Desmistificando o Mestrado [7] — PAE

Desmistificando o mestrado [7]

Como prometido no último post sobre o Mestrado, hoje venho falar um pouquinho sobre o Programa de Aperfeiçoamento ao Ensino (mais conhecido por PAE), porque ele deixa os alunos (principalmente bolsistas) um pouco doidos.

Primeiro é preciso entender o que é o PAE. Trata-se de um programa criado pela CAPES, ao perceber que os alunos de pós-graduação tinha muita experiência com pesquisa e pouca em sala de aula. Isso significa que o objetivo do programa é aprimorar a experiência dos pós-graduandos na atividade didática voltada para o ensino superior (ou seja, mostrar aos alunos como é dar aula na graduação).

Na USP, pode acontecer das normas gerais do PAE variarem de uma Unidade de Ensino para outra (por exemplo, a FFLCH pode ter regras diferentes da Poli e assim por diante). Mas existe uma regra geral, que é a existência de duas etapas que devem ser cumpridas na seguinte ordem:

  1. Preparação pedagógica
  2. Estágio supervisionado

A preparação pedagógica assume diferentes características: pode ser uma disciplina de Pós-Graduação (como agora acontece na FFLCH) — o que permite que o aluno obtenha créditos com ela; pode ser um conjunto de conferências — muitas vezes condensados num tempo menor; pode ser um núcleo de atividades (confesso que sobre esse não tenho o menor conhecimento).

A preparação pedagógica pode ser cumprida em qualquer unidade USP. Isso significa que, por exemplo, se você é da FFLCH, que colocou essa etapa em formato de disciplina, mas prefere cumprir em formato de conferências, basta procurar uma unidade que ofereça nesses moldes e se inscrever.

Para o estágio supervisionado, o aluno precisa escolher uma matéria da graduação e se inscrever para atuar como estagiário na mesma. Essa atuação depende da aprovação tanto do seu orientador quanto do professor que ministrará a disciplina. Depois disso, você irá acompanhar, ao longo do semestre, as atividades realizadas, frequentará as aulas, irá auxiliar o professor e poderá até ministrar uma aula — preferencialmente relacionada à sua pesquisa.

Para os aluno em geral, o PAE é opcional, mas para os bolsistas CAPES, ele é obrigatório. Se o Programa no qual você está inscrito possui Doutorado, você pode, no Mestrado, cumprir apenas a preparação pedagógica e cumprir o estágio supervisionado no Doutorado. Mas, mesmo que você cumpra as duas etapas ainda no Mestrado, e venha a fazer o Doutorado depois, terá de cumprir novamente o estágio supervisionado.

Isso significa, claro, que é possível realizar mais de um estágio supervisionado, mas a preparação pedagógica só precisa ser feita uma vez, isto é, não importa quantas vezes você queira ser estagiário PAE, você só precisa ter feito uma vez a preparação pedagógica.

As duas etapas podem ser realizadas em qualquer semestre — porém nunca ambas no mesmo semestre—, mas é importante prestar atenção aos prazos de inscrição de cada uma delas.

É possível ser estagiário PAE de maneira voluntária ou bolsista (mesmo para aqueles que já são bolsistas CAPES). Na FFLCH, quando você se inscreve na segunda etapa do PAE, automaticamente você passa a concorrer a uma bolsa, mas, como sempre há mais inscritos que bolsas, nem sempre é possível conseguí-la. Ainda assim, em tese, você pode receber esse auxílio por até duas vezes no Mestrado e mais duas vezes no Doutorado ou até quatro vezes no Doutorado (caso você não tenha recebido no Mestrado).

Eu fui estagiária PAE duas vezes: uma vez de maneira voluntária e outra como bolsista. Nas duas formas, é preciso entregar, mensalmente, uma folha de frequência assinada, para que, ao final, você possa receber os créditos formativos relativos à sua participação no programa. Também é preciso entregar um plano de estágio no início do programa e um relatório ao final. Sim, infelizmente é bem burocrático, mesmo quando você é voluntário. A experiência, porém, é bem enriquecedora, e acho que é realmente um programa necessário.

Se você é bolsista CAPES, tenha sempre em vista o PAE, lembre-se sempre de incluí-lo no seu planejamento da pós-graduação para não ficar tudo para a última hora!

Se tiverem alguma dúvida, podem me perguntar!

Música em contos 1 (Antologia)

Título: Música em Contos 1
Autor: Vários autores
Organização: Susana Silva
Editora: Publicação independente
Páginas: 100
Ano: 2019

música em contos

Quem acompanha este Blog ao menos desde o ano passado, talvez se lembre que eu fiz uma sequência de posts com resenhas de alguns contos específicos de “Música em contos 2“, que ainda estava para lançar. Só depois é que eu fui ler Música em contos 1 e agora trago a minha experiência de leitura aqui.

Histórias e músicas são duas coisas que amo. Quando junta os dois, então, dificilmente dá errado. Por isso, a ideia de escrever contos baseados em músicas específicas, de cara, já chama a minha atenção. E outro ponto interessante dessa antologia é que ela traz escritores brasileiros e portugueses, deixando a escrita ainda mais plural.

Nessa antologia, um pouco por coincidência mesmo, todos os contos trazem uma história de amor, seja ela feliz ou triste, clichê ou não. E não digo apenas histórias de amor entre duas pessoas, mas também histórias de amor próprio.

“— Eu posso parecer forte na superfície, mas por dentro tenho tanto medo quanto você”

(Conto: A partida)

E, alguns contos, em especial, chamaram minha atenção. Quando resenho antologias eu costumo falar sobre cada história em particular (quando são poucos contos) ou então falo sobre o livro de maneira mais ampla. Mas, dessa vez, vou comentar sobre esses contos que me chamaram a atenção (ao menos mais que os outros, que são igualmente incríveis).

O primeiro deles é Antes que chegue ao fim, da Alane Brito, baseado na música It ain’t over til it’s over, do Lenny Kravitz. Aqui temos um casal que está em crise, com um casamento que já quase não existe mais. Devido a um erro médico, porém, as coisas começam a se transformar: nosso protagonista muda suas ações e seus corações (e a relação) se reaquecem. O que me chamou a atenção nesse conto foi justamente isso: como é preciso que as duas partes tomem uma atitude para que uma relação não esfrie, não caia numa perturbadora rotina de distanciamento. É bem tocante.

O segundo conto que gostei muito foi Uma pausa no para sempre, da Beatriz Prado, baseado na música I got you, da Leona Lewis. Aqui temos a história de Lucas e Viviane, que se conheceram aos sete anos de idade, cresceram juntos e se apaixonaram. Viveram momentos felizes e tristes lado a lado e acompanharam muitas coisas importantes um do outro. Mas nem tudo são flores e chega um momento que eles precisam decidir se ficam juntos ou não, pensando no bem (e nos sonhos) um do outro. Sério, é emocionante!

“É preciso que a gente se escolha às vezes, mas isso não quer dizer que as marcas da escolha não vão ficar ali, lembrando a todo instante do que deixamos para trás”

(Conto: Uma pausa no para sempre)

O terceiro conto que eu gostaria de destacar é Uma passagem de volta, por favor, da Carolina Mancini, baseado na música Make you feel my love, da Adele. O que me chamou a atenção nessa história é que eu já escrevi algo parecido. Mas calma, são histórias bem diferentes, e a única similaridade é que o casal se conhece no metrô e que a moça é uma passageira, enquanto o moço é um artista que toca nos vagões da cidade. Neste conto, porém, a história é mais desenvolvida, mais longa e tem um final bem surpreendente. Achei essa narrativa apaixonante.

Recomendo essa antologia para você que busca algo leve, que pode ser apreciado aos poucos e que também quer poder ler histórias bem diferentes em um único livro.

Quer conhecer Música em contos 1? Então clica aqui.

Resumão — Março de 2020

RESUMÃO — MARÇO 2020

E março chegou ao fim. Um mês um tanto quanto conturbado, diferente, assustador. Um mês que passou voando, mas feito terremoto. Por aqui, tentei manter a leveza e o ritmo. Tentei trazer as resenhas de sempre, na esperança de que agora, mais do que nunca, elas possam servir como dicas de leitura para essa quarentena. E claro que, além das resenhas, trouxe outros conteúdos também. Vamos conferir?

Resenhas:

No comecinho do mês eu ainda respondi uma TAG e falei sobre 3 livros que marcaram a minha vida. Depois, trouxe um post sobre créditos e disciplinas no Mestrado, outro sobre a música Drão e, por fim, um sobre o Tubaína Bar.

Com relação às leituras, em março eu li:

  • Música em contos 1 (org. Susana Silva) — Antologia
  • Petrus (Jéssica Miguel) — Conto
  • Prometo ser cruel (Larissa Oliveira) — Conto
  • A diferença invisível (Mademoiselle Caroline & Julie Dachez) — HQ

E ainda estou lendo:

  • Maldito italiano (Bianca Brito)
  • A professora de piano (Janice Y. K. Lee)
  • Os guardiões dos livros (Ana Farias Ferrari)

Confesso que o ritmo de leitura não anda tão bom. Estou lendo três livros porque, na verdade, comecei dois que não me prenderam tanto e aí fui para o terceiro, que finalmente me animou mais.

E para vocês, como foi esse mês de março?

Hamburgueria [6] — Tubaína Bar

Tubaína Bar

Falar sobre hambúrguer no atual contexto é maldade até para mim, que não sei quando comerei um novamente. Mas estamos aqui, tentando não deixar essa seção morrer, não é mesmo? E também fazendo a lista de lugares para ir quando tudo isso acabar…

O Tubaína Bar não é simplesmente uma hamburgueria, pois no cardápio deles também tem opções de saladas, caldos e pratos. E foi justamente essa variedade que fez com que eu e meu namorado (que não estava podendo comer hambúrguer) fôssemos até la.

Localizado na Rua Haddock Lobo, 74, perto tanto da estação Paulista (linha amarela) quanto da estação Consolação (linha verde), o Tubaína Bar tem um ambiente bem aconchegante, com pouco luz, móveis de madeira (que garantiram a eles o selo de bar sustentável) e uma música ambiente bem gostosa.

Além da possibilidade de escolher entre prato ou lanche, o cardápio deles conta com opções vegetarianas e veganas, tanto na parte salgada quanto na doce.

Eu experimentei o lanche Piracicabano, que vem com queijo cheddar, maionese de alho, panceta e picles. O lanche veio com bastante queijo o que, confesso, salvou o prato, com a ajuda, claro, da maionese. Isso porque não achei o hambúrguer tão saboroso quanto outros que já experimentei. Mas também não é uma carne muito seca, o que já melhora em muito o lanche. O hambúrguer ainda veio acompanhado de batata frita tipo chips, que estavam boas, mas com um leve gosto de queimado.

tubaína 9

Como esperado, o cardápio deles é recheado de Tubaínas que, descobri agora, não é uma marca, mas um tipo de refrigerante. E eles oferecem rótulos produzidos por pequenos fabricantes. Eu experimentei o Cotubaína, que é bem parecido com guaraná mesmo e meu namorado experimentou o Real, que é super diferente, parece mais leve e tem cor de coca-cola.

tubaína 10

Por fim, pedimos, de sobremesa, o bolo de nutella vegana com sorvete. O bolo é gostoso, mas confesso que preferiria um de nutella normal mesmo (só porque, na verdade, ele provavelmente seria mais doce).

tubaína 11

Você já foi no Tubaína bar?

Céu sem estrelas — Iris Figueiredo

Título: Céu sem estrelas
Autora: Iris Figueiredo
Editora: Seguinte
Páginas:357
Ano: 2018

céu sem estrelas blog

Sabe aquela brincadeira de descrever de forma tosca um livro? Pois se fosse para falar de Céu sem estrelas nesses termos eu diria que é o livro da menina depressiva que gosta de ler livros depressivos. Claro que, como eu disse essa seria uma descrição tosca. Mas ao mesmo tempo, a tosquice tem um fundo de sentido, porque esse é um livro que nos apresenta uma protagonista… Comum!

“Acho que todo mundo só enxerga no outro aquilo que é conveniente”

(p. 90)

Quando eu digo que Cecília é comum, porém, não estou dizendo que ela é uma pessoa qualquer — afinal, Céu sem estrelas também nos mostra que todos somos especiais, cada um do seu jeito — mas que ela é uma personagem como nós, alguém que facilmente podemos encontrar em um amigo querido, em um parente, em qualquer lugar que frequentemos. E é tão bom poder ler um livro com alguém tão real quanto Cecília (e os demais personagens).

“Por mais que a gente achasse que conhecia uma pessoa, sempre havia mais”

(p. 317)

Esse é um livro que tem a sua dose de romance (coisa que eu amo), mas que vai muito além disso. A narrativa é alternada entre capítulos de Cecília e de Bernardo, que é o irmão mais velho de Iasmin, que, por sua vez, é a melhor amiga de Cecília.

“Cecília era uma caixinha de segredos e mentiras, tentando encobrir as partes feias da vida e pintar uma versão melhor de si mesma para o mundo. Ela não queria que sentissem pena”

(p. 161)

Cecília é uma garota que sofre com seus ataques de pânico e com uma mente que não consegue controlar, além de ter de lidar com olhares e palavras maldosas dos outros (inclusive familiares) por estar acima do peso. Para completar seu infortúnios, ela não se dá muito bem com a mãe a ainda perde o emprego, o que gera uma briga familiar e tanto.

“Nem eu mesma sabia quem eu era. Tinha passado tanto tempo preocupada em fazer as coisas do jeito certo, ser perfeita… Só fazia o que as pessoas queriam que eu fizesse. Porque eu queria ser amada”

(p. 70)

Bernardo, por outro lado, vem de uma família rica e aparentemente bem estruturada. Mas sabemos que isso geralmente é só aparência mesmo. Seus pais vivem brigando e, em seu íntimo, Bernardo sofre com isso. A família dele é quase um belo retrato daquela “família tradicional brasileira” bem estereotipada mesmo.

“Eu ainda me desdobrava em duas — quem as pessoas queriam ver e quem eu realmente era. Tinha me acostumado com a dupla identidade”

(p. 214)

Como esperado, Iasmin também é uma personagem importante ao longo da trama, e por meio dela a autora ainda consegue nos fazer refletir sobre relacionamentos abusivos.

“Eu tinha certeza que princesas não escondiam cicatrizes”

(p. 232)

Para completar o trio de amigas inseparáveis temos, Rachel, que é cadeirante e provavelmente uma das personagens mais sensatas da história.

“Quando nos importamos com alguém que vive uma luta tão profunda contra seus próprios monstros, o medo de que algo esteja fora do lugar sempre bate à porta”

(p. 321)

Por meio dos personagens secundários, Iris ainda consegue retratar muito da vida (e do estilo de vida) dos jovens universitários e também da rotina da faculdade em si.

“Eu estava cansada de pedir desculpas por meus sentimentos. Às vezes tinha a impressão de que fazia isso o tempo inteiro”

(p. 182)

Céu sem estrelas era um desses livros que eu ouvia falar e tinha muita vontade de ler. Graças à Ingrid (obrigada, miga!!) meu desejo se realizou e sinto que a espera valeu a pena. O livro chegou no momento certo e apesar de abordar tantos assuntos delicados, serviu como um abraço quentinho. A leitura flui muito bem, daquele jeitinho que a gente não quer largar o livro até o final, mesmo quando percebe que vai dar tudo errado.

“Era tudo na minha cabeça. A dor era toda na minha cabeça, mas isso não a tornava menos real”

(p. 191)

Não sei se essa história poderia ser gatilho para algumas pessoas, mas acredito que não. Cecília vive na pele um pouco de tudo. Senti que a história conseguiu ser realista e sensível, mostrando inclusive como é difícil pedir ajuda ou mesmo entender o que se está passando.

“Eram muitas perguntas, e eu não queria descobrir as respostas. Era cansativo viver com um cérebro que pensava demais”

(p. 150)
Se interessou por esse livro? Então clique aqui!

Drão — Gilberto Gil

Drão

Como sempre, Drão é uma música gosto há tempos — eu acho o máximo o jogo de palavras “Nossa caminhadura / Dura caminhada”, feito em dado momento — mas que somente agora, escrevendo esse post, é que entendi verdadeiramente. E aliás, aprendi muita coisa interessante, que compartilho aqui com vocês.

Confesso que, para começar, descobri que essa música é do Gilberto Gil e não do Djavan, como eu achava (shame on me). Mas é que o fato de eu não entender o título da música (o Djavan tem umas músicas doidas que a gente demora para entender, né?) e o jogo de palavras que eu mencionei acima colaboravam muito para esse fato, além de eu realmente ouvir uma versão cantada por ele.

Minha segunda descoberta foi a que mais clareou as coisas: Drão era o apelido (dado por Maria Bethânia!) de Sandra, terceira esposa do Gil. Descobrir isso me faz compreender que essa é uma canção dirigida a ela, quase como uma carta.

Drão
O amor da gente é como um grão
Uma semente de ilusão
Tem que morrer pra germinar
Plantar nalgum lugar
Ressuscitar no chão
Nossa semeadura

A música foi composta em 1981 e lançada em 1982 e fala sobre a separação de Gil e Drão. E aí está outro elemento incrível dessa música: ela fala sobre o fim de um relacionamento de uma maneira muito bonita e sem rancor, mas, ainda assim, retratando toda a dor que uma separação pode trazer.

Quem poderá fazer
Aquele amor morrer!
Nossa caminhadura
Dura caminhada
Pela estrada escura

Mas antes de chegar ao tema da separação em si, Gil compara o amor a um grão, que precisa germinar, como é possível ver nos versos que já apresentei aqui. Somente depois de falar sobre a necessidade de que o amor seja plantado é que Gil pede para que Drão não pense na separação, não sofra pelo momento que estão vivendo, porque, apesar de tudo, o que viveram é algo que os acompanhará para sempre. Provavelmente eles tiveram uma boa relação e também geraram três filhos nela. Foram 17 anos juntos.

Drão
Não pense na separação
Não despedace o coração
O verdadeiro amor é vão
Estende-se, infinito
Imenso monolito
Nossa arquitetura
Quem poderá fazer
Aquele amor morrer!
Nossa caminha dura
Cama de tatame
Pela vida afora

Por fim, na canção, Gil ainda busca demonstrar que não há nada errado no fato deles se separarem, mas também pede perdão por seus erros e compaixão. E claro que ele encerra a música falando que o verdadeiro amor nunca morre. Se ele é grão, o que pode acontecer é virar pão. Não há fim, apenas transformação.

Drão
Os meninos são todos sãos
Os pecados são todos meus
Deus sabe a minha confissão
Não há o que perdoar
Por isso mesmo é que há
De haver mais compaixão
Quem poderá fazer
Aquele amor morrer
Se o amor é como um grão!
Morre nasce, trigo
Vive morre, pão
Se você ainda não conhecia essa canção, não deixe de escutá-la e me dizer o que achou:

Um amor para chamar de meu (Antologia)

Título: Um amor para chamar de meu
Autor: Vários autores
Organização: Tati Iegoroff
Editora: Lettre
Páginas: 124
Ano: 2020

um amor para chamar blog

(Leia essa resenha ao som da nossa playlist)

A resenha de hoje vem recheada de felicidade e, antes de falar sobre a obra em si, eu explico os motivos: Um amor para chamar de meu é a mais nova antologia da Editora Lettre. Além de ser uma antologia de romance — gênero que eu amo — sou a organizadora da mesma, e tem um conto meu nela! Preciso dar mais motivos para essa felicidade??

“O canto dos pássaros estava bonito de escutar, mas na rotina corrida em meio aos prédios nem damos valor. Contudo, eles estão ali para dizer que a vida é linda de se viver”

(Conto: O motoqueiro da noite chuvosa)

A antologia sofreu um pequeno atraso em sua publicação (que estava prevista para a semana passada), mas finalmente está no ar e eu continuo não acreditando! Mais para frente, se vocês quiserem, posso trazer um post para vocês sobre como foi organizar a antologia e o que eu aprendi com essa experiência.

“Não era como esperava, pois na verdade não sabia o que deveria esperar”

(Conto: Clara)

Por enquanto, vamos ao que interessa, não é mesmo? Obviamente não esperem imparcialidade de mim aqui… Mas também não escolherei contos preferidos, porque, para além do fato de realmente ter gostado de todos, não acho que seria justo.

E posso contar uma coisa? Não é “óbvio” que eu tenha gostado de todos os contos , ainda que tenha sido eu a escolher aqueles que entrariam ou não na antologia. Mas uma coisa eu posso garantir a vocês: me surpreendi com a variedade das histórias que encontrei e é por isso que eu digo que todos os contos são bons (cada uma à sua maneira).

“Os assuntos que tocamos beiram a superficialidade, mas sempre arranjam um jeito de mergulhar fundo em algo verdadeiro e complexo, onde nós dois conseguimos nos entender”

(Conto: Amor meu grande amor)

Quando falamos em histórias de amor, dificilmente escapamos de uma visão clichê e de um “felizes para sempre”, mas ao longo das páginas de Um amor para chamar de meu vamos muito além disso.

É verdade que na maioria dos contos encontraremos casais héteros, mas também há contos que retratam outros tipos de relacionamento, seja de mulher com mulher (infelizmente, apenas um contos assim), de humano com anjo (!), de sereia com boto (sim, você leu isso mesmo) e até mesmo não casais (só lendo para entender)!

“Haja café na vida para engolir a ausência de amor que não tinha… Um amor que ela queria. Um amor para chamar de seu”

(Conto: Por muito pouco)

A leitura de Um amor para chamar de meu é bem rápida, pois os contos são curtinhos (exigências do edital) e gostosos de ler, com diversas formas de escrita, o que contribui para que a leitura não seja maçante.

Aliás, talvez isso seja o que mais me encanta em uma antologia como essa, de um gênero que leio livros e mais livros: a diversidade. Romances podem ser clichês, mas não necessariamente o são. Me divirto vendo os destinos que os autores traçam para seus personagens, as formas como se desenrolam os acontecimento.

 “Como eu aguentava aquela menina que só vivia para falar de amor, amor e amor? Isso era invenção do consciente do ser humano. Carência pura do ego do indivíduo”

(Conto: Maria Felícia e a inexistência do amor)

Por fim, também me encanta saber que por meio da antologia Um amor para chamar de meu podemos conhecer novos autores nacionais. Autores com muitas possibilidades de escreverem excelentes livros. Parabéns e muito obrigada, pessoal!

Se interessou por essa antologia? Então não deixe de clicar aqui.

Prometo ser cruel — Larissa Oliveira

Título: Prometo ser cruel
Autora: Larissa Oliveira
Editora: Publicação independente
Páginas: 19
Ano: 2019

prometo ser cruel blog

É preciso ter estômago para ler Prometo ser cruel. Não que haja cenas horríveis, com sangue que não acaba mais, mas há coisa pior: o ser humano na sua mais primitiva e animalesca forma. Daqueles difícil de engolir, sabe? Mas que, ao mesmo tempo, nos fazer sentir compaixão. Isso é possível?

Em apenas 19 páginas, Larissa Oliveira consegue nos fazer refletir sobre nosso lugar no mundo, e sobre como somos influenciados — para o bem e para o mal — por aquilo que nos cerca.

Elisa é uma mulher rica, daquelas que facilmente poderia “se dar bem na vida” de forma tranquila e estável. Depois de um triste episódio, porém, tudo muda e ela passa a encontrar prazer em algo aterrorizante: matar pessoas. A sensação de poder escolher quem vive e quem morre dá muito prazer a ela.

“Imagino como meu corpo vai estar dolorido amanhã, depois de tanto esforço hoje, mas valeu a pena, eu vou acordar mil vezes mais leve, sempre acordo assim depois de me livrar de pessoas que já não me servem mais”

Seus movimentos me fazem até mesmo lembrar daquele trecho da música Pra ser sincero: “somos suspeitos de um crime perfeito, mas crimes perfeitos não deixam suspeitos”. Bem, Elisa, aparentemente, é capaz de não levantar suspeitas sobre seus crimes. E claro que o fato de ser rica contribui enormemente para isso (pegaram a crítica social aqui?).

Quem narra as primeiras páginas dessa obra é a própria Elisa, o que torna tudo ainda mais denso, nos levando a quase compreender o seu ponto de vista e suas ações. Depois, a história é narrada por Camila, a delegada que precisa descobrir quem está cometendo os assassinatos que andam acontecendo em São Paulo. Ela se mostra como uma pessoa íntegra, que procura realizar seu trabalho da melhor maneira possível. Mas sua tarefa, sem dúvidas, não é nada simples.

Prometo ser cruel é uma leitura que você vai fazer rapidamente — porque ela é curta e te prende —, mas que vai deixar um gostinho de quero mais, além de várias reflexões importantes.

Se interessou? Então clica aqui.

 

 

 

 

 

Petrus — Jéssica Miguel

Título: Petrus (Irmãos Timberg - Livro 1)
Autora: Jéssica Miguel
Editora: Publicação independente
Páginas: 122
Ano: 2018

petrus blog

Petrus é aquele livro que a gente lê rapidinho, com calma, saboreando o doce prazer de ler um romance leve e, ao mesmo tempo, quente. Por outro lado, esse também é um daqueles livros que dá o doce para a criança e depois tira, ou seja, nos dá algumas informações, mas sem contar muito, nos deixando ávidos pelos demais livros sobre os Irmãos Timberg.

O livro é narrador em terceira pessoa e, mesmo com uma história bem fechada e profunda, com diálogos que mergulham em seus personagens, muito da vida de ambos fica de fora e nos deixa com a sensação de que poderíamos conhecê-los ainda mais, para além da profundidade que o sentimento deles nos demonstram.

“Existia uma linha tênue entre a amizade e o amor, e Petrus sabia que a atravessaria no momento em que seus lábios provassem o sabor dos de Ana”

Ana e Petrus são amigos há cinco anos. Os conhecemos em uma noite, num hotel nas montanhas, onde foram parar depois de uma aposta de Petrus com seu irmão, Apolo.

“Seria mais digno confessar os seus sentimentos e inseguranças para ela, afinal, cinco anos era tempo demais para guardar tanto dentro de si mesmo”

E nessa única noite, após cinco anos, muitas coisas mudam na vida de Petrus e Ana. E tudo começa com uma simples conversa, com barulhos vindo do quarto ao lado e com muito vinho, claro.

“Tudo entre eles aconteceu no tempo certo e estar nos braços de quem se ama, sabendo que o sentimento é recíproco, era algo surreal”

Mas, para além do romance com todas as qualidade que já mencionei, Petrus é uma história que trabalha com inseguranças — de ambos os personagens — além de nos lembrar da importância (e da necessidade) de nos abrirmos com o outro, de colocarmos, sem medo, nossos sentimentos às claras.

“Foi como se Petrus a visse nua, despida de qualquer barreira”

Petrus e Ana eram bons amigos há anos, e ainda assim tinham uma visão muito errada um sobre o outro diante de um assunto tão importante. Acreditavam que não eram o suficiente um para o outro sem jamais terem se questionado sobre essa verdade que colocaram para si mesmos. E o amor que nutriam um pelo outro era algo que não passava desapercebido pelas pessoas que os cercavam (e que deram um empurrãozinho para essa noite nas montanhas que mudou a vida deles).

“— É muito doloroso querer alguém e saber que essa pessoa nunca será sua”

Se você tem curiosidade de conhecer esse casal, clique aqui.

 

Desmistificando o mestrado [6] — Créditos e disciplinas

Destimistificando o mestrado [6]

Depois da aprovação no Mestrado chega o momento de se preocupar com as obrigações que ela traz. Eu já falei um pouco sobre isso aqui, e agora venho me aprofundar em um dos tópicos: os créditos e as disciplinas.

No Programa de Pós-Graduação em Língua, Literatura e Cultura Italianas eu precisava cumprir 8 créditos para poder fazer a qualificação e 24 créditos (com o 8 anteriores incluídos neste número) para poder defender a minha pesquisa.

Na Letras, os cursos de Pós costumam ter uma duração de 120 horas, o que corresponde a uma disciplina de 8 créditos, com 4 horas semanais de aula, durante um semestre (um pouco menos, na verdade). Isso significa que, em tese, você precisa cursar 3 disciplinas ao longo do seu mestrado, sendo obrigatória ao menos uma antes da qualificação. As aulas costumam ocorrer no período da tarde (sim, um grande empecilho para quem trabalha), uma vez na semana (ou seja, 4 horas de aula em um único dia).

Também existem matérias mais curtas (e que, consequentemente dão menos créditos) que são oferecidas vez ou outra. Elas podem durar um mês, ou ser “intensivas”, isto é, ministradas ao longo de uma ou duas semanas. Você pode, ainda, fazer matérias em outros institutos e a quantidade de créditos acaba variando. Eu, por exemplo, cursei uma matéria na ECA que valia 7 créditos.

Isso me lembra outro ponto importante a ser destacado: a única coisa obrigatória na Pós é a quantidade de créditos. Não existe nenhuma matéria básica que deva ser feita, nem o requisito de se cursar ao menos uma matéria no seu Instituto de origem (que, no meu caso, seria a FFLCH).

Claro que você deve buscar matérias minimamente relacionadas à sua pesquisa, pois o intuito é que as leituras e os trabalhos derivados dela possam ser úteis no desenvolvimento de sua dissertação, ou que te ajudem a escrever artigos científicos, por exemplo. Portanto, a matéria que fiz na ECA não foi por mera liberdade de escolha: minha pesquisa estava relacionada à música e, por isso, optei por olhar se havia algo lá que me pudesse ser útil.

Mas aqui vai outra dica (que eu adoraria que tivessem me dado): leia atentamente a ementa da disciplina. Veja a bibliografia, a forma de avaliação e a descrição do curso em si. Eu não fiz isso com a matéria da ECA, e a maioria dos textos que precisávamos ler para a disciplina eram em inglês. Tudo bem, eu leio em inglês, mas foi um pouco mais penoso do que o esperado. Depois disso, aprendi a lição. E na Letras é preciso tomar ainda mais cuidado, pois às vezes pode acontecer de a própria disciplina ser ministrada em outra língua.

Se você for bolsista CAPES (ou melhor, se você conseguir ser abençoado com uma bolsa CAPES, porque hoje em dia, só rezando muito, né?) você terá de, obrigatoriamente, fazer o PAE (Programa de Aperfeiçoamento ao Ensino). Farei um post só sobre ele, porque é algo que gera muita dúvida entre os alunos, mas o que adianto aqui é que, no meu caso, consegui 6 créditos apenas com isso.

Outra forma de conseguir créditos, mas de maneira limitada, é através de participação em eventos científicos (com apresentação de trabalho) ou publicação de artigos. A quantidade de créditos que você pode obter com essas coisas, porém, varia de Programa para Programa, então é preciso ler com atenção o regimento do seu Programa de Pós.

E onde saber quais disciplinas serão ministradas? Sempre no nosso fiel escudeiro Janus. Também vale a pena ficar de olho em outros meios de comunicação do Programa de seu interesse.

Para concluir, gostaria de falar mais uma vez sobre a importância de se tentar cursar uma matéria como aluno especial, isto é, antes do seu ingresso efetivo na pós-graduação. Ainda que eu tenha dito que você precisa cursar basicamente três matérias ao longo do mestrado para atingir a quantidade de créditos necessários, lembre-se que existem muitas outras obrigações que tomarão boa parte do seu tempo e que você tem apenas dois anos para concluir tudo (ao menos no caso do Programa de Pós-Graduação em Línuga, Literatura e Cultura Italianas).