Próximo ao fim — Diário de leitura (20)

Estou rapidamente me aproximando do fim de As mil e uma noites e hoje aproveito para comentar sobre duas histórias de uma vez. A primeira delas é A história do cavalo encantado. O título, como sempre, é bem autoexplicativo, ainda que, claro, deixe de fora muitas nuances da história.

Tudo começa com um homem que se apresenta com o tal cavalo encantado, capaz de levar aquele que nele subir para o local desejado, em um período temporal muito pequeno.

O preço por tal objeto, porém, é altíssimo: a mão da princesa. E, com isso, dá-se início a uma série de confusões, como não poderia deixar de ser. Mas uma, em especial, eu gostaria de narrar aqui.

Depois de alguns problemas iniciais, este homem rapta outra princesa — que se casaria com o príncipe daquela corte — como uma forma de vingança por tudo que lhe acontecera.

No meio do caminho, porém, a princesa consegue pedir socorro, e é salva por um homem que parece ser uma ótima pessoa. Mas as aparências enganam, não é mesmo? Tal homem quer, a todo custo, desposá-la. E ela se vê uma profunda agonia por isso. Claro que, depois disso, muitas outras coisas acontecem e tudo se resolve. Mas me chamou a atenção uma passagem em específico:

“Sultão de Cachemira, quando outra vez pretenderes desposar uma princesa que te roga proteção, trata antes de obter-lhe o consentimento!”

Tudo bem que este é um discurso de um quase marido bravo por ver outro homem querendo roubar sua esposa, mas, ainda assim, essa frase me parece um grande passo em relação ao tratamento dispensado às mulheres das histórias que preenchem as páginas de As mil e uma noites.

Veja bem: é um homem dando bronca em outro homem sobre a necessidade do consentimento da mulher. Esse é um discurso que, infelizmente, até hoje, muitos homens ainda não entenderam.

A segunda narrativa que quero comentar aqui é A história do príncipe Ahmed e da fada Pari-Banu. Uma história muito fantástica, com várias reviravoltas e permeada por objetos mágicos.

O que chamou minha atenção nesta narrativa foi que, nela sim, vi aparecer um “tapete voador”, coisa que não me recordo de ter visto na história de Aladin. O que, uma vez mais, me faz pensar na adaptação da Disney… Será que há referências a outras histórias de As mil e uma noites em Aladin? O que vocês acham?

Confiança e comedimento — Diário de leitura (19)

Foi só eu sentar de frente para a tela em branco e repassar alguns pontos de A história de Ali Codja, mercador de Bagdá que logo percebi que essa história, ainda que não seja das mais longas em As mil e uma noites tem muitas mensagens a nos passar, inclusive com relação a comportamentos que temos até hoje.

Para começar, esta é uma história que fala sobre confiança. Não gosto de ser aquela pessoa que desconfia de tudo mundo, mas muitas vezes isso é preciso. Às vezes, basta uma simples opinião contrária e uma amizade ou um relacionamento de anos vão por água a baixo.

Na história em questão, Ali Codja decide partir por um tempo, viajar por terras desconhecidas, confiando a seu amigo, antes de partir, um vaso. E olha só a loucura: Ali Codja disse apenas que era um vaso cheio de azeitonas e deixou o mesmo em um depósito do amigo.

Alguns anos depois, Ali Codja não havia ainda retornado e a esposa desse amigo queria azeitonas. Tal amigo lembra-se do vaso e pensa que um punhado de azeitonas não faria falta. Mas logo descobre que ali há muito mais: há moedas de ouro! E bom, uma vez que Ali Codja ainda não retornara, que mal faria pegar aquelas moedas?

O que ele não contava é que logo Ali Codja voltaria e, claro, buscaria o seu vaso que já não continha mais as tais moedas de ouro. E isso gera uma disputa entre os dois amigos, como já é de se imaginar.

Não sendo possível resolver o conflito de maneira amigável — afinal, não há mais amizade entre eles após esse episódio — eles partem em busca de um cádi (juiz muçulmano). Tal cádi, porém, dá razão ao (ex)amigo de Ali Codja e este, nada satisfeito, pede a intervenção do califa.

A esta altura, preciso mencionar a segunda mensagem que esta história traz, e que, ainda que ela seja deixada bem explícita ao final da história, está estritamente relacionada a esse acontecimento: não devemos julgar precipitadamente.

Se algum dia te colocarem em uma posição de juiz de alguma situação, pare, reflita e analise todos os lados da história. E se nunca te colocarem nesta posição, ótimo, então não saia emitindo a sua opinião sem ao menos ter a certeza de saber sobre o que está opinando.

Bem, depois que é solicitada a intervenção do califa neste conflito, o mesmo fica um pouco sem saber o que lhe aguarda. Passeando por suas terras, porém, depara-se com uma cena que logo chama sua atenção: algumas crianças estão brincando e brincadeira é justamente encenar o julgamento de Ali Codja.

A solução dada pelo juiz mirim, no entanto, agrada tanto ao califa que ele pede que levem o garoto ao palácio no dia seguinte, para participar do verdadeiro julgamento. E essa é a terceira mensagem desta história: a importância de darmos ouvido às crianças e ao seu senso de justiça.

Em uma simples brincadeira de criança, o garoto foi capaz de pensar em uma solução que poderia parecer óbvia, mas que o cádi sequer havia cogitado, fazendo-o julgar de maneira injusta uma situação extremamente séria.

Essa foi uma história que realmente chamou minha atenção durante a leitura e que agora, passados uns dias, admiro ainda mais, por ver o quanto ela carrega dentro de si. Uma história que merecia ser mais contada e divulgada.

Você já conhecia A história de Ali Codja, mercador de Bagdá?

Abre-te, Sésamo — Diário de leitura (18)

Você provavelmente já ouviu falar de Ali Babá. Creio que essa seja uma das histórias mais conhecidas de As mil e uma noites (após, claro, a de Aladim). E se você já a conhece, ao menos por alto, provavelmente identificou logo de cara o título deste post, no qual, claro, falarei sobre A história de Ali Babá e dos quarenta ladrões exterminados por uma escrava.

Ao sentar para escrever, porém, fiquei refletindo sobre esse título. “Uma escrava”. Ora, a tal escrava tem nome e é graças a ela que Ali Babá sobrevive. E ele, por sua vez, o que faz de tão excepcional além de descobrir uma caverna cheia de tesouros?

Morjana — a escrava — salva a vida de seu amo não uma, mas duas vezes. E, com muita sagacidade, ela consegue, sozinha, derrotar, em um primeiro momento, 37 ladrões e, mais tarde, o chefe deles. Os outros dois, de certa forma, ela também foi a responsável pela morte, mas de maneira indireta.

Outra coisa que não posso deixar de mencionar é que, mais uma vez, fui surpreendida, pois não sabia dos desdobramentos desta narrativa. No meu imaginário, aliás, eu podia jurar que Ali Babá era uma espécie de chefe dos 40 ladrões. Nada a ver!

Agora me pergunto se essa minha confusão deve-se realmente a um desconhecimento da história, uma falta de memória ou se ela realmente chegou a mim desta maneira, quando eu era mais nova, tendo sido, portanto, transformada com a transmissão boca a boca ao longo dos anos. Que versão você conhece de Ali Babá e os quarenta ladrões?

Ali Babá era um homem relativamente pobre, lenhador e que, um dia, descobre uma caravana com os tais 40 ladrões. Mas, mais que isso, descobre uma caverna, na qual eles escondem os frutos de seus roubos. E essa descoberta, claro, muda a vida de Ali Babá, mas não apenas de um jeito óbvio.

Para abrir a tal caverna, como já é de se imaginar, deve-se usar uma “senha”, que é a célebre frase “Abre-te, Sésamo”. Você sabe o que significa Sésamo? Eu só vim a pesquisar agora e, para variar, me arrependi (de não ter pesquisado antes, no caso).

O sésamo é um grão comestível, como o gergelim. E saber disso dá uma nova dimensão a uma passagem da história: o irmão de Ali Babá também vai até a tal caverna — mais interessado que o primeiro em tornar-se ainda mais rico — porém, na hora de sair de lá, apavorado por ouvir a aproximação dos ladrões, ele esquece-se da palavra “sésamo” e diz “abre-te, cevada”. Um erro que pode parecer sem sentido, mas que não é quando descobrimos que a cevada e o sésamo são grãos semelhantes.

E, mencionando essa passagem, percebo como, uma vez mais, fica a sutil lição de que a ganância só nos traz infortúnios. Enquanto Ali Babá pretendia usar da sua descoberta de maneira cautelosa e comedida, seu irmão quis logo apoderar-se de tudo quanto possível, esquecendo-se, porém, de tomar cuidado e, consequentemente, sofrendo um terrível destino.

De volta ao formato — Diário de leitura (17)

Depois de muito tempo, deparei-me novamente com uma história que engloba outras três narrativas em As mil e uma noites. E, neste caso, tudo começa com As aventuras do califa Harun Al-Rashid.

Depois de ter lido tantas histórias desta obra, sei já que o califa é uma pessoa importante para a cultura e a religião em questão. E, nesta narrativa, tudo começa quando tal figura encontra-se em um dia de grande tristeza, mas é lembrado pelo seu grão-vizir de que deve cumprir algumas obrigações e, como muitas vezes pode acontecer, essa distração acaba fazendo com que seu humor mude.

Disfarçado de mercador, o califa sai pela cidade, acompanhado do seu grão-vizir, para verificar como anda o policiamento nas ruas. E é nesta ronda que o califa encontra os três personagens que darão origem às narrativas que estão dentro desta.

O primeiro personagem encontrado é um pedinte cego, mas que só aceita esmolas mediante uma bofetada. E é através de A história do cego Baba-Abdalá que podemos compreender porque se dá tal absurdo.

Depois, conhecemos A história de Sidi Numan, que, em praça pública, açoitava impiedosamente uma égua. Aqui temos uma narrativa como já mencionei algumas vezes: de humanos transformados em animais e, depois, novamente transformados em humanos.

Por fim, chegamos à História de Codja Hassan, um homem muito humilde que pôde enriquecer — graças a uma aposta feita entre dois amigos — a ponto de sua nova moradia atrair a atenção do califa. Mas Codja Hassan apenas enriqueceu por ser homem sério e disposto a multiplicar uma súbita riqueza ao invés de gastá-la de uma vez. Isso, porém, após alguns interessantes percalços que, ouvindo, jamais acreditaríamos.

Estas três narrativas que descrevi, emolduradas pelos questionamentos do califa, compõem uma história capaz de nos apresentar traços culturais muito interessantes, mas não só: elas nos mostram, de forma bem sintética, o formato de tantas outras histórias de As mil e uma noites.

E, para melhorar, sabe o que vem depois? A história de Ali Babá e dos quarenta ladrões exterminados por uma escrava! Mas essa, claro, deixo para meu próximo diário de leitura.

A whole new world — Diário de leitura (16)

Se você chegou neste diário de leitura após ter lido o último e está com expectativas de que eu compare a história presente em As mil e uma noites com a versão da Disney… Sinto te decepcionar, mas eu mal me lembro de ter assistido ao filme (e também não assisti o live action…).

Quebradas as expectativas, vamos ao que interessa, isto é, A história de Aladim, ou a lâmpada maravilhosa.

Trata-se de uma narrativa bem longa e que começa apresentando um jovem relativamente pobre, mas que mesmo sabendo que precisará trabalhar para ter algum sustento, não se interessa por nada.

Um dia, após a morte do pai deste jovem, chega à cidade um senhor, que logo se apresenta como irmão desse falecido pai. Ele é acolhido na casa do jovem rapaz e, aos poucos, lhe promete mundos e fundos.

E aqui temos a primeira lição dessa história: desconfie de quem, do nada, vem te trazer todas as soluções para seus problemas. É o bom e velho “quando a esmola é grande, o santo desconfia”.

O tal senhor era, na verdade, um mágico. E uma pessoa cruel, que apenas queria conseguir a tal lâmpada maravilhosa. Aliás, ele buscara por isso toda a vida e apenas encontrou em Aladin a pessoa capaz de concluir a missão e realizar seus desejos.

Por sorte, claro, o jovem consegue escapar das garras desse mágico cruel e, mais que isso, ainda se vê dono de grandes riquezas. Mas isso ele vai descobrindo aos poucos e, o mais interessante: ele sabe ser muito comedido em seus pedidos.

Um parênteses aqui: não sei se foi na adaptação da Disney ou em outra narrativa do tipo que surgiu aquela velha história de que só podemos fazer três desejos ao gênio da lâmpada. No desenrolar da história aqui narrada, vemos que Aladim faz bem mais que isso. E, diferentemente de outras histórias deste mesmo livro, este gênio não é ruim como outros, mas apresenta-se como escravo daquele que detém a lâmpada.

Mas voltando…

Pode parecer que erguer o mais belo palácio já visto no mundo, da noite para o dia, não seja exatamente um símbolo de comedimento, mas Aladim também poderia simplesmente ter dito, assim que descobriu os poderes da lâmpada: quero ser rico.

Contudo, isso também é uma característica da própria história e, ouso dizer mais: da própria cultura na qual ela se insere. Afinal, mesmo aquilo que parece um grande milagre, tem um quê de esforço por trás.

Apesar da extensão, esta narrativa não é nada cansativa, uma vez que quando as coisas parecem que vão ficar bem, algo acontece para perturbar a paz. Nós realmente sentimos vontade de prosseguir na leitura e ver onde aquilo vai dar, como Aladim irá se safar de mais uma enrascada.

Esta história, como todas as outras, é muito rica e eu percebi uma coisa bem interessante que provavelmente está relacionada a isso: eu costumo ler a noite, antes de dormir, e quando leio As mil e uma noites tenho uma noite recheada de sonhos mais vívidos que nas demais noites. Curioso, não?

Brincadeira sem limites— Diário de leitura (15)

Como comentei em meu último diário de leitura, esses dias li A história do adormecido despertado. E confesso que ainda estou tentando entender essa narrativa…

Ao mesmo tempo que aprendi várias coisas interessantes ao longo dessas páginas, também me senti lendo uma história que nos mostrava aquelas brincadeiras de criança de tentar ficar enganando um ao outro. Juro para vocês, metade das páginas dessa narrativa trata-se disso, de um personagem rindo-se às custas do outro.

O personagem central é Abu Hassan, um jovem que, como em outras narrativas que já comentei por aqui, quando se vê dono de grandes riquezas, passa a levar uma vida de festas e gastos desmedidos. Mas, ao contrário de muitos, ele, desde o início, deixou metade do dinheiro guardado, jurando não usá-lo de maneira desmedida. E foi isso que o salvou da miséria total.

Infelizmente, porém, como sempre acontece nessas histórias, ao se ver sem dinheiro (ao menos paras as grandes festas que dava até então), Abu Hassan viu-se, também, sem amigos.

Mudando totalmente seu estilo de vida, Abu decidiu que, a cada noite, receberia um viajante em sua casa, oferecendo-lhe um jantar e a hospedagem por uma noite. Mas apenas isso. No dia seguinte, o viajante teria de sair da casa e nunca mais voltar e nem mesmo dirigir-se a Abu Hassan.

Acontece que, um belo dia, um dos viajantes era ninguém menos que o Califa, disfarçado de mercador (e até agora não entendi como alguém não teria reconhecido o Califa após este passar a noite em sua casa. Achei que esta fosse uma figura de feições conhecidas pela cidade). E é neste ponto da narrativa que começam as brincadeiras de criança (mas com graves consequências!).

O Califa, disfarçado de mercador, após o delicioso banquete oferecido por Abu, pergunta qual é sonho dele e este responde, sem saber com quem está realmente falando, que gostaria de ser Califa por um dia, para punir alguns de seus vizinho, explicando o motivo da punição e detalhando como isto se daria.

O Califa, então, coloca um pó na bebida de Abu, e este pó faz com que ele durma quase que imediatamente. O Califa, ajudado por seu escravo, carrega Abu, ainda dormindo, até o palácio e instrui a todos para o tratarem, no dia seguinte, como o verdadeiro Califa e acatar todas as ordens dadas por ele.

Claro que Abu, ao acordar, sente-se extremamente confuso. Mas, depois de muita insistência de seus “servos”, acaba aceitando que é o verdadeiro Califa e dá as ordens que gostaria de dar.

E esse “sonho” dura apenas um dia. Na manhã seguinte, Abu acorda novamente em sua verdadeira casa, porém não aceitando que fosse Abu e afirmando que era o Califa. Uma loucura só. Tão louca que ele tem de ser levado ao “hospital dos loucos”, onde é extremamente maltratado diariamente, durante cerca de um mês.

Esse ponto da história me fez refletir um pouco sobre isso — isto é, sobre hospícios —, sobre como, desde sempre e nos mais variados países/culturas, este tipo de hospital se apresenta como um lugar de maus tratos e de tratamento desumano para com seus pacientes.

Uma característica interessante desses acontecimentos é que, quando hospedou o Califa em sua casa, Abu recomendou — mais de uma vez — que caso ele saísse muito cedo, que não esquecesse, em hipótese alguma, de fechar a porta do quarto. E claro, o Califa fez questão, em sua pegadinha, de não fechar a porta.

Depois de “recuperado” de sua loucura, Abu passou a culpar o Califa (ou o mercador) pelo ocorrido, acreditando que o fato deste não ter fechado a porta, permitira a entrada de demônios em seus sonhos, causando tudo o que veio a seguir.

Mas vocês se enganam se acham que a história acaba aí e que essa foi a única brincadeira ocorrida. Ainda tiveram outras duas! E as coisas só pioram. Como eu disse, ainda não sei muito bem o que pensar disso tudo.

Contudo, no início deste texto, eu disse que aprendi coisas interessantes. Além dessa questão da porta do quarto, que acabei de mencionar, também recebi, ao longo dessas linhas, uma explicação bem interessante sobre a bebida consumida durante as refeições:

“Nos três primeiros salões Abu Hassan só havia bebido água, segundo o costume observado em Bagdá tanto entre o povo e as camadas superiores como na corte do califa, onde só se bebe vinho à noite. Todos que procedem diversamente são tidos por devassos e não ousam mostrar-se durante o dia”

(pág. 236 — volume 2)

Outra costume que aprendi com essa narrativa foi o de sempre colocar o corpo de um morto a ser velado com os pés voltados para Meca. Este, aliás, foi um dos poucos momentos que vi uma referência bem clara e direta a Meca. Não foi a primeira vez, claro, mas levando em consideração a extensão da obra, são relativamente poucas as vezes que este local tão importante é mencionado.

No meu post anterior, comentei sobre a extensão desta história. Ela é realmente longa, mas a que vem a seguir é ainda mais. Trata-se, porém, de uma história mais “conhecida” e muito aguardada: A história de Aladim, ou a lâmpada maravilhosa.

Figuras femininas e masculinas — Diário de leitura (14)

Imagem inicial com a capa de "As mil e uma noites"

No diário de leitura de hoje vou comentar duas histórias que li, porque a primeira, na verdade, era bem curtinha e não tenho tanto o que falar. Trata-se de A história do príncipe Zein Alasnam e do rei dos gênios.

O que eu mais gostei nesta narrativa foi o fato dela retratar os excesso cometidos por um jovem que torna-se rei muito cedo e que, como tantas pessoas fazem ainda hoje, ao ver-se dono de enormes riquezas, gasta-as como se elas nunca fossem acabar. Mas acabam.

Porém, este não é exatamente o foco desta história. O ponto principal dela são alguns sonhos que este jovem tem — quando já está tudo praticamente perdido em sua vida — e que lhe parecem uma mensagem. Ele decide, então, seguir esse sonhos, mas nas duas primeiras vezes que o faz, nada acontece. Porém, nada como a persistência, não é mesmo?

Depois, li A história de Codadad e seus irmãos e, quando dei início à leitura, pensei já tê-la lido, pois é realmente muito parecido com o de narrativas anteriores:

“Os que escreveram a história do reino de Diarbekir dizem que na cidade de Harran reinara um rei magnífico e poderoso. Amava seus súditos e era amado por eles. Possuía mil virtudes, e só lhe faltava, para ser perfeitamente feliz, ter um herdeiro. Embora vivessem no seu harém as mais formosas criaturas do mundo, não conseguia ter filhos delas”

(As mil e uma noites – volume 2 — p. 190)

Seguindo um pouco na leitura, porém, percebi que era realmente uma nova narrativa, que logo me prendeu. Claro que, por algum milagre, o rei teve não apenas um, mas cinquenta filhos! Um desses filhos, porém, é criado por um primo do rei e, no final das contas, é aquele que melhor se desenvolve nas habilidades necessárias para tornar-se um rei.

Mas nenhuma narrativa de As mil e uma noites é tão simples assim, então claro que esta é recheada de reviravoltas. E ela está conectada à A história da princesa de Deriabar. Essas duas narrativas encerram-se juntas (portanto, as li como sendo uma única história).

Acho que o único ponto reflexivo que me vem agora à mente, com relação a essas últimas duas narrativas, é como a figura masculina é sempre cumulada de glórias, bons feitos e bênçãos que ajudam a fugir de uma má sorte, enquanto a figura feminina é sempre desgraçada, sofrida e até mesmo causa de todo o mal.

Não digo que em todas as narrativas desta obra é assim, provavelmente eu estaria mentindo se fizesse tal afirmação, mas consigo me lembrar de muitas nas quais a mulher traz algum tipo de infortúnio ao homem. Porém, não sejamos injustos: muitas vezes elas também lutam para que a verdade seja apresentada e a figura masculina não sofra alguma pena não merecida.

A próxima narrativa que lerei chama-se A história do adormecido despertado, um título que já despertou minha curiosidade (e a do sultão da Índia, conforme mencionado no próprio livro). Ela é um pouco mais longa (são mais de 60 páginas), então não sei muito bem o que esperar (e quando trarei o próximo diário de leitura, confesso).

Mas fiquem de olho! E se já tiverem lido As mil e uma noites tentem me contar o que vem pela frente, sem dar spoilers (sim, estou desafiando vocês!).

Destacando alguns aspectos — Diário de leitura (13)

Depois de um breve hiato, é hora de voltar com o meu diário de leitura de “As mil e uma noites” e, desta vez, com A história de Ganem, filho de Abu Airu, Escravo do Amor. E confesso que, escrevendo esse título, percebi que ele pode ser um pouco ambíguo, pois “Escravo do Amor” poderia referir-se à Ganem ou à Abu Airu. Lendo a história, porém, compreendo que refere-se à Ganem.

Essa é uma história, de uma forma ou de outra, muito parecida com algumas outras, mas não sei se pelos dias que fiquei afastada do livro ou se pela forma da narrativa mesmo, consegui detectar claramente dois traços culturais interessantes. Antes disso, porém, gostaria de destacar essa passagem, que ainda hoje nos serve tão bem:

“Apressou o passo para chegar mais depressa, mas como acontece frequentemente, quanto mais pressa se tem tanto menos se avança, tomou um caminho pelo outro e perdeu-se na escuridão, de modo que já era quase meia-noite quando chegou à porta da cidade”

Isso é o que hoje chamaríamos de Lei de Murphy. É interessante ver esse tipo de pensamento já numa história tão antiga quanto As mil e uma noites. Mas passemos aos traços culturais que mais pude notar nesta narrativa.

Outro dia, meu namorado me ensinou que, na cultura do Oriente Médio, coisas importantes não podem ser ditas em pé, porque essas coisas não podem ser ditas com pressa, já que, sendo importantes, precisamos refletir sobre elas. Quando ele me disse isso, pensei já ter visto algo do tipo em As mil e uma noites, mas não tinha nenhum exemplo concreto em mente. Nesta história, porém, isto apareceu novamente:

“Ele queria permanecer de pé, mas ela respondeu que não tocaria em nada se ele não se sentasse e comesse também”

Tendo esse conhecimento que meu namorado me transmitiu, uma frase que poderia não significar grande coisa, adquire todo um novo sentido. E isso, uma vez mais, me faz pensar em quanta coisa provavelmente foi passando ao longo da leitura, ainda que tantas outras me tenham feito pensar.

Porém, nessa mesma história, em duas ocasiões ocorre algo que eu ainda não sei o real significado, mas que me parece importante também: para demonstrar que determinada ordem do Califa será cumprida, seus súditos colocam a mão (ou uma carta, no caso de um deles) sobre a cabeça, como uma forma de “jurar” o cumprimento das ordens dadas. Alguém conhece o significado desse gesto na cultura oriental?

Para pensar sobre outras culturas — Diário de leitura (12)

Como eu comentei em meu último diário de leitura, agora não há mais a interrupção da narrativa a cada noite, e também já não é mais possível acompanhar em que noite da história nos encontramos.

Ainda assim, a história que venho comentar hoje, “A história de Beder, príncipe da Pérsia, e de Sahara, princesa do reino de Samandal”, era relativamente longa e, por isso, foi dividida em duas partes. Em minha opinião, achei a divisão desnecessária. Continuou sendo um longo “capítulo” que, por diversas vezes, interrompi no meio da leitura.

A história em sim, porém, foi mais uma narrativa capaz de prender o leitor. Era difícil escolher o momento de interromper a leitura, pois eu sempre queria saber o que viria a seguir. E olha que há muitos elementos já presentes em outras narrativas desta obra, como um casal que passa por mil desventuras até chegar ao final feliz, humanos transformados em animais, lutas entre reinos.

Logo no início, contudo, uma questão me deixou pensativa e é daí que vem o título do diário de hoje. Não quero fazer qualquer julgamento aqui, pois sei que estou me referindo a uma cultura muito diferente da minha (e sobre a qual continuo não sendo grande conhecedora), mas chamou-me a atenção que, de início, esta era uma narrativa sobre um rei que “apesar das mil mulheres”, não teve um filho para dar continuidade a seu reinado.

“Só num ponto se julgava infeliz: estar muito idoso e de todas as suas mulheres não haver uma só que lhe tivesse dado um príncipe que lhe sucedesse após a sua morte. No entanto, possuía mais de cem, todas acomodadas magnífica e separadamente, com escravas para servi-las e eunucos para guardá-las”

E bem, pensando aqui comigo, se de 100 mulheres, nenhuma lhe deu filhos, talvez o problema não fossem as mulheres… Mas não pude deixar de achar “engraçado” esse pensamento de que nem mesmo com tudo do bom e do melhor, o rei pode ter um filho. A prepotência dele, por assim dizer, também fica clara em outra passagem, um pouco mais adiante:

“Por que ficas tão silenciosa? De onde vem essa frieza, essa tristeza que te aflige? Lastimas teus pais, teus amigos? Mas então um rei da Pérsia, que te ama, que te adora, não é capaz de fazer-te esquecer tudo no mundo?”

O mais curioso de tudo isso, porém, é que a história flui. Eu tive certa estranheza com esses pontos, apenas de início, mas tudo segue tão naturalmente que acabamos não sentido nada de negativo com relação a esse rei. Muito pelo contrário, aliás, pois ressalta-se a sua bondade e lealdade que qualquer outra coisa. Para ser sincera, eu até mesmo havia me esquecido desse início… E aí, relendo agora, fico pensando como ele havia dito que era velho, mas, no final das contas, teve o filho que tanto desejava e ainda foi capaz de vê-lo crescer.

Mas faz sentido que a história seja assim e, principalmente, que o modo de se comportar deste rei não nos cause repulsa. É uma outra cultura e eram também, outros tempos. E é por isso que tem sido tão interessante fazer esse mergulho pelas “Mil e uma noites”.

Mudanças na estrutura da obra — Diário de leitura (11)

Depois das narrativas apresentadas em meu último diário de leitura, dei início à História de Nuredin e da Formosa Persa. Logo de cara, porém, um baque: deste ponto em diante não há mais a interrupção a cada noite, isto é, os “capítulos” do livro, agora, são formados por cada uma das narrativas de maneira completa, o que significa que são capítulos mais extensos.

Eu, particularmente, não gostei muito deste novo formato pois, como dito acima, os capítulos ficam mais extensos, mas também porque as interrupções a cada novo amanhecer me instigavam a continuar a leitura. Era aquela coisa de “só mais um capítulo”, porque geralmente isso significava só mais algumas páginas. Agora não, agora sinto que tenho de me dedicar à história inteira de uma vez e isso, por vezes, dá uma certa preguiça…

Esse formato, também, me faz pensar se, daqui para frente, haverá menos narrativas dentro das outras narrativas, como acontecia anteriormente. Na história de agora, por exemplo, foi assim. Havia, ali, apenas a história de Nuredin e da Formosa Persa.

Não que tenha sido uma história sem graça, muito pelo contrário. Trata-se de uma narrativa no estilo de outras que já li nesta obra, com idas e vindas e com passagens que nos fazem pensar “não é possível, isso não pode acontecer”. E, uma vez mais, o amor se faz presente, nos mostrando, também, muitos costumes da época ou da cultura oriental.

Um dos pontos que mais me chamou a atenção, porém, foi uma passagem sobre a confiança. Sobre como, desde sempre, muitas relações são baseadas no interesse e que, quando não temos mais nada a oferecer ao outro, ele nos dá as costas.

“Reconheceu, então, o erro irreparável de ter confiado tão facilmente nos falsos amigos e nos seus protestos de amizade, enquanto lhes oferecia banquetes suntuosos e os cumulava de benefícios”

Imagino que essa passagem mesmo seja uma crítica a esse comportamento e é uma pena ver que, passam-se anos e anos e algumas coisas não mudam.