Contos — Ana Farias Ferrari

Ana Farias Ferrari é uma autora nacional que consegue escrever narrativas que nos prendem, aquecem nosso coração e trazem altas doses de identificação.

“Eu me permiti me apaixonar tantas vezes, só para no fim ter meu coração partido”

(Conto: Sol sustenido)

Recentemente, “maratonei” cinco contos dela publicados na Amazon e hoje venho comentá-los.

Como de costume, fui pegando as histórias sem olhar muito para a sinopse, escolhendo minha ordem de leitura bem ao acaso. Por coincidência, contudo, comecei a leitura com um conto que se passava no Halloween (eu li em outubro) e terminei com um de natal.

Comentarei minhas leituras, portanto, na ordem que as realizei. Se você se interessar por alguma (ou por todas!), basta clicar no título para saber mais sobre ela.

Sol sustenido

Claro que escolhi começar minhas leituras pelo conto que carrega algo do universo musical no título. O que eu não imaginava era que a história se passava no Halloween, data que estava chegando quando li o conto.

Felipe trabalha em um bar a noite toda e, em suas horas livres, alterna entre descansar um pouco da loucura e compor músicas.

Um belo dia, quando está tocando na praça, quebrando a cabeça para terminar uma composição, um gato aparece. 

Há, contudo, algo de diferente no gato. E Felipe só vai descobrir isso depois: o gato é, na verdade, Lucas, um humano que sofreu uma maldição.

“— Eu sei, é um clichê, estou preso em um maldito clichê de contos de fadas”

(Conto: Sol sustenido)

O desenrolar do encontro desses dois nos faz enxergar que uma noite de halloween pode mudar muita coisa em nossas vidas e que, sim, o amor pode estar nos lugares mais improváveis.

“Eu só não sei se realmente quero encontrar alguém de novo, talvez meu destino seja ficar sozinho, só eu e minha música”

(Conto: Sol sustenido)

Por toda a eternidade

É provável que, em algum momento da sua vida, você já tenha pensado como seria se pudesse viver para sempre, não?

Bom, Felipe vive uma realidade na qual algumas pessoas são imortais. E ele, claro, é uma dessas pessoas.

Dentre os tantos problemas que isso traz, existe a dificuldade em encontrar um emprego, principalmente para aqueles que não têm habilidades especiais. E, para piorar, Felipe consegue sempre estragar tudo.

Sua derradeira chance é conseguir se dar bem no último lugar que Felipe se imaginaria: o setor do amor eterno.

“Corações partidos são como livros que não tem final”

(Conto: Por toda a eternidade)

Entre as enrascadas na qual Felipe se mete, essa história nos arranca risadas e suspiros na mesma medida.

Quando a chuva passar

Você já teve a sensação de que há uma nuvem pairando sobre sua cabeça?

Bom, no caso de Hélio essa nuvem é literal. Sim, ele tem uma nuvem só para ele, sempre chovendo sobre si.

“Veja bem, quando se passa a vida inteira com uma tempestade sobre sua cabeça, são só os dias de completo caos que fazem com que você não se sinta tão sozinho no mundo”

(Conto: Quando a chuva passar)

Irônico o cara que tem uma tempestade particular chamar-se Hélio? Provavelmente. Mas nada na vida é definitivo e o amor sempre pode nos transformar, como Ana Ferrari sempre faz questão de nos lembrar por meio de suas histórias. 

“Era uma sensação nova, querer a companhia de alguém, algo que por muito tempo eu quis acreditar que não precisava”

(Conto: Quando a chuva passar)

No momento em que tudo aconteceu

Henrique tem um passado que a cada palavra dessa narrativa queremos compreender, mas que vai sendo revelado aos poucos, na medida certa.

Para isso, também temos de acompanhar os encontros dele com uma aparição no restaurante em que trabalha. E essa aparição também tem lá o seu passado, o que só aumenta nossa curiosidade.

“O quanto é ridículo? Ficar presa a um término?”

(Conto: No momento em que tudo aconteceu)

Entre passado e presente, essa história nos traz dois corações partidos que, juntos, podem se curar.

“A voz fraca e baixa doeu em seu coração, porque o desespero de um amor interrompido é uma das dores mais sinceras que existem, e Henrique a conhecia bem demais”

(Conto: No momento em que tudo aconteceu)

Sob um arco-íris de Natal

Para concluir minha maratona de leitura, cheguei a um conto de natal que se passa em tempos pandêmicos, mas que, claro, não deixa de ser recheado de amor.

Juliano e Danilo são vizinhos, mas o que realmente os aproxima é a pandemia. Até porque Juliano era daqueles que nunca paravam em casa, ao contrário de Danilo.

A aproximação, contudo, desperta muitos sentimentos em ambos e é bem gostoso acompanhar o desenvolvimento calmo da relação deles.

“Eu nunca tinha me visto daquela forma, e queria poder guardar o momento para sempre” (Conto: Sob um arco-íris de Natal)

E aí, qual desses contos você leria (primeiro)?

Se quiser conhecer outras obras da autora, aqui no Blog você encontra resenha de:

E não deixe de acompanhar o trabalho da Ana nas redes sociais (Instagram | Twitter), para não perder nenhuma novidade!

A princesa sem reino — Tayana Alvez

Título: A princesa sem reino 
Autora: Tayana Alvez 
Editora: Publicação independente 
Páginas: 120 
Ano: 2022

Releituras dos famosos contos de fadas existem aos montes por aí, porém, uma vez mais, Tayana Alvez nos surpreende com sua criatividade e capacidade de trazer uma história tocante e reflexiva na medida certa.

Tudo começa com Maeve se preparando para o 22° baile de aniversário do príncipe Séan, e desde o início é clara a inspiração desta obra: Cinderela.

Primeiro porque Maeve é — ao menos como nos faz acreditar o início da história — a pobre garota que não quer ficar de fora do baile real e que conta com a ajuda de sua fada madrinha para isso. Mas também porque ela mesma, em seu disfarce, adota o nome da famosa (para nós) princesa para se apresentar.

“A magia é trabalhosa e sempre tem um preço”

Há, contudo, muitas diferenças

Logo vamos descobrindo que, até certo ponto de suas vidas, Maeve e Séan cresceram juntos. O reino de Saoirse, onde vivem, era governado por dois reis: o rei do sul, pai de Maeve, e o rei do norte, pai de Séan.

“Essas lembranças em meio ao castelo no qual vivi os melhores anos da minha vida, fazem meu coração diminuir e meu peito apertar”

Tudo mudou, contudo, quando o rei Rex (o rei do norte) assassinou o pai de Maeve e ela teve de fugir com o que restou de sua família.

“Sou absurdamente grata aos dois, mas a imagem de meu pai morrendo nos meus braços quando eu tinha treze anos e deixando esse mundo sem honra, por causa da ganância de um homem que se dizia seu amigo, não é algo que se possa esquecer”

Esse acontecimento traumático gera um desejo de vingança em Maeve e é interessante perceber que, mesmo sabendo que vingança por vingança é algo ruim, a motivação de Maeve é extremamente compreensível e dificilmente não torcemos por ela.

“Mas, no fundo, a voz que eu quero calar, grita a verdade”

A ida de Maeve ao baile, portanto, tem um único objetivo: mapear as fraquezas do castelo para que ela possa assassinar Rex e retomar o seu trono.

“Tudo é meu e, ao mesmo tempo, nada é”

Desde a morte de seu pai e a consequente fuga, Maeve nunca esteve totalmente sozinha. Ela cresceu e se fortaleceu com a ajuda de sua madrasta, Niamh, e de seu guarda, Cillian.

“Ter as pessoas que eu amo ao meu lado foi o que me ajudou a suportar. Seja lá o que isso signifique”

É com a ajuda deles que Maeve traça seus planos e mantém a cabeça no lugar mesmo quando reencontra Séan e percebe que ele é bem diferente de Rex.

“No entanto, quando precisei de Séan, ele não estava lá”

A princesa sem reino é uma leitura que nos prende porque queremos saber se Maeve terá sucesso em seus planos e também porque queremos descobrir como o coração dela fará suas escolhas, que não sou poucas e nem simples.

“É o quanto esse amor se manteve vivo e resistindo, mesmo no silêncio, que me traz a certeza dessa felicidade”

Você pode ler essa história (e tantas outras) na antologia Se todas as rainhas estivessem eu seus tronos e conhecer mais do trabalho da autora através de suas redes sociais (Site | Instagram)

Você também pode se interessar por outras obras da mesma autora que já resenhei por aqui:

Clichês em rosa, roxo e azul — Maria Freitas

Título: Clichês em Rosa, Roxo e Azul: coleção de contos com protagonismo bissexual 
Autora: Maria Freitas 
Editora: Publicação independente 
Páginas: 685 
Ano: 2021

Introdução

Durante a pandemia que se iniciou em 2020 e, aqui no Brasil, se prolongou com um cenário tão terrível quanto em 2021, inúmeros autores e editoras deixaram, em algum momento, suas obras liberadas para download gratuito

“Acho que o mundo não vai acabar. Ele só vai ser diferente daqui em diante”

(Conto: Amor de janela)

Muitos artistas — ao menos aqueles que conseguiram manter um pouco de sanidade em meio ao caos — também aproveitaram esse período para produzir e publicar. 

“Via na expressão artística a chance de escapar um pouquinho, de atingir o outro, de mudar o mundo”

(Conto: As razões de Henrique)

Foi justamente nessa época que surgiram os contos da Maria Freitas, reunidos, posteriormente no livro Clichês em rosa, roxo e azul: coleção de contos com protagonismo bissexual

“Estou muito longe de ser aquilo que esperam que eu seja e de amar o tipo de pessoa que eles esperam que eu ame”

(Conto: Mas… e se?)

Foram inúmeras as vezes que essas histórias apareceram para mim, mas foi somente agora que realmente parei para entrar em contato com elas. E, como sempre, acredito que foi no momento certo.

“É difícil não se sentir um incômodo quando você passou a vida inteira se sentindo exatamente desse jeito”

(Conto: um corpo de verão)

O livro me tocou bastante e os contos, cada um à sua maneira, ao seu estilo, me fizeram refletir sobre inúmeros assuntos (para além, claro, do protagonismo bissexual). Assim sendo, achei que seria justo comentar um a um, então esse post talvez fique um pouco longo, mas é por uma ótima causa.

“Eu entendo, Cecília. Mas é preciso estar vivo pra militar”

(Conto: Azeitonas)

Sobre o livro

Antes, porém, alguns apontamentos sobre a obra como um todo: apesar da grande quantidade de páginas (são mais de 600), a leitura flui muito rapidamente, afinal são diversos contos reunidos e todos eles conseguem nos fazer mergulhar na história.

“Não preciso nem abrir os olhos para saber que estou no lugar certo”

(Conto: Emma, Cobra e a criatura na parede)

Além disso, é muito interessante ver que diversas narrativas, de alguma forma, se conectam, assim como há elementos que se repetem, como, por exemplo, a presença de pesadelos. Também dei altas risadas a cada título ou nome de autor real que vi levemente modificado ao longo dessas páginas. Sem contar o quentinho no coração de ver a literatura nacional sendo valorizada dentro da literatura nacional. 

“Se ela gosta dos livros do Mariano, é porque tem bom caráter, não é?”

(Conto: Bregafunk do amor)

Gostei muito das descrições dos personagens, sempre inseridas de maneira natural e nos possibilitando uma visualização melhor deles. Outro ponto positivo é que a maioria dos personagens é “fora do padrão“, trazendo uma diversidade muito maior e natural à obra.

“Quando eu era criança, confiava demais em todo mundo. Mas aí me tornei um adolescente solitário, com tantas questões internas, tantas coisas guardadas dentro de mim, flutuando entre mil “eus”, que me fechei”

(Conto: Um papai Noel de outro planeta)

Sem mais delongas, vamos a cada uma das histórias, na ordem em que aparecem no livro que as reúne. Ao clicar sobre o título, você irá acessar a página da Amazon do conto em si. Ao final do post, deixarei o link para a obra completa, caso você, assim como eu, não queira perder nenhuma dessas maravilhosas histórias.

Mas… e se?

Depois de uma (longa) temporada de shows, o cantor sertanejo Henrique finalmente volta para casa. 

“Cansei de dormir no banco de passageiro, cansei de chorar de saudade com a cabeça encostada no vidro frio da janela”

(Conto: Mas… e se?)

Mas, além de ter que se readaptar à calmaria da vida numa cidade do interior de Minas, ele também tem de se acostumar com o novo (não tão novo assim) namorado de sua esposa

“Preciso beber algo quente, preciso da cafeína para me situar, para entender todas as mudanças que aconteceram na minha vida, quando eu não estava vivendo”

(Conto: Mas… e se?)

Confuso? Bem, esse conto já começa nos mostrando que o amor é algo realmente complexo e que, por vezes, há espaço para mais de um amor verdadeiro dentro de nossos corações.

“Quem nos bagunça são os outros”

(Conto: Mas… e se?)

E bota amor verdadeiro nisso, viu? Nem as traições do passado foram capazes de diminuí-lo (e claro que não darei mais detalhes, porque se eu estava muito curiosa para entender o passado desses personagens, também quero deixar a curiosidade te dominar).

“Porque o amor muda tudo”

(Conto: Mas… e se?)

Um corpo de verão

Acho que o título desse conto já deixa bem claro um dos pontos principais dessa narrativa: a insegurança que temos com relação aos nossos corpos, principalmente diante de tantas pressões estéticas impostas pela mídia e pela sociedade.

“As pessoas sempre vão encontrar algo para dizer. Sempre. Não importa o que você faça, elas sempre vão estar lá para te julgar”

(Conto: um corpo de verão)

Mas Vanessa também tem muitas outras coisas com as quais lidar, como as dificuldades pelas quais a mãe passou e tudo o que teve de abrir mão para que a protagonista tivesse uma vida razoável.

“Nunca achei justo o sacrifício que ela teve que fazer. Nunca achei justo não termos escolha”

(Conto: um corpo de verão)

Não bastasse isso, Vanessa ainda queria poder beijar a amiga de infância. Amiga da qual havia se afastado quando tudo ficou confuso dentro dela.

“Parecia que a gente tinha se perdido uma da outra, se desconhecido”

(Conto: um corpo de verão)

E nessa busca uma pela outra e por si mesmas, vamos enxergando o quanto Vanessa guarda dentro de si, e vamos aprendendo a amá-la como ela mesma, aos poucos, também vai aprendendo.

“Algo se revirou no meu estômago. Uma sensação ruim de quem está sentindo coisas demais, coisas que não sabe como decifrar”

(Conto: um corpo de verão)

Espero que não perca

Acho que esse é um dos contos mais diferentes deste livro, numa pegada mais romance de época. Sim, com protagonismo bi, por que não?

“Ninguém se importa com o que sentimos”

(Conto: Espero que não perca)

Mas essa não era a única dificuldade das protagonistas dessa história: Mercedes pertencia à burguesia, enquanto Alzira era uma mulher negra. Já imaginou o tamanho do problema para uma história que começa por volta dos anos 30?

A história das duas se cruza pela primeira vez no velório da avó de Mercedes, uma mulher que, segundo as descrições, parece ter sido incrível.

“Há uma linha tênue que separa a vida da morte. Um suspiro. Um último sorriso. Mas nem sempre a morte é o fim de uma história. Às vezes, ela é o começo”

(Conto: Espero que não perca)

Dali para frente elas têm de lidar com os sentimentos do coração e os preconceitos que a cercam, fazendo nascer uma história cujo final emociona até o mais duro dos corações.

“As partes quebradas dos dois se encaixavam”

(Conto: Espero que não perca)

Amor de janela

Amor de janela era um conto que eu tinha curiosidade em ler, porque o título já deixa bem explícito o período em que se passa a narrativa: a pandemia.

“— Ficar em casa é mais difícil pra algumas pessoas que pra outras, né?”

(Conto: Amor de janela)

Apesar de estar acostumada à paz do seu quarto, a pandemia também mexe muito com Camila, que tem de aprender (e tentar) a conviver com sua família.

“Já estava acostumada a ficar em casa o dia inteiro, mas a impossibilidade de sair deixa as coisas muito piores. É essa falta de escolha que me incomoda, não a limitação de opções de lazer”

(Conto: Amor de janela)

Um belo dia, porém, algo (alguém) quebra a monotonia dessa vida reclusa: Erick, o vizinho de Camila.

“Ando sentindo tão pouco, que sentir algo, mesmo que bobo, faz meu coração saltar”

(Conto: Amor de janela)

E enquanto os dois vão se conhecendo, nós vamos nos apaixonando por cada um e torcendo por aquele quentinho no coração necessário. 

“Para você que está em casa, sonhando com abraços e lidando com a solidão. Nós vamos vencer isso!”

(Conto: Amor de janela)

Outra dimensão para nós dois

Já imaginou se ver vivendo cenários futuros que dependem das escolhas que você faz hoje?

Pois é isso que encontramos em Outra dimensão para nós dois, história na qual conhecemos Maycon, apaixonado por Rafael, o melhor amigo com quem divide a casa.

“Em algum ponto desastroso do tempo ou das nossas escolhas”

(Conto: Outra dimensão para nós dois)

E claro que Rafael não facilita em nada a situação. Primeiro porque ele é daqueles que quer pegar todo mundo e não ficar com ninguém (bem diferente de Maycon). E segundo porque ele é muito tranquilo, acha que a vida não precisa ser levada tão a sério.

“A gente faz escolhas erradas todos os dias. Ainda estamos aqui, não estamos?”

(Conto: Outra dimensão para nós dois)

Este é um conto leve, apesar de trazer questões pesadas. Um conto que começa como uma nuvem cinza pairando, deságua e, enfim, faz o sol brilhar sobre nós.

Estrela e a Flor

Aqui temos um conto que está mais no gênero da fantasia, retratando uma região que era de terras pacíficas — Alveiros —, até que um brilho forte surge no céu e muda a história local. 

“As coisas não começam do meio, Estrela…”

(Conto: Estrela e a flor)

Na noite em que começa a história, tudo está ainda mais diferente: o pai de Estrela, única pessoa capaz de acender uma fogueira que resista ao frio da região, já não está mais vivo para desempenhar seu papel.

“Esta noite, em especial, tudo parece grande demais para suportar”

(Conto: Estrela e a flor)

Mas a festa é salva por uma figura que também desperta sentimentos e reflexões dentro de Estrela, que tem muito a aprender sobre sua própria história.

“Eu nem sabia que estava sentindo tantas coisas até todas elas transbordarem”

(Conto: Estrela e a flor)

Azeitonas

Óbvio que eu, que amo azeitonas, fiquei intrigada com o título desse conto. Só não imaginava que essa simples maravilha poderia ser tão significativa para a história de um relacionamento.

“Rótulos são políticos. Você deve usá-los para se reunir com pessoas iguais a você, para reivindicar direitos e debater sobre dores em comum. Não para se diminuir”

(Conto: Azeitonas)

Ao mesmo tempo, a história nada tem a ver com as azeitonas em si, indo muito além disso. Aliás, este é outro conto que retrata muito bem o período da pandemia.

“Passo o mais longe dele que consigo e vou (mais uma vez) tomar um banho. Já estou de saco cheio. Essa pandemia tem que acabar!”

(Conto: Azeitonas)

Cecília está vivendo esse período com o avô, e resolveu se voluntariar para fazer as compras para ele e para outros vizinhos idosos. 

Ela tem todo um esquema para organizar as compras, mas um dia, perdida em pensamentos, acaba misturando as coisas, dando início a uma troca de bilhetes entre seu avô e um dos vizinhos.

“Acho que preciso focar um pouco mais no mundo que está aqui à minha frente”

(Conto: Azeitonas)

A troca de bilhetes, os sentimentos de Cecília e as conversas que ela tem com seu avô fazem com que a jovem acabe entendendo um pouco melhor o término do seu relacionamento, além de compreender as novas relações em sua vida.

“Pra mim é isso o que mais importa, Cecília. Ter alguém que preencha, ao menos um pouquinho, o meu vazio”

(Conto: Azeitonas)

Nós também temos muito a aprender com essa história, que retrata o amor na sua forma mais pura, simples e verdadeira.

“Quero falar sobre sentir dor, sobre estar triste, sobre… amar as pessoas…”

(Conto: Azeitonas)

As razões de Henrique

Henrique mora no interior de Minas com sua mãe, Débora, e suas irmãs, Vanessa, Carol e Alessandra. O pai vive com outra família.

“A separação dos pais é um acontecimento traumático para a maioria das pessoas. Para Henrique não. Sentia-se aliviado” 

(Conto: As razões de Henrique)

O drama na vida de Henrique, porém, são as inúmeras vezes que teve de trocar de escola devido a problemas.

“Ele queria dizer a ela que nunca tinha feito aquilo. Queria dizer que, na verdade, estava fugindo das perseguições dos colegas das outras escolas onde havia estudado”

(Conto: As razões de Henrique)

O que ninguém sabe, porém, é que os “problemas” dele são o bullying sofrido por ser diferente de seus colegas.

“Henrique queria ser hétero, queria muito, mas não era”

(Conto: As razões de Henrique)

Em Santa Maria Madalena, contudo, as coisas parecem ser diferentes.

“Nunca havia sido acolhido em escola nenhuma antes, nem tinha passado por sua cabeça a possibilidade de que ali ele pudesse se sentir bem. Mas ele se sentiu, assim que Malu se sentou na cadeira do lado dele”

(Conto: As razões de Henrique)

E realmente são. É nessa cidade que Henrique passa a viver um amontoado de sentimentos, buscando entender o que se passa em seu coração.

“Em todos os seus quinze anos, Henrique nunca havia sentido o coração bater tão forte no peito”

(Conto: As razões de Henrique)

Mais do que falar sobre a descoberta da bissexualidade (em um lugar onde ainda há muito preconceito com o que “foge à norma”), esse conto também nos faz refletir sobre o tempo, sobre olhar com calma ao nosso redor.

“É que… às vezes, a gente está com tanta pressa, tão preso na nossa própria vida, que esquece de todas as vidas que nos cercam. Elas também são importantes, mas ninguém vê”

(As razões de Henrique)

Um conto que também faz com que nos apaixonemos pelos personagens.

“Pela primeira vez na vida, Henrique quis parar. E permanecer”

(As razões de Henrique)

Emma, Cobra e a criatura na parede

Devo confessar que o título deste conto não despertava muito da minha curiosidade, mas hoje eu leria até mesmo o livro que aprofunda essa história.

Emma e Cobra eram bons amigos. Até deixarem de se falar. E claro que o afastamento deles se deve a um mix de sentimentos que só a adolescência e essa fase de descobertas é capaz de despertar em nós.

Alguns acontecimentos estranhos, porém, juntam esses dois amigos novamente: Emma ouve vozes vindas da sua parede (e não são vizinhos, pois ela mora na última casa da cidade), enquanto Cobra é capaz de ler os pensamentos dos outros.

“E eu penso que está muito além da nossa compreensão entender como aquele meteoro nos transformou na nova geração dos X-Men, só que no interior de Minas Gerais”

(Conto: Emma, Cobra e a criatura na parede)

Enquanto tentam entender o que está acontecendo, Emma e Cobra se reaproximam, conhecem criaturas vindas de outra dimensão do tempo e espaço e têm a oportunidade de perdoar um ou outro.

“Ela respeitou meu pronome no íntimo de sua mente… E pensar nisso faz com que eu me sinta culpado”

(Conto: Emma, Cobra e a criatura na parede)

Acho que eu fiz uma música

Ao contrário do último conto, este aqui obviamente já ganhou meu coração só pelo nome, apesar do começo ter sido um pouco mais arrastado do que eu esperava.

Tudo começa com Juan indo assistir a uma apresentação de Lili simplesmente porque ela um dia fora parceira musical de João Vinícius, por quem Juan é apaixonado desde a adolescência.

“Perdi mais uma vez para João Vinícius”

(Conto: Acho que fiz uma música)

Acontece que Juan não tem ideia do fim desastroso que a parceria e a amizade de Lili e João Vinícius tivera.

Ainda assim (e mesmo que muito a contragosto), Lili aceita a proposta de Juan: ela o ajuda a conhecer João Vinícius e ele a ajuda a melhorar seu marketing. 

“Parte de mim ainda acha que deveria lutar contra isso. Só que tenho lutas demais na vida, não preciso de mais uma”

(Conto: Acho que fiz uma música)

Juan só não contava em se apaixonar mais uma vez no meio desse caminho. E é difícil não torcer por esse amor.

“Eu não havia reparado tanto nela antes, mas Lili é muito bonita. Do tipo de beleza que parece um tapa na cara, você só percebe quando bate. E te tira do eixo”

(Conto: Acho que fiz uma música)

Bregafunk do amor

Preciso confessar que eu jamais imaginaria que um conto com esse título poderia falar, também, de uma paixão que me move: livros.

“Há um lugar, porém, onde sempre posso encontrar um refúgio, onde sei que irei me identificar com os personagens vivendo suas vidas de forma extremamente mágica… ou não. E esse lugar são os livros do Mariano Madeira”

(Conto: Bregafunk do amor)

E é justamente isso que une Ana Cecília, Felipe e Mirela, três jovens apaixonados pelos livros de Mariano Madeira

“Então vocês também gostam do Madeira? — Mirela pergunta baixinho. Parece até que estamos planejando derrubar o presidente. O que não seria uma má ideia”

(Conto: Bregafunk do amor)

Felipe e Mirela já se conhecem de longa data e têm um passado que fica pairando no ar a todo momento.

“E meu coração acelerou por Felipe por muito, muito tempo. Até o dia em que ele o feriu”

(Conto: Bregafunk do amor)

Ana, por sua vez, também parece ter um passado e tanto, mas é nova na cidade e está tentando recomeçar e se reencontrar ali.

“O olhar de Ana é puro terror. Parece que já viu mais coisas do que deveria ser aceito uma adolescente ver”

(Conto: Bregafunk do amor)

Ao descobrir a paixão em comum, porém, os três jovens se unem em um plano infalível (só que não) para ir à sessão de autógrafos do autor na cidade vizinha.

“Nossa sintonia é tão palpável que eu poderia morar nesse espaço que estamos construindo”

(Conto: Bregafunk do amor)

Narrado em primeira pessoa, cada vez por um desses personagens, este conto nos entrega muitas reflexões e muita profundidade, disfarçadas de uma história totalmente leve e até engraçada.

“Só posso me responsabilizar por aquilo que eu faço. As atitudes, mentiras e silêncios deles, são responsabilidades deles”

(Conto: Bregafunk do amor)

Um papai Noel de outro planeta

É natal, mas a data não está nada celebrativa para Gal, pois sua namorada está desaparecida.

“O vazio que eu sinto ao perceber que minha mãe não me conhece mais — que ela nunca me conheceu — foi até suportável em outros natais, mas não neste”

(Conto: Um papai Noel de outro planeta)

O que Gal não imagina é que é justamente um Papai Noel (um pouco diferente talvez) a pessoa que irá ajudar nessa busca.

“É engraçado como naturalizamos o que não deveria ser naturalizado”

(Conto: Um papai Noel de outro planeta)

Este é o último conto do livro e ele consegue reunir muitas das outras histórias lidas. É muito gostoso passar pelas aventuras de Gal, que por si só já dão muito pano para manga, e, ao mesmo tempo, relembrar um pouco do que foi lido ao longo do livro.

Aqui, novamente, temos viagem pelo tempo e espaço, mistérios a serem resolvidos e muitos sentimentos envolvidos.

“Viajar no tempo é conviver com sua própria inexistência”

(Conto: Um papai Noel de outro planeta)

E também temos muita reflexão disfarçada em meio a algo que pode parecer leve.

“Eu me deixei de lado, por muito tempo, tentando ser aquilo que esperavam de mim”

(Conto: Um papai Noel de outro planeta)

Conclusão

Como eu disse lá no começo dessa resenha, Clichês em rosa, roxo e azul foi uma obra que me tocou bastante. Com ela, pude ter ótimos momentos de lazer, mas também aprendi muito.

“Não é a quantidade nem a frequência das mensagens, é a conversa em si e a atenção que você dá a ela”

(Conto: Azeitonas)

Através dos personagens, passei a enxergar a diversidade com olhos ainda mais amplos, compreendendo, também, que são inúmeras e variadas as formas de amar verdadeiramente. Além de enxergar com mais clareza uma parte de mim também.

“É muito fácil me acostumar com ele aqui, como se sua presença fosse natural”

(Conto: Mas… e se?)

E para quem, assim como eu, não saberia escolher apenas um conto para ler, deixo aqui o link para a obra completa. Aproveite para também conhecer as redes sociais da autora (Site | Instagram | Twitter) e ficar por dentro dos lançamentos dela.

A redoma de vidro — Sylvia Plath

Título: A redoma de vidro 
Original: The bell jar 
Autora: Sylvia Plath 
Editora: Biblioteca Azul 
Páginas: 280 
Ano: 2019 
Tradutor: Chico Mattoso

Finalmente pude ler A redoma de vidro. E essa comemoração tem uma explicação, para além do fato de eu sempre querer ler tudo para ontem: em 2019 dei início à leitura desta obra, porém em uma edição que veio com problema, como contei neste post.  

A demora para retomar a leitura, claro, é total culpa minha, mas eu lembro que não tinha sido muito fisgada da primeira vez e acabei adiando pegar o meu exemplar novinho e inteiro. Porém, como eu sempre digo, os livros me chamam no momento certo de serem lidos. E, com certeza, aproveitei bem mais a leitura agora.

“Você nunca se decepciona quando não espera nada de alguém”

O que eu me lembro é que, lá em 2019, estava achando a leitura um pouco arrastada e também estava perdida, achando que a história não ia para lugar algum, mesmo sabendo que, em algum momento, o choque viria. E ele realmente vem, sem que você perceba, porque está tão mergulhada na leitura que não se dá conta da força do baque, coisa que, aliás, me conquistou bastante neste livro.

“Para a pessoa dentro da redoma de vidro, vazia e imóvel como um bebê morto, o mundo inteiro é um sonho ruim”

Costumo entrar em minhas leituras sem saber muito sobre o livro em questão: uma passada de olho na sinopse, algumas vezes; um comentário pescado aqui ou ali. E só. Quando digo que deixo os livros me chamarem, estou falando sério.

Ainda assim, eu sabia que a leitura de A redoma de vidro seria… Densa. Acho que não há palavra melhor para descrever esta obra. E, ainda assim, ela flui, seja pela sua verdade, seja pelo seu humor ácido e inteligente.

Esta é uma narrativa que a gente percebe como, infelizmente, foi escrita com propriedade e com naturalidade. Em Esther Greenwood, Sylvia Plath tem a oportunidade de se retratar e, talvez, compreender algumas das suas próprias dores.

“Na verdade o problema é que eu sempre fora inadequada, só não tinha pensado nisso ainda”

Uma obra que já em 1963, quando foi originalmente publicada, conseguiu retratar muito bem os estigmas sob os quais questões de saúde mental são colocados em nossa sociedade.

“Claro que eu não sabia quem iria querer se casar comigo depois de eu ter passado por onde passei”

A incompreensão e a solidão se fazem quase tão presentes nesta narrativa quanto a própria protagonista, uma jovem que sai do subúrbio de Boston para trabalhar em uma revista de moda em Nova Iorque, vivendo, contudo, com certa indiferença aquele que deveria ser O período da sua vida.

“Quase todo mundo que eu conheci em Nova York estava tentando emagrecer”

O livro, porém, não fala apenas sobre depressão, ainda que este seja o tema que mais salte aos olhos. É preciso ler as entrelinhas para ir além e mergulhar na vida de uma mulher solteira e sozinha, que tem muito a enfrentar em questões de relacionamentos, estudos e amadurecimento. Uma mulher que se olha no espelho e sequer se reconhece.

“Me sentia feito um buraco no chão”

Se ansiedade, depressão e ideação suicida não são gatilhos para você e esta obra te interessou, já clica aí embaixo para garantir o seu exemplar. Eu li a edição da Biblioteca Azul e, para além dessa capa delicada e com um desenho feito pela própria autora, preciso dizer que a diagramação é confortável e o papel de boa qualidade, tornando a leitura ainda mais agradável.

 

Profissão Fangirl — Ana Farias Ferrari

Título: Profissão fangirl 
Autora: Ana Farias Ferrari 
Editora: Publicação independente 
Páginas: 258 
Ano: 2022

Você já teve a sensação de que um livro foi escrito para você ou sobre você?

Pois ao iniciar a leitura de Profissão fangirl eu tive essas duas sensações juntas. 

Logo de cara, um livro que — infelizmente — tocou diretamente no meu coração.

“Amiga, desculpa, mas que idiota! Quem termina por mensagem?”

A sensação de tamanha identificação foi estranha, porque ao pegar Profissão fangirl para ler, eu imaginava uma protagonista muito distante de mim, uma vez que nunca fui uma pessoa com ídolos que admire tanto a ponto de me considerar uma fangirl.

Seguindo a leitura, porém, a impressão de que o livro era sobre mim foi logo substituída pela sensação de um livro escrito para mim. E para tantas pessoas que certamente precisam desta leitura.

“A gente sempre acha que a melhor época da nossa vida ou já passou, ou vai chegar, em vez de tentar aproveitar a época em que estamos vivendo”

Como dito ali no início, essa história começa com o término de um relacionamento de cinco anos entre Alice e Diego, deixando a protagonista completamente sem rumo.

“Durante todo o resto da manhã fui fazendo as tarefas automaticamente enquanto deixava minha mente vagar pelos últimos cinco anos da minha vida, todos aqueles em que o Diego esteve presente”

Conversando sobre o acontecimento com suas inseparáveis amigas, porém, Alice percebe que tem muito mais coisa fora do lugar em sua vida.

“Por quase dois anos eu estava acomodada a um emprego que não era nada daquilo que eu queria, e se eu tinha aprendido alguma coisa com o meu relacionamento é que não dá para continuar em um lugar só porque é confortável, eventualmente você vai receber uma mensagem te dizendo que tudo acabou e o que vai restar é o vazio de saber que você só estava ali por medo de mudar”

Decidida a recomeçar — e talvez um pouco alcoolizada também — Alice resolve acompanhar a turnê dos The Rabbits, sua amada banda que, de repente, ela descobre que estará no Brasil em breve. E claro que, para esse momento, ela também decide reativar o blog que criara, anos antes, com as amigas.

“Eu precisava descobrir de novo o que era ser feliz, e não era me adequando aos padrões dos outros que eu conseguiria isso”

Após pedir demissão do emprego que não a fazia feliz, Alice embarca para Belo Horizonte, onde acompanhará sozinha o primeiro show, e depois para o Rio de Janeiro, onde ficará alguns dias na casa de seu amigo Fred e cidade na qual acompanhará o segundo show da banda.

“A felicidade é feita de momentos, e o responsável por fazer esses momentos existirem somos nós!”

Mas é claro que essas viagens não seriam transformadoras por si só. O que mais mexe com Alice, para além das tantas mudanças com as quais ela tem de lidar ao mesmo tempo, é o fato dela ter conhecido Theo, uma figura misteriosa, distante, mas que tem seus motivos e suas vivências para ser assim.

“— Eu sei o que é estar em um relacionamento ruim e em um emprego que você odeia — ele disse, e agora seu sorriso parecia triste. — Nem todo mundo tem coragem de admitir isso e fazer algo para mudar”

É difícil essa história não mexer em algum nível com você. E eu preciso deixar bem claro aqui que mesmo que você ache que shows e a vida de uma fangirl não têm nada a ver contigo, a narrativa desta obra vai muito além disso: ela fala sobre sentimentos, perdas, inseguranças, felicidade. Fala sobre relacionamentos e amizades e aborda cada tema de maneira leve e madura, nos arrancando suspiros, risadas, lágrimas e muita vontade de viver um final feliz.

“Eu só quero descobrir o que é ser feliz de novo, sabe? Aos quinze anos eu sabia de alguma coisa que hoje eu já não consigo mais lembrar”

A narrativa em primeira pessoa nos permite um mergulho no universo da protagonista, tornando a leitura ainda mais intensa. A construção da narrativa também ajuda a tornar os acontecimentos factíveis, nos aproximando ainda mais de cada linha desta história.

“Droga, como alguém podia ser tão ignorante dos próprios sentimentos?”

Se você acha que essa história é para você, já clica ali embaixo para saber mais. E não deixe de seguir a autora em suas redes sociais (Instagram | Twitter).

Ah, e se por acaso você prefere ler fantasias, Ana Farias Ferrari também é autora de Os guardiões dos livros. Não deixe de conferir a resenha! 

Antes eu do que nós — Grazi Ruzzante

Título: Antes eu do que nós 
Autora: Grazi Ruzzante 
Editora: Rocket Editorial 
Páginas: 328 
Ano: 2022

Acho que a resenha desse livro que mexeu tanto comigo tem de ser lida ao som da música que tanto mexe comigo. Então aperta o play aqui e vem descobrir mais sobre Antes eu do que nós.

“— Amiga… — Ela respira fundo antes de continuar. — A vida não é uma comédia romântica. Vai doer e não vai fazer sentido de vez em quando”

É engraçado como a (Be)Tina, protagonista desta história, poderia ser (e talvez seja) qualquer uma de nós: uma mulher incrível que não consegue enxergar isso, principalmente depois de tantas desilusões (amorosas, mas não só). 

E o melhor: ela é professora (de artes). Muito gente como a gente (ou ao menos como eu). E claro que isso contribuiu para ainda mais identificações ao longo da leitura.

“Professor nem é gente, até porque fazer planejamento em pleno domingo tá mais próximo de bicho do que de ser humano”

Em mais uma fossa, porém, Tina topa sair com Beca, sua melhor amiga, para uma balada LGBTQIA+. E o que deveria ser só diversão, sem pretensão alguma, vira mais uma história para Tina.

“Eu voltaria os ponteiros de todos os relógios da cidade só para nos dar mais alguns minutos juntos”

Sim, porque é nessa balada que ela conhece Caio, que também é protagonista nesta obra. 

“Ele me faz querer derrubar todos os muros”

Ler a história desses dois, juntos ou separados, é como ver uma sessão de terapia se desenrolando diante dos nossos olhos, pois há muito amadurecimento e muitas lições.

“Todos deveriam saber que têm essa escolha. Todos deveriam ter a chance de escolher de novo”

Aliás, ao longo da narrativa, que é em primeira pessoa, há pequenas “notas” deixadas pelos personagens. E aquelas deixadas por Tina chama-se justamente lições

“Lição de Tina: cabe mais contradição no nosso coração do que a nossa mente entende”

As notas de Caio chamam-se nota mental e, ao final da obra, Beca e João — personagem que se torna muito amigo de Caio logo no início do livro — também ganham voz e suas notas chamam-se, respectivamente, veredito da Beca e babado do João. O mais interessante, como talvez já tenha dado para perceber, é como o nome dado a esse espaço diz tanto sobre a personalidade de cada um.

“Hoje eu entendo que somos feitos das nossas histórias”

A escrita da Grazi vicia e a leitura dessa obra é extremamente leve e rápida. Mas não se engane: há muita profundidade, muitos pontos que podem doer de alguma forma e, como eu já mencionei, muitas reflexões que podem surgir ao longo dessas páginas.

“Você nunca conhece direito quem uma pessoa é de verdade até descobrir que tipo de coisa ela chama de mi-mi-mi”

Além disso, não são apenas os protagonistas que são muito bem construídos aqui, mas os personagens secundários também. Ficamos querendo saber mais e mais sobre cada um e é evidente como nenhum ali é supérfluo. É por meio também da história deles que Grazi insere temas como aceitação, preconceito, abuso, abandono…

“Eu sou um livro fechado e criptografado, mas altamente previsível. O João é um livro aberto e explícito — às vezes muito mais do que eu gostaria —, mas com uma aventura diferente a cada capítulo”

E se você está lendo essa resenha e pensando que esse é só mais um daqueles romances água com açúcar que eu amo ler e resenhar por aqui, preciso te dizer uma coisa: não, não é nada disso.

“O meu mar e o rio dela se encontram. Água doce e salgada, misturando cores, gostos e dores num só oceano”

Tem romance sim. Inclusive eu me apaixonei pelo Caio no começo do livro, mas eu sabia que alguma bomba estava por vir, afinal, era apenas o início da história. Dito e feito: a bomba veio e eu mudei de opinião.

“Como tanta coisa cabe em duas pessoas? Como tantos momentos cabem em tão pouco tempo?”

Mas não é só por isso que essa história é diferente de tantas outras. Há um plot que torna o final realmente inesperado. Necessário (ainda que a gente não queira ele dessa forma), mas inesperado.

“Alguns segredos só clareavam de verdade na escuridão do quarto”

Antes eu do que nós me fez abrir um sorrisão, me deu um leve aperto no coração, me fez querer abraçar o mundo (e os personagens). Uma leitura que acho que todo mundo deveria fazer

E se você pretende ouvir o meu conselho, adquira seu exemplar diretamente com a Grazi, ou então através do site da Rocket Editorial. Infelizmente o livro não está disponível na Amazon.

Ah, aproveita e já segue a autora nas redes sociais (Instagram | Twitter) e vem conferir a resenha de Querida quarentena, obra em formato digital, disponibilizada gratuitamente pela Grazi.

Proibida de amar — Tayana Alvez

Título: Proibida de amar — a namorada de mentirinha do CEO 
Autora: Tayana Alvez 
Editora: Publicação independente 
Páginas: 351 
Ano: 2021

Tem coisa melhor que pegar um livro com altas expectativas, estar tranquila com isso por saber que não vai se decepcionar e definitivamente não se decepcionar?

“Tem coisas na vida pelas quais a gente espera o tempo necessário, não importa quão longo ele seja”

A escrita da Tayana Alvez nos envolve facilmente e eu sempre me surpreendo com a naturalidade que ela insere temas importantes e boas reflexões ao longo de uma história que encanta e desperta, no final das contas, muitos quentinhos no coração.

“Para alguém que passou a vida dando conta de tudo, descansar no amor de outra pessoa foi um desafio”

Em Proibida de amar conhecemos melhor a história da Duda (Eduarda), uma das melhores amigas de Lavínia, de Proibida pra mim.

“O quarteto já passou por muitas fases, boas e sombrias, grudadas e distantes, mas, nos últimos meses, ele me salvou mais vezes do que eu conseguiria contar”

Quem leu Proibida pra mim (leitura não obrigatória para ler esta obra) sabe que Duda é mãe (e que se tornou mãe muito cedo) e que a relação dela com o pai da criança não é nada fácil.

“A Duda já passou por tanta coisa que eu sinto, sinto que preciso estar lá por ela, sabe? Porque ninguém mais vai estar…”

Mas é só neste livro que entendemos o que acontece com ela: o relacionamento de Duda não era nada saudável e isso nos vai sendo revelado enquanto a própria personagem vai se dando conta do quanto isso a afeta, ainda mais quando o filho acaba sendo uma arma nas mãos do desequilibrado pai.

“A gente fica num relacionamento ruim por causa dos momentos bons, né”

A narrativa, em primeira pessoa, é alternada entre Duda e Oliver, um jovem CEO que ainda está lidando com as dores do fim de seu casamento, enquanto se adapta a uma nova cidade, na qual não conhece muitas pessoas.

“Desapaixonar não é uma coisa fácil, muito menos rápida”

Claro que o caminho dessas duas pessoas, quebradas ao seu modo, tinha de se cruzar. Primeiro em um Uber — dirigido pela própria Duda —; depois, graças à Lavínia e ao Daniel.

E é assim que Duda acaba indo à festa que Oliver deu em sua casa, para os funcionários da empresa. E ali surge, como forma de proteção, um namoro de mentirinha entre eles. E também uma amizade. Sentimentos misturados que vão se desenvolvendo de maneira viciante ao longo da narrativa.

“Mesmo que seja uma mentira, ainda é uma delícia”

Os dois protagonistas desta obra são encantadores. A Duda tem a sua força e a sua mania de achar que dá (e que tem de dar) conta de tudo e mais um pouco, enquanto o Oliver é doce, carinhoso e aquele ponto de paz que quem não gostaria de ter, não é mesmo? É, difícil não se apaixonar!

“Não posso prender um homem tão maravilhoso quanto ele numa zona como a minha vida”

Proibida de amar, portanto, consegue falar sobre abandono paternal, gravidez na adolescência, relacionamentos abusivos, sobrecarga feminina, manipulação, cuidado, amizade e tantas outras coisas que somente lendo para se absorver adequadamente. Ah, e tudo isso com um pouco de hot também.

“Estou dizendo adeus, mas não tenho coragem de pronunciar as palavras ainda”

Se é esse tipo de leitura que você está procurando (e, garanto, em algum momento será exatamente o livro que você precisará ler), já clica ali embaixo para garantir seu exemplar. E não deixe de acompanhar o maravilhoso trabalho da Tayana Alvez, seguindo a autora em suas redes sociais (Site | Instagram). 

Outras obras da autora que já resenhei por aqui:

Quando eu descobri o que era ser eu — Alanys Aleixo

Título: Quando eu descobri o que era ser eu 
Autora: Alanys Aleixo 
Editora: Publicação Independente 
Páginas: 27 
Ano: 2021

Existem histórias curtas que nos abraçam e nos fazem pensar, mesmo que em sua pequena finitude.

“A sensação de questionar a própria existência é de estar sempre abraçada com alguém que, ao mesmo tempo que te diz (de forma extremamente vaga e confusa) o que fazer, te direciona palavras de amor e ódio e te faz sentir medo”

Em Quando eu descobri o que era ser eu, somos apresentados a Agatha Magalhães, uma jovem que, apesar de ser super fã de romances, nunca se apaixonou de verdade por alguém.

“Agatha Magalhães sempre foi tão influenciável que deixaria que os outros decidissem seus sentimentos sobre o amor”

Para ela isso não era exatamente um problema, mas atire a primeira pedra quem nunca se sentiu pressionado por ainda não ter beijado ou por ainda não ter se apaixonado e sentido tudo o que as amigas descreviam sentir. 

“Eu só queria tanto gostar de alguém, como todo mundo fazia, que criava os sentimentos dentro de mim como criava nos personagens das minhas histórias”

Com a reclusão imposta pela pandemia, porém, Agatha começa a refletir ainda mais sobre todas essas questões, até que resolve pesquisar a fundo sobre seus sentimentos, para tentar se entender.

Esta é uma história que vai nos fazer pensar sobre todos os espectros e aspectos da sexualidade e daquilo que sentimos dentro de nós.

Por meio da narrativa construída por Alanys, podemos enxergar um pouquinho mais sobre arromanticidade e assexualidade que, mesmo com a quantidade sem fim de informações que temos hoje, ainda parecem ficar escondidos nas profundezas das discussões sobre o tema.

Mesmo que não traga muitas novidades sobre o tema para quem minimamente já pesquisou sobre ele, é sempre interessante acompanhar a trajetória de alguém que está se descobrindo e descobrindo como se relaciona com o mundo (e melhor ainda é perceber como essa relação é sempre única).

Se a história te interessou, clique abaixo para saber mais. E se quiser conhecer a autora e seus trabalhos, não deixe de segui-la em suas redes sociais (Site | Twitter). 

L’Amica Geniale — Elena Ferrante

Título: L’amica geniale - volume primo 
Autora: Elena Ferrante 
Editora: Edizioni E/O 
Páginas: 327 
Ano: 2011 
Título em português: A amiga genial

Finalmente chegou o meu momento de ler a aclamada autora italiana Elena Ferrante (que ninguém sabe exatamente quem é, mas que faz muito sucesso mesmo assim). E não posso deixar de agradecer à minha prima, que, mesmo sem saber, realizou o meu desejo de ler a obra no original.

Apesar de toda a expectativa (foram anos esperando por esse momento), comecei a leitura com dois pés atrás, porque justamente quando peguei o livro para ler, vi mais de uma pessoa relatando que não conseguiu seguir adiante na leitura.

“Experimentei uma sensação que, depois, na minha vida, repetiu-se muitas vezes: a alegria do novo”

Felizmente, fui até o final do primeiro volume desta tetralogia (série de quatro livros) e posso dizer que entendo quem achou o livro chato. Até certo ponto ele realmente é e já vou comentar sobre isso. Mas o livro também é ótimo, e espero conseguir deixar isso igualmente claro, mesmo sem saber muito bem por onde começar a falar tudo o que tenho para falar.

A amiga genial está dividido em duas partes (além do prólogo) e a primeira delas, a infância, é bem arrastada. Para se ter uma ideia, são quase 60 páginas relatando praticamente um único episódio, alternando com um ou outro evento que enriquece a descrição e o detalhamento deste primeiro.

Apesar da monotonia desta primeira parte do livro, ela é necessária para que possamos conhecer os personagens (e são muitos, viu! Tanto é que, no começo do livro, tem um índice dos personagens) e o cenário desta história: uma cidadezinha na periferia de Nápoles, que, por si só, também já é um espaço italiano um tanto quanto complicado, principalmente à época (anos 50).

“Vivíamos em um mundo no qual as crianças e os adultos se feriam com frequência, das feridas saía sangue, que supurava e, às vezes, elas morriam”

A obra é narrada por Elena Greco, mais conhecida por Lenù ou Lenuccia. Passada a parte da infância, é muito interessante acompanhar o seu crescimento e desenvolvimento, ao mesmo tempo que é bem doloroso.

“Talvez eu não seja assim tão feia, pensei, talvez eu só não saiba me enxergar”

Gostei bastante da forma como termina a parte da infância e como, na parte da adolescência, a narrativa foi ficando mais dinâmica e envolvente até que, quando me dei conta, eu só queria saber o que viria a seguir e acompanhar cada passo da Lenù (e, consequentemente, da Lila).

“Quando desapareceu, pareceu que havia sumido a única pessoa em toda a sala capaz de me arrancar dali”

Apesar de Lenù ser a narradora e de ser os seus caminhos que acompanhamos, há outra personagem que ganha destaque nessa história e que é quase tão ou mais protagonista que Lenù: Lila (ou Lina para todos os outros e Raffaella Cerullo como nome de batismo).

“Lila era demais para qualquer um”

A relação dessas duas é uma coisa de doido. Fiquei quase o livro inteiro gritando (na minha cabeça) que a Lila é extremamente tóxica para, no final das contas, até entender o que elas viviam.

“Decidi que eu deveria me inspirar naquela menina, jamais perdê-la de vista, mesmo que ela se irritasse e me expulsasse de perto”

Ler essa narrativa é mergulhar em um cenário italiano complexo: os diálogos são, em sua maioria, em dialeto, nos lembrando deste importante traço cultural. Além disso, ao longo da narrativa, somos apresentados à pobreza, a abusos, ao medo, à violência. Uma Itália muito diferente daquela romantizada em tantas outras histórias.

“Nápoles, de acordo com ele, sempre foi assim: se corta, se parte e depois se recompõe, e o dinheiro corre e cria dificuldades”.

Apesar desta ser uma história difícil, com passagens realmente dolorosas e sensíveis (sim, há gatilhos), ela não deixa de ser bonita, de carregar muitos sonhos, principalmente de uma mudança de vida. Aliás, esta é uma história que se passa em Nápoles, nos anos 50, mas que poderia muito bem se passar no Brasil, em pleno 2022.

“A riqueza, naquele último ano do ensino fundamental, se tornou uma ideia fixa para nós”.

Lenù e Lila são muito diferentes e, ao mesmo tempo, têm tanto em comum. Ao longo das páginas deste livro, vamos justamente unindo os retalhos da colcha que forma suas vidas, encontrando as mesmas cores em alguns pontos e cores opostas, mas complementares, em outros.

A narrativa é realmente tão boa que o livro virou série, em 2018, na HBO. Dizem que ela é bem fiel ao livro, então se você prefere produções audiovisuais, fica a dica para conhecer essa história.

Enquanto isso, eu, como leitora, fui de “socorro, que leitura arrastada”, no início, para “ok, preciso demais dos outros volumes desta tetralogia”. Agora entendo o sucesso desse livro e entro para o time dos que recomendam. Então, se tiver gostado, não deixe de clicar no livro ali embaixo para saber mais.

Como sempre faço quando leio livros em italiano, os trechos inseridos ao longo da resenha foram traduzidos por mim e agora trago os originais, na ordem em que apareceram aqui no post.

“Provai una sensazione che poi nella mia vita s’è ripetuta spesso: la gioia del nuovo”

“Vivevamo in un mondo in cui bambini e adulti si ferivano spesso, dalle ferite usciva il sangue, veniva la suppurazione e a volte morivano”

“Forse non sono così brutta, pensai, forse sono io che non so vedermi”

“Quando sparì mi sembrò che fosse sparita l’unica persona in tutta la sala che aveva l’energia per trascinarmi via”

“Lila era troppo per chiunque”

“Decisi che dovevo regolarmi su quella bambina, non perderla mai di vista, anche se si fosse infastidita e mi avesse scacciata”

“Napoli, secondo lui, era così da sempre: si taglia, si spacca e poi si rifà, e i soldi corrono e si crea fatica”

“La ricchezza, in quell’ultimo anno delle elementari, diventò un nostro chiodo fisso”

Amor — Cláudia Zambrana

Título: Amor: sempre foi você 
Autora: Cláudia Zambrana 
Editora: Crazyforhotbooks (organização) 
Páginas: 22 
Ano: 2021 

Resenhar histórias curtas é sempre um desafio. E ele se torna ainda maior quando a sinopse já diz tanto (e tão bem) do que gostaríamos de dizer:

“Este não é um conto de amor qualquer, com paixão, encontros e submissão, mas sim uma história que traz todos os sentimentos que uma vida solitária e incrédula quanto ao amor pode ter”

Sim, como o próprio título já nos indica, Amor fala sobre esse sentimento, mas de uma maneira dolorosa como só a perda pode ser.

“Inacreditável como as pessoas querem que eu esqueça aquilo que é inesquecível”

Nas poucas páginas desta história conhecemos Mirla, uma daquelas jovens que, depois de tantas desilusões, já não consegue mais acreditar no amor. Até que, claro, ela tropeça nele quando menos espera (e em uma situação para lá de improvável para o surgimento desse sentimento).

“Nunca pensei que pudesse sentir por alguém o que senti por você: simplesmente amor”

Como toda mulher desacreditada, porém, Mirla demora a aceitar esse sentimento e, depois, isso irá lhe custar um arrependimento irremediável.

“Se eu soubesse que te perderia tão cedo, eu não teria demorado tanto para tomar uma atitude, eu teria sido menos covarde com meus sentimentos”

Mesmo sendo uma leitura rápida, Amor nos marca e nos faz refletir. Entre uma lágrima e outra, a história também nos lembra de que a vida foi feita para ser vivida e sentida e que se quisermos honrar a quem amamos, devemos aproveità-la ao máximo. 

Se esta história é para você, clique abaixo para ler. Se estiver em busca de algo mais leve (ou uma leitura mais longa), porém, recomendo 24h adolescente e às vezes apaixonada, também da Cláudia Zambrana. E não deixe de seguir a autora em suas redes sociais (Instagram) para ficar por dentro de todos os seus lançamentos.