Brilhante — Renato Ritto

Título: Brilhante
Autor: Renato Ritto
Editora: Publicação independente
Páginas: 44
Ano: 2020

Você já enviou um email que não deveria ter enviado e entrou em desespero, sem saber o que fazer? Para a nossa sorte, hoje em dia é possível desfazer o envio, se formos velozes em notar o erro.

Mas por que estou falando sobre emails em uma resenha? Porque Brilhante é um conto totalmente escrito neste formato, isto é, cada detalhe ao qual temos acesso, nesta história, nos chega através de emails trocados entre os personagens.

Tudo começa, conforme nos indica o cabeçalho do primeiro email, numa segunda-feira, dia 6 de abril de 2020. Trata-se de uma mensagem de Frank Lima para Alex Gomes, dois funcionários da Agência Brilho.

Para ser mais exata, Frank é gerente de projetos da agência e está dando um leve puxão de orelha — entremeado por muitos elogios — em Alex, o estagiário. O email é escrito de forma muito interessante, pois não parece exatamente uma bronca. E isso é um ponto, de certa maneira, discutido mais adiante no conto.

Se fosse só essa primeira “bronca”, tudo bem. O problema é que o tal gerente decide mandar um email coletivo e Alex resolve escrever uma resposta bem sincera… Que não deveria ser enviada! O que era para ser apenas um desabafo, vira uma grande confusão.

Ao perceber a burrada, Alex envia outro email, desesperado, mas para sua colega, Thais Rosa, também estagiária da agência. E daí para frente, são muitas reviravoltas! A gente fica com o coração na mão, querendo saber como Alex irá se safar dessa situação.

Ao mesmo tempo que Brilhante é uma leitura extremamente leve e divertida — sim, daquelas que você dá risadas enquanto lê — tem um certo quê de crítica, seja à desvalorização que estagiários e artistas sofrem, seja à forma como as coisas podem ser conduzidas em agências (este é um tipo de ambiente totalmente desconhecido para mim e foi muito interessante vê-lo retratado em uma história como esta).

No momento que cheguei à última página, soltei um sonoro “quê???”. Um excelente final aberto, que nos deixa ansiando por muito mais. Dá vontade de ler de novo, para absorver cada detalhezinho desta história.

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As 220 mortes de Laura Lins — Rafael Weschenfelder

Título: As 220 mortes de Laura Lins
Autor: Rafael Weschenfelder
Editora: Publicação Independente
Páginas: 53
Ano: 2020

Escrever um conto não é uma tarefa tão simples quanto parece, porque não é simplesmente escrever uma histórinha curta e acabou. A “histórinha” precisa ter começo, meio e fim na medida certa. E se tem algo que eu posso dizer é que As 220 mortes de Laura Lins tem exatamente isso. Ok, talvez eu não importasse de ler um pouco mais… Mas isso é pelo que ainda vou apresentar abaixo.

Acho que uma das coisas que surpreende logo de cara neste conto é a linguagem: totalmente acessível. Digo, o conto é escrito numa linguagem adequada aos personagens nele apresentados (dois jovens que estão no ensino médio) e, ao mesmo tempo, é recheado de referências que nos aproximam ainda mais dos acontecimentos e da narrativa. Não é uma história que termina em si mesma, mas que nos abre horizontes.

E aqui pegamos outro ponto crucial: a narrativa. Impossível não ser fisgado por essas páginas. Rafael pegou uma ideia e trabalhou em cima dela de maneira muito criativa, divertida e, apesar de tudo (e vocês já vão entender essa “ressalva”), leve.

Em certo momento da leitura, fiquei pensando se havia uma metáfora por trás daquelas palavras, onde tudo aquilo chegaria. Entendi que não era exatamente uma metáfora, mas havia uma grande mensagem a ser passada e… Uau! Como isso foi muito bem feito.

Mas vamos ao que interessa: antes de começar a leitura da história propriamente dita, somos apresentados a 5 regras. Guarde-as, você logo entenderá cada uma e — provavelmente, ao menos comigo foi assim — achará muito bacana o paralelo ali traçado.

“Nesse jogo, é a mente que fica com as cicatrizes mais profundas”

Os capítulos são nomeados de “ciclos” e isso também logo se explica. Se você olhar o sumário, verá: Ciclo 1, Ciclo 2, Ciclo 3, Ciclo 220, Ciclo 221 e Laura. Não, não é um erro. Lembre-se que estamos falando de um conto e você, ao iniciar a leitura, logo entenderá que não seria possível narrar cada um dos ciclos (eu leria, viu?). Mas por quê?

A cada novo ciclo, Daniel acorda em seu quarto, olha para o celular e vê a mesma data e hora: 17 de maio, 13:23. A cada novo ciclo, Daniel vai se encontrar com Laura no Parque do Ibirapuera. E a cada novo ciclo, Daniel tenta evitar a morte de sua amiga (e falha).

É claro que depois do 3º ciclo, tanto Daniel quanto nós, leitores, já entendemos que ele está preso em um looping temporal. O que não sabemos — e nem ele — é como sair disso.

E apesar disso poder soar repetitivo, não é. Não apenas porque, a cada ciclo, Daniel descobre algo novo, mas também porque somos, aos poucos, apresentados à história dele e de Laura, que é muito mais complexa e instigante do que poderíamos esperar de dois jovens colegiais.

Ok, talvez “instigante” tenha sido um adjetivo exagerado, mas a realidade é retratada ali de maneira tão palpável que não tem como não vermos um filme passando em nossas cabeças.

“Viver a mesma tragédia 219 vezes e não poder conversar com ninguém é demais até para Daniel Trombadinha”

Li esse conto bem rapidamente, torcendo até o último momento por um final feliz. Não posso dizer que cheguei onde esperava, mas o final está realmente muito bem pensando.

E se te deixei com vontade de saber mais sobre essa história, clica aqui.

Irresistível Doutor — Ingrid Sousa

Título: Irresistível Doutor
Autora: Ingrid Sousa
Editora: Lettre
Páginas: 240
Ano: 2020

Muitas pessoas torcem o nariz para romances hot e, geralmente, a capa já deixa bem claro o estilo do livro. Mas é aquela velha história: não podemos julgar um livro pela capa, não é mesmo?

“Nunca haverá um nós enquanto eu for dona de mim”

Irresistível Doutor é o primeiro romance hot da autora Ingrid Sousa e, ainda que ela tenha usado um ou outro elemento comum a esse tipo de história, percebemos que, em diversos momentos, há inovações muito interessantes e que tornam a leitura extremamente prazerosa. E engraçada! Mas também há cenas de partir o coração.

“Sou ótima cuidando do coração das pessoas, mas uma negação para cuidar do meu”

A história já começa com um soco no estômago: Mark termina seu noivado com April, nossa protagonista, por mensagem de texto! E se isso não fosse o suficiente para odiar um homem desses, a cada página, só piora (mas vou deixar que você tire suas próprias conclusões…)

“O que realmente me quebrava era o fato de não poder confiar, de ter sido feita de boba”

Mas se engana quem pensa que passaremos o resto do livro vendo uma mulher despedaçada ou então que se entrega ao primeiro que aparece. April sofre, é claro, mas Melissa, sua irmã gêmea, dá uma ajudinha para que ela dê a volta por cima.

“Nunca poderia ficar com raiva da Mel por me amar tanto quanto eu a amava”

April é norte-americana, mas é no Brasil que a história se passa, pois é aqui que ela recomeça sua vida. E, logo de cara, nos deparamos com a cena do “vizinho peladão”, que nos arranca boas risadas.

“Eu a deixei dentro do táxi e parti com destino ao Brasil”

April tem as suas feridas recentes, mas ela logo conhece Guto, um rapaz lindo e gentil que derrete o coração dela. Contudo, ele não parece querer se entregar ao que também sente por April. E é aí que percebemos que ela não é a única personagem a carregar feridas.

“Era horrível vê-lo daquela forma, seu coração estava partido, assim como o meu, mas as feridas pareciam ainda mais profundas e dolorosas. Era como se ele já tivesse vivido tudo aquilo antes”

Irresistível Doutor é aquele tipo de leitura que te prende, porque sempre acontece algo novo e que te faz querer saber como aquela situação irá se resolver e quais serão os próximos passos. Uma leitura prazerosa e intensa, que vai fazer as horas voarem.

“Eu gostava dele, mais talvez do que conseguia explicar”

Os personagens são cativantes. Exceto Mark, claro. E Guto, em alguns momentos. Mas este a gente perdoa, o primeiro não. O time feminino da obra é excepcional: April, Melissa, Camila. Mulheres independentes, fortes, inteligentes.

“Ser cirurgiã era a única constante em minha vida e eu me orgulhava de ser excepcional no que fazia”

Quer saber mais sobre Irresistível Doutor? Então clique aqui.

Árvore de espíritos — Michelle Pereira

Título: Árvore de espíritos 
Autora: Michelle Pereira
Editora: Publicação independente 
Ano: 2020

Uma das coisas mais fantásticas sobre fechar parceria com autores (não todos, mas grande parte) é o fato de que podemos conhecê-los melhor, estarmos mais próximos e… sabermos das novidades de antemão!

E a Michelle Pereira é uma dessas escritoras que sempre tem algo novo a mostrar aos seus leitores e que gosta de ouvir nossas opiniões sobre tudo. E foi por isso que seus parceiros (eu inclusa!) tiveram a oportunidade de ler Árvore de espíritos antes de todo mundo.

Trata-se de mais um conto desta escritora que consegue nos surpreender a cada lançamento. Desta vez, a atmosfera é mais sombria e por isso o lançamento oficial (com direito a gratuidade do conto na Amazon) será amanhã, dia de halloween.

Trazendo elementos da cultura japonesa, Árvore de espíritos nos conta a história de dois irmãos — Pam e Tae — que, quando mais novos, viam espíritos. E é com isso que Michelle nos apresenta a coruja que colhe espíritos: o youkai.

“Eu e meu irmão víamos espíritos, uma maldição da qual não pude escapar”

Esta é uma história para nos lembrar que nem tudo é o que parece ser e é muito interessante como o ritmo dela vai crescendo ao longo da leitura, aumentando a nossa tensão, até chegarmos ao desfecho de tudo o que se desenrola.

“As pessoas ao nosso redor me olham com estranheza, mas decido ignorar”

O conto é narrado por Pam, que vive no Brasil, onde já não vê tantos espíritos quanto antes. Mas a história se passa quando, após oito anos, ela retorna ao Japão…. E tudo acontece.

“O que você pensa que está fazendo, Tae?”

Se você quer saber o que acontece com Pam e Tae, clique aqui. Lembrando que o conto estará gratuito de 31/10 a 02/11/2020

Giselle — Thais Rocha

Título: Giselle
Autora: Thais Rocha
Editora: Cartola
Páginas: 135
Ano: 2019

Quando eu cursei Letras, tive sérias dificuldades com as matérias da área de clássicos, o que me criou um bloqueio muito grande com qualquer coisa relacionada a isso e, olhando muito por cima os comentários sobre Giselle, eu havia entendido que ali teria algo deste campo, quando, na verdade, o que havia era algo sobre ballet clássico. Por conta dessa pequena confusão, acabei enrolando um pouco para encarar essa obra… Ah, se arrependimento matasse!

“Ela não tinha nenhuma ideia do que aconteceria a seguir, clichês não eram clichês para ela. Será que existia mais alguém no mundo assim?”

Giselle é um livro maravilhoso e devorei cada página querendo — e não querendo — chegar ao fim dessa história. Uma narrativa envolvente, forte e que me apresentou muita coisa interessante.

“Tudo o que ela mais queria era que o tempo parasse um pouco, que ela conseguisse pensar no que fazer, mas ele insensivelmente continuava seu caminho como se nada estivesse acontecendo com ela”

Vamos começar pelo fato que Giselle não é apenas o título da história, mas também o nome de nossa protagonista e de um ballet de repertório. E claro que, aos poucos, vamos vendo que a escolha não foi ao acaso.

Mas o que é um ballet de repertório?

Em linhas bem gerais — pois não sou nada especialista em ballet — um ballet de repertório é um tipo de ballet que contém uma história dentro dele e tal história, claro, é apresentada ao público através da dança.

O lago dos cisnes e Quebra nozes são alguns ballets de repertório bem conhecidos. E, como dito, Giselle também, mas, ao contrário desses dois que mencionei, este último eu não conhecia até ler a obra da Thais.

E conhecer Giselle — o ballet — através de Giselle — o livro — foi muito bom, pois o que a autora fez foi — sendo bem superficial aqui — nos mostrar como seria essa história se ela se passasse nos dias de hoje.

“Seu primeiro beijo foi absolutamente incrível, a cereja do bolo daquele que fora o melhor dia de toda a sua vida”

A protagonista deste livro é uma jovem apaixonada pelo ballet. Dedica-se com afinco à dança e sonha em se tornar bailarina profissional, para tristeza de sua mãe, que se preocupa com o fato da filha não comer muito e também não levar uma vida normal de adolescente.

“Era normal que uma pessoa fosse assim tão radiante? Ou fora ela quem se enterrara tão fundo dentro de si mesma que já nem sabia mais o que era normal?”

Apesar disso, tudo segue muito bem, até que Giselle conhece Clara que, por sua vez, é filha de bailarinos profissionais. Mas Clara dança ballet por obrigação, porque seus pais desejam que ela se torne uma bailarina como eles.

“Clara tinha razão — suas vidas eram opostas. E por incrível que pareça, ela não se importava”

E nesse contraste entre Giselle e Clara, a história se desenvolve. Apesar das diferenças, ambas logo se tornam amigas, porque, no fundo, só uma pode entender a outra. E é nessa linda amizade que elas vão seguindo em frente, crescendo e amadurecendo.

Porém… Nem tudo são flores e, sem dúvidas, um acontecimento trágico vem para abalar a doçura da história. E é após esse acidente que a autora nos apresenta ainda mais a fundo a história que há por trás do ballet Giselle, traçando um paralelo entre a tradição e a história que ela conta.

“Queria ser feliz ao menos uma vez na sua vida. Seria pedir muito?”

É muito interessante como a Thais conseguiu passar de uma história extremamente verídica e palpável para algo que está mais no plano mitológico, sem que essa passagem ficasse sem sentido ou absurda. É aquele tipo de salto que nos faz pensar “e se fosse assim mesmo?”.

Com este livro eu pude ver um pouco mais de perto como é a rotina e a dedicação de bailarinos à essa dança, pude acompanhar os dilemas de Giselle e Clara, pude refletir sobre assuntos diversos, além de conhecer um pouco mais sobre uma ballet de repertório.

“Clara achou ter escutado seu coração se partir em um milhão de pedacinhos”

Mas, não bastasse tudo isso, o fim também vem como um balde de água fria, deixando uma última e importantíssima lição.

Se você se interessou por esse livro e quer saber qual é a última lição que ele nos deixa, clique aqui.

Gostosuras ou travessuras (Antologia)

Título: Gostosuras ou travessuras
Organização: Equipe Lettre
Editora: Lettre
Páginas: 128
Ano: 2020

Gostosuras ou travessuras é a mais nova antologia de distribuição gratuita da Editora Lettre. Este é um formato que a Editora está testando, para incentivar a literatura nacional de maneira verdadeiramente acessível a todos.

A antologia reúne contos que se passam no Halloween, mas com uma proposta um pouco diferente: os protagonistas de cada conto são seres fantásticos. Você já se perguntou como essas criaturas — que geralmente são as que dão origem às nossas fantasias — passam essa data?

“A verdade era que nenhum deles entendia muito bem, mas algo lhes dizia que eles se veriam em breve”

(Conto: O início de uma nova era)

Em Gostosuras e travessuras você pode descobrir as respostas — sim, no plural, porque cada criatura passa a seu modo! — para esta pergunta. São textos que nos apresentam anões, unicórnios, leprechauns, dragões, fadas, bruxas, zumbis, anjos, vampiros, lobos…

Além da temática similar, todos os contos foram escritos para que mesmo os mais novos possam ler. Ou seja, Gostosuras e travessuras é uma antologia de classificação indicativa livre e com histórias que, mesmo no mais assustador dos casos, são leves.

“Eu não chorava só por mim. Chorava toda noite pela vida que se perdera, pela fome, pelos abusos e assassinatos. Eu chorava pelas pessoas que cresceram comigo, que cuidaram de mim, que fizeram aquela vila existir e que agora, assim como eu, estavam perto de suas mortes”

(Conto: A esposa do espírito branco da lua)

Esta antologia foi pensada um pouco às pressas e, por isso, juntamos apenas os autores da própria Editora e alguns convidados para compô-la. A Lettre, porém, tem planos de lançar outras antologias do tipo, contando com uma participação mais ampla. Inclusive, o edital da próxima já está aberto e as inscrições vão só até o dia 06/11 (para saber mais, clique aqui).

Uma coisa que gostei ao longo das páginas de Gostosuras ou travessuras é que a antologia traz diversos textos sobre amizade ou então sobre respeito ao próximo. Foi muito bom encontrar tantos textos que trazem lições tão importantes, mas de maneira leve e gostosa de ler. E mais ainda: em uma antologia de halloween! Ou seja, não é apenas mais do mesmo.

Eu não vou me deter muito, principalmente no elogios aos contos porque também sou uma das autoras e isso seria no mínimo suspeito!

Brincadeiras à parte, foi um desafio para mim a participação nesta antologia. Mesmo lendo fantasia, este não é um gênero com o qual tenho muita afinidade. Por isso, acabei escolhendo como personagem uma sereia, figura fantástica pela qual sempre nutri certo fascínio. Meu conto chama-se “A vida em ondas” e é narrado em primeira pessoa.

Se você ficou com vontade de conhecer essas histórias ou então se está buscando algo relacionado ao halloween para ler nesta época, aproveite que Gostosuras ou travessuras é gratuita! E não, não é por tempo limitado. Basta acessar o site da Editora Lettre e baixar o arquivo. Ou então clique aqui para ir diretamente para a página correta.

E se você decidir ler, depois venha me contar o que achou! Será uma alegria poder trocar figurinhas ou mesmo ouvir sugestões do que poderia ter sido diferente em meu texto!

Positivo — Marcela Brazão

Título: Positivo
Autora: Marcela Brazão
Editora: Publicação independente
Páginas: 58
Ano: 2020
Cabeçalho com capa do livro "Positivo", da autora Marcela Brazão

Positivo é a obra de estreia de Marcela Brazão e não posso deixar de dizer que foi um ótimo início! Trata-se de uma novela (então sim, a leitura é bem rapidinha) e, já pelo título, podemos perceber como tudo foi muito bem planejado e como cada coisa se encaixa ali.

“Eu sabia que não deveria me abalar pelo que os outros pensavam ou como as pessoas olhavam, contudo, era algo que ainda me incomodava”

Quando leio a palavra “positivo”, logo penso em algo bom, alto astral, feliz. Mas esse não é o sentido primeiro da palavra usada no título deste livro e isso já vai sendo explicado desde as páginas iniciais da obra. “Positivo” é, antes de tudo, o resultado de um teste. O teste que muda a vida de Rosa, a protagonista.

“Não idealize achando que o amor será uma explosão e que vai acontecer de repente, de um momento para o outro. Cada cuidado, cada carinho e cada preocupação é amor”

Aos 40 anos, solteira, acima do peso, morando na casa da madrasta, reconstruindo a vida, Rosa descobre-se grávida. E, apesar de tudo o que acabei de listar, esta não é a história de uma pobre coitada que acha a vida injusta. Não, Rosa é uma mulher forte, capaz de dar a volta por cima quantas vezes forem necessárias. Mas, mais que isso: Rosa é uma mulher real.

Não, não estou dizendo que a novela baseia-se em fatos reais (isso eu não tenho como afirmar, nada é falado sobre o assunto), mas que Rosa é uma protagonista como tantas mulheres que existem, em carne e osso, em nosso planeta. Alguém com medos e traumas, mas com vontade de seguir em frente.

“A estatística cruel que mostrava que metade das mulheres eram demitidas após a licença maternidade era um dos pontos que me assombrava diariamente”

A narrativa em primeira pessoa torna a história quase um diálogo conosco. Um diálogo no qual temos a possibilidade de conhecer o passado e o presente de Rosa. Mais ainda: o passado que se faz presente em seus medos, inseguranças, angústias.

“Ricardo tinha me feito desacreditar do amor e esse rapaz estava me ensinando a amar de verdade”

Positivo é um livro que consegue, mesmo em sua curta extensão, abordar temas muito importantes como relacionamento abusivo (e tantas coisas que giram ao redor disso, como inseguranças, os outros desacreditando a sua história…), gravidez após os 40 anos, padrões de beleza (e peso) impostos pela sociedade (e por médicos também, diga-se de passagem), gravidez e mercado de trabalho, homofobia… Enfim, tem muito pano para manga ao longo dessas páginas.

“As agressões eram completamente desacreditadas pela minha madrasta. Tudo era exagero da minha parte”

A forma como a história é contada e o fato de conhecermos Rosa após seu relacionamento abusivo, tornam os acontecimentos um pouco mais leves e, acredito, esta não é uma história que desperte tão facilmente algum tipo de gatilho, mas se você tem muita sensibilidade a esse tema (ou algum outro dos que mencionei acima), claro, talvez seja melhor não ler. De qualquer forma, tudo foi tratado com a seriedade necessária e, ao mesmo tempo, com uma leveza muito plausível.

O texto é muito bem escrito e percebe-se que houve preocupação da autora com a revisão do mesmo. A leitura, como eu disse antes, é rápida — devido à curta extensão da obra — e fluída, uma vez que queremos chegar ao final e saber o que acontecerá com Rosa. O que o destino guarda para ela.

E aliás, o final! Se estamos falando de uma história que retrata algo tão palpável, o final também deveria ser assim, sem idealizações. E Marcela conseguiu trabalhar bem essa questão: o final é feliz, claro, mas um feliz real. Um feliz que enxerga que o futuro pode mudar tudo de novo e que está tudo bem ser assim, porque sempre podemos nos reerguer mais uma vez.

Se você se interessou por Positivo, clique aqui. Obra disponível apenas em formato ebook e cadastrada no Kindle Unlimited, que você pode testar gratuitamente por 30 dias.

Assassinato na praia — Mike Flint

Capa do livro "Assassinato na praia" com o nome do blog, para divulgação da resenha

Enquanto lia Assassinato na praia fiquei pensando em como defini-lo. Creio que a melhor palavra que encontrei foi “ousado”. Sim, definitivamente, “ousado” é um bom adjetivo para esse livro, que tenta mesclar algumas propostas.

O começo da história nos conduz a um romance levinho, coisa que, pelo título, imaginamos que não irá durar muito tempo. Mas vamos focar nesse início por enquanto.

Eduardo é engenheiro e, um pouco cansado de sua vida, decide tirar um tempo para si, alugando uma casa na praia e, finalmente, dando início a um projeto só seu: escrever um livro. O que ele não sabia, porém, era que ali escreveria muito mais páginas da sua vida que do livro em questão.

A praia em questão — a paradisíaca praia do Éden — fica numa pacata ilha, mesmo esta sendo próxima à capital. Tal ilha tem ares de cidade do interior, onde todos se conhecem. E claro, logo Eduardo passa a conhecer pessoas importantes dali. Mas o principal: rapidamente Eduardo conhece e se apaixona por Marcia.

Marcia é uma daquelas mulheres que todos adorariam ter por perto. Uma pessoa agradável, de coração enorme. Linda, por dentro e por fora. Não tinha como nosso protagonista não se apaixonar.

E é assim que inicia o romance levinho que eu disse ali em cima, e que logo ganha ares de romance hot, com cenas bem quentes entre os dois personagens. E aqui, portanto, já entra a segunda proposta do livro. Essas cenas hot são pontuais e adequadas ao livro, contudo, não deixam de ser uma proposta a mais.

Mas, como eu disse anteriormente, os ares de romance levinho, como o próprio título do livro indica, logo dão espaço a um mistério policial: um assassinato na praia de uma pacata ilha e a busca pelo culpado.

De início, o autor até consegue manter bem nossas dúvidas com quem pode ser o verdadeiro assassino, dando motivos para mais de um personagem ter cometido tal ato, mas logo nossas suspeitas vão se reduzindo drasticamente.

E qual a relação de Eduardo com tudo isso? Ele, claro, é o principal suspeito por tal assassinato (não para nós leitores, mas para a polícia da história), sendo o primeiro a ser mantido detido para se explicar diante da justiça. E, a partir deste ponto da narrativa, o autor mescla o momento presente — de agonia enquanto Eduardo espera seu advogado chegar e sofre a perda de uma pessoa querida — e o “passado” (de poucos dias antes), isto é, seus primeiros dias na ilha, os momento românticos e calientes que viveu com Marcia.

No meio disso tudo, ainda tem o tal livro de Eduardo. Um livro dentro do livro que lemos. O autor nos apresenta a estrutura da obra que Eduardo pensou, bem como, aparentemente, quis inserir em seu próprio livro — isto é, em Assassinato na praia — alguns conselhos que lhe pareceram interessantes para quem quer escrever um livro. Em alguns momentos, porém, senti que o autor não seguiu suas próprias recomendações, colocadas na história através do olhar de Marcia, que já trabalhara em uma editora.

Ao meu ver, na tentativa de enriquecer a história e torná-la tanto algo interessante para outros escritores, quanto algo que trouxesse mistério e romance para os mais diversos leitores, o autor acabou perdendo-se um pouco.

A história não tem pontas soltas, mas faltou certo desenvolvimento narrativo que realmente prendesse o leitor. Ainda assim, foi uma leitura curiosa de se fazer. Li até a última página, buscando imaginar que caminhos o autor tomaria. E certamente não cheguei nem perto de descobrir o verdadeiro final.

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Mas eu quero morrer & Quase alguma coisa — Maicon Moura

Hoje eu trago a vocês, queridos leitores deste Blog, uma resenha dupla. Isto porque semana passada, realizei a leitura de dois contos de um mesmo autor. E apesar de escritos pela mesma pessoa, cada um desses contos têm as suas particularidades.

Primeiro, peguei para ler Mas eu quero morrer. Mergulhei na leitura como muitas vezes faço, tendo apenas visto a capa e sem ler a sinopse. E deparei-me com sete páginas que me deixaram reflexiva.

Somos jogados em uma realidade na qual os avanços tecnológicos nos permitem viver para sempre — e aí acho que esse título tão impactante já fique um pouco mais claro —, mas não apenas isso: podemos viver para sempre em corpos jovens e saudáveis. Será que isso é realmente tão bom assim?

Um conto rapidinho de ler e que eu super indico para quem curte ficção científica. Mas também indico para quem não conhece tanto o gênero, pois pode ser uma interessante porta de entrada.

Por outro lado, Quase alguma coisa é um conto muito… Real? Ele pode parecer confuso, mas a verdade é que confuso somos nós e é isso o que está retratado ali. Peguei ele logo após Mas eu quero morrer, apesar de ainda estar reflexiva, e logo fui nocauteada novamente, rendendo-me a uma história totalmente diferente, mas igualmente incrível.

Este conto nos mostra o quanto nossa mente é capaz de nos fazer enxergar o que não existe, ou então de criar uma realidade quase que paralela. E tudo isso, claro (ou principalmente), durante o banho, no momento em que mais deixamos nossa mente vagar livremente. E o mais interessante é que, por vezes, acreditamos tanto naquilo que criamos que depois fica difícil separar o real do imaginário.

Indico ele para quem gosta de algo mais introspectivo, que nos faz refletir sobre nossos comportamentos, mesmo aqueles que, por vezes, já se tornaram banais.

O desfecho de ambos os contos surpreende e gostei da experiência de lê-los. Duas experiências bem diferentes uma da outra, é verdade, mas que me permitiram conhecer um pouco mais da escrita deste autor nacional que, em breve, lançará um livro solo.

E as duas leituras também foram extremamente rápidas, então se você busca algo para ler em minutos, deixo aqui a minha indicação! Só não me responsabilizo se, mesmo sendo uma leitura rápida, você sair com a cabeça em parafuso…

Se interessou por esses contos? Então adquira Mas eu quero morrer aqui e Quase alguma coisa aqui. Ambos também encontram-se gratuitos no Kindle Unlimited. Experimente gratuitamente aqui.

As pequenas virtudes — Natalia Ginzburg

Título: As pequenas virtudes
Original: Le piccole virtù
Autora: Natalia Ginzburg
Editora: Einaudi
Páginas: 65 
Ano: 1962 

Antes de começar a resenha em si, gostaria de fazer como a própria Natalia Ginzburg e deixar aqui um aviso: li o livro em língua italiana (por isso não tem o nome do tradutor ali em cima), mas trarei as citações de acordo com a tradução feita por Maurício Santana Dias, na edição brasileira, publicada em 2015 pela Cosac Naify.

O aviso da autora, por outro lado, é sobre o fato de que a obra reúne ensaios publicados em diferentes jornais e revistas, bem como em períodos diferentes de sua vida. E já com esse aviso inicial temos a oportunidade de nos deliciar com a escrita de Natalia. As pequenas virtudes é aquele livro que queremos ler, mas que até entrar em contato com ele, não temos como saber (então se permita entrar em contato com ele!).

“E, vejam bem, não é que se possa esperar da escrita um consolo para a tristeza”

O livro é dividido em duas partes, mas confesso que não ficou muito claro para mim se há algo que justifique essa divisão. De qualquer forma, a primeira parte é composta pelos seguintes títulos:

  • Inverno em Abruzzo
  • Os sapatos rotos
  • Retrato de um amigo
  • Elogio e lamento da Inglaterra
  • La maison Volpé
  • Ele e eu

Não vou falar sobre cada um deles, mas também não posso deixar de comentar que Inverno em Abruzzo foi um bom começo para este livro. Ele nos dá a dimensão da pessoalidade por trás dos textos, além de já nos permitir uma deliciosa viagem através das palavras da autora.

“Uma vez sofrida, jamais se esquece a experiência do mal”

E quando eu digo “deliciosa viagem” não estou necessariamente falando de algo feliz, muito menos de uma passeio, mas do fato que a escrita é tão envolvente e tão bem construída que todo o cenário surge diante de nossos olhos.

“Mas aquele era o tempo melhor da minha vida, e só agora, que me escapou para sempre, só agora eu sei”

Mas desses primeiros ensaios, aquele que mais chamou minha atenção foi Os sapatos rotos. Isso porque o texto fala muito mais que sobre “sapatos quebrados”. Fala sobre viver e, consequentemente, sofrer. E sobre seguir adiante mesmo assim. A metáfora presente neste ensaio é tão bem construída que nos emociona.

“Tenho os sapatos rotos, e a amiga com quem vivo neste momento também tem os sapatos rotos”

A imagem dos sapatos, aliás, não aparece apenas neste texto, mas também em outros. E é algo que realmente nos faz pensar.

“Aliás, para aprender mais tarde a caminhar com sapatos rotos talvez seja bom ter os pés enxutos e aquecidos quando se é criança”

Eu falei que não ia comentar texto por texto, mas os ensaios dessa primeira parte são bem marcantes, então também gostaria de dizer que achei divertido o Elogio e lamento da Inglaterra e que achei curiosa a relação de amizade apresentada em Retrato de um amigo.

“Sobre minhas dores reais, não choro nunca”

Mas o ensaio que não posso mesmo deixar de citar é Ele e eu. Um retrato de uma relação real. Até demais. Tudo começa às mil maravilhas e, pouco a pouco, vai se tornando algo complicado. Triste. E a maneira que Natalia apresenta isso é muito bonita.

“Acho que ele gosta que eu dependa dele, em tantos aspectos”

Os textos da segunda parte, por sua vez, são:

  • O filho do homem
  • O meu ofício
  • Silêncio
  • As relações humanas
  • As pequenas virtudes

Nessa segunda parte achei alguns textos mais longos e cansativos. Mas O meu ofício é bem interessante, porque a autora vai traçando sua vida de escritora, nos contando sobre inspirações e momentos. E imagine tudo isso feito com essa linguagem tão dela que, a essa altura, já estamos mais que afeiçoados.

“Assim, e cada vez mais, tenho a sensação de errar em cada coisa que faço”

Agora As pequenas virtudes mais que ser o ensaio que dá nome ao livro, é, também, um texto lindíssimo. Fechou com chave de ouro, nos deixando reflexivos e, ao mesmo tempo, com o coração quentinho.

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