que os livros são amigos que não nos decepcionam jamais. Tenhamos eles em mente, nos circundemos deles e não paremos mais de dá-los de presente.


E aí, você costuma dar livros de presente? Tem facilidade em escolhê-los?

Ler e reler: uma teoria sobre a leitura [tradução 21]

Você tem o hábito de reler livros?

Eu não tenho (o que não significa que eu nunca releia livros, ok?), e provavelmente já falei isso aqui outras vezes. Sou daquelas pessoas que acha que a vida é muito curta para ler tudo o que queremos, então não dá para ficar relendo livros, por melhor que eles sejam.

Deparei-me, porém, com um texto muito interessante sobre o ato de ler e reler e achei que seria interessante trazê-lo aqui e saber o que você pensa sobre isso.

Você me acompanha nessa? O texto original foi postado no Il libraio, em 27 de dezembro de 2020 e aqui embaixo você encontra a minha tradução.


Por que precisamos ler? E por que, às vezes, desejamos reler um livro que gostamos? E se nós gostamos, podemos dizer que aquela obra é “objetivamente” um texto de valor? Partindo das teorias da recepção, um aprofundamento sobre a experiência da leitura, sobre o papel do leitor e sobre a nossa capacidade de compreender de verdade aquilo que lemos.

Por que temos necessidade de ler? De onde nasce essa exigência?

São diversas as razões pelas quais nos aproximamos de um texto, mas se refletirmos um pouco, podemos detectar dois motivos principais: a necessidade de conhecer informações e a busca pelo prazer estético.

Reduzidas ao máximo, as duas motivações que nos conduzem à leitura são, portanto, opostas: de um lado somos movidos pelo útil; de outro, pelo agradável.

De qualquer forma, seja qual for o motor, a leitura é uma atividade que requer um gasto de tempo e de energia e, por isso, cada leitor, quando se aproxima de um livro, espera ser recompensado pelo manzoniano cansaço de ler.

Trata-se, no entanto, para usar as palavras do crítico Vittorio Spinazzola, “em um confronto entre custo e benefício: quanto me custou a leitura daquele texto, a respeito do empenho que tive de empregar para me apropriar dele? Se se trata de uma leitura literária, a pergunta é: que riqueza e intensidade de prazer da imaginação eu alcancei?”.

O papel do leitor

Desde quando começaram a circular as teorias sobre a leitura e sobre a recepção, no mundo literário, o leitor assumiu um papel central, quase mais que o escritor e o editor: sem ele, a obra literária em si não existe, se é verdade que esta última é uma pião que ganha vida quando está em movimento, ou seja, quando alguém a lê.

Em Que é a literatura? (1947) o filósofo existencialista Jean Paul Sartre defende que sem leitores não há literatura: na prática, um livro, se não é lido por ninguém, é só um objeto material sem significado. Um amontoado de folhas cheias de palavras e tinta, sem valor algum. Existe, portanto, um vínculo fortíssimo entre quem lê e quem escreve, inclusive porque sempre se escreve para ser lido (até por si mesmo, visto que todo escritor é, antes de nada nada, leitor).

O valor de uma obra

Depois da revolução do romance, ler se transformou em um fenômeno extremamente pessoal e individual. Um gesto mudo, solitário, íntimo. Cada leitor, quando entra em contato com um texto, carrega consigo uma bagagem de conhecimentos, o seu percurso literário, um gosto pessoal e a sua própria sensibilidade. Pode-se dizer, portanto, que cada um formula juízos diferentes dos outros e que cada um desses juízos têm a sua razão de ser.

Mas então não existe objetividade na avaliação de um texto?

Não exatamente. Porque se é verdade que o juízo estético muda de pessoa para pessoa, também é verdade que o valor de uma obra literária pode ser estabelecido somente por leitores conscientes, espertos, estudiosos e literários. E não por leitores de puro prazer, para deixar claro.

Um exemplo? Eu posso dizer que subjetivamente eu não gosto de Os noivos, mas objetivamente não posso deixar de reconhecer seu valor literário. É preciso, portanto, distinguir (pelo menos no plano teórico) entre leitura de gosto e leitura de competência, mesmo que, como nos lembra Spinazzola, seja quase impossível separá-los no plano prático: “do texto provém um apelo total, que investe a globalidade das nossas atitudes: competência e gosto são duas dimensões de atividade que se reforçam reciprocamente, na concretude do ler”.

As duas leituras estão, portanto, estritamente ligadas: quanto mais me torno competente, mais meu gosto se afina. Por outro lado, o meu desejo de ser educado é feito da minha atitude, do quanto gosto ou não de ler.

Ler e reler

Vocês já se perguntaram por que releem um livro? A resposta certa, como geralmente acontece, é aquela mais imediata: relemos um livro porque gostamos dele. Porque os nossos esforços de leitura foram bem recompensados e, portanto estamos dispostos a renovar aquela experiência.

O ato de reler possui, porém, uma natureza mais profunda e consciente, e pode decretar efetivamente o valor de um texto. De um lado porque resolver voltar a um livro significa que aquele livro conseguiu satisfazer as nossas necessidades e as nossas expectativas; de outro, porque a segunda leitura será mais diligente e crítica que a primeira, na qual não podíamos estar particularmente atentos, porque estávamos nos movendo principalmente pela curiosidade (o literário Karlheinz Stierle a considera, com efeito, uma “não leitura”).

Ler uma segunda vez é, portanto, uma ação mais literária e formal: é dirigida a uma recolha das técnicas e das complexidades de uma obra, a decifrar os significados profundos, a não se deixar levar exclusivamente pelos eventos da trama. Não para exclusivamente no conteúdo e, por isso, pode compreender verdadeiramente a essência e o valor do escrito.

É sempre Spinazzola quem escreve: “segundo Gramsci o povo lê ‘conteudicamente’, procurando no apêndice melodramático uma consolação para os seus problemas e uma revanche imaginada das injustiças que sofre. Só o leitor educado literariamente educado sabe evitar as armadilhas de sonhar de olhos abertos”.

Ler com consciência

Pode-se, portanto, deduzir que ler é uma prática subjetiva que, como dissemos no início, deve satisfazer necessidades ou prazeres pessoais; reler, por outro lado, é uma ação orientada em um sentido mais objetivo, porque visa a um aprofundamento de alguns aspectos do texto — o estilo da prosa, a voz do autor, o papel e o significado social da ópera — que antes haviam passado em segundo plano.

Claro, não significa que a releitura seja sempre uma vitória, aliás, é possível que um livro que você tenha gostado uma vez possa não te agradar em uma releitura. Ao contrário, um livro que não havia agradado no passado pode nos surpreender positivamente e desmentir o juízo que havíamos feito anteriormente.

O que é certo é que para de tornar um leitor consciente é preciso ler e reler: só tendo múltiplos termos de comparação se poderá alcançar os instrumentos necessários para decifrar o valor do texto que temos diante dos olhos. E só assim poderemos finalmente nos aproximar da leitura de modo total e completo.

(Re)começar a ser leitor: cinco conselhos para aproximar-se da leitura [tradução 20]

Há quem diga que 2021 passou voando e há quem diga que não. Há também quem diga que não consegue diferenciar 2020 e 2021. Seja qual for o seu barco, há uma coisa na qual não podemos discordar: estamos em dezembro de 2021. E com a aproximação das festas de final de ano, tem gente que já está pensando nas metas para 2022.

Como não poderia deixar de ser — visto o assunto principal deste blog — é uma alegria imensa quando vejo pessoas dizendo que querem retomar o hábito da leitura ou então acrescentar este hábito à rotina. Mas eu também sei que nem sempre é fácil alcançar essa meta, por diversos motivos (ou, às vezes, desculpas).

Pensando nisso, resolvi traduzir um artigo sobre um tema que já comentei por aqui (em traduções como 3 passos para voltar a ler, ou em posts 100% autorais, tal qual o como começar a ler), porque acho que ele não se esgota e também por ser o momento ideal de trazer um incentivo a quem pensa em concretizar essa meta em 2022.

Assim sendo, hoje vamos falar sobre como podemos nos tornar ou voltarmos a ser leitores. O post original foi escrito pela Claudia, é de 25 de outubro de 2017 e foi publicado no blog Giro del Mondo attraverso i libri. Você pode conferi-lo neste link. A tradução dele para o português (feita por mim) está aqui embaixo.

Antes de passarmos a ela, porém, gostaria apenas de explicar que o artigo original refere-se a um público plural (vocês), enquanto eu preferi manter o tom que costumo usar aqui, ou seja, o singular. Além disso, infelizmente, algumas dicas e pontos são mais específicos para o público italiano (como sites ou eventos), mas vale lembrar que também temos iniciativas similares por aqui e que, querendo alguma dica mais específica, estou à disposição.

E, sem mais delongas, passemos à tradução!


Com o passar do tempo, muitas coisas podem mudar em nós: é possível que nasçam novas paixões e que outras sejam deixadas de lado. Depois de muitos anos sem ler, pode ser que volte a vontade de tentar novamente, de pegar outra vez um livro nas mãos, seja por ter ouvido falar muito dele, ou porque você tenha a necessidade de ler uma determinada obra para o trabalho. Todos nós fomos “leitores”: durante os anos escolares nos foram atribuídas leituras, mas alguns de nós, uma vez concluída a escola, decidiram não mais ler, por diversos motivos.

Recomeçar a ler depois de tanto tempo é um pouco come começar a correr: não se começa inscrevendo-se na maratona de Nova York, mas correndo apenas dois minutos por vez (e acredite, para quem não está treinado, dois minutos são muito longos e a falta de fôlego logo chega).

Para recomeçar a ler também é preciso caminhar em níveis: para quem se reaproxima da leitura eu não sugeriria começar a ler “Guerra e Paz” de Lev Tolstoj, não acredito que a pessoa chegaria nem mesmo ao final do primeiro capítulo. Mas então como recomeçar a ler? O artigo que você está lendo é um compêndio de cinco pontos que ilustram uma possível aproximação à leitura para jovens e adultos que queiram recomeçar a ler. Espero que esse texto possa ser útil e fornecer alguma sugestão interessante.

1. A leitura: empenho, mas grandes satisfações

Os professores escolares, durantes os anos de escola, atribuem leituras vistas pelos estudantes como “obrigatórias”: a leitura de um livro é simplesmente a passagem necessária para entregar a atividade sobre o livro e obter uma boa nota de italiano. Às vezes os estudantes apreciam os textos sugeridos pelos professores, mas geralmente, terminados os estudos, faltando a motivação da boa nota, os jovens não buscam mais por uma oportunidade para ler.

Como proceder para (re)começar a ler? Em primeiro lugar, é importante saber que a leitura é uma atividade trabalhosa, não do ponto de vista físico, mas mental: antes de mais nada, é preciso ter concentração e motivação para ler um livro. Recomeçar a ler depois de tanto tempo, no início, vai requerer muito empenho — para terminar um livro é necessário muito mais em relação ao amigos leitores — mas chegando ao fim do volume, a satisfação será imensa. Em primeiro lugar, é preciso encontrar tempo para ler…

2. O tempo para ler: a leitura não é uma competição

Mas quem tem tempo de ler nos dias de hoje? As muitas e inúmeras coisas para acompanhar inegavelmente levam embora tempo e energia. Os amigos leitores dirão para ler nos recortes de tempo: nada de mais errado.

Quem não está habituado a ler não pode pensar em ler nos retalhos de tempo: poucos minutos livres não são suficientes para mergulhar completamente na história. Além disso, não aconselharia a ler nos meios públicos ou nas salas de espera, simplesmente porque são lugares nos quais as pessoas falam ou fazem gestos ou coisas que podem distrair.

É necessários decidir dedicar um momento preciso do dia — buscando mantê-lo fixo para que se torne um rito cotidiano — e escolher um lugar o mais silencioso possível, para poder se concentrar sobre aquilo que você está lendo. Pode-se conseguir um tempo de leitura antes do jantar, ou antes de ir dormir, de manhã cedo ou ainda sacrificando um pouco de tempo da TV ou das redes sociais.

Além disso, é preciso ter em mente que ler é um prazer, não uma competição. Na internet pululam os Reading Challenge, verdadeiras maratonas de leitura, nas quais os leitores mais ou menos loucos leem muito e em grande velocidade. Veja, não preste atenção à velocidade da leitura, mas se preocupe com a qualidade da mesma. É preferível ler um livro bonito — apenas um — que ler quatro livros feios e um bonito. Lendo muito e com pressa, perdemos detalhes e lendo em demasia as histórias se mesclam umas às outras e será difícil, no futuro, lembrar do que foi lido.

3. A leitura não é cara

Sim, mas os livros custam. Bom, claro que custam, são produtos comerciais no fim das contas. Um bilhete de cinema custa, um jantar numa pizzaria custa, férias custam, o combustível para o carro custa. No entanto, nenhum de nós renuncia a uma tarde no cinema, uma pizza com os amigos, breves férias ou um passeio de carro. Ao contrário de todas as atividades mencionadas, existem várias maneiras de ler gratuitamente (ou quase):

  • Pegar emprestado livros da biblioteca: se não quiser arriscar gastar 20 reais em um livro que — talvez — não te agradará, passe em uma biblioteca. Com uma carteirinha gratuita, você terá acesso a ilimitados empréstimos.
  • Ofertas relâmpago de ebooks: se você tem um tablet pode baixar inúmeros livros em formato epub ou pdf [nt: que estejam legalmente disponíveis para isso] e lê-los comodamente no dispositivo que preferir; fique de olho na IBS.it ou Amazon, onde a cada dia são colocados à venda livros a patir de 0,99 centavos, enquanto geralmente a prévia dos romances é gratuita: você pode, portanto, ler os primeiros dois capítulos de um livro e decidir se quer comprá-lo ou não.
  • Fuce nos sebos: muitas vezes eles podem oferecem bons negócios e quase sempre os livros estão bem conservados.
  • Pegue emprestado com os amigos leitores!
  • Participe de eventos de bookcrossing (troca de livros físicos) ou inscreva-se gratuitamente no Acciobooks (plataforma de troca de livros on line).
  • Espere as ofertas que os editores fazem de tempos em tempos durante o ano: geralmente os livros recebem descontos de até 25% ou então procure entre os lembretes de sites como Mondadori Store ou IBS.it, às vezes os descontos chegam a 55%.

4. Mas o que eu leio? A escolha do livro

Existe um livro que foi feito para você e quando ler vai parecer que realmente foi escrito para você. É preciso apenas encontrá-lo! Na escolha do livro você pode ter a ajuda de diversos figuras:

  • O bibliotecário já mencionado, que conhece muito bem os livros e poderá aconselhar o romance certo.
  • O livreiro que saberá sugerir belas leituras.
  • O amigo que lê, aquele que emprestará o livro com algumas razões para lê-lo.
  • As resenhas nos jornais ou na internet podem ajudar a ter uma ideia dos livros “da moda” (ainda que não necessariamente o primeiro da lista seja o melhor).
  • Uma volta pelas redes sociais: nas páginas de editores italianos, de blogs que falam de livros, nos grupos de leitura no Facebook.
  • Participar de um grupo de leitura organizado pela biblioteca ou pela livraria do seu bairro: um grupo do tipo prevê que seja lido o mesmo livro em um determinado intervalo de tempo (geralmente um mês) e que a depois da leitura faça-se uma tarde de discussão.
  • Participar de feiras e eventos literários, existem durante todo o ano, espalhados pelo país: do famoso Salão Internacional do Livro de Turim ao BookPride de Milão, da Triestebookfest à Più libri, più liberi de Roma; procure nos stand das editoras e fale com eles: saberão certamente te sugerir um bom livro para ler.

5. Os benefícios da leitura

Mas a fadiga de ler compensa? Quais são os benefícios da leitura? Te digo sete, mas tenho certeza que existem muitos outros.

  • A leitura ajuda a melhorar e aumentar a concentração, em um mundo feito de distrações, não é pouca coisa.
  • Ler fornece inspiração: seja para uma viagem, um evento a ser organizado, um objeto a se criar.
  • Os livros melhoram as nossas capacidades críticas: aprendemos a ver lugares e pessoas de maneira diferente, nos ajuda a quebrar estereótipos e preconceitos e nos livros, na maior parte, existem personagens com os quais podemos nos identificar.
  • Aprendem-se noções, informações úteis para a vida cotidiana ou simples curiosidades.
  • Ler ajuda a melhorar o nosso modo de escrever e de falar, de explicar e expor conceitos. Nos ensina também palavras novas ou nos lembra de palavras que nunca usamos.
  • Os livros nos transportam para lugares e tempos distante, em épocas diferentes, em localidades que talvez nunca vejamos diretamente. Tudo apenas gastando alguns poucos reais e um pouco de contração e empenho.
  • Graças aos livros é possível encontrar tantas pessoas unidas pela mesma paixão. E tem quem diga que nenhuma amizade nasce mais rapidamente que aquela dos que amam os mesmos livros.

Eu digo que vale a pena recomeçar a ler, te asseguro que as fadigas iniciais serão recompensadas!

Usar ou não palavras em inglês na língua italiana [tradução 19]

Se tem um assunto que vira e mexe ressurge é a presença e o uso de termos em inglês nas demais línguas. Eu mesma já traduzi por aqui um artigo sobre isso, como você pode conferir aqui. O artigo em questão é bem interessante e pode ser uma boa introdução à discussão de hoje (ou seja: se você ainda não leu, vai lá ler!).

Recentemente, porém, uma aluna perguntou sobre isso e a minha curiosidade sobre o assunto retornou. Parece que nunca é satisfatório o nosso conhecimento sobre determinados temas e há sempre algo novo a se encontrar. Então resolvi trazer novamente o assunto à tona por aqui.

Desta vez, porém, com um artigo cujo título completo é Usar ou não palavras em inglês na língua italiana: o parecer da Accademia della Crusca. Para quem não sabe, a Crusca é a maior entidade linguística da língua italiana. Para nós, reles mortais (principalmente não falantes nativos), se “a Crusca” falou, tá falado.

O artigo em questão é bem recente, tendo sido publicado em 02 de abril de 2021. Foi escrito por Michele Razzetti e você pode conferir o original aqui. Traz, ainda, o seguinte cabeçalho: “Os ‘empréstimos linguísticos’ acendem sempre intensos debates. O último se intensifica há algumas semanas, tendo parte nisso Mario Draghi. Pedimos a Claudio Giovanardi, da Crusca, para nos esclarecer. Inclusive sobre um termo que há mais de um ano ouvimos com frequência, que é ‘lockdown'”.

Como você poderá conferir abaixo, porém, o artigo está longe de nos trazer uma resposta, mas carrega uma reflexão importante sobre o contexto no qual usamos palavras emprestadas de outras línguas. Então vamos para a tradução?


Em intervalos regulares, se reacende o debate sobre o uso de palavras inglesas, tecnicamente anglismo ou anglicismo (Tullio de Mauro, em 2016, apontava que este último termo também o é), na nossa língua. Aconteceu inclusive recentemente, depois da consideração improvisada de Mario Draghi, ao final da visita ao centro de vacinação anti-Covid do Aeroporto de Fiumicino, sobre a inglesização do vocabulário comum italiano.

Os tons do debate são geralmente exasperados e veem em oposição estrangeiristas declarados, prontos a aceitar sem críticas tudo o que chega de um país estrangeiro, e aqueles que gostariam de um italiano feito só de palavras não estrangeiras, como se isso sem dúvidas fosse realmente possível. Polarizar o confronto não faz bem a ninguém. Mas para superá-lo pedimos ajuda a Claudio Giovanardi, membro da Academia della Crusca, docente de Linguística italiana na Universidade Roma Tre e autor de Inglês-italiano 1 a 1. Traduzir ou não traduzir as palavras inglesas? (Manni), que se ocupou do assunto também no decorrer de 6per6, o festival que pela primeira vez colocou as ciências da linguagem ao vivo no Instagram.

A linguística histórica ajuda a colocar o debate em perspectiva e nos faz entender de imediato uma coisa: as línguas se confundem e se emprestam termos continuamente. Claro, aquelas que gozam de um prestígio sócio-cultural maior — o que, atenção, muda com o tempo — tendem a disseminá-los no mundo com força maior. “O inglês teve uma entrada explosiva no italiano a partir do final dos anos 70 até se tornar praticamente a única língua estrangeira estudada nas escolas em que se prevê apenas uma. Sobretudo aquele estadunidense, naquele tempo carregava consigo o poder político, econômico, cultural e científico. Mas não nos esqueçamos que pouco antes, o mais estudado foi o francês”.

O sucesso dos anglicismos é registrado também pelos vocabulários e pelas coleções de neologismos, instrumentos que medem a temperatura lexical de uma língua. “As pessoas nos dizem que existe um aumento significativo de palavras estrangeiras em italiano, sobretudo nos últimos 30 anos. O mundo empresarial faz um grandíssimo uso delas, assim como o meio acadêmico. As instituições culturais geralmente são as que mais se valem das palavras em inglês, fazendo um uso inútil destas.

De um ponto de vista teórico é interessante se perguntar se seria possível dispensar esses empréstimos. Para Giovannardi, sem dúvidas, sim: “Em seu próprio repertório uma língua de cultura rica como o italiano pode encontrar os recursos certos para evitar o uso do inglês; é compreensível que os objetos do âmbito tecnológico, por exemplo, nos cheguem com o nome em inglês, mas isso não significa que o italiano não possa ter os recursos internos para substituí-los“. Como, de um ponto de vista prático? Com uma tradução, um sinônimo ou uma adaptação. “Certo, é preciso entender se essa operação é econômica, porque muitos desses termos têm uma circulação europeia, ou até mesmo global”.

É preciso perguntar-se também se o inglês deve ser em todos os casos, evitado, demonizado como gostariam alguns. A resposta é negativa, porque o verdadeiro discriminativo para um uso sensato dos anglicismos é o contexto comunicativo, como muitas vezes acontece quando se fala uma língua. “Pessoalmente não tenho uma particular intolerância nos confrontos de um uso privado dos anglicismos. O grande problema diz respeito às palavras estrangeiras usadas nos contextos de comunicação pública. Contra este fenômeno é um dever cívico lutar“.

E é isso que faz o grupo Incipit da Accademia della Crusca, ao qual o próprio Giovanardi pertence: eles não pretendem traduzir todo e qualquer termo inglês, mas assinalar a entrada das palavras que impactam na vida pública (em detrimento daquelas sedimentadas e mais complexas de intervir). “Se uma lei é proposta a um cidadão, deve ser colocada em condições que se possam entender; depois, no bar, em casa ou debaixo do guarda-sol cada um pode falar como preferir”.

Mas nos discursos públicos, aqueles produzidos pelas instituições políticas, por exemplo, o inglês parece desempenhar um objetivo comunicativo de honestidade duvidosa. “Parece que usando um termo inglês para uma medida ou um evento potencialmente indesejado à opinião pública, possa-se amenizá-lo: penso na famosa spending review*, que nada mais é do que um corte nas despesas públicas. Sendo maliciosos, temos de pensar que o inglês consiga fazer passar essas medidas sem levantar grandes rebuliços”*.

Uma escolha precisa que não encontra respaldo em outras grandes democracias europeias. Não na Espanha e na França,** com as quais um confronto linguístico imediato é possível graças também à pandemia na qual nos vemos envolvidos. “Na Itália, logo enchemos a boca com lockdown, mas na França falou-se em confinement e na Espanha em confinamiento*. Talvez, nos contextos informais, espanhóis e franceses usem o anglicismos lockdown, mas nas comunicações públicas isso não acontece. Nós não poderíamos usar também confinamento? Talvez assim tivéssemos feito algo por todos aqueles que não têm familiaridade com a língua inglesa”*.

Em suma, talvez em uma situação de emergência como essa que estamos vivendo há meses, se pudesse esperar um mínimo de consciência linguística da parte de quem, quando fala, possui um importante papel de porta-voz.


E então, qual a sua opinião sobre o assunto? Eu gostei muito da ênfase dada na questão da situação em que acontece a comunicação e, ao mesmo tempo, para o fato de que, realmente, quando pensamos em um âmbito político-social é necessário pensar bem na escolha dos termos usados, afinal, se cada país tem a sua língua oficial, isso não é por acaso, certo?

Ler é bom, por que nós não gostamos? [tradução 18]

Dia desses vi alguém comentando que hoje, mais do que nunca, ler é importante. Difícil discordar, né? Quer dizer, acho que ler sempre foi importante, mas às vezes a gente perde a dimensão do quanto um livro pode nos abrir muitas portas. Por outro lado, sabemos como existem muitos não leitores por aí, mesmo com tantos estudos e publicações que demonstram os benefícios que esse hábito nos traz.

E foi pensando nessas questões que me deparei com um texto (quase uma entrevista de uma pergunta só) que achei muito interessante e que acrescentou alguns pontos à minha reflexão, principalmente por mencionar o papel das escolas (e, em menor grau, dos pais) nisso tudo. O texto em questão foi publicado com o título “Leggere è bello, perché non ci piace?”, no Popolis, em 25 de julho de 2002 e, abaixo, você poderá ler a tradução que fiz dele.

Antes, porém, gostaria de ressaltar que talvez a opinião do autor possa gerar uma pequena polêmica, ainda mais se pensarmos no contexto brasileiro, que carece de tantas coisas: investimento material e intelectual, incentivos, formação adequada… Ainda assim, acredito que podemos retirar dessas palavras uma reflexão válida e que pode nos ajudar a encontrar um norte interessante e, quem sabe, até mais eficiente para o incentivo à leitura.


Prezado Mario Lodi, somos estudantes da IV de Bùssero, na província de Milão. Sabemos que ler é bom, mas nem todos nós lemos sempre de boa vontade e espontaneamente, mesmo sabendo que isso é importante para aprender a nos expressar de maneira correta, para experimentar novas emoções, enriquecer a nossa fantasia, sonhar e estimular nosso pensamento e criatividade. Por quê?

Responde Mario Lodi

Caros amigos, vivemos em um tempo em que se lê cada vez menos, sejamos adultos ou crianças. O fenômeno do abandono da leitura por parte dos jovens americanos havia se tornando quase generalizado e a opinião pública pensava que fosse por causa da televisão.

O psicólogo Bruno Bettelheim, com um grupo de outros cientistas, estudou o problema e publicou os resultados da pesquisa em um livro, traduzido também na Itália, com o título “Imparare a leggere” [aprender a ler] (Editora Feltrinelli). Eles descobriram que a culpa do abandono da leitura não era da televisão, mas da escola, ou melhor, do primeiro livro que a primeira professora oferece à criança na primeira aula, no momento “mágico” no qual ensina a usar os sinais alfabéticos para ler e escrever. Naquele momento, diz Bettelheim, as crianças estão prontas para entrar, através da leitura, nos jardins da cultura, com os livros mais lindos que existem.

As escolas, porém, oferecem às crianças de quase todo o mundo os livros mais chatos que existem, aqueles escolares, iguais para todos. Então as crianças, que são curiosas de tudo, recorrem à televisão. Mas se elas tivessem descoberto de início os bons livros, a leitura se tornaria a mais bela aventura criativa, e uma necessidade. Os pais e os professores, portanto, deveriam substituir os textos escolares e chatos, pelos livros mais lindos e adaptados às crianças de todas as idades.

E quando encontram um, deveriam ler junto, sem fazer exercícios de gramática, e depois procurar outro, e depois outro… Assim nascerá a vontade dos livros como descoberta do mundo real e fantástico. Quem não teve a sorte de, imediatamente, ler bons livros, prefere a TV, mais cômoda, e torna-se preguiçoso diante do monitor. A sua fantasia adormece, o seu pensamento para. E quando o pensamento para é quase impossível colocá-lo em movimento novamente. Boas leituras, caros amigos.


E aí, qual é a sua opinião sobre isso? Não deixe de me contar nos comentários!

“Musica leggerissima” o significado da música de Colapesce e Di Martino [tradução 17]

Se tem uma coisa que eu adoro é poder usar música nas minhas aulas. E faço isso não apenas pelo fato de que eu sempre gostei de música, mas também porque é bem comum os próprios alunos pedirem indicações. Então, ao invés de simplesmente jogar um monte de informação de uma vez, vou compartilhando as poucos as músicas que conheço ou vou conhecendo.

Tento sempre buscar músicas que tenham a ver com o assunto da aula em questão ou então que usem muito alguma construção que será trabalhada, o que pode ajudá-los a entender e praticar tal construção. Mas, para não correr o risco de transformar as músicas em um mero instrumento gramatical, também gosto de entender o texto de cada uma, pesquisando seus possíveis significados. É impressionante o quanto já me surpreendi com músicas que diziam muito mais do que parecia em um primeiro momento.

Foi em meio a essas pesquisas que encontrei o texto que traduzirei aqui. Estava procurando sobre Musica leggerissima, uma das participantes do Festival de Sanremo de 2021. Esse é o mais importante festival de música italiana e esta é uma daquelas canções que ficam na nossa cabeça por alguns dias e que dá muita vontade de sair dançando, o que faz jus ao nome da canção.

Para além disso, porém, eu já adorava o fato de que é uma música sobre música e que usa termos do léxico musical — não apenas o leggerissima, que seria um tipo de música e que aqui traduzirei como música pop, mas também termos como crescendo, que pode ser encontrado em partituras, além de nomes de instrumentos musicais e situações nas quais costumamos ouvir música.

Foi só pesquisando um pouco, porém, que percebi que havia muito mais naquelas palavras. E acho que o artigo que traduzirei abaixo, escrito por Eleonora Damiani e publicado em 15 de março de 2021, neste site, já nos dá uma dimensão de como há profundidade em Musica leggerissima.


Italo Calvino dizia que “leveza não é superficialidade, mas planar acima das coisas, não ter pedras no coração”. Encontramos esse mesmo sentido de leveza no texto de Sanremo 2021 de Lorenzo Urcillo, conhecido como Colapesce, e de Antonio Di Martino.

É muito fácil cair na armadilha de etiquetar alguém como “superficial”, não vendo o quanto a pessoa que temos diante de nós está cheia de precisar permanecer na superfície das coisas para sobreviver. De fato, nem todos nós somo dotados de uma máscara e um cilindro de oxigênio que nos permitem descer às profundezas e quando o mar interior se mostra escuro, agitado e cheio de elementos que parecem assustadores, podemos apenas sentir a necessidade de permanecer na superfície. O mesmo vale para quando começa a acabar o fornecimento do cilindro e a pessoa sente a necessidade de subir novamente.

“Cantam-na os soldados, os filhos alcoolizados, os padres progressistas”

Seja o soldado em meio à guerra, seja o filho que depende do álcool, seja o padre que precisa combater pelos direitos humanos em uma Igreja ancorada no julgamento, têm-se em comum um elemento: todos se encontram lutando, seja em casa, seja no trabalho ou no fronte, pelos direitos humanos próprios e dos outros e justamente as lutas mais difíceis são cheias de sangue e lama.

TODOS NÓS TEMOS A NECESSIDADE DE VOLTAR PARA A SUPERFÍCIE

O ser humano não é feito para ficar muito tempo submerso na dor profunda. A mente precisa, de vez em quando, voltar à superfície, tomar um ar e isolar-se em suas zonas confortáveis. O termo “autista”, nos dias de hoje, nos faz imediatamente pensar no Distúrbio do Espectro Autista, mas cada um de nós tem uma zona de conforto, uma pequena zona autista salvadora, na qual podemos encontrar um pouco de espaço para fugir da dor quando ela se torna sufocante. Essa é a mensagem que parece nos transmitir Musica leggerissima: o ser humano precisa flutuar ou surfar sobre uma vivência interna emotiva que poderia nos levar para baixo como os pesos nas laterais de um mergulhador.

O buraco negro é algo que absorve, um lugar indefinido onde podemos nos perder para sempre, mas somente se o vemos assim. Na verdade, por mais que nos assustemos, os nossos lados mais profundos não são buracos negros, mas podem ser percebidos assim porque são intocáveis. As nossas partes escondidas, que fazem parte de nós, são mais parecidas a um abismo e do abismo pode-se voltar, munindo-se das ferramentas necessárias.

COLOQUE UM POUCO DE MÚSICA POP…

Coloque um pouco de música pop porque não estou com vontade de nada, ou melhor, muito pop, palavras sem mistério, alegre mas não muito é o pedido de que está sobrecarregado de vivências interiores pesadas e precisa enlevezar-se, não conseguindo entrar ou permanecer na profundidade.

Nós escavamos o buraco negro quando permitimos que pensamentos depreciativos tomem conta de nós, como repense sua vida, as coisas que você deixou cair no espaço da sua indiferença selvagem. Conseguimos transformar dentro de nós os irreparáveis buracos negros em abismos exploráveis a ponto de poder escutar e aceitar aquela nossa parte que, de tempos em tempos, precisa de música pop?