Livros no escuro Feltrinelli [tradução 10]

Pensando no que traduzir este mês, aqui para o blog, deparei-me, entre as opções, com o tema “livros no escuro”. Na hora em que vi esse tema, lembrei-me do post Papo de clube: Tag, experiências literárias, da Nati, do Napolitano como meu pé e, pesquisando um pouco, encontrei um artigo que achei bem interessante (e talvez um pouco ácido — perdoa os italianos, gente) de traduzir aqui.

Por isso, hoje trago a vocês a tradução de Libri al buio Feltrinelli, escrito por Andrea Cabassi, em 19 de julho de 2016.

Apenas a título de curiosidade, a Feltrinelli é uma das maiores e mais conhecidas redes de livraria da Itália, e é também uma grande editora.


Eu estava, pela enésima vez, aproveitando o ócio na Feltrinelli, quando os meus olhos curiosos se depararam com um expositor que me deixou completamente perplexo.

Tratava-se da prateleira da iniciativa Livros no escuro, ou seja, uma seleção especial de títulos colocados à venda em uma caixa fechada, sem que seja possível conhecer o título, autor ou capa do livro. Únicos indícios: três adjetivos e um mini comentário escrito pelos vendedores da loja.

Movido pela curiosidade, fui até o caixa e fiz algumas perguntas ao Vendedor Misterioso, que, para não comprometer a segurança dos seus amigos e familiares, permanecerá anônimo.

Andrea Cabassi: Oi. Gostaria de pedir algumas informações sobre os Livros no escuro: como funciona?

Vendedor Misterioso: Nós, vendedores, escolhemos os títulos, dividindo entre nós os livros necessários para preencher o expositor. Uma vez selecionados, escolhemos para cada um desses três adjetivos que, para nós, são representativos daquele livro, e depois escrevemos um breve comentário ou copiamos uma citação do livro que tenha particularmente nos tocado. A escolha é basicamente orientada pelo gosto pessoal, ou então pensando naquilo que pode agradar aos clientes e fazem parte todas as editoras, não só os livros da Feltrinelli.

Andrea Cabassi: Você conhece o Appuntamento al buio con un libro [Encontro no escuro com um livro], de Sperling & Kupfer?

Vendedor Misterioso: Não, devo dizer que é a primeira vez que ouço falar. Sei que não inventamos nada, por exemplo: me disseram que no exterior é uma prática difundida há anos, portanto, não temos a pretensão de ter feito a descoberta do século. Mas não sabia que alguém na Itália já tivesse feito… O nosso, porém, é um trabalho manual, não uma produção automatizada de alguns títulos escolhidos, cada pacote tem um conteúdo diferente do outro… Pelo menos uma diferença importante existe!

Andrea Cabassi: E as vendas, como estão?

Vendedor Misterioso: Te digo: no início eu estava cético, me parecia uma jogada irresponsável. Como leitor, eu pensava que dificilmente alguém pudesse escolher um livro sem folheá-lo, ler o início ou qualquer outra página, menos ainda sem conhecer o título. Mas me enganei: os Livros no escuro estão tendo um bom sucesso e ontem mesmo uma senhora me cumprimentou pelo comentário que escrevi sobre um livro que ela comprou e me perguntou quando irei preparar o próximo… No momento, os meus Livros no escuro estão todos vendidos!

Andrea Cabassi: Você acha que a sua colega Anna Paola sabe a diferença entre um adjetivo e um substantivo?

Vendedor Misterioso: (não responde)

Fotografei alguns, pode-se ver que é realmente um trabalho artesanal. Ainda me lembram muito o Appuntamento al buio con un libro de Sperling & Kupfer e ainda me fazem arrepiar mas, resumindo, as diferenças são significativas:

  • São escolhidos pelos vendedores entre todo o catálogo da livraria, não se trata do estoque de um único editor.
  • Cada pacote é único, não tem aquela caixa de livros com papel amarelo que escondem todos o mesmo título
  • Voltamos à sensação que se tinha quando existiam os livreiros no lugar dos vendedores, com que podíamos conversar e escutar as sugestões.

Neste ponto, agradeço-o satisfeito e vou dar uma olhada nos livros. Não antes de captar o comentário de uma cliente que esclarece, definitivamente, a questão, dizendo mais ou menos o seguinte:

“Algumas dessas avaliações são muito bonitas, mas o risco de que te caia em mãos um livro de Fabio Volo é muito alto. Me valho da faculdade de escolher!”


Agora me diga uma coisa: você teria coragem de comprar um livro sem saber absolutamente nada sobre ele? Ou você já assina algum clube (que, de certa forma, é como comprar um livro no escuro)?

Calafrio — Tayana Alvez

Título: Calafrio
Autora: Tayana Alvez
Editora: Publicação independente
Páginas: 116
Ano: 2020

Antes de nos deixar embarcar em Calafrio, Tayana avisa que esta não é uma história qualquer, nem mesmo para ela, que está se arriscando em um novo gênero. Também fica o aviso de que a narrativa pode conter gatilhos, mas que, para quem tiver estômago, que siga em frente na leitura e deixe para tirar as conclusões ao final.

O recado estava dado e, mesmo assim, fui enormemente surpreendida com a leitura.

Para começo de conversa, a história toma rumos inesperados a cada instante e vai jogando com reviravoltas que estavam quase me fazendo torcer pelo final errado, mas sobre isso eu explico mais pra frente. A narrativa alterna entre presente e passado e cada peça desse quebra-cabeça vai se encaixando aos poucos, mas, de novo, sem necessariamente nos preparar para o final. Com o passado, vamos conhecendo a história de Imaní e Maia, quem são (ou eram) eles, o que fazem, de onde vêm e, com o presente, vemos o desenrolar deles, juntos.

“Às vezes, na vida, coisas estranhas acontecem. Coisas ruins acontecem”

Imaní é uma jovem que sonha com sua liberdade. Ironicamente, porém, ela é sequestrada. Pior: por alguém em quem estava começando a confiar e que parecia ser quase uma promessa de dias melhores.

“A verdade é o que você acredita que ela é”

Segundo o pouco que vai contando de si, porém, Maia — que começa como um bom amigo e acaba como sequestrador de Imaní — também se sente preso. Não como ela, claro, mas no sentido de não ter escolhas na vida. E aqui temos um ponto: Maia é humano demais, real demais.

Ele quase me convenceu de que poderia passar de vilão a herói e que estaria tudo bem se isso acontecesse. Quase me fez torcer por um final feliz. Não que o final não seja, de alguma forma, feliz, mas ele vem com um belo tapa na cara dado pela autora.

Obrigada, Tayana, por não me deixar embarcar nas conversas de Maia e mostrar que Imaní era ainda melhor do que se apresentara no início da história.

E, aliás, devo discordar que Calafrio não tenha nada a ver com o que já foi publicado por Tayana: Imaní tem a força que as outras protagonistas da autora têm e também a capacidade de nos fazer enxergar para muito além de nossa visão de mundo.

Por fim, Calafrio não é somente o título do livro, mas também a sensação que nos percorre ao realizar essa leitura, bem como é o que Imaní sente muitas vezes, ainda que, no início, não compreenda muito o porquê.

Se você quiser se jogar nesta história, clique aqui.

Um namorado para minha mãe — Rafa Alves

Título: Um namorado para minha mãe
Autora: Rafa Alves
Editora: Publicação Independente
Páginas: 85
Ano: 2020

Este conto começa com um clichê clássico: uma mulher que descobre que está sendo traída e volta aos prantos para casa. Mas a mulher em questão tem algo diferente de tantos clichês: uma filha.

Esta variável acrescenta algumas questões interessantes à narrativa, como o fato de Bianca — a protagonista — demonstrar uma preocupação e um apego enormes à menina, uma vez que fora abandonada grávida (sim, isso mesmo, ela foi abandonada grávida, depois entrou em outro relacionamento e se descobriu traída).

Só com isso, já levantamos três pontos importantes: o abandono que muitas mulheres sofrem ao se descobrirem grávidas e as consequências psicológicas que isto traz não apenas para a mãe, mas também para o filho. Além, claro, do medo de se viver a própria vida e de se permitir sentir e amar novamente. Cada passo que Bianca dá, ela pensa no que isso influenciaria Vivi, sua filha. Nas consequências que isso poderia trazer para a pequena.

Mas Vivi é uma menina doce, carinhosa e que quer, a todo custo, juntar sua mãe com o “tio preferido” que é ninguém menos que o melhor amigo de Bianca. Amigo, este, que esteve ao lado dela em todos os momento, inclusive da gravidez e que, querendo ou não, sempre foi quase um pai para Vivi.

Claro que o fato de uma criança arquitetar planos para juntar a mãe com alguém já diz muita coisa sobre o que ela vive e como ela se tornou uma mini adulta. Mas confesso que, enquanto lia Um namorado para minha mãe não pensava muito em todos esses aspectos.

Com uma narrativa doce e envolvente, a história simplesmente vai fluindo diante de nós e é difícil não se apaixonar pelas mulheres da narrativa e não torcer por um final feliz, principalmente depois de todo esse passado conturbado de Bianca.

Além disso, este conto é uma boa e rápida forma de conhecer a escrita da autora Rafa Alves, visto que ele não está relacionado à série Escolhas, que também é super gostosa de ler.

Se quiser saber mais, clique aqui.

Pequenos (e médios) negócios para 2021

Final de ano é aquela loucura, mas confesso que eu começo a me preparar para o natal bem antes de dezembro. Não, não sou aquelas doidas apaixonadas por natal, mas eu tenho uma família muito grande e uma vontade de presentear maior ainda. Aí, já viu tudo, né?

Só que… Para que facilitar quando podemos complicar?

Em 2020, vendo toda a situação na qual nos encontrávamos, eu pensei: “bom, tentarei dar, de natal, apenas livros de autores nacionais ou produtos feitos por pequenos negócios brasileiros”. E quando decidi isso, comecei a caça ao tesouro.

Eu não tinha como gastar muito, mas se fosse para gastar, que eu desse dinheiro para pessoas que provavelmente estavam batalhando para se manter em meio a uma pandemia, né?

Claro que não consegui ser 100% fiel ao que pensei, mas acredito que eu tenha chegado bem próximo disso, principalmente porque a maior parte dos presentes realmente foi livro (obrigada, Festa do Livro da USP).

Mas o post de hoje não é para falar sobre livros (milagre!) e sim sobre pequenos e médios negócios que conheci em 2020 (ok, alguns foram antes disso) e que gostaria de compartilhar com outras pessoas. Não são locais que comprei apenas os presentes de natal, mas que, em algum momento conheci e hoje recomendo.

Artesanato

Papelaria

Produtos naturais

Roupas

Línguas estrangeiras

Bônus para quem é do Rio de Janeiro (capital)

Bônus para quem é de São Paulo (capital)

E você, já teve boas experiências com pequenos comerciantes? Não esquece do comentar aqui e divulgar pessoas que merecem esse incentivo!

24h adolescente e às vezes apaixonada — Cláudia Zambrana

Título: 24h adolescente e às vezes apaixonada
Autora: Cláudia Zambrana
Editora: Chiado
Páginas: 322
Ano: 2021

A resenha de hoje tem sabor especial porque eu tive a honra e o prazer de revisar este livro que, agora, encontra-se em pré-venda (ao final do post colocarei os links de onde é possível encontrá-lo).

24h adolescente e às vezes apaixonada tem uma narrativa envolvente — na qual acompanhamos muitos momentos de Bia — e também misteriosa, porque é difícil prever qual será o desfecho da obra.

“A verdade é que me sinto diferente de qualquer pessoa que existe na face da Terra”

Esta não é uma história que nos faz torcer por um “felizes para sempre”, porque Bia ainda é muito jovem e mais que isso: ela é muito real. Uma adolescente que pode facilmente retratar alguma conhecida nossa, mesmo com todas as confusões nas quais ela entra.

“— Não podemos amar aquilo que não conhecemos, minha filha. Conheça e depois fale se ama”

A narrativa é em primeira pessoa — o que talvez contribua para tornar Bia tão palpável — e a história é intercalada por algumas páginas do diário da jovem. Além disso, toda a narrativa é construída de forma bem visual, mas sem descrições em demasia. Ao contrário, aliás, a história é muito dinâmica, cheia de vida.

Na verdade, acredito que não poderia ser diferente, uma vez que se trata da história de uma adolescente e geralmente eles são assim: cheios de vida e de sonhos. Bia é uma personagem que passa por uma grande evolução ao longo da narrativa, indo de uma menina quieta, meio nerd, tímida, para uma garota que vive algumas situações que não desejamos a ninguém, mas que também desfruta intensamente essa fase tão única e tão recheada de descobertas.

“É assim na vida, muitas vezes vamos apenas entulhando todas as situações que nos acontecem e não tomamos nenhuma decisão, ou outras vezes, mesmo não gostando da situação, não nos permitimos começar algo novo, assim como mantemos velhos hábitos só para nos dar uma certa segurança”

Além de Bia, 24h adolescente tem outros personagens muito marcantes: sua família, principalmente sua mãe, que é bem próxima da protagonista e traz o equilíbrio das palavras certas nos momentos certos; os amigos de Bia — a Tetê, a Jô, a Lara e o Dani — e, claro, os garotos que são a causa de toda a confusão sentimental que Bia vive: o Rafa (que também é seu amigo de infância), o Igor (um gatinho que ela conhece no clube e, mais tarde, descobre ser o primo da sua melhor amiga) e o Diego (que ela conhece em uma festa, em outra cidade, mas que o destino teima em aproximar a cada dia).

“Será que é possível gostar de duas pessoas ao mesmo tempo?”

Todo o livro se passa em cerca de um semestre. Começa no final das férias de verão — quando, além de tudo, Bia tem a chance de viajar com seus amigos para a casa de praia da família de Lara — e termina praticamente nas férias seguintes (praticamente porque, na verdade, Bia antecipa um pouco o início de suas férias e só lendo para descobrir o porquê).

Um aspecto interessante (e positivo) da obra é a forma como ela trata certos aspectos tão importantes para os jovens, mas que ainda precisam de tanto debate. Cláudia conseguiu inserir na narrativa passagens sobre feminismo, sexo, sexualidade, bullying, autoconhecimento, empatia… Enfim, muitos temas realmente importantes. E a inserção desses momentos é muito coerente com a história narrada.

“Acho que isso acaba acontecendo com o tempo, por mais que as pessoas falem que os amigos são para sempre, a vida acaba separando em algum momento”

24h adolescente e às vezes apaixonada tem tudo para fazer sucesso entre adolescentes, mas também entre pais de adolescentes que já esqueceram de tudo o que essa fase carrega e estão precisando daquela ajudinha para entender seus filhos.

E você pode encontrar o livro (em pré-venda) nas seguintes livrarias:

Livraria travessa | Livraria Martins Fontes | Amazon | Fnac Portugal | Bertrand Livreiros

As pessoas ainda leem blogs?

Em um mundo com tantas opções de entretenimento (filmes, séries, jogos, podcasts, redes sociais…) é muito comum ouvir a seguinte pergunta quando as pessoas sabem que tenho um blog: “tá, mas as pessoas ainda leem blogs?”.

Eu compreendo essa pergunta. Ainda mais se pensarmos no contexto brasileiro (no qual — dizem — as pessoas não leem). E também se pensarmos que eu escrevo majoritariamente sobre… Livros!

Em primeiro lugar, porém, gostaria de contestar uma informação: não é verdade que o brasileiro não lê. Não absolutamente, ao menos. O brasileiro não lê livros (sendo bem generalista, claro), mas lê posts nas redes sociais, lê notícias… E ouso dizer: lê blogs.

Eu poderia trazer dados estatísticos sobre o assunto, poderia falar sobre como blogs são uma aposta de marketing de diversas empresas. Mas a verdade é que, hoje, eu gostaria de compartilhar a minha experiência com esse universo.

Se eu considerar as estatísticas do meu blog, não posso dizer que as pessoas não leem blogs. Como você pode ver abaixo, de 2018 para cá, houve um aumento considerável no número de visualizações (e visitantes) nesta página.

E, veja bem, como eu disse acima, este é um blog que fala majoritariamente sobre livros, um assunto que realmente pode não interessar a muitas pessoas. Mas isso não significa que elas não leem blogs, porque é possível encontrar páginas sobre os mais diversos temas.

Eu poderia considerar, porém, que esse número de visitas não significa que as pessoas leem o meu blog. Elas poderiam, não sei, ter caído sem querer nessa página? Ter dado uma olhadinha e pronto?

Sim, com certeza!

Mas há outro dado que me anima bastante: os comentários.

E esse dado me anima porque já tive outro blog antes desse e os comentários eram bem mais raros que aqui. Talvez eu realmente estivesse falando sozinha ali, mas hoje vejo que não estou. Cada novo comentário me traz a certeza de que ao menos uma pessoa leu o que eu escrevi. E se uma pessoa leu, então não estou sozinha nessa.

(E um parênteses necessário: algumas pessoas falam diretamente comigo sobre o Blog. Digo, não deixam um comentário aqui, mas deixam um comentário no meu whatsapp ou numa conversa cara a cara, por exemplo).

Eu costumo ouvir essa pergunta que trouxe à tona hoje, também, por conta do instagram do Blog, um canal que criei para tentar divulgar este espaço, mas jamais para substituí-lo. Até porque, convenhamos, o instagram nos limita bastante no quesito texto, visto que ele é uma rede social de fotos. São propósitos bem diferentes, ainda que as pessoas estejam tentando usar o instagram de outras formas, quase como blogs em alguns casos.

No instagram, o que ouço é algo do tipo: “vale mesmo à pena não colocar o conteúdo todo aqui e convidar a pessoa a visitar o blog? Alguém visita?”.

Vou ser sincera: pouquíssimas pessoas. Mas já são mais que zero pessoas, não?

A verdade é que blogs (ao menos os como este, criados por hobby) não deveriam ser sobre números ou sobre o fato de pessoas visitá-los ou não, mas sim um espaço de livre criação e compartilhamento de gostos e coisas que nos fazem bem.

E se você lê este blog (ou está lendo este artigo), eu agradeço imensamente! É muito gratificante saber que há pessoas que se interessam pelo que me interesso e que estão dispostas a trocar ideias sobre o assunto.

Resumão ~ Dezembro 2020

E chegamos ao final de 2020!

Não sou uma pessoa que acredita que só porque um novo ano se inicia, tudo muda. Mas acredito que sempre é tempo de fazer novos planos, traçar novas rotas, estabelecer novos sonhos.

Estou sempre mudando. Não sei se para melhor ou para pior, mas ao menos tento aprender algo com cada fase. Também tento sempre seguir os meus planos e, por isso, dezembro foi mais um mês de conteúdos variados por aqui (sem jamais me esquecer dos livros, claro).

As resenhas do mês foram:

Além disso, postei meu último diário de leitura de As mil e uma noites; traduzi um artigo sobre os benefícios da leitura em voz alta; expliquei a diferença entre formalidade e informalidade na língua italiana; apresentei o Literatura Errante; escrevi uma reflexão sobre o fato de toda história ter dois lados; comentei sobre os resultados do meu desafio de 12 livros para 2020; falei sobre a música Enquanto houver sol (Titãs). Ufa!!

Dezembro ainda foi um mês de bastante trabalho e, nesta última semana, de um quase descanso. E as leituras encontraram um bom ritmo! Este mês eu terminei de ler Alameda do Carvalho (Ninna Vicari) e A bibliotecária de Auschwitz (Antonio G. Iturbe) e ainda li Enlace (Ana e Érulos Ferrari), Um namorado para minha mãe (Rafa Alves), Calafrio (Tayana Alvez), Enseada negra (Brias Ribeiro) e Céu de menta (Camila Martins).

E, para começar o ano com novidades, gostaria de informar que não farei mais os tradicionais resumões por aqui, porque tenho comentado sobre os posts nas minhas newsletters, enviadas quinzenalmente (ou quase!). Então, se você não quer perder nada, inclusive seu tempo, assine (gratuitamente) a minha newsletter e saiba mais sobre os últimos posts antes de lê-los completamente. Para assinar, basta clicar aqui.

E se ainda está em dúvida, confira aqui as news anteriores:

  • News 1: Hoje é um dia especial
  • News 2: Antes de mergulhar, pegue fôlego
  • News 3: Vamos olhar para o sol

Por fim, gostaria de te agradecer por ter me acompanhado ao longo deste estranho 2020! Desejo que 2021 seja mais tranquilo e recheado de boas surpresas. Espero que você tenha uma ótima virada de ano, não se esquecendo de se cuidar e manter o distanciamento social!

Enquanto houver sol — Titãs

Músicas conversam conosco. E não há nada melhor que estar despretensiosamente ouvindo uma e, de repente, perceber como aquela letra tem um significado. E como ele pode mudar de acordo com a situação.

Enquanto houver sol é uma música que conheço há anos. Mas nas duas últimas vezes que a ouvi (ambas este mês) percebi que eu não podia terminar 2020 sem falar sobre ela que, agora mais do que nunca, tem tanto significado.

Lançada em 2003, pelos Titãs, no álbum Como vocês estão?, Enquanto houver sol ganha ainda mais força em um ano como este. E o próprio título já nos dá indícios, afinal ainda falta tempo para o nosso planeta deixar de ser iluminado pelo essencial astro rei e, portanto, enquanto houver sol, ainda haverá… Bom, ainda haverá vida, mas também, como dito na música, esperança, caminhos e desejos.

Mais que isso, logo na primeira estrofe há outra mensagem essencial em tempos tão sombrios: nenhuma ideia vale uma vida. Sim, nenhuma ideia (ou ideal, ou ideologia) vale uma vida. Somos todos iguais e temos os mesmos direitos. E, para além disso, o egoísmo mata. Acho que já vimos e sentimos bem isso, não?

Na segunda estrofe, o que pode parecer mera rima, também é algo que nos diz muito mais: crianças são seres cheios de esperança, porque ainda não enxergam todas as mazelas do mundo, mas também porque são capazes de usar a sua criatividade e a sua pureza sem medo algum.

Enquanto houver sol nos lembra, ainda, que não estamos sozinhos, mesmo quando parece. E também ressalta que precisamos seguir em frente. Parados não chegaremos a lugar algum. Em 2020 muitas pessoas se reinventaram, buscaram formas de sobreviver a mudanças inesperadas. Infelizmente, porém, muitas apenas se perderam em um mar de dificuldades que parece não ter fim.

Para concluir, Enquanto houver sol fala sobre o fato de que sempre há desejos dentro de nós. Mesmo nos momentos mais difíceis, lá no fundo, há algo que nos mantém aqui, algo que nos move. Às vezes, só precisamos buscar aquela voz lá no fundo de nossas mentes e corações e entender pelo que queremos lutar e seguir em frente.

Quis escrever sobre essa música, portanto, para desejar que você encontre o sol em 2021. Para lembrar que mesmo nos dias mais nublados, é possível seguir em frente e caminhar. O sol sempre volta.

E veja: coincidentemente ou não, comecei a escrever esse post em um momento cinza e chuvoso. Poucos minutos depois, porém, o sol — que eu não esperava ver tão cedo — resolveu dar as caras, iluminando e reforçando a mensagem desta canção.

Quando não houver saída
Quando não houver mais solução
Ainda há de haver saída
Nenhuma ideia vale uma vida

Quando não houver esperança
Quando não restar nem ilusão
Ainda há de haver esperança
Em cada um de nós, algo de uma criança

Enquanto houver sol
Enquanto houver sol
Ainda haverá
Enquanto houver sol
Enquanto houver sol

Quando não houver caminho
Mesmo sem amor, sem direção
A sós ninguém está sozinho
É caminhando que se faz o caminho

Quando não houver desejo
Quando não restar nem mesmo dor
Ainda há de haver desejo
Em cada um de nós, aonde Deus colocou

Enquanto houver sol
Enquanto houver sol
Ainda haverá
Enquanto houver sol

Enseada negra — Brias Ribeiro

Título: Enseada Negra
Autora: Brias Ribeiro
Editora: Publicação independente
Páginas: 85
Ano: 2020

Na reta final deste ano, fui surpreendida com uma leitura muito interessante: Enseada Negra. Uma história narrada em terceira pessoa e, diferente de muitos livros de autores nacionais que já li, que se passa fora do Brasil, começando na Áustria e passando também pela Alemanha (que na verdade é o país natal da protagonista) e França.

Contudo, o fator mais surpreendente não é o cenário, mas a própria história. Logo no primeiro capítulo somos apresentados à rígida educação de Liesel, a protagonista. E, ao mesmo tempo, vamos percebendo o quanto ela é solitária e reprimida, a ponto de reprimir-se totalmente, em um nível realmente assustador.

“É difícil não acreditar que merece toda a dor física e psicológica que o mundo tem a oferecer”

Por outro lado, logo conhecemos, Grete, alguém que também está naquele contexto repressor, mas que tem uma base familiar muito diferente da de Liesel e que, portanto, ao invés de reprimir-se, contesta e luta, principalmente por aquilo que acredita e por aquilo que é.

No início, Grete é uma pessoa totalmente distante de Liesel, mas logo sentimos que isso pode mudar com os rumos da história. O fato é: nós não poderíamos imaginar o quanto mudaria. Tudo bem, sabendo que se trata de um romance LGBT, podemos desconfiar de algumas coisas, mas tudo acontece de forma muito mais surpreendente que o esperado.

“Por que está sempre preocupando a única pessoa que tem algum apreço por ela? Por que não consegue fazer nada direito?”

Algo que, na minha opinião, contribuiu muito para a atmosfera da história, é a presença de arte nela. Explico: em primeiro lugar, Liesel encontra no desenho uma forma de se expressar. E através de suas obras conseguimos mergulhar — mesmo com a narrativa em terceira pessoa — em seus sentimentos. Além disso, a música é um dos fios condutores da história.

Liesel é totalmente reprimida e fechada, mas é apaixonada por um gênero musical que seus pais certamente abominariam e, mais ainda, um gênero musical que lhe permite extravasar e, também, sair um pouco das regras impostas a ela. E, claro, esse gênero musical é o que a une ainda mais a Grete.

Não sei se pelo fato de Liesel desenhar ou se apenas por mero estilo de escrita, a história é recheada de descrições. Nada, porém, que nos faça morrer de sono. Ao contrário, são descrições que tornam ainda mais reais as cenas apresentadas.

Uma história densa, profunda e diferente. E uma leitura rápida! Vale a pena conhecer Enseada Negra.

E se você tiver ficado com vontade de ler esta história, clique aqui.

Resultado do meu desafio pessoal de leituras

Em 6 de janeiro deste ano de 2020 eu fiz um post intitulado “12 livros para 2020“, no qual propunha um “desafio” para mim mesma. Uma coisa boba, que nunca fiz e resolvi experimentar este ano.

Uso o adjetivo “boba” porque não foi feito com grandes reflexões. Escolhi 12 categorias de livros para ler. A ideia era que, a cada mês, eu encaixasse, entre outras leituras, um livro de uma das categorias escolhidas.

Antes de contar como foi essa experiência, gostaria de contar um fato engraçado que ocorreu: quando divulguei essa proposta no instagram do blog, recebi um comentário do tipo “Sério, só em 2019 eu li 25 livros”.

Achei esse comentário curioso porque a minha proposta não era exatamente sobre quantidade, mas sobre diversificar (e, no post em questão, eu ainda mencionava que também era para desencalhar livros, apesar de, no final das contas, eu ter lido livros que chegaram a mim esse ano).

Outra coisa que eu ainda gostaria de dizer é: eu definitivamente não sirvo para isso. Ao estabelecer 12 livros para 2020, entendi porque nunca fiz isso antes. Mesmo que fosse uma coisa para mim, senti uma certa pressão, uma certa obrigatoriedade de, a cada mês ler um livro específico. E é curioso, porque eu não determinei que categoria deveria ser cumprida a cada mês, então foi algo bem flexível. E, ainda assim, gerou uma certa preocupação em mim. Vai entender, né?

Então, ao mesmo tempo que foi bacana, é uma experiência que, provavelmente, não vou repetir tão cedo. Além disso, como eu disse antes, foi algo meio “bobo” porque, no final das contas, eu percebi que eu não estava fazendo algo realmente extraordinário. Algumas das categorias que estabeleci, eu facilmente leria de qualquer forma, ainda que esta simplesmente fosse uma proposta de não deixar certas coisas de lado ou de garantir que haveria ao menos uma leitura de determinada coisa.

Em janeiro, por exemplo, escolhi ler uma biografia ou livro de não ficção. Não é como se eu nunca fizesse isso, entende? E a leitura de janeiro não foi a única que se encaixaria neste quesito. De qualquer forma, para esta categoria, escolhi Livre para voar, escrito por Ziauddin Yousafzai, pai da Malala.

Para fevereiro, a escolha foi um livro sobre algum transtorno/doença psicológica. Ainda bem que escolhi esse tema já em fevereiro, né? E, como é o mês do meu aniversário, ganhei um livro que queria muito ler e que se encaixava direitinho nessa categoria, furando, portanto, toda a fila de livros não lidos. A obra em questão foi Céu sem estrelas, da Iris Figueiredo.

Em março escolhi uma categoria que, para mim, era um pouco mais difícil (isto é, algo que eu talvez realmente não fosse ler se não tivesse colocado neste desafio) e que contei com a ajuda do meu namorado para cumprir: ler uma HQ ou um mangá. E a obra que entrou aqui foi uma das minhas melhores leituras de 2020: A diferença invisível, da Madmoiselle Caroline e da Julie Dachez.

Uma das categorias da minha lista incluía um gênero que leio, mas geralmente quando chega às minhas mãos um livro do tipo, isto é, não é algo que, por livre e espontânea vontade eu procure: fantasia. E foi então que, em abril, li Os guardiões dos livros, da Ana Ferrari, outro livro que amei conhecer.

No mês seguinte, segui na categoria de gêneros que leio, mas principalmente quando o livro chega até mim. E, dessa vez, o gênero foi poesia. Em maio, portanto, li A princesa salva a si mesma neste livro, da Amanda Lovelace (e também li A bruxa não vai para a fogueira neste livro).

Junho foi a vez de ler um livro com um protagonista LGBTQ+ e, por isso, escolhi Não inclui manual de instruções, da T. S. Rodriguez. Gostei do fato que este livro também fala sobre autismo (que, aliás, é outro tema sobre o qual amo ler).

Em julho eu escolhi um livro escrito por uma pessoa negra. E o melhor, a escolha incluía uma protagonista negra também. E para melhorar ainda mais: conheci uma autora brasileira que me cativou com sua escrita e que, em breve, vocês verão de novo por aqui. Por enquanto, estou falando de Eu quero mais, da Tayana Alvez.

Em agosto, graças até ao incentivo de uma aluna minha, finalmente cumpri o desafio de ler um livro em italiano, e o escolhido foi outra obra que me encantou bastante neste ano: As pequenas virtudes (Le piccole virtù), da Natalia Ginzburg.

Uma pausa aqui para uma pequena reflexão: uma das categorias que eu havia separado para 2020 era um livro escrito por uma mulher. Se você prestar atenção aos títulos que mencionei de janeiro até este momento, só teve um escrito por homem! Ou seja, da mesma forma que não coloquei “ler um livro nacional”, por saber que eu faria isso, talvez eu não precisasse ter colocado “ler um livro escrito por uma mulher”, não é mesmo? De qualquer forma, considerei esta categoria em setembro, com a leitura de Giselle, da Thais Rocha, outro livro que simplesmente amei.

Depois de setembro, porém, tudo virou uma enorme bagunça (ao menos no quesito do meu desafio pessoal). O que acontece é que, em outubro, para cumprir a categoria “um livro sobre ou que se passe no período do Holocausto“, escolhi ler A bibliotecária de Auschwitz. Mas este livro é um pouco grande (e ok, o tema um pouco pesado) e tive de pausar a leitura, que só veio a ser concluída em dezembro (e a resenha vai ficar para janeiro).

Por outro lado, em novembro, concluí a leitura de As mil e uma noites, que comecei a ler pensando, também, que o meu desafio incluía a leitura de um clássico. Quem acompanhou os meus diários de leitura viu que comecei a ler esta obra em junho deste ano e a concluí em novembro e foi uma jornada muito prazerosa, ainda que longa.

Por fim, não consegui cumprir um dos desafios que propus: ler em inglês. A verdade é que acabei empurrando para a frente essa meta, principalmente porque achei que seria pesado demais intercalar com As mil e uma noites e, no final das contas, resolvi abrir mão de uma vez.

Talvez até desse tempo de ler, agora em dezembro, algo em inglês. Mas fiquei com preguiça de encarar o livro que separei para isso e também acabei resolvendo usar o meu teste gratuito do kindle unlimited para ler/baixar alguns livros que queria muito ler e agora preciso realizá-las antes de ativar novamente o wi-fi no meu kindle…

(não sei se você conhece esse truque, mas sabe quando você assina uma daquelas promoções de 3 meses do kindle unlimited — ou como eu fiz aqui, esse teste gratuito — e chega o momento de dar adeus a ele? Separe dez títulos que você quer muito ler, pegue-os emprestado e deixe seu kindle no modo avião. Assim, você conseguirá ler esses títulos mesmo que já tenha se esgotado a sua promoção, porque eles só vão “sair” do seu kindle quando você ativar novamente o wi-fi).

Confesso que eu achei que cumpriria 100% desse meu autodesafio, mas não estou decepcionada com o meu resultado. Aliás, também estou satisfeita com minhas leituras num geral. Li um pouco menos que no ano passado, mas este ano também trabalhei muito com textos variados. E claro, o que importa sempre é a qualidade, não a quantidade.

A única coisa que quero estabelecer para 2021, e agora, de verdade, para ver se diminuo a minha lista de não lidos (apesar de que sempre chegam novos livros) é, a cada mês, ler ao menos um físico e um ebook dentre os que estão parados aqui. E fechar, no máximo, uma leitura em parceria por mês (isso sim é desafio, sou péssima para dizer não…).

E para você, como foi esse ano? Cumpriu algum desafio ou meta literário que havia estabelecido inicialmente? Já tem planos para 2021?