Ler e reler: uma teoria sobre a leitura [tradução 21]

Você tem o hábito de reler livros?

Eu não tenho (o que não significa que eu nunca releia livros, ok?), e provavelmente já falei isso aqui outras vezes. Sou daquelas pessoas que acha que a vida é muito curta para ler tudo o que queremos, então não dá para ficar relendo livros, por melhor que eles sejam.

Deparei-me, porém, com um texto muito interessante sobre o ato de ler e reler e achei que seria interessante trazê-lo aqui e saber o que você pensa sobre isso.

Você me acompanha nessa? O texto original foi postado no Il libraio, em 27 de dezembro de 2020 e aqui embaixo você encontra a minha tradução.


Por que precisamos ler? E por que, às vezes, desejamos reler um livro que gostamos? E se nós gostamos, podemos dizer que aquela obra é “objetivamente” um texto de valor? Partindo das teorias da recepção, um aprofundamento sobre a experiência da leitura, sobre o papel do leitor e sobre a nossa capacidade de compreender de verdade aquilo que lemos.

Por que temos necessidade de ler? De onde nasce essa exigência?

São diversas as razões pelas quais nos aproximamos de um texto, mas se refletirmos um pouco, podemos detectar dois motivos principais: a necessidade de conhecer informações e a busca pelo prazer estético.

Reduzidas ao máximo, as duas motivações que nos conduzem à leitura são, portanto, opostas: de um lado somos movidos pelo útil; de outro, pelo agradável.

De qualquer forma, seja qual for o motor, a leitura é uma atividade que requer um gasto de tempo e de energia e, por isso, cada leitor, quando se aproxima de um livro, espera ser recompensado pelo manzoniano cansaço de ler.

Trata-se, no entanto, para usar as palavras do crítico Vittorio Spinazzola, “em um confronto entre custo e benefício: quanto me custou a leitura daquele texto, a respeito do empenho que tive de empregar para me apropriar dele? Se se trata de uma leitura literária, a pergunta é: que riqueza e intensidade de prazer da imaginação eu alcancei?”.

O papel do leitor

Desde quando começaram a circular as teorias sobre a leitura e sobre a recepção, no mundo literário, o leitor assumiu um papel central, quase mais que o escritor e o editor: sem ele, a obra literária em si não existe, se é verdade que esta última é uma pião que ganha vida quando está em movimento, ou seja, quando alguém a lê.

Em Que é a literatura? (1947) o filósofo existencialista Jean Paul Sartre defende que sem leitores não há literatura: na prática, um livro, se não é lido por ninguém, é só um objeto material sem significado. Um amontoado de folhas cheias de palavras e tinta, sem valor algum. Existe, portanto, um vínculo fortíssimo entre quem lê e quem escreve, inclusive porque sempre se escreve para ser lido (até por si mesmo, visto que todo escritor é, antes de nada nada, leitor).

O valor de uma obra

Depois da revolução do romance, ler se transformou em um fenômeno extremamente pessoal e individual. Um gesto mudo, solitário, íntimo. Cada leitor, quando entra em contato com um texto, carrega consigo uma bagagem de conhecimentos, o seu percurso literário, um gosto pessoal e a sua própria sensibilidade. Pode-se dizer, portanto, que cada um formula juízos diferentes dos outros e que cada um desses juízos têm a sua razão de ser.

Mas então não existe objetividade na avaliação de um texto?

Não exatamente. Porque se é verdade que o juízo estético muda de pessoa para pessoa, também é verdade que o valor de uma obra literária pode ser estabelecido somente por leitores conscientes, espertos, estudiosos e literários. E não por leitores de puro prazer, para deixar claro.

Um exemplo? Eu posso dizer que subjetivamente eu não gosto de Os noivos, mas objetivamente não posso deixar de reconhecer seu valor literário. É preciso, portanto, distinguir (pelo menos no plano teórico) entre leitura de gosto e leitura de competência, mesmo que, como nos lembra Spinazzola, seja quase impossível separá-los no plano prático: “do texto provém um apelo total, que investe a globalidade das nossas atitudes: competência e gosto são duas dimensões de atividade que se reforçam reciprocamente, na concretude do ler”.

As duas leituras estão, portanto, estritamente ligadas: quanto mais me torno competente, mais meu gosto se afina. Por outro lado, o meu desejo de ser educado é feito da minha atitude, do quanto gosto ou não de ler.

Ler e reler

Vocês já se perguntaram por que releem um livro? A resposta certa, como geralmente acontece, é aquela mais imediata: relemos um livro porque gostamos dele. Porque os nossos esforços de leitura foram bem recompensados e, portanto estamos dispostos a renovar aquela experiência.

O ato de reler possui, porém, uma natureza mais profunda e consciente, e pode decretar efetivamente o valor de um texto. De um lado porque resolver voltar a um livro significa que aquele livro conseguiu satisfazer as nossas necessidades e as nossas expectativas; de outro, porque a segunda leitura será mais diligente e crítica que a primeira, na qual não podíamos estar particularmente atentos, porque estávamos nos movendo principalmente pela curiosidade (o literário Karlheinz Stierle a considera, com efeito, uma “não leitura”).

Ler uma segunda vez é, portanto, uma ação mais literária e formal: é dirigida a uma recolha das técnicas e das complexidades de uma obra, a decifrar os significados profundos, a não se deixar levar exclusivamente pelos eventos da trama. Não para exclusivamente no conteúdo e, por isso, pode compreender verdadeiramente a essência e o valor do escrito.

É sempre Spinazzola quem escreve: “segundo Gramsci o povo lê ‘conteudicamente’, procurando no apêndice melodramático uma consolação para os seus problemas e uma revanche imaginada das injustiças que sofre. Só o leitor educado literariamente educado sabe evitar as armadilhas de sonhar de olhos abertos”.

Ler com consciência

Pode-se, portanto, deduzir que ler é uma prática subjetiva que, como dissemos no início, deve satisfazer necessidades ou prazeres pessoais; reler, por outro lado, é uma ação orientada em um sentido mais objetivo, porque visa a um aprofundamento de alguns aspectos do texto — o estilo da prosa, a voz do autor, o papel e o significado social da ópera — que antes haviam passado em segundo plano.

Claro, não significa que a releitura seja sempre uma vitória, aliás, é possível que um livro que você tenha gostado uma vez possa não te agradar em uma releitura. Ao contrário, um livro que não havia agradado no passado pode nos surpreender positivamente e desmentir o juízo que havíamos feito anteriormente.

O que é certo é que para de tornar um leitor consciente é preciso ler e reler: só tendo múltiplos termos de comparação se poderá alcançar os instrumentos necessários para decifrar o valor do texto que temos diante dos olhos. E só assim poderemos finalmente nos aproximar da leitura de modo total e completo.

(Re)começar a ser leitor: cinco conselhos para aproximar-se da leitura [tradução 20]

Há quem diga que 2021 passou voando e há quem diga que não. Há também quem diga que não consegue diferenciar 2020 e 2021. Seja qual for o seu barco, há uma coisa na qual não podemos discordar: estamos em dezembro de 2021. E com a aproximação das festas de final de ano, tem gente que já está pensando nas metas para 2022.

Como não poderia deixar de ser — visto o assunto principal deste blog — é uma alegria imensa quando vejo pessoas dizendo que querem retomar o hábito da leitura ou então acrescentar este hábito à rotina. Mas eu também sei que nem sempre é fácil alcançar essa meta, por diversos motivos (ou, às vezes, desculpas).

Pensando nisso, resolvi traduzir um artigo sobre um tema que já comentei por aqui (em traduções como 3 passos para voltar a ler, ou em posts 100% autorais, tal qual o como começar a ler), porque acho que ele não se esgota e também por ser o momento ideal de trazer um incentivo a quem pensa em concretizar essa meta em 2022.

Assim sendo, hoje vamos falar sobre como podemos nos tornar ou voltarmos a ser leitores. O post original foi escrito pela Claudia, é de 25 de outubro de 2017 e foi publicado no blog Giro del Mondo attraverso i libri. Você pode conferi-lo neste link. A tradução dele para o português (feita por mim) está aqui embaixo.

Antes de passarmos a ela, porém, gostaria apenas de explicar que o artigo original refere-se a um público plural (vocês), enquanto eu preferi manter o tom que costumo usar aqui, ou seja, o singular. Além disso, infelizmente, algumas dicas e pontos são mais específicos para o público italiano (como sites ou eventos), mas vale lembrar que também temos iniciativas similares por aqui e que, querendo alguma dica mais específica, estou à disposição.

E, sem mais delongas, passemos à tradução!


Com o passar do tempo, muitas coisas podem mudar em nós: é possível que nasçam novas paixões e que outras sejam deixadas de lado. Depois de muitos anos sem ler, pode ser que volte a vontade de tentar novamente, de pegar outra vez um livro nas mãos, seja por ter ouvido falar muito dele, ou porque você tenha a necessidade de ler uma determinada obra para o trabalho. Todos nós fomos “leitores”: durante os anos escolares nos foram atribuídas leituras, mas alguns de nós, uma vez concluída a escola, decidiram não mais ler, por diversos motivos.

Recomeçar a ler depois de tanto tempo é um pouco come começar a correr: não se começa inscrevendo-se na maratona de Nova York, mas correndo apenas dois minutos por vez (e acredite, para quem não está treinado, dois minutos são muito longos e a falta de fôlego logo chega).

Para recomeçar a ler também é preciso caminhar em níveis: para quem se reaproxima da leitura eu não sugeriria começar a ler “Guerra e Paz” de Lev Tolstoj, não acredito que a pessoa chegaria nem mesmo ao final do primeiro capítulo. Mas então como recomeçar a ler? O artigo que você está lendo é um compêndio de cinco pontos que ilustram uma possível aproximação à leitura para jovens e adultos que queiram recomeçar a ler. Espero que esse texto possa ser útil e fornecer alguma sugestão interessante.

1. A leitura: empenho, mas grandes satisfações

Os professores escolares, durantes os anos de escola, atribuem leituras vistas pelos estudantes como “obrigatórias”: a leitura de um livro é simplesmente a passagem necessária para entregar a atividade sobre o livro e obter uma boa nota de italiano. Às vezes os estudantes apreciam os textos sugeridos pelos professores, mas geralmente, terminados os estudos, faltando a motivação da boa nota, os jovens não buscam mais por uma oportunidade para ler.

Como proceder para (re)começar a ler? Em primeiro lugar, é importante saber que a leitura é uma atividade trabalhosa, não do ponto de vista físico, mas mental: antes de mais nada, é preciso ter concentração e motivação para ler um livro. Recomeçar a ler depois de tanto tempo, no início, vai requerer muito empenho — para terminar um livro é necessário muito mais em relação ao amigos leitores — mas chegando ao fim do volume, a satisfação será imensa. Em primeiro lugar, é preciso encontrar tempo para ler…

2. O tempo para ler: a leitura não é uma competição

Mas quem tem tempo de ler nos dias de hoje? As muitas e inúmeras coisas para acompanhar inegavelmente levam embora tempo e energia. Os amigos leitores dirão para ler nos recortes de tempo: nada de mais errado.

Quem não está habituado a ler não pode pensar em ler nos retalhos de tempo: poucos minutos livres não são suficientes para mergulhar completamente na história. Além disso, não aconselharia a ler nos meios públicos ou nas salas de espera, simplesmente porque são lugares nos quais as pessoas falam ou fazem gestos ou coisas que podem distrair.

É necessários decidir dedicar um momento preciso do dia — buscando mantê-lo fixo para que se torne um rito cotidiano — e escolher um lugar o mais silencioso possível, para poder se concentrar sobre aquilo que você está lendo. Pode-se conseguir um tempo de leitura antes do jantar, ou antes de ir dormir, de manhã cedo ou ainda sacrificando um pouco de tempo da TV ou das redes sociais.

Além disso, é preciso ter em mente que ler é um prazer, não uma competição. Na internet pululam os Reading Challenge, verdadeiras maratonas de leitura, nas quais os leitores mais ou menos loucos leem muito e em grande velocidade. Veja, não preste atenção à velocidade da leitura, mas se preocupe com a qualidade da mesma. É preferível ler um livro bonito — apenas um — que ler quatro livros feios e um bonito. Lendo muito e com pressa, perdemos detalhes e lendo em demasia as histórias se mesclam umas às outras e será difícil, no futuro, lembrar do que foi lido.

3. A leitura não é cara

Sim, mas os livros custam. Bom, claro que custam, são produtos comerciais no fim das contas. Um bilhete de cinema custa, um jantar numa pizzaria custa, férias custam, o combustível para o carro custa. No entanto, nenhum de nós renuncia a uma tarde no cinema, uma pizza com os amigos, breves férias ou um passeio de carro. Ao contrário de todas as atividades mencionadas, existem várias maneiras de ler gratuitamente (ou quase):

  • Pegar emprestado livros da biblioteca: se não quiser arriscar gastar 20 reais em um livro que — talvez — não te agradará, passe em uma biblioteca. Com uma carteirinha gratuita, você terá acesso a ilimitados empréstimos.
  • Ofertas relâmpago de ebooks: se você tem um tablet pode baixar inúmeros livros em formato epub ou pdf [nt: que estejam legalmente disponíveis para isso] e lê-los comodamente no dispositivo que preferir; fique de olho na IBS.it ou Amazon, onde a cada dia são colocados à venda livros a patir de 0,99 centavos, enquanto geralmente a prévia dos romances é gratuita: você pode, portanto, ler os primeiros dois capítulos de um livro e decidir se quer comprá-lo ou não.
  • Fuce nos sebos: muitas vezes eles podem oferecem bons negócios e quase sempre os livros estão bem conservados.
  • Pegue emprestado com os amigos leitores!
  • Participe de eventos de bookcrossing (troca de livros físicos) ou inscreva-se gratuitamente no Acciobooks (plataforma de troca de livros on line).
  • Espere as ofertas que os editores fazem de tempos em tempos durante o ano: geralmente os livros recebem descontos de até 25% ou então procure entre os lembretes de sites como Mondadori Store ou IBS.it, às vezes os descontos chegam a 55%.

4. Mas o que eu leio? A escolha do livro

Existe um livro que foi feito para você e quando ler vai parecer que realmente foi escrito para você. É preciso apenas encontrá-lo! Na escolha do livro você pode ter a ajuda de diversos figuras:

  • O bibliotecário já mencionado, que conhece muito bem os livros e poderá aconselhar o romance certo.
  • O livreiro que saberá sugerir belas leituras.
  • O amigo que lê, aquele que emprestará o livro com algumas razões para lê-lo.
  • As resenhas nos jornais ou na internet podem ajudar a ter uma ideia dos livros “da moda” (ainda que não necessariamente o primeiro da lista seja o melhor).
  • Uma volta pelas redes sociais: nas páginas de editores italianos, de blogs que falam de livros, nos grupos de leitura no Facebook.
  • Participar de um grupo de leitura organizado pela biblioteca ou pela livraria do seu bairro: um grupo do tipo prevê que seja lido o mesmo livro em um determinado intervalo de tempo (geralmente um mês) e que a depois da leitura faça-se uma tarde de discussão.
  • Participar de feiras e eventos literários, existem durante todo o ano, espalhados pelo país: do famoso Salão Internacional do Livro de Turim ao BookPride de Milão, da Triestebookfest à Più libri, più liberi de Roma; procure nos stand das editoras e fale com eles: saberão certamente te sugerir um bom livro para ler.

5. Os benefícios da leitura

Mas a fadiga de ler compensa? Quais são os benefícios da leitura? Te digo sete, mas tenho certeza que existem muitos outros.

  • A leitura ajuda a melhorar e aumentar a concentração, em um mundo feito de distrações, não é pouca coisa.
  • Ler fornece inspiração: seja para uma viagem, um evento a ser organizado, um objeto a se criar.
  • Os livros melhoram as nossas capacidades críticas: aprendemos a ver lugares e pessoas de maneira diferente, nos ajuda a quebrar estereótipos e preconceitos e nos livros, na maior parte, existem personagens com os quais podemos nos identificar.
  • Aprendem-se noções, informações úteis para a vida cotidiana ou simples curiosidades.
  • Ler ajuda a melhorar o nosso modo de escrever e de falar, de explicar e expor conceitos. Nos ensina também palavras novas ou nos lembra de palavras que nunca usamos.
  • Os livros nos transportam para lugares e tempos distante, em épocas diferentes, em localidades que talvez nunca vejamos diretamente. Tudo apenas gastando alguns poucos reais e um pouco de contração e empenho.
  • Graças aos livros é possível encontrar tantas pessoas unidas pela mesma paixão. E tem quem diga que nenhuma amizade nasce mais rapidamente que aquela dos que amam os mesmos livros.

Eu digo que vale a pena recomeçar a ler, te asseguro que as fadigas iniciais serão recompensadas!

Usar ou não palavras em inglês na língua italiana [tradução 19]

Se tem um assunto que vira e mexe ressurge é a presença e o uso de termos em inglês nas demais línguas. Eu mesma já traduzi por aqui um artigo sobre isso, como você pode conferir aqui. O artigo em questão é bem interessante e pode ser uma boa introdução à discussão de hoje (ou seja: se você ainda não leu, vai lá ler!).

Recentemente, porém, uma aluna perguntou sobre isso e a minha curiosidade sobre o assunto retornou. Parece que nunca é satisfatório o nosso conhecimento sobre determinados temas e há sempre algo novo a se encontrar. Então resolvi trazer novamente o assunto à tona por aqui.

Desta vez, porém, com um artigo cujo título completo é Usar ou não palavras em inglês na língua italiana: o parecer da Accademia della Crusca. Para quem não sabe, a Crusca é a maior entidade linguística da língua italiana. Para nós, reles mortais (principalmente não falantes nativos), se “a Crusca” falou, tá falado.

O artigo em questão é bem recente, tendo sido publicado em 02 de abril de 2021. Foi escrito por Michele Razzetti e você pode conferir o original aqui. Traz, ainda, o seguinte cabeçalho: “Os ‘empréstimos linguísticos’ acendem sempre intensos debates. O último se intensifica há algumas semanas, tendo parte nisso Mario Draghi. Pedimos a Claudio Giovanardi, da Crusca, para nos esclarecer. Inclusive sobre um termo que há mais de um ano ouvimos com frequência, que é ‘lockdown'”.

Como você poderá conferir abaixo, porém, o artigo está longe de nos trazer uma resposta, mas carrega uma reflexão importante sobre o contexto no qual usamos palavras emprestadas de outras línguas. Então vamos para a tradução?


Em intervalos regulares, se reacende o debate sobre o uso de palavras inglesas, tecnicamente anglismo ou anglicismo (Tullio de Mauro, em 2016, apontava que este último termo também o é), na nossa língua. Aconteceu inclusive recentemente, depois da consideração improvisada de Mario Draghi, ao final da visita ao centro de vacinação anti-Covid do Aeroporto de Fiumicino, sobre a inglesização do vocabulário comum italiano.

Os tons do debate são geralmente exasperados e veem em oposição estrangeiristas declarados, prontos a aceitar sem críticas tudo o que chega de um país estrangeiro, e aqueles que gostariam de um italiano feito só de palavras não estrangeiras, como se isso sem dúvidas fosse realmente possível. Polarizar o confronto não faz bem a ninguém. Mas para superá-lo pedimos ajuda a Claudio Giovanardi, membro da Academia della Crusca, docente de Linguística italiana na Universidade Roma Tre e autor de Inglês-italiano 1 a 1. Traduzir ou não traduzir as palavras inglesas? (Manni), que se ocupou do assunto também no decorrer de 6per6, o festival que pela primeira vez colocou as ciências da linguagem ao vivo no Instagram.

A linguística histórica ajuda a colocar o debate em perspectiva e nos faz entender de imediato uma coisa: as línguas se confundem e se emprestam termos continuamente. Claro, aquelas que gozam de um prestígio sócio-cultural maior — o que, atenção, muda com o tempo — tendem a disseminá-los no mundo com força maior. “O inglês teve uma entrada explosiva no italiano a partir do final dos anos 70 até se tornar praticamente a única língua estrangeira estudada nas escolas em que se prevê apenas uma. Sobretudo aquele estadunidense, naquele tempo carregava consigo o poder político, econômico, cultural e científico. Mas não nos esqueçamos que pouco antes, o mais estudado foi o francês”.

O sucesso dos anglicismos é registrado também pelos vocabulários e pelas coleções de neologismos, instrumentos que medem a temperatura lexical de uma língua. “As pessoas nos dizem que existe um aumento significativo de palavras estrangeiras em italiano, sobretudo nos últimos 30 anos. O mundo empresarial faz um grandíssimo uso delas, assim como o meio acadêmico. As instituições culturais geralmente são as que mais se valem das palavras em inglês, fazendo um uso inútil destas.

De um ponto de vista teórico é interessante se perguntar se seria possível dispensar esses empréstimos. Para Giovannardi, sem dúvidas, sim: “Em seu próprio repertório uma língua de cultura rica como o italiano pode encontrar os recursos certos para evitar o uso do inglês; é compreensível que os objetos do âmbito tecnológico, por exemplo, nos cheguem com o nome em inglês, mas isso não significa que o italiano não possa ter os recursos internos para substituí-los“. Como, de um ponto de vista prático? Com uma tradução, um sinônimo ou uma adaptação. “Certo, é preciso entender se essa operação é econômica, porque muitos desses termos têm uma circulação europeia, ou até mesmo global”.

É preciso perguntar-se também se o inglês deve ser em todos os casos, evitado, demonizado como gostariam alguns. A resposta é negativa, porque o verdadeiro discriminativo para um uso sensato dos anglicismos é o contexto comunicativo, como muitas vezes acontece quando se fala uma língua. “Pessoalmente não tenho uma particular intolerância nos confrontos de um uso privado dos anglicismos. O grande problema diz respeito às palavras estrangeiras usadas nos contextos de comunicação pública. Contra este fenômeno é um dever cívico lutar“.

E é isso que faz o grupo Incipit da Accademia della Crusca, ao qual o próprio Giovanardi pertence: eles não pretendem traduzir todo e qualquer termo inglês, mas assinalar a entrada das palavras que impactam na vida pública (em detrimento daquelas sedimentadas e mais complexas de intervir). “Se uma lei é proposta a um cidadão, deve ser colocada em condições que se possam entender; depois, no bar, em casa ou debaixo do guarda-sol cada um pode falar como preferir”.

Mas nos discursos públicos, aqueles produzidos pelas instituições políticas, por exemplo, o inglês parece desempenhar um objetivo comunicativo de honestidade duvidosa. “Parece que usando um termo inglês para uma medida ou um evento potencialmente indesejado à opinião pública, possa-se amenizá-lo: penso na famosa spending review*, que nada mais é do que um corte nas despesas públicas. Sendo maliciosos, temos de pensar que o inglês consiga fazer passar essas medidas sem levantar grandes rebuliços”*.

Uma escolha precisa que não encontra respaldo em outras grandes democracias europeias. Não na Espanha e na França,** com as quais um confronto linguístico imediato é possível graças também à pandemia na qual nos vemos envolvidos. “Na Itália, logo enchemos a boca com lockdown, mas na França falou-se em confinement e na Espanha em confinamiento*. Talvez, nos contextos informais, espanhóis e franceses usem o anglicismos lockdown, mas nas comunicações públicas isso não acontece. Nós não poderíamos usar também confinamento? Talvez assim tivéssemos feito algo por todos aqueles que não têm familiaridade com a língua inglesa”*.

Em suma, talvez em uma situação de emergência como essa que estamos vivendo há meses, se pudesse esperar um mínimo de consciência linguística da parte de quem, quando fala, possui um importante papel de porta-voz.


E então, qual a sua opinião sobre o assunto? Eu gostei muito da ênfase dada na questão da situação em que acontece a comunicação e, ao mesmo tempo, para o fato de que, realmente, quando pensamos em um âmbito político-social é necessário pensar bem na escolha dos termos usados, afinal, se cada país tem a sua língua oficial, isso não é por acaso, certo?

Ler é bom, por que nós não gostamos? [tradução 18]

Dia desses vi alguém comentando que hoje, mais do que nunca, ler é importante. Difícil discordar, né? Quer dizer, acho que ler sempre foi importante, mas às vezes a gente perde a dimensão do quanto um livro pode nos abrir muitas portas. Por outro lado, sabemos como existem muitos não leitores por aí, mesmo com tantos estudos e publicações que demonstram os benefícios que esse hábito nos traz.

E foi pensando nessas questões que me deparei com um texto (quase uma entrevista de uma pergunta só) que achei muito interessante e que acrescentou alguns pontos à minha reflexão, principalmente por mencionar o papel das escolas (e, em menor grau, dos pais) nisso tudo. O texto em questão foi publicado com o título “Leggere è bello, perché non ci piace?”, no Popolis, em 25 de julho de 2002 e, abaixo, você poderá ler a tradução que fiz dele.

Antes, porém, gostaria de ressaltar que talvez a opinião do autor possa gerar uma pequena polêmica, ainda mais se pensarmos no contexto brasileiro, que carece de tantas coisas: investimento material e intelectual, incentivos, formação adequada… Ainda assim, acredito que podemos retirar dessas palavras uma reflexão válida e que pode nos ajudar a encontrar um norte interessante e, quem sabe, até mais eficiente para o incentivo à leitura.


Prezado Mario Lodi, somos estudantes da IV de Bùssero, na província de Milão. Sabemos que ler é bom, mas nem todos nós lemos sempre de boa vontade e espontaneamente, mesmo sabendo que isso é importante para aprender a nos expressar de maneira correta, para experimentar novas emoções, enriquecer a nossa fantasia, sonhar e estimular nosso pensamento e criatividade. Por quê?

Responde Mario Lodi

Caros amigos, vivemos em um tempo em que se lê cada vez menos, sejamos adultos ou crianças. O fenômeno do abandono da leitura por parte dos jovens americanos havia se tornando quase generalizado e a opinião pública pensava que fosse por causa da televisão.

O psicólogo Bruno Bettelheim, com um grupo de outros cientistas, estudou o problema e publicou os resultados da pesquisa em um livro, traduzido também na Itália, com o título “Imparare a leggere” [aprender a ler] (Editora Feltrinelli). Eles descobriram que a culpa do abandono da leitura não era da televisão, mas da escola, ou melhor, do primeiro livro que a primeira professora oferece à criança na primeira aula, no momento “mágico” no qual ensina a usar os sinais alfabéticos para ler e escrever. Naquele momento, diz Bettelheim, as crianças estão prontas para entrar, através da leitura, nos jardins da cultura, com os livros mais lindos que existem.

As escolas, porém, oferecem às crianças de quase todo o mundo os livros mais chatos que existem, aqueles escolares, iguais para todos. Então as crianças, que são curiosas de tudo, recorrem à televisão. Mas se elas tivessem descoberto de início os bons livros, a leitura se tornaria a mais bela aventura criativa, e uma necessidade. Os pais e os professores, portanto, deveriam substituir os textos escolares e chatos, pelos livros mais lindos e adaptados às crianças de todas as idades.

E quando encontram um, deveriam ler junto, sem fazer exercícios de gramática, e depois procurar outro, e depois outro… Assim nascerá a vontade dos livros como descoberta do mundo real e fantástico. Quem não teve a sorte de, imediatamente, ler bons livros, prefere a TV, mais cômoda, e torna-se preguiçoso diante do monitor. A sua fantasia adormece, o seu pensamento para. E quando o pensamento para é quase impossível colocá-lo em movimento novamente. Boas leituras, caros amigos.


E aí, qual é a sua opinião sobre isso? Não deixe de me contar nos comentários!

“Musica leggerissima” o significado da música de Colapesce e Di Martino [tradução 17]

Se tem uma coisa que eu adoro é poder usar música nas minhas aulas. E faço isso não apenas pelo fato de que eu sempre gostei de música, mas também porque é bem comum os próprios alunos pedirem indicações. Então, ao invés de simplesmente jogar um monte de informação de uma vez, vou compartilhando as poucos as músicas que conheço ou vou conhecendo.

Tento sempre buscar músicas que tenham a ver com o assunto da aula em questão ou então que usem muito alguma construção que será trabalhada, o que pode ajudá-los a entender e praticar tal construção. Mas, para não correr o risco de transformar as músicas em um mero instrumento gramatical, também gosto de entender o texto de cada uma, pesquisando seus possíveis significados. É impressionante o quanto já me surpreendi com músicas que diziam muito mais do que parecia em um primeiro momento.

Foi em meio a essas pesquisas que encontrei o texto que traduzirei aqui. Estava procurando sobre Musica leggerissima, uma das participantes do Festival de Sanremo de 2021. Esse é o mais importante festival de música italiana e esta é uma daquelas canções que ficam na nossa cabeça por alguns dias e que dá muita vontade de sair dançando, o que faz jus ao nome da canção.

Para além disso, porém, eu já adorava o fato de que é uma música sobre música e que usa termos do léxico musical — não apenas o leggerissima, que seria um tipo de música e que aqui traduzirei como música pop, mas também termos como crescendo, que pode ser encontrado em partituras, além de nomes de instrumentos musicais e situações nas quais costumamos ouvir música.

Foi só pesquisando um pouco, porém, que percebi que havia muito mais naquelas palavras. E acho que o artigo que traduzirei abaixo, escrito por Eleonora Damiani e publicado em 15 de março de 2021, neste site, já nos dá uma dimensão de como há profundidade em Musica leggerissima.


Italo Calvino dizia que “leveza não é superficialidade, mas planar acima das coisas, não ter pedras no coração”. Encontramos esse mesmo sentido de leveza no texto de Sanremo 2021 de Lorenzo Urcillo, conhecido como Colapesce, e de Antonio Di Martino.

É muito fácil cair na armadilha de etiquetar alguém como “superficial”, não vendo o quanto a pessoa que temos diante de nós está cheia de precisar permanecer na superfície das coisas para sobreviver. De fato, nem todos nós somo dotados de uma máscara e um cilindro de oxigênio que nos permitem descer às profundezas e quando o mar interior se mostra escuro, agitado e cheio de elementos que parecem assustadores, podemos apenas sentir a necessidade de permanecer na superfície. O mesmo vale para quando começa a acabar o fornecimento do cilindro e a pessoa sente a necessidade de subir novamente.

“Cantam-na os soldados, os filhos alcoolizados, os padres progressistas”

Seja o soldado em meio à guerra, seja o filho que depende do álcool, seja o padre que precisa combater pelos direitos humanos em uma Igreja ancorada no julgamento, têm-se em comum um elemento: todos se encontram lutando, seja em casa, seja no trabalho ou no fronte, pelos direitos humanos próprios e dos outros e justamente as lutas mais difíceis são cheias de sangue e lama.

TODOS NÓS TEMOS A NECESSIDADE DE VOLTAR PARA A SUPERFÍCIE

O ser humano não é feito para ficar muito tempo submerso na dor profunda. A mente precisa, de vez em quando, voltar à superfície, tomar um ar e isolar-se em suas zonas confortáveis. O termo “autista”, nos dias de hoje, nos faz imediatamente pensar no Distúrbio do Espectro Autista, mas cada um de nós tem uma zona de conforto, uma pequena zona autista salvadora, na qual podemos encontrar um pouco de espaço para fugir da dor quando ela se torna sufocante. Essa é a mensagem que parece nos transmitir Musica leggerissima: o ser humano precisa flutuar ou surfar sobre uma vivência interna emotiva que poderia nos levar para baixo como os pesos nas laterais de um mergulhador.

O buraco negro é algo que absorve, um lugar indefinido onde podemos nos perder para sempre, mas somente se o vemos assim. Na verdade, por mais que nos assustemos, os nossos lados mais profundos não são buracos negros, mas podem ser percebidos assim porque são intocáveis. As nossas partes escondidas, que fazem parte de nós, são mais parecidas a um abismo e do abismo pode-se voltar, munindo-se das ferramentas necessárias.

COLOQUE UM POUCO DE MÚSICA POP…

Coloque um pouco de música pop porque não estou com vontade de nada, ou melhor, muito pop, palavras sem mistério, alegre mas não muito é o pedido de que está sobrecarregado de vivências interiores pesadas e precisa enlevezar-se, não conseguindo entrar ou permanecer na profundidade.

Nós escavamos o buraco negro quando permitimos que pensamentos depreciativos tomem conta de nós, como repense sua vida, as coisas que você deixou cair no espaço da sua indiferença selvagem. Conseguimos transformar dentro de nós os irreparáveis buracos negros em abismos exploráveis a ponto de poder escutar e aceitar aquela nossa parte que, de tempos em tempos, precisa de música pop?

Os italianos falam com as mãos [tradução 16]

Se tem uma aula que eu adoro preparar e dar é a aula sobre gestos italianos. Porque por mais que isso pareça apenas um estereótipo, existem verdadeiramente muitos gestos usados na comunicação italiana (e não só, pense bem), tornando tudo mais expressivo e expansivo.

Uma vez, lendo sobre o assunto, deparei-me com o artigo que resolvi traduzir aqui hoje. Ele foi escrito por Elisa Torretta e publicado em março de 2010, aqui neste site (sim, é blog sobre italianos em Paris. Como cheguei até ele? Não faço nem ideia). Vejamos o que ela tem a dizer sobre o assunto.


Existem muitos hábitos italianos, para nós absolutamente normais, que os estrangeiros acham surpreendentes ou inexplicáveis. Por exemplo: usar quase sempre óculos de sol ou falar alto. Entre os hábitos que suscitam mais curiosidade, talvez, está aquele de gesticular enquanto falamos.

De fato, muitos estrangeiros não entendem a necessidade de mover as mãos para comunicar e, em geral, chegam a uma simples conclusão: “os italianos falam com as mãos”. Em primeiro lugar, gostaria de precisar que nós, italianos, falamos com palavras, de acordo com uma sintaxe e uma gramática precisas. A prova disso é que é possível falar italiano inclusive ao telefone (coisa que conseguimos fazer muito bem, mesmo que continuemos a gesticular com o aparelho em mãos…), e que é possível também escrever e ler em língua italiana, sem imagens explicativas.

Então para que serve agitar-se tanto enquanto se fala? As palavras não são suficientes?

Naturalmente, as palavras são suficientes, mas por que limitar-se às palavras quando podemos usar todo o corpo? O gesto não substitui a palavra, mas a enriquece. É uma linguagem paralela, que adiciona nuances o muda o significado do nosso discurso. Experimente falar sem mover um músculo: a sua voz será monótona e insignificante.

Talvez, para quem olhe de fora, os gestos sejam apenas uma dança incompreensível, uma série de movimentos sem sentido. Mas, na Itália, o gestual é um elemento cultural muito importante e não um simples folclore. Os gestos são uma linguagem decodificada e precisa e têm um significado claro para quem sabe interpretá-los.

Não quero oferecer uma explicação dos numerosos gestos existentes, mas apenas lembrar a importância deles para nós, na comunicação. Com o gesto podemos exprimir uma emoção melhor que com muitas palavras, porque o movimento é mais espontâneo e sincero que a palavra. Podemos demonstrar raiva ou alegria, indiferença ou surpresa, e mudar a amplitude e a intensidade de acordo com o estado de ânimo e a situação.

Como todas as línguas, o gestual se aprende somente depois de anos de exercício e observação. Portanto, aconselho os estrangeiros a não tentar usar os gestos “à italiana” quando falam a nossa língua, porque poderiam não ser entendidos ou ser mal interpretados.

Por exemplo, o gesto mais célebre é a mão “em pinha”: as pontas dos dedos unidos em direção ao alto e a mão que se move para cima e para baixo. É um gesto que, em geral, acompanha uma pergunta ou uma dúvida. Portanto, é muito estranho agitar as mãos dessa forma e, ao mesmo tempo, dizer bom dia, como, por vezes, fazem os estrangeiros que imitam os italianos. Parece muito um falso pizzaiolo em um filme americano.

Influenciados pelas boas maneiras anglo-saxãs, hoje, usar muito as mãos quando falamos é considerado vulgar e simplório. Mas é amplamente tolerado, quase obrigatório, em casos de particular excitação, como uma briga ou uma partida de futebol.

De qualquer forma, gesticular continua sendo sempre um costume enraizado na nossa cultura. Faz parte da nossa identidade: através dos nossos gestos, podemos nos reconhecer imediatamente, mesmo no exterior, e podemos nos entender melhor entre nós, mesmo na Itália, para além dos dialetos e das barreiras sociais.

Diz-se, de fato, que desenvolvemos os gesto para poder nos entender entre nós, porque no passado, as pessoas falavam principalmente os dialetos e não o italiano.

Para mim, é também um sintoma do nosso constante desejo de comunicar ou, simplesmente, da nossa exuberância. Para nós, com efeito, é normal dividir com os outros os nossos sentimentos. Com o gesto, mesmo quem não pode nos ouvir, entende do que estamos falando.

Não, a discrição não faz parte da nossa bagagem cultural… Mas isso é realmente um defeito tão intolerável?


Depois desse texto, sempre sinto a necessidade de lembrar uma coisa: os gestos italianos são uma coisa totalmente diferente dos sinais das línguas de sinais. Mesmo da língua de sinais italiana, que foi reconhecida neste ano como língua oficial. E, mais que isso, cada país tem a sua língua de sinais, que assim como qualquer língua oral, é muito rica e singular. E é, como estou chamando aqui, uma língua, não uma linguagem! Os gestos italianos — que enriquecem a língua falada—, como você pode ter notado ao longo da leitura, são chamados apenas de linguagem, não de língua. Uma diferença que pode parecer sutil, mas que, no fundo, não é.

Agora me conta aqui: que gestos italianos você conhece? E o que achou deste artigo?

O que os italianos leem? [tradução 15]

“O que os italianos leem” é uma pergunta que vira e mexe salta em minha cabeça — tanto é que fui conferir se eu realmente nunca havia traduzido um artigo do tipo —, principalmente quando ouço as pessoas dizendo que brasileiro não lê, que nós não valorizamos a nossa literatura. Pergunto-me se é assim apenas aqui ou em todo o mundo (ou ao menos em outros lugares do mundo).

Nas minhas buscas por artigos para traduzir para este espaço do blog, já me deparei mais de uma vez com afirmações de que os italianos leem pouco. Sim, a mesma afirmação que fazemos sobre nós mesmos. Faltava responder apenas o que, afinal, leem os italianos.

Por isso, no post de hoje, trago a tradução deste artigo, escrito por Enzo Scudieri e postado em 21 de novembro de 2020 no site habitante.it. Para ler o original, basta clicar aí em cima, no “deste artigo” que você chegará ao post em italiano. E vamos à tradução?


Ler livros é uma forma de viajar para milhares de mundos diversos, conhecer pessoas e apaixonar-se por histórias. Mas qual é a relação dos italianos com a leitura, o que e quanto leem?

Os italianos amam ler?

A paixão pela leitura te impede de dormir à noite, porque você está tão arrebatado por aquilo que está lendo que não quer parar; amar os livros significa comprar novos exemplares, mesmo já tendo a casa invadida por livros que você ainda precisa ler. Ler ajuda a abrir a mente e desenvolver ideias; a cultura da leitura gera progresso social, econômico e, obviamente, cultural.

Através das últimas estatísticas sobre o que os italianos leem, descobrimos que lê-se mais no norte, entre as mulheres e entre pessoas com mais títulos acadêmicos. As compras de livros são direcionadas prevalentemente aos romances e contos, de faixa econômica médio-baixa.

O relatório publicado pelo Istat* em 2019 sobre Produção e leitura de livros na Itália revela que 40,6% da população lê ao menos um livro por ano, dado estável no último triênio. 78,4% dos leitores leem só livros físicos, 7,9% somente ebook ou livros on line.

Diferentemente daquilo que se pode imaginar, a quantidade mais alta de leitores continua a ser aquela dos jovens: em 2018, os leitores entre 15 e 17 anos eram em 54,5%, quantidade em crescimento em relação aos 47,1% de 2016. Entre homens e mulheres existe uma lacuna relevante: o percentual de leitoras é de 46,2% contra 34,7% de leitores. Em absoluto, porém, o público mais afeiçoado à leitura é representado por garotas entre 11 e 19 anos (mais de 60% leu pelo menos um livro no ano).

O que os italianos leem?

Os rankings falam claramente e, deixem-me dizer, são sempre muito iguais ano a ano. Existem autores que estão sempre no “top ten”: Smith, Camilleri, Tamaro, Grishmam. Depois estão os personagens do momento, aqueles que escrevem livros para desfrutar de uma notoriedade sazonal, autores no estilo Fabio Volo, por exemplo.

Nunca faltam nos rankings, também, escritores como Stefano Benni e Beppe Servagnini. E não nos esqueçamos, depois, de toda a vertente bibliográfica de personagens famosos, muitas vezes ainda vivos, que decidem, justamente, escrever um livro para contar a sua história.

Fecharei esta lista com os agora indispensáveis livros de cozinha: encontramos um pouco de tudo, dos chef famosos para o grande público, graças às participações em reality shows, à vizinha de casa, que conta no seu blog as receitas da avó. E o sucesso do blog é, então, traduzido em livro.

As grandes livrarias

As livrarias de grandes redes geralmente estão cheias de pessoas entre as prateleiras, curiosas ou ocupadas, folheando um livro ou bebendo um café na cafeteria da própria livraria. Nos últimos anos, de fato, assistimos a uma transformação das livrarias em verdadeiros “centros comerciais”.

Feltrinelli, Mondadori, Mel Bookstore, Giunti al punto, apenas para citar algumas, abandonaram as aparências de simples livrarias. Tudo é dividido, separado e exposto em setores específicos, identificados por placas realmente muito similares àquelas das seções dos supermercados: em evidência é possível encontrar imediatamente os livros do ranking nacional e também os inesquecíveis “conselhos” de compras.

E, caminhando pelas seções, pode-se encontrar também toda uma oferta de multimídias como dvd, cd e videogame. A seção de papelaria também tem uma oferta muito rica de canetas, agendas, cadernos e papéis de vários tipos e cores. Essas redes, se por um lado multiplicam a oferta e a enriquecem com outras comodidades, por outro correm o risco de perder sua vocação original e a relação de confiança livreiro-leitor.

As livrarias independentes e lojas online

Do relatório ISTAT surge, porém, um dado contraditório. As modalidades de distribuição consideradas mais estratégicas pelos editores são as livrarias independentes, os canais de distribuição online e os eventos como feiras, festivais e salões de leitura.

As grandes distribuições organizadas (supermercados, grandes lojas) e os pontos de vendas genéricos (bancas, papelarias, autogrill, correios) são considerados canais de distribuição relativamente menos eficazes para aumentar a demanda e ampliar o mercado editorial.

Os editores, além disso, estão investindo sempre mais, também, na oferta de títulos em formato e-book: o percentual de obras publicadas em formato físico, disponíveis também em versão digital, em apenas dois anos, passou de 35,8% a quase 40%. A versão digital é mais comum para:

  • aventura e suspense (82,1%)
  • informática (62,9%) e matemática (61,4%)
  • atualidade político-social e econômica (56,1%)

Os grandes editores publicam mais de 90% dos livros em formato e-book, com uma cobertura de obras publicadas fisicamente de 45,8%.

Lê-se mais no Norte e nas grandes cidades

No Norte, uma pessoa a cada duas, na Sicília, só uma a cada quatro. A leitura está muito mais difundida nas regiões do Norte: 49,9% das pessoas que moram no Noroeste leu pelo menos um livro e 48,4% no Nordeste. No Sul, a cota de leitores cai para 26,7% enquanto nas ilhas observa-se uma realidade muito diferente entre a Sicília (24,9%) e a Sardenha (44,7%).

O hábito da leitura, além disso, é muito difundido nas cidades centrais de áreas metropolitanas, onde declaram-se leitores pouco menos da metade dos habitantes (49,2%) enquanto a cota cai para 36,1% nas cidades de menos de 2 mil habitantes.

O nível de instrução também se confirma como um elemento determinante: leem livros 73,6% dos graduados, 46,7% dos diplomados e só 26,5% dos que possuem acima do nível elementar.

A leitura é mais fortemente influenciada pelo ambiente familiar: as crianças e adolescentes são certamente favorecidos se os pais têm esse hábito. Por exemplo, entre os jovens abaixo de 18 anos, 74,9% entre quem tem mães e pais leitores e só 36,2% entre aqueles que têm ambos os pais não leitores.

Pílulas de curiosidade. Eu não sabia e você?

  • As bibliotecas mais frequentadas da Itália são aquelas do Trentino Alto-Adige e do Valle d’Aosta.
  • As motivações que encorajam as pessoas a irem a uma biblioteca são “pegar um livro emprestado” (57,1%) e “ler e estudar” (40,1%).
  • Na Itália são cerca de 8 milhões e 960 mil pessoas que foram a uma biblioteca pelo menos uma vez por ano.

* O ISTAT é o Instituto Nacional de Pesquisa italiano (o correspondente ao nosso IBGE) e eles sempre têm dados sobre os mais diversos assuntos.


E aí, o que achou deste artigo e dos dados que ele traz? Você imaginava algo assim?

Livros em suspenso e mensagens secretas [tradução 14]

Tempos atrás, também através da tradução de um artigo, falei sobre os “livros no escuro“, ou seja, o ato de comprar um livro que você não sabe qual é, nem mesmo quem é o autor. No post mencionado eu explico isso um pouco melhor.

Hoje, porém, quero falar sobre outra iniciativa bem interessante (e antiga) relacionada a esse universo: os livros “em suspenso” e as mensagens “secretas”. Do que será que eu estou falando?

Para isso, escolhi este artigo, escrito por Beatrice, há sete anos (portanto, em 2014, mas acredito que ainda existam iniciativas do tipo), no Blog L’angolo dei libri, que, de maneira relativamente esporádica, ainda publica novos conteúdos.

Vamos ao que interessa? A tradução do título do artigo original é o que dá nome ao meu post e aqui embaixo você encontra a tradução do conteúdo.


A Itália, por antonomásia o país dos não leitores (de acordo com as estatísticas), continua produzindo iniciativas para promover a leitura: do #livroemsuspenso às citações escondidas entre as páginas de “quem deixa um bilhete, deixa um tesouro“. Não dê ouvidos aos dados: o marketing literário se faz no boca a boca

Se alguma vez você já foi a Napoli ou tem amigos napolitanos, talvez conheça a tradição do café em suspenso. Vai-se à lanchonete e pagam-se dois cafés: um você toma e o outro fica pago para quem vier depois, seja lá quem for. Uma bela ideia, não? Imagine que agora é possível fazer isso com os livros também. De fato, começou, algumas semanas atrás, a iniciativa #livroemsuspenso: passa-se na livraria e compra-se um volume, deixando-o à disposição de quem passará depois.

Na verdade, tudo começou em 2011, na livraria Modus Vivendi, em Palermo e, de vez em quando, outra pequena realidade independente se inspira nisto, como aconteceu nos últimos meses com a Ex Libris, em Salerno, e em Milão, com a livraria Il mio libro.

Levando em conta a generosidade da iniciativa (e talvez esperando por um pouco de marketing), até as livrarias Feltrinelli entraram nessa: entre os dias 23 de abril a 5 de maio, foi promovida a ideia de deixar um livro em suspenso para um outro leitor apaixonado. Porque a ideia é justamente essa: difundir a leitura e deixar as suas marcas. É mais ou menos como se eu te sugerisse um dos meus livros preferidos, mas ao invés de só te passar o título e o autor, te desse logo um exemplar.

Ainda melhor, porém é deixar uma mensagem entre as páginas, uma citação ou um conselho adicional para quem pegar aquele livro, como acontece com a iniciativa “quem deixa um bilhete, deixa um tesouro”, de Laura Cau. A jovem estudante de Cagliari lançou essa ideia entre os seus seguidores no Facebook e parece que está tendo um ótimo sucesso.

As regras para participar do jogo são muito simples: basta escrever em um pedaço qualquer de papel uma frase ou um pensamento e inserir o bilhete entre as páginas de um livro, em uma livraria ou biblioteca. Mas sem, no entanto, comprá-lo. É fundamental deixar o livro onde está, para fazê-lo ser encontrado por outro leitor. No bilhete também vai o escrito “siga-nos no Facebook, na página Um bom livro um ótimo amigo: aqui você poderá encontrar foto de todos os “papeizinhos” encontrados pelos amantes dos livros.


Sei que no Brasil livros físicos costumam ser caros, mas você teria coragem de comprar um a mais e deixar para outra pessoa que você sequer sabe quem é? E um bilhetinho, você deixaria?

Quando eu envio um livro em trocas no Skoob, costumo sempre enviar um bilhetinho junto, mas é coisa simples, apenas desejando uma boa leitura. Mas também já realizei a leitura de alguns livros pensando numa pessoa específica e grifando alguns trechos ou mesmo deixando recados.

Se conhecer outras iniciativas como essa, me conte nos comentários!

Ressaca literária: o que estou fazendo para superá-la [tradução 13]

Para a tradução deste mês, resolvi falar sobre um assunto que todo leitor, em algum momento, fala: a famosa ressaca literária.

E escolhi esse tema porque tenho visto muitas pessoas com dificuldade para ler nesses últimos tempos. É a soma de notícias ruins, mais de um ano vivendo uma grande incógnita e, em alguns casos (e me encaixo nessa) uma correria danada, apesar de tudo.

O artigo original, porém, foi escrito em janeiro de 2018 (ou seja, um contexto bem diferente do nosso, né?), por Chiara Nicolazzo, e pode ser lido aqui. Espero que alguma dessas dicas possa ser útil!

Também gostaria de ressaltar que uma tradução mais literal do título seria algo como “o bloqueio do leitor”, mas adoro esse termo “ressaca” que adotamos por aqui. Então vamos ao que interessa?


Começo a escrever este post sem muita enrolação, mas partindo de uma confissão. Estou de ressaca literária. Uma ótima situação para alguém que administra um blog no qual se fala principalmente de livros, né?

Devo dizer que nunca fui uma daquelas leitoras que se importa com o número de livros lidos, mas é um fato: se vocês acompanham a minha coluna os livros do mês, vocês provavelmente perceberam que ultimamente tenho lido pouco. O que está acontecendo?, perguntei-me. A única resposta que consegui me dar foi que nos últimos meses tenho acumulado muito stress. A experiência de comprar e reestruturar uma casa com certeza foi emocionante, mas também foi um projeto que me sugou tudo. Paciência, tempo, energia mental. Desde setembro comecei a enfrentar situações antipáticas para alguém que se define como uma leitora compulsiva. Leio e percebo que não estou atenta, porque a minha mente vaga para outros cantos. Olho os livros à espera de serem lidos e não tenho vontade nem mesmo de pegá-los. Digo a mim mesma que estou lendo muito pouco e percebo que não me importo com isso.

Inicialmente, pensei que uma vez que passasse o caos de trabalhadores dentro de casa e os problemas mais urgentes, a situação melhoraria. No entanto, continuo me sentindo presa a uma situação que não me pertence. Mais ligada às tarefas cotidianas que às aventuras fantásticas que vivem nos livros.

Pensei, portanto, que poderia ser útil falar com vocês. O que estou fazendo para mudar essa situação? Digamos que não existem regras mágicas, busco apenas escutar o meu instinto e devo dizer que, devagar, as coisas estão melhorando. Então resolvi contar a vocês a minha experiência através das 5 coisas que estou fazendo para superar a ressaca literária.

1) Não me forçar

Percebi que é inútil me forçar. Se eu leio quando não tenho vontade e estou pensando em outras coisas, ler torna-se simplesmente algo automático. E não é bom, porque não aproveito o momento e não gravo nada. Consequentemente, me irrito. Ler apenas por dever, apenas para não perder o hábito, torna-se mais uma daquelas ações que cotidianamente “tenho que fazer”, não uma daquelas que “quero fazer”.

2) Não experimentar

Nesses meses, tentei por diversas vezes ler algum dos livros que estavam pegando poeira na minha cabeceira, à espera de serem lidos. Em sua maioria, são livros que comprei ao acaso, apenas porque custavam pouco, ou que recebi de brinde de alguma editora. Em ambos os casos, são livros que acabaram nas minhas mãos quase por acaso, não porque eu os desejasse ler há muito tempo. Percebi, portanto, que é inútil experimentar novas leituras neste período, porque esta se revelou uma atividade improdutiva.

3) Estabelecer quantas páginas ler por dia

Ter ressaca literária significa que existem dias que encontro mil desculpas e mil tarefas para fazer só para não abrir um livro. Nos últimos tempos, por exemplo, estou acompanhando várias séries televisivas e voltei a fazer crochê com o objetivo de fazer um suéter (mas isso é uma outra história). Entendi, portanto, que é eficaz sim, dizer a mim mesma “Chiara, você tem que ler pelo menos vinte páginas e depois pode fazer o que bem entender“. Comigo funciona. Isso de estabelecer um total de páginas para ler por dia me permite reestabelecer uma conexão entre eu e o livro que, sem isso, não seria possível.

4) Reler o meu livro/autor preferido

Um sintoma dessa situação é o de ter perdido o entusiasmo de me perder em uma história. Percebi, porém, que isso não acontece quando releio um livro que amo muito ou aproximando-me de escritores que eu curto. Por isso que ultimamente reli diversos livros que sempre têm o poder de me levar de volta para casa. Entre os livros que tirei das caixas estão, por exemplo, L’ora di tutti de Maria Corti e Se non ti vedo non esisti de Levante e, depois, também foi fundamental, como sempre, a minha escritora preferida Isabel Allende, de quem reli alguns trechos dos meus romances preferidos, o seu último trabalho, Além do inverno, e agora estou relendo inteiramente Il quaderno di Maya. Além disso, justamente ontem fiz uma compra online contendo dois títulos que gostaria de ler há muito tempo e que, por diversos motivos, nunca comprei. Acredito que esse seja o caminho.

5) Me dar um tempo

É inútil me desesperar por uma situação que, eu sei, não mudará da noite para o dia, mas que se desenrolará naturalmente e com alguma prudência da minha parte. Não posso me culpar por todo o stress que interiorizei nos últimos tempos e que saiu de mim desta forma. Tudo o que eu posso fazer é me dar um tempo para reencontrar o entusiasmo pela leitura nos autores e nas palavras que amo dia após dia.

Preciso dizer que resolvi dividir com vocês a minha situação porque acho que confrontar essa situação pode ser uma arma a meu favor e talvez também a favor de alguém mais que possa estar na mesma situação. Eu gostaria, portanto, se vocês quiserem, de ouvir as histórias de vocês o seus conselhos.


E aí, o que você faz quando está de ressaca literária? Ou você é uma pessoa tão abençoada que nunca passou por essa situação?

Eu concordo com a autora do texto que é preciso ir ao poucos e não se forçar. Às vezes dá uma sensação de que não vai passar nunca, mas aí a gente reencontra a vontade sim. A única coisa que não costumo fazer, nem mesmo nesses casos, e reler alguma obra. Mas recorro ao meu gênero favorito: um bom romance clichê!

Anglicismos: por que usamos cada vez mais palavras em inglês? [tradução 12]

Acabo de perceber que dei início a este projeto de traduzir um artigo por mês há um ano! E tem sido bem gostoso fazer isso, poder conversar com vocês sobre assuntos pertinentes ao blog e, ao mesmo tempo, exercitar minha tradução do italiano para o português.

Inicialmente, pensei que o artigo de hoje faria mais sentido para os italianos que para nós, pois tenho a impressão de que eles realmente usam muito mais o inglês em expressões nas quais poderiam usar a própria língua (um exemplo bem cotidiano: eles poderiam falar fine settimana, para se referir ao final de semana, mas acabam usando weekend). Porém, foi só pensar no universo literário que logo me deparei com inúmeras palavras em inglês (não só desse universo, mas muito usadas aqui): TBR (to be read), wishlist, hype, spoiler

Então vamos ver o que PrM 1 achava sobre o assunto em 6 de maio de 2017, conforme artigo publicado aqui.


Tem que a ame e a use despropositadamente, e quem, por outro lado, a odeie e se desdobre em traduções às vezes imprecisas. As palavras estrangeiras usadas em italiano, cujo nome técnico é estrangeirismo, não são uma novidade da última década. Todas as línguas estão sujeitas a trocas e empréstimos e, assim, nós, italianos, acabamos dizendo toilette e os falantes de cerca de 37 línguas se cumprimentam com o nosso ciao. O mundo de hoje, cada vez mais globalizado e internacional, nos faz, porém, progressivamente adotar palavras estrangeiras no nosso dicionário dia após dia, a maior parte das quais são anglicismos, isto é, palavras inglesas.

Cada vez mais internacionais

Nos dias de hoje, quase todo mundo sabe ao menos duas línguas e quem não sabe tenta aprender pelo menos o inglês com a ajuda de site e aplicativos como o Duolingo, que conta com cerca de 300 milhões de usuários de todo o mundo. Mesmo sem se empenhar muito, porém, estamos em contato com palavras em inglês todos os dias, simplesmente ligando a TV ou folheando um jornal. O inglês é, de fato, a língua franca atual e todos os negócios políticos e econômicos internacionais são realizados nesta língua. Os termos técnicos, portanto, sequer são traduzidos, para facilitar a compreensão de ambas as partes. Uma características dessas palavras é, de fato, a ausência de uma real tradução para o italiano, ou, quando existe, o termo em inglês indica uma nuance específica. Assim, o selfie, hit de 2013, não é simplesmente um autorretrato.

O advento da internet e das redes sociais deu vida a um novo e riquíssimo vocabulário. Muitas destas palavras não existiam antes no dicionário e coube aos usuários escolher entre usar uma tradução ou mantê-las em inglês. O inglês, na maioria das vezes, ganhou, inclusive porque certas palavras traduzidas ao italiano soam um pouco mal. Internet se liga, também, ao conceito de globalização: graças à rede, a cada dia temos a oportunidade de ler conteúdos em outras línguas, seguir as tendências estrangeiras e nos manter em contato com nossos amigos que estão no exterior. Desta forma, entramos em contato com palavras estrangeiras que, involuntariamente, adotamos na nossa linguagem e que nos convém manter em inglês para facilitar a comunicação com todos aqueles que estão na internet e que não falam a nossa língua.

Palavras diferentes, mundos diferentes

Se os anglicismos permeiam a vida cotidiana, existem âmbitos nos quais eles são mais difundidos. Muitos desses são, claro, relacionados ao mundo da internet ou das relações internacionais, mas a ligação não é sempre óbvia assim. No mundo universitário, pelo fato de que a pesquisa e o desenvolvimento em certos campos acontecem principalmente no exterior, são adotados diversos termos estrangeiros e um diplomado fala, muitas vezes, do seu campo usando vocabulários específicos em inglês. O mundo do trabalho das empresas é cada vez mais internacional e tem adotado cada vez mais termos estrangeiros. Hoje é mais fácil ouvir no escritório palavras como brief, call, deadline ao invés de reunião, telefonema, prazo final. As nuances de significado são parecidas, mas essas palavras são usadas estritamente para o léxico relacionado a trabalho. Outros termos como freelance não são exatamente traduzíveis e um freelancer precisa entender de anglicismos para trilhar seu caminho no mundo do trabalho. Para ampliar sua rede de cliente, muitas vezes precisa contar com sites como UpWork e pode acabar trabalhando até para clientes não italianos. Outro ambiente rico em termos ingleses é o das apostas. Abrindo qualquer site de jogos é fácil perceber que atualmente os termos mais usados em um jogo e o próprio nome dele são, geralmente, em inglês. Assim, os giros geralmente são spin ou free spin e os símbolos são chamados de wild e scatter. Mesmo nesse caso, dada a origem estrangeira desses jogos, as traduções não são sempre necessárias e os termos em inglês tornam-se específicos para este campo. Desde a fundação do Facebook, em 2014, houve uma inundação de novas redes sociais e de novos termos usados para descrever as várias funções delas. Abrindo uma rede social qualquer, portanto, contaremos os nossos follower e olharemos a página de alguns influencer. Os termos das redes, porém, são aqueles mais italianizados, dando vida a nova palavras que são um misto de inglês e italiano, como taggare ou addare. Se as amamos ou odiamos, não podemos mais viver sem algumas palavras inglesas na nossa língua cotidiana, porque nos faltariam alguns instrumentos comunicativos fundamentais. Só nos resta integrar a nossa língua a esses novos termos e torná-los nossos, talvez pronunciando-os de uma maneira totalmente italiana.


E aí, qual a sua opinião sobre o assunto? Creio que podemos fazer muitas ressalvas a esse texto, ainda mais se pensarmos que o contexto brasileiro é bem diferente do italiano. Mas também há algumas reflexões bem interessantes, não?

Para concluir de verdade, só queria dizer que foi engraçado traduzir este artigo, pois realmente há mais termos que os italianos continuam a usar em inglês e que, na tradução, consegui passar para o português, como redes sociais (apesar de existir rete sociali eles acabam usando social). Por outro lado, há um momento em que usei o termo hit e, neste caso, no texto italiano, havia um termo na língua deles que, em português, não há uma tradução muito exata e que seja melhor que hit.

Agora imagine você o nó que deu aqui para traduzir tudo isso, hein!?