Quando é pra ser — Aline Sales

Título: Quando é pra ser 
Autora: Aline Sales
Editora: Publicação independente
Páginas: 250
Ano: 2017

Sinopse

Um amigo. Um acidente inesperado. Desde então, Augusto Caldeira adota uma postura indiferente à vida. Amante do perigo e da adrenalina, o que mais gosta de fazer é testar seus limites na pista de motocross. Entretanto, seu pai o obriga a trabalhar na construtora da família na tentativa de transformá-lo em um homem sério.

E é assim que o jovem, belo e altamente cínico conhece Melissa Andrioni, a analista de T.I. da empresa. A ruiva, apesar de linda e atraente, é o seu oposto, amante de séries, filmes e HQ’S a garota não vê problema em seguir regras. Nerd de carteirinha se sente bastante confortável calçando seu velho all star. A atração e o antagonismo entre eles são imediatos fazendo com que a convivência entre os dois seja sempre regada a brigas e provocações.

Porém, um mal-entendido na empresa os leva a trabalharem juntos para solucionar o mistério. A parceria forçada faz com que percebam que além da atração eles têm mais coisas em comum do que imaginavam. Mas antes de se entregarem a paixão precisam enfrentar velhos fantasmas para conseguirem seguir em frente.

Resenha

No melhor estilo cão e gato, Quando é pra ser é daquelas leituras leves e ideais para passar o tempo.

“Ela era o meu oposto; enquanto eu vivia para quebrar regras, ela parecia viver para segui-las”

Com uma narrativa em primeira pessoa, que se alterna entre os protagonistas, vamos, aos poucos, compreendendo as características de cada um.

“Mas, desde que eu coloquei os olhos na ruiva no elevador, eu não me reconheço, há em mim um desejo incontrolável de me aproximar. Mesmo sabendo que eu destruo tudo o que toco”

O que nos prende às páginas desta obra são, sem dúvidas, dois grandes mistérios. O primeiro deles é mais “simples”, esperado numa narrativa como essa: o que aconteceu no passado de Augusto, o protagonista, que o transformou num bad boy. 

“Ao ouvir aquilo, eu me peguei desejando ser ao menos uma vez o mocinho daquela trama louca chamada vida”

O segundo mistério, contudo, é o que contribui para o desenvolvimento da história em si: uma sabotagem na empresa em que Augusto e Melissa trabalham acaba por unir os protagonistas, mesmo com todas as diferenças que possuem.

“Mas aquilo não era só sobre mim e o marrento do Augusto e a nossa relação de gato e rato mal resolvida”

Melissa é daquelas mulheres lindas que não sabem reconhecer a própria beleza. Mais que isso, porém, ela é extremamente competente e inteligente, o que, apesar de tudo, faz com que ela tenha muita credibilidade diante de seu chefe.

“Eu me sentia frustrada, embora fosse inocente; o que houve me abalou muito”

Augusto, por outro lado, está totalmente desmoralizado diante de seu pai, um dos donos da empresa em que trabalham. Mas é isso que talvez contribua para que ele queira acertar ao menos uma vez na vida, mesmo sem querer abandonar por completo a vida que leva.

“Augusto era uma incógnita que dificilmente faria parte da equação que era a minha vida. Era impossível desvendá-lo”

Em suma, esta é uma leitura para você que está em busca de um romance cão e gato, com uma pitada de mistério e, claro, sem medo de se irritar com um personagem como Augusto.

“Mas eu não podia brincar com fogo, eu a desejava e, bem, ela era quem poderia se queimar, já que eu era mestre em ferir as pessoas à minha volta”

Se quiser conhecer a autora e outras obras escritas por ela, siga-a em suas redes sociais: Instagram.

Tatianices recomenda [23] — Inhotim

Desde que escrevi sobre Belo Horizonte (aqui), queria escrever, também, este post, afinal, não poderia deixar de falar sobre Inhotim neste blog.

Sobre Inhotim

Localizado em Brumadinho, Minas Gerais, Inhotim é um museu de arte contemporânea e um jardim botânico, inaugurado em 2006. Trata-se de uma organização sem fins lucrativos, idealizada por Bernardo de Mello Paz desde a década de 1980. 

Isso tudo, porém, são apenas informações. Inhotim é muito mais que isso: pensado para fazer com que a gente se perca dentro dele, este que um dos maiores museus a céu aberto nos convida a caminhar sem pressa; a observar cada detalhe, mesmo sabendo que muito será ignorado; a se deixar tocar por tanta arte e natureza juntas.

A primeira coisa que chama atenção não é uma obra específica, mas o espaço. São 140 hectares de visitação, num espaço entre a Mata Atlântica e o Cerrado. O acervo é exibido ao ar livre e também em galerias, e as espécies botânicas — sobretudo aquelas raras — dão um toque único à visita. E tudo isso está muito bem identificado no mapa que você pode pegar gratuitamente logo na entrada.

Caminhar por Inhotim exige tempo: não dá para ver tudo correndo. Aliás, não dá para ver tudo. E talvez isto seja parte do encanto: aceitar que sempre vai ficar algo para a próxima visita. Mas, para otimizar um pouco a sua visita, sugiro contratar o transporte interno, que vai facilitar muito a sua ida às galerias, principalmente aquelas mais distantes (tem algumas jóias raras escondidas nos confins de Inhotim).

Por falar em galerias, uma curiosidade que aprendi somente em minha terceira visita à Inhotim (e ainda estou achando pouco, viu?) é que as galerias que possuem nomes genéricos (como Galeria Fonte, Galeria Lago e Galeria Mata) abrigam exposições temporárias, enquanto aquelas que possuem nomes de artistas (como Galeria Adriana Varejão, Galeria Yayoi Kusama e Galeria Miguel Rio Branco) são permanentes.

A maneira como aprendi isso também diz muito sobre Inhotim: os funcionários são muito receptivos e só de trocar algumas palavras com eles já dá para perceber o quanto conhecem do lugar. 

É difícil escolher o que eu mais gosto lá, ainda que, sem dúvidas, algumas obras tenham seu espaço reservado em meu coração. A questão é que Inhotim não pode só o olhar: pede presença. Precisamos entrar, atravessar, sentir desconforto, estranhamento, silêncio. Em certos pavilhões, o corpo participa tanto quanto os olhos. Em outros, é impossível não sair pensando: era isso que o artista queria provocar em mim?

Talvez Inhotim seja também sobre aceitar que nem tudo precisa ser entendido imediatamente. Algumas coisas só precisam ser sentidas. Outras voltam dias depois, como uma lembrança meio desfocada, pedindo interpretação.

A cada vez que o dia termina em Inhotim — e sim, não dá nem para cogitar não ficar lá da hora que abre à hora que fecha — saio com a sensação de que aquele lugar não acaba no portão de saída. Ele continua. Nos pensamentos, nas fotos que não dão conta, nas conversas que surgem depois.

Algumas informações úteis

Inhotim funciona de quarta a sexta-feira, das 09h30 às 16h30 e aos finais de semana e feriados das 09h30 às 17h30. Nos meses de férias escolares (janeiro e julho) funciona também às terças-feiras, das 09h30 às 16h30.

Os ingressos custam de R$32,50 (meia) a R$65 (inteira) e às quartas-feiras e no último domingo do mês a visitação é gratuita. Vale a pena dar uma olhada nas regras da meia entrada, porque tem muita coisa incluída.

O endereço de Inhotim é Rua B, 20, Inhotim (Brumadinho, Minas Gerais) e é possível ir de carro (o estacionamento é gratuito), uber (se estiver com mais pessoas, é uma opção em conta), transfer da Belvitur ou ônibus da Coordenadas.

Para alimentação, é possível entrar com alimentos, mas também há diversas opções de restaurantes por lá (pratos feitos, quilo, lanches, cafés…). Ah, e claro: sempre bom levar uma garrafinha com água, né?

E se tiver outras dúvidas, não deixe de acessar o site oficial de Inhotim.

Coisas que eu amo em Inhotim 

Para fechar, já que pincelei lá em cima, vou mencionar aqui algumas obras/galerias que amo em Inhotim:

  • Em primeiríssimo lugar, o Sonic Pavilion (Doug Aitken), que visitei nas três vezes que estive em Inhotim. A ideia, aqui, é ouvir os “sons da terra”. Gostoso demais,
  • A Galeria Adriana Varejão conquistou meu coração na primeira visita e, desde então, sou apaixonada pela artista. Vale a visita!
  • Na Galeria Praça esta(va?) uma das melhores obras de Inhotim: Forty Part Motet (Janet Cardiff), uma instalação sonora, em que cada caixa de som corresponde à voz de um integrante do coral da catedral de Salisbury. É mágico demais.
  • A Galeria Yayoi Kusama eu só visitei uma vez, mas o mix de sensações que ela nos propicia é imperdível também.
  • Impossível não se deixar impressionar de alguma forma com a obra Ahora Juguemos a Desaparecer (II), do Carlos Garaicoa.
  • A Invenção da Cor, Penetrável Magic Square , De Luxe, do Hélio Oiticica, pode parecer uma obra simples, mas ela encanta com suas cores e possibilidades. 

E aí, você conhece Inhotim? Ficou com vontade de conhecer ou voltar? Não deixe de me contar nos comentários, vou amar conversar sobre.

Comunicação não violenta — Marshall B. Rosenberg

Título: Comunicação não violenta — técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais 
Original: Nonviolent communication: a language of life
Autor: Marshall B. Rosenberg
Editora: Ágora
Páginas: 280
Ano: 2021 (5º edição)
Tradução: Mário Vilela

Sinopse

Em um mundo violento, cheio de preconceitos, conflitos e mal-entendidos, buscamos ansiosamente soluções para melhorar nossa relação com os outros. Nesse sentido, a boa comunicação é uma das armas mais eficazes. Grande parte dos problemas entre casais, pais e filhos, empregados e empregadores, vizinhos, políticos e governantes pode ser amenizada e frequentemente evitada apenas com… palavras. Porém, saber ouvir o que de fato está sendo dito pelo outro e expressar o que de fato queremos dizer, embora pareça tarefa simples, é das mais difíceis. Nesta obra, best-seller no Brasil e no mundo, Marshall Rosenberg explica de maneira revolucionária os valores e princípios da comunicação não violenta, que se baseia em habilidades de linguagem e comunicação que fortalecem nossa capacidade de manter a humanidade, mesmo em condições adversas. Usando sua experiência como psicólogo clínico e criador do método da CNV, ele ensina o leitor a: • entregar-se de coração aos relacionamentos e se libertar dos condicionamentos e dos efeitos de experiências passadas; • identificar e expressar sentimentos; • expressar a raiva de forma não violenta; • transformar padrões negativos de pensamento; • resolver seus conflitos com os outros de forma pacífica; • criar relacionamentos interpessoais baseados em respeito mútuo, compaixão e cooperação. Nesta nova edição, que conta com um capítulo inédito sobre mediação e solução de conflitos e prefácio de Deepak Chopra, Marshall Rosenberg consolida seu trabalho, reconhecido mundialmente, e compartilha com os leitores ensinamentos testados e comprovados na prática.

Resenha

Não sei muito bem como falar desta obra que foi, sem dúvidas, uma das leituras mais marcantes do ano que passou e que trata das palavras que usamos e da forma como nos comunicamos.

“Usamos a linguagem de maneiras diversas para nos iludirmos com a crença de que nossos sentimentos resultam do que os outros fazem”

Trata-se de um daqueles livros que todos deveriam ler ao menos uma vez na vida, o que ajudaria, em grande medida, nas relações humanas.

“A CNV baseia-se em habilidades de linguagem e comunicação que fortalecem nossa capacidade de manter a humanidade, mesmo em condições adversas. Ela não tem nada de novo: tudo que compõe a CNV já era conhecido havia séculos”

O subtítulo em inglês, sem dúvidas, ajuda a mostrar o que estou tentando dizer: “uma linguagem da vida”. 

“A CNV ajuda a nos ligarmos aos outros e a nós mesmos, permitindo o florescimento da compaixão natural”

Apesar de se tratar de um livro “técnico”, Marshall Rosenberg consegue usar uma linguagem simples, fácil de compreender, além de dar diversos exemplos práticos.

“Mostramos que estamos pedindo, e não exigindo, pela maneira como reagimos aos outros quando não nos atendem”

Ainda assim, a CNV não é algo nem um pouco fácil de se aplicar na vida real, porque, na verdade, vai muito além da língua: mexe com nossa forma de pensar e de agir

“A comunicação é alienante quando atrapalha a conscientização de que cada um de nós é responsável pelos próprios pensamentos, sentimentos e atos”

Este é um daqueles livros que nos deixam querendo ir além, seja relendo-o de tempos em tempos, seja buscando outras obras que possam continuar nos guiando no caminho para uma comunicação mais clara e saudável (até porque, como eu disse, na teoria a CNV é linda, mas sua aplicação não é nada simples). 

“É uma lição de humildade no exercício do poder, para aqueles que acreditam que, por sermos pais, professores ou diretores, é nossa tarefa mudar as outras pessoas e fazê-las se comportar”

A forma como a obra é organizada também é interessante: para além da linguagem acessível, há pequenos resumos espalhados pelas páginas, que facilitam a compreensão e a retomada dos pontos mais importantes de cada capítulo.

“Se não valorizarmos nossas necessidades, é provável que os outros também não as valorizem”

O livro conta, ainda, com um importante e necessário dicionário de emoções, ótimo para a aplicabilidade da CNV.

“Infelizmente, a maioria nunca foi ensinada a pensar partindo de necessidades”

E aí: você já havia escutado sobre a Comunicação não Violenta? O que acha desse assunto?

Citações #97 — Uma canção para a libélula

Uma canção para a libélula, da Juliana Daglio, foi minha primeira leitura de 2025 e, ainda que quase um ano tenha se passado, ainda há ecos destas páginas em mim. Como mencionei na resenha, trata-se de uma obra densa, porque aborda temas como a dor (física e emocional):

“Quando uma dor pede para levar embora suas lembranças ruins, ela leva também a parte boa”

“Não havia amor no mundo que pudesse me salvar da dor cortante que já tinha roubado a vida dentro de mim”

“Naquele ínterim, eu compreendi com uma certeza quase palpável, que as vítimas da Depressão e do Suícidio não são apenas aqueles que sofrem”

“Ninguém sabia a tristeza atroz que estava dentro de mim, oca e funda como um abismo aberto dentro do peito”

“Às vezes, é só ouvindo ou lendo sobre a dor de outras pessoas que conseguimos encontrar saída para as nossas”

“Apesar da dor que carregava sobre os ombros, era bom me sentir ouvida”

“Talvez a dor seja inevitável. Algo que todos os seres vivos terão que passar eventualmente”

Ao longo da narrativa, descobrimos que muito dessa dor vem da perda e do luto.

“Quando você morre, mata também uma parte das pessoas que o amam”

“O mundo me deu um anjo e eu o deixei partir”

“O dia que conheci minha mulher, foi o mesmo em que a perdi”

“Talvez ainda houvesse algo em mim a ser salvo; um caco do que um dia eu fui”

“O frio, só o frio. Mas ele não foi suficiente para calar a voz da menina que eu fui…”

“A vida e a morte não se posicionam em lados opostos de um tabuleiro…”

“Quando você morre, mata também uma parte das pessoas que o amam”

Provavelmente, já deu para perceber que uma das temáticas centrais da obra é a depressão, que se faz presente sobretudo através da Vilã Cinzenta:

“Saí dali terminando de desmoronar, certa de que não havia tratamento nenhum que pudesse parar aquilo”

“Tinham me dito que os remédios iam fazer efeito com o tempo e eu me sentiria um pouco melhor, mas nada disso aconteceu”

“Mandar um depressivo ver as coisas de forma mais positiva é como pedir a um deficiente auditivo que ouça uma música…”

“A angústia trazida pela depressão causa um horror imenso, sem motivos concretos…”

“Nada é realmente belo, num patamar totalmente multicolorido, para quem tem a Depressão nas veias da mente”

“Ali estava a Vilã Cinzenta me sabotando novamente, me dizendo que nada seria como antes”

“Não há motivos para seguir em frente, não há galhos em que se apoiar quando se cai de cabeça no abismo dessa Vilã”

Esta é uma temática que também nos conduz à solidão e ao vazio existencial:

“É dolorosamente solitário não ser compreendido”

“É preciso ter coragem para enfrentar a sobrevivência”

Para tratar dos assuntos até aqui mencionados, é preciso falar, também, das relações humanas, cruciais para esta história:

“Alex e Marcos viveram treze anos com um fantasma meu pairando na casa”

“Suas palavras ecoavam, derrubando as muralhas que eu tinha construído ao redor de mim”

 “Pessoas tendem a dramatizar, algo que sempre me incomodou nas relações sociais”

“Ninguém é bom ou mau, tampouco uma mistura exata. As pessoas são complexas…”

Mas também há espaço para o amor:

“Pessoas como eu, que crescem frias, distantes e cheias de complexidades, quando cedem não amam pouco, mas poucos”

“Estar apaixonada era correr o risco de ser rejeitada”

“Era sobre aquilo que as pessoas apaixonadas escreviam em canções…”

“De alguma forma ser forte por outra pessoa era mais fácil do que ser forte por mim mesma”

E há espaço para a poesia, na forma de música, de arte, de expressão.

“A música era minha liberdade”

“Usei a música para fugir de alguns dos meus problemas, para realmente não ter que enfrentá-los”

“A canção da Libélula era um fragmento perdido da minha alma”

“Certas mensagens são mais eficazes se ditas sem palavras”

Um livro introspectivo, que nos faz refletir, também, sobre autoconhecimento:

“A verdade fere, mas liberta”

“Não queria me identificar com aquilo. Era humilhante e doloroso”

“Eu não queria mais ser eu, porque não queria pôr outra pessoa quebrada no mundo”

“As cicatrizes não são algo para se exibir, mas podemos usar as nossas para evitar as dos outros”

“— Superar, Vanessa — retrucou de imediato. — Não é esquecer e nem passar por cima do que aconteceu”

“É nos momentos que precedem à loucura que toda a sensatez se volta para a realidade da vida”

“Não importa em qual lugar dessa cidade eu esteja, meu passado vai sempre me perseguir”

Apesar das muitas frases que trouxe aqui, ainda há muito a se explorar na leitura de Uma canção para a libélula, então, se você se interessou, não deixe de procurar.

Pessoas normais — Sally Rooney

Título: Pessoas Normais 
Original: Normal People
Autora: Sally Rooney
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 264 
Ano: 2019
Tradução: Débora Landsberg

Sinopse

Na escola, no interior da Irlanda, Connell e Marianne fingem não se conhecer. Ele é a estrela do time de futebol, ela é solitária e preza por sua privacidade. Mas a mãe de Connell trabalha como empregada na casa dos pais de Marianne, e quando o garoto vai buscar a mãe depois do expediente, uma conexão estranha e indelével cresce entre os dois adolescentes ― contudo, um deles está determinado a esconder a relação.

Um ano depois, ambos estão na universidade, em Dublin. Marianne encontrou seu lugar em um novo mundo enquanto Connell fica à margem, tímido e inseguro. Ao longo dos anos da graduação, os dois permanecem próximos, como linhas que se encontram e separam conforme as oportunidades da vida. Porém, enquanto Marianne se embrenha em um espiral de autodestruição e Connell começa a duvidar do sentido de suas escolhas, eles precisam entender até que ponto estão dispostos a ir para salvar um ao outro. Uma história de amor entre duas pessoas que tentam ficar separadas, mas descobrem que isso pode ser mais difícil do que tinham imaginado.

Resenha

Pessoas normais foi um livro que, para mim, pareceu demorar demais para chegar ao ponto, mas tendo concluído a leitura, acredito que o tempo dele é na medida para assimilar certos sentimentos que a obra busca transmitir.

“Os sentimentos eram suprimidos com tamanho cuidado na vida cotidiana, forçados a caber em espaços cada vez menores, que acontecimentos aparentemente banais tomavam uma importância insana e assustadora”

A narrativa nos conduz, aos poucos, a uma reflexão sobre a sociedade e os tempos que vivemos, fazendo isso através de uma história que poderia ser extremamente banal, mas que, no final das contas, não é. Ou melhor, é, só que isso não a torna menos necessária

“Bom, sempre é fácil pensar em razões para não se fazer alguma coisa”

A história é narrada em terceira pessoa, com diversos diálogos, e num ritmo que é quase um fluxo de consciência. Algo nessa combinação me incomodou, mas não consegui definir exatamente o quê.

“Muitas pessoas realmente a odeiam”

Os protagonistas são dois: Connell Waldron e Marianne Sheridan.

“Quer dizer, você nunca vai conhecer de verdade a outra pessoa, e coisa e tal”

Connell é um garoto que, apesar de pobre, é relativamente bem popular na escola, principalmente por suas habilidades esportivas.

“Connell gostaria de saber como as outras pessoas conduziam suas vidas particulares, para que pudesse copiar seus exemplos”

Marianne, por sua vez, encontra-se no lado oposto da sociabilidade: considerada esquisita, ninguém faz muita questão de se aproximar dela, assim como ela não faz questão de se aproximar dos outros. 

“Marianne tinha uma vida drasticamente livre, ele percebia. Ele estava imobilizado por várias razões. Ele se importava com o que os outros pensavam dele”

Ao menos na aparência é assim. Mas a verdade é que a mãe de Connell trabalha na casa de Marianne e isso acaba por aproximá-los.

“Estar sozinho com ela é como abrir uma porta para fora da vida normal e fechá-la depois de passar”

Além disso, a história começa quando ambos estão no último ano da escola, mas a situação muda quando vão para a faculdade: Marianne torna-se popular, enquanto Connell vê-se à margem.

“Ele não é do tipo que se sente confortável confiando nos outros, ou exigindo coisas deles”

E é aqui que as coisas vão ficando interessantes, porque somos, aos poucos, arrastados para uma narrativa que vai se tornando complexa justamente por retratar a complexidade humana: angústias, amores, autoconhecimento, crises, segredos.

“Se as pessoas pareciam agir despropositadamente no luto, era porque a vida humana era despropositada, e esta era a verdade que o luto revelava”

Os protagonistas são jovens, sentem-se perdidos em momentos diferentes e por causas diversas. Mas, no fundo, são humanos, possuem tanto em comum

“Seria tarde demais para falar que queria ficar com ela, isso era claro, mas quando havia ficado tarde demais?”

Por diversas vezes, senti vontade de chacoalhar os dois, mas a verdade é que isso só é possível porque vemos de fora o desenrolar dos fatos. No fundo, já fomos (ou ainda somos) Connell e Marianne.

“Parece intelectualmente frívolo se preocupar com pessoas ficcionais se casando. Mas é isso: a literatura o comove”

O tom narrativo parece acompanhar o clima do local onde se passa a história: no interior da Irlanda em um primeiro momento, a história é melancólica e lenta; e em Dublin, quando os jovens vão para a faculdade, as coisas começam a acelerar.

“A vida propicia esses momentos de alegria, apesar de tudo”

A história se passa em cerca de quatro anos e é interessante acompanhar o quanto as coisas podem mudar, ir e voltar, neste espaço temporal. São muitos momentos e reflexões, não apenas para os protagonistas, mas também para nós, que os acompanhamos nesta jornada. 

“Ele não tem certeza do que é permitido que amigos curtam uns nos outros”

Sendo Pessoas normais um livro que divide opiniões, gostaria de saber: você já leu? O que achou?

Tatianices recomenda [22] — Clube Literacidade

Mesmo sendo apaixonada por ler (o que não é segredo para ninguém), tenho certa dificuldade com clubes do livro

Acho a ideia incrível, mas não para mim. Ainda sou muito adepta da leitura como um momento meu, um instante silencioso em meio caos. Sem contar que gosto de deixar o livro me escolher (e não o contrário) e ler no meu ritmo

Ainda assim, sempre sonhei com a possibilidade da leitura me aproximar dos outros, me fazer conhecer pessoas. Algo não tão surreal, se pensarmos que já frequentei diversos eventos literários e adorei cada um deles. Mas estar num evento literário não significa… Ler!

A Nati, porém, conseguiu pensar numa maneira de transformar o momento da leitura em si — aquela leitura do jeito que eu gosto, silenciosa, no meu ritmo, minha — em algo mais social. E eu estou falando do Clube Literacidade

A proposta é simples e, ao mesmo tempo, incrivelmente maravilhosa: uma vez por mês nos reunimos para ler, cada um o seu livro. A ideia não é discutir sobre uma mesma obra — ainda que você possa comentar com alguém sobre o que está lendo e ouvir a pessoa contar sobre a própria leitura — mas simplesmente compartilhar um mesmo espaço e tempo enquanto se lê. E depois ainda pode rolar uma extensão do encontro num cafezinho (afinal, ler também dá fome!).

Aquela atividade tão solitária, torna-se um pouco mais social: nos faz sair de casa, conhecer novos lugares na cidade — porque, sim, cada reunião é em um lugar diferente — encontrar (e, por que não, conhecer) pessoas e, um dos motes do projeto, passar um tempo longe do celular

Com o Clube Literacidade, a Nati quer incentivar as pessoas a ler (seja quem tá começando e se distrai facilmente com as redes sociais, seja quem quer retomar um hábito perdido, seja quem já é um leitor assíduo, mas quer viver esse momento de maneira menos solitária) e também quer mostrar que todo lugar pode ser um bom lugar para sentar e ler

Se você achou essa ideia boa (e ela é mesmo), saiba mais lendo o post de apresentação do Clube Literacidade, escrito pela Nati e, claro, fique por dentro das novidades se inscrevendo na sua newsletter. Por lá você poderá saber a data e o local dos próximos encontros (o de outubro/2025 será no Parque Augusta, dia 25!).

E se você não é de São Paulo, mas adorou a ideia, por que não começar a pensar numa forma de replicá-la na sua cidade?

Agora eu entendo — Pam Gonçalves

Título: Agora eu entendo: um conto de natal 
Autora: Pam Gonçalves
Editora: Agência Página 7
Páginas: 21
Ano: 2019 

Sinopse

Bianca não aguenta mais as brigas de família durante as festas de fim de ano. Por isso, ela decidiu passar o Natal sozinha, ou quase, já que sua gata terrorista a acompanhará na maratona de filmes do Harry Potter. Mas o que a garota não esperava era que o destino iria ensiná-la a ser mais paciente e compreensiva com aqueles que a amam.

Resenha

A leitura da vez pode parecer um pouco fora de época, mas Agora eu entendo não é apenas um conto de Natal

Cansada das brigas familiares, Bianca decide passar esta festividade sozinha

“Eu já fui a menina que amava o Natal”

Contrariando todas as expectativas — de familiares e amigos — a protagonista não muda de ideia, ainda que algumas dúvidas a acompanhassem

“Será que me sentiria sozinha? Trocar as brigas pela solidão valeria a pena?”

Não tenho dúvidas de que muitos brasileiros podem se identificar com esta história, o que, por si só, já valeria a leitura.

“Cheguei à conclusão que precisava tentar. Esse um ano morando sozinha não foi fácil. Levar um pé-na-bunda poucos dias antes do carnaval também não ajudou muito, mas entendi que era exatamente isso que eu precisava. Estar comigo. Sempre dependi muito de outras pessoas, da opinião, da presença, do incentivo. Estava na hora de tirar essa força de dentro de mim”

Como comentei no início, porém, a história não é apenas essa. O contexto não é tão simples ou banal quanto pode parecer em um primeiro momento.

“Você deve estar pensando: que garota amargurada!”

E ainda tem mais: um triste incidente acaba impactando as escolhas desta personagem, dando um novo rumo às suas reflexões.

“Como as coisas mudam tão rápido em tão pouco tempo?”

É por isso que a história aqui vai muito além de uma mocinha amargurada com o natal, nos fazendo refletir sobre família, escolhas e aquilo que realmente importa em nossas vidas, sobretudo quando pensamos em relacionamentos (de todo tipo).

“Agora eu entendo que na maior parte das vezes as pessoas não têm intenção de nos machucar. Mal sabem elas os efeitos que têm nas nossas vidas. O que me resta é aproveitar o tempo que eu tenho com todas elas”

Narrado em primeira pessoa, é muito fácil tomarmos partido da protagonista, o que traz ainda mais surpresa para o desfecho dessa história. 

“Eu não gostava de silêncio. Era sufocante lidar com os próprios pensamentos”

Pam Gonçalves também é autora de diversas outras obras e você pode acompanhar o trabalho da autora através de suas redes sociais (Instagram | Youtube | Newsletter).

Citações #96 — Um milhão de finais felizes

Demorei tempo demais para finalmente conhecer a escrita do Vitor Martins, mas já dizia o ditado “antes tarde do que nunca” (até porque seria triste demais passar por essa vida sem nunca ler nada do autor).

Um milhão de finais felizes foi publicado em 2018 e, de maneira leve — mas ainda tão necessária hoje — consegue abordar temas de extrema importância, falando, por exemplo, sobre ansiedade

“Será que algum dia no futuro meus problemas de hoje também parecerão pequenos?”

“Percebo que esse é meu ideal de felicidade. Estar junto sem medo de que alguma coisa ruim vá acontecer a qualquer momento”

Também retrata as dificuldades da vida, os sentimentos e a força que cada um pode ter dentro de si.

“— Eu sei que eu ainda estou meio quebrado por dentro, mas eu não sou frágil”

Outra temática que permeia toda a obra (e não apenas essa, mas tantas outras do autor) é o da homofobia

“Saber que meu pai prefere um filho drogado do que um filho gay me causa uma dor diferente de todas as dores que eu já senti”

Se você quer saber mais sobre esta história, clique abaixo para ler a resenha completa

Neros — Mila Maia

Título: Neros 
Autora: Mila Maia
Editora: Publicação independente
Páginas: 24
Ano: 2017

Sinopse

Éramos os únicos.

O destino do nosso planeta dependia de nós.

Se estivéssemos juntos seria mais fácil, porém fomos separados logo que chegamos aqui, e agora tentávamos nos adaptar nesse planeta estranho.

A Terra.

Graças à minha habilidade conseguia lembrar de tudo, mas duvidava que ele se lembrasse de qualquer coisa.

Precisava encontrá-lo e arrumar um jeito de voltarmos para Neros, era a única maneira de continuarmos vivos.

Só tínhamos três dias para deter Hunter antes que ele acabasse com tudo.

Resenha

Não é só pelo fato de se tratar de um conto que a leitura de Neros é rápida, mas também porque a história em si — ainda que breve — nos prende e instiga.

“John e eu éramos os últimos sobreviventes do nosso planeta, e tentávamos agora nos adaptar nesse planeta estranho”

A Terra não é mais o que conhecemos e é nesse planeta estranho que os protagonistas desta história aterrisam.

“Era notável a falta de afeto que as pessoas desse mundo tinham um com o outro, eles não se tocavam ou falavam, se ignoravam constantemente”

Em Neros, as pessoas têm poderes especiais. Ao menos, a maioria. E não ter poderes – ou dependendo do poder que se tem — é possível que aconteça aquilo que, infelizmente, acontece muito por aqui também: o preconceito

“Quando Norah havia sentido Hunter se aproximando, ela teve uma visão onde nós dois salvaríamos toda a Neros da destruição. Ao revelar isso para os meus pais, eles se mostraram surpresos, afinal, meu poder não era extraordinário, era até comum, porém ele salvaria nosso planeta”

Mas está história é também sobre isso: sobre como cada pessoa, com seu jeito único, pode ser essencial

“Graças a minha super inteligência e telecinese, conseguia descobrir tudo sobre qualquer coisa ou pessoa, e também movimentá-las, sem qualquer interação física. Essa era a minha habilidade, todos em meu planeta tinham habilidades especiais”

Além disso, nas poucas páginas desta história, mergulhamos em uma narrativa de autoconhecimento e com pitadas de romance.

“Quando estávamos um com o outro nos sentíamos normais, não tínhamos defeitos e o mais importante, não julgávamos um ao outro”

Uma ótima leitura para realizar rapidamente e, ao mesmo tempo, deixar a cabeça fervilhando de ideias.

“Hunter destruiria tudo o que ainda restava de Neros se eu não estivesse lá para impedir, precisava manter nosso planeta vivo, mas só tinha setenta e duas horas, esse era o tempo que levaria para ele devorar todo o planeta”

Infelizmente, a obra não está mais disponível, mas siga a autora em suas redes sociais para conhecer outros livros dela.

Citações #95 — Novelion: a ascensão de uma estrela

Novelion, do Lucas Luyu, foi uma inesperada e grata leitura realizada no último ano.

“— Se são más línguas, por que escuta?

— Por que ainda são línguas?”

O livro, publicado em 2019, foi capaz de me envolver e me deixar com vontade de seguir adiante na série.

“A fagulha foi solta. O caos está presente; só não vê quem não quer”

A premissa é bem interessante: mergulhamos em uma sociedade dividida em signos e na qual é preciso conquistar o direito de viver. Para isso, portanto, os jovens precisam passar pela Seleção

“Eu sempre acreditei estar preparado para a seleção, mas agora que ela está tão próxima não sei dizer ao certo se algum dia estive”

“Novelion é o motivo da nossa existência. Eles mandam em tudo”

“Na cabeça dele, devo ter sido esfaqueado umas trinta vezes. Na minha, ele é quem está sendo esfaqueado. Isso é a Seleção Ultra-humana”

“Incrível como eles gostam de tornar nossas vidas um reality show amaldiçoado”

“No fundo, a seleção tem a ver com isso. Ou você manipula e se torna um dominante, ou é manipulado e vira o dominado”

“Parece que a garota mascarada estava certa; a Seleção Ultra-humana não é um conto de fadas. É um conto de horror”

Uma história bem ao estilo Jogos Vorazes, mas que acrescenta algumas camadas interessantes, como usar as características dos signos do zodíaco para construir os personagens

“Ele sabe que eu estou viajando além da mesa e resolve não me incomodar. Um pisciano entende um pisciano. E como entende”

“O maior inimigo de um pisciano é a própria mente dele”

“— Para onde é que os piscianos vão quando ficam olhando para o nada?”

“Eu sinto um pressentimento ruim. E quando nós, piscianos sentimos isso, significa que algo vai dar ruim. Bem ruim”

“É claro que não refletimos inteiramente as qualidades e defeitos do nosso signo de origem, entretanto, vê-lo da forma como é, me faz repensar na organização da sociedade”

“Escavei um poço gigantesco e enterrei meu lado sensível há quase dez anos. Em uma única noite, a mascarada conseguiu desenterrá-lo. Eu odeio tanto o fato de amar ser pisciano”

Neste tipo de narrativa, não poderia faltar, também, o conflito político.

“Parece que estou envolvido no meio de um jogo político pelo controle de Novelion. Um jogo, cuja principal arma é o assassinato”

“Tentar entender Novelion é o mesmo que entrar num labirinto”

“Por quê? Por que ela está fazendo isso? Será que a Cúpula a mandou propositalmente pra me matar?”

Algumas doses de ironia tornam a leitura ainda melhor.

“Eu não fazia ideia que cobras sorriam, até vê-lo”

“O negócio é que os humanos sempre acharam que exploravam o espaço quando, na verdade, nunca haviam ido mais longe que a lua”

Há, ainda, espaço para introspecção.

“É da dificuldade que nasce a necessidade”

“Que tipo de pessoa eu seria se acabasse com o sorriso dela?”

“Eu preciso meditar. Eu preciso me deitar. Eu preciso de um tempo sozinho. Eu preciso voltar para a minha bolha”

“Eu estou vivo e ao mesmo tempo morto. Não tenho ânimo. Quero chorar por um motivo desconhecido. Quero ser fraco e não forte. Quero desistir e dizer que não devia estar aqui. Mas tem algo dentro de mim, logo atrás da camada de dor que envelopa meu coração e diz que estou onde deveria estar”

E, claro, para a dor.

“É doloroso demais pensar em algo que você não sabe se existe”

“— A dor é passageira, não se preocupe. Tudo na vida é passageiro, mas aquela dor perdura por um longo tempo”

“Viver é doloroso”

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