Mas eu quero morrer & Quase alguma coisa — Maicon Moura

Hoje eu trago a vocês, queridos leitores deste Blog, uma resenha dupla. Isto porque semana passada, realizei a leitura de dois contos de um mesmo autor. E apesar de escritos pela mesma pessoa, cada um desses contos têm as suas particularidades.

Primeiro, peguei para ler Mas eu quero morrer. Mergulhei na leitura como muitas vezes faço, tendo apenas visto a capa e sem ler a sinopse. E deparei-me com sete páginas que me deixaram reflexiva.

Somos jogados em uma realidade na qual os avanços tecnológicos nos permitem viver para sempre — e aí acho que esse título tão impactante já fique um pouco mais claro —, mas não apenas isso: podemos viver para sempre em corpos jovens e saudáveis. Será que isso é realmente tão bom assim?

Um conto rapidinho de ler e que eu super indico para quem curte ficção científica. Mas também indico para quem não conhece tanto o gênero, pois pode ser uma interessante porta de entrada.

Por outro lado, Quase alguma coisa é um conto muito… Real? Ele pode parecer confuso, mas a verdade é que confuso somos nós e é isso o que está retratado ali. Peguei ele logo após Mas eu quero morrer, apesar de ainda estar reflexiva, e logo fui nocauteada novamente, rendendo-me a uma história totalmente diferente, mas igualmente incrível.

Este conto nos mostra o quanto nossa mente é capaz de nos fazer enxergar o que não existe, ou então de criar uma realidade quase que paralela. E tudo isso, claro (ou principalmente), durante o banho, no momento em que mais deixamos nossa mente vagar livremente. E o mais interessante é que, por vezes, acreditamos tanto naquilo que criamos que depois fica difícil separar o real do imaginário.

Indico ele para quem gosta de algo mais introspectivo, que nos faz refletir sobre nossos comportamentos, mesmo aqueles que, por vezes, já se tornaram banais.

O desfecho de ambos os contos surpreende e gostei da experiência de lê-los. Duas experiências bem diferentes uma da outra, é verdade, mas que me permitiram conhecer um pouco mais da escrita deste autor nacional que, em breve, lançará um livro solo.

E as duas leituras também foram extremamente rápidas, então se você busca algo para ler em minutos, deixo aqui a minha indicação! Só não me responsabilizo se, mesmo sendo uma leitura rápida, você sair com a cabeça em parafuso…

Se interessou por esses contos? Então adquira Mas eu quero morrer aqui e Quase alguma coisa aqui. Ambos também encontram-se gratuitos no Kindle Unlimited. Experimente gratuitamente aqui.

Por que amamos ler? [tradução 6]

Este post é uma tradução. O original pode ser lido aqui (em italiano) e foi postado em 22 de janeiro de 2013. Deixo claro que, para minha sorte, a situação aqui em casa, com meu irmão, é bem diferente do retratado abaixo, mas é muito gostoso poder pensar porque amamos ler.

Aqui em casa, convivo com um contra leitor por natureza: meu irmão. Ele definitivamente não gosta de ler, acha isso chato e inútil. E muitas vezes ele me reprova quando me vê voltar para casa com um livro novo: “Mais livros? Mas o que você vai fazer com todos esses livros!”. Ele prefere jogar um bom videogame (que eu vejo da mesma forma que ele vê a minha paixão) ou assistir TV.

Definitivamente não nos entendemos e ontem veio a fatídica pergunta: por que você gosta de ler? (veja as perguntas que trazemos à tona para não ter que fazer a lição de casa).

E quer saber de uma coisa, naquele momento não consegui responder como eu gostaria. Existem tantos motivos pelos quais uma devoradora de livros como eu adora ler que, naquele momento, eu não sabia por qual começar. E assim fiquei me remoendo. Uma escritora precisa de papel e caneta para poder se exprimir da melhor forma. Então: por que nós, leitores, amamos ler?

Talvez seja até por algum fator biológico ou físico; talvez sejamos dotados de um gene da leitura (que o meu irmãozinho não tem, ainda que eu tenha tentado, de todas as formas, transmitir essa paixão), e sem dúvidas deve-se também a certa influência que algumas pessoas tiveram (estas também amantes dos livros) durante a nossa infância. Mas o resto é tudo mérito nosso.

Por que eu gosto de ler?

Eu não gosto simplesmente de ler, eu amo os livros! Gosto da forma deles, da consistências das páginas, do perfume. Gosto de segurar um livro entre as mãos, olhando e admirando a capa (ainda mais quando é muito bonita), passar o dedo sobre as letras do título, quando são em relevo, e folheá-lo. Sentar-me comodamente em uma poltrona (ou deitar na cama) e mergulhar nos mundos que os livros me oferecem. Adoro ler porque a leitura me permite desligar o cérebro e entregar-me totalmente à história, porque, por alguns instantes, sou qualquer outra pessoa e visito mundos que, fisicamente, não poderei visitar nunca.

Ler é uma forma de voar sem asas. É o meu remédio para o tédio e para a tristeza. Os livros foram a presença mais constante na minha vida (logo depois da minha família, claro), estão presentes em muitas das minhas lembranças. Eles me deixam feliz e muitas vezes me dão esperança.

Eu gosto de destacar as frases que mais me marcaram e, depois de concluída a leitura, copiá-las no meu caderno (para depois poder lê-las quando precisar). Adoro vê-los bem alinhados e em ordem na minha biblioteca (que agora não tem mais espaço) e pensar que esse será o tesouro que deixarei para os meus filhos e netos, uma parte de mim que permanecerá mesmo quando eu não estiver mais aqui.

 Ler, para mim, não significa apenas algo no sentido literal. Uma leitura é feita de tantos gestos: a procura na internet, horas e horas passadas na livraria verificando as prateleiras, voltar para casa feliz, com um volume novo (ainda que eu tenha gastado as minhas economias), escrever o meu nome na primeira página e ler a última palavra da última página, olhar quantas páginas tem, imergir em um novo mundo, colocá-lo na prateleira de novo e esperar para dizer “Mãe, posso ler esse livro?”.

E vocês, por que amam ler? Deixem, caso tenham a resposta, aqui nos comentários.

A Lettre faz 1 ano!

Essa semana dei uma leve sumida daqui, pois acabei me atrapalhando com as minhas coisas e ficando sem tempo para nada. Mas hoje é uma data muito especial e, para que a semana não passe em branco, resolvi contar uma história para vocês.

Em 2019, eu decidi me aventurar em algo novo para mim: leituras beta. Pensei que, com minha formação, poderia contribuir de mais uma maneira com a literatura brasileira. E tive a sorte de logo conseguir me inscrever para a seleção de uma escritora e, melhor ainda, ser selecionada!

Naquele momento, mesmo sem saber, eu estava dando alguns passos bem importantes para mim. Primeiro que, a partir dessa primeira experiência, resolvi me afirmar mais como revisora e leitora crítica e realmente faço alguns trabalhos nesses campos. Mas o maior passo que aquela primeira leitura beta me deu eu sequer imaginava que viria a acontecer.

Em 2019 eu conheci a escritora Ingrid Sousa. Meu primeiro contato foi com seu livro, uma fantasia que mistura elementos mitológicos e uma garota que se considerava normal até descobrir que possuía certos poderes. Ao longo da leitura, porém, fui ganhando uma amiga. E não falo de Amália, personagem de O despertar da profecia, mas da própria Ingrid.

Depois que o livro foi concluído — porque sim, a leitura beta foi feita durante a construção do mesmo — a Ingrid começou a procurar editoras para publicá-lo e chegou a conseguir mais de um orçamento. O sonho, porém, acabou indo por água abaixo, pois a editora com a qual ela assinou, acabou nada fazendo com a obra.

Mas se tem uma característica da Ingrid que é evidente para qualquer um que se aproxime dela é a persistência. E foi assim que ela decidiu abrir a sua própria editora, para realizar não apenas o seu sonho, mas o de tantos outros autores nacionais.

Em 17 de setembro de 2019 nasceu a Editora Lettre. E eu, timidamente, fui entrando aos poucos nesse sonho da Ingrid e agora estou aqui, contando para vocês que sou uma das pessoas que faz parte da família Lettre.

Sim, vocês já viram muito esse nome por aqui, seja nas resenhas, seja em qualquer um dos posts sobre a antologia “Um amor para chamar de meu“, que tive o prazer de ser a organizadora. Mas vocês talvez não saibam que hoje eu realmente ajudo no que posso para ver essa Editora crescer mais e mais.

É engraçado que, para mim, tudo começou um pouco na brincadeira, com um simples “se precisar de alguém para revisar os livros, estou aqui”. E assim a Ingrid me abriu esse espaço. Depois, porém, ela foi me abrindo mais e mais portas e hoje eu levo tudo isso tão a sério quanto ela.

Em 2019, a Ingrid me deu um espaço para chamar de meu dentro de uma Editora. Deu-me a alegria de poder ver novos autores realizando seus sonhos e, mais que isso, o privilégio de poder lê-los antes de todo mundo!

Nesse um ano de vida, a Editora Lettre já publicou os seguintes títulos:

Ainda teremos alguns lançamentos este ano e edição especial de um dos títulos acima! E a agenda de 2021 também já está praticamente fechada. Tem muita coisa boa vindo por aí.

E claro que a Lettre precisava ter algo de especial (como se tudo o que eu disse já não fosse o suficiente!): estão sendo propostas algumas antologias 100% gratuitas, em formato digital. A ideia é que os escritores encontrem um espaço para divulgar seu trabalho, ao mesmo tempo que a editora contribuiu com o incentivo à leitura de maneira democrática. A primeira antologia desse tipo está prevista para outubro deste ano!

E por falar em antologias, também tem dois editais abertos (e eu estou na organização de um deles!) e um terceiro para abrir:

Não deixem de conhecer o trabalho da Editora Lettre. Este foi apenas o primeiro ano, de muitos que virão. E novamente eu afirmo: é uma alegria fazer parte de tudo isso!

Até o fim — Chico Buarque

Por volta do ano de 2007 aprendi, pela primeira vez — e muito por acaso — o que era intertextualidade. Eu estava lendo Crescer é perigoso (Marcia Kupstas), para a escola, quando deparei-me com a palavra “gauche” que eu, desatentamente, li “guache” (sim, tipo a tinta) e, achando engraçado que um anjo dissesse para um menino “ser guache na vida” (porque a pessoa seria tinta na vida?) comentei com meus pais, que logo trataram de desfazer meu mal entendido.

Mas não só: minha mãe, como boa apreciadora de Drummond, logo me explicou que essas palavras faziam parte de um de seus poemas. E também, claro, logo me explicou o real significado de “gauche” (e não guache, por favor). E assim, “Vai Carlos, ser gauche na vida” ficou ressoando dentro de mim.

Essa passagem liga-se a outra de minha vida: desde que me conheço por gente, temos o hábito de ouvir música aos finais de semana (todos ouvirmos a mesma música, no caso). Cresci ouvindo MPB e no meio de tanta coisa, com certeza ouvi várias e várias vezes Até o fim, cantada por Chico Buarque e Ney Matogrosso.

Foi somente em 2008, porém, que descobri que esta canção também tem a sua intertextualidade com o Poema de Sete Faces, de Carlos Drummond de Andrade. E, ao descobrir isso, logo lembrei de Crescer é perigoso e tudo isso passou a ser tão especial para mim.

Mas não foi o simples fato de eu ter aprendido na prática o significado de intertextualidade que tornou tudo isso especial. Foi, sem dúvidas, o significado, principalmente da música, que por anos a fio usei como “frase de status”.

Enquanto ouvimos Até o fim podemos ver uma história se construindo diante de nossos ouvidos. A história de um garoto que cresce, mas que, não importa a idade, é sempre acompanhado pela sina decretada pelo querubim, isto é, a de ser errado.

Mas, como em tantas músicas de Chico Buarque, que viveu poucas e boas como artista brasileiro, há a esperança. A esperança de ir até o fim, mesmo sendo errado. A esperança de continuar lutando pelo não errado.

Deixo, portanto, as palavras desta canção, bem como, ao final, a música, para que vocês possam ouvir e acompanhar.

Quando nasci veio um anjo safado
O chato do querubim
E decretou que eu estava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim
“inda” garoto deixei de ir à escola
Cassaram meu boletim
Não sou ladrão , eu não sou bom de bola
Nem posso ouvir clarim
Um bom futuro é o que jamais me esperou
Mas vou até o fim
Eu bem que tenho ensaiado um progresso
Virei cantor de festim
Mamãe contou que eu faço um bruto sucesso
Em quixeramobim
Não sei como o maracatu começou
Mas vou até o fim
Por conta de umas questões paralelas
Quebraram meu bandolim
Não querem mais ouvir as minhas mazelas
E a minha voz chinfrim
Criei barriga, a minha mula empacou
Mas vou até o fim
Não tem cigarro acabou minha renda
Deu praga no meu capim
Minha mulher fugiu com o dono da venda
O que será de mim ?
Eu já nem lembro “pronde” mesmo que eu vou
Mas vou até o fim
Como já disse era um anjo safado
O chato dum querubim
Que decretou que eu estava predestinado
A ser todo ruim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim

As pequenas virtudes — Natalia Ginzburg

Título: As pequenas virtudes
Original: Le piccole virtù
Autora: Natalia Ginzburg
Editora: Einaudi
Páginas: 65 
Ano: 1962 

Antes de começar a resenha em si, gostaria de fazer como a própria Natalia Ginzburg e deixar aqui um aviso: li o livro em língua italiana (por isso não tem o nome do tradutor ali em cima), mas trarei as citações de acordo com a tradução feita por Maurício Santana Dias, na edição brasileira, publicada em 2015 pela Cosac Naify.

O aviso da autora, por outro lado, é sobre o fato de que a obra reúne ensaios publicados em diferentes jornais e revistas, bem como em períodos diferentes de sua vida. E já com esse aviso inicial temos a oportunidade de nos deliciar com a escrita de Natalia. As pequenas virtudes é aquele livro que queremos ler, mas que até entrar em contato com ele, não temos como saber (então se permita entrar em contato com ele!).

“E, vejam bem, não é que se possa esperar da escrita um consolo para a tristeza”

O livro é dividido em duas partes, mas confesso que não ficou muito claro para mim se há algo que justifique essa divisão. De qualquer forma, a primeira parte é composta pelos seguintes títulos:

  • Inverno em Abruzzo
  • Os sapatos rotos
  • Retrato de um amigo
  • Elogio e lamento da Inglaterra
  • La maison Volpé
  • Ele e eu

Não vou falar sobre cada um deles, mas também não posso deixar de comentar que Inverno em Abruzzo foi um bom começo para este livro. Ele nos dá a dimensão da pessoalidade por trás dos textos, além de já nos permitir uma deliciosa viagem através das palavras da autora.

“Uma vez sofrida, jamais se esquece a experiência do mal”

E quando eu digo “deliciosa viagem” não estou necessariamente falando de algo feliz, muito menos de uma passeio, mas do fato que a escrita é tão envolvente e tão bem construída que todo o cenário surge diante de nossos olhos.

“Mas aquele era o tempo melhor da minha vida, e só agora, que me escapou para sempre, só agora eu sei”

Mas desses primeiros ensaios, aquele que mais chamou minha atenção foi Os sapatos rotos. Isso porque o texto fala muito mais que sobre “sapatos quebrados”. Fala sobre viver e, consequentemente, sofrer. E sobre seguir adiante mesmo assim. A metáfora presente neste ensaio é tão bem construída que nos emociona.

“Tenho os sapatos rotos, e a amiga com quem vivo neste momento também tem os sapatos rotos”

A imagem dos sapatos, aliás, não aparece apenas neste texto, mas também em outros. E é algo que realmente nos faz pensar.

“Aliás, para aprender mais tarde a caminhar com sapatos rotos talvez seja bom ter os pés enxutos e aquecidos quando se é criança”

Eu falei que não ia comentar texto por texto, mas os ensaios dessa primeira parte são bem marcantes, então também gostaria de dizer que achei divertido o Elogio e lamento da Inglaterra e que achei curiosa a relação de amizade apresentada em Retrato de um amigo.

“Sobre minhas dores reais, não choro nunca”

Mas o ensaio que não posso mesmo deixar de citar é Ele e eu. Um retrato de uma relação real. Até demais. Tudo começa às mil maravilhas e, pouco a pouco, vai se tornando algo complicado. Triste. E a maneira que Natalia apresenta isso é muito bonita.

“Acho que ele gosta que eu dependa dele, em tantos aspectos”

Os textos da segunda parte, por sua vez, são:

  • O filho do homem
  • O meu ofício
  • Silêncio
  • As relações humanas
  • As pequenas virtudes

Nessa segunda parte achei alguns textos mais longos e cansativos. Mas O meu ofício é bem interessante, porque a autora vai traçando sua vida de escritora, nos contando sobre inspirações e momentos. E imagine tudo isso feito com essa linguagem tão dela que, a essa altura, já estamos mais que afeiçoados.

“Assim, e cada vez mais, tenho a sensação de errar em cada coisa que faço”

Agora As pequenas virtudes mais que ser o ensaio que dá nome ao livro, é, também, um texto lindíssimo. Fechou com chave de ouro, nos deixando reflexivos e, ao mesmo tempo, com o coração quentinho.

Gostou desse livro? Então clica aqui.

Desmistificando o mestrado [12] — Bolsa de pesquisa

Receber uma bolsa para realizar sua pesquisa é um sonho para muitos pesquisadores: poder dedicar-se exclusivamente aos estudos, sem o medo das contas no final do mês. Sabemos, porém, como este é um assunto cada vez mais delicado no Brasil. Principalmente para os cursos das áreas de humanas.

Eu tive a sorte/privilégio de ter uma bolsa durante o meu mestrado. Três meses após o início da contagem de tempo da minha pesquisa, fui contemplada com uma bolsa CAPES-DS (Demanda Social).

Por que trago o nome da bolsa que recebi? Porque sim, existem bolsas diversas. As da CAPES, por exemplo, são geridas pelo governo, isto é, são eles que determinam quantas serão concedidas, como devem ser distribuídas. Mas, na Universidade em que estudei, também haviam bolsas da própria instituição (isto é, a instituição destinava parte de seus recursos para pesquisa). Existem, ainda, as bolsas da FAPESP. E, com certeza, muitas outras. Essas são as que me lembro no momento (e talvez as mais conhecidas).

Destaco aqui essas diversas possibilidades, porque sei, também, que cada uma funciona de uma maneira e eu não tenho como falar sobre cada uma delas, apenas sobre a que tive durante a minha jornada.

Quando fui informada que havia sido contemplada com uma bolsa de pesquisa, tive cerca de 48 horas para confirmar o meu interesse na mesma e, principalmente, preencher, assinar e reconhecer firma dos documentos! E sim, infelizmente tudo tem de ser rápido, caso contrário perde-se a mesma. E não é por maldade, mas é que no caso de uma bolsa CAPES entende-se que se ela não tem “dono” é porque o Programa de Pós-Graduação não precisa dela. E que Programa não precisa de bolsas para seus estudantes?

Depois, com tudo certo, eu não poderia ter nenhum outro vínculo empregatício enquanto tivesse a bolsa e, semestralmente, deveria enviar um relatório com o andamento da pesquisa.

Tal relatório não precisava ser muito extenso, mas deveria conter: disciplinas cursadas no semestre (com toda a bibliografia da mesma, carga horária, nota obtida, quantidade de créditos, forma de avaliação e importância da mesma para a pesquisa desenvolvida); atividades (participação em eventos, artigos submetidos ou publicados e outras atividades relacionadas ao âmbito acadêmico e pertinentes à pesquisa); andamento da pesquisa (um breve comentário sobre o que foi desenvolvido ao longo do semestre, se o cronograma está sendo seguido, quais as previsões para o semestre seguinte); conclusão (um resumo unindo tudo o que foi apresentado antes. É sempre bom destacar aqui a importância da bolsa para a continuidade da pesquisa).

Como bolsista de um curso de humanas, minhas obrigações eram basicamente essas. Destaco o fator “área de humanas”, porque acredito que outras áreas, principalmente as que lidam com laboratórios, funcionam de maneira diferente.

Porém havia algumas outras obrigações não tão claras, mas importantes para a manutenção do todo: participar das reuniões do programa de pesquisa, participar de eventos para divulgar a sua pesquisa e apoiar os seus colegas, ajudar no funcionamento do programa. No meu próximo post eu pretendo falar sobre o Relatório CAPES, algo que, acredito eu, poucas pessoas saibam o que é, mas que é extremamente importante e trabalhoso.

Como conseguir uma bolsa de mestrado? Como sempre, informando-se! Antes de ingressar no mestrado eu já sabia que era importante ficar atenta ao email e também logo procurei o grupo dos alunos, no Facebook. Você também pode ter a sorte de ter um(a) orientador(a) preocupado(a), que fará questão de te informar sobre isso (mas nem sempre podemos contar com essa opção, até porque isso nem é obrigação deles!). Conversar com o orientador também é válido, pois ele/ela pode conhecer opções que você não conhece e te dar outras possibilidades de conseguir uma bolsa.

Para concluir, uma coisa que quase ninguém fala sobre ser bolsista: é ótimo receber para fazer pesquisa, mas isso também pode ser angustiante. Lembre-se, estamos falando de dinheiro público e sempre fica aquele peso de “se eu fizer algo de errado, terei de devolver o dinheiro”. E veja, não estou falando sobre fazer algo de errado por querer, mas, como muitas vezes as informações não são claras, podemos errar sem sequer saber disso! Por isso a importância de sempre se informar o máximo possível.

Ah, e claro, bate um super medo de fracassar também! Então, se você é bolsista e sente isso ou se você sonha em ter uma bolsa, saiba: vai dar tudo certo. Confie em si, confie em sua pesquisa e dedique-se. O resto virá.

Para pensar sobre outras culturas — Diário de leitura (12)

Como eu comentei em meu último diário de leitura, agora não há mais a interrupção da narrativa a cada noite, e também já não é mais possível acompanhar em que noite da história nos encontramos.

Ainda assim, a história que venho comentar hoje, “A história de Beder, príncipe da Pérsia, e de Sahara, princesa do reino de Samandal”, era relativamente longa e, por isso, foi dividida em duas partes. Em minha opinião, achei a divisão desnecessária. Continuou sendo um longo “capítulo” que, por diversas vezes, interrompi no meio da leitura.

A história em sim, porém, foi mais uma narrativa capaz de prender o leitor. Era difícil escolher o momento de interromper a leitura, pois eu sempre queria saber o que viria a seguir. E olha que há muitos elementos já presentes em outras narrativas desta obra, como um casal que passa por mil desventuras até chegar ao final feliz, humanos transformados em animais, lutas entre reinos.

Logo no início, contudo, uma questão me deixou pensativa e é daí que vem o título do diário de hoje. Não quero fazer qualquer julgamento aqui, pois sei que estou me referindo a uma cultura muito diferente da minha (e sobre a qual continuo não sendo grande conhecedora), mas chamou-me a atenção que, de início, esta era uma narrativa sobre um rei que “apesar das mil mulheres”, não teve um filho para dar continuidade a seu reinado.

“Só num ponto se julgava infeliz: estar muito idoso e de todas as suas mulheres não haver uma só que lhe tivesse dado um príncipe que lhe sucedesse após a sua morte. No entanto, possuía mais de cem, todas acomodadas magnífica e separadamente, com escravas para servi-las e eunucos para guardá-las”

E bem, pensando aqui comigo, se de 100 mulheres, nenhuma lhe deu filhos, talvez o problema não fossem as mulheres… Mas não pude deixar de achar “engraçado” esse pensamento de que nem mesmo com tudo do bom e do melhor, o rei pode ter um filho. A prepotência dele, por assim dizer, também fica clara em outra passagem, um pouco mais adiante:

“Por que ficas tão silenciosa? De onde vem essa frieza, essa tristeza que te aflige? Lastimas teus pais, teus amigos? Mas então um rei da Pérsia, que te ama, que te adora, não é capaz de fazer-te esquecer tudo no mundo?”

O mais curioso de tudo isso, porém, é que a história flui. Eu tive certa estranheza com esses pontos, apenas de início, mas tudo segue tão naturalmente que acabamos não sentido nada de negativo com relação a esse rei. Muito pelo contrário, aliás, pois ressalta-se a sua bondade e lealdade que qualquer outra coisa. Para ser sincera, eu até mesmo havia me esquecido desse início… E aí, relendo agora, fico pensando como ele havia dito que era velho, mas, no final das contas, teve o filho que tanto desejava e ainda foi capaz de vê-lo crescer.

Mas faz sentido que a história seja assim e, principalmente, que o modo de se comportar deste rei não nos cause repulsa. É uma outra cultura e eram também, outros tempos. E é por isso que tem sido tão interessante fazer esse mergulho pelas “Mil e uma noites”.

Serial Killer: a verdadeira face do mal (Antologia)

Título: Serial Killer: a verdadeira face do mal
Organização: Larissa Oliveira
Editora: Lettre
Páginas: 135
Ano: 2020

Recém saída do forno, a antologia Serial Killer: a verdadeira face do mal veio para abalar as estruturas. Bom, pode ser exagero meu, mas é que realmente me surpreendi com essa obra e não acho que seja simplesmente pelo fato desse ser um gênero com o qual não tenho tanto contato.

“Quero mostrar para ela que os monstros vivem na superfície, que o bem e o mal estão dentro de todos e que nós escolhemos qual lado queremos vivenciar”

(Conto: Na superfície)

As histórias que encontrei ao longo das páginas dessa antologia me surpreenderam pela variedade. Os seriais killers são muito diversos entre si: homens, mulheres, crianças (!), jovens, adultos, ricos, pobres… Isso sem contar, claro, aqueles contos que deixam certa dúvida no ar.

Nós somos o verdadeiro mal. Somos um mal que está oculto nas sombras, esperando o momento certo de rasgar sua garganta.

(Conto: Lady Jack)

Outra coisa que chamou a minha atenção é que há tanto homens quanto mulheres escrevendo. E há homens que fizeram protagonistas femininas e mulheres que fizeram protagonistas masculinos e assim por diante. Realmente bem mesclado e bem fora do padrão.

“A festa estava lotada de pessoas superficiais”

(Conto: Antes que o leite acabe)

E não, caro leitor, não se deixe enganar: muitas reviravoltas também nos aguardam nas páginas de Serial Killer. É claro que, num livro como esse, nem tudo é o que parece ser!

“Miguel se achava muito inteligente, e isso o tornava alguém altamente manipulável, pois bastava dar um sorriso meigo, se fingir de atrapalhada e dizer que acreditava em alguma besteira, para que ele confiasse ter alguém ingênuo à sua frente”

(Conto: Lady Jack)

Agora, uma coisa que me surpreendeu ainda mais que tudo o que já mencionei até aqui foi o fato de que, em mais de um conto, os seriais killers se apresentam a nós com uma falsa capa de moralidade, isto é, buscam justificar as mortes que cometem como uma espécie de justiça ou “limpeza da sociedade”.

“As palavras do dono do estabelecimento só comprovam o que eu sempre digo: as pessoas só se importam com os problemas das outras quando eles não causam problemas para si mesmas”

(Conto: Jingle Bells – Jungle Hells)

Isso me surpreende pela forma como os autores usaram desse elemento para construir suas histórias. Elemento este que, infelizmente, faz realmente parte de nossa sociedade. Afinal, quantas pessoas não fazem coisas ruins acreditando ou alegando estar fazendo algo de bom para o mundo?

É, essa antologia talvez tenha me deixado reflexiva. E tanto me deixou reflexiva que, olhando aqui a sinopse dela, me pergunto se eu não deveria ficar com certo medo dos autores. Isto porque na sinopse diz-se que “buscamos, nesta antologia, fazer com que cada autor mostrasse o seu monstro interior. Isso mesmo, todos temos um monstro adormecido dentro de nós”.

Ora, se a ideia era que cada autor mostrasse seu monstro interior e disso nasceram contos tão bem escritos… O que será feito desses monstros que agora estão entre nós?

Brincadeiras a parte, essa é uma antologia que vale a pena ser lida. Eu já solicitei a minha versão física (que está em pré-venda no site da Editora), porque vi que está com uma diagramação incrível, melhor que a de muita editora grande. Mas, por enquanto, li na versão digital (disponível na Amazon), que tem uma diagramação mais simples, mas que não muda em nada a qualidade das histórias lidas.

Se você é amante do gênero, a leitura desta antologia te permitirá conhecer novos autores. Se, por outro lado, você é como eu e não tem o hábito de ler coisas nessa área, aventure-se. Não me arrependo nem um pouco de ter me jogado de cabeça nessa.

Resumão ~ Agosto de 2020

Eis que mais um mês chega ao fim. Passando rápido, passando lento. Fazendo calor, fazendo um frio do cão. Sigo em casa, mas agora com a sensação de que só eu tenho seguido em casa. Vez ou outra alguém me lembra que não, mas é raro.

Porém, seguimos trazendo conteúdos novos a cada semana aqui no Blog. Neste cantinho, me sinto ainda mais em casa, mas de uma maneira boa.

O primeiro post de agosto foi o nono diário de leitura de As mil e uma noites. O décimo diário de leitura marcou o final do primeiro volume da edição que tenho desta obra. E este mês trouxe, ainda, o décimo primeiro diário de leitura.

Agosto também foi o momento de trazer alguns assunto que há tempos eu queria ver por aqui: como ler mais gastando menos?, a temida defesa do mestrado, o que você gosta nos livros que você curte? e o mito do professor nativo.

As resenhas que apareceram por aqui foram:

E eu também trouxe algumas citações que ficaram de fora da resenha do livro “Eu quero mais” (Tayana Alvez).

Além de alguns dos livros resenhados, em agosto eu também consegui ler “As pequenas virtudes” (Natalia Ginzburg) e “Serial Killer: a verdadeira face do mal” (antologia organizada por Larissa Oliveira).

E me conte, como foi o seu mês de agosto?

O mito do professor nativo

Como professora de idiomas, mais de uma vez me deparei com vagas que buscavam somente falantes nativos para dar aula. Confesso que sempre fiquei bem confusa com isso e este post é justamente para mostrar como não faz sentido exigir (somente) que a pessoa seja nativa.

Para começo de conversa, ensinar uma língua requer muito mais que meros conhecimentos linguísticos. Caso contrário, bastaria que eu nascesse no Brasil para poder sair dando aulas de português por aí, certo? Você sente que é capaz de dar aulas de português para um estrangeiro? Pois é, a tarefa já começa bem mais complicada do que parece.

Além disso, não se trata apenas de saber bem determinada língua, trata-se, também, de ter didática. Você pode até se sentir apto a ensinar uma língua a outra pessoa, mas você saberá fazer isso didaticamente, ou seja, de maneira clara e coerente? Aqui a coisa começa a ficar ainda mais complicada!

Para unir os elementos que apresentei até aqui o ideal é que, em primeiro lugar, o professor tenha formação na área de ensino de línguas, isto é, que tenha feito um curso superior (Licenciatura em Letras). Claro que, o curso por si só não costuma ser suficiente, então esse professor terá de se dedicar horas e horas à língua, para chegar a um patamar mais elevado de conhecimento (na verdade, professores estão constantemente aprendendo).

Isso significa, portanto, que se o professor for formado em Letras e for nativo, ele será o professor perfeito? Também não necessariamente! Já tive aulas com professores nativos, formados em Letras e que, ainda assim, não se deram bem com o público brasileiro. É que aqui entra um terceiro fator: choques culturais. Isto é, um professor, se for nativo, além de realmente ter um bom conhecimento da língua e didática para ensiná-la, precisará, também, estar aberto à outra cultura e à forma como as pessoas daquela cultura lidam com o aprendizado (e com todo o resto que nos cerca).

Outro mito que circunda o professor nativo é a questão do sotaque: “ah, mas se eu tiver aulas com um professor nativo, eu vou falar a língua dele sem sotaque algum”. Gente, que país no mundo não tem sotaque? Em que país toda a população fala igualzinho? Eu não conheço nenhum…

Agora, uma coisa que realmente pode ser uma vantagem nas aulas com um professor nativo é poder ter um contato mais próximo com uma cultura diversa, isto é, ter alguém a quem perguntar diretamente “como funciona” algo em determinado país. Ainda assim, temos de ter em mente que teremos a visão de uma pessoa e que ela não necessariamente representa toda uma cultura local.

Aliás, aprender línguas nos abre portas para conhecer novos mundos, novas formas de pensar. E essa experiência pode ser ainda melhor se aprendermos com alguém realmente qualificado para tanto, não é mesmo?

Então, ao procurar um professor de línguas, mais do que perguntar se a pessoa é nativa, pergunte quais as qualificações dela e, muito importante, como ela trabalha (eu até poderia usar o termo “método” aqui, mas essa também é uma discussão para outro post…).

E antes de concluir, gostaria de indicar esse texto que encontrei enquanto pensava no que escreveria aqui e que achei bem interessante (e bem pertinente com o que eu trouxe): O mito do “professor nativo” no ensino de línguas estrangeiras.