Próximo ao fim — Diário de leitura (20)

Estou rapidamente me aproximando do fim de As mil e uma noites e hoje aproveito para comentar sobre duas histórias de uma vez. A primeira delas é A história do cavalo encantado. O título, como sempre, é bem autoexplicativo, ainda que, claro, deixe de fora muitas nuances da história.

Tudo começa com um homem que se apresenta com o tal cavalo encantado, capaz de levar aquele que nele subir para o local desejado, em um período temporal muito pequeno.

O preço por tal objeto, porém, é altíssimo: a mão da princesa. E, com isso, dá-se início a uma série de confusões, como não poderia deixar de ser. Mas uma, em especial, eu gostaria de narrar aqui.

Depois de alguns problemas iniciais, este homem rapta outra princesa — que se casaria com o príncipe daquela corte — como uma forma de vingança por tudo que lhe acontecera.

No meio do caminho, porém, a princesa consegue pedir socorro, e é salva por um homem que parece ser uma ótima pessoa. Mas as aparências enganam, não é mesmo? Tal homem quer, a todo custo, desposá-la. E ela se vê uma profunda agonia por isso. Claro que, depois disso, muitas outras coisas acontecem e tudo se resolve. Mas me chamou a atenção uma passagem em específico:

“Sultão de Cachemira, quando outra vez pretenderes desposar uma princesa que te roga proteção, trata antes de obter-lhe o consentimento!”

Tudo bem que este é um discurso de um quase marido bravo por ver outro homem querendo roubar sua esposa, mas, ainda assim, essa frase me parece um grande passo em relação ao tratamento dispensado às mulheres das histórias que preenchem as páginas de As mil e uma noites.

Veja bem: é um homem dando bronca em outro homem sobre a necessidade do consentimento da mulher. Esse é um discurso que, infelizmente, até hoje, muitos homens ainda não entenderam.

A segunda narrativa que quero comentar aqui é A história do príncipe Ahmed e da fada Pari-Banu. Uma história muito fantástica, com várias reviravoltas e permeada por objetos mágicos.

O que chamou minha atenção nesta narrativa foi que, nela sim, vi aparecer um “tapete voador”, coisa que não me recordo de ter visto na história de Aladin. O que, uma vez mais, me faz pensar na adaptação da Disney… Será que há referências a outras histórias de As mil e uma noites em Aladin? O que vocês acham?

Brilhante — Renato Ritto

Título: Brilhante
Autor: Renato Ritto
Editora: Publicação independente
Páginas: 44
Ano: 2020

Você já enviou um email que não deveria ter enviado e entrou em desespero, sem saber o que fazer? Para a nossa sorte, hoje em dia é possível desfazer o envio, se formos velozes em notar o erro.

Mas por que estou falando sobre emails em uma resenha? Porque Brilhante é um conto totalmente escrito neste formato, isto é, cada detalhe ao qual temos acesso, nesta história, nos chega através de emails trocados entre os personagens.

Tudo começa, conforme nos indica o cabeçalho do primeiro email, numa segunda-feira, dia 6 de abril de 2020. Trata-se de uma mensagem de Frank Lima para Alex Gomes, dois funcionários da Agência Brilho.

Para ser mais exata, Frank é gerente de projetos da agência e está dando um leve puxão de orelha — entremeado por muitos elogios — em Alex, o estagiário. O email é escrito de forma muito interessante, pois não parece exatamente uma bronca. E isso é um ponto, de certa maneira, discutido mais adiante no conto.

Se fosse só essa primeira “bronca”, tudo bem. O problema é que o tal gerente decide mandar um email coletivo e Alex resolve escrever uma resposta bem sincera… Que não deveria ser enviada! O que era para ser apenas um desabafo, vira uma grande confusão.

Ao perceber a burrada, Alex envia outro email, desesperado, mas para sua colega, Thais Rosa, também estagiária da agência. E daí para frente, são muitas reviravoltas! A gente fica com o coração na mão, querendo saber como Alex irá se safar dessa situação.

Ao mesmo tempo que Brilhante é uma leitura extremamente leve e divertida — sim, daquelas que você dá risadas enquanto lê — tem um certo quê de crítica, seja à desvalorização que estagiários e artistas sofrem, seja à forma como as coisas podem ser conduzidas em agências (este é um tipo de ambiente totalmente desconhecido para mim e foi muito interessante vê-lo retratado em uma história como esta).

No momento que cheguei à última página, soltei um sonoro “quê???”. Um excelente final aberto, que nos deixa ansiando por muito mais. Dá vontade de ler de novo, para absorver cada detalhezinho desta história.

E se você se interessou, clique aqui e saiba mais!

Eu sou escritora?

A verdade é que este é um assunto sobre o qual penso bastante. Muitas pessoas diriam (e dizem) que sim, sou escritora. Eu, por outro lado, tenho dificuldade em concordar com elas. Mas por quê?

Tive a sorte e o privilégio de crescer em uma família de leitores e acredito que já comentei muitas vezes sobre isso aqui no Blog. Não sei qual foi o primeiro livro que li ou que livro despertou minha paixão pela leitura, só sei que, desde que me entendo por gente, sou apaixonada pelas palavras e estou sempre lendo um livro atrás do outro.

Isso significa que, desde pequena, sou fascinada pelo universo literário. Sempre achei o máximo a capacidade de completos desconhecidos me apresentarem novos mundos e novas possibilidades. Conhecer um um autor (pessoalmente, digo) era algo bem raro e surreal para mim. Então eu sempre vi essas pessoas como seres realmente fantásticos, de outro mundo, inalcançáveis, mas capazes de fazer maravilhas com as palavras.

(Ao mesmo tempo, esse pensamento não faz sentido algum, pois tenho familiares que também publicaram livros, que trabalham com livros… Enfim, a ingenuidade faz isso conosco).

Hoje em dia (ao menos antes dessa pandemia), eu vou a eventos literários e vejo com meus próprios olhos que escritores são seres de carne e osso como eu; ou então eu troco ideias, através das redes sociais e do blog, com autores que me pedem para ler seus livros e divulgá-los. São gente como a gente. E, ainda assim, não consigo me colocar no mesmo nível que eles. Não consigo me ver como escritora.

Mas, Tati, por que você deveria se considerar uma escritora?

Caso você ainda não saiba, tenho alguns contos publicados. Mas sim, por enquanto, é “só” isso. De qualquer forma, contarei um pouco mais sobre cada um deles.

Em 2016, quando eu ainda tinha meu outro Blog (que deletei pouco tempo depois), fiquei sabendo sobre uma seleção de contos natalinos, para uma antologia da Editora Illuminare.

Naquela época, eu não sabia muito bem como funcionavam essas antologias, nem a importância que elas podem ter para autores iniciantes. Ainda assim, como o natal era uma época especial para mim, resolvi escrever sobre o tema e, sem grandes pretensões, enviei meu conto. Eu só queria poder colocar no papel como eram as minhas festas natalinas, pois sei que minha família comemorava de maneira muito especial. E ver esse edital foi o empurrãozinho que eu precisava para isso.

Acontece que… meu conto foi selecionado! Eu sequer havia comentado com pessoas próximas que tinha enviando um conto para uma seleção. E só joguei a informação “no mundo” quando meus exemplares chegaram aqui em casa, porque até então eu não poderia acreditar numa coisa dessas.

Lembro-me, inclusive, que haveria um evento de lançamento da antologia, no Rio de Janeiro, e eu e meus pais até cogitamos participar. Acabou não dando certo, mas às vezes me pergunto como teria sido isso. Talvez as coisas fossem diferentes se eu tivesse ido a esse evento…

De qualquer forma, passava a existir a minha primeira publicação de verdade: o conto “Devaneios de um caloroso natal” na antologia “Natal em verso e prosa“, da Editora Illuminare.

Depois disso, só fui mergulhar novamente neste mundo mais recentemente. Desde o final do ano passado, para ser mais exata, com um edital para uma antologia sobre romance clichê. Quer algo mais a minha cara?

Li a proposta e logo senti um comichão para colocar em palavras uma ideia que foi nascendo, aos poucos, dentro de mim. Foi assim que, em dezembro de 2019, consegui ser selecionada para a antologia “Um clichê para recordar“, da Editora Cervus, com o conto “Pegue a minha mão (e a minha vida inteira)” [alguém aí sacou a referência desse título?].

Por uma série de motivos (como atrasos na publicação, falta de informação, erros), acabei não divulgando essa antologia, que só veio a ser efetivamente publicada em outubro deste ano. Mas ela finalmente existe!

Um pouco depois de ser selecionada para a antologia da Cervus, fui convidada a organizar a antologia “Um amor para chamar de meu“, da Editora Lettre. Mas, além de organizar, eu teria de escrever um conto também… E foi aí que publiquei “A língua do amor”, um dos meus contos mais queridos (por mim, digo). O ebook desta antologia foi publicado em março de 2020 e a versão física saiu em julho deste mesmo ano.

Por fim, ainda em 2020, publiquei o conto “A vida em ondas”, na antologia de halloween da Editora Lettre. “Gostosuras ou travessuras” foi publicada em outubro e pode ser lida gratuitamente!

Sim, eu tenho quatro contos publicados e, mesmo assim, não me considero escritora. Mas não, eu não acho que quem escreve apenas contos seja menos escritor que alguém que publicou um livro solo. Apenas tenho dificuldades em me ver neste papel.

Ainda assim, agradeço aos que discordam de mim e, mais ainda, aos que me apoiam em minhas loucuras literárias. Quem sabe um dia eu mesma mude essa visão que tenho? Mas me resta uma dúvida: o que é essencial para que você considere uma pessoa uma escritora?

Confiança e comedimento — Diário de leitura (19)

Foi só eu sentar de frente para a tela em branco e repassar alguns pontos de A história de Ali Codja, mercador de Bagdá que logo percebi que essa história, ainda que não seja das mais longas em As mil e uma noites tem muitas mensagens a nos passar, inclusive com relação a comportamentos que temos até hoje.

Para começar, esta é uma história que fala sobre confiança. Não gosto de ser aquela pessoa que desconfia de tudo mundo, mas muitas vezes isso é preciso. Às vezes, basta uma simples opinião contrária e uma amizade ou um relacionamento de anos vão por água a baixo.

Na história em questão, Ali Codja decide partir por um tempo, viajar por terras desconhecidas, confiando a seu amigo, antes de partir, um vaso. E olha só a loucura: Ali Codja disse apenas que era um vaso cheio de azeitonas e deixou o mesmo em um depósito do amigo.

Alguns anos depois, Ali Codja não havia ainda retornado e a esposa desse amigo queria azeitonas. Tal amigo lembra-se do vaso e pensa que um punhado de azeitonas não faria falta. Mas logo descobre que ali há muito mais: há moedas de ouro! E bom, uma vez que Ali Codja ainda não retornara, que mal faria pegar aquelas moedas?

O que ele não contava é que logo Ali Codja voltaria e, claro, buscaria o seu vaso que já não continha mais as tais moedas de ouro. E isso gera uma disputa entre os dois amigos, como já é de se imaginar.

Não sendo possível resolver o conflito de maneira amigável — afinal, não há mais amizade entre eles após esse episódio — eles partem em busca de um cádi (juiz muçulmano). Tal cádi, porém, dá razão ao (ex)amigo de Ali Codja e este, nada satisfeito, pede a intervenção do califa.

A esta altura, preciso mencionar a segunda mensagem que esta história traz, e que, ainda que ela seja deixada bem explícita ao final da história, está estritamente relacionada a esse acontecimento: não devemos julgar precipitadamente.

Se algum dia te colocarem em uma posição de juiz de alguma situação, pare, reflita e analise todos os lados da história. E se nunca te colocarem nesta posição, ótimo, então não saia emitindo a sua opinião sem ao menos ter a certeza de saber sobre o que está opinando.

Bem, depois que é solicitada a intervenção do califa neste conflito, o mesmo fica um pouco sem saber o que lhe aguarda. Passeando por suas terras, porém, depara-se com uma cena que logo chama sua atenção: algumas crianças estão brincando e brincadeira é justamente encenar o julgamento de Ali Codja.

A solução dada pelo juiz mirim, no entanto, agrada tanto ao califa que ele pede que levem o garoto ao palácio no dia seguinte, para participar do verdadeiro julgamento. E essa é a terceira mensagem desta história: a importância de darmos ouvido às crianças e ao seu senso de justiça.

Em uma simples brincadeira de criança, o garoto foi capaz de pensar em uma solução que poderia parecer óbvia, mas que o cádi sequer havia cogitado, fazendo-o julgar de maneira injusta uma situação extremamente séria.

Essa foi uma história que realmente chamou minha atenção durante a leitura e que agora, passados uns dias, admiro ainda mais, por ver o quanto ela carrega dentro de si. Uma história que merecia ser mais contada e divulgada.

Você já conhecia A história de Ali Codja, mercador de Bagdá?

As 220 mortes de Laura Lins — Rafael Weschenfelder

Título: As 220 mortes de Laura Lins
Autor: Rafael Weschenfelder
Editora: Publicação Independente
Páginas: 53
Ano: 2020

Escrever um conto não é uma tarefa tão simples quanto parece, porque não é simplesmente escrever uma histórinha curta e acabou. A “histórinha” precisa ter começo, meio e fim na medida certa. E se tem algo que eu posso dizer é que As 220 mortes de Laura Lins tem exatamente isso. Ok, talvez eu não importasse de ler um pouco mais… Mas isso é pelo que ainda vou apresentar abaixo.

Acho que uma das coisas que surpreende logo de cara neste conto é a linguagem: totalmente acessível. Digo, o conto é escrito numa linguagem adequada aos personagens nele apresentados (dois jovens que estão no ensino médio) e, ao mesmo tempo, é recheado de referências que nos aproximam ainda mais dos acontecimentos e da narrativa. Não é uma história que termina em si mesma, mas que nos abre horizontes.

E aqui pegamos outro ponto crucial: a narrativa. Impossível não ser fisgado por essas páginas. Rafael pegou uma ideia e trabalhou em cima dela de maneira muito criativa, divertida e, apesar de tudo (e vocês já vão entender essa “ressalva”), leve.

Em certo momento da leitura, fiquei pensando se havia uma metáfora por trás daquelas palavras, onde tudo aquilo chegaria. Entendi que não era exatamente uma metáfora, mas havia uma grande mensagem a ser passada e… Uau! Como isso foi muito bem feito.

Mas vamos ao que interessa: antes de começar a leitura da história propriamente dita, somos apresentados a 5 regras. Guarde-as, você logo entenderá cada uma e — provavelmente, ao menos comigo foi assim — achará muito bacana o paralelo ali traçado.

“Nesse jogo, é a mente que fica com as cicatrizes mais profundas”

Os capítulos são nomeados de “ciclos” e isso também logo se explica. Se você olhar o sumário, verá: Ciclo 1, Ciclo 2, Ciclo 3, Ciclo 220, Ciclo 221 e Laura. Não, não é um erro. Lembre-se que estamos falando de um conto e você, ao iniciar a leitura, logo entenderá que não seria possível narrar cada um dos ciclos (eu leria, viu?). Mas por quê?

A cada novo ciclo, Daniel acorda em seu quarto, olha para o celular e vê a mesma data e hora: 17 de maio, 13:23. A cada novo ciclo, Daniel vai se encontrar com Laura no Parque do Ibirapuera. E a cada novo ciclo, Daniel tenta evitar a morte de sua amiga (e falha).

É claro que depois do 3º ciclo, tanto Daniel quanto nós, leitores, já entendemos que ele está preso em um looping temporal. O que não sabemos — e nem ele — é como sair disso.

E apesar disso poder soar repetitivo, não é. Não apenas porque, a cada ciclo, Daniel descobre algo novo, mas também porque somos, aos poucos, apresentados à história dele e de Laura, que é muito mais complexa e instigante do que poderíamos esperar de dois jovens colegiais.

Ok, talvez “instigante” tenha sido um adjetivo exagerado, mas a realidade é retratada ali de maneira tão palpável que não tem como não vermos um filme passando em nossas cabeças.

“Viver a mesma tragédia 219 vezes e não poder conversar com ninguém é demais até para Daniel Trombadinha”

Li esse conto bem rapidamente, torcendo até o último momento por um final feliz. Não posso dizer que cheguei onde esperava, mas o final está realmente muito bem pensando.

E se te deixei com vontade de saber mais sobre essa história, clica aqui.

Filhos que não leem: instruções de uso [tradução 8]

Escrever para papais e mamães nunca me passou pela cabeça, mas a verdade é que as dicas que encontrei no post Figli che non leggono: istruzioni per l’uso (e que traduzirei aqui embaixo), podem ser úteis não apenas para pais, mas também para professores ou mesmo para qualquer pessoa que tenha contato com jovens (e, por que não? Adultos) que não gostam de ler.

O post original encontra-se no site Cultura18, e foi publicado em maio de 2019, por Erica Regalin. Confira aqui.


A maioria dos pais reclama que os filhos não leem o suficiente; mas é difícil competir com tablet e smartphone: o display iluminado parece ter a capacidade de aprisionar o usuário em um vórtice que não deixa espaço para dar atenção a outras atividades! As novas gerações estão habituadas a receber milhares de estímulos simultaneamente e as mídias sociais fossilizam as mentes para a leitura de textos breves e velozes; faz-se, portanto, necessário treinar novamente os jovens a encarar um bom número de páginas (inclusive de uma certa complexidade). Não todos, porém, aproximam-se dos livros espontaneamente, sendo, portanto, necessário utilizar táticas estratégicas para colocar um exemplar nas mãos dos próprios filhos!

O QUE NÃO É PRECISO FAZER

Obrigá-los a ler: insistir não te levará a lugar nenhum; o único efeito obtido será o de fazê-los odiar os livros, o que é bem diferente de não amá-los.

Criticar as demais atividades: cada uma delas sempre agrega valor, o que contribui para o crescimento e o estabelecimento da personalidade deles.

Gritar com eles ou diminuí-los diante dos outros porque não leem: desmerecer um jovem em fase de crescimento e fazê-lo sentir-se um erro pode causar insegurança.

Impor os próprios gostos: você não é o seu filho, portanto é necessário tratá-lo como uma pessoa única e aceitar que ele pode apreciar inclusive as leituras que você mais detesta!

O QUE É PRECISO FAZER

Dar o bom exemplo! Se os pais não transformam a leitura em uma prioridade, optando por ativamente dedicar um tempo a ela, não podem esperar que o filho o faça. Ninguém gosta de hipocrisia!

Proibir alguns livros em casa: a curiosidade é a característica dos jovens que mais facilmente pode ser desfrutada. O objeto proibido sobre o qual criar esse misticismo pode ser um exemplar com ilustrações peculiares ou um projeto gráfico interessante.

Responder às perguntas deles com um livro! Demonstrar a utilidade dos textos os encoraja a utilizá-los. Pode também ser divertido planejar uma “caça” às informações com os livros de casa, colocando-os como base útil para qualquer tipo de pesquisa e premiando o vencedor com um bom lanche.

Criar um espaço para os livros deles. Por que devemos considerar algo importante se nem mesmo temos um espaço para isso? Construir e personalizar uma prateleira ou uma biblioteca com os próprios pais relaciona simbolicamente aos livros uma ótima recordação!

Perguntar a opinião sobre o que leram ou estão lendo (independentemente do tipo de livro). O diálogo é um enriquecimento contínuo, principalmente se a sua opinião interessa a alguém.

Presentear com livros que correspondem aos gostos pessoais dos filhos: não é preciso limitar-se às narrativas, mas explorar também álbuns ilustrados e graphic novel; o conteúdo poderá ser aprofundado através de livros cada vez mais precisos e complexos.

Estimule-os a acabar com os livros: é muito bom avaliar criticamente uma obra, principalmente aquelas que não gostamos. Encoraje-os a falar de cada elemento que não gostaram e, se possível… Esteja ao lado deles!

Tablet e smartphone nem sempre são inimigos: existem diversas plataformas que permitem a leitura de ebook e fan-fiction. Talvez o fascínio da tela luminosa desta vez possa ser positiva aos olhos ali “colados”.

Encorajar as novas gerações a ler talvez não seja assim tão difícil: são múltiplas as ações possíveis de realizar. Cada pessoa, porém, é diferente, portanto a criatividade, a imaginação e a vontade de fazer continuam a ser o melhor instrumento para usar para encontrar novas soluções e metodologias. O importante é reinventar-se sempre!

Abre-te, Sésamo — Diário de leitura (18)

Você provavelmente já ouviu falar de Ali Babá. Creio que essa seja uma das histórias mais conhecidas de As mil e uma noites (após, claro, a de Aladim). E se você já a conhece, ao menos por alto, provavelmente identificou logo de cara o título deste post, no qual, claro, falarei sobre A história de Ali Babá e dos quarenta ladrões exterminados por uma escrava.

Ao sentar para escrever, porém, fiquei refletindo sobre esse título. “Uma escrava”. Ora, a tal escrava tem nome e é graças a ela que Ali Babá sobrevive. E ele, por sua vez, o que faz de tão excepcional além de descobrir uma caverna cheia de tesouros?

Morjana — a escrava — salva a vida de seu amo não uma, mas duas vezes. E, com muita sagacidade, ela consegue, sozinha, derrotar, em um primeiro momento, 37 ladrões e, mais tarde, o chefe deles. Os outros dois, de certa forma, ela também foi a responsável pela morte, mas de maneira indireta.

Outra coisa que não posso deixar de mencionar é que, mais uma vez, fui surpreendida, pois não sabia dos desdobramentos desta narrativa. No meu imaginário, aliás, eu podia jurar que Ali Babá era uma espécie de chefe dos 40 ladrões. Nada a ver!

Agora me pergunto se essa minha confusão deve-se realmente a um desconhecimento da história, uma falta de memória ou se ela realmente chegou a mim desta maneira, quando eu era mais nova, tendo sido, portanto, transformada com a transmissão boca a boca ao longo dos anos. Que versão você conhece de Ali Babá e os quarenta ladrões?

Ali Babá era um homem relativamente pobre, lenhador e que, um dia, descobre uma caravana com os tais 40 ladrões. Mas, mais que isso, descobre uma caverna, na qual eles escondem os frutos de seus roubos. E essa descoberta, claro, muda a vida de Ali Babá, mas não apenas de um jeito óbvio.

Para abrir a tal caverna, como já é de se imaginar, deve-se usar uma “senha”, que é a célebre frase “Abre-te, Sésamo”. Você sabe o que significa Sésamo? Eu só vim a pesquisar agora e, para variar, me arrependi (de não ter pesquisado antes, no caso).

O sésamo é um grão comestível, como o gergelim. E saber disso dá uma nova dimensão a uma passagem da história: o irmão de Ali Babá também vai até a tal caverna — mais interessado que o primeiro em tornar-se ainda mais rico — porém, na hora de sair de lá, apavorado por ouvir a aproximação dos ladrões, ele esquece-se da palavra “sésamo” e diz “abre-te, cevada”. Um erro que pode parecer sem sentido, mas que não é quando descobrimos que a cevada e o sésamo são grãos semelhantes.

E, mencionando essa passagem, percebo como, uma vez mais, fica a sutil lição de que a ganância só nos traz infortúnios. Enquanto Ali Babá pretendia usar da sua descoberta de maneira cautelosa e comedida, seu irmão quis logo apoderar-se de tudo quanto possível, esquecendo-se, porém, de tomar cuidado e, consequentemente, sofrendo um terrível destino.

Irresistível Doutor — Ingrid Sousa

Título: Irresistível Doutor
Autora: Ingrid Sousa
Editora: Lettre
Páginas: 240
Ano: 2020

Muitas pessoas torcem o nariz para romances hot e, geralmente, a capa já deixa bem claro o estilo do livro. Mas é aquela velha história: não podemos julgar um livro pela capa, não é mesmo?

“Nunca haverá um nós enquanto eu for dona de mim”

Irresistível Doutor é o primeiro romance hot da autora Ingrid Sousa e, ainda que ela tenha usado um ou outro elemento comum a esse tipo de história, percebemos que, em diversos momentos, há inovações muito interessantes e que tornam a leitura extremamente prazerosa. E engraçada! Mas também há cenas de partir o coração.

“Sou ótima cuidando do coração das pessoas, mas uma negação para cuidar do meu”

A história já começa com um soco no estômago: Mark termina seu noivado com April, nossa protagonista, por mensagem de texto! E se isso não fosse o suficiente para odiar um homem desses, a cada página, só piora (mas vou deixar que você tire suas próprias conclusões…)

“O que realmente me quebrava era o fato de não poder confiar, de ter sido feita de boba”

Mas se engana quem pensa que passaremos o resto do livro vendo uma mulher despedaçada ou então que se entrega ao primeiro que aparece. April sofre, é claro, mas Melissa, sua irmã gêmea, dá uma ajudinha para que ela dê a volta por cima.

“Nunca poderia ficar com raiva da Mel por me amar tanto quanto eu a amava”

April é norte-americana, mas é no Brasil que a história se passa, pois é aqui que ela recomeça sua vida. E, logo de cara, nos deparamos com a cena do “vizinho peladão”, que nos arranca boas risadas.

“Eu a deixei dentro do táxi e parti com destino ao Brasil”

April tem as suas feridas recentes, mas ela logo conhece Guto, um rapaz lindo e gentil que derrete o coração dela. Contudo, ele não parece querer se entregar ao que também sente por April. E é aí que percebemos que ela não é a única personagem a carregar feridas.

“Era horrível vê-lo daquela forma, seu coração estava partido, assim como o meu, mas as feridas pareciam ainda mais profundas e dolorosas. Era como se ele já tivesse vivido tudo aquilo antes”

Irresistível Doutor é aquele tipo de leitura que te prende, porque sempre acontece algo novo e que te faz querer saber como aquela situação irá se resolver e quais serão os próximos passos. Uma leitura prazerosa e intensa, que vai fazer as horas voarem.

“Eu gostava dele, mais talvez do que conseguia explicar”

Os personagens são cativantes. Exceto Mark, claro. E Guto, em alguns momentos. Mas este a gente perdoa, o primeiro não. O time feminino da obra é excepcional: April, Melissa, Camila. Mulheres independentes, fortes, inteligentes.

“Ser cirurgiã era a única constante em minha vida e eu me orgulhava de ser excepcional no que fazia”

Quer saber mais sobre Irresistível Doutor? Então clique aqui.

Desmistificando o mestrado [14] — Minha pesquisa

Este é, muito provavelmente, meu último post desta série sobre o mestrado. Isto porque, acredito eu, já consegui abordar todos os pontos que gostaria. Mas, se eu estiver enganada, será um prazer continuar escrevendo sobre outros tópicos, basta me avisar nos comentários.

Porém, não posso negar, é bem simbólico para mim concluir esta série em novembro, pois foi neste mês que, há um ano, defendi minha dissertação de mestrado. E é por isso que também aproveito este momento para, depois de tudo o que expliquei aqui, finalmente falar um pouco sobre a minha pesquisa.

E claro, vamos partir do título dela: “A música no imaginário ítalo-pedrinhense: o pós-método no ensino e na revitalização da língua de herança”. Muito complexo? Apenas aparentemente.

Música todos nós sabemos o que é. O que você talvez não saiba é que sou apaixonada por essa arte quase tanto quanto sou pela literatura. E na introdução da minha dissertação eu falo um pouco sobre isso e sobre meu percurso em aulas de música (piano, coral…).

O imaginário ítalo-pedrinhense já começa a complicar um pouco as coisas, mas explico: Pedrinhas Paulista é uma pequena cidade do interior paulista e, mais que isso, uma ex-colônia italiana (uma das mais recentes, por sinal). E é daí que vem a junção desses termos assombrosos, isto é, em minha pesquisa eu trabalhei a questão da música em Pedrinhas Paulista e, principalmente, como esta arte aparece para as pessoas que vivem nesta cidade, o que a música significa para elas.

Sobre o pós-método, já expliquei um pouco no meu post sobre métodos didáticos, mas, claro, em minha pesquisa eu apresento de maneira um pouco mais aprofundada e também pensando na questão de como aplicá-lo no ensino de uma língua. Mas não uma língua qualquer, e sim uma língua de herança.

E aqui chegamos ao último ponto do título que eu provavelmente preciso explicar. Você se lembra que, ali em cima, eu falei que Pedrinhas Paulista foi uma recente colônia italiana, correto? Isso significa que os primeiros habitantes desta cidade falavam italiano, e foram aprendendo português com a convivência em terras brasileiras.

Alguns desses fundadores (cada vez menos) ainda estão vivos e morando ali, mas seus filhos e netos, tendo estudado em escolas brasileiras, foram cada vez mais se afastando da língua e da cultura italiana. Porém, ainda que filhos e netos tenham se afastado, eles ouviam seus pais (e até avós) falando italiano e dialeto e é por isso que se fala em revitalização da língua de herança.

Uma língua de herança, portanto, é muito diferente de uma língua estrangeira, que muitas vezes não traz nenhum vínculo emocional para a pessoa e pode ser totalmente desconhecida.

Para falar de tudo isso que mencionei até aqui, escrevi quatro capítulos, além da introdução e da conclusão. Cada uma dessas partes foi nomeada com termos derivados da música, que escolhi a dedo e expliquei a cada vez que eram usados. A introdução, por exemplo, foi chamada de Abertura.

No primeiro capítulo — chamado de Legato — eu falei sobre Pedrinhas Paulista (usando inclusive fotos da cidade), sobre o curso de Italiano como Herança, ministrado na cidade, e sobre língua de herança e histórias de vida.

O segundo capítulo recebeu o nome de Melodia e é nele que falo sobre a música em Pedrinhas Paulista, traçando inclusive um percurso entre as festas locais e a história da rádio da cidade. Antes, porém, também falo um pouco sobre a questão da identidade.

Arranjo — o terceiro capítulo da minha dissertação — foi dedicado ao ensino de línguas. Nele, assim como fiz em meu post (mas claro, de maneira mais aprofundada), falo um pouco sobre os métodos de ensino de línguas e sobre o pós-método, mas também falo sobre a música como recurso didático.

No quarto capítulo — denominado Diapasão — eu mostro o lado mais prático da minha pesquisa, falando sobre como apliquei tudo aquilo que fui apresentando ao longo dela e os resultados que obtive a partir disso.

Inclusive, isto foi um ponto muito importante para mim: minha pesquisa tinha um lado prático. Eu mesma pude ver a aplicabilidade daquilo que estava produzindo, também, de maneira teórica. A parte prática foi a elaboração de uma unidade didática, além da análise dos resultados obtidos a partir do uso dela (infelizmente não fui eu quem aplicou diretamente a unidade didática em sala de aula).

A conclusão recebeu o nome de Finale e, depois dela, ainda temos as referências bibliográficas e os anexos da minha pesquisa.

Se você tem interesse em se aprofundar em algum desses aspectos que mencionei, minha pesquisa está disponível de forma gratuita aqui.

E para quem caiu de paraquedas neste post, vou deixar aqui o link de todos os outros desta série, em ordem:

De volta ao formato — Diário de leitura (17)

Depois de muito tempo, deparei-me novamente com uma história que engloba outras três narrativas em As mil e uma noites. E, neste caso, tudo começa com As aventuras do califa Harun Al-Rashid.

Depois de ter lido tantas histórias desta obra, sei já que o califa é uma pessoa importante para a cultura e a religião em questão. E, nesta narrativa, tudo começa quando tal figura encontra-se em um dia de grande tristeza, mas é lembrado pelo seu grão-vizir de que deve cumprir algumas obrigações e, como muitas vezes pode acontecer, essa distração acaba fazendo com que seu humor mude.

Disfarçado de mercador, o califa sai pela cidade, acompanhado do seu grão-vizir, para verificar como anda o policiamento nas ruas. E é nesta ronda que o califa encontra os três personagens que darão origem às narrativas que estão dentro desta.

O primeiro personagem encontrado é um pedinte cego, mas que só aceita esmolas mediante uma bofetada. E é através de A história do cego Baba-Abdalá que podemos compreender porque se dá tal absurdo.

Depois, conhecemos A história de Sidi Numan, que, em praça pública, açoitava impiedosamente uma égua. Aqui temos uma narrativa como já mencionei algumas vezes: de humanos transformados em animais e, depois, novamente transformados em humanos.

Por fim, chegamos à História de Codja Hassan, um homem muito humilde que pôde enriquecer — graças a uma aposta feita entre dois amigos — a ponto de sua nova moradia atrair a atenção do califa. Mas Codja Hassan apenas enriqueceu por ser homem sério e disposto a multiplicar uma súbita riqueza ao invés de gastá-la de uma vez. Isso, porém, após alguns interessantes percalços que, ouvindo, jamais acreditaríamos.

Estas três narrativas que descrevi, emolduradas pelos questionamentos do califa, compõem uma história capaz de nos apresentar traços culturais muito interessantes, mas não só: elas nos mostram, de forma bem sintética, o formato de tantas outras histórias de As mil e uma noites.

E, para melhorar, sabe o que vem depois? A história de Ali Babá e dos quarenta ladrões exterminados por uma escrava! Mas essa, claro, deixo para meu próximo diário de leitura.