Desesterro — Sheyla Smanioto

Título: Desesterro
Autora: Sheyla Smanioto
Editora: Record
Páginas: 303
Ano: 2018 (3º edição)

Ler Desesterro é, sem dúvidas, uma experiência literária. Acho que o próprio título já nos mostra que algo diferente está por vir e a capa ajuda a dar um toque final à complexidade da obra. Não à toa, a obra foi vencedora do Prêmio Sesc de Literatura, na categoria romance — ainda que sua linguagem seja muito mais poética que prosaica —, do Prêmio Machado de Assis (da Biblioteca Nacional), além de ter sido premiado no Jabuti e finalista do Prêmio São Paulo.

“Ler é: devorar a fome dos outros”

Logo na primeira página, não pude deixar de pensar em Vidas Secas (Graciliano Ramos), porque a autora começa a obra com a descrição de uma cidade pequena — Vilaboinha —, humilde e seca. Mas, ainda que ao longo da leitura essa semelhança ainda ecoasse em mim, também há muita coisa única neste livro.

“Até a fome da gente a terra devora, mas a terra não guarda tudo, não senhora”

O livro é dividido em partes, mas que se misturam, assim como as muitas vozes que compõem a narrativa, mas que, por vezes, parecem uma só. Nem tudo tem nome, nem mesmo os sentimentos.

“Desesterro: a única palavra que Scarlett conhecia”

Desesterro é um livro que diz e não diz. Se em alguns trechos eu pensava “será que a autora está falando disso?”, em outros, eu tinha certeza. E por disso entende-se muita coisa: miséria, violência, estupro, abandono paternal.

“Tonho tantas vezes batendo em Fátima ela nem se importa, mulher nenhuma morreu de apanhar de marido, exceto as que estão mortas”

Ainda que sejam temáticas sérias e pesadas, a leitura flui, porque as palavras escorrem em seu tom poético. E o “disse não disse” também nos ajuda a engolir duras verdades.

“Nasceu da morte dela, vê se isso é coisa de gente”

Mas há também outras temáticas na obra, como o passado que nos assombra e o ato de migrar (interna ou externamente).

“Transformação é: migração de dentro.

Sem uma linha temporal clara e com construções gramaticais bem diferentes do comum, Deseterro pode assustar alguns leitores. Mas é uma leitura que merece um esforço, talvez uma leitura em voz alta de alguns trechos (inclusive, se vocês procurarem por esse título no Google, encontrarão diversos vídeos da autora declamando alguns trechos).

“Mas filha é assim mesmo, a Fátima sabe, meu Deus, a Fátima não sabe a Fátima só imagina como é ser mãe. Mas, diacho, quem é que sabe?”

Desesterro é uma leitura para quem quer fugir do óbvio, mas também para quem consegue levar alguns socos no estômago ao virar das páginas. Por fim, uma leitura que irá surpreender a quem decidir realizá-la.

“Ele foi embora com o sol, assustado com a descoberta imprevista”

Se você se interessou, não deixe de clicar aqui (livro físico) ou aqui (ebook).

Ressaca literária: o que estou fazendo para superá-la [tradução 13]

Para a tradução deste mês, resolvi falar sobre um assunto que todo leitor, em algum momento, fala: a famosa ressaca literária.

E escolhi esse tema porque tenho visto muitas pessoas com dificuldade para ler nesses últimos tempos. É a soma de notícias ruins, mais de um ano vivendo uma grande incógnita e, em alguns casos (e me encaixo nessa) uma correria danada, apesar de tudo.

O artigo original, porém, foi escrito em janeiro de 2018 (ou seja, um contexto bem diferente do nosso, né?), por Chiara Nicolazzo, e pode ser lido aqui. Espero que alguma dessas dicas possa ser útil!

Também gostaria de ressaltar que uma tradução mais literal do título seria algo como “o bloqueio do leitor”, mas adoro esse termo “ressaca” que adotamos por aqui. Então vamos ao que interessa?


Começo a escrever este post sem muita enrolação, mas partindo de uma confissão. Estou de ressaca literária. Uma ótima situação para alguém que administra um blog no qual se fala principalmente de livros, né?

Devo dizer que nunca fui uma daquelas leitoras que se importa com o número de livros lidos, mas é um fato: se vocês acompanham a minha coluna os livros do mês, vocês provavelmente perceberam que ultimamente tenho lido pouco. O que está acontecendo?, perguntei-me. A única resposta que consegui me dar foi que nos últimos meses tenho acumulado muito stress. A experiência de comprar e reestruturar uma casa com certeza foi emocionante, mas também foi um projeto que me sugou tudo. Paciência, tempo, energia mental. Desde setembro comecei a enfrentar situações antipáticas para alguém que se define como uma leitora compulsiva. Leio e percebo que não estou atenta, porque a minha mente vaga para outros cantos. Olho os livros à espera de serem lidos e não tenho vontade nem mesmo de pegá-los. Digo a mim mesma que estou lendo muito pouco e percebo que não me importo com isso.

Inicialmente, pensei que uma vez que passasse o caos de trabalhadores dentro de casa e os problemas mais urgentes, a situação melhoraria. No entanto, continuo me sentindo presa a uma situação que não me pertence. Mais ligada às tarefas cotidianas que às aventuras fantásticas que vivem nos livros.

Pensei, portanto, que poderia ser útil falar com vocês. O que estou fazendo para mudar essa situação? Digamos que não existem regras mágicas, busco apenas escutar o meu instinto e devo dizer que, devagar, as coisas estão melhorando. Então resolvi contar a vocês a minha experiência através das 5 coisas que estou fazendo para superar a ressaca literária.

1) Não me forçar

Percebi que é inútil me forçar. Se eu leio quando não tenho vontade e estou pensando em outras coisas, ler torna-se simplesmente algo automático. E não é bom, porque não aproveito o momento e não gravo nada. Consequentemente, me irrito. Ler apenas por dever, apenas para não perder o hábito, torna-se mais uma daquelas ações que cotidianamente “tenho que fazer”, não uma daquelas que “quero fazer”.

2) Não experimentar

Nesses meses, tentei por diversas vezes ler algum dos livros que estavam pegando poeira na minha cabeceira, à espera de serem lidos. Em sua maioria, são livros que comprei ao acaso, apenas porque custavam pouco, ou que recebi de brinde de alguma editora. Em ambos os casos, são livros que acabaram nas minhas mãos quase por acaso, não porque eu os desejasse ler há muito tempo. Percebi, portanto, que é inútil experimentar novas leituras neste período, porque esta se revelou uma atividade improdutiva.

3) Estabelecer quantas páginas ler por dia

Ter ressaca literária significa que existem dias que encontro mil desculpas e mil tarefas para fazer só para não abrir um livro. Nos últimos tempos, por exemplo, estou acompanhando várias séries televisivas e voltei a fazer crochê com o objetivo de fazer um suéter (mas isso é uma outra história). Entendi, portanto, que é eficaz sim, dizer a mim mesma “Chiara, você tem que ler pelo menos vinte páginas e depois pode fazer o que bem entender“. Comigo funciona. Isso de estabelecer um total de páginas para ler por dia me permite reestabelecer uma conexão entre eu e o livro que, sem isso, não seria possível.

4) Reler o meu livro/autor preferido

Um sintoma dessa situação é o de ter perdido o entusiasmo de me perder em uma história. Percebi, porém, que isso não acontece quando releio um livro que amo muito ou aproximando-me de escritores que eu curto. Por isso que ultimamente reli diversos livros que sempre têm o poder de me levar de volta para casa. Entre os livros que tirei das caixas estão, por exemplo, L’ora di tutti de Maria Corti e Se non ti vedo non esisti de Levante e, depois, também foi fundamental, como sempre, a minha escritora preferida Isabel Allende, de quem reli alguns trechos dos meus romances preferidos, o seu último trabalho, Além do inverno, e agora estou relendo inteiramente Il quaderno di Maya. Além disso, justamente ontem fiz uma compra online contendo dois títulos que gostaria de ler há muito tempo e que, por diversos motivos, nunca comprei. Acredito que esse seja o caminho.

5) Me dar um tempo

É inútil me desesperar por uma situação que, eu sei, não mudará da noite para o dia, mas que se desenrolará naturalmente e com alguma prudência da minha parte. Não posso me culpar por todo o stress que interiorizei nos últimos tempos e que saiu de mim desta forma. Tudo o que eu posso fazer é me dar um tempo para reencontrar o entusiasmo pela leitura nos autores e nas palavras que amo dia após dia.

Preciso dizer que resolvi dividir com vocês a minha situação porque acho que confrontar essa situação pode ser uma arma a meu favor e talvez também a favor de alguém mais que possa estar na mesma situação. Eu gostaria, portanto, se vocês quiserem, de ouvir as histórias de vocês o seus conselhos.


E aí, o que você faz quando está de ressaca literária? Ou você é uma pessoa tão abençoada que nunca passou por essa situação?

Eu concordo com a autora do texto que é preciso ir ao poucos e não se forçar. Às vezes dá uma sensação de que não vai passar nunca, mas aí a gente reencontra a vontade sim. A única coisa que não costumo fazer, nem mesmo nesses casos, e reler alguma obra. Mas recorro ao meu gênero favorito: um bom romance clichê!

A importância da leitura sensível e da leitura crítica

Confesso que a motivação para escrever este post vem de um livro que li ano passado. Ou melhor, não li, apenas iniciei. Eu dificilmente largo um livro depois de começar a ler, mas ano passado foram dois, quase ao mesmo tempo. E não sei se o problema estava realmente nos livros ou se foi também pelo fato de que iniciei a leitura um pouco antes de começar a quarentena por aqui… Mas o fato é que, num desses livros, havia uma coisa bem clara me incomodando.

Quem me acompanha por aqui provavelmente já sabe que eu sou professora de italiano. Fiz faculdade e continuo a estudar cotidianamente sobre a língua e a cultura. Um dos livros que larguei ano passado trazia um personagem italiano. Coisa, aliás, que me fez ir atrás do livro para ler.

Eu já sabia, antes de iniciar a leitura, que esse tal personagem, na história, pertencia à máfia italiana, mas isso não me pareceu um problema. Não até eu iniciar a leitura e me dar conta que, uma vez mais, eram pessoas de fora tentando retratar a “famosa máfia italiana”.

A questão é que máfia é uma coisa muito complicada. E muito séria também. Sabe aqueles políticos que nos deixam indignados porque desviam dinheiro, roubam milhões e deixam outras milhares de pessoas na miséria? Pois é, a máfia não é muito diferente disso… Matam sem dó, extorquem as pessoas…

Para além do fato de que reproduzimos erroneamente um conceito de máfia que foi exportado, principalmente, pela indústria cinematográfica, o livro em questão me incomodou porque a autora quis inserir “falas em italiano”, mas, aparentemente, sem ter conhecimento algum da língua e, consequentemente, recorrendo ao Google Tradutor. Era fácil perceber isso porque havia palavras que eu entendia como uma tradução literal ou então frases que não faziam sentido algum em italiano.

E o pior que esse não foi o primeiro livro no qual vi algo do tipo, mas no anterior, como não era o foco da história, consegui relevar mais facilmente.

A questão é que isso ficou ecoando em mim (bom, já faz mais de um ano e só agora que, finalmente, estou escrevendo esse post!). Eu não sou de criticar autores nacionais, muito pelo contrário aliás, vocês sabem que boa parte das minhas resenhas são de autores que estão iniciando ou que ainda não têm um grande público. E eu realmente não sou uma leitora chata, mesmo tendo um olhar crítico.

Mas o fato de eu relevar muita coisa não significa que eu não enxergue, por exemplo, erros de português (sim, tem dias que a revisora que habita em mim está atacada) ou coisas que, sinceramente, poderiam ser melhoradas em uma história.

A questão é que, muitos autores, seja por falta de tempo, de dinheiro ou mesmo de conhecimento, se esquecem que escrever um livro vai muito além de sentar e escrever (por mais contraditório que isso possa soar). Escrever um livro pode envolver muita pesquisa e planejamento antes da escrita em si e muito aprimoramento depois que é colocado o último ponto final do arquivo. Sim, porque depois da primeira escrita é que podemos lapidar e melhorar aquela obra, por mais cansativo que isso pareça (e é).

Nem sempre seremos nós a enxergar o que precisa ser melhorado! Por isso a importância de um leitor beta, um leitor crítico, por vezes um leitor sensível e, claro, um revisor (mas isso é coisa para depois da história já lapidada).

E aí você vira e me diz: leitor beta? Leitor crítico? Leitor sensível? O que são essas coisas? Bem, os nomes talvez já se expliquem (ao menos em partes), mas vou tentar trazer uma breve descrição de cada um desses tipos de leitor.

Leitor beta

O leitor beta é o seu primeiro leitor. Aquela(s) pessoa(a) para quem você vai mostrar seu livro antes de todo mundo, para poder ver as reações dessa(s) pessoa(s) enquanto lê(em). Pode ser um cônjuge, parente, amigo, quem for. Só tem de ser alguém em quem você confie e que também uma pessoa que tenha afinidade com o tipo de texto que você escreve (porque, se a pessoa não gosta daquilo, pode não gostar de seus escritos, o que não significaria que eles estão ruins!). E se você não conhece nenhuma pessoa que preencha esses requisitos, saiba que existem muitos leitores dispostos a ser leitor beta, mas é preciso saber encontrá-los. Alguns até podem cobrar por esse tipo de “serviço”, ainda que a leitura beta seja a mais fácil de se conseguir gratuitamente. Encontrar um leitor beta que não seja alguém do seu círculo social também pode ser bom, porque a pessoa poderá te dar uma opinião até mais sincera do que alguém que você conheça e que pode ter medo de te magoar.

Leitor crítico

O leitor crítico já está um passo além do leitor beta. Neste caso, é importante escolher alguém que tenha uma certa bagagem literária e que seja ainda mais sincero em suas opiniões (aqui já é mais difícil contar com conhecidos, pois eles acabarão tendo uma visão menos imparcial da obra). O que espera-se desse leitor é que ele leia a obra e aponte os pontos fortes e fracos, sugerindo modificações onde achar necessário (modificações essas que podem ou não ser aceitas pelo autor, que é quem dá a palavra final) e apontando o que poderia ser melhorado. Neste caso, é mais provável que você encontre pessoas que cobrem por esse serviço, afinal, ele requer dedicação e conhecimento.

Leitor sensível

Por fim, alguns tipos de obra requerem a leitura de um leitor sensível. Se você escrever sobre alguma minoria ou cultura que não é a sua, contrate um leitor sensível que tenha conhecimento sobre aquela causa. Isso vai evitar que você passe vergonha com o seu livro publicado, viu?

Vamos supor que você quer escrever sobre um personagem surdo, mas você é uma pessoa ouvinte. Por mais que você pesquise, se informe, conheça pessoas surdas, é importante contratar um surdo para fazer a leitura sensível de sua obra, pois só ele poderá dizer se a sua representação está bem feita, se você não deixou passar algo (para um ouvinte colocar um personagem surdo ouvindo algo é rapidinho, né?).

No caso de autores brasileiros que queiram escrever sobre a máfia italiana, claro, a leitura sensível já é um pouco mais complicada. Isso porque o ideal seria contratar alguém que vive (ou viveu) numa cidade dominada por esse tipo de poder, mas aí temos dois empecilhos: o fato de que “onde eu vou achar uma pessoa dessas? Eu nem falo italiano!” e o fato de que talvez as pessoas não queiram falar sobre isso, porque a vida delas poderia estar em risco (pois é!).

Para esses casos, porém, é importante buscar informações em fontes seguras e históricas, a fim de evitar apenas a reprodução de estereótipos. Além disso, você também pode contar com a leitura de pessoas que tenham mais conhecimento que você sobre aquele determinado assunto, de acordo com a formação delas (e outras bagagens culturais, porque diploma também não é tudo nessa vida, né?).

E você, já leu algum livro e sentiu que faltou uma leitura crítica e/ou sensível antes da publicação?

A sandália virada — H. L. Amaral

Título: A sandália virada
Autor: H. L. Amaral
Editora: Publicação independente
Páginas: 180
Ano: 2021

Eu era bem pequena quando outra criança, tão pequena quanto eu, ensinou-me que não se pode deixar as sandálias viradas para baixo, porque isso causa a morte da mãe. Assunto macabro para crianças, né? Mas bem, são as crendices populares que permeiam o nosso imaginário cultural.

E neste livro, H. L. Amaral trabalha justamente com essa ideia, criando uma narrativa muito instigante, daquelas que não queremos largar, porque cada capítulo nos faz querer ler “só mais um…”.

Lara, a protagonista desta história, tem apenas 12 anos e a vida de ponta cabeça. Bom, na verdade eu talvez esteja sendo tão dramática quanto ela, mas ao longo da leitura vamos entendendo como ela tem seus motivos e, em momento algum, ela é uma protagonista insuportável, ainda que seja um pouco mimada.

“Não importa o quanto ela quisesse, era como tentar abrir uma porta com a chave errada”

O que acontece é que Lara perdeu sua mãe aos oito anos de idade e não consegue aceitar sua madrasta. Para piorar tudo, é por conta dessa madrasta que ela e seu pai precisam mudar de cidade, o que só aumenta a raiva da jovem.

“O nome ‘Cidade Nova’ era bem literal para mim”

Um dia — ou, sendo mais específica, uma noite — Lara, irritada com sua madrasta, decide testar a famosa crendice popular da sandália virada. Mas ela não esperava que o efeito pudesse ser tão potente e real! No dia seguinte, Lara e Heloísa — sua madrasta — sofrem um acidente de carro, do qual Lara sai praticamente ilesa, enquanto Heloísa fica entre a vida e a morte.

“Eu era a rainha dos planos idiotas, acho que isso já ficou claro”

Claro que, neste dia, o pai de Lara viajara a trabalho e teve de voltar às pressas para Cidade Nova. Mas Lara, acreditando que tudo aquilo era culpa da sandália virada, decide fugir do hospital e voltar o quanto antes para casa, para tentar reverter o estrago.

“De onde estava, pude ver que era um sinal de noventa segundos de espera. Esses intervalos parecem durar uma eternidade quando tudo que você quer é chegar em casa”

A maior parte do livro se passa nesse momento, isto é, no caminho de Lara até a sua casa. Um caminho, porém, recheado de obstáculos, não apenas pelo fato dela não conhecer a cidade, mas por ser carnaval e por Cidade Nova, de acordo com as descrições da história, não ser muito segura, principalmente a noite.

“Agora, perdida no meio da noite, vejo que aquilo foi um erro. Eu não devia brincar com o que eu não entendia por completo”

Por “sorte”, no início desse percurso, Lara encontra Elmo, seu único amigo naquela cidade (e que, até então, ela sequer sabia se poderia realmente chamar de amigo).

“Amigos precisam ser transparentes feito amebas”

E é assim que por páginas e páginas acompanhamos as aventuras e desventuras desses dois jovens e, ao mesmo tempo, vamos conhecendo um pouco mais cada um e de seus respectivos passados e presentes.

“Quando me dei conta, já estávamos rindo pela noite de Cidade Nova, rindo como as crianças que éramos”

É impressionante como, se pararmos para analisar, Sandália Virada se passa basicamente (mas não totalmente) em uma única noite. Melhor ainda, em algumas poucas horas. E, ainda assim, há muito conteúdo entremeado ali. Sem contar o fato de que o autor consegue, em meio a tanta ação, abordar alguns assuntos como nuances das mais diversas relações familiares, a verdadeira amizade, confiança, bullying e superação.

“Tem gente que tem o sorriso torto. Tem gente que sequer sorri. Já vi gente legal e gente ruim em ambos os casos”

Sandália virada se passa em uma noite que mais parece uma vida e ainda toca em temas importantes, conseguindo ser leve e emocionante, fluída e prazerosa de ler. Uma história para todas as idades e que provavelmente vai te surpreender.

“Aquela noite não era sobre o que eu queria ou o que eu precisava. Nunca foi”

Esse livro caiu do céu em meio às minhas leituras, sendo aquela fuga necessária em meio a tanto caos, ainda que o universo de Lara seja bem caótico também.

“Eu podia ser uma maluca que acreditava em pragas da época da minha bisavó, mas ele ainda segurava minha mão”

Se você se interessou por essa história, clique aqui para conhecer Lara, Elmo e toda a confusão que uma simples sandália virada pode causar!

Música: versões italianas de músicas brasileiras

Há um tempinho, fiz um post aqui sobre músicas italianas e suas versões brasileiras. A receptividade do post foi muito boa e uma amiga me sugeriu que eu fizesse o contrário, isto é, músicas brasileiras e suas versões italianas. Apesar de saber que, por exemplo, Chico Buarque tem diversas músicas traduzidas para o italiano, pois ele chegou a morar lá durante o período da ditadura que houve aqui (conheça os álbuns Na Itália e Per un pugno di samba), achei que essa ideia seria bem desafiadora.

Essa mesma amiga, porém, disse que há uma música do Marcelo Jeneci com uma versão italiana, coisa que eu desconhecia! A música “Felicidade” (2010) ganhou, em 2020, uma versão italiana, com a cantora Erica Mou. No caso, uma versão feita em conjunto por esses cantores:

E aí, pesquisando mais sobre o assunto, fui descobrindo algumas coisas interessantes. Por exemplo, a música brasileira chegou à Itália principalmente quando ocorreu um movimento inverso àquele que ocorrera anos antes, isto é, quando muito brasileiros migraram para lá. Outra coisa que contribuiu para o surgimento de versões italianas de músicas brasileiras foi o sucesso mundial da Bossa Nova.

Fora isso, porém, dificilmente os italianos tinham conhecimento sobre as nossas produções. Hoje, claro, a internet contribuiu para mudar esse cenário, mas ainda assim há poucas versões atuais nesse par.

Se por um lado eu já sabia que “A banda” (1966) ganhara uma versão italiana — “La banda” (1967) — por outro, eu não sabia que “Águas de março” (1972) também tinha a sua tradução (“La pioggia di marzo — 1993). La banda, porém, é bem mais próxima do original (com relação ao texto) que La pioggia di marzo:

Também descobri que a Mina (cantora de La banda, que coloquei ali em cima) tem um cd com diversas versões de músicas brasileiras, inclusive “Que maravilha” (1969), do Jorge Ben Jor, que virou “Che meraviglia” (1970), uma tradução bem próxima do original:

Você acredita que até Roberto Carlos temos em italiano? (quer dizer, não sei porque isso me surpreende, já que música romântica é a cara dos italianos, né?). “Sentado à beira do caminho” (1969) virou “L’appuntamento” (1970), música cuja letra é um pouco diferente:

Agora, surpreendentemente mesmo talvez seja saber que “Nem vem que não tem” (1967), do Wilson Simonal, virou “Sacumdì Sacumdà” (1968), também com uma letra diferente da original (exceto pelo que dá título à versão italiana):

Fora isso, também há algumas músicas infantis com suas versões, como “O caderno” (1983) que virou “Mistero” (1997) , similar à original, mas com algumas modificações:

Agora você quer ficar REALMENTE em choque? Sabia que existe uma versão italiana de “Anna Júlia” (1999)? Sim, a música dos Los Hermanos! Em italiano, também “Anna Júlia” (2001), a letra é um pouquinho diferente (mas o melhor é ouvir o refrão na versão italiana, ficou engraçado!):

Para encarrar, vamos descer um pouco o nível: não é segredo para ninguém que “Ai se eu te pego” (2011), do Michel Teló, bombou mundialmente. O que você talvez não saiba é que a música realmente ganhou uma versão italiana, que é uma tradução mesmo (assim como a versão em todas as outras línguas — e foram muitas).

Eu me lembro que foi justamente em 2012 que fui pela primeira vez para a Itália e as pessoas ainda tentavam cantar a versão em português mesmo (que tocava em tudo quanto era lugar, assim como Gustavo Lima!):

Por hoje é isso! Até que consegui mais músicas do que eu esperava e, para variar, me diverti muito fazendo esse post. Principalmente com essas duas últimas. Agora estou pensando em fazer um post de músicas norte americanas em italiano (com certeza tem várias).

Eu matei minha mãe — Brias Ribeiro

Título: Eu matei minha mãe
Autora: Brias Ribeiro
Editora: Publicação independente
Páginas: 22
Ano: 2021

Se o título desse lançamento da autora Brias Ribeiro parece pesado, logo compreende-se que muito mais pesada é a narrativa. Aliás, para ser mais justa, a narrativa é até leve, mas aborda uma questão muito importante.

Neste conto conhecemos Diego, um rapaz cuja infância e pré-adolescência foram relativamente boas no aspecto familiar, mas um pouco complicadas na escola, onde sofria bullying, sendo chamado de “viadinho” e “afeminado”, coisa que os pais diziam ser impossível.

Como esses pais sempre faziam tudo por Diego, aos 12 anos ele conseguiu convencê-los que era hora de trocar de colégio. Aos 14 anos, porém, tudo mudou: Diego foi pego atrás da escola, com outro garoto. Aquele foi o fim da relação familiar aparentemente tranquila e equilibrada que existia até ali.

Os pais de Diego, que até então o “amavam”, passaram a odiá-lo e desprezá-lo. Também passaram a brigar constantemente, o que levou à separação deles. Diego continuou morando com a mãe até quando foi possível, mas a situação tornou-se insustentável cedo demais.

“Sentia uma vontade imensa de chorar, mas não conseguia mais”

Logo no início da faculdade — Diego optou por cursar artes cênicas — ele foi definitivamente expulso de casa e teve de se virar. Por sorte, tudo o que lhe faltava de amor familiar, transbordava de amor em suas poucas amizades, que prontamente o acolheram.

“Foram 6 anos de invencibilidade. 6 anos sem chorar que finalmente chegaram ao fim. Era difícil chorar, difícil estar chorando”

Apesar de ter sido totalmente rejeitado por seus pais apenas pela sua sexualidade, Diego sempre tentou conversar, tentou se reaproximar deles, mas todas as suas tentativas foram em vão.

O final do conto é um pouco ambíguo — propositalmente — e, ao mesmo tempo, catártico, ao menos para Diego. Um desfecho que, ao mesmo tempo que surpreende, nos deixa com aquela sensação de “como assim essa história vai acabar aqui?”.

Eu matei minha mãe, portanto, é um conto que fala sobre relações familiares, autoconhecimento, homofobia, amizade, bullying… Caramba, são muitos temas importantes em poucos páginas, mas sem ficar atropelado ou forçado!

E se você quer conferir essa história, clique aqui.

Que material você usa nas aulas de italiano?

Hoje era dia de, antes tarde do que nunca, trazer um post de gramática da língua italiana, como tenho feito ao menos uma vez por mês. No entanto, semana passada, surpreendentemente, várias pessoas entraram em contato comigo, buscando aulas de italiano. E sempre que isso acontece é mais ou menos a mesma coisa: trocamos informações sobre funcionamento das aulas, sobre o que a pessoa busca, disponibilidade de horários, valores e… materiais.

Gosto de deixar claro, desde o início que eu não costumo adotar um livro didático para usar nas aulas. E já sabendo que isso é um pouco assustador para algumas pessoas, porque fomos educados em aulas que sempre contavam com o apoio de um livro, explico os motivos da minha escolha.

Em primeiro lugar, o que pesa é a questão financeira: diferentemente do inglês, no Brasil não temos tanto material de língua italiana disponível e, quando tem, costumam ser caros e não permitem uma continuidade (isto é, pode ser que encontremos o livro 1 e 2, mas não encontremos o 3 e o 4 para dar prosseguimento ao curso).

Para além disso, porém, há a questão didática propriamente dita: os livros didáticos (de qualquer língua) são, em sua grande maioria, pensados para qualquer estudante, isto é, um estudante de qualquer parte do mundo. Acontece que o português e o italiano não são línguas muito distantes o que, em muitos casos, pode ser ótimo, mas em outros, gera confusões bem interessantes. E esses livros dificilmente dão espaço para trabalharmos bem esses aspectos. E já aconteceu, por exemplo, de eu receber alunos que estudaram um pouco da língua sozinhos, ou então fizeram um tempo de curso e pararam, mas que, tendo essa base, precisam de um ritmo diferente nas aulas.

Tá, mas como você faz? Fica tudo solto?

Não exatamente, mas organização ajuda bastante. O que eu faço é disponibilizar um arquivo a cada aula — que poderia ser considerado uma mini unidade didática — no qual estará tudo trabalhado naquela aula em específico. É nesse arquivo que coloco textos, exercícios feitos em aula, explicações gramaticais, resumos, vocabulário… Tudo o que for útil e necessário.

Além disso, tenho sempre trabalhado esse material, buscando deixá-lo cada vez mais fácil de usar e, claro, mais completo. Atualmente, o que tenho feito é colocar sempre o número da aula, a data e os tópicos daquele dia. Mas ainda pretendo montar pequenos livros didáticos para usar com meus alunos, um pouco mais com a cara do que encontramos nas livrarias, evitando inseguranças quanto a isso.

Mas não é como se eu criasse tudo absolutamente do nada, tá? Eu vou comparando explicações de livros que tenho (porque sim, eu tenho alguns livros didáticos de italiano em casa!), buscando explicações na internet e vou condensando a informação, tentando ao máximo deixar tudo o mais claro possível.

Também deixo como opção para os alunos receber exercícios extras, para praticar um pouco mais aquilo que for visto em sala de aula. Esses exercícios, porém, sendo opcionais, são enviados num arquivo já com as respostas ao final e, tendo dúvidas, o aluno poderá tirá-las em sala ou mesmo entrando em contato comigo.

E como eu faço para suprir a falta do conteúdo multimidiático que, geralmente, é disponibilizado com os livros didáticos? De uma maneira bem simples: como tarefa de casa, costumo pedir que meus alunos assistam um vídeo curto, disponível no youtube ou qualquer outra plataforma gratuita. São vídeos que seleciono de acordo com o que trabalharemos na aula seguinte e sempre buscando trazer pessoas diferentes, assim eles podem se acostumar com sotaques e ritmos diferentes de fala. Também gosto muito de usar músicas e tenho tentado aumentar meu repertório, para oferecer conteúdos diferentes e úteis.

Mas veja bem: eu não sou contra materiais didáticos e não vejo problemas em adotar um se algum aluno fizer questão, mesmo depois de apontar todos os pontos que mencionei neste artigo. Para mim, o mais importante é que o aluno se sinta confortável e seguro de que aprenderá como espera.

E aí, você acha que se daria bem com essa metodologia?

Para ler mais conteúdos sobre minha forma de ensinar ou então aprender algumas coisas bem básicas da gramática italiana, clique aqui e confira os posts que já trouxe para o Blog. E se você tiver interesse em aprender italiano, ou conhece alguém que queira, é só clicar aqui.

Mãe, me ensina a conversar — Dalva Tabachi

Título: Mãe, me ensina a conversar: vencendo o autismo com amor
Autora: Dalva Tabachi
Editora: Rocco
Páginas: 96
Ano: 2006

Sabe aquela velha história de que um livro leva a outro? Foi assim que coloquei Mãe, me ensina a conversar no meu horizonte de livros que eu gostaria de ter e ler. Felizmente, no final do ano passado, finalmente ganhei um exemplar deste livro!

Mas eu talvez tenha sido um pouco ingênua ou precipitada, apegando-me demais ao título e ignorando o subtítulo: vencendo o autismo com amor. O que exatamente significaria esse “vencendo”?

“Para lidar com o autismo, há necessidade de amor e paciência”

Infelizmente, esse foi um ponto que pesou bastante ao longo da leitura. O livro foi escrito pela mãe de Ricardo, um rapaz autista. Ela fala da experiência dela ao descobrir que o filho é autista e tudo o que veio depois disso. Mas, por diversas vezes, ela aborda isso falando sobre encontrar uma “cura” para o autismo.

“Fiz tudo para Ricardo ficar bom. É triste ver pais que não acreditam na cura de um filho, pais que podem pagar bons profissionais e não o fazem”

Ok, é importante ressaltar algumas questões aqui. Primeiro: o livro foi publicado em 2006. Ainda que fosse uma época já com mais informação circulando, ainda não era como hoje, em que temos quase tudo na palma da mão e, mais que isso, uma época na qual debatemos sobre tudo e temos a possibilidade de, a cada dia, conhecer a enormidade do mundo.

“Assim como sei que Ricardo é outro, acho que eu mesma sou atualmente um ser humano mais evoluído e compreensivo com as diferenças”

Além disso, como eu mencionei acima, trata-se do relato de uma mãe, o relato de uma experiência, e cada um de nós enfrenta as coisas de uma forma. Para essa mãe, o início foi um baque e, como ela mesma afirmou no trecho que destaquei acima, foi algo que a fez evoluir e aprender muito.

“É importante entender os temores, conviver com eles, para conseguir talvez superá-los algum dia”

Mesmo assim, falar em termos de “superação” e, pior ainda, de “cura” do autismo foi algo que me deixou um pouco com o pé atrás.

Claro que, em muitos casos de autismo, é importante que seja feito um longo trabalho para facilitar a vida do autista em uma sociedade que, infelizmente, ainda não sabe lidar com o que foge da nossa “normalidade”. Mas isso não significa que vamos “curar” a pessoa, apenas tentar fazer com que ela possa se integrar a esse mundo que é, tantas vezes, muito cruel.

“Nem todos compreendem que cada atitude dele, cada comunicação, é um esforço”

Ricardo nasceu em uma família que tinha condições de propiciar ao rapaz tratamentos dos mais diversos, como acompanhamento fonoaudiológico, terapia, esporte, aulas particulares. E, o longo deste livro há, inclusive, alguns trechos com depoimentos desses profissionais.

“Os palpites também vinham sem que pedíssemos, nos deixando confusos e inseguros”

Mesmo não sendo totalmente escrito pela mãe de Ricardo, achei a narrativa do livro um pouco arrastada e, em alguns trechos, até um pouco repetitiva (e olha que o livro é curto!). Ou seja, de todos os livros que já li sobre o assunto, esse foi o que menos gostei.

Porém, isso não significa que eu não tenha aprendido com ele. Refleti bastante ao longo da leitura — pensando nas coisas que trouxe aqui — e, claro, há sempre alguma informação nova sobre esse universo que não nos passa desapercebida nesse tipo de livro.

Gostaria de te ouvir: você já leu esse livro? O que achou? Será que estou sendo muito chata com minhas reflexões? Porque sim, isso pode ter acontecido também! E se você não leu, mas acha que pode ser uma leitura interessante, clica aqui e depois me conta o que achou!

TAG: minha vida em livros

Os últimos dias têm sido um pouco corridos, porque tirei sexta e sábado para dar uma leve relaxada e aproveitar o aniversário do meu irmão dando a atenção merecida a ele. A verdade é que, infelizmente, sem poder sair de casa e sem saber dizer “não”, eu vou pegando trabalhos e mais trabalhos e passo de domingo a domingo em frente ao computador. Ao menos me desconectei um pouquinho nos dias mencionados.

Mas hoje não estou aqui para me queixar e nem nada do tipo. Muito pelo contrários, aliás: escolhi fazer um post mais rapidinho e leve, para trazer um pouco da diversão que merecemos, né?

Ano passado a Isa, do blog Percursos Literários, respondeu à TAG Minha vida em livros e a deixei eu meu horizonte para responder um dia. Agora, quase um ano depois, aqui estou eu! Vamos lá?

1. Encontre na sua estante um livro com a inicial do seu nome:

Eu adoro esse tipo de “desafio”, porque pode parecer difícil encontrar um livro que comece com “T”, mas tenho a sorte de conhecer uma obra nacional incrível de nome Trago seu amor em 3 dias, da Mel Geve (ou seja, sim, a resposta já estava na ponta da língua).

2. Vá contando a sua idade pelos livros da sua estante: qual livro está no número da sua idade?

Gostei dessa. Acabei de contar e parei em Pinocchio, do Carlo Colodi (um dos meus livros em italiano!).

3. Um livro que seja ambientado na cidade/estado/país onde você mora:

Felizmente, tenho lido muitos livros nacionais e, melhor ainda: que efetivamente se passam em terras brasileiras. Mas, vou citar aqui um livro que até comentei na resenha sobre isso: Como não acabar com seu ídolo, da Fátima Aparecida Silva.

4. Um livro que se passe num lugar que você adoraria conhecer:

Nossa, agora fui pega! Bom, talvez seja um pouco inesperado (porque pode ser que você esteja esperando que eu responda algum outro país), mas tenho vontade de conhecer o Rio Grande do Sul. Contudo, não me lembro de nenhum livro que eu já tenha lido e que se passe lá. Para não deixar passar em branco, porém, tem o conto “Não importa a forma que a gente exista”, da Grazi Ruzzante, disponível na antologia Loucuras de Verão. Uma história curtinha, mas que se passa lá!

5. Um livro que tenha sua cor favorita na capa:

Essa é fácil e uma grande alegria para mim: a antologia que organizei, Um amor para chamar de meu, com tons incríveis de lilás, minha cor preferida.

6. De qual livro você tem boas lembranças

Nossa, de muitos! E os que me passaram pela cabeça, as lembranças não são só pelo livro em si, mas geralmente por alguma história a mais, como quem me deu de presente e porque. Para citar algo, tem os livros A lógica inexplicável da minha vida e Aristóteles e Dante descobrem os segredos do universo, do Benjamin Alire Sáenz, autor que conheci através do meu melhor amigo.

E a sua vida em livros, como seria? Fiquei curiosa para saber!