Citações #40 — Minhas escolhas

Quando escrevi a resenha de Minhas escolhas, da autora Taynara Melo, acabei deixando alguns quotes de fora e agora apresento-os a você em mais um post exclusivo de quotes literários.

Em se tratando de uma obra que aborda tanto assuntos importantes, era natural que isso acontecesse. Mas os quotes que trago hoje se referem mais a passagens reflexivas da história, falando principalmente sobre o medo, sentimento que a permeia em diversos momentos:

“O medo nos faz estacionar, impede nosso avanço”

Ainda relacionado a esse sentimento, temos também a presença da morte na narrativa:

“A morte é assim, leva embora da terra as pessoas que amamos, enquanto nós temos que continuar a caminhada, até chegar a nossa vez”

E claro que, pelo próprio título da obra, já podemos imaginar que as escolhas estão presentes nos mais diversos momentos, né? Hora porque a protagonista quer mudar de vida, hora porque ela está passando por alguma situação extremamente complicada, o que, por vezes, dificulta a nossa tomada de decisão:

“Sinto-me sem rumo e sem conseguir pensar um pouco mais além”

Partindo desse aspecto, chegamos a outra essencial também, que é o momento em que enxergamos e aceitamos que precisamos de ajuda:

“Eu precisaria de ajuda para tirar esse sentimento de dentro de mim. Eu não conseguiria mais viver com a mente perturbada”

Por fim, uma coisa que aparece realmente bastante, estando por trás de praticamente todos os temas que mencionei até aqui, são as relações entre as pessoas:

“Muitas pessoas passaram pela minha vida ao longo desses 27 anos, mas foram pouquíssimas, que eu trouxe para perto de mim e tratei como família”

E aí, o que achou desses trechinhos? Ficou com vontade de ler Minhas escolhas? Então é só clicar aqui embaixo!

Ler é bom, por que nós não gostamos? [tradução 18]

Dia desses vi alguém comentando que hoje, mais do que nunca, ler é importante. Difícil discordar, né? Quer dizer, acho que ler sempre foi importante, mas às vezes a gente perde a dimensão do quanto um livro pode nos abrir muitas portas. Por outro lado, sabemos como existem muitos não leitores por aí, mesmo com tantos estudos e publicações que demonstram os benefícios que esse hábito nos traz.

E foi pensando nessas questões que me deparei com um texto (quase uma entrevista de uma pergunta só) que achei muito interessante e que acrescentou alguns pontos à minha reflexão, principalmente por mencionar o papel das escolas (e, em menor grau, dos pais) nisso tudo. O texto em questão foi publicado com o título “Leggere è bello, perché non ci piace?”, no Popolis, em 25 de julho de 2002 e, abaixo, você poderá ler a tradução que fiz dele.

Antes, porém, gostaria de ressaltar que talvez a opinião do autor possa gerar uma pequena polêmica, ainda mais se pensarmos no contexto brasileiro, que carece de tantas coisas: investimento material e intelectual, incentivos, formação adequada… Ainda assim, acredito que podemos retirar dessas palavras uma reflexão válida e que pode nos ajudar a encontrar um norte interessante e, quem sabe, até mais eficiente para o incentivo à leitura.


Prezado Mario Lodi, somos estudantes da IV de Bùssero, na província de Milão. Sabemos que ler é bom, mas nem todos nós lemos sempre de boa vontade e espontaneamente, mesmo sabendo que isso é importante para aprender a nos expressar de maneira correta, para experimentar novas emoções, enriquecer a nossa fantasia, sonhar e estimular nosso pensamento e criatividade. Por quê?

Responde Mario Lodi

Caros amigos, vivemos em um tempo em que se lê cada vez menos, sejamos adultos ou crianças. O fenômeno do abandono da leitura por parte dos jovens americanos havia se tornando quase generalizado e a opinião pública pensava que fosse por causa da televisão.

O psicólogo Bruno Bettelheim, com um grupo de outros cientistas, estudou o problema e publicou os resultados da pesquisa em um livro, traduzido também na Itália, com o título “Imparare a leggere” [aprender a ler] (Editora Feltrinelli). Eles descobriram que a culpa do abandono da leitura não era da televisão, mas da escola, ou melhor, do primeiro livro que a primeira professora oferece à criança na primeira aula, no momento “mágico” no qual ensina a usar os sinais alfabéticos para ler e escrever. Naquele momento, diz Bettelheim, as crianças estão prontas para entrar, através da leitura, nos jardins da cultura, com os livros mais lindos que existem.

As escolas, porém, oferecem às crianças de quase todo o mundo os livros mais chatos que existem, aqueles escolares, iguais para todos. Então as crianças, que são curiosas de tudo, recorrem à televisão. Mas se elas tivessem descoberto de início os bons livros, a leitura se tornaria a mais bela aventura criativa, e uma necessidade. Os pais e os professores, portanto, deveriam substituir os textos escolares e chatos, pelos livros mais lindos e adaptados às crianças de todas as idades.

E quando encontram um, deveriam ler junto, sem fazer exercícios de gramática, e depois procurar outro, e depois outro… Assim nascerá a vontade dos livros como descoberta do mundo real e fantástico. Quem não teve a sorte de, imediatamente, ler bons livros, prefere a TV, mais cômoda, e torna-se preguiçoso diante do monitor. A sua fantasia adormece, o seu pensamento para. E quando o pensamento para é quase impossível colocá-lo em movimento novamente. Boas leituras, caros amigos.


E aí, qual é a sua opinião sobre isso? Não deixe de me contar nos comentários!

Modern Love — Daniel Jones (organizador)

Título: Modern Love: histórias reais de amor, perda e redenção
Original: Modern Love: true stories of love, loss and redemption
Organizador: Daniel Jones
Editora: Rocco
Páginas: 300
Ano: 2020
Tradutor: Ana Rodrigues

Para não deixar dúvidas, hoje eu vou falar sobre o livro Modern Love e não sobre a série que foi inspirada em algumas das histórias que compõem esta obra que, por sua vez, reúne alguns dos textos publicados na coluna homônima do jornal The New York Times. Isso, aliás, é um problema: saber que existe uma coluna recheada de histórias como as que estão neste livro me faz ficar ainda mais obcecada em querer conhecê-las.

“Nos filmes, os gestos românticos funcionam. Mas comigo, na vida real, eles falharam”

Queria dizer, também, que esse foi um livro que iniciei a leitura sabendo que era dele que eu precisava (e agradeço imensamente à Nati por, mais de uma vez, ter dito que eu precisava ler ele e também à Camila, porque graças ao sorteio que ganhei no perfil dela, finalmente pude ter esta obra). Apaixonada por histórias de amor que sou — daqueles romances bem água com açúcar mesmo — eu estava em busca de algo mais real, mais palpável. É isso o que acontece quando a gente cai do cavalo de uma hora para outra, né?

“Fazer papel de boba por amor no fim é sobre você, sobre quanto você tem para dar e as distâncias que está disposta a percorrer para manter seu coração aberto, quando tudo ao redor faz você sentir que deveria se trancar”

Acho que eu posso dizer que a minha leitura desta obra foi catártica e eu amei poder ter encontrado em palavras tantas possibilidades de sentir, de viver e de amar, no sentido mais amplo que essa palavra pode significar.

“Às vezes, não consigo evitar imaginar se os fardos que carregamos não acabam nos carregando”

As histórias que compõem esta obra não são apenas histórias de casais — heteros ou não —, mas, como o próprio nome já diz, histórias de amor, o que pode envolver mãe e filho, amigos, conhecidos. Histórias que podem nos fazer rir, suspirar, chorar, pensar; histórias com finais felizes, mesmo que essa felicidade não esteja onde imaginávamos que ela estaria ou “deveria” estar.

“Compartilhávamos uma história e filhos, mas o que tínhamos já não resultava em um casamento. E tudo bem. Naquela noite, descobrimos um modo de estarmos juntos que funcionava para nós e para nossos filhos”

Já que eu comentei sobre a série antes de iniciar esta resenha, devo dizer que nunca a assisti, mas que enquanto lia o livro eu conseguia compreender porque tiveram a ideia de criar, também, uma série televisiva com essas histórias (e, pelo que vejo falar, as pessoas parecem realmente curti-la). Os relatos são magnéticos e eu terminava a leitura de um e já queria logo iniciar o seguinte, ainda que, muitas vezes, um respiro entre uma história e outra fosse necessário.

“— Ficamos tão obcecados com o emprego que queremos, ou com a pessoa com quem estamos saindo, porque achamos que não haverá outros. Mas sempre há outros”

Algumas histórias, desde o título, parecem surreais, mas é difícil não mergulhar e vislumbrar os acontecimentos que a constroem. O que você esperaria de uma narrativa cujo título é “Primeiro conheci meus filhos, então, a minha namorada. Há uma relação entre todos”? Pois é, eu não sabia o que esperar e fiquei muito grata com a surpresa.

Modern Love me lembrou que cada história é única. Que cada “felizes para sempre” é único. Nem toda felicidade está em uma relação que segue um determinado padrão, até porque, quando falamos de sentimentos humanos, “padrão” é algo que está longe de existir.

“Não há um padrão de como se fazer isso, de como abraçar um ao outro de forma segura e plena depois de uma vida inteira separados”

Este livro é dividido em quatro partes, a saber:

  • Em algum lugar lá fora
  • Acho que amo você
  • Segurando firme nas curvas
  • Assuntos de família

Mas não se engane: não ache que você conseguirá prever o que te aguarda em cada uma dessas partes e que basta ler a primeira história para ter uma ideia do que vem a seguir. Como eu disse, as narrativas surpreendem a todo instante.

“Talvez, ao não responder minha mensagem, ele tivesse me dado de presente o resto da minha vida”

Se depois de ler essa resenha você ainda não acredita em minhas palavras, te convido a ler a obra ou assistir a série (primeira temporada | segunda temporada) e depois vir me contar o que achou, claro! A minha vontade é de abraçar esse livro e nunca mais largar.

Dois aviões de papel — Adrielli Almeida

Título: Dois aviões de papel
Autora: Adrielli Almeida
Editora: Duplo Sentido Editorial
Páginas: 32
Ano: 2021

Voltei para falar sobre a terceira (e última) parada no Sul do Brasil, com o projeto Meu Brasil é assim. Se você não sabe do que eu estou falando, aproveite para dar uma olhadinha neste post aqui.

A resenha de hoje é sobre Dois aviões de papel, conto escrito por Adrielli Almeida e que se passa no Paraná, mais especificamente em Curitiba. Da mesma forma que fiz das outras vezes, vou falar um pouquinho também da minha relação com o Paraná.

Tive a chance de conhecer Curitiba, se não me engano, em 2017 e foi uma cidade que eu adorei e que se tiver a oportunidade, voltarei sem dúvidas. Fala-se muita na frieza dos curitibanos, mas não consegui vê-los com esses olhos. E foi bacana perceber como o conto da Adrielli também trabalha um pouco com esse estereótipo. E veja só: estou aqui elogiando Curitiba e não vivi nem um terço do que Susana — a protagonista da história — viveu. Claro que também são situações bem diferentes então, sem mais delongas, passemos ao conto.

Não sei se foi algo combinado ou não, mas como nos outros contos, nesta história a protagonista está “entre” duas cidades, isto é, sai do interior do Paraná para viver em Curitiba, onde fará faculdade (assim como também aconteceu com a protagonista de Santo Butiá, que, porém, fez o movimento inverso, isto é, saiu da capital para uma cidade do interior).

Em Dois aviões de papel acompanhamos, portanto, a mudança de Susana e, mais especificamente, o seu primeiro dia aproveitando um pouco de sua nova cidade. E claro que isso tinha de começar no cartão postal da cidade: o Jardim Botânico.

Mas não só isso: tinha de começar com um pequeno incidente que acaba acarretando em um dia inesquecível — e talvez um pouco surreal, porque nenhuma pessoa em sã consciência se deixaria levar como Susana, ainda que nem ela acreditasse no que estava fazendo.

A verdade é que o desenrolar dos fatos nos prendem à leitura de maneira muito gostosa. Eu já li outras obras da Adrielli — que, há alguns anos, foi uma autora que descobri muito por acaso e que amei — e fiquei muito feliz quando soube que ela faria parte desse projeto. Ela conseguiu, ao mesmo tempo, escrever uma narrativa leve, com aventuras, amor e ainda apresentar uma Curitiba gostosa de se ler.

O título pode parecer um pouco estranho no início, mas ele fica bem claro no final das história, então se você quer entendê-lo, não deixe de clicar aqui.


Confira a viagem do Meu Brasil é assim através das minhas resenhas:

Quando a neve cair — Thaís Bergmann

Título: Quando a neve cair
Autora: Thaís Bergmann
Editora: Duplo Sentido
Páginas: 43
Ano: 2021

Segunda parada da nossa viagem pelo Brasil: Santa Catarina! Se você chegou aqui agora e não sabe de que viagem estou falando, não deixe de conferir esse post aqui. E antes de contar sobre a história da vez, quero contar da minha relação com Santa Catarina.

Visitei, apenas uma vez na vida, Florianópolis. E isso foi lá em 2013, um pouco depois de prestar vestibular Eram umas merecidas férias de janeiro e fiz essa viagem turística, com meus pais. Ficamos mais pelo hotel mesmo, mas em um dos dias, fizemos uma volta pela ilha.

Se eu fosse hoje para lá, a experiência seria muito diferente, sem dúvidas! Agora eu teria a possibilidade de conhecer pessoalmente muitas pessoas que conheci, nesse último ano, através das telas e, com certeza, aproveitaria ainda mais cada momento e conheceria muitos outros lugares.

Esse contato com tantas pessoas de Santa Catarina têm me ensinado muito, mesmo que elas provavelmente nem se deem conta disso. E acredito que esse aprendizado tornou a minha experiência de leitura desse conto ainda mais especial e divertida.

Quando a neve cair não se passa em Florianópolis, mas na Serra Catarinense. Camila, a protagonista, tem apenas 16 anos e está hospedada, com seus pais, em um hotel fazenda em Urubici. Eles estão ali não apenas para aproveitar o final de semana em grande estilo, mas também pelas notícias de que nevaria por lá.

A verdade é que eles sabem bem o que é a “neve” da Serra Catarinense, mas é evidente que Camila e sua família adoram aquele lugar e o passeio em si. A paixão de Camila, porém, fica ainda mais evidente quando ela conhece Hugo, um rapaz da sua idade, que também está ali com os pais, mas pela primeira vez e ansioso por ver neve!

“A afirmação me pega um pouco de surpresa porque nenhum catarinense chega aos dezesseis anos sem ter subido a serra pelo menos uma vez na vida. Ainda mais que, pelo “s” bem puxado, parecendo com o som de “x”, é óbvio que ele é manezinho da ilha, e Florianópolis fica ainda mais perto de Urubici do que Imbituba, de onde eu sou!” 

Este conto, porém, não é apenas uma história sobre “a neve na serra catarinense” — aliás, esse é quase um detalhe na história — mas sobre amor. Contudo, não se trata de uma mera narrativa melosa e de contos de fadas. Muito pelo contrário, para ser sincera!

Apesar de nova, Camila já sofreu uma bela desilusão amorosa, então mesmo sentindo um belo frio na barriga por ver — e conversar! — um rapaz tão bonito e simpático, ela tenta, a qualquer custo, se manter racional. Claro, ela acaba falhando em alguns momentos, mas tendo a certeza de que aquela história duraria apenas um final de semana, Camila se mantém firme em algumas decisões suas — daquelas que nos fazem pensar: “pare de ser assim, vai aproveitar a vida!” —, para evitar se machucar novamente.

“É nesse momento que tenho certeza que não importa que a gente tenha menos do que vinte e quatro ou quarenta e oito horas juntos: jamais vou esquecer dele ou dessa viagem”

Quando a neve cair é, portanto, um conto que consegue, mesmo em sua brevidade, nos apresentar belas paisagens catarinenses, ao mesmo tempo em que nos faz refletir sobre o quanto vale realmente à pena tentar ser mais racional que sentimental, apenas para evitar um sofrimento.

Fiquei abismada com o desfecho da história, que é daqueles que acende uma luzinha em nossa cabeça, nos lembrando que a vida está aí para ser vivida e sentida. E se você quiser entender do que eu estou falando, já vem aqui garantir o seu conto.


Confira a viagem do Meu Brasil é assim através das minhas resenhas:

Querida quarentena — Grazi Ruzzante

Título: Querida Quarentena
Autora: Grazi Ruzzante
Editora: Publicação Independente
Páginas: 99
Ano: 2020

Demorei mais de um ano para pegar essa noveleta para ler, mas como sempre digo, li no momento certo e, assim, pude apreciar e me conectar com a narradora. Não que isso fosse algo muito difícil, visto que a escrita da Grazi é envolvente e leve, mesmo tratando de uma realidade tão complicada e maluca quanto os tempos de pandemia.

“Embora estejamos em confinamento, o mundo ainda dá voltas. As estações mudam”

O que encontramos nesta obra é uma espécie de diário, mas que ao invés de começar com “querido diário” inicia-se sempre com “querida quarentena”. E tem período melhor que esse para colocar no papel todas as nossas dúvidas, angústias e anseios? Aliás, a protagonista faz isso muito bem ao longo das páginas, colocando nelas questionamentos que, em algum momento, também nos fizemos nesse longo período de isolamento.

“Será que o lado de fora que virou prisão? Será que eu só consigo ser livre aqui dentro? Será que vou conseguir reaprender a dançar lá fora?”

Bia é uma mulher extremamente palpável: fragilizada após um término, ela se vê confinada em casa, consigo mesma, e todos aqueles sentimentos que, em um contexto “normal” já eram intensos, parecem se multiplicar.

“Você me conheceu numa situação atípica. O isolamento fez tudo sair das sombras e sensações aflorarem como nunca antes. Esse negócio de sentimento é novidade até para mim mesma”

Os capítulos de Querida quarentena são bem curtinhos, mas eu sugiro que você não devore toda a obra em um único dia, mesmo sendo possível. Aprecie em doses homeopáticas e observe as mudanças pelas quais Bia passa.

“É estranho revisitar memórias que você tem há anos e perceber as coisas de um jeito diferente”

Essa leitura me acompanhou por cerca de uma semana e confesso que era bem difícil parar de ler, ao mesmo tempo que eu realmente não queria que ela terminasse logo. Há uma narrativa bem clara no livro, mas também é inevitável trazê-la para dentro de nós, nos fazendo mergulhar nesse universo de sentimentos, tantos os nossos quanto os de Bia.

“Eu não sei o que responder quando me perguntam como eu estou. Porque eu estou bem, mas também não muito”

Querida quarentena é, literalmente, um presente para nós, uma vez que, além de extremamente bem construída e escrita, a obra pode ser lida gratuitamente. Para isso, basta acessar o link disponível no perfil da autora Grazi Ruzzante. Aproveita e já segue ela! Esse é, de longe, um dos meus perfis favoritos no Instagram.

Acredito que eu poderia falar muito mais sobre essa obra, mas esse é um daqueles livros que cada um vai receber e sentir de uma forma diferente e é justamente isso que o torna ainda mais incrível. Não importa se você é homem ou mulher, é difícil não se reconhecer em alguma medida nessas páginas, ainda mais por representarem tão bem as nuances que essa quarentena trouxe às nossas vidas.

Santo Butiá — Sofia Neglia

Título: Santo Butiá
Autora: Sofia Neglia
Editora: Duplo Sentido Editorial
Páginas: 40
Ano: 2021

Antes de dar início à resenha propriamente dita, gostaria de contar um pouco mais de onde surgiu esse conto e alguns outros que irei resenhar nas próximas semanas (e meses).

A Duplo Sentido Editorial, uma editora pela qual nutro certo admiração, devidos às lindas obras que publica, criou um projeto chamado Meu Brasil é assim, no qual visitaremos todos os Estados brasileiros através de uma viagem ser sair de casa e totalmente segura em tempos de pandemia.

“O Projeto Meu Brasil é assim reuniu 27 autoras, uma de cada estado do país, para usar e abusar do poder que a literatura tem de nos transportar para qualquer lugar”

A ideia é fazer uma viagem “de ônibus”, passando por cada um dos Estados brasileiros e conhecendo-os através de histórias escritas por autoras que neles nasceram/cresceram.

“As autoras tiveram total liberdade para escrever sobre sua cultura, como a vivenciam e a sentem. A intenção do projeto é fugir dos estereótipos criados ao longo dos anos sobre algumas das nossas regiões, dando espaço para que autoras usem sua voz para contar indiretamente suas vivências em suas cidades”

O projeto durará nove meses e, a cada mês, receberemos três contos. Já estamos no terceiro mês e, no segundo, ao invés de três foram quatro os contos recebidos.

Para garantir as suas “passagens” é preciso apoiar ou assinar a campanha disponível no Catarse (por apenas R$15 mensais você já garante uma passagem básica, que dá direito à visita aos três Estados da vez) ou então aguardar a publicação dos contos na Amazon, mas por um preço um pouco maior daquele que os apoiadores no Catarse estão pagando. Como o ônibus já partiu, você pode pegar o bonde (ônibus) andando e, ao mesmo tempo, conferir os Estados que já visitamos, que são os do Sul e do Sudeste. Hoje, portanto, estou aqui para falar sobre o primeiro deles: o Rio Grande do Sul.

Um dos motivos pelos quais sou admiradora da Duplo Sentido é que, além de publicar mulheres, é uma editora que publica histórias de amor (num sentido bem amplo), coisa que eu amo, como você bem deve imaginar. Os contos desse projeto, portanto, são um prato cheio para a minha zona de conforto literária, ainda que Santo Butiá não tenha como foco um relacionamento romântico e sim questões familiares (coisa que, quando bem retratada, também é ótima de se ler).

A protagonista deste conto chama-se Johanna e ela está para começar uma faculdade de Medicina Veterinária, em Santa Maria (sim, a cidade do acidente na boate Kiss). Sendo de Porto Alegre, Johanna precisa decidir onde morar em Santa Maria e acaba aceitando o convite de uma tia que não conhece tão bem, para morar com ela no sítio da família.

A tia — de nome Astrid — é irmã do pai de Johanna, mas ele parece um pouco contrariado pelo fato da filha escolher morar com ela, ao mesmo tempo que acredita que possa ser bom, por ela ser uma pessoa solitária. Quer dizer, isso é o que ele explica a Johanna.

Ao chegar no tal sítio, e conforme vão passando os dias, Johanna se surpreende cada vez mais, tanto com o local quanto com a própria tia. E nós, leitores, somos fisgados pela magia do lugar, mas também pela vontade de, assim como Johanna, entender porque o pai praticamente não falava do tal sítio e de sua dona. Será que esse mistério irá se resolver?

“Me senti amada como nunca, e me perguntei o que eu tinha feito para merecer aquilo, sendo que nunca havíamos conversado direito”

Ah, e você não sabe o que é butiá e não entendeu o título do conto? Sem problemas, eu também não sabia e adorei entender ao longo da leitura. Começamos muito bem a viagem por esse Brasilzão!

Este conto já está disponível na Amazon. E reforço o meu convite para que você entre nesse ônibus e visite conosco os Estados que ainda não visitamos. Eu já li os demais contos do Sul, que em breve resenharei aqui (um por semana, ok?), e logo mais iniciarei a leitura dos contos do Sudeste. Você me acompanha nessa viagem?

Tenho 7 namorados e não gosto de NENHUM — Leblon Carter

Título: Tenho 7 namorados e não gosto de NENHUM
Autor: Leblon Carter
Editora: Publicação independente
Páginas: 59
Ano: 2021

Ok, vou iniciar essa resenha deixando algo bem claro: que história sensacional, minha gente!

Bianca Pessegrini, não contente em ter um namorado, tem sete. Ao mesmo tempo! E não, não venha me dizer que isso parece maravilhoso, porque quem está em um relacionamento de verdade sabe que se entregar para uma pessoa já é muito, imagina para sete! E quem não está em um relacionamento de verdade… Bom, quem dirá em sete, né?

“Todo mundo ganha um pedaço da Bianca Pessegrini; menos a própria Bianca”

Ah, e claro, nenhum namorado sabe da existência do outro, viu? Imagina como é possível gerenciar isso? Imagina o quanto isso custa da sanidade de qualquer um?

“Você sempre tá sem tempo. Correndo contra o mundo e não junto com ele”

Tenho 7 namorados e não gosto de NENHUM é dividido em oito capítulos, sendo um para cada namorado e, por fim, um para Bianca, aquela que deveria ser a protagonista desta história. Será que ela consegue isso?

“Eu nunca conseguiria ser o tipo de pessoa que pede ajuda para alguém que também precisa de ajuda. Isso é extremamente tóxico”

Por meio desta obra, acompanhamos a rotina de Bianca e como cada namorado faz parte de um pedaço dessa vida. No início, é surpreendente. Depois do quarto namorado, porém, vamos nos cansando. Não da narrativa, mas de imaginar que seja possível levar uma vida assim e… continuar viva! Porque o ponto não é apenas que Bianca lida com sete namorados, mas que ela também estuda, faz curso, trabalha.

“Isso meio que fazia eu me sentir exausta com tanta cobrança ao mesmo tempo. Escola! Curso! Trabalho! Provas para as faculdades! Quando foi que a adolescência deixou de ser divertida e se transformou nesses dias tortuosos?”

Por outro lado, pode ser que o cansaço que começamos a sentir ao longo da leitura tenha a ver, também, com o próprio cansaço da protagonista, com a sensação de sufocamento que vai tomando conta dela e a necessidade que ela passa a sentir de livrar-se disso tudo.

“Talvez esse seja o significado de amor: sacrificar uma coisa que você ama por outra que ama ainda mais. É meio confuso, eu acho. Amar é confuso”

Cada namorado, porém, tem o seu jeito e o seu charme. Raul, o do ônibus, é bom de conversar; Pedro, o da escola, a trata como uma princesa; Ângelo, o da moto, é diferente de tudo o que ela poderia imaginar; Marcondes, o do curso, é muito inteligente (ou apenas quer acreditar nisso); Knock, o do trabalho, faz planos para o futuro; Cristian, o do condomínio, tem um charme todo seu; Gustavo, o virtual, compartilha com ela uma realidade diferente da sua.

Por meio desses relacionamentos fragmentados e dessa história que parece surreal — mas que tem uma lógica bem compreensível por trás — Leblon Carter consegue nos fazer refletir sobre algo muito importante: o amor. E mais: o amor próprio.

“Ah! Que lindo o amor. Aquele sentimento puro que nos despedaça para depois reconstruir. Odiamos amar e amamos odiar. Somos preenchidos e esvaziados na mesma proporção”

Se você quiser saber o que acontece com Bianca no meio de tantos amores e tanto vazio, não deixe de clicar aqui. E depois vem, por favor, me contar o que achou!

Vambora — Adriana Calcanhotto

Esses dias estava pensando que não sei quem conhece meus gostos musicais. Digo, há tempos não respondo à pergunta “qual é sua música preferida?”. Há quem saiba, sem dúvidas. Mas também há que não faça a menor ideia, creio eu. Ao mesmo tempo, também esses dias, estava trabalhando — para variar — com música em sala de aula e percebi o quão ingrata essa pergunta é. Difícil escolher a nossa música preferida, não é mesmo?

Eu não sou uma pessoa fissurada por bandas, cantores, pessoas famosas em geral (de qualquer setor, nem mesmo por autores). Admiro muito mais as pessoas que estão ao meu redor do que celebridades. Mas quando se é mais jovem, sempre tem aquelas perguntas do tipo “qual é a sua banda ou seu cantor favorito?” e, naqueles tempos, eu sempre pensava em Adriana Calcanhotto, que conheci como Adriana Partimpim. Hoje eu não sei se ela ainda seria “a minha preferida”, mas não posso negar que seu trabalho continua a mexer muito comigo. Também, pudera! Ela não faz apenas música, mas poesia musicada, e sua bagagem é notável em suas canções.

Mas não estou aqui para ficar exaltando essa artista e sim para falar de uma de suas músicas que, mesmo quando eu não entendia muito bem, adorava e que, um tempo depois, descobri que fazia referências a obras literárias que, somente anos mais tarde, eu viria a saber que existiam e que são tão óbvias nessa música. Mas vamos por partes?

Hoje eu quero falar sobre a música Vambora, lançada em 1998, no CD Marítimo. O título já chama atenção pela sua informalidade, nos trazendo uma palavra que representa um modo de se falar “vamos embora”, mas de um jeito leve, como um gostoso convite, o que combina totalmente com o ritmo dessa música.

A primeira clara menção literária da música está no verso “dentro da noite veloz”, que é o título de um livro de Ferreira Gullar. Esta obra fala da solidão, mas uma solidão diferente da experimentada pelo eu lírico da canção. Na música, sentimos que a cantora fala de amor, de uma separação, talvez, enquanto em Dentro da noite veloz (1975) Gullar fala da solidão política em tempos de ditadura.

E a segunda clara menção literária está em “na cinza das horas”, título do primeiro livro de Manuel Bandeira. A cinza das horas (1917) é uma obra que, a seu modo, também fala de solidão: a solidão de quem se percebe perto da morte, com uma doença de difícil tratamento (felizmente, Manuel Bandeira conseguiu viver mais que o esperado).

É interessante notar, porém, que quem desconhece esses títulos — como eu desconhecia nas primeiras vezes em que ouvi essa música — pode facilmente ser levado a acreditar que são apenas figuras de linguagem, que “noite veloz” e “cinza das horas” sejam metáforas para a solidão sentida. Bem, são, mas também são mais que isso, não é mesmo? Tanto é que ambas são precedidas pelo verso “dentro de um livro”.

Entre por essa porta agora
E diga que me adora
Você tem meia hora
Pra mudar a minha vida
Vem, vambora
Que o que você demora
É o que o tempo leva

Ainda tem o seu perfume pela casa
Ainda tem você na sala
Porque meu coração dispara
Quando tem o seu cheiro
Dentro de um livro
Dentro da noite veloz

Ainda tem o seu perfume pela casa
Ainda tem você na sala
Porque meu coração dispara
Quando tem o seu cheiro
Dentro de um livro
Na cinza das horas

E para quem quiser ver o clipe, deixo-o aqui embaixo. É interessante ver a melancolia nas cores, nas imagens. A solidão estampada na imagem da cantora solitária, vestida de preto, à meia luz.

Você já conhecia essa música? O que acha(va) dela?

Il verbo esserci

Verbo de novo por aqui? Sim! Afinal, até na Bíblia está escrito “no princípio era o verbo”. Sem eles, o que seria de nós?

Mas ao contrário do que fiz nos últimos posts, em que apresentei a conjugação verbal regular no presente do indicativo e depois falei sobre os verbos reflexivos, hoje quero trazer um único verbo, mas que é bem diferente do que eu já expliquei e, muitas vezes, causa um pouco de confusão: o verbo esserci.

Olhando para ele você talvez se lembre do verbo essere. Realmente, a escrita de ambos é bem parecida. Por outro lado, quando aprendemos o significado, passamos a confundi-lo com o avere. Complexo, né?

A boa notícia é que esse verbo esquisito só é conjugado de duas formas (no presente):

  • C’è (singular)
  • Ci sono (plural)

Daqui a pouco nós vamos entender porque só existem essas formas e porque elas não se referem aos pronomes pessoais (eu, tu, ele/ela, nós, vós, eles), mas a singular e plural. Mas antes, vamos ver duas frases, em português que são bem parecidas, mas que conseguimos entender a diferença de significado:

  • Eu tenho amigos incríveis.
  • Na Itália tem cidades incríveis.

Essas duas frases foram escritas usando o verbo ter, mas eu poderia tê-las escrito da seguinte forma, mantendo o sentido:

  • Eu possuo amigos incríveis.
  • Na Itália existem cidades incríveis.

Agora vamos ver como seriam essas frases em italiano:

  • Ho amici incredibili.
  • In Italia ci sono città incredibili.

Percebe que, na primeira frase, que em português eu usei “ter” ou “possuir”, no italiano eu usei o verbo “avere”, enquanto na segunda frase, que eu português foi construída com “ter” ou “existir”, eu usei o verbo “esserci”?

Este verbo, portanto, serve para indicar “existência” e está relacionado ao objeto da frase, não a um sujeito, Por isso o conjugamos pensando apenas em singular e plural e não em “io”, “tu”, “lei”, lui” etc.

  • C’è ancora tempo (ainda tem tempo)
  • In quello ristorante non c’è mai nessuno (naquele restaurante nunca tem ninguém)
  • A São Paulo c’è un bellissimo museo della lingua portoghese (em São Paulo existe um belíssimo museu da língua portuguesa)
  • Ci sono nuvole nel cielo (tem nuvens no céu)
  • Ci sono regali e regali (existem presentes e presentes)
  • In biblioteca ci sono dei computer destinati agli utenti (na biblioteca existem computadores destinados aos usuários)

Para quem sabe inglês, o esserci talvez seja um pouco mais fácil de entender. Ele corresponde ao there is e there are.

Quer praticar um pouco? Então dessa vez vamos fazer isso com atividades que são quase jogos. Assim você já descobre na hora se acertou ou não. E se ainda ficar alguma dúvida, lemmbre-se que pode entrar em contato comigo!

  1. Primeiro tente completar as frases com esserci ou avere: https://wordwall.net/it/resource/18525389/esserci-o-avere
  2. Agora tente completar com esserci ou essere: https://wordwall.net/it/resource/3421558/olasz/essere-vs-esserci
  3. Por fim, escolha entre essere, esserci ou avere: https://learningapps.org/4000015