Vambora — Adriana Calcanhotto

Esses dias estava pensando que não sei quem conhece meus gostos musicais. Digo, há tempos não respondo à pergunta “qual é sua música preferida?”. Há quem saiba, sem dúvidas. Mas também há que não faça a menor ideia, creio eu. Ao mesmo tempo, também esses dias, estava trabalhando — para variar — com música em sala de aula e percebi o quão ingrata essa pergunta é. Difícil escolher a nossa música preferida, não é mesmo?

Eu não sou uma pessoa fissurada por bandas, cantores, pessoas famosas em geral (de qualquer setor, nem mesmo por autores). Admiro muito mais as pessoas que estão ao meu redor do que celebridades. Mas quando se é mais jovem, sempre tem aquelas perguntas do tipo “qual é a sua banda ou seu cantor favorito?” e, naqueles tempos, eu sempre pensava em Adriana Calcanhotto, que conheci como Adriana Partimpim. Hoje eu não sei se ela ainda seria “a minha preferida”, mas não posso negar que seu trabalho continua a mexer muito comigo. Também, pudera! Ela não faz apenas música, mas poesia musicada, e sua bagagem é notável em suas canções.

Mas não estou aqui para ficar exaltando essa artista e sim para falar de uma de suas músicas que, mesmo quando eu não entendia muito bem, adorava e que, um tempo depois, descobri que fazia referências a obras literárias que, somente anos mais tarde, eu viria a saber que existiam e que são tão óbvias nessa música. Mas vamos por partes?

Hoje eu quero falar sobre a música Vambora, lançada em 1998, no CD Marítimo. O título já chama atenção pela sua informalidade, nos trazendo uma palavra que representa um modo de se falar “vamos embora”, mas de um jeito leve, como um gostoso convite, o que combina totalmente com o ritmo dessa música.

A primeira clara menção literária da música está no verso “dentro da noite veloz”, que é o título de um livro de Ferreira Gullar. Esta obra fala da solidão, mas uma solidão diferente da experimentada pelo eu lírico da canção. Na música, sentimos que a cantora fala de amor, de uma separação, talvez, enquanto em Dentro da noite veloz (1975) Gullar fala da solidão política em tempos de ditadura.

E a segunda clara menção literária está em “na cinza das horas”, título do primeiro livro de Manuel Bandeira. A cinza das horas (1917) é uma obra que, a seu modo, também fala de solidão: a solidão de quem se percebe perto da morte, com uma doença de difícil tratamento (felizmente, Manuel Bandeira conseguiu viver mais que o esperado).

É interessante notar, porém, que quem desconhece esses títulos — como eu desconhecia nas primeiras vezes em que ouvi essa música — pode facilmente ser levado a acreditar que são apenas figuras de linguagem, que “noite veloz” e “cinza das horas” sejam metáforas para a solidão sentida. Bem, são, mas também são mais que isso, não é mesmo? Tanto é que ambas são precedidas pelo verso “dentro de um livro”.

Entre por essa porta agora
E diga que me adora
Você tem meia hora
Pra mudar a minha vida
Vem, vambora
Que o que você demora
É o que o tempo leva

Ainda tem o seu perfume pela casa
Ainda tem você na sala
Porque meu coração dispara
Quando tem o seu cheiro
Dentro de um livro
Dentro da noite veloz

Ainda tem o seu perfume pela casa
Ainda tem você na sala
Porque meu coração dispara
Quando tem o seu cheiro
Dentro de um livro
Na cinza das horas

E para quem quiser ver o clipe, deixo-o aqui embaixo. É interessante ver a melancolia nas cores, nas imagens. A solidão estampada na imagem da cantora solitária, vestida de preto, à meia luz.

Você já conhecia essa música? O que acha(va) dela?

Desenredo — Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro

Talvez os leitores da clássica literatura brasileira estranhem o título deste post, mas já adianto que nem você leu errado e nem eu fiquei maluca. Hoje vou falar sobre uma música, mas não temos como não mencionar Guimarães quando vemos um título desses, certo?

Comecemos, então, pela literatura, já que ela é, também, o assunto principal deste blog: sou daquelas leitoras que pouco leu Guimarães Rosa. Ainda estou à espera do iluminado momento em que finalmente me sentirei pronta para embarcar na leitura de Grande Sertão: Veredas. Mas já li Primeiras Estórias, um livro de contos do autor. Isso aconteceu lá em 2014, quando eu estava na faculdade e ainda me lembro, olhando os títulos das histórias, de algumas sensações que tive ao conhecê-las.

Meu primeiro contato com a escrita e a obra de Guimarães, no entanto, foi justamente através de um conto de título Desenredo, que faz parte da obra Tutaméia: Terceiras Estórias. É difícil explicar o que esta narrativa me fez/faz experimentar. Há, até hoje, uma frase dela que repercute em mim:

“Todo abismo é navegável a barquinhos de papel”

Forte, não?

Tempos depois, um amigo — que sabia desse meu encantamento com as narrativas de Guimarães, em especial Desenredo — perguntou-me se eu conhecia a música de mesmo nome.

Tudo o que narrei até aqui estava esquecido em algum canto de minha memória, até que, semana passada, meu Spotify colocou para tocar Desenredo, interpretada pelo grupo Boca Livre. E foi assim que resolvi escrever aqui sobre essa música.

Pesquisando um pouco sobre ela, descobri que não há exatamente uma relação entre esta e o conto homônimo. Mas, Dori Caymmi estava lendo Guimarães quando compôs esta canção e, provavelmente influenciado pela leitura, estava relembrando os tempos em que vivera em Minas, unindo, assim, diversas imagens que podem encontrar ecos durante uma leitura da obra Rosiana.

Desenredo — a canção — foi composta em 1976, mas só foi gravada quatro anos depois, ganhando versões também nas vozes de Nana Caymmi, Edu Lobo e Roberta Sá. Ao final do post, deixarei a versão que escutei, pelo grupo Boca Livre.

O ritmo dela me traz uma sensação quase tão difícil de explicar quanto a leitura do conto mencionado, mas posso tentar definir como uma sensação de paz, tranquilidade.

É muito interessante notar, ao longo do texto da música, como a escolha do título faz sentido, havendo esse jogo entre as palavras “fio”, “enredo”, “tramas”, “novelo”, “trança”, “corda”, “enrosco”, que são termos que, pelo seu significado e usos na letra, estão diretamente ligados ao “desenredo”, ou seja, ao “ato ou efeito de desenredar; desenlace; solução”.

Também está muito presente, na música, uma certa imagem desoladora e a própria morte — sem disfarces e sem eufemismos —, figuras que igualmente encontramos nas obras de Guimarães Rosa.

Para quem quiser conferir com os próprios olhos e ouvidos, eis a letra e, logo em seguida, o vídeo da versão que mencionei:

Por toda terra que passo me espanta tudo que vejo
A morte tece seu fio de vida feita ao avesso
O olhar que prende anda solto
O olhar que solta anda preso
Mas quando eu chego eu me enredo
Nas tramas do teu desejo
O mundo todo marcado a ferro, fogo e desprezo
A vida é o fio do tempo, a morte o fim do novelo
O olhar que assusta anda morto
O olhar que avisa anda aceso
Mas quando eu chego eu me perco
Nas tranças do teu segredo
Ê Minas, ê Minas, é hora de partir, eu vou
Vou-me embora pra bem longe
A cera da vela queimando, o homem fazendo seu preço
A morte que a vida anda armando, a vida que a morte anda tendo
O olhar mais fraco anda afoito
O olhar mais forte, indefeso
Mas quando eu chego eu me enrosco
Nas cordas do seu cabelo
Ê Minas, ê Minas, é hora de partir, eu vou
Vou-me embora pra bem longe…

Versão italiana de músicas anglo-americanas

Você se lembra (caso tenha visto) dos posts que fiz sobre músicas italianas com versões brasileiras e músicas brasileiras com versões italianas? Foram posts que me diverti fazendo e, desde então, sinto vontade de também escrever sobre músicas anglo-americanas e suas versões italianas.

A ideia desse post surgiu, ainda, do fato que, por vezes, preparando aulas de italiano, deparo-me com versões de músicas (principalmente) norte-americanas. Uma das primeiras que me lembro de ter visto e que achei muito engraçada foi Sognando la California (Dik Dik, 1969), versão de California Dreamin’ (The Mamas e The Papas, 1966).

Lembrando que, geralmente, são versões, e não traduções literais. Nesse caso, por exemplo, ambas as canções fazem referências a elementos da natureza, mas na maioria dos casos são elementos diversos (fala-se de inverno na versão americana e céu cinza na versão italiana, por exemplo). Ouça-as e veja o que mais você consegue encontrar de diferente (e aproveite para se divertir com esses clipes…):

Antes de prosseguir, gostaria de comentar que é relativamente fácil encontrar versões italianas de músicas anglo-americanas (sim, porque não são apenas músicas norte-americanas que ganham suas versões, mas músicas em língua inglesa no geral). Como Tommaso Cazzorla explica neste artigo — que por si só já contém diversos exemplos do que estou trazendo aqui — a tradição de traduzir músicas estrangeiras de sucesso foi muito comum entre os anos 50 e 70, quando os italianos não estavam acostumados a ouvir (e cantar, né?) músicas em outras línguas.

Outra versão que podemos encontrar é É la pioggia che va (Rokes, 1966), derivada de Remember the rain (Bob Lind, 1966), também com diferenças entre as letras:

(Devo estar muito louca, mas o ritmo dessas músicas me lembrou o ritmo de Hey there Delilah??).

Com as suas diferenças textuais, temos, ainda, Quelli erano i giorni (Gigliola Cinquetti, 1969) e Those were the days (Mary Hopkin, 1968). Mas é interessante ver que ambas começam com a fórmula “era uma vez”:

Diferentemente das três músicas já mencionadas aqui, porém, a maioria das versões tem um título bem diferente do original. Uma que achei interessante, devido à mudança gritante, foi Sono bugiarda (Caterina Caselli, 1967) — que significa “sou mentirosa” —, versão de I’m a believer (Neil Diamond, 1967) — que significa “eu acredito”. No entanto, ambas têm uma letra parecida, falando sobre acreditar (ou não) no amor, mas jogando com esse fato de “passar a acreditar” ou “ser um mentiroso” por dizer que não acreditava:

E você não achou que os Beatles escapariam dessa, né? Existem diversas versões de músicas deles em italiano, claro. Algumas mais próximas do original que outras. Por exemplo, a versão de Let it be — que em italiano virou Dille sì — é muito mais romântica e sofrida que a original. Mas, escolhi para fechar esse post a versão de Come together (1969): Tam Tam, feita por The Rogers (1969). Textos totalmente diferentes também, nem o refrão se salva, mas dá para reconhecer de longe de onde vem a música, né?

E você, conhece mais músicas para integrar essa lista?


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Música: versões italianas de músicas brasileiras

Há um tempinho, fiz um post aqui sobre músicas italianas e suas versões brasileiras. A receptividade do post foi muito boa e uma amiga me sugeriu que eu fizesse o contrário, isto é, músicas brasileiras e suas versões italianas. Apesar de saber que, por exemplo, Chico Buarque tem diversas músicas traduzidas para o italiano, pois ele chegou a morar lá durante o período da ditadura que houve aqui (conheça os álbuns Na Itália e Per un pugno di samba), achei que essa ideia seria bem desafiadora.

Essa mesma amiga, porém, disse que há uma música do Marcelo Jeneci com uma versão italiana, coisa que eu desconhecia! A música “Felicidade” (2010) ganhou, em 2020, uma versão italiana, com a cantora Erica Mou. No caso, uma versão feita em conjunto por esses cantores:

E aí, pesquisando mais sobre o assunto, fui descobrindo algumas coisas interessantes. Por exemplo, a música brasileira chegou à Itália principalmente quando ocorreu um movimento inverso àquele que ocorrera anos antes, isto é, quando muito brasileiros migraram para lá. Outra coisa que contribuiu para o surgimento de versões italianas de músicas brasileiras foi o sucesso mundial da Bossa Nova.

Fora isso, porém, dificilmente os italianos tinham conhecimento sobre as nossas produções. Hoje, claro, a internet contribuiu para mudar esse cenário, mas ainda assim há poucas versões atuais nesse par.

Se por um lado eu já sabia que “A banda” (1966) ganhara uma versão italiana — “La banda” (1967) — por outro, eu não sabia que “Águas de março” (1972) também tinha a sua tradução (“La pioggia di marzo — 1993). La banda, porém, é bem mais próxima do original (com relação ao texto) que La pioggia di marzo:

Também descobri que a Mina (cantora de La banda, que coloquei ali em cima) tem um cd com diversas versões de músicas brasileiras, inclusive “Que maravilha” (1969), do Jorge Ben Jor, que virou “Che meraviglia” (1970), uma tradução bem próxima do original:

Você acredita que até Roberto Carlos temos em italiano? (quer dizer, não sei porque isso me surpreende, já que música romântica é a cara dos italianos, né?). “Sentado à beira do caminho” (1969) virou “L’appuntamento” (1970), música cuja letra é um pouco diferente:

Agora, surpreendentemente mesmo talvez seja saber que “Nem vem que não tem” (1967), do Wilson Simonal, virou “Sacumdì Sacumdà” (1968), também com uma letra diferente da original (exceto pelo que dá título à versão italiana):

Fora isso, também há algumas músicas infantis com suas versões, como “O caderno” (1983) que virou “Mistero” (1997) , similar à original, mas com algumas modificações:

Agora você quer ficar REALMENTE em choque? Sabia que existe uma versão italiana de “Anna Júlia” (1999)? Sim, a música dos Los Hermanos! Em italiano, também “Anna Júlia” (2001), a letra é um pouquinho diferente (mas o melhor é ouvir o refrão na versão italiana, ficou engraçado!):

Para encarrar, vamos descer um pouco o nível: não é segredo para ninguém que “Ai se eu te pego” (2011), do Michel Teló, bombou mundialmente. O que você talvez não saiba é que a música realmente ganhou uma versão italiana, que é uma tradução mesmo (assim como a versão em todas as outras línguas — e foram muitas).

Eu me lembro que foi justamente em 2012 que fui pela primeira vez para a Itália e as pessoas ainda tentavam cantar a versão em português mesmo (que tocava em tudo quanto era lugar, assim como Gustavo Lima!):

Por hoje é isso! Até que consegui mais músicas do que eu esperava e, para variar, me diverti muito fazendo esse post. Principalmente com essas duas últimas. Agora estou pensando em fazer um post de músicas norte americanas em italiano (com certeza tem várias).

Música: versão brasileira ou italiana?

Você sabia que existem músicas que têm uma versão em português e outra em italiano? Eu já comentei sobre uma delas neste post, mas hoje venho aqui para fazer um apanhado que, espero eu, vai te surpreender!

Vamos começar com algumas combinações bem fáceis (e também as primeiras que descobri): Laura Pausini e Sandy & Júnior. Sim! Você conhece Inesquecível? Ela é uma adaptação de Incancellabile, lançada em 1996, enquanto a versão brasileira é de 1997. Neste caso, é praticamente uma tradução, com as devidas adaptações para manter o ritmo e o sentido. Veja:

De Sandy & Júnior e Laura Pausini temos, ainda, Não ter, versão brasileira de Non c’è. Além disso, eles também gravaram Quando você passa, versão brasileira de Tutururu (Francesco Boccia).

Bom, essas eram fáceis. Mas, um belo dia, eu já estava na faculdade e ouvi uma música chamada La mia storia tra le dita (de 1995) e pensei “caramba, conheço essa música!”. E sim, em português, como Quem de nós dois (de 2001). As letras, aqui, já são mais diferentes, sendo mantida apenas a melodia. Aqui vai:

Ainda na faculdade, meu querido Spotify me apresentou La notte (2012), cuja relação com A noite (2014) é bem fácil de se fazer, apesar de, novamente, as letras serem bem diferentes!

Fazendo esse post, descobri, ainda, Gente di mare (1988) e a versão brasileira Felicidade (1988):

Mais recentemente, ouvi ainda È po’ che fa (1982) e a versão brasileira Bem que se quis (1989), também bem diferentes uma da outra (no quesito letra):

Agora, claro, o mais chocante de todos: sabe a música Eva (1997)? Sim, o axé! Pois é, ela também é uma versão brasileira! A música original também chama Eva (1982), e as diferenças nos textos são poucas, apenas adaptações necessárias. Por outro lado, claro, essa é a música que a melodia muda um pouco mais (afinal, virou um axé!):

Uma vez li que essa prática de fazer versões em outras línguas de algumas músicas é algo que ocorre com certa frequência (certamente você já ouviu versões brasileiras de muitas músicas que são, originalmente, em inglês) e é uma técnica antiga.

E não somos apenas nós que fazemos isso não! Nos anos 60, na Itália, era comum que se pegasse as músicas do Reino Unido ou dos Estados Unidos que estivessem fazendo muito sucesso e se fizesse uma versão italiana, a ser cantada por um cantor ou grupo muito famoso. Quer um exemplo? Veja aqui:

E você, que versões/traduções conhece? Não esquece de me contar nos comentários, eu adoro essas coisas! Recentemente, li um livro que me apresentou algumas pérola nesse sentido (incluindo mais Sandy & Júnior!).

Enquanto houver sol — Titãs

Músicas conversam conosco. E não há nada melhor que estar despretensiosamente ouvindo uma e, de repente, perceber como aquela letra tem um significado. E como ele pode mudar de acordo com a situação.

Enquanto houver sol é uma música que conheço há anos. Mas nas duas últimas vezes que a ouvi (ambas este mês) percebi que eu não podia terminar 2020 sem falar sobre ela que, agora mais do que nunca, tem tanto significado.

Lançada em 2003, pelos Titãs, no álbum Como vocês estão?, Enquanto houver sol ganha ainda mais força em um ano como este. E o próprio título já nos dá indícios, afinal ainda falta tempo para o nosso planeta deixar de ser iluminado pelo essencial astro rei e, portanto, enquanto houver sol, ainda haverá… Bom, ainda haverá vida, mas também, como dito na música, esperança, caminhos e desejos.

Mais que isso, logo na primeira estrofe há outra mensagem essencial em tempos tão sombrios: nenhuma ideia vale uma vida. Sim, nenhuma ideia (ou ideal, ou ideologia) vale uma vida. Somos todos iguais e temos os mesmos direitos. E, para além disso, o egoísmo mata. Acho que já vimos e sentimos bem isso, não?

Na segunda estrofe, o que pode parecer mera rima, também é algo que nos diz muito mais: crianças são seres cheios de esperança, porque ainda não enxergam todas as mazelas do mundo, mas também porque são capazes de usar a sua criatividade e a sua pureza sem medo algum.

Enquanto houver sol nos lembra, ainda, que não estamos sozinhos, mesmo quando parece. E também ressalta que precisamos seguir em frente. Parados não chegaremos a lugar algum. Em 2020 muitas pessoas se reinventaram, buscaram formas de sobreviver a mudanças inesperadas. Infelizmente, porém, muitas apenas se perderam em um mar de dificuldades que parece não ter fim.

Para concluir, Enquanto houver sol fala sobre o fato de que sempre há desejos dentro de nós. Mesmo nos momentos mais difíceis, lá no fundo, há algo que nos mantém aqui, algo que nos move. Às vezes, só precisamos buscar aquela voz lá no fundo de nossas mentes e corações e entender pelo que queremos lutar e seguir em frente.

Quis escrever sobre essa música, portanto, para desejar que você encontre o sol em 2021. Para lembrar que mesmo nos dias mais nublados, é possível seguir em frente e caminhar. O sol sempre volta.

E veja: coincidentemente ou não, comecei a escrever esse post em um momento cinza e chuvoso. Poucos minutos depois, porém, o sol — que eu não esperava ver tão cedo — resolveu dar as caras, iluminando e reforçando a mensagem desta canção.

Quando não houver saída
Quando não houver mais solução
Ainda há de haver saída
Nenhuma ideia vale uma vida

Quando não houver esperança
Quando não restar nem ilusão
Ainda há de haver esperança
Em cada um de nós, algo de uma criança

Enquanto houver sol
Enquanto houver sol
Ainda haverá
Enquanto houver sol
Enquanto houver sol

Quando não houver caminho
Mesmo sem amor, sem direção
A sós ninguém está sozinho
É caminhando que se faz o caminho

Quando não houver desejo
Quando não restar nem mesmo dor
Ainda há de haver desejo
Em cada um de nós, aonde Deus colocou

Enquanto houver sol
Enquanto houver sol
Ainda haverá
Enquanto houver sol

Até o fim — Chico Buarque

Por volta do ano de 2007 aprendi, pela primeira vez — e muito por acaso — o que era intertextualidade. Eu estava lendo Crescer é perigoso (Marcia Kupstas), para a escola, quando deparei-me com a palavra “gauche” que eu, desatentamente, li “guache” (sim, tipo a tinta) e, achando engraçado que um anjo dissesse para um menino “ser guache na vida” (porque a pessoa seria tinta na vida?) comentei com meus pais, que logo trataram de desfazer meu mal entendido.

Mas não só: minha mãe, como boa apreciadora de Drummond, logo me explicou que essas palavras faziam parte de um de seus poemas. E também, claro, logo me explicou o real significado de “gauche” (e não guache, por favor). E assim, “Vai Carlos, ser gauche na vida” ficou ressoando dentro de mim.

Essa passagem liga-se a outra de minha vida: desde que me conheço por gente, temos o hábito de ouvir música aos finais de semana (todos ouvirmos a mesma música, no caso). Cresci ouvindo MPB e no meio de tanta coisa, com certeza ouvi várias e várias vezes Até o fim, cantada por Chico Buarque e Ney Matogrosso.

Foi somente em 2008, porém, que descobri que esta canção também tem a sua intertextualidade com o Poema de Sete Faces, de Carlos Drummond de Andrade. E, ao descobrir isso, logo lembrei de Crescer é perigoso e tudo isso passou a ser tão especial para mim.

Mas não foi o simples fato de eu ter aprendido na prática o significado de intertextualidade que tornou tudo isso especial. Foi, sem dúvidas, o significado, principalmente da música, que por anos a fio usei como “frase de status”.

Enquanto ouvimos Até o fim podemos ver uma história se construindo diante de nossos ouvidos. A história de um garoto que cresce, mas que, não importa a idade, é sempre acompanhado pela sina decretada pelo querubim, isto é, a de ser errado.

Mas, como em tantas músicas de Chico Buarque, que viveu poucas e boas como artista brasileiro, há a esperança. A esperança de ir até o fim, mesmo sendo errado. A esperança de continuar lutando pelo não errado.

Deixo, portanto, as palavras desta canção, bem como, ao final, a música, para que vocês possam ouvir e acompanhar.

Quando nasci veio um anjo safado
O chato do querubim
E decretou que eu estava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim
“inda” garoto deixei de ir à escola
Cassaram meu boletim
Não sou ladrão , eu não sou bom de bola
Nem posso ouvir clarim
Um bom futuro é o que jamais me esperou
Mas vou até o fim
Eu bem que tenho ensaiado um progresso
Virei cantor de festim
Mamãe contou que eu faço um bruto sucesso
Em quixeramobim
Não sei como o maracatu começou
Mas vou até o fim
Por conta de umas questões paralelas
Quebraram meu bandolim
Não querem mais ouvir as minhas mazelas
E a minha voz chinfrim
Criei barriga, a minha mula empacou
Mas vou até o fim
Não tem cigarro acabou minha renda
Deu praga no meu capim
Minha mulher fugiu com o dono da venda
O que será de mim ?
Eu já nem lembro “pronde” mesmo que eu vou
Mas vou até o fim
Como já disse era um anjo safado
O chato dum querubim
Que decretou que eu estava predestinado
A ser todo ruim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim

Notícias do Brasil — Milton Nascimento

É de conhecimento de poucos — principalmente porque eu me recuso a cantar sozinha em qualquer circunstância — que durante anos fiz aulas de coral. E esse é apenas mais um dos motivos pelos quais conheço tantas músicas brasileiras.

Entrei em contato, desde cedo, com muita coisa boa. E claro que algumas músicas me marcaram mais que outras. Notícias do Brasil é uma delas. Uma canção animada, mas que me faz refletir, me faz querer dizer “sim, é isso!”.

Trata-se de uma canção composta por Milton Nascimento e Fernand Brant (grande dupla!) lançada em 1981, sendo parte integrante do álbum Caçador de Mim (nome de outra música muito bonita, aliás).

E o que torna essa música tão especial? Bem, basicamente tudo. A começar que, na primeira estrofe, fazemos praticamente uma viagem pelo Brasil, saindo do norte e do nordeste e chegando ao sul do país. Percorremos esse caminho como percorre uma notícia.

Mas tal notícia chega como um grito, como uma voz que quer se fazer ouvida: a voz do povo. Do povo que merece (e exige) respeito, e que, um dia, será unido. Triste pensar que se trata de uma música de 1981 e ainda não atingimos tal união… E muito menos comprovamos sermos mais “sábios que quem quer nos governar”.

Mas, na música, há outra novidade anunciada aos quatro cantos: a grandeza e a riqueza do Brasil. Um país que é muito mais que as prais lindas que tem e com gente boa vivendo em todo o seu território. É isso que a última estrofe nos apresenta e ela é tão bela e verdadeira que é inclusive repetida na canção.

Mas Notícias do Brasil não é incrível apenas por sua excelente letra, mas também pela própria musicalidade da canção. Um ritmo bem brasileiro, mas que não tira a seriedade e sobriedade do anúncio que se propõe a fazer.

Você já conhecia essa música? Deixo a letra abaixo e também um clip com ela. Espero que aproveite e não deixe de me contar o que achou!

Uma notícia está chegando lá do Maranhão
Não deu no rádio, no jornal ou na televisão
Veio no vento que soprava lá no litoral
De Fortaleza, de Recife e de Natal
A boa nova foi ouvida em Belém, Manaus
João Pessoa, Teresina e Aracaju
E lá do Norte foi descendo pro Brasil Central
Chegou em Minas já bateu bem lá no Sul

Aqui vive um povo que merece mais respeito
Sabe belo é o povo como é belo todo amor
Aqui vive um povo que é mar e que é rio
E seu destino é um dia se juntar
O canto mais belo será sempre mais sincero
Sabe tudo quanto é belo será sempre de espantar
Aqui vive um povo que cultiva a qualidade
Ser mais sábio que quem o quer governar

A novidade é que o Brasil não é só litoral
É muito mais é muito mais que qualquer Zona Sul
Tem gente boa espalhada por esse Brasil
Que vai fazer desse lugar um bom país
Uma notícia está chegando lá do interior
Não deu no rádio, no jornal ou na televisão
Ficar de frente para o mar de costas pro Brasil
Não vai fazer desse lugar um bom país

Ideologia — Cazuza

Ideologia - cazuza

Me lembro que, quando eu era pequena, me perguntava o que era ideologia e como se usava uma dessas para viver. Cheguei até a procurar no dicionário o sentido da palavra, mas fiquei tão confusa quanto antes.

ideologia
i·de·o·lo·gi·a

sf
1 FILOS Ciência que trata da formação das ideias.
2 Tratado das ideias de forma abstrata.
3 Conjunto de sistemas de valores sociais que reconhecem o poder econômico da classe dominante quanto à legitimidade dos ideais que refletem a ânsia por transformações radicais que dignifiquem a classe dominada ou o proletariado, segundo o marxismo e seus seguidores.
4 FILOS Doutrina que considera a sensação como fonte única dos nossos conhecimentos e único princípio das nossas faculdades.
5 Maneira de pensar que caracteriza um indivíduo ou um grupo de pessoas, um governo, um partido etc.
6 PEJ Conjunto de concepções abstratas que constituem mera análise ou discussão sem fundamento de ideias distorcidas da realidade.

Fonte: https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/ideologia/

Naquela época, recorrer ao dicionário de nada me adiantou porque, no fundo, eu também não entendia a música que me fizera conhecer tal palavra. E, para ser sincera, esta é a primeira vez que paro para realmente ler a letra e analisá-la… O que me faz ter de contar para vocês uma coisa interessante: descobri que, além de tudo, havia uma parte que eu cantava errada! Eu sempre cantei “Frequenta as festas do candomblé” (isso me parecia fazer muito sentido — e eu não sei porque eu acentuava de maneira fechada a palavra candomblé) e acabo de descobrir que o certo é “Frequenta as festas do Grand Monde” (coisa que eu jamais imaginaria, pois até instantes atrás eu sequer sabia o que era isso).

Ideologia foi composta em 1987 e lançada em 1988. O Brasil acabara de sair da ditadura (já tantas vezes mencionada nesta seção), mas as coisas ainda estavam longe de se tornarem boas. Soma-se a isso o fato de que, justamente em 1987, foi confirmado que Cazuza tinha AIDS. É nesse cenário que nasce essa canção, cheia de críticas, mas, principalmente, de desilusão — coisa que fica extramente clara nos primeiros versos. A música tem apenas três estrofes e consegue transmitir uma mensagem clara e forte.

O tal “Grand Monde” que o eu lírico passa a frequentar, segundo a canção, era uma balada LGBT frequentada pela alta sociedade da época. Isso significa que dizer que “Aquele garoto que ia mudar o mundo / Frequenta agora as festas do Grand Monde” nada mais é do que dizer que mesmo aquelas pessoas cheias de vontade e esperança de fazer a diferença, já não possuem tal força e se entregam ao sistema vigente, aos costumes daqueles que tanto criticavam.

Além disso, com seus heróis mortos por overdose — e aqui Cazuza provavelmente se refere a grandes artistas que literalmente morreram de overdose — e seus inimigos no poder, o eu lírico se sente perdido, tendo a necessidade de encontrar uma nova ideologia, uma nova forma de pensar com a qual ele se identifique e que lhe traga novas forças para lutar. Acho que quando eu era mais nova eu me fazia a pergunta errada: não deveria ser “como” mas “por que” se viveria com uma dessas?

A última estrofe da canção começa com um verso interessante. Como mencionei acima, Ideologia foi composta um pouco depois do cantor ter se descoberto soropositivo, mas seus fãs só vieram a saber disso por volta de 1989, ainda que, nesta canção, o autor já tenha falado sobre a doença de maneira sutil… E ao mesmo tempo nem tão sutil assim, porque são versos capazes de escandalizar os mais conservadores.

Meu partido
É um coração partido
E as ilusões estão todas perdidas
Os meus sonhos foram todos vendidos
Tão barato que eu nem acredito
Eu nem acredito ah
Que aquele garoto que ia mudar o mundo
Mudar o mundo
Frequenta agora as festas do “Grand Monde”

Meus heróis morreram de overdose
Eh, meus inimigos estão no poder
Ideologia
Eu quero uma pra viver
Ideologia
Eu quero uma pra viver

O meu tesão
Agora é risco de vida
Meu sex and drugs não tem nenhum rock ‘n’ roll
Eu vou pagar a conta do analista
Pra nunca mais ter que saber quem eu sou
Saber quem eu sou
Pois aquele garoto que ia mudar o mundo
Mudar o mundo
Agora assiste à tudo em cima do muro, em cima do muro

Apesar de você – Chico Buarque

Apesar de você — Chico Buarque

Para dar uma animada por aqui, resolvi falar sobre música, e não uma qualquer: hoje trago uma canção que completa 50 anos em 2020 e que, infelizmente, ainda tem seu pezinho na atualidade (e aproveito para corrigir uma falha: como ainda não tinha Chico Buarque por aqui?).

Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão
A minha gente hoje anda
Falando de lado
E olhando pro chão, viu

Apesar de você,  foi composta e lançada por Chico Buarque em 1970. O Brasil já vivia uma ditadura desde 1964 (e ela duraria ainda até 1985). Ainda que a década de 70, no Brasil, tenha sido o período do “milagre econômico” foi, também, um momento de censura aos meios de comunicação e de tortura ou exílio daqueles que discordavam do governo vigente (e justamente por isso as pessoas “falavam de lado e olhavam pro chão”).

Você que inventou esse estado
E inventou de inventar
Toda a escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar
O perdão

Apesar de ter começado em 1964, a situação da ditadura brasileira se agravou em 1968, com o “famoso” AI-5, um decreto cujas determinações ficam acima das leis estabelecidas até então. Graças a esse Ato Institucional o Presidente poderia fechar o Congresso Nacional e assumir por completo as funções legislativas, isto é, tornar-se um verdadeiro ditador, como aconteceu.

Diante desse cenário nada animador, Chico Buarque achava que Apesar de você sequer passaria pela censura. Mas passou, ao menos em um primeiro momento. E por que passou? Porque, como sempre, Chico Buarque soube fazer um uso único das palavras, dizendo o que tinha a dizer, mas construindo um texto que é direto e, ao mesmo tempo, não. Digamos que o Governo demorou um tempinho para entender que o “você” da canção se referia a eles…

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Eu pergunto a você
Onde vai se esconder
Da enorme euforia
Como vai proibir
Quando o galo insistir
Em cantar
Água nova brotando
E a gente se amando
Sem parar

Apesar de você consegue retratar bem o sentimento de muitos naquela época. Tempos sombrios, mas ainda era possível ver uma luz no final do túnel. E quando ela chegasse, a euforia seria tamanha que ninguém poderia impedir.

Se a ameça de um governo ditatorial como o das décadas de 60 e 70 ainda paira sobre nós, hoje o nosso grito também está contido por outras causas, como o vírus que tem assolado o mundo. E nós também vamos cobrar com juros o amor reprimido desse momento em não podemos nem mesmo nos abraçar.

Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido
Esse grito contido
Este samba no escuro
Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza
De desinventar
Você vai pagar e é dobrado
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar

Gostando ou não, fica difícil não concordar que Apesar de você é uma obra e tanto (dentre tantas outras igualmente incríveis do cantor, compositor e escritor Chico Buarque). Uma música que sabe jogar muito bem com as palavras (o uso de estado e juros caem como uma luva na composição, enriquecendo seu duplo sentido).

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Inda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria
Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença
E eu vou morrer de rir
Que esse dia há de vir
Antes do que você pensa

A crítica é sutil, mas contundente. Chico usa dos elementos da natureza (o jardim florescendo, o dia raiando) não apenas para enriquecer suas metáforas, para para mostrar que ninguém tem um poder tão grande capaz de controlar absolutamente tudo. E que se nós fazemos parte da natureza, uma hora, podemos nos levantar novamente, agir por nossa própria força.

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia
Como vai se explicar
Vendo o céu clarear
De repente, impunemente
Como vai abafar
Nosso coro a cantar
Na sua frente

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai se dar mal
Etc. e tal

Para completar, o ritmo de Apesar de você é envolvente. Ainda que tenha seu “quê” de tristeza, a música passa uma alegria que se fazia necessária naqueles tempos, e também nos dias de hoje.