O lado extraordinário da falta — Ana Hantt e Josie Baron

Título: O lado extraordinário da falta 
Autoras: Ana Hantt e Josie Baron 
Editora: Publicação independente 
Páginas: 184 
Ano: 2020

Logo de cara, o que chama a atenção nesse livro é o título: O lado extraordinário da falta.

“Afinal, o ‘felizes para sempre’ poderia ser diferente em cada história”

Na vida, podemos sentir um vazio por diversos motivos e, aos poucos, é isto que esse livro vai nos mostrando, mesmo que nem sempre tão diretamente.

“Mas, aí, ela me falou sobre todas as novas possibilidades que as perdas iriam me proporcionar. Assim que meu coração estivesse forte o suficiente para entender o que acontecera, eu iria procurar por novas aventuras, me arriscar, descobrir caminhos que não consideraria se fosse de outro modo”

O começo pode ser um pouco confuso, porque a história alterna entre as duas protagonistas e, até que nos acostumemos com ambas, as coisas podem ficar um pouco perdidas.

“— Meu nome é Jackie.

— Meu nome é Elena.

E aquele foi o momento em que suas vidas mudaram para sempre”

Aliás, Jackie e Elena, as tais protagonistas, tinham tudo para jamais cruzarem o caminho uma da outra, mas o destino quis que não apenas elas se encontrassem, mas que virassem amigas. Praticamente a única amiga uma da outra. 

“Tenho que saber que consigo fazer as coisas sozinha, que não preciso contar com ninguém”

A vida de Jackeline Foster é marcada por episódios difíceis desde cedo. A perda, ali, parece natural (mas não deveria).

“Ela já não queria ser a princesa de Niagara Falls. O reino perdera o encanto”

Elena Whitehill, por outro lado, deveria ter tudo. Mas ela não necessariamente quer tudo o que tem e, para buscar seus verdadeiros desejos, terá de abdicar de muita coisa.

“Vai cursar o seu semestre na Itália, Elena. Você não pode viver uma vida que não é sua. Eu não posso viver uma vida que não é minha. Nós vamos dar um jeito de fazer a nossa mãe entender isso”

A história dessas duas se cruza, ainda, com a de muitas outras pessoas, principalmente suas próprias famílias e o fardo que elas trazem à vivência dessas jovens.

“Ela sabia que, depois de uma vida inteira de mudanças constantes, tudo o que Daniel queria era um lugar para pertencer”

O lado extraordinário da falta é uma história (ou várias, se pararmos para analisar), portanto, que vai nos ensinando a lidar com as mudanças, com as perdas, com o deixar para trás para seguir em frente.

Quando comecei a ler, encontrei algo totalmente diferente do que eu esperava (o que eu esperava, afinal?) e demorei um pouco para me conectar à história, até que fui enredada pelo que poderia acontecer com as protagonistas e em que ponto a história delas se concluiria.

Sim, porque não posso dizer que a narrativa termina: são dores reais demais, acontecimentos palpáveis. Acompanhamos as meninas desde a infância até o início da vida adulta e só podemos esperar que o que acontece depois da última página seja o melhor para elas.

Se você quer (ou precisa) dar novos significados às suas perdas, recomendo a leitura de O lado extraordinário da falta, já alertando para os possíveis nós na garganta que essa história vai te dar. 

“Seu maior oponente vencera aquela batalha e técnica nenhuma ajudaria a aplacar a dor dessa perda”

Clique aqui embaixo para saber mais e não deixe de seguir as autoras nas redes sociais (Instagram).

Citações #54 — A filha primitiva

Um dos motivos pelos quais gosto de marcar e anotar trechos que me chamam a atenção nos livros que leio é que, através deles, posso relembrar a história, além de, em alguns casos, ter novos insights sobre a mesma.

Mas se tem uma coisa que não precisaria de trechos para lembrar, é da força que a narrativa de A filha primitiva, da autora Vanessa Passos, tem.

“A fome ensinava a ser criativa”

Uma histórias que vai direto e reto ao ponto e que toca em muitas feridas.

“Gente é assim, gosta mesmo é de rir das desgraças dos outros”

Uma narrativa sobre partos, não somente físicos, mas também mentais.

“Fico pensando que escrever é um parto infinito”

E, ainda, um texto que fala sobre paternidade e abandono, mas também sobre a história que nos é negada.

“A busca pelo meu pai e pela escrita caminhavam juntas”

A filha primitiva é também sobre vícios.

“Tinha esquecido que a bebida dá coragem pras pessoas”

Sobre humanidade e desumanidade (não sei se essa palavra existe, mas acho que dá para entender a ideia, né?).

“É fácil esquecer o erro de homem”

“Incrível como o ser humano gosta de se enganar”

Não se trata de uma leitura fácil, como os conteúdos já podem indicar, mas ela é necessária. Para saber mais, você pode ler minha resenha aqui e garantir o seu ebook clicando abaixo.

Madeleine Butchertz — Renata Mariotto

Título: Madeleine Butchertz
Autora: Renata Mariotto
Editora: Publicação independente
Páginas: 296
Ano: 2021

Madeleine Butchertz é um livro surreal e assustadoramente real, já que se utiliza de elementos de nossa realidade — como guerras, uma busca incessante por riquezas e poder e um vírus devastador —, além de trabalhar com realidades que ainda podem vir a nos atingir, com tecnologias avançadas que podem ser úteis para o bem e para o mal.

“Eles foram muito além, inexplicavelmente conseguiram criar um vírus para escravizar toda a humanidade sem prisões. Eles fizeram do próprio corpo humano uma prisão”

Por trabalhar com elementos da nossa realidade, porém, devo ressaltar que a história torna-se delicada, podendo nos levar a interpretações perigosas. Então enfatizo que, apesar das similaridades com alguns elementos de nossa vida, essa ainda é uma obra totalmente de ficção.

O título do livro é também o nome da protagonista, uma menina que se torna uma grande mulher, inspirada por seu pai — um importante pesquisador —, que ela perde ainda pequena.

“Nesta busca por compreender o inexorável, chegou à vida adulta. Decidiu então povoar o vazio com a medicina. A ciência médica e a capacidade de regenerar vidas através da cirurgia plástica começaram a trazer um novo sentido ao seu ser”

Mas toda a enredada trama não conta, claro, com apenas a figura de Madeleine e, para citar ao menos mais um personagem essencial à história, temos Aaron. Juntos, esses dois vão mover montanhas para salvar àqueles que puderem salvar.

“Aaron cresceu introspectivo, afastado do pai. Carter mantinha-se distante. O sofrimento pelo falecimento da esposa o tornou um homem de pouca afetuosidade, um pai presente em suas responsabilidades legais, porém, ao mesmo tempo contido ao demonstrar suas emoções”

Só que Madeleine dá nome ao livro não apenas por ser filha de um grande homem, mas porque ela, sozinha, é uma pessoa extremamente poderosa. E tem um poder que nem ela mesma conhece, mas que se mostrará extremamente precioso e necessário.

“Houve dias no início em que tive medo de mim mesma. Hoje tenho medo de não fazer o que devo, o que posso por tantos inocentes!”

O livro é permeado de ação e de uma dura luta do “bem” contra o “mal” ou, para melhor explicar, de humanos que só pensam em si e em riqueza contra humanos que enxergam uns aos outros.

“Não conseguia acreditar que existisse qualquer sentimento dentro de uma alma tão calculista, mas ali, naquele instante, ele transparecia humanidade”

Uma obra extremamente atual e que, mesmo que às vezes nos percamos um pouco nela, nos fará pensar e refletir sobre como temos vivido nossas vidas e deixado que o mundo siga se transformando, quase nunca para melhor.

“A doença propagava-se impiedosamente, fugindo de qualquer controle médico que a ciência pudesse almejar. A progressão da nova peste não seguia nenhum parâmetro previamente observado em outras pandemias na história da medicina. Os acometidos se debatiam em busca de ar, num sofrimento lento e letal, que avançava ceifando a vida de tantos”

E mesmo em meio ao caos e à ação constante, o amor também faz-se forte e presente nesta narrativa, trazendo mais algumas pitadas de fogo, mas também de calmaria, mostrando, uma vez mais, a força de tal sentimento, que não tem hora e nem lugar para acontecer.

“Ela jamais poderia compreender como o amor florescera diante do desespero e a ameaça de destruição de toda a humanidade como a conhecemos”

Para além da história, o que chama atenção nesta obra é o trabalho gráfico feito nele, com diversas fotos ilustrativas coloridas, coisa bem rara de encontrarmos em livros como esse, principalmente por se tratar de uma edição independente.

Se consegui te deixar com uma pulga atrás da orelha sobre como tudo isso que descrevi pode ser possível e ainda caber em um livro de menos de 300 páginas, você pode clicar abaixo para ler o ebook ou então comprar a edição física (e outros mimo) no site da autora. Aproveite para também segui-la nas redes sociais.

Il passato prossimo

Chegou a hora de fazer AQUELE post que eu achei que já tivesse feito (aliás, que vergonha, este ano, até agora, fiz apenas UM post sobre ensino de italiano aqui). Sim, senhoras e senhores, é hora de falarmos sobre o passato prossimo (ou o nosso pretérito perfeito).

E por que toda essa introdução? 

Porque este tempo verbal italiano tem algumas especificidades que, para nós, brasileiros, o torna um pouco complicado. Mas vou tentar mostrar aqui como não tem segredo (só estudo mesmo).

A primeira coisa que devemos saber é: o passato prossimo é SEMPRE formado pois dois verbos. Então o que você fala usando apenas um verbo em português (vi) em italiano você vai falar usando dois verbos (ho visto).

E que verbos são esses? 

Muito simples: um auxiliar e o verbo principal.

O auxiliar será sempre essere ou avere (se você não lembra dele ou não os conhece, volte neste post) conjugados no presente do indicativo e o verbo principal é o que vai indicar realmente a ação que você quer usar.

Se o tal verbo principal for regular, maravilha! Você simplesmente irá trocar a terminação de acordo com a seguinte regra:

Verbos em -ARE vão virar -ATO (parlare = parlato)

Verbos em -ERE vão virar -UTO (cadere = caduto)

Verbos em –IRE vão virar -ITO (dormire = dormito)

Se fosse só isso seria fácil, né? Mas temos dois poréns aqui:

1. Existem verbos que são irregulares, principalmente os verbos em -ERE.

2. Se o auxiliar for essere, temos de fazer a concordância do particípio passado (isto é, das terminações que mostrei ali em cima) em gênero (masculino e feminino) e número (singular e plural). Isso significa que o -O final pode ainda virar -A (singular feminino), -I (plural masculino) ou -E (plural feminino).

Se quiser praticar um pouco das terminações do particípio passado, clique aqui. E se quiser conhecer o particípio passado de alguns verbos irregulares, clique aqui.

A grande questão é: como eu sei que auxiliar usar? Isto é, quando uso essere e quando uso avere? Sim, porque você não pode usar qualquer um deles a qualquer momento!

Bom, vamos lá, na maioria dos casos você vai usar avere como auxiliar (o que é ótimo, né, porque aí não tem que fazer a concordância!). 

A regrinha é que usamos avere com verbos transitivos, ou seja, aqueles que, se usados sozinhos, serão seguidos da pergunta “o quê”/quem, indicando que eles precisam de um complemento. 

Para ser sincera, porém, essa regrinha ajuda muito, mas ela não é totalmente satisfatória. Acho que o que facilita um pouco mais é conhecer “la casa di essere“: todos os verbos da imagem abaixo serão precedidos de auxiliar essere. Isso inclui TODOS os verbos reflexivos, representados na imagem por lavarsi. E, claro, se o verbo que você quer usar não está na imagem abaixo, então é muito provável que o auxiliar dele seja avere.

Imagem retirada de: https://italiabenetti.blogspot.com/2021/01/la-casa-di-essere-verbi-con-ausiliare.html. Acesso: 03 de agosto de 2022.

Que praticar um pouco a escolha do auxiliar? Então vem aqui.

Para conjugar verbos no passato prossimo, em italiano, portanto, precisamos:

  • De dois verbos;
  • Que o primeiro desses verbos seja o auxiliar (essere o avere) conjugado no presente do indicativo;
  • Que o segundo seja o particípio passado do verbo principal (isto é, o verbo principal com aquelas terminaçõezinhas que vimos anteriormente).

O passato prossimo não é o único passado que existe no italiano (assim como o pretérito perfeito não é o único do português), mas ele é, dentre os mais usado, o que traz maiores dificuldades, por ser composto.

Veja, na imagem abaixo, alguns exemplos de conjugação:

Ficou um pouco mais claro agora? Então vamos concluir com um pouco de prática: basta clicar nos títulos abaixo e você irá acessar jogos para treinar as conjugações e usos do passato prossimo):

Ficou alguma dúvida? É só comentar aqui que terei o maior prazer em ajudar!

100 canções para salvar sua vida — Camila Dornas

Título: 100 canções para salvar sua vida 
Autora: Camila Dornas 
Editora: Publicação independente 
Páginas: 379 
Ano: 2019

Começo esta resenha com uma frase que pode ser um pouco óbvia, mas que fica ainda mais clara quando concluímos a leitura de 100 canções para salvar a sua vida: a música une as pessoas.

“Música era a conexão entre meu pai e eu”

Mas não se deixe enganar por essa capa fofa e colorida e por essa frase capaz de conquistar qualquer um que, assim como eu, ama músicas e histórias. Este livro traz uma narrativa forte e aborda muitos assuntos que podem ser grandes gatilhos (como consumo excessivo de álcool, suicídio, violência sexual, relacionamentos familiares). 

“Tentei fazer suas palavras fazerem sentido, tentei entender, ao menos superficialmente, o que ele sentia. Mas não pude, é claro que não pude”

O livro já começa intenso, o que só nos faz querer saber como tudo aquilo pode acabar. Será que tem como acabar “bem”?

“Tudo é a mais pura e vibrante energia. E energia nunca desaparece. Apenas se transforma em algo diferente”

Nesta história conhecemos Alícia e Natasha que, um ano depois, ainda estão tentando entender e superar a morte de Valentina, que completava o inseparável trio. Uma garota que só podemos conhecer através das palavras de suas melhores amigas.

“Alguns dias eram piores que os outros. Alguns dias, sua ausência era tão forte que parecia tangível”

Neste ponto já podemos ver como cada uma lida com essa dor e é bonito perceber que sim, cada um de nós vive o luto ao seu modo.

“Às vezes tudo que precisamos é uma oportunidade de dizer adeus”

Mas esse panorama é apenas o começo. E a verdadeira história se desenrola a partir do momento em que Ali e Tasha resgatam a cápsula do tempo delas — uma tradição criada alguns anos antes — e, como de certa forma já esperavam, encontram algo deixado por Valentina. Elas só não imaginavam que esse algo seriam seis cartas, um iPod rosa com 100 canções e um mapa. 

“Não saber o que acontece em seguida é a melhor parte”

É a partir dessa descoberta que Ali e Tasha se jogam na estrada à bordo da Kombi grafitada de Alícia, que está ao volante, mas sendo conduzida por Valentina. Numa espécie de caça ao tesouro do além, as amigas iniciam assim a sua jornada.

“Ir embora só é difícil quando você tem algo pra deixar pra trás”

As duas amigas saem, portanto, em busca das respostas não dadas enquanto Valentina era viva e descobrem coisas dolorosas, que jamais esperaram descobrir (mas que, a partir de um certo ponto passamos a desconfiar, mesmo não querendo).

“Alguns segredos são terríveis demais, devastadores demais. Algumas verdades, quando desenterradas, destroem tudo”

Mas nem tudo é lágrima e dor nesta narrativa. Enquanto rodam o Brasil, as duas amigas vivem aventuras únicas e, principalmente, conhecem pessoas que serão igualmente capazes de transformar suas vidas.

“As pessoas que eu encontrei e suas histórias eram os tesouros mais preciosos pelo quais eu podia pedir, eram um lembrete de que nem todos eram ruins”

Confesso que me espantei com a facilidade que esse povo tem de cair na estrada. Mas é muito difícil não se deixar levar pelo espírito de liberdade deles. Ah, e aqui não estou mais falando somente de Ali e Tasha, mas dos amigos que elas conheceram pelo caminho também.

“Eu gosto de escapar de vez em quando, mas sou um paulista assumido. Gosto do barulho, da variedade de estilos, da vida cultural sempre pulsando, do ar pesado, até das pessoas rabugentas”

100 canções para salvar sua vida é um livro intenso, que vai te fazer pensar sobre a vida (e a morte), sobre amizades e valores, sobre força, coragem e sorrisos.

“Valentina era uma das pessoas mais corajosas que eu já conheci, e mesmo assim, ela nunca contou pra ninguém”

Uma história que vai te fazer sentir muitas coisas ao mesmo tempo e que, provavelmente, irá te marcar de alguma forma.

“Apesar do sorriso sempre presente, ela se escondia em suas aventuras por que tinha medo do nada, medo do que aconteceria se ficasse sozinha tempo demais consigo mesma”

Este foi meu primeiro contato com a escrita da Camila Dornas e sinto que, inicialmente, fui com muita expectativa para a leitura. Depois, porém, realmente me conectei à história e agora, além de tudo, percebo que destaquei alguns trechos bem fortes e significativos e que fiquei bem mexida com o que li.

“Um minuto é a diferença entre nada e alguma coisa. Alguns minutos podem mudar tudo”

Se você também quer conhecer está história, clique aqui embaixo. E se quiser saber mais sobre o trabalho da Camila, não deixe de segui-la nas redes sociais (Site | Instagram | Twitter).

Tatianices recomenda [18] — Instituto Artium

Faz um bom tempo que não trago alguma indicação por aqui, principalmente de lugares e eventos culturais, e estou feliz de voltar com uma recém incrível descoberta para quem mora ou está visitando São Paulo (capital).

O bairro de Higienópolis, conhecido (e polêmico) por ser um bairro de alto padrão, guarda algumas pérolas culturais que certamente valem a visita, como é o caso do Instituto Artium de Cultura, que desde janeiro 2021 funciona no Palacete Stahl, localizado na Rua Piauí, 874.

Em meio aos prédios do bairro, e estando de frente para a Praça Buenos Aires, o palacete chama a atenção de quem passa pela rua somente com o seu exterior. 

Mas o melhor está lá dentro: logo na primeira sala, temos uma linha do tempo da casa e descobrimos, assim, o tanto de história que essa construção abriga, tendo sido consulado da Suécia e, posteriormente, do Japão. Não à toa, o edifício foi tombado em 2005.

Também não passa desapercebida a imponência do local, que tem sido pouco a pouco restaurado. Lustres de cristal, entalhes em madeira, colunas, afrescos: tudo enche nossas vistas e deslumbra.

O Instituto Artium de Cultura, hoje localizado neste palacete, abre para visitação de quarta a domingo, das 12hrs às 18hrs (de quarta a sexta) e das 10 hrs às 18hrs (aos finais de semana).

A entrada é gratuita, mas é preciso pegar seu ingresso no site, mesmo que alguns minutos antes da visitação.

Estive lá em um domingo a tarde e a visitação foi super tranquila, sem grandes aglomerados e com ótimas explicações dadas pelos funcionários da casa. Impossível não se apaixonar.

É bem fácil de chegar ao Instituto, que está localizado próximo ao metrô Higienópolis Mackenzie (linha amarela do metrô). Vale aproveitar e já passear pela região, que também tem muitos outros lugares incríveis para visitar. 

No momento, o palacete abriga uma exposição com fotos de peças teatrais chamada “Jairo e João: o teatro na fotografia de Jairo Goldflus e João Caldas”. As imagens são lindas e trazem muitas belas surpresas, com alguns rostos muito conhecidos e outros nem tanto.

Instituto Artium de Cultura
Aberto de quarta a domingo 
Rua Piauí, 874 - Higienópolis
Entrada gratuita
Fone: +55 (11) 3660-0130
Email: contato@institutoartium.org.br
Site | Instagram

Resto qui — Marco Balzano

Título: Resto qui 
Autor: Marco Balzano 
Editora: Einaudi 
Páginas: 192 
Ano: 2020 
Título em português: Daqui não saio

Sabe aquele livro que a gente se pergunta por que nunca leu antes? Pois bem, Resto qui é um desses.

Não digo isso pela sua escrita, que não é tão especial assim, sendo direta e até um pouco dura. Mas, puderas: seus temas não dão muita escolha. E são justamente eles que, para mim, dão tanto destaque a esta história.

“Pelo contrário, vou te contar sobre a nossa vida, sobre sermos sobreviventes. Vou te contar sobre aquilo que aconteceu aqui em Curon. No vilarejo que não existe mais”

O texto começa com uma mãe falando com sua filha, numa espécie de carta, e, neste primeiro momento, podemos perceber uma dor que ainda não compreendemos muito bem a origem, o que nos faz querer seguir adiante, mesmo com medo do que pode vir (e que já sentimos que não tem como ser bom).

“Você não sabe nada sobre mim e, no entanto, sabe muito porque é minha filha”

Logo, então, chegamos ao primeiro assunto que me faz gostar desse livro: Curon

Talvez você já tenha ouvido falar desta pequena cidade italiana, conhecida pela torre de um campanário que desponta do meio de um lago. Há inclusive uma série da Netflix com este nome.

O que poucos sabem é a verdadeira história de Curon, e é justamente isso que encontraremos em Resto qui. Uma história que tem muita relação com o nazismo e a guerra, dois temas que me são caros e que contribuíram para o meu encantamento com esta narrativa, porque aqui aparecem de uma perspectiva diferente da que costumamos encontrar.

“O nazismo era a maior vergonha e cedo ou tarde o mundo perceberia isso”

Apesar de estar na Itália, Curon é uma cidade que faz fronteira com a Suíça e a Áustria, tendo mais características alemãs que italianas propriamente ditas. Seus habitantes, por exemplo, falavam alemão, o que foi um grande problema à época de Mussolini, que obrigou toda a Itália a falar o italiano.

“Contudo o italiano e o alemão eram muros que continuavam a ser levantados. As línguas tinham se tornado marcas de raça. Os ditadores as tinham transformado em armas e declarações de guerra”

Tina, a narradora de Resto qui — assim como praticamente toda a população de Curon —, era uma pessoa de origem e hábitos humildes. Mas havia algo que unia esse povo: o sentimento de lar que a cidade gerava neles. E, por isso, eles lutaram até o fim contra a construção da represa que deixou toda a cidade submersa, restando apenas o campanário da igreja.

“Se nós formos embora, eles terão vencido”

O problema é que os habitantes de Curon não tinham apenas a diga para se preocupar: durante a guerra, tiveram de fazer escolhas nada fáceis.

Enquanto alguns voluntariamente se alistavam aos exércitos nazistas, outros, como o marido de Tina, preferiam desertar e, por isso, tiveram de fugir e viver escondidos.

“Era difícil aceitar, mas tudo havia ficado para trás. Eu deveria apenas não pensar mais nisso”

Resto qui é uma história real e necessária, que vai nos fazer refletir sobre nossas origens, o sentimento de pertencimento, o poder de uma língua, as dores da guerra e do distanciamento dos filhos.

“Era a minha dor secreta, sobre a qual não falavo com ninguém. Nem comigo mesma”

Dentre as tantas críticas que uma história como essa pode fazer, Resto qui ainda se encerra com uma interessante reflexão sobre a banalização turistica da história local.

“A vida era mais uma questão de afetos que de ideias”

O livro foi traduzido para o português, recebendo o título de Daqui não saio. No entanto, li o original, em italiano, e os trechos acima foram traduzidos por mim. Abaixo, deixo, na ordem usada ao longo desta resenha, os trechos tais quais li no livro.

“Ti racconterò invece della vita di noi, del nostro essere sopravvissuti. Ti dirò di quello che è successo qui a Curon. Nel paese che non c’è più”

“Non sai niente di me, eppure sai tanto perché sei mia figlia”

“Il nazismo era la vergogna piú grande e presto o tardi il mondo se ne sarebbe accorto”

“Invece l’italiano e il tedesco erano muri che continuavano ad alzarsi. Le lingue erano diventate marchi di razza. I dittatori le avevano trasformate in armi e dichiarazioni di guerra”

“Se ce ne andremo avranno vinto loro”

“Era difficile da accettare, ma tutto era alle spalle. Dovevo solo non pensarti piú”

“Era il mio dolore segreto, di cui non parlavo con nessuno. Nemmeno con me stessa”

“La vita era una questione di idee prima che di affetti”

É possível ler qualquer uma das versões em formato ebook, basta clicar na que você preferir abaixo:

Em você me (re)conheço. O poder curativo das palavras [tradução 26]

Depois de muito tempo sem trazer uma tradução por aqui, resolvi voltar com uma que, logo de cara, chamou a minha atenção pelo título — forte, não? — e que, depois, mostrou-se um pouco diferente do que costumo trazer nesta seção.

Quer dizer, o artigo ainda fala sobre leitura e literatura, mas, dessa vez, com um pouco de psicologia também. Não à toa, ele foi escrito pela doutora Anna Rossi, uma psicoterapeuta.

Encontrei o texto no site da própria doutora Anna, sem a data de publicação. Caso queira conferir o original, basta clicar aqui. E abaixo você poderá ler a minha tradução.


“Cada leitor, quando lê, lê a si mesmo” (Marcel Proust)

“Essa é a parte mais bonita de toda a literatura: descobrir que os seus desejos são desejos universais, que você não está só ou isolado de ninguém. Você pertence” (Francis Scott Fitzgerald)

Contar sobre si faz bem. Sabem bem disso os psicoterapeutas que descobrem nas narrações de histórias de vida dos pacientes o meio pelo qual alcançar maiores níveis de bem-estar.

Falar sobre si nos torna visíveis, a nós mesmos e ao mundo. Abre um espaço de compartilhamento com o outro, talvez justamente no território tão temido das fragilidades humanas. Dá às histórias vividas a possibilidade de serem escutadas e acolhidas com curiosidade, que vem do latim “cuidado”, com interesse autêntico e sem julgamentos. Contar histórias cria alianças, nos liga intimamente a quem as escuta.

Contar sobre si equivale a percorrer de novo as experiências de vida passadas, na presença de uma testemunha, para atualizá-las e conferir-lhes finalmente um sentido. Um sentido que talvez seja precário, remodelável, não definitivo. Mas que, mesmo assim, é sentido e, como tal, é capaz de oferecer continuidade, coerência e unidade àquilo que somos e sentimos. Falar sobre si na terapia significa escrever e reescrever a própria história. De maneira inédita, pessoal, criativa, que seja fonte de paz com o passado e trampolim para um salto responsável em direção ao possível.

Contar-se através da escrita, para além do espaço terapêutico, é, no fundo, algo muito parecido ao que acabamos de dizer. E talvez já soubessem bem disso aqueles autores do presente e do passado que fizeram da escrita seu antídoto pessoal contra a dor. Que através da criação de mundos e histórias deram espaço ao vivido, aos desejos, ao sofrimento e àquelas insistentes questões existenciais que não encontraram outro lugar no mundo lá fora. Que, assim, deram direito ao próprio ponto de vista de existir no mundo, mesmo que este fosse cheio de zonas sombrias e de contradições não resolvidas. Que puderam finalmente confiar a nomes e personagens aquela pluralidade de vozes guardada em suas almas e um significado àquilo, pouco ou muito, que da vida puderam experimentar. 

Se contar histórias faz bem, e faz, o que acontece quando abrimos as portas às histórias de um outro? Marielle Macé, diretora de pesquisa no CNRS e docente de literatura na EHESS e na Universidade de Nova York, se coloca a pesquisar sobre aquilo que acontece na mente do leitor de uma perspectiva que faz referência à atividade, atualmente já mais conhecida, dos neurônios espelho. Em Façons de lire, manières d’être ela afirma: “a experiência concreta do sentido tem uma verdadeira dimensão motora, e não apenas intelectual. Olhando o fazer ou o pensar dos personagens, nós esboçamos gestou ou pseudo gestos; […] a compreensão não é inerte, consiste precisamente no ativar em nós simulações gestuais […]”. E não podemos não estar de acordo com ela. Ler desempenha uma importante função na compreensão da mente dos outros e na potencialização da empatia. Permite desenvolver uma melhor teoria da mente, como demonstra o estudo de David Comer Kidd e Emanuele Castano da Nova Escola de Pesquisa Social de Nova Iorque, cujos resultados foram publicados na revista Science. “Exatamente como na vida real, a literatura é rica de indivíduos complexos, cujo mundo interior não podemos compreender se não com uma capacidade de investigação psicológica bastante refinada” explica Castanos. Através da escuta de uma história o leitor consegue acessar o mundo emotivo e cognitivo dos personagens, observar as variações e as evoluções dos estados de ânimos deles, visualizar as consequências dos sentimentos e das ações deles. Ler histórias é como ser jogado dentro de um espaço laboratorial onde se pode experimentar as infinitas nuances da emotividade humana e as múltiplas declinações da identidade. Onde poder viver, simulando, inúmeros acontecimentos. E através desta experimentação, aprender a refletir sobre si, a compreender melhor o próprio mundo interno, as suas facetas e a sua complexidade. A se tornar mais consciente dos mecanismos que estão sujeitos ao sofrimento, a entender que essa é uma experiência universal que nos une aos outros e não que nos separa. A perdoar os nossos limites e a ser mais compassivo com as nossas vulnerabilidades. A cultivar a confiança nas mudanças que, afinal, são a lei da vida.

As histórias dos outros nos dão a possibilidade de encontrar e nos aproximar, gradualmente e sem sobressaltos àquelas emoções que nos dizem respeito mas que tendemos a fugir por medo de ter de reconhecê-las em nós e ter de confrontá-las. Vê-las agindo em personagens que não somos nós, nos ajuda a torná-las familiares, menos assustadoras. Nos ensina a tê-las por perto sem medo.

A narrativa é, portanto, para todos os efeitos, um potente instrumento de autoexploração e cuidado. E, durante a terapia, pode ser o lugar pelo qual o paciente e o terapeuta se encontram para depois, juntos, encaminhar-se em direção a outras possibilidades.


E aí, o que achou?

Já li muitos texto que falam sobre como pessoas que leem muito são mais empáticas, mas achei interessante que, nesse texto, há todo um destaque para a importância de não apenas ouvirmos outras histórias, mas também contarmos a nossa.

AmoreZ — Regiane Folter

Título: AmoreZ 
Autora: Regiane Folter 
Editora: Publicação independente 
Páginas: 47 
Ano: 2020

Existem inúmeras formas de amar e de demonstrar esse amor e é exatamente isso o que encontramos nesta breve obra: um amor para cada letra do alfabeto, como sutilmente sugere o título.

“Já pensou que existem tantos tipos de amor quanto pessoas esperando ser amadas?”

Através de 22 contos curtinhos, a autora faz um lindo passeio pelo alfabeto, nos propiciando as mais diversas leituras e os mais variados sentimentos.

“Enfim, eu leio. Às vezes mais, às vezes menos; mas estou permanentemente em busca de histórias para colecionar em uma biblioteca mental que me ajuda a enxergar o mundo com novos olhos”

Ao longo das páginas deste livro, também somos lembrados que nem toda história de amor é necessariamente alegre, com um “felizes para sempre”.

“Engraçado como amar alguém não é garantia que você vai estar com essa pessoa para sempre”

E assim como várias são as formas de amor, diversas são as maneiras de apreciar este livro: de uma sentada só ou, como acho mais interessante, aos poucos, uma dose de amor diária e necessária.

“Eu leio. Desde que aprendi, nunca mais parei. Em quase tudo que faço, levo um livro comigo”

Claro que, para mim, foi fácil eleger um texto preferido dentre todos os lidos: não resisto a histórias que falam sobre livros e leituras e, assim, o meu escolhido é o Biblioteca.

“Ler para mim é uma droga, eu não posso parar. Não depois de tudo que vivi”

Mas, como se pode imaginar, tem história para todos os gostos neste livro e também acho que ele pode ser uma boa pedida para quem quer sair de uma ressaca literária ou simplesmente começar a ler, já que ele é leve e, de novo, super rapidinho.

“Guardo o momento da leitura com carinho em um compartimento do meu dia. Porém, às vezes, por causa da correria do demandante mundo real, deixo de ler”

Ah, este também é um livro para quem precisa recuperar um pouco dos tantos sentidos do amar.

“Existem coisas que têm mais força que “eu te amo”. Uma frase é só uma frase. Os pedaços de vida que duas pessoas decidem conectar significam muito mais que três palavras entoadas juntas”

AmoreZ reúne, portanto, breves histórias despretensiosas, mas que, ao mesmo tempo, nos fazem pensar. E se você acha que é deste livro que está precisando, não deixe de clicar abaixo para saber mais. Aproveite para seguir a autora no Instagram e conhecer mais do seu trabalho.

“Não é para qualquer um que mostramos o carrinho de compras cheio de quem somos”

Depois da caixa preta — Rafael Weschenfelder

Título: Depois da caixa preta
Autor: Rafael Weschenfelder
Editora: Publicação independente
Páginas: 99
Ano: 2022

Será que os fofoqueiros de plantão já pensaram em unir a paixão por reality shows e literatura? Se sim ou se não, a dica de leitura de hoje é um prato cheio para isso e, sem dúvidas, vai agradar não apenas os fãs desse tipo de programa, mas também aqueles que acreditam numa boa teoria da conspiração.

Em Depois da caixa preta conhecemos Lorenzo, um ator de novelas adolescentes que quer entrar na famosa Casa de Vidro não para ganhar dinheiro ou fama, mas para descobrir o que há de verdade na tal caixa preta, único cômodo da casa que não tem câmeras e paredes transparentes.

Acho que só com a breve descrição acima já dá para ter ideia das referências que permeiam esta história, certo?

“A Casa de Vidro muda a gente — diz, por fim. — Você não entenderia”

Uma vez mais, porém, Rafael Weschenfelder surpreende seus leitores. Por trás de uma história que parece a simples busca de um jovem apaixonado pela verdade que mudou por completo o comportamento de sua (ex)namorada, Lisbela, que três anos antes participara desse mesmo programa, o autor esconde muito mais.

Chips, manipulação, insegurança e depressão são alguns dos assuntos que encontramos nas poucas páginas que compõem esta narrativa cujo vilão não tem uma cara precisa, mas faz-se claramente presente.

“Ninguém é livre para fazer suas próprias escolhas dentro da Casa de Vidro. Somos fantoches, marionetes”

Se esta história despertou sua curiosidade, saiba mais sobre ela clicando abaixo. Uma leitura rápida e que, como sempre acontece com os textos do Rafael, vai te prender e, no final, te deixar de boca aberta, pensando em milhares de possibilidades.

Também te convido a seguir o autor no Instagram e conhecer suas outras obras: as 220 mortes de Laura Lins (nessa tem looping temporal) e O baú do zumbi gelado (para quem curte videogame ou jogos online).