A repetição em “As mil e uma noites”

Voltando às minhas leituras de As mil e uma noites, na 69º noite, Sherazade dá início às narrativas de Simbá, e elas se estendem até a 90º noite. As histórias deste ciclo são:

  • A história de Simbá, o marinheiro
  • A primeira viagem de Simbá, o marinheiro
  • A segunda viagem de Simbá, o marinheiro
  • A terceira viagem de Simbá, o marinheiro
  • A quarta viagem de Simbá, o marinheiro
  • A quinta viagem de Simbá, o marinheiro
  • A sexta viagem de Simbá, o marinheiro
  • A sétima e última viagem de Simbá, o marinheiro

Confesso que quando cheguei na quinta viagem de Simbá eu já estava “ah, não, de novo não!”. Não que as histórias sejam tão repetitivas quanto os títulos que acabo de apresentar, mas há um “quê” semelhante entre uma e outra: são narrativas cheias de surrealismo.

Simbá, em cada uma de suas viagens, se depara, em algum momento, com uma quase morte (sim, a morte novamente presente aqui) e, de alguma forma, se sai bem de todas as situações, conseguindo, inclusive, inúmeras riquezas a cada retorno bem sucedido.

E a cada retorno, Simbá diz que não irá mais se aventurar pelos mares, que irá desfrutar de suas riquezas em segurança, com a família. Mas sempre surge uma nova aventura que ele não consegue recusar e assim se vão as sete viagens narradas por ele.

Todos esses acontecimentos me fizeram pensar sobre a presença do maravilhoso em As mil e uma noites. “Maravilhoso” e “fantástico”, dois gêneros literários que se confundem, o que me lembra que eu também estava com vontade de trazer para vocês posts sobre isso, né? Ainda não desisti, mas percebi que preciso estudar e revisar muitas coisas antes. E quem sabe essa leitura de As mil e uma noites não me ajude também!

Outra coisa que não posso deixar de mencionar é que, na 70º noite, há uma nota: dali em diante não haverá mais, constantemente, as palavras da irmã de Sherazade, pedindo que ela continue a história do dia anterior. Segundo a nota que explica isso, Antoine Galland suprimiu essas passagens de sua tradução pois elas haviam “chocado” o público da época. “Chocado” é o termo que o próprio tradutor utiliza em sua nota, mas creio que seja mais uma questão de incômodo, como eu fiquei incomodada com a “repetição” nas histórias de Simbá.

Efetivamente, a partir desse trecho, a passagem de uma noite a outra é muito mais direta, sem grandes falas ou explicações, entrando quase que diretamente na continuação das narrativas de Sherazade.

Depois das 8 histórias de Simbá, temos “As três maçãs” (contada entre as noites 90 e 92) e “A história da jovem trucidada e do seu jovem marido” (contada entre as noites 92 e 93), duas narrativas interligadas e que levam a outra, de grande extensão, que comentarei somente no próximo post, pois ainda estou lendo.

Quantas coisas podemos aprender? — Diário de leitura (4)

Durantes as noites 28 e 69 d’As mil e uma noites, estive mergulhada em uma longa história que se desdobrou em várias narrativas menores. Observar a construção desse quadro foi muito interessante e espero conseguir compartilhar um pouco disso com vocês.

É preciso, antes de mais nada, ressaltar que a primeira narrativa recebe o segundo título: A história dos três calândares, filhos de rei, e das cinco damas de Bagdá. Só por aí já poderíamos imaginar que o desdobramento dela seria longo, uma vez que cada um desses personagens — e temos oito mencionados acima — poderia ter a sua própria história.

No caso das cinco damas, porém, não chegamos a ler uma história para cada, mas, ao longo da narrativa, também surgem outros personagens, então não é de se espantar que esse conjunto se estenda por tantos dias seguidos.

“Sherazade preparava-se para continuar a sua história, mas percebendo que era dia, calou-se. A qualidade dos novos atores que ela acaba de introduzir na cena aguçou a curiosidade de Shahriar, que certo de que sucederiam coisas singulares, aguardou com paciência a noite seguinte”

Os títulos que compõem esse arco, além do já mencionado acima, são:

  • A história do primeiro calândar, filho do rei
  • A história do segundo calândar, filho do rei
  • A história do invejoso e do invejado
  • A história do terceiro calândar, filho do rei
  • A história de Zobeida
  • A história de Amina

É uma história mais interessante que a outra, sem dúvidas. Mas me chamou a atenção um pedaço da narrativa de Zobeida que, em um dado momento, conta sobre chegar a uma cidade em que todas as pessoas estavam petrificadas. Elas encontravam-se assim devido a alguma espécie de maldição, mas não pude deixar de lembrar de Pompeia, cidade italiana que foi tragada pela lava do Vesúvio, matando muitos moradores petrificados após o resfriamento desta.

Também não posso deixar de comentar a seguinte passagem:

“Respondi-lhe que era gramático, poeta e, sobretudo, que sabia escrever perfeitamente bem. Com tudo quanto acabastes de dizer, disse-me, não ganhareis neste país o suficiente para um simples pedaço de pão; aqui nada é mais inútil do que qualquer desses conhecimentos”

Ouvir que conhecimentos linguísticos e poesia são conhecimentos inúteis é algo comum até os dias de hoje, mas ver isso estampado em uma história que representa justamente o poder que as narrativas têm de salvar vidas (coisa que já comentei melhor aqui) é assustador. Passam-se os anos — afinal, As mil e uma noites foi escrita tanto tempo atrás — e não evoluímos nossas crenças…

Outra coisa que tem chamado minha atenção, não apenas nas histórias aqui mencionadas, mas também em tantas outras anteriormente lidas: a quantidade de narrativas que apresentam humanos transformados em animais e vice-versa. Essa é uma característica que talvez valesse a pena uma pesquisa um pouco mais aprofundada, pois certamente há muito da cultura local e da época por trás disso. Inclusive, se alguém tiver algum conhecimento relacionado a isso, não deixe de compartilhar aqui, porque, confesso, sou uma negação em saberes relacionados à cultura oriental.

A curiosidade matou o gato? — Diário de leitura (3)

Antes de explicar o título desse post, preciso contar uma coisa para vocês: quando eu conhecia As mil e uma noites só de ouvir falar (isto é, antes de efetivamente pegar esse livro e ler) eu achava que a Sherazade contava as histórias no momento em que ela e o rei iam se deitar e que ele pegava no sono e, por isso, na noite seguinte ela continuava as histórias. Algo não tão absurdo assim se pensarmos que essa coisa de contar histórias para os filhos dormirem é normal no ocidente. Esse livro, porém, não vem de uma cultura ocidental…

Logo de início, portanto, fui surpreendida: todas as manhãs, antes do sol efetivamente raiar, a irmã de Sherazade, que dorme ao lado do rei e da rainha, acorda a irmã e pede para que ela continue a história iniciada na manhã anterior e Sherazade conta, mas, quando vê que o dia já raiou, interrompe a narrativa, lembrando a Shahriar que ele precisa ir cumprir seus deveres de rei, e ele se levanta com a pulga atrás da orelha, curioso para ouvir mais.

Faz muito sentido que seja assim: talvez, se Sherazade contasse as histórias de noite, o rei, na manhã seguinte, já teria perdido parte do entusiasmo por saber mais e acabaria ordenando que matassem sua esposa, dando fim ao plano de nossa protagonista.

Dentre as narrativas que li recentemente, estão “A história do marido e do papagaio”, que foi contada entre as 14º e 15º noites, “A história do vizir punido” (esta um pouco mais longa, durando até a 22º noite) e “A história do jovem rei das ilhas negras” (contada até a 27º noite). Não posso deixar de mencionar que gostei muito de “A história do marido e do papagaio”. De uma forma ou de outra ela foi bem reinventada e repaginada ao longo dos anos, e ainda faz parte de nosso repertório, sendo a base de inúmeras histórias que conhecemos de lições de moral para maridos que não confiam em suas esposas.

Mas o que realmente comecei a pensar lendo essas histórias (e algumas das seguintes, que ainda não mencionarei aqui porque a ligação entre elas não chegou a um fim muito claro) é que, em muitas delas, aparece a questão da curiosidade.

Em diversas narrativas, o personagem principal sofre — ou até mesmo morre — devido à sua curiosidade. Por outro lado, Sherazade só sobrevive porque a curiosidade de Shahriar o impede de matá-la. E é daí que vem o título deste post: afinal, a curiosidade matou o gato? Em alguns casos sim, em outros não. Por quanto tempo, ainda, Sherazade ficará viva graças à essa qualidade?

Contar histórias salva vidas? — diário de leitura (2)

Depois da introdução existente na edição da Nova Fronteira, finalmente podemos mergulhar na história d’As mil e uma noites. E quando ouvimos falar nesta obra, logo pensamos em Sherazade contando uma história após a outra para adiar a sua morte e, consequentemente, salvar a de tantas outras mulheres, certo? Mas, evidentemente, o livro não começa por aí (e, aliás, esse momento, na minha edição, só chega lá na página 47).

Primeiro precisamos entender quando um certo rei — Shahriar — decide que a cada dia se casará com uma nova mulher que, no dia seguinte, será assassinada, evitando assim que se repita o que sua primeira esposa havia feito: traí-lo.

“Aquela desumanidade sem precedentes causou consternação geral na cidade, onde só se ouvia gritos e lamentações.

É interessante destacar esse trecho, pois é a tomada dessa decisão que faz com que todo o resto da obra exista. Porém, trata-se de uma ação cruel, fruto de um coração partido. O que nos leva a refletir sobre como um coração que sofre pode vir a tentar causar o mesmo sofrimento a outros corações. E faz isso de maneira irracional.

A reflexão acima, no entanto, me faz pensar em outra, ainda relacionada à história: um coração ferido, foi capaz de gerar muito mal à uma sociedade. E um bom coração foi capaz de encontrar uma cura para esse mal. Uma lição que aparece das mais diversas formas em tantas histórias que lemos até hoje e também algo para levarmos para a vida.

Ainda antes das histórias de Sherazade, ainda temos uma fábula contada por seu pai, no intuito de tentar dissuadi-la da ideia de se apresentar como próxima esposa do rei Shahriar. Tal história chama-se “A fábula do burro, do boi e do lavrador” e não foi suficiente para demover Sherazade de seu propósito. E é assim que, finalmente, podemos mergulhar em suas histórias.

A primeira delas é “O mercador e o gênio”, e é contada da primeira até a quarta noite, quando se inicia “A história do primeiro ancião e a da corsa”. Como se pode imaginar, essa segunda história é como uma narrativa menor dentro da primeira (que por sua vez, já é uma narrativa menor dentro da obra). E ela é acompanhada, ainda, de “A história do segundo ancião e dos dois cães negros”, contada entre às sexta e oitava noites.

Porém, nem sempre uma história é apenas uma história menor dentro de outra. Sherazade consegue encontrar outras formas de ligar uma história na outra, de modo que o rei não perca o interesse em suas narrativas e, assim, adie a sua morte. Isso acontece, por exemplo, na 8º noite quando, terminada a história do segundo ancião, mas ainda com tempo sobrando, Sherazade dá início à “História do pescador”, que passará a englobar outras narrativas, como a “História do rei grego e do médico Dubã”, que dura até a 14º noite.

Um elemento que tenho sentido muito presente nas histórias até aqui é a questão da morte. Sempre há alguém que morre ou deve morrer por algo. Mas também há algo que aparece logo nas primeiras histórias e que não deixa de ser uma das grandes molduras desta obra: o fato de que contar histórias pode nos salvar. Contar histórias salva vidas. Deixo esses pontos aqui, para ver o que acontece até o final do livro…

As mil e uma noites — diário de leitura (1)

A vida às vezes nos traz alegrias e prazeres doidos, não é?

Eu adoro criar novas sessões por aqui e, confesso, estou empolgada com esta. Assim como estou empolgada com a leitura que ela apresentará e isso foi algo que me surpreendeu muito!

Não me recordo bem se foi em um aniversário ou num natal, e nem exatamente em que ano, só sei que um dia meu irmão me chega com uma belíssima edição de As mil e uma noites, da Editora Nova Fronteira. Sem brincadeira, é difícil não se apaixonar por tamanha beleza, viu?

Já se imaginou ganhando uma caixa com dois volumes (e que volumes… Cada um tem cerca de 500 páginas!) em capa dura e cores lindíssimas? Pois é, essa já é a impressão que essa edição passa, logo de cara. E basta uma folheada rápida para ver que a leitura será muito confortável, pois a fonte é boa, assim como o espaçamento e a qualidade do papel.

E, apesar de tudo isso… Enrolei para pegar esses livros. Porque, claro, eles assustam. Vejam bem, é uma edição lindíssima, mas enorme. Nada prática de sair carregando por aí. Sem contar que eu pensava que nunca conseguiria acabar de ler… Somados os dois volumes, temos exatas 1120 páginas!

Mas a quarentena nos faz repensar algumas coisas, não? Bem, no meu caso, sim. E lá no começo do ano eu me propus a ler 12 tipos de livros em 2020. Naquele momento eu não selecionei os títulos, não sirvo para fazer isso com muita antecedência, gosto de ler o que me der vontade; selecionei apenas alguns gêneros ou algumas características que gostaria de encontrar a cada mês em minhas leituras. E resolvi incluir ao menos um clássico.

E foi assim que, juntando esse desafio, com os livros encalhados na estante e o pensamento de que eu não preciso ter pressa e posso ler no meu tempo que, finalmente, resolvi pegar As mil e uma noites. E tem sido muito bom! Tem sido tão bom que, ao invés de fazer um comentário genérico lá na frente, quando eu terminar as 1120 páginas (e talvez não lembrar mais com detalhes das primeiras) que resolvi vir aqui toda semana contar um pouco do que li e das minhas impressões. Vocês embarcam comigo nessa viagem?

Como esse texto já ficou mais longo do que eu esperava, vou apenas comentar sobre algo que vem antes da história em si. Nesta edição da Nova Fronteira, temos uma apresentação que vem esclarecer e explicar muitas coisas que eu não sabia!

O texto que temos em mão é a tradução de uma versão d’As mil e uma noites original. É uma das primeiras versões, mas, ainda assim, já não é o texto original. E mais, essa versão, feita por um francês, cortou muito da história original (de fato, ela pega somente 1/4 da história original, segundo a apresentação desta edição), pois o autor considerava que, assim, o texto se tornaria mais agradável e aceito por seu público. Bem, o objetivo desse autor e tradutor francês, Antoine Galland (que também é apresentado no começo do livro) foi atingido, pois a obra tornou-se um grande sucesso não apenas na França, mas em toda a Europa. E, no final das contas, ela é traduzida até hoje.

Aliás, é importante dizer, apenas para concluir, que minha edição é de 2015 e foi traduzida por Alberto Diniz. E, como eu comentei mais acima, tem sido uma leitura bem fluida, o que significa que é uma tradução que, ao menos para mim, tem funcionado muito bem.

Se você se interessa pelo livro, pode encontrá-lo aqui.