Até o fim — Chico Buarque

Por volta do ano de 2007 aprendi, pela primeira vez — e muito por acaso — o que era intertextualidade. Eu estava lendo Crescer é perigoso (Marcia Kupstas), para a escola, quando deparei-me com a palavra “gauche” que eu, desatentamente, li “guache” (sim, tipo a tinta) e, achando engraçado que um anjo dissesse para um menino “ser guache na vida” (porque a pessoa seria tinta na vida?) comentei com meus pais, que logo trataram de desfazer meu mal entendido.

Mas não só: minha mãe, como boa apreciadora de Drummond, logo me explicou que essas palavras faziam parte de um de seus poemas. E também, claro, logo me explicou o real significado de “gauche” (e não guache, por favor). E assim, “Vai Carlos, ser gauche na vida” ficou ressoando dentro de mim.

Essa passagem liga-se a outra de minha vida: desde que me conheço por gente, temos o hábito de ouvir música aos finais de semana (todos ouvirmos a mesma música, no caso). Cresci ouvindo MPB e no meio de tanta coisa, com certeza ouvi várias e várias vezes Até o fim, cantada por Chico Buarque e Ney Matogrosso.

Foi somente em 2008, porém, que descobri que esta canção também tem a sua intertextualidade com o Poema de Sete Faces, de Carlos Drummond de Andrade. E, ao descobrir isso, logo lembrei de Crescer é perigoso e tudo isso passou a ser tão especial para mim.

Mas não foi o simples fato de eu ter aprendido na prática o significado de intertextualidade que tornou tudo isso especial. Foi, sem dúvidas, o significado, principalmente da música, que por anos a fio usei como “frase de status”.

Enquanto ouvimos Até o fim podemos ver uma história se construindo diante de nossos ouvidos. A história de um garoto que cresce, mas que, não importa a idade, é sempre acompanhado pela sina decretada pelo querubim, isto é, a de ser errado.

Mas, como em tantas músicas de Chico Buarque, que viveu poucas e boas como artista brasileiro, há a esperança. A esperança de ir até o fim, mesmo sendo errado. A esperança de continuar lutando pelo não errado.

Deixo, portanto, as palavras desta canção, bem como, ao final, a música, para que vocês possam ouvir e acompanhar.

Quando nasci veio um anjo safado
O chato do querubim
E decretou que eu estava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim
“inda” garoto deixei de ir à escola
Cassaram meu boletim
Não sou ladrão , eu não sou bom de bola
Nem posso ouvir clarim
Um bom futuro é o que jamais me esperou
Mas vou até o fim
Eu bem que tenho ensaiado um progresso
Virei cantor de festim
Mamãe contou que eu faço um bruto sucesso
Em quixeramobim
Não sei como o maracatu começou
Mas vou até o fim
Por conta de umas questões paralelas
Quebraram meu bandolim
Não querem mais ouvir as minhas mazelas
E a minha voz chinfrim
Criei barriga, a minha mula empacou
Mas vou até o fim
Não tem cigarro acabou minha renda
Deu praga no meu capim
Minha mulher fugiu com o dono da venda
O que será de mim ?
Eu já nem lembro “pronde” mesmo que eu vou
Mas vou até o fim
Como já disse era um anjo safado
O chato dum querubim
Que decretou que eu estava predestinado
A ser todo ruim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim

Notícias do Brasil — Milton Nascimento

É de conhecimento de poucos — principalmente porque eu me recuso a cantar sozinha em qualquer circunstância — que durante anos fiz aulas de coral. E esse é apenas mais um dos motivos pelos quais conheço tantas músicas brasileiras.

Entrei em contato, desde cedo, com muita coisa boa. E claro que algumas músicas me marcaram mais que outras. Notícias do Brasil é uma delas. Uma canção animada, mas que me faz refletir, me faz querer dizer “sim, é isso!”.

Trata-se de uma canção composta por Milton Nascimento e Fernand Brant (grande dupla!) lançada em 1981, sendo parte integrante do álbum Caçador de Mim (nome de outra música muito bonita, aliás).

E o que torna essa música tão especial? Bem, basicamente tudo. A começar que, na primeira estrofe, fazemos praticamente uma viagem pelo Brasil, saindo do norte e do nordeste e chegando ao sul do país. Percorremos esse caminho como percorre uma notícia.

Mas tal notícia chega como um grito, como uma voz que quer se fazer ouvida: a voz do povo. Do povo que merece (e exige) respeito, e que, um dia, será unido. Triste pensar que se trata de uma música de 1981 e ainda não atingimos tal união… E muito menos comprovamos sermos mais “sábios que quem quer nos governar”.

Mas, na música, há outra novidade anunciada aos quatro cantos: a grandeza e a riqueza do Brasil. Um país que é muito mais que as prais lindas que tem e com gente boa vivendo em todo o seu território. É isso que a última estrofe nos apresenta e ela é tão bela e verdadeira que é inclusive repetida na canção.

Mas Notícias do Brasil não é incrível apenas por sua excelente letra, mas também pela própria musicalidade da canção. Um ritmo bem brasileiro, mas que não tira a seriedade e sobriedade do anúncio que se propõe a fazer.

Você já conhecia essa música? Deixo a letra abaixo e também um clip com ela. Espero que aproveite e não deixe de me contar o que achou!

Uma notícia está chegando lá do Maranhão
Não deu no rádio, no jornal ou na televisão
Veio no vento que soprava lá no litoral
De Fortaleza, de Recife e de Natal
A boa nova foi ouvida em Belém, Manaus
João Pessoa, Teresina e Aracaju
E lá do Norte foi descendo pro Brasil Central
Chegou em Minas já bateu bem lá no Sul

Aqui vive um povo que merece mais respeito
Sabe belo é o povo como é belo todo amor
Aqui vive um povo que é mar e que é rio
E seu destino é um dia se juntar
O canto mais belo será sempre mais sincero
Sabe tudo quanto é belo será sempre de espantar
Aqui vive um povo que cultiva a qualidade
Ser mais sábio que quem o quer governar

A novidade é que o Brasil não é só litoral
É muito mais é muito mais que qualquer Zona Sul
Tem gente boa espalhada por esse Brasil
Que vai fazer desse lugar um bom país
Uma notícia está chegando lá do interior
Não deu no rádio, no jornal ou na televisão
Ficar de frente para o mar de costas pro Brasil
Não vai fazer desse lugar um bom país

Ideologia — Cazuza

Ideologia - cazuza

Me lembro que, quando eu era pequena, me perguntava o que era ideologia e como se usava uma dessas para viver. Cheguei até a procurar no dicionário o sentido da palavra, mas fiquei tão confusa quanto antes.

ideologia
i·de·o·lo·gi·a

sf
1 FILOS Ciência que trata da formação das ideias.
2 Tratado das ideias de forma abstrata.
3 Conjunto de sistemas de valores sociais que reconhecem o poder econômico da classe dominante quanto à legitimidade dos ideais que refletem a ânsia por transformações radicais que dignifiquem a classe dominada ou o proletariado, segundo o marxismo e seus seguidores.
4 FILOS Doutrina que considera a sensação como fonte única dos nossos conhecimentos e único princípio das nossas faculdades.
5 Maneira de pensar que caracteriza um indivíduo ou um grupo de pessoas, um governo, um partido etc.
6 PEJ Conjunto de concepções abstratas que constituem mera análise ou discussão sem fundamento de ideias distorcidas da realidade.

Fonte: https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/ideologia/

Naquela época, recorrer ao dicionário de nada me adiantou porque, no fundo, eu também não entendia a música que me fizera conhecer tal palavra. E, para ser sincera, esta é a primeira vez que paro para realmente ler a letra e analisá-la… O que me faz ter de contar para vocês uma coisa interessante: descobri que, além de tudo, havia uma parte que eu cantava errada! Eu sempre cantei “Frequenta as festas do candomblé” (isso me parecia fazer muito sentido — e eu não sei porque eu acentuava de maneira fechada a palavra candomblé) e acabo de descobrir que o certo é “Frequenta as festas do Grand Monde” (coisa que eu jamais imaginaria, pois até instantes atrás eu sequer sabia o que era isso).

Ideologia foi composta em 1987 e lançada em 1988. O Brasil acabara de sair da ditadura (já tantas vezes mencionada nesta seção), mas as coisas ainda estavam longe de se tornarem boas. Soma-se a isso o fato de que, justamente em 1987, foi confirmado que Cazuza tinha AIDS. É nesse cenário que nasce essa canção, cheia de críticas, mas, principalmente, de desilusão — coisa que fica extramente clara nos primeiros versos. A música tem apenas três estrofes e consegue transmitir uma mensagem clara e forte.

O tal “Grand Monde” que o eu lírico passa a frequentar, segundo a canção, era uma balada LGBT frequentada pela alta sociedade da época. Isso significa que dizer que “Aquele garoto que ia mudar o mundo / Frequenta agora as festas do Grand Monde” nada mais é do que dizer que mesmo aquelas pessoas cheias de vontade e esperança de fazer a diferença, já não possuem tal força e se entregam ao sistema vigente, aos costumes daqueles que tanto criticavam.

Além disso, com seus heróis mortos por overdose — e aqui Cazuza provavelmente se refere a grandes artistas que literalmente morreram de overdose — e seus inimigos no poder, o eu lírico se sente perdido, tendo a necessidade de encontrar uma nova ideologia, uma nova forma de pensar com a qual ele se identifique e que lhe traga novas forças para lutar. Acho que quando eu era mais nova eu me fazia a pergunta errada: não deveria ser “como” mas “por que” se viveria com uma dessas?

A última estrofe da canção começa com um verso interessante. Como mencionei acima, Ideologia foi composta um pouco depois do cantor ter se descoberto soropositivo, mas seus fãs só vieram a saber disso por volta de 1989, ainda que, nesta canção, o autor já tenha falado sobre a doença de maneira sutil… E ao mesmo tempo nem tão sutil assim, porque são versos capazes de escandalizar os mais conservadores.

Meu partido
É um coração partido
E as ilusões estão todas perdidas
Os meus sonhos foram todos vendidos
Tão barato que eu nem acredito
Eu nem acredito ah
Que aquele garoto que ia mudar o mundo
Mudar o mundo
Frequenta agora as festas do “Grand Monde”

Meus heróis morreram de overdose
Eh, meus inimigos estão no poder
Ideologia
Eu quero uma pra viver
Ideologia
Eu quero uma pra viver

O meu tesão
Agora é risco de vida
Meu sex and drugs não tem nenhum rock ‘n’ roll
Eu vou pagar a conta do analista
Pra nunca mais ter que saber quem eu sou
Saber quem eu sou
Pois aquele garoto que ia mudar o mundo
Mudar o mundo
Agora assiste à tudo em cima do muro, em cima do muro

Apesar de você – Chico Buarque

Apesar de você — Chico Buarque

Para dar uma animada por aqui, resolvi falar sobre música, e não uma qualquer: hoje trago uma canção que completa 50 anos em 2020 e que, infelizmente, ainda tem seu pezinho na atualidade (e aproveito para corrigir uma falha: como ainda não tinha Chico Buarque por aqui?).

Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão
A minha gente hoje anda
Falando de lado
E olhando pro chão, viu

Apesar de você,  foi composta e lançada por Chico Buarque em 1970. O Brasil já vivia uma ditadura desde 1964 (e ela duraria ainda até 1985). Ainda que a década de 70, no Brasil, tenha sido o período do “milagre econômico” foi, também, um momento de censura aos meios de comunicação e de tortura ou exílio daqueles que discordavam do governo vigente (e justamente por isso as pessoas “falavam de lado e olhavam pro chão”).

Você que inventou esse estado
E inventou de inventar
Toda a escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar
O perdão

Apesar de ter começado em 1964, a situação da ditadura brasileira se agravou em 1968, com o “famoso” AI-5, um decreto cujas determinações ficam acima das leis estabelecidas até então. Graças a esse Ato Institucional o Presidente poderia fechar o Congresso Nacional e assumir por completo as funções legislativas, isto é, tornar-se um verdadeiro ditador, como aconteceu.

Diante desse cenário nada animador, Chico Buarque achava que Apesar de você sequer passaria pela censura. Mas passou, ao menos em um primeiro momento. E por que passou? Porque, como sempre, Chico Buarque soube fazer um uso único das palavras, dizendo o que tinha a dizer, mas construindo um texto que é direto e, ao mesmo tempo, não. Digamos que o Governo demorou um tempinho para entender que o “você” da canção se referia a eles…

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Eu pergunto a você
Onde vai se esconder
Da enorme euforia
Como vai proibir
Quando o galo insistir
Em cantar
Água nova brotando
E a gente se amando
Sem parar

Apesar de você consegue retratar bem o sentimento de muitos naquela época. Tempos sombrios, mas ainda era possível ver uma luz no final do túnel. E quando ela chegasse, a euforia seria tamanha que ninguém poderia impedir.

Se a ameça de um governo ditatorial como o das décadas de 60 e 70 ainda paira sobre nós, hoje o nosso grito também está contido por outras causas, como o vírus que tem assolado o mundo. E nós também vamos cobrar com juros o amor reprimido desse momento em não podemos nem mesmo nos abraçar.

Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido
Esse grito contido
Este samba no escuro
Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza
De desinventar
Você vai pagar e é dobrado
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar

Gostando ou não, fica difícil não concordar que Apesar de você é uma obra e tanto (dentre tantas outras igualmente incríveis do cantor, compositor e escritor Chico Buarque). Uma música que sabe jogar muito bem com as palavras (o uso de estado e juros caem como uma luva na composição, enriquecendo seu duplo sentido).

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Inda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria
Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença
E eu vou morrer de rir
Que esse dia há de vir
Antes do que você pensa

A crítica é sutil, mas contundente. Chico usa dos elementos da natureza (o jardim florescendo, o dia raiando) não apenas para enriquecer suas metáforas, para para mostrar que ninguém tem um poder tão grande capaz de controlar absolutamente tudo. E que se nós fazemos parte da natureza, uma hora, podemos nos levantar novamente, agir por nossa própria força.

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia
Como vai se explicar
Vendo o céu clarear
De repente, impunemente
Como vai abafar
Nosso coro a cantar
Na sua frente

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai se dar mal
Etc. e tal

Para completar, o ritmo de Apesar de você é envolvente. Ainda que tenha seu “quê” de tristeza, a música passa uma alegria que se fazia necessária naqueles tempos, e também nos dias de hoje.

 

Drão — Gilberto Gil

Drão

Como sempre, Drão é uma música gosto há tempos — eu acho o máximo o jogo de palavras “Nossa caminhadura / Dura caminhada”, feito em dado momento — mas que somente agora, escrevendo esse post, é que entendi verdadeiramente. E aliás, aprendi muita coisa interessante, que compartilho aqui com vocês.

Confesso que, para começar, descobri que essa música é do Gilberto Gil e não do Djavan, como eu achava (shame on me). Mas é que o fato de eu não entender o título da música (o Djavan tem umas músicas doidas que a gente demora para entender, né?) e o jogo de palavras que eu mencionei acima colaboravam muito para esse fato, além de eu realmente ouvir uma versão cantada por ele.

Minha segunda descoberta foi a que mais clareou as coisas: Drão era o apelido (dado por Maria Bethânia!) de Sandra, terceira esposa do Gil. Descobrir isso me faz compreender que essa é uma canção dirigida a ela, quase como uma carta.

Drão
O amor da gente é como um grão
Uma semente de ilusão
Tem que morrer pra germinar
Plantar nalgum lugar
Ressuscitar no chão
Nossa semeadura

A música foi composta em 1981 e lançada em 1982 e fala sobre a separação de Gil e Drão. E aí está outro elemento incrível dessa música: ela fala sobre o fim de um relacionamento de uma maneira muito bonita e sem rancor, mas, ainda assim, retratando toda a dor que uma separação pode trazer.

Quem poderá fazer
Aquele amor morrer!
Nossa caminhadura
Dura caminhada
Pela estrada escura

Mas antes de chegar ao tema da separação em si, Gil compara o amor a um grão, que precisa germinar, como é possível ver nos versos que já apresentei aqui. Somente depois de falar sobre a necessidade de que o amor seja plantado é que Gil pede para que Drão não pense na separação, não sofra pelo momento que estão vivendo, porque, apesar de tudo, o que viveram é algo que os acompanhará para sempre. Provavelmente eles tiveram uma boa relação e também geraram três filhos nela. Foram 17 anos juntos.

Drão
Não pense na separação
Não despedace o coração
O verdadeiro amor é vão
Estende-se, infinito
Imenso monolito
Nossa arquitetura
Quem poderá fazer
Aquele amor morrer!
Nossa caminha dura
Cama de tatame
Pela vida afora

Por fim, na canção, Gil ainda busca demonstrar que não há nada errado no fato deles se separarem, mas também pede perdão por seus erros e compaixão. E claro que ele encerra a música falando que o verdadeiro amor nunca morre. Se ele é grão, o que pode acontecer é virar pão. Não há fim, apenas transformação.

Drão
Os meninos são todos sãos
Os pecados são todos meus
Deus sabe a minha confissão
Não há o que perdoar
Por isso mesmo é que há
De haver mais compaixão
Quem poderá fazer
Aquele amor morrer
Se o amor é como um grão!
Morre nasce, trigo
Vive morre, pão
Se você ainda não conhecia essa canção, não deixe de escutá-la e me dizer o que achou:

Amuleto — Tiê

Amuleto — Tiê

Se você nunca ouviu Amuleto, deixo aqui meu alerta: essa é uma daquelas músicas que gruda na cabeça. A canção ficou conhecida na voz de Tiê e foi lançada em 2017, mas seu compositor é Bruno Caliman, que também já compôs para muitos outros cantores conhecidos. É uma música leve, melodiosa, gostosa de ouvir.

Não deixe eu me arrepender
De um dia eu ter te amado João
Não deixe eu escapar assim
Me prende nos seus braços João

Com os versos acima começa essa canção, que fala sobre relacionamento. Sobre uma história, que poderia ser tantas. Um romance entre um eu lírico (não nomeado) e João, um nome, por sua vez, um tanto quanto genérico. Mas eu confesso que toda vez que ouvia essa música, ficava incomodada. Alguns versos específicos me causavam essa estranheza e eu sentia que precisava pesquisar sobre ela, para ver se eu estava enganada ou não.

Cola do meu lado
Tranca um cadeado
Ponha alarme em mim
Não deixa eu chorar no quarto
Pensando em você João
Não deixe o tempo apagar
Eu posso te esquecer João
Me liga toda hora
Vigia a minha porta
Cuida do meu coração
Resolve os meus problemas
Me leva pro cinema
Depois até a lua
Me traz uma estrela
Me faz a gentileza
Comete uma loucura

Eu ouvia isso e pensava “que abusivo”. Talvez sim, talvez não. Trata-se de uma música em que o eu lírico realmente tenta, a todo custo, salvar uma relação, mostrar para o outro que eles ainda podem (e talvez precisem) estar juntos. Mas a que custo?

Me leva no seu bolso
Me faz de travesseiro
Me pendura em seu pescoço feito um amuleto
Você me tem nas mãos
Mas não aperta João
Que eu escapo entre os seus dedos

Ao mesmo tempo, é uma letra que mostra uma relação desgastada, em que os amuletos são também as marcas que carregamos conosco. Sim, uma letra metafórica, no final das contas. E triste. Mas talvez não tão assustadora quanto me pareceu em um primeiro momento.

É bom quando uma música, por mais despretensiosa que pareça ser, nos faz parar para pensar. Valeu a pena ter parado para analisar essa letra com mais calma. Talvez agora eu consiga realmente apreciar essa canção sem me assustar a cada vez que a escuto (ainda que agora ela toque bem menos nas rádios).

 

A modo tuo — Ligabue

A modo tuo — Ligabue

Talvez você, leitor mais atento deste Blog, tenha se perguntado o porquê da louca aqui ter usado uma música em italiano numa resenha de um livro sobre o Paquistão. Bem, talvez eu não esteja tão louca assim e possa explicar tudo neste post aqui! Bora?

Quando eu estava lendo Livre para voar, acabei escutando, de novo,  A modo tuo (do seu jeito, em uma tradução simples). Uma música escrita por uma pai para a sua filha. Assim como o livro é de um pai sobre sua filha (em linhas bem gerais, claro).

A música é uma espécie de diálogo recheado de bons desejos, mas no qual cabe, também, um pedido de desculpas pelo mundo que o filho receberá. E esse talvez seja um dos pontos exatos em que não pude deixar de casar essa canção com a leitura que trouxe a vocês.

Será difícil te pedir desculpa
Por um mundo que é como é
Eu tento fazer alguma coisa
Mas é difícil mudá-lo

Mas essa música também parece cair como uma luva em Livre para voar em muitos outros aspectos como, por exemplo, o fato de ambos os pais sentirem certo medo — misturado a um maravilhamento, claro — diante da criança que os aguarda, uma criança que vem para trazer uma mudança, seja no próprio adulto, seja no mundo que a recebe:

Será difícil crescer
Antes que você cresça
Você, que fará tantas perguntas
E eu que fingerei saber mais

A verdade é que a letra de A modo tuo é tão linda quanto o livro Livre para voar. É uma música que eu ouço e ouço e não deixo de achar incrível. Com uma mensagem sincera, forte. Para além dos trechos que apresentei acima (e que, bem livremente, tentei traduzir), essa música ainda fala sobre ver (e deixar) seus filhos crescerem. Ter de ser um mero espectador a partir do momento que o filho passa a escolher seus próprios caminhos. E até nisso eu consigo encontrar ecos das palavras de Ziauddin.

Será difícil te ver de costas
Pelos caminhos que escolherá
Todos os semáforos
Todas as proibições
E as filas que evitará
Será difícil
Enquanto lentamente você se afasta
Procurando sozinha
Aquilo que será

Confesso que eu poderia ouvir essa música vezes e vezes seguidas (e depois passar semanas com ela na cabeça) e poder escrever esse post foi mais um presente para mim mesma (hoje é meu aniversário) do que qualquer outra coisa. Se bem que eu tentei traduzir uns trechinhos para que vocês tenham uma idea da beleza dessa música. O texto original segue abaixo e, no final desse post, vocês podem ouvir a versão cantada pelo próprio Ligabue (tem uma versão cantada pela Elisa também, igualmente linda)

Sarà difficile diventar grande
Prima che lo diventi anche tu
Tu che farai tutte quelle domande
Io fingerò di saperne di più
Sarà difficile
Ma sarà come deve essere
Metterò via i giochi
Proverò a crescere
Sarà difficile chiederti scusa
Per un mondo che è quel che è
Io nel mio piccolo tento qualcosa
Ma cambiarlo è difficile
Sarà difficile
Dire tanti auguri a te
A ogni compleanno
Vai un po’ più via da me
A modo tuo
Andrai, a modo tuo
Camminerai e cadrai, ti alzerai
Sempre a modo tuo
Sarà difficile vederti da dietro
Sulla strada che imboccherai
Tutti i semafori
Tutti i divieti
E le code che eviterai
Sarà difficile
Mentre piano ti allontanerai
A cercar da sola
Quella che sarai
A modo tuo
Andrai, a modo tuo
Camminerai e cadrai, ti alzerai
Sempre a modo tuo
Sarà difficile
Lasciarti al mondo
E tenere un pezzetto per me
E nel bel mezzo del tuo girotondo
Non poterti proteggere
Sarà difficile
Ma sarà fin troppo semplice
Mentre tu ti giri
E continui a ridere
A modo tuo
Andrai, a modo tuo
Camminerai e cadrai, ti alzerai
Sempre a modo tuo

Flor de Lis — Djavan

Flor de Lis Djavan

Lembra que na época das eleições todo mundo falava para tomar cuidado com fake news e também para sempre checar as informações para repassar? Pois é, bem antes disso a gente já caía em fake news e nem ligava…

Quando eu estava no Ensino Médio me disseram que a música Flor de Lis, do Djavan, era uma homenagem do cantor e compositor para sua esposa, Maria, que falecera no parto, com sua filha, Margarida. E olhando a letra, essa até é uma história que faz sentido… Mas jogando rapidinho no Google logo descobrimos que é tudo mentira (ao menos é uma mentira criativa, vai).

Flor de Lis foi lançada em 1976 e faz parte do primeiro álbum da carreira de Djavan. E em 1976 Djvan já era casado com Maria Aparecida dos Santos Viana e assim o foi até 1998, quando se separaram.

A música, se pararmos para analisar a letra, realmente fala do fim de um relacionamento (e isso fica claro com “é o fim do nosso amor”), mas, ao contrário do que o boato dizia, não por causa da morte de uma das partes, mas pelo fim do sentimento em si, que uma das partes não soube cultivar (“eu sei que o erro aconteceu/ mas não sei o que fez/ tudo mudar de vez/ onde foi que eu errei?”).

Mas olha como a gente quer achar explicação em tudo: o eu-lírico da canção, o ser que perdeu seu amor, que não viu o “jardim da vida” florescer com outras flores e outros amores, não precisa ser, necessariamente, o próprio Djvan, afinal, é uma música, e a música pode ser universal! Mas há quem diga que Flor de Lis retrata o final do relacionamento de Djavan e Maria (o que, cronologicamente, não faria sentido, pois a canção é de 1976 e eles foram casados, ao menos no papel, até 1998). Se pensarmos por um outro ângulo, quer nome mais universal que “Maria”? Quer nome melhor para mostrar que essa é uma música para todos?

De qualquer maneira, uma coisa não dá para negar: Flor de Lis é uma linda canção e o modo como ela retrata a dor do fim de um relacionamento (“Será talvez/ que minha ilusão/ foi dar meu coração/ com toda força pra essa moça/ me fazer feliz/ e o destino não quis/ me ver como raiz/ de uma flor de lis”), da percepção de que algo não deu certo e que, ao mesmo tempo, no solo ferido não nasce um novo amor (“do pé que brotou Maria/ nem Margarida nasceu”)… É pura poesia!

Valei-me, Deus é o fim do nosso amor
Perdoa, por favor
Eu sei que o erro aconteceu
Mas não sei o que fez
Tudo mudar de vez
Onde foi que eu errei?
Eu só sei que amei, que amei, que amei, que amei
Será talvez
Que minha ilusão
Foi dar meu coração
Com toda força pra essa moça
Me fazer feliz
E o destino não quis
Me ver como raiz
De uma flor de lis
E foi assim que eu vi
Nosso amor na poeira, poeira
Morto na beleza fria de Maria
E o meu jardim da vida
Ressecou, morreu
Do pé que brotou Maria
Nem margarida nasceu
E o meu jardim da vida
Ressecou, morreu
Do pé que brotou Maria
Nem margarida nasceu

Bella Ciao — Canção popular italiana

Bella Ciao Canção popular italiana

Começo esse post expressando minha profunda indignação comigo mesma por somente hoje estar escrevendo um post sobre Bella Ciao. Isso porque quando criei essa categoria aqui no Blog, minha ideia era justamente poder trazer um pouco de História através da música e Bella Ciao, sem dúvidas, tem muito a nos ensinar. E se engana quem pensa que esta é simplesmente a música tema da série La casa de papel. Bella Ciao é uma canção bem antiga e mesmo sua versão original não é a mais conhecida. Mas vamos por partes.

A melodia dessa música vem dos tradicionais cânticos de trabalhadores rurais italianos e sua “primeira” letra (ou a primeira letra a que temos acesso hoje) nos remete a esse contexto. Eram canções entoadas para ritmar o trabalho e diminuir o peso deste.

Stamattina mi sono alzato, o bella ciao, bella ciao
Bella ciao ciao ciao, stamattina mi sono alzato,
ho trovato I’invasor!
A lavorare laggiù in risaia
Sotto il sol che picchia giù!
E tra gli insetti e le zanzare, o bella ciao, bella ciao
Bella ciao ciao ciao, e tra gli insetti e le zanzare,
duro lavoro mi tocca far!
Il capo in piedi col suo bastone, o bella ciao, bella ciao
Bella ciao ciao ciao, il capo in piedi col suo bastone
E noi curve a lavorar!
Lavoro infame, per pochi soldi, o bella ciao bella ciao
Bella ciao ciao ciao, lavoro infame per pochi soldi
E la tua vita a consumar!
Ma verrà il giorno che tutte quante o bella ciao, bella ciao
Bella ciao ciao ciao, ma verrà il giorno che tutte quante
Lavoreremo in libertà!

De forma bem resumida, essa letra aí em cima nos mostra um trabalhador rural que acorda e tem de ir ao trabalho, no campo, debaixo de um sol que queima, em meio a insetos, com um chefe a pegar no pé. Tudo isso, em troca de pouco dinheiro e vendo a vida passar. Um trabalho praticamente escravo, feito enquanto se sonha com um trabalho livre.

Sendo uma canção popular, a letra de Bella Ciao foi mudando aos poucos com acréscimos e alterações feitas pelo próprio povo que a entoava. E assim vamos chegando à uma versão mais próxima da música que se tornou símbolo da resistência antifascista italiana, cantada pelos partigiani. Mas, de novo, vamos por partes.

O fascismo ao qual me refiro aqui é aquele que surgiu na Itália por volta de 1910, e que esteve no poder entre 1922 e 1943. Um regime totalitário, nacionalista e antiliberal, representado e exercido por Benito Mussolini. O discurso nacionalista de Benito Mussolini ganhou muitos adeptos, principalmente entre as classes conservadoras italianas, dentre elas, a dos proprietários de terra (sim, provavelmente os empregadores daqueles que entoavam a música apresentada acima!).

E mais: os fascistas queriam tomar o poder por via eleitoral, mas também através de atos violentos contra seus opositores. Desde o momento em que começaram a buscar o poder os “camisas negras” (como eram conhecidas algumas milícias partidárias do fascismo) foram extremamente agressivos, com o objetivo de intimidar e enfraquecer a oposição.

Concomitantemente à ascensão do regime fascista — e em seus anos mais duros — surge um movimento popular de resistência armada, formada pelos Partigiani (partigiano, no singular), que são combatentes que não pertencem a um exército regular. Eles se utilizavam, principalmente, de emboscadas, sabotagens e interceptações de mensagens e eram um grupo formado por desertores e praticamente todos os tipos de civis (homens, mulheres, religiosos, comerciantes e pessoas de qualquer ideologia política).

Eram esses partigiani que entoavam a versão de Bella Ciao mais conhecida nos dias de hoje, uma versão que ganha um tom de “luta pela liberdade”:

Stamattina mi sono alzato,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
Stamattina mi sono alzato,
ed ho trovato l’invasor.
O partigiano, portami via,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
O partigiano, portami via,
ché mi sento di morir.
Se io muoio da partigiano,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
Se io muoio da partigiano,
tu mi devi seppellir.
E seppellire sulla montagna,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
E seppellire sulla montagna,
sotto l’ombra di un bel fior.
E le genti che passeranno,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
E le genti che passeranno,
Ti diranno «Che bel fior!»
«Questo fiore del partigiano»,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
«Questo fiore del partigiano,
morto per la libertà!»

Percebam que, esta nova letra, começa da mesma forma que a primeira apresentada, mas é em sua continuação que está a grande mudança: a pessoa que acorda pede para que um partigiano a ajude, pois sente que está morrendo. Mas, essa pessoa pede para que, caso realmente venha a morrer, ser enterrada como partigiano, em uma montanha, à sombra de uma bela flor, a “flor do partigiano morto pela liberdade”.

É uma letra bem forte e muito melódica (daquelas que gruda na cabeça) e só por esse último verso já dá para compreender porque ela ganhou o mundo e se tornou símbolo de tantas outras lutas (ainda que muitas pessoas sequer saibam o que estão cantando…)

Rosa de Hiroshima — Vinícius de Moraes

Rosa de Hiroshima

Em minha última resenha falei de um livro que conta um pouco sobre o acidente nuclear de Chernobyl. Isso me fez pensar, também, em Rosa de Hiroshima, uma vez que, novamente, estamos falando de questões nucleares, com a infeliz diferença de que aqui não se trata de um simples acidente. Mas vamos por partes.

Rosa de Hiroshima é um poema de Vinícius de Moraes que, posteriormente, foi musicado por Gerson Conrad e ganhou vida com a banda Secos e Molhados. Trata-se de uma obra metafórica que nos faz refletir sobre as consequências de um bombardeio nuclear.

No dia 6 de agosto de 1945 — ano em que a II Guerra Mundial chegava ao fim — para demonstrar sua força nuclear, os Estados Unidos lançaram sobre Hiroshima uma bomba de urânio, que recebeu o nome de Little Boy e que matou ao menos 140 mil pessoas. Três dias depois, ainda houve o ataque a Nagasaki, com uma bomba de plutônio, apelidada de Fat Man. Mais de 40 mil pessoas morreram, sem contar as milhares de pessoas que morreram posteriormente, em decorrência dos efeitos da radiação dessas bombas.

Para as pessoas, a radiação pode causar queimaduras, cegueira, surdez e, claro, câncer. Mas, além disso, a radiação em excesso também é prejudicial para o meio ambiente, devastando a vegetação,  causando chuva ácida e contaminando tudo.

É difícil não sentir um aperto no peito lendo o poema ou, mais ainda, ouvindo a canção Rosa de Hiroshima, que ainda nos lembra que ninguém é poupado em um ataque como esse: crianças, mulheres, idosos… É ainda mais tocante ver o horror sendo descrito, metaforicamente, com o auxilio de uma imagem tão frágil e bela, mas também tão forte (uma vez que se protege com seus espinhos): a rosa. Isso sem falar que a rosa pertence à natureza, que também não é poupada em uma tragédia dessas.

E também é bonito ver como Rosa de Hiroshima consegue trazer a união entre música e poesia de maneira tão bonita, trabalhando ainda mais a fundo diversas figuras de linguagem, para além da metáfora: anáfora (com a repetição de pensem), aliteração (da rosa, da rosa de Hiroshima — a sonoridade causada por esses s) e também a sinestesia (a mistura de sensações como as rosas cálidas).

Pensem nas crianças
Mudas, Telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas, inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas, Alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh! Não se esqueçam
Da rosa, da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor, sem perfume
Sem rosa, sem nada