Loucuras de Verão (antologia)

Título: Loucuras de Verão
Autor: vários autores
Organização: Tati Iegoroff
Editora: Lettre
Páginas: 174
Ano: 2021

Logo logo chegam as águas de março, fechando o verão, mas, antes disso, por que não ler esta antologia quentinha? Claro que eu sou suspeita para falar qualquer coisa, pois sou a organizadora dela, mas estou muito feliz em ver tantos autores incríveis reunidos em um só lugar (e isso eu posso falar, já que só organizei a antologia, não contribuí com nenhum texto meu!). E sabe da melhor? Essa antologia é gratuita! Isso mesmo, você pode ler todos esses textos incríveis sem pagar nada por isso (já já explico melhor).

“Naquele pequeno fragmento de realidade eu era infinito como o oceano”

(Amor à primeira vista — Abraão Nóbrega)

Há quem ame e quem odeie o verão que, assim como qualquer outra estação do ano, tem o seu lado bom e o seu lado ruim. Se bem que também há quem diga que no Brasil só temos essa estação! Em que time você está?

Eu, confesso, não gosto de extremos: nem muito calor, nem muito frio. Mas o sol com certeza me dá uma alegria que aqueles dias cinzas logo espantam. Foi por isso que pensei que uma antologia leve, deveria ser sobre o verão, sobre férias, sobre aventuras e, por que não, sobre amor.

“Se a vista já valia a pena por si só, ambos sabiam que, para eles, aquela vista sempre seria descrita mil vezes mais bela do que, de fato, era”

(Uma semana de gelato e amor — Carolina Mantovani)

A proposta de “Loucuras de verão” era, portanto, reunir textos leves e, claro, relacionados ao verão. E isso os autores souberam fazer com maestria. Tem até história que se passa na neve, mas que soube muito bem captar o espírito da antologia!

“Naquele instante, o verão ficou frio”

(2000 verões — Alvaro Tallarico)

Algo que achei incrível foi a variedade de temas que surgiram para a composição da antologia. Sim, o fio condutor é a estação mais quente do ano, mas há textos mais reflexivos, inclusivos, aventureiros, românticos, de fantasia… Tirando quem curte terror, tem para todos os gostos!

“Muitos outros verões estavam por vir”

(Amor no Araguaia — Rubem Gleison)

Ao todo, Loucuras de verão conta com 22 textos. Sendo uma antologia, é possível apreciá-la aos poucos, como quem toma um sorvete. E ela também não foi feita para ler apenas no verão, porque há contos que são capazes de aquecer seu coração mesmo nos dias mais frios do ano.

“— Tu sofre estando sozinha, eu sofro estando com a minha mãe preocupada comigo todos os dias. Eu tenho dores que correm da ponta dos meus dedos da mão até os dos pés, tu tem dores nos olhos cansados de tanto ler palavras sem sentido. Eu sei que parece diferente, mas é que dor não tem medida”

(Não importa a forma que a gente exista — Grazi Ruzzante)

Como eu disse lá no início, esta é uma antologia gratuita. Então, se você tem interesse em conhecer esse trabalho (e se me permite um conselho: conheça!) basta clicar aqui e garantir o seu arquivo.

O alquimista prodígio e a cidade do amanhã — Leblon Carter

Título: O alquimista prodígio e a cidade do amanhã
Autor: Leblon Carter
Editora: LN Editorial
Páginas: 38
Ano: 2021

Alô amantes de fantasia, que tal conhecer um conto nacional e muito bem escrito?

Ano passado eu trouxe a resenha de O alquimista prodígio e a espada de cobre e se você ainda não viu, é só clicar aí e conferir. Este conto, como já é de se imaginar, passa-se no mesmo universo do livro mencionado, mas, como explica o autor, acontece três anos antes do início da história que resenhei, sendo, portanto, possível ler cada obra de maneira independente.

Se você já leu O alquimista prodígio e a espada de cobre (APEC) este conto é uma oportunidade para adentrar mais este universo e, claro, matar a saudade. Por outro lado, se você nunca leu APEC, o conto é uma forma de entrar em contato com a escrita do autor e se apaixonar pela forma como ele consegue colocar a sua imaginação em palavras.

Logo de cara somos impactados com a forte presença de Versacce, Imperatriz do Clã dos Alquimagos do Sul e de Relucce, sua filha. A relação entre elas, por mais que tenhamos apenas um vislumbre, é muito bonita.

Em seguida, juntam-se a elas Bacci e Marceon. Bacci, como logo fica claro, é o pai de Relucce, mas não mora mais com elas, tendo construído uma nova família no norte, tornando-se Mestre do Clã dos Alquimagos do Norte. Marceon é seu filho com a nova esposa e é evidente a rixa que há entre os meio irmãos.

O ponto central deste conto é uma discussão que há entre Bacci e Versacce, que precisam tomar uma importante decisão. E, enquanto eles estão neste debate, Relucce e Marceon acabam se aventurando pelo palácio e se metendo em uma grande enrascada.

Uma vez mais, Leblon Carter nos lembra que é importante estarmos de olhos bem abertos e não nos deixarmos levar pelas aparências, porque nem tudo é o que parece ser… O alquimista prodígio e a cidade do amanhã é um conto para ser lido até a última página com muita atenção e com a certeza de que sempre haverá uma surpresa à espera.

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A vida pelos olhos da guarda real (antologia)

Título: A vida pelos olhos da guarda real
Autor: vários autores
Organização: Naylane Sartor
Editora: Essência Literária
Páginas: 172
Ano: 2020

Quantos de nós, brasileiros, já paramos, alguma vez em nossas vidas, para pensar como seria a vida de um guarda real? Ok, eles são seres humanos como qualquer outro, mas possuem um trabalho extremamente rígido. Será que dá para ser realmente normal com uma rotina dessas?

“Coloquei minha farda acima dos meus sentimentos e me tornei um dos melhores no meu ramo, mas a que preço?”

(Sob a proteção do guarda real — Nathany Teixeira)

A proposta desta antologia é justamente isso: nos fazer embarcar nesse universo e imaginar o que ocorre antes, durante e depois do serviço de um guarda real. E, veja bem, não há guardas reais apenas na Inglaterra não!

Aliás, isso é algo muito interessante deste livro: o tanto que ele tem a nos ensinar. Mesmo para as autoras, foi um desafio escrever as histórias (elas mesmas comentaram isso nesta live) e elas se dedicaram a buscar informações para trazer elementos concretos, que foram muito bem mesclados às narrativas que cada uma criou.

Ao todo, nos deparamos com cinco histórias e, apesar da temática em comum, cada uma delas tem o seu toque especial. O primeiro conto, por exemplo, chama-se “Quebrando regras” e foi escrito pela autora Denilia Carneiro. Só pelo título já dá para imaginar que lá vem confusão pela frente, né?

Trata-se da história de uma irmã da mais nova princesa britânica e, através desta jovem, percebemos como nem todos têm interesse em fazer parte de toda a grandiosidade que a realeza representa.

“Eu gosto de liberdade e ser princesa, de certa forma, te deixa presa”

(Quebrando regras — Denilia Carneiro)

O segundo conto, por sua vez, traz um título que atiça a curiosidade de qualquer um. Trata-se de “O guarda solitário“, escrito por Maya Brito.

A história começa com aquele clichê de uma pessoa (no caso, Theo Truman, um guarda real) que tem o coração fechado e que resiste a se entregar ao amor, mas que, na possibilidade de perder a pessoa que, no final das contas, ama, acaba tomando uma decisão.

“E quando ela saiu do meu quarto e da minha vida, eu me tornei o hipócrita que disse não ser”

(O guarda solitário — Maya Brito)

Esse conto é lindo, como tudo o que a Maya Brito escreve (você pode ler a minha resenha de “A melodia da alma” que está virando livro!).

O terceiro conto, isto é, o conto central da antologia, nos transporta para outra realidade: o convento de Mafra, em Portugal. O título deste é “Certo ou errado” e foi escrito por Mila Paziol. Uma história de amor muito bonita, com uma linda lição de vida.

Em seguida, somos apresentados a Oliver Jones em “Sob a proteção do guarda real“, da Nathany Teixeira. Uma história de vidas que se cruzam de maneiras inesperadas, nos fazendo refletir sobre nossas escolhas e sobre as pessoas que nos influenciam.

“Não pode permitir que alguém escolha qual sonho você deve sonhar”

(Sob a proteção do guarda real — Nathany Teixeira)

Por fim, vem o conto da Naylane Sartor, “Jasper, o corgi cupido“, um conto que consegue dar voz até mesmo a um cachorro! Dei boa risadas com essa história.

A leitura dos contos é leve e rápida, ainda que, em alguns contos, houvesse tantos erros de português que a fluidez da leitura tenha sofrido um pouco. Não costumo comentar sobre isso em minhas resenhas, principalmente de obras nacionais, pois sei o quão difícil é entregar uma obra impecável e que isso, muitas vezes, não depende apenas do revisor, mas, infelizmente, neste caso realmente atrapalhou um pouco a minha experiência de leitura que, se não fosse por isso, teria sido maravilhosa, pois achei a proposta desta antologia realmente muito diferente do que estou acostumada a ver.

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O casamento — Tayana Alvez

Título: O casamento
Autora: Tayana Alvez
Editora: Publicação independente
Páginas: 336
Ano: 2020

Como a própria Tayana nos revela, O casamento era para ser apenas um conto que nos mostrasse o que vem depois do “felizes para sempre”, mas, felizmente, ele virou uma história bem maior e intensa.

“Foi completamente inevitável amá-la com todo o meu coração”

Ao longos das páginas deste livro não são poucos os sentimentos que vêm à tona. E não é à toa, portanto, que uma das coisas que mais fica evidente nesta narrativa é importância da terapia.

“O amor é superar as adversidades, suportar o outro, engolir o próprio orgulho e despir a alma. Amar é estar vulnerável”

Uma vez mais nos encontramos com Júlia, Robert, Annabelle e Alice. Agora, porém, eles estão começando a construir uma família. E, outra diferença com relação a O irlandês é que, neste volume, os capítulos se alternam entre Júlia e Robert, e alguns trechos inclusive retomam passagens do primeiro livro, conectando ainda mais as histórias.

“E talvez o amor seja isso, duas pessoas com problemas e imperfeitas que lutam para fazer dar certo diariamente”

Outra coisa que achei muito interessante é que este livro se passa na pandemia! Sim, na pandemia que ainda estamos vivendo. Ou seja, pela primeira vez vi, em uma história, os personagens em quarentena, usando máscaras e álcool gel ao sair… Foi uma experiência bem diferente. E lembrando que a história se passa na Irlanda, então tive um gostinho de como as coisas se desenrolaram por lá no ano passado.

“Não é o melhor dos mundos conviver constantemente com uma ameaça”

O que me encanta e me surpreende nas histórias da Tayana é como ela consegue nos entregar um relacionamento tão real e tão encantador. E claro que, neste livro, não seria diferente: Robert e Júlia têm ainda muitas marcas da vida que precisam superar. Mas quem não tem? Que casal é 100% do tempo totalmente seguro de si?

“O amor não é sobre merecer, é sobre encontrar alguém, entre bilhões de pessoas no mundo, que te aceite com os seus defeitos e com quem você, apesar dos defeitos dela, queira viver a vida inteira ao seu lado. O amor é muito mais sobre ser grato pelo encontro de duas almas do que um atestado de merecimento”

Esse discurso sobre merecimento pega lá no fundo, né? Quem nunca sentiu que “não era suficiente” para alguém que ama/amava? E isso aparece em diversos momentos da história, tanto por parte de Júlia quanto de Robert.

“Mulheres negras têm sorte quando o namorado as apresenta para os amigos e anda de mãos dadas com elas na rua”

Mas O casamento vem para nos lembrar que nenhum casal é perfeito, porém que a harmonia pode existir se houver, em primeiro lugar, diálogo (e amor e respeito, claro, mas isso esse casal já demonstra desde o primeiro volume).

“Rob e eu tínhamos um diálogo super aberto, até não termos mais. Não me isento de culpa porque eu também me calei por muito tempo, mas a diferença é que eu cedi e ele não”

Eu sempre digo isso em minhas resenhas das obras da Tayana Alvez, mas vou dizer novamente: vale a pena conhecer cada uma delas. Para além de um romance envolvente, a autora sempre tem algo novo a acrescentar às nossas reflexões, além de uma visão que poucos encontramos por aí: a de uma mulher negra que sabe o que é ser brasileira e que também sabe o que é viver em outro país.

“Apesar de tudo, nem nos meus sonhos mais esperançosos imaginei que Robert estaria aqui por mim e pelas minhas cicatrizes e não por ele”

Se você se interessou por O casamento, não deixe de clicar aqui e saber mais sobre esse livro maravilhoso.

Eu, meu melhor amigo e o cadáver que acabamos de enterrar — Adrielli Almeida

Título: Eu, meu melhor amigo e o cadáver que acabamos de enterrar
Autora: Adrielli Almeida
Editora: Publicação independente
Páginas: 31
Ano: 2020

Costuma-se brincar que melhor amigo de verdade é aquele que estará ao nosso lado mesmo se matarmos alguém. E que ainda vai nos ajudar a enterrar o corpo! Adrielli Almeida, jogando com isso, criou uma história que inclui fatores, digamos, sobrenaturais, uma vez que o protagonista Kaio realmente tem de lidar, por diversas vezes, com mortos.

“Kaio era o que as pessoas podiam chamar de ceifador…”

Geralmente, porém, Kaio tem de lidar apenas com fantasmas, não com os corpos em si. Tanto é que, o fato de ser um ceifador, é segredo até mesmo para Cedrico, seu melhor amigo. Mas, em uma noite, tudo muda e amizade desses dois jovens é colocada à prova.

Abordando de maneira bem sútil a questão do suicídio, Adrielli Almeida insere na história uma celebridade, Otávio Augusto, que precisa de uma ajudinha de Kaio para, finalmente, descansar em paz. Kaio, por sua vez, precisará de um favorzinho de Cedrico para se livrar do fantasma de Otávio Augusto.

A história é narrada em terceira pessoa, nos fazendo sentir quase como um quarto elemento desse grupo bem peculiar, que tem muitos outros segredos a nos revelar.

Apesar de parecer uma leitura extremamente macabra, Eu, meu melhor amigo e o cadáver que acabamos de enterrar é uma narrativa engraçada e, por ser um conto, bem rapidinha de ler. Uma leitura para te fazer pensar sem que você perceba.

Ficou com vontade de ler também? Então clica aqui e conheça Kaio, Cedrico e Otávio.

O irlandês — Tayana Alvez

Título: O irlandês
Autora: Tayana Alvez
Editora: Publicação independente
Páginas: 294
Ano: 2020

Uma vez mais, Tayana Alvez nos presenteia com uma obra que traz como protagonista uma mulher negra. E dessa vez ela vai ainda mais além, colocando em sua história muitos elementos sobre ser uma intercambista na Irlanda.

A ambientação irlandesa, assim como os detalhes, incluindo os perrengues do intercâmbio, são muito bem escritos, pois Tayana viveu tudo isso na pele. O que significa que em O irlandês nós somos transportados e essa viagem, mas ficamos com a parte boa do conforto de nossas casas.

“É bom sentir que o passado está no passado e que temos a vida inteira pela frente”

O fato da autora ser brasileira enriquece ainda mais essa história, pois ela pode nos apresentar com propriedade as diferenças culturais que há entre esses países, tornando a nossa imersão ainda mais completa e real.

“Ouvir da boca de um irlandês que você é o seu amuleto mais precioso é quase tão bonito quanto ouvir um eu te amo”

A protagonista deste livro é Júlia, que sai de Nilópolis (na Baixada Fluminense) para tentar a vida fora do país. E sim, tentar a vida, porque ela espera que o intercâmbio seja apenas uma porta, pela qual ela não pretende voltar tão cedo.

Para isso, porém, Júlia tem de trabalhar muito. Literalmente. E, como trata-se de um intercâmbio estudantil, ela tem de estudar também. Mas sabe aquelas pessoas que não sabem dizer “não”, principalmente quando surge mais uma oportunidade de ganhar um dinheirinho que fará diferença no final do mês? Pois bem, essa é Júlia.

“Quanto mais dinheiro você tem, mais dinheiro quer ter”

E é por não saber/não querer dizer “não” que Júlia, mesmo já trabalhando como garçonete e como cuidadora (em algumas noites), começa a cuidar de Annabelle e Alice. Ela tem de ficar apenas algumas poucas horas com as meninas, entre o fim do expediente da babá e o retorno do pai, Robert.

“Eu estou preparada para muita coisa. Mesmo. Até curso de primeiros socorros eu tenho, mas a dor do abandono de uma mãe? Isso eu não sei como lidar…”

E é assim que vamos, aos poucos, conhecendo essa protagonista tão cheia de si, mesmo que tenha seus medos, inseguranças e, claro, marcas do passado. Júlia sabe de onde vem, mas também sabe onde quer chegar e, ao mesmo tempo, sabe que terá de lutar em dobro simplesmente porque é uma mulher negra.

“Isso pesa. Essa sensação de nunca ser boa o bastante, de ser parada por causa da minha cor, de ser uma subcategoria de mulher porque nasci com mais melanina do que outras pessoas”

Por outro lado, também vamos cada vez mais conhecendo Robert e suas encantadoras meninas. E é muito instigante querer saber mais sobre o seu passado. Sobre as marcas que ele carrega. E as meninas, de certa forma, ainda que sejam muito jovens.

“Dói demais ver uma criança sofrer tanto”

O fato de termos uma (quase) babá e uma pai solteiro com um passado e tanto, me lembrou um pouco Alameda do Carvalho, outra história que gostei muito. A experiência de leitura de cada uma dessas histórias, porém, é bem única, porque os rumos que o enredo toma e o que está por trás de cada trauma são bem diferentes.

O irlandês tem tudo para ser um clichê, mas também tem muito mais para transformá-lo numa história rica e capaz de nos transmitir mensagens importantes como a necessidade de um bom diálogo em qualquer tipo de relacionamento, bem como a solidão da mulher negra (e, por mais que isso possa soar um pouco solto dito assim, fica muito claro o significado disso quando você lê essa história).

“Então é assim que as pessoas se relacionam quando elas têm um bom diálogo e não escondem medos e inseguranças?”

Ah, e claro, tudo isso é feito através de uma narrativa envolvente, daquelas que te fazem rir no momento certo e ficar com o coração apertado na mesma medida.

Ficou com vontade de conhecer a Julia, o Robert e as meninas? Então clica aqui.

Dê um match — Maicon Moura

Título: Dê um match
Autor: Maicon Moura
Editora: Publicação independente
Páginas: 13
Ano: 2020

Um título com um imperativo desses pode fazer parecer que este conto é o que não é. Mas a verdade é que nada nele é o que uma primeira olhada indica.

Então não ache que nessas 13 páginas você encontrará fórmulas mágicas de como conseguir muitos matches no tinder. Acho que mais fácil você encontrar o que não fazer nesse aplicativo, ainda que haja as inserções de Otávio, um personagem que tem várias frases prontas de “conselhos de beleza e afins”.

Entre nos alertar, de maneira sutil, sobre os perigos do Tinder e nos fazer rir com as abobrinhas de Otávio, esta história toma rumos e chega a um desfecho que acho difícil não te deixar de queixo caído.

Ao mesmo tempo que pensamos “puts, como eu não pensei nisso”, a leitura de Dê um match também nos faz pensar como a imaginação do autor foi longe! E olha que não é a primeira obra do autor que eu leio (você pode conferir as resenhas anteriores aqui e aqui), mas mesmo assim eu fui surpreendida pela quarta vez.

Então deixo a dica de que se você for ler algo do Maicon, já leia pensando “o que será que ele vai me aprontar dessa vez?”.

Ah, e claro, não deixe de conhecer Dê um match.

Céu de menta — Camila Martins

Título: Céu de menta
Autora: Camila Martins
Editora: Hope
Páginas: 185
Ano: 2018

Depois que li O que me faz pular, tornei-me uma leitora que não pode ver livros sobre autismo que já quer devorar todos. E assim foi com Céu de menta que, no entanto, é bem diferente de qualquer outra leitura que eu já tenha feito sobre o tema.

“Como se deixar envolver por algo que não se conhece?”

Comecemos pelo fato de que Céu de menta é uma ficção (enquanto os demais livros que li geralmente foram não-ficção ou ficção baseado em fatos reais, coisa que não sei se é aplicável neste caso). E Céu de menta é uma ficção que nos mostra uma vida muito normal, afinal de contas, o autismo não é algo que nos torne incapazes de sentir e viver. A narrativa é bem doce e, por vezes, um pouco parada. Mas nada que torne esta história menos especial.

Sem grandes ambientações (a história se passa quase toda entre casas vizinhas de uma pequena cidade), Céu de menta nos mostra duas famílias extremamente diferentes que vivem lado a lado.

“Ser feliz com pouco, e curtir isso, é um dom”

Primeiro somos apresentados aos Salles, família formada por Carolina (mãe), Roberto (pai), Ana Maria (a protagonista) e Davi (o irmão mais novo). Depois, aos Alencar, família formada por João (o vizinho de Ana e também protagonista desta história), sua vó Clara, suas duas irmãs mais velhas e rebeldes (Paula e Bianca), sua mãe acamada (Sílvia) e seu pai ausente (Paulo). Acho que essa descrição já deixou bem claro que não temos aqui uma família muito fácil, não é mesmo?

“A família Alencar sempre foi uma granada prestes a explodir”

E tem mais: a família de Ana é simples, vive muito bem com o que tem e mudou-se para essa pequena cidade com o intuito de oferecer uma vida melhor à filha, portadora de TEA (Transtorno do Espectro Autista), enquanto a família de João está mergulhada numa vida de ostentação material, mas de ausência de amor. Contudo, mesmo tendo crescido nesse ambiente, João é um garoto calmo, compreensível e amoroso.

“João era um diamante em meio aos cacos de vidro”

É ele quem, ainda jovem, aproxima-se de Ana. E assim nasce uma amizade muito linda, já que ele está disposto a compreender a amiga e fazer de tudo para sempre deixá-la confortável. Os pais de Ana, claro, veem essa amizade com bons olhos, pois também sabem da raridade de se encontrar pessoas como João no mundo.

“Não tem preço ter alguém inteiro em nossas vidas. São raridades”

O mais bonito desta história, porém, é ver como ambos têm suas dificuldades e como um pode ajudar — e muito — o outro. Cada um com o seu jeito, cada um com suas habilidades, Ana e João crescem e amadurecem juntos. E claro que, nesse caminho, alguns percalços acontecem, fazendo com que a autora aborde questões como a pressão sobre os jovens na escolha de uma carreira, depressão, as máscaras da nossa sociedade, preconceito…

“Como chegar perto de alguém que se cercou de um enorme muro?”

Logo no início, o título do livro já passa a fazer sentido, mas somente ao final é que o entendemos realmente, e ainda com uma última bela lição deixada pela autora.

Aliás, temos muito a aprender com Céu de menta e um dos aprendizados que mais me marcou é de que o fato de uma pessoa não saber muito bem como lidar e demonstrar seus sentimentos, não significa que ela não sente (e muito!).

“Ah, como Ana ama abraços. Ah, como é difícil para Ana entender os abraços”

Se você busca um livro com uma protagonista autista e, ao mesmo tempo, quer ler algo bem leve, com certeza é Céu de menta que você procura. Então clica aqui e saiba mais sobre essa história que vai te deixar com um quentinho no coração.

A bibliotecária de Auschwitz — Antonio G. Iturbe

Título: A bibliotecária de Auschwitz
Original: La bibliotecaria de Auschwitz
Autor: Antonio G. Iturbe
Editora: Harper Collins Brasil
Páginas: 402
Ano: 2016
Tradutor: Dênia Sad

Ao mesmo tempo que queria muito falar sobre esse livro, adiei por diversas vezes esta resenha. E olha que ler livros sobre o período do holocausto é algo que tenho o hábito de fazer, motivada por um fascínio que talvez só se explique pelo fato de que quanto mais leio, menos acredito que uma coisa dessas pode ter acontecido de verdade.

“Em Auschwitz, a vida humana vale menos que nada”

Claro que a primeira coisa que me chamou a atenção foi o título desta obra. E, num primeiro momento, não pelo estranhamento que ele deveria causar, e sim porque qualquer coisa relacionada a livros chamaria a minha atenção. Mas livros em Auschwitz?

“Os livros em Auschwitz oficialmente não existem”

Sim, livros em Auschwitz. É difícil explicar como eles chegaram até ali e como ali permaneceram, mas também é difícil não se envolver nessa narrativa que mistura ficção e realidade e que cita ou faz paralelos — de maneira direta ou indireta — com tantas outras obras literárias, inclusive a minha mais longa leitura de 2020: As mil e uma noites.

“No entanto, houve sim um dia em que a infância se fechou como a gruta de Ali Babá e ficou sepultada na areia”

Narrado em terceira pessoa, A bibliotecária de Auschwitz nos dá um excelente panorama dos horrores que aconteciam em um campo de concentração, ao mesmo tempo que consegue focar em alguns personagens chave que dão vida e nos prendem à essa narrativa tão densa.

“Pediram que ele fizesse algo que estava além de suas forças. Além das forças de qualquer um”

A primeira personagem que não posso deixar de mencionar, por ser a protagonista desta história — ainda que protagonismo seja uma palavra difícil de usar neste contexto — é Edita (ou Dita) Adlerova, a bibliotecária.

“Mais do que um bibliotecária, desde esse dia ela se tornou uma enfermeira de livros”

A bem da verdade, Dita era apenas uma jovem que perdeu sua adolescência para o nazismo. Mas ela ainda teve “sorte” de poder trabalhar no bloco 31, que funcionava como uma escola. Claro que, aos olhos dos guardas, nada demais se ensinava, mas aquele era um refúgio e também um bloco de resistência. Até de sonhos, se é que se pode dizer isso.

“Não importa quantos colégios os nazistas fechem, respondia. Cada vez que alguém se detiver num canto para contar algo e algumas crianças se sentarem ao redor para escutar, ali terá sido fundada uma escola”

E, quando falamos no bloco 31, não podemos deixar de mencionar Fredy Hirsch, outro personagem de extrema importância para esta narrativa. Ele era o diretor do bloco e uma pessoa que inspirava a todos, um símbolo de luta e resistência. Mas, por trás daquela máscara que vestia, parecia esconder muita coisa.

“Em Auschwitz, quase nada é o que parece”

A partir de Dita e Fredy, a narrativa vai se construindo, nos apresentando outros personagens que também ganham o seu destaque na história, como a própria família de Dita. É interessante perceber como em Auschwitz todos estão sozinhos e, ao mesmo tempo, sem cada pessoa que aparece na narrativa, ela não seria a mesma.

“Dita Adlerova se movimenta sozinha em meio a centenas de pessoas, mas corre sozinha. Sempre corremos sozinhos”

Ainda que fale muito sobre o campo de concentração, A bibliotecária de Auschwitz não se resume a esse espaço. Conhecemos um pouco da vida de Dita antes dela ir para lá, quando ainda vivia plenamente em Praga e, depois, quando passou a viver na murada cidade de Terezín, que já era um preparo — sem nada preparar — para o que viria a seguir.

“Terezín era uma cidade onde as ruas não levavam a parte alguma”

Mas não são apenas os espaços que variam nesta narrativa: há temas muito importantes e interessantes abordados ao longo destas páginas. São passagens sobre homofobia, sobre o peso da vida e sobre a importância da educação que contribuem para tornar esta narrativa ainda mais rica e impactante.

“Ao longo da história, todos os ditadores, tiranos e repressores, fossem arianos, negros, orientais, árabes, eslavos ou de qualquer outro tom de pele, defenderam a revolução popular, os privilégios das classes nobres, os mandamentos de Deus ou a disciplina sumária dos militares. Qualquer que fosse sua ideologia, todos tiveram algo em comum: sempre perseguiram os livros com verdadeira sanha. São muito perigosos, fazem pensar”

Outra coisa que chamou muito a minha atenção durante a leitura foi que, no bloco 31, além de alguns raros exemplares em papel, eles contavam com “livros vivos“, isto é, professores que sabiam alguma história de cabeça e as contavam aos alunos. Isso, sem dúvidas, me fez lembrar das bibliotecas vivas e é muito estranho (ou doloroso?) pensar como, no fundo, ambas podem ter nascido de uma mesma raiz: o preconceito.

“Naquele lugar tão escuro em que a humanidade chegou a alcançar a própria sombra, a presença dos livros era um vestígio de tempos menos lúgubres, mais benignos, quando as palavras ressoavam mais do que as metralhadoras”

E, por falar em livros, já mencionei como esta história nos faz lembrar de tantas outras, como não poderia deixar de ser, uma vez que diversas passagens exaltam o poder que a literatura tem. Mas há uma passagem em específico que me lembrou muito É isto um homem?, outro livro sobre o holocausto que já li e que considero extremamente marcante:

“A primeira lição que qualquer veterano dá a um recém-chegado é a de que sempre se deve ter claro seu objetivo: sobreviver. Sobreviver mais umas horas e assim acumular mais um dia, que somado a outros poderá se transformar em mais uma semana. E assim sucessivamente: nunca fazer grandes planos, nunca ter grandes objetivos, apenas sobreviver a cada momento. Viver é um verbo que se conjuga no presente”

Se a história de A bibliotecária de Aushwitz nos deixa com algumas dúvidas, ao final, o autor faz alguns esclarecimentos muito interessantes e que eu recomendo fortemente que você não pule. Inclusive, uma das mensagens deste trecho é:

“Com pão para comer e água para beber, o homem sobrevive, mas só com isso a humanidade inteira morre”

Por fim, eu gostaria de comentar que a experiência de ter lido este livro pode ter sido ainda mais intensa pelo fato de estarmos em isolamento social. Por diversas vezes me vi pensando: as pessoas têm reclamado de estar em casa, de não poder sair, mas veja bem, estamos no conforto de nossas casas, com comida, água, podendo ter a melhor das higienes e com acesso a internet. Tudo isso é muito mais do que qualquer paraíso sonhado por um prisioneiro de Auschwitz.

“Os ingleses pensavam que libertariam um campo de prisioneiros, mas o que encontraram foi um cemitério”

Se você se interessou por esta obra histórica, densa e envolvente, clique aqui.

Enlace — Ana Farias Ferrari & Érulos Ferrari Filho

Título: Enlace
Autores: Ana Farias Ferrari & Érulos Ferrari Filho
Editora: Publicação independente
Páginas: 45 
Ano: 2020

Se você acompanha este blog, provavelmente viu a resenha de Não quero patos elétricos, que foi uma leitura bem diferente do que estou acostumada a fazer. E, logo depois deste livro, resolvi ler Enlace, que também era algo que eu já imaginava ser totalmente fora da minha zona de conforto.

Apesar de muito mais curta — afinal, trata-se de um conto — a leitura de Enlace já foi mais difícil para mim, por realmente adentrar na ficção científica e abordar a questão das inteligências artificiais (que, para muitos — eu inclusive — ainda é um universo praticamente desconhecido). Uma narrativa breve, mas com uma profundidade sem igual, que fui apreciando aos poucos.

Aliás, este conto vai além disso, pois nos apresenta, dentre os personagens, à inteligência artificial mais evoluída já criada pela humanidade. Uma IA capaz de raciocinar e até de ser empática! E Enlace é o título desta história, mas também o nome da tal inteligência artificial retratada. Ela é enviada ao espaço com dois seres humanos que compartilham um passado. E um passado recheado de… Sentimentos!

“Eu sou quem sou porque vivi essa experiência, sem ela eu não sei quem eu seria”

Pelo pouco que sei sobre inteligências artificiais, vejo-as com máquinas com uma enorme capacidade de raciocínio. Mas raciocínio lógico, daqueles que segue uma regra e que pode acabar por errar diante de qualquer coisa que fuja à essa regra. Enlace (a inteligência artificial) surpreende, nesta história, por isso: ela dialoga com os seres humanos que a controlam, dando respostas ou reagindo de uma maneira que não seria esperada para uma inteligência artificial.

“Existir vale a pena, mesmo com risco de dor, mesmo com risco de sofrimento”

Aos poucos, porém, vamos compreendendo (assim como os humanos da narrativa) porque isso acontece. E, então, somos encaminhados a um desfecho que, uma vez mais, nos deixa estarrecidos (daqueles que você sente sua cabeça explodindo e uma voz ao fundo dizendo “uau!”).

Por fim, é preciso mencionar ainda uma particularidade da obra: ela foi escrita a quatro mãos, por pai e filha! Ao longo da leitura, porém, senti a narrativa bem uniforme, sem conseguir distinguir o que foi escrito por cada um. A história é em terceira pessoa e consegue nos apresentar muito bem todas as nuances que a história precisava ter.

Mais do que desvendar todos os mistérios desta narrativa, a leitura de Enlace também vale a pena porque todo o valor arrecadado com a venda do ebook será doado ao Grupo Noel, que trabalha com famílias em situação de vulnerabilidade social.

Se você quer conhecer essa história, clique aqui.