Em casa — L. S. Morgan

Título: Em casa
Autora: L. S. Morgan
Editora: Publicação independente
Páginas: 14
Ano: 2020

Desde que nasci, moro na mesma casa. Ao longo dos anos, porém, conheci muitas pessoas que se mudaram. Não apenas de casa, mas também de cidade, de estado, de país. Muitas dessas pessoas tiveram a oportunidade de fazer essa mudança por escolha, o que não minimiza tanto assim os impactos, as dificuldades que se tem de enfrentar em um lugar que não é o seu. Principalmente, também, quando se sai de um lugar tranquilo para um lugar agitado.

“Sinto cheiro de mato, de terra, de saudade guardada no peito”

Já nas primeiras linhas de Em casa me lembrei desses rostos que me remetem a mudança e que sempre admirei. A protagonista, com uma narrativa envolvente, consegue retratar bem o impacto que abandonar uma cidade pacata e chegar a uma cidade grande e caótica pode nos causar. Mas, ao contrário das tantas pessoas que conheci, ela não se mudou por opção: fora arrancada de seu lar.

Uma criança tirada à força de casa. É isso que Em casa nos mostra. Mas não só: o texto fala sobre a perda de alguém que se ama. Aliás, perda talvez seja o maior fio condutor dessa história, porque a protagonista perde uma mãe para a morte, perde uma mãe porque a sociedade não pode aceitar que uma criança tenha duas mães e, por fim, perde um lar.

“Achei que ela apenas dormia e demorei um tempo para entender que ela não acordaria, quando compreendi, chorei”

Em casa é um conto e, como tal, é curto. Para tratar de tantos assuntos em tão poucas páginas é preciso, portanto, ser direto. Mas a autora consegue fazer isso com uma linguagem rica de sentimentos e sensações, transmitindo tudo o que uma narrativa como essa pode nos propiciar.

Uma leitura de poucos minutos que foi uma grata surpresa para mim. Aquele tipo de história que combina com um domingo chuvoso e um café quente, que vai mexer com você e te fazer perceber que existem prazer nas menores coisas da vida.

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Não inclui manual de instruções — T. S. Rodriguez

Título: Não inclui manual de instruções  
Autora: T. S. Rodriguez
Editora: Rico Editora
Páginas: 160 páginas
Ano: 2019

É possível falar, em 160 páginas, sobre Síndrome de Asperger, homossexualidade e preconceitos? E mais, é possível fazer isso de maneira que a leitura seja leve, prazerosa? Sim e não para a primeira pergunta e, com ressalvas, sim para a segunda. Vamos entender melhor isso?

“O começo de uma vida e o fim da solidão”

Logo de cara é preciso falar sobre o título: Não inclui manual de instruções. Uma boa escolha para um livro que fala sobre humanos e sobre diferenças. É bem verdade que nenhum de nós nasce com um manual que ensine aos outros como lidar conosco. Mas vivemos em uma sociedade que, muitas vezes, é homogeneizadora e, com isso, sabemos, na maior parte do tempo, agir conforme o esperado ou o que devemos esperar dos outros. E é justamente por causa dessa homogeneização que, infelizmente, temos tanta dificuldade de lidar com aquilo que sai da curva.

“Porque ele se esforça muito para entender as pessoas, mas a maioria delas não faz o mínimo esforço para entendê-lo”

Conor Healy é o protagonista de Não inclui manual de instruções e, logo de início, sabemos que ele é um escritor renomado e que tem Asperger. Ao longo do livro, suas manias e seus hábitos vão nos apresentando um pouco desse mundo.

“A rígida rotina diária era quase tão importante quanto comer ou respirar”

Por outro lado, conhecemos Aidan, um jovem que, com sua irmã, gerencia um tradicional pub irlandês (sim, a história se passa na Irlanda) e que também realiza alguns trabalhos como músico. Por meio desse personagem, nos colocamos na pele de alguém disposto a entender como se relacionar com uma pessoa com síndrome de Asperger.

“Era como se Conor fosse um enigma que ele precisava desvendar. Um grande mistério. Como em seus livros”

Já é de se imaginar, portanto, que ao longo da história haverá algum tipo de relação entre Conor e Aidan, visto que esses são os personagens centrais da história. E, efetivamente, a partir deles desenvolve-se o romance dessa narrativa.

“O amor acontece quando encontramos uma pessoa com quem podemos ser nós mesmos”

Assim sendo, Não inclui manual de instruções consegue falar sobre a Síndrome de Asperger e homossexualidade, mas não chega a se aprofundar nem em um e nem em outro tema. O que não é exatamente um problema, pois creio que essa não era a intenção da obra.

“Pois é, os livros são sua maneira de desvendar o mundo”

O preconceito, claro, permeia esses dois temas: Conor sofrera muito em sua infância, com os colegas de escola, enquanto Aidan vivia longe de sua família desde os 18 anos, porque seu pai não aceitava a homossexualidade do filho. Um tem muito a ensinar ao outro sobre todas essas questões.

“Isso é o que ele precisa. Alguém que tome a mão dele e o faça se sentir corajoso”

Portanto, sim, em 160 páginas, Não inclui manual de instruções consegue falar sobre Asperger, homossexualidade e preconceitos, além de nos apresentar um pouco sobre a Irlanda, mas tudo de maneira superficial.

E por que a leitura é leve e prazerosa, mas com ressalvas? Bem, no geral, foi uma leitura que fluiu muito bem, uma distração muito gostosa. Mas há uma personagem — a mãe — que me deixou com a pulga atrás da orelha, porque ela manipula muita coisa na história, o que enfraquece principalmente a reflexão final do livro.

O final, aliás, foi outro ponto que não curti tanto assim, por tê-lo achado um pouco corrido ou precipitado demais. Ainda assim, não é uma leitura que eu consideraria perda de tempo, muito pelo contrário aliás, gostei de ter passado um tempinho com os personagens dessa obra.

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Um mistério entre nós — Paula Barros

Título: Um mistério entre nós
Autora: Paula Barros
Editora: Viseu
Páginas: 96 
Ano: 2019

Um mistério entre nós é aquele tipo de livro que tem tudo para fazer muito sucesso: uma protagonista que guarda um grande segredo e um casal que, por algum motivo, não pode ficar junto. Dois fatos que, de alguma forma estão unidos e que precisamo ler para descobrir que fim terão. Mas… Não foi um livro que me conquistou.

Luísa, a protagonista, é jornalista. Ela trabalha para a coluna de negócios, mas seu sonho sempre fora a coluna policial do jornal. E é por isso que ela vê em um bilhete caído no chão uma grande oportunidade de realizar seu sonho. O que ela não tinha ideia, porém, era que seu sonho poderia, literalmente, transformar-se em pesadelo.

“O que pensou que seria motivo de orgulho para ela, agora era pura vergonha”

A narrativa de Um mistério entre nós, vai, assim, se alternando entre passado — o momento em que Luisa entra em uma grande enrascada — e presente. Já li diversos livros com essa alternância temporal e costumo gostar muito disso, mas senti que, nesta obra, isso não funcionou tão bem.

No meio desse caminho aparece um tal de Gustavo e, de início, Luisa se mostra evitando ele. A impressão que temos é que ele é um cara que está flertando com Luisa, mas com quem ela não quer contato, devido ao seu segredo. Mais adiante, porém, descobrimos que eles eram, na verdade, namorados e que, “do nada” (há o tal mistério da história, mas isso não justifica), ela para de falar com ele. A narrativa dessa relação é meio confusa: uma hora parece que eles só estão ficando, outra hora temos a impressão de que eles namoravam sério. Isso acabou atrapalhando minha identificação com os personagens.

Mas talvez exista outra coisa que tenha feito com que eu não tenha conseguido me dar muito bem com a alternância temporal e com detalhes como o que acabei de mencionar: a própria escrita do texto. Senti que daria para trabalhar melhor a construção textual. Em mais de um momento eu pensei que determinada frase ou diálogo poderia ter sido melhor escrito. Espero não estar me tornando crítica em excesso em minhas leituras…

Apesar de tudo isso, porém, eu acredito que essa história cumpre muito bem seu papel. Eu mesma, a peguei em busca de algo rápido e leve. E, mesmo com todo o mistério e as situações policiais, a narrativa conseguiu entregar justamente isso que eu procurava, um momento para se desligar do mundo.

Um mistério entre nós é apenas o primeiro volume de uma trilogia. Como eu disse, o livro é pequeno, acredito que os outros dois também sejam, então, mesmo sendo uma trilogia, é algo para se ler rapidinho. Eu, ao menos por enquanto, porém, fico apenas com esse primeiro volume.

Se você quiser descobrir qual é o grande mistério que Luisa esconde, clique aqui.

Me poupe! — Nathalia Arcuri

Título: Me poupe! — 10 passos para nunca mais faltar dinheiro no seu bolso
Autora: Nathalia Arcuri
Editora: Sextante
Páginas: 176
Ano: 2018

Você, leitor acostumado a acompanhar esse blog, vai — apenas de início, porque vou explicar tudo aqui — estranhar o post de hoje.

Vamos começar por uma faceta minha que vocês provavelmente não conhecem: eu me preocupo com dinheiro. Isso porque, infelizmente, vivemos em uma sociedade em que praticamente tudo depende dele.

“Antes de comprar qualquer coisa ou pagar por um serviço, o que quer que fosse, eu me perguntava: ‘Será que existe um modo mais barato de ter/fazer isso?’ Em geral, existia”

Por outro lado, tive muita sorte na vida: além de crescer em uma família de leitores, cresci em uma família que sabe administrar o próprio dinheiro, que também se preocupa em ter uma reserva para o futuro e, o mais importante, que constrói e me ensina a construir a minha reserva desde que eu nasci.

“Ter dinheiro sobrando é bom, mas saber multiplicá-lo para realizar sonhos audaciosos é ainda melhor”

Isso tudo significa que ler esse livro foi uma experiência um tanto quanto… Interessante. A opção por fazer essa leitura foi minha (não estou escrevendo nada disso por ter parceria com a autora ou com a editora) e mesmo imaginando que encontraria muita coisa que eu ao menos fazia ideia, também imaginava que poderia encontrar algo de novo. E realmente encontrei, mas esse não será necessariamente o foco deste texto.

Para quem não sabe, a Nathalia Arcuri tem um Blog e um canal no youtube com o mesmo nome do livro que estou apresentando aqui. Eu mesma, confesso, nunca havia efetivamente acessado essas redes, apesar de já ter ouvido falar nelas. Mas aproveitei um dia de gratuidade do ebook e resolvi baixá-lo para ler.

O propósito da Nathalia é ensinar as pessoas a cuidar do próprio dinheiro, fazendo com que poupemos uma parte e, claro, façamos investimentos para que esse dinheiro poupado possa se multiplicar.

O trabalho dela é muito bem feito — confesso que não me aprofundei muito no Blog ou no canal, mas o livro é bem interessante, como eu disse lá no início — e, de certa forma importante. Mas ainda que ela diga que quer ajudar o maior número possível de brasileiros, sei que, lendo o que li, ela ainda está muito longe disse. E é muito fácil identificar isso pelo que ela conta no livro.

“Quando a gente tem um objetivo, poupar se torna muito mais fácil, racional e, sobretudo, estimulante”

Em primeiro lugar, ela vem de um lugar social muito parecido com o meu: uma família bem estruturada, informada. Isso já a coloca anos luz à frente de MUITOS brasileiros. Não bastasse isso, ela começou a se preocupar com dinheiro desde pequena, ainda que não tivesse uma poupança ou investimentos desde aquela época. Nem todas as famílias conseguem transmitir esses valores para seus filhos e sabemos como nos espelhamos demais em nossos pais nessas coisas.

Mas, o ponto crucial: quantos brasileiros sustentam uma família com menos de um salário mínimo? Mesmo que essa pessoa corte muitos gastos, faça milagres, não há magia que faça um salário mínimo ser suficiente para sobreviver e ainda investir para ter no futuro. Infelizmente.

“O essencial nada mais é do que a sua vida no presente”

A autora até já busca se precaver dessas pequenas críticas em seu texto. Mas a sua argumentação não me convenceu. As dicas dela podem ser aplicada por mim, por exemplo. Mas é muito claro que ainda somos uma pequena parcela da população brasileira.

Confesso que ler esse livro no atual momento também foi um mix doido de sensações aqui dentro. Os dias têm sido uma caixinha de surpresas e não consigo me ver aplicando as sugestões que a Nathalia dá, porque, para isso, você precisa ter uma ideia de quanto recebe no mês e, desde que comecei a trabalhar, ganhar de alguma forma meu próprio dinheiro, esse tem sido meu momento mais instável. Ainda estou em busca de formas de voltar a ter um salário e, enquanto isso não acontece, vou fazendo o que está ao meu alcance e adiando os planos que precisam ser adiados.

Uma das coisas que achei interessante, porém, é que desde o início do livro a Nathalia procura nos ajudar a acabar com uma doença que ela chama de “dinheirofobia”. Isto nada mais é do que o nosso medo de falar sobre dinheiro e de se preocupar de maneira saudável com ele. Sabe aquela vergonha de pedir um aumento, de enxergar que estamos afogados em dívidas? Tudo isso é dinheirofobia e, segundo a autora, o nosso primeiro grande empecilho para melhorarmos as nossas finanças. Ok, desse ponto eu já duvido um pouco, mas não 100%.

“Passo 1. Fale sobre dinheiro antes de o dinheiro faltar (e ele não vai faltar)”

Outro elemento que eu gostaria de destacar (afinal não vim aqui só criticar, mas sim trazer a minha opinião sincera) é a linguagem. O livro todo é como uma conversa com o leitor. Um diálogo super tranquilo, sem termos econômicos assustadores. Muito pelo contrário, aliás, a autora conseguiu me esclarecer algumas coisas básicas, mas muito úteis.

Por fim, eu gostaria de fechar essa resenha com um trecho que, ainda que fale sobre as nossas escolhas com relação ao nosso dinheiro e à nossa própria vida, também serve muito bem para o momento delicado que vivemos e que não podemos ignorar.

“O que não percebemos muitas vezes é que, ao não tomar uma atitude e permanecer na mesma situação, também estamos fazendo uma escolha”

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A casa de vidro — Anna Fagundes Martino

Título: A casa de vidro
Autora: Anna Fagundes Martino
Editora: Dame Blanche
Páginas: 87
Ano: 2016

Sabe aquele livro que você termina de ler e se pergunta se realmente entendeu algo? Pois então, essa foi minha sensação com A casa de vidro. Não se trata de um texto muito rebuscado, mas bastante metafórico. Ao menos eu acho!

“Vocês têm uma obsessão por isso de normal”

A história é curta e, neste caso, isso talvez contribua para a dificuldade em entendê-la. É como se tivesse faltado algo para que o leitor pudesse realmente mergulhar no cenário proposto e entender o mundo criado pela autora. Não que seja um mundo totalmente novo também, pois uma parte dele é o nosso mundo: humano, com guerras e etiquetas, por vezes, difíceis de compreender.

“Esse mundo de vocês tem regras demais. Como vocês dão conta de lembrar de tudo?”

A casa de vidro nos apresenta Eleanor, uma jovem que vive com seu pai em uma casa cheia de empregados, e em cujo quintal há uma grande estufa — a tal casa de vidro — fruto de caprichos de seu genitor.

A vida de todos era pacata, até o aparecimento de um novo jardineiro, que passaria a se dedicar à estufa: Sebastian. Ninguém, além de Eleanor, pareceu se importar muito com o fato de que, depois que Sebastian passou a integrar o quadro de funcionários, a estufa ganhara muito mais vida, assim como a natureza ao redor dela. As pessoas só pareciam se importar, porém, com o fato dele ser “estranho”.

Até esse ponto é relativamente fácil acompanhar a narrativa, ainda que, desde o início, ela tenha saltos temporais, indicados já nos títulos dos capítulos. Mas depois de conhecer Sebastian, não é apenas a vida de Eleanor que muda. A nossa compreensão da história acaba sofrendo um pouco.

“Você diz uma coisa e sente outra o tempo todo”

Aos poucos vamos entendendo que Sebastian não é exatamente humano e, se essa é uma das raras coisas que realmente ficam claras ao longo da história, é igualmente evidente o quanto é esse personagem que nos faz refletir sobre a nossa existência neste mundo.

“E quando um humano fica triste, seu coração dói de tal forma… Que é como se fosse sólido como osso e tivesse se rachado. E aí dói”

Por outro lado, a figura de Eleanor também nos faz refletir: vivendo em uma época em que a figura feminina era totalmente dependente e submissa à figura masculina, Eleanor parece ser uma mulher diferente, uma mulher que enxerga todo seu poder e que mostra como, no fundo, as coisas não são exatamente o que parecem.

“Quando o marido morrer, também ela deixará de existir diante dos olhos do mundo”

Creio que há muito mais por trás das páginas deste curto livro do que aquilo que consegui compreender, mas isto é tudo o que tenho a apresentar a vocês.

A bruxa não vai para a fogueira neste livro —Amanda Lovelace

Título: A bruxa não vai para a fogueira neste livro
Original: The witch doesn't burn in this one
Autora: Amanda Lovelace
Editora: Leya
Páginas: 208
Ano: 2018
Tradutora: Izabel Aleixo

a bruxa não vai

Depois de ler A princesa salva a si mesma neste livro, foi a vez de ler A bruxa não vai para a fogueira neste livro e não sei muito bem o que dizer sobre ele. Anteriormente, fiz minha ressalva com relação ao formato “poesia”, escolhido pela autora, ainda que os temas realmente fossem muito tocantes.

Neste volume, porém, sinto que o quesito poesia está um pouco melhor, mas as temáticas, ainda que importantes, não foram abordadas de maneira tão forte quanto anteriormente. Ou apenas eu que não consegui me conectar com a obra, não sei.

Me parece que em A bruxa não vai para a fogueira neste livro a autora se preocupou mais em seguir um certo fio narrativo, anunciado deste o título, isto é, a questão da mulher, vista por tantos homens como “bruxa”. Feminismo e empoderamento, portanto, aparecem com força, enquanto os homens, a cada página, são os grandes vilões. Interessante, mas repetitivo. E um pouco exagerado vez ou outra.

Quando digo que a poesia, neste livro, me parece melhor — como formato — estou me referindo ao fato de que a leitura fica mais fluida, com menos quebras estranhas. Além disso, há pedaços em prosa também. Mas neste ponto, a ausência de letras maiúsculas em praticamente tudo no livro salta aos olhos. Provavelmente uma escolha da autora. Mas uma escolha que não vem justificada ou explicada em parte alguma.

O projeto gráfico desta obra é bem interessante. Tudo nele é branco, vermelho ou preto. Logo de cara chama a atenção o fato de que todo o texto foi impresso em vermelho, como o sangue dos inocentes ou as chamas das fogueiras que somos incentivadas, ao longo das páginas, a acender. Os textos também, por vezes, trabalham a questão do uso da página, não estando sempre numa mesma posição. Trata-se, portanto, de uma obra bem atraente aos olhos.

 Por fim, gostaria de destacar uma poesia, provavelmente a que mais gostei dentre todas:

“ser uma

mulher

é estar

pronta para a guerra,

sabendo

que todas as probabilidades

estão

contra você

– e nunca desistir apesar disso

(pg. 49)
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Cadeados — Nuccia De Cicco

Título: Cadeados — o amor é a chave
Autora: Nuccia De Cicco
Editora: The Books
Páginas: 361
Ano: 2018

cadeados blog

Cadeados foi um livro que me fez sentir muita coisa. A começar pela aflição, pois a história se inicia com um grave acidente de carro e as consequência deste sobre Pam, a protagonista. Ela fica gravemente ferida, passa por cirurgias, convulsiona… E tudo é descrito no livro, sem nos poupar de detalhes.

“Naquele milésimo de segundo, eu voei”

Depois, veio uma agonia imensa, causada pela dor de ver Pam sofrendo por tudo o que perdera (em primeiro lugar, seus pais e um pouco do movimento das pernas — esses ao menos recuperáveis com a fisioterapia) e também escondendo sintomas importantes, o que nos leva à terceira sensação…

“O tempo passava por cima da gente sem piedade. A saudade não diminuía nunca”

Tristeza. Não porque “ah, coitadinha”, mas porque esse é o reflexo dos próprios sentimentos de Pam. Ela se fecha em si mesma, se isola, perde a vontade de viver. É até irônico ler essa parte, porque ela não quer mais sair de casa, enquanto nós daríamos tudo para podermos estar nas ruas novamente.

“Não havia mais motivos para sair da cama, quem dirá do quarto ou da casa”

Depois vem a esperança. A luz no fim do túnel. A vontade de seguir lendo e lendo para ver que as coisas podem melhorar. A esperança de que existam cadeados que podem ser abertos.

“Para cada cadeado, uma chave especial”

E claro que, por fim, há a alegria. Depois de todas essas sensações, nos deparamos com um final leve, porém verídico. Nada de contos de fadas, mas de realidades palpáveis.

“Ele me entendia; às vezes mais do que eu mesma”

Cadeados é narrado por personagens diversos. Apenas os trechos de Pam são em primeira pessoa, os dos outros personagens são em terceira pessoa. Essa dinâmica torna tudo ainda mais interessante, pois ao mesmo tempo que mergulhamos no universo da protagonista, temos a oportunidade de estar próximos dos demais personagens que, mesmo não sendo protagonistas, têm a sua importância.

“Eu podia ser independente, mas nunca estaria sozinha”

Como eu disse mais acima, no acidente, Pam perde os pais, um pouco dos movimentos da perna (coisa que se recupera depois) e… A audição. E essa é a grande temática desse livro, que nos ensina um pouco mais sobre o universo surdo, sobre as dificuldades encontradas nesse mundo, ainda não preparado para lidar com deficiências, mas que também nos mostra que ser ensurdecido (termo apresentado no livro, que designa ouvintes que, por algum motivo, deixam de ouvir) tem as suas dores particulares.

“Ouvi durante vinte três anos, deixar de depender de um sentido não era como um passe de mágica”

Como se já não fosse suficiente apresentar tudo isso que acabei de mencionar, o livro ainda consegue falar sobre relacionamentos abusivos e depressão. E nenhuma dessas temáticas entra de maneira forçada na história, muito pelo contrário.

“Amar não devia ser engolir todas essas porcarias”

Recomendo imensamente esse livro para quem quer aprender mais sobre surdez, mas também para quem tem estômago forte e nem um pouco de medo de permitir que um livro mexa imensamente com seus sentimentos. Uma leitura daquelas que precisam ser feitas com calma, ainda que a gente queira devorar tudo de uma vez, torcendo pelo “final feliz”, que pode vir das mais diferentes maneiras.

“Quando perdemos um sentido e o conquistamos de volta, percebemos o quanto as pequenas coisas são as mais importantes”

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A princesa salva a si mesma neste livro — Amanda Lovelace

Título: A princesa salva a si mesma neste livro
Original: The princess saver herself in this one
Autora: Amanda Lovelace
Editora: Leya
Páginas: 207
Ano: 2017
Tradutora: Izabel Aleixo

a princesa salva

A princesa salva a si mesma neste livro é aquele tipo de obra que eu sempre via em todas as livrarias por onde passava; também é um daqueles títulos que sempre me chamavam a atenção; por fim, já vi muitos elogios ao livro e à autora.

Depois de ler esta obra, consigo entender porque ela é tão aclamada: Amanda Lovelace aborda temáticas muito importantes e sérias, como depressão, estupro, bullying, perdas, amizade, amor e relações familiares. Tudo isso em poucas palavras, mas de maneira precisa.

Não posso, contudo, deixar de dizer que há algo que me incomoda: a autora se apresenta como poeta e, portanto, se propõe a fazer poesia. Ao ler esse livro, porém, o que encontrei foram frases quebradas, na tentativa de se fazer versos. E, muitas vezes, essas quebras mais atrapalham a fluidez da leitura do que ajudam. E se atrapalham a fluidez da leitura, como chamar de poesia?

Claro que também é preciso levar em consideração que este livro é uma tradução e que traduzir poesia não é tarefa para qualquer um. Mas tenho certeza que a tradutora deu o seu melhor e tentou se manter o mais fiel possível ao original que, creio eu, realmente foge um pouco de algo que eu chamaria de poesia.

Ainda assim, não posso negar que há textos realmente tocantes e muitas frases que ficam ressoando em nossas mentes, além de um outro tapa na cara bem dado. E existem duas poesias que faço questão de destacar aqui (com todas as ressalvas já feitas acima, mas que também ficarão de exemplo para que vocês tirem suas próprias conclusões):

Não há
água da chuva
suficiente
no céu
todo
para lavar
o
sangue
inocente
das suas mãos.

— a vida deles importará sempre

(pg. 174)

Bem atual, não?

Nós somos a geração
a quem você deu um
troféu de participante.

nós somos a geração
que você fez usar capacetes,
cotoveleiras e joelheiras.

nós somos a geração
a quem você deu cds censurados
& filmes com classificação indicativa.

nós somos a geração
a quem você passou anos superprotegendo
e depois jogou aos lobos.

agora nós somos a geração
que segue em frente com nada a não ser
café
& três horas de sono.

nós somos a geração
trabalhando por um salário mínimo
com diploma universitário.

nós somos a geração
ganhando só o suficiente
para sobreviver.

nós somos a geração
que você não queria ver fracassando
então se assegurou de que fracassássemos.

— millennials.

(pg. 178)

Essa foi uma das que considerei um tapa bem dado, um soco no estômago ou como você preferir chamar a reação de dor após ler essas palavras.

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Quando a noite cai — Alessandra Ribeiro de Abreu

Título: Quando a noite cai — a profecia
Autora: Alessandra Ribeiro de Abreu
Editora: Lettre
Páginas: 44
Ano: 2020

quando a noite cai blog

Quando a noite cai é uma fantasia escrita, principalmente, para você, que gosta de lobos, mas não só! A leitura é super rápida, porém este é apenas o primeiro livro, haverá uma continuação. E, definitivamente, o final nos deixa com aquele gostinho de “quero mais”. Este primeiro livro é mais introdutório, nos apresentando os personagens e os cenários da história. Mas não se engane, a narrativa não é nada monótona ou maçante, muito menos superficial.

“O mundo ainda era um caos, talvez até pior”

Logo de cara somos apresentados a Ryan e Rob, dois irmãos que têm sangue lobo.

“Existiam duas espécies de humanos. Humanos cem por cento normais e humanos com sangue de lobo”

Mesmo sendo parentes, porém, eles são muito diferentes: Ryan tem aquele jeito malvado e sempre pronto para aprontar, enquanto Rob é tranquilo e deseja o bem de todos. Por meio desses dois personagens podemos compreender, também, que alguns humanos com sangue lobo são bons (como Rob), enquanto outros se acham superiores (como Ryan).

“Não considerava os humanos fracos, muito pelo contrário. Admirava a capacidade que certas pessoas tinham de se doar pelos demais e era fascinado pela intensidade do amor que sentiam”

A apresentação desses dois personagens, porém, é só o início. Depois deles, conhecemos Joe, um ser humano que tem uma triste história de vida: perdeu seus pais quando ainda era criança. E eles foram, justamente, assassinados por um lobo. Mas não um qualquer, da raça Lýkos, como a maioria, mas um da raça Lýnk, que é ainda mais poderosa e destrutiva.

Movido pelo ódio e pelo desejo de vingança, Joe se torna um caçador, isto é, um dos profissionais responsáveis por manter Lýkos na linha e caçar os poucos Lýnk restantes (ainda que a maioria acredite que não resta mais nenhum deles…).

“Ia encontrar esse bicho e fazê-lo pagar por cada morte que causou. Custasse o que custasse”

O que mais me surpreendeu nessa narrativa foi que, mesmo ela sendo rápida e se tratando de uma fantasia, há diversas passagens que nos fazem refletir sobre nosso papel no mundo e sobre como enxergamos a nós e aos outros.

“A mesma ladainha estava para acontecer. Seres humanos culpando uma raça inteira por culpa de alguns que burlavam o sistema, como se seres da sua própria espécie não fossem capazes de coisas piores”

Apesar do seu desejo de vingança, Joe é um personagem muito sensato e é o que mais nos faz pensar. Agora, para saber como todas essas histórias se cruzam e se ele será ou não capaz de realizar o seu desejo, só quando o segundo livro sair. Guenta coração!

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Quando você perde também ganha — T. S. Rodriguez

Título: Quando você perde também ganha
Autora: T. S. Rodriguez
Editora: Publicação independente
Páginas: 27
Ano: 2019

quando você perde blog

Pedro é aquele garoto que tem tudo na vida e que insiste em passar uma imagem de si apenas para ser ainda mais aceito pelo seu círculo social. Ao mesmo tempo, ele provavelmente nunca refletira muito sobre isso.

“Você é o tipo garoto branquinho, bonitinho e cheio de privilégios, que desperdiça tudo isso agindo feito um babaca”

Um dia, porém, um acidente de carro faz com que Pedro tenha de ficar de cama, com as duas pernas engessadas. E, para não perder o ano escolar, o colégio lhe manda os conteúdos via email e pede que Vinicius, o melhor aluno da sala, vá visitá-lo todos os dias para explicar aquilo que o colega possa ter dificuldades em aprender sozinho.

“Não há nada de mal em parecer fraco às vezes. Todo mundo precisa de ajuda”

Acontece, porém, que Vinicius sempre fora alvo de piadinhas feitas pelos amigos de Pedro, e ainda que este nunca dissesse nada para ofender, era sempre conivente, rindo daquilo que os amigos diziam.

No primeiro dia que Vinicius vai até a casa de Pedro, este descobre que o colega dança ballet. Mas, ao contrário do que aconteceria se estivesse com os amigos, Pedro não faz nenhuma piada sobre o assunto e, pelo contrário, parece até se interessar pelo hobby do amigo, perguntando se ele tem interesse em seguir carreira na área.

Mas não é somente Pedro que se surpreende nesse primeiro encontro: Vinicius percebe que o colega é bem diferente daquela imagem que ele passava. Tinha livros no quarto e era mais inteligente do que demonstrava ser.

E é assim que vamos conhecendo mais desses dois jovens e vemos como um tem muito a ensinar ao outro. Vinicius dá várias lições em Pedro e este passa a se enxergar de formas que nunca imaginara antes.

Quando você perde também ganha é um conto rápido e cheio de lições. Uma história que poderia, inclusive, virar livro, mostrar os desdobramentos de cada acontecimento, ensinar ainda mais.

Brincadeira seria se todos achassem engraçado. Eu não acho. Quando só uma das partes ri e outra fica ofendida ou chateada, deixa de ser brincadeira e vira bullying, sabia?”

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