Confiança e comedimento — Diário de leitura (19)

Foi só eu sentar de frente para a tela em branco e repassar alguns pontos de A história de Ali Codja, mercador de Bagdá que logo percebi que essa história, ainda que não seja das mais longas em As mil e uma noites tem muitas mensagens a nos passar, inclusive com relação a comportamentos que temos até hoje.

Para começar, esta é uma história que fala sobre confiança. Não gosto de ser aquela pessoa que desconfia de tudo mundo, mas muitas vezes isso é preciso. Às vezes, basta uma simples opinião contrária e uma amizade ou um relacionamento de anos vão por água a baixo.

Na história em questão, Ali Codja decide partir por um tempo, viajar por terras desconhecidas, confiando a seu amigo, antes de partir, um vaso. E olha só a loucura: Ali Codja disse apenas que era um vaso cheio de azeitonas e deixou o mesmo em um depósito do amigo.

Alguns anos depois, Ali Codja não havia ainda retornado e a esposa desse amigo queria azeitonas. Tal amigo lembra-se do vaso e pensa que um punhado de azeitonas não faria falta. Mas logo descobre que ali há muito mais: há moedas de ouro! E bom, uma vez que Ali Codja ainda não retornara, que mal faria pegar aquelas moedas?

O que ele não contava é que logo Ali Codja voltaria e, claro, buscaria o seu vaso que já não continha mais as tais moedas de ouro. E isso gera uma disputa entre os dois amigos, como já é de se imaginar.

Não sendo possível resolver o conflito de maneira amigável — afinal, não há mais amizade entre eles após esse episódio — eles partem em busca de um cádi (juiz muçulmano). Tal cádi, porém, dá razão ao (ex)amigo de Ali Codja e este, nada satisfeito, pede a intervenção do califa.

A esta altura, preciso mencionar a segunda mensagem que esta história traz, e que, ainda que ela seja deixada bem explícita ao final da história, está estritamente relacionada a esse acontecimento: não devemos julgar precipitadamente.

Se algum dia te colocarem em uma posição de juiz de alguma situação, pare, reflita e analise todos os lados da história. E se nunca te colocarem nesta posição, ótimo, então não saia emitindo a sua opinião sem ao menos ter a certeza de saber sobre o que está opinando.

Bem, depois que é solicitada a intervenção do califa neste conflito, o mesmo fica um pouco sem saber o que lhe aguarda. Passeando por suas terras, porém, depara-se com uma cena que logo chama sua atenção: algumas crianças estão brincando e brincadeira é justamente encenar o julgamento de Ali Codja.

A solução dada pelo juiz mirim, no entanto, agrada tanto ao califa que ele pede que levem o garoto ao palácio no dia seguinte, para participar do verdadeiro julgamento. E essa é a terceira mensagem desta história: a importância de darmos ouvido às crianças e ao seu senso de justiça.

Em uma simples brincadeira de criança, o garoto foi capaz de pensar em uma solução que poderia parecer óbvia, mas que o cádi sequer havia cogitado, fazendo-o julgar de maneira injusta uma situação extremamente séria.

Essa foi uma história que realmente chamou minha atenção durante a leitura e que agora, passados uns dias, admiro ainda mais, por ver o quanto ela carrega dentro de si. Uma história que merecia ser mais contada e divulgada.

Você já conhecia A história de Ali Codja, mercador de Bagdá?

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