TAG literária musical — Parceiros da autora Maya Brito

Já faz um tempinho que sou parceira literária da autora Maya Brito e outro dia ela propôs à todas as parceiras que montássemos uma TAG e assim nasceu esta que agora apresento a vocês.

Mas antes, os perfis que colaboraram com esta brincadeira são: @mayabrito.escritora, @exposta_em_um_livro, @carlaisantoro, @fernandajesusrevisora, @mari_stories_and_advice, @realidadesdeleitor, @estrela_leitura, @capitulo_20, @lendoentreamigas, @leia.bon.livros e eu, @tatianices_blog. Aproveite para conhecê-los!


A TAG que elaboramos mistura dois elementos que eu adoro: músicas e livros. Cada uma de nós escolheu uma canção e atribuiu a ela um tipo de livro para mencionarmos em nossas respostas. O resultado disso é o que você encontra aqui embaixo!

1. As long as you love me (Backstreet Boys): um personagem com um passado misterioso e sombrio que você ama

Impossível não pensar no Guto, de Irresistível Doutor (Ingrid Sousa).

2. Llévame Despacio (Paulina Goto): um livro com o romance dos sonhos

Como “romance dos sonhos” não significa um romance perfeito — já que isso não existe — escolho O irlandês (Tayana Alvez).

3. Várias queixas (Gilsons): um personagem que por mais que seja chato, você não consegue deixar de amar

A Lara, de Sandália Virada (H. L. Amaral) não é exatamente chata, mas talvez um pouco mimada e exagerada. Ainda assim, um amor de garotinha, que a gente só quer proteger!

4. Just a kiss (Lady Antebellum): um personagem que você gostaria de dar um beijo ao luar

Que personagem que nada, gostaria de dar um beijo ao luar no meu namorado mesmo! Hahahahaha (mas sério, não consigo pensar em nenhum personagem).

5. A Thousand Years (Christina Perri): um livro que você leria por mil anos

O livro Comédias para se ler na escola (Luis Fernando Veríssimo), que sempre me faz rir e pensar.

6. Me espera (Tiago Iorc e Sandy): aquele livro que você espera ansiosamente a continuação

Tô aqui só no aguardo da continuação de O despertar da profecia, viu, dona Ingrid Sousa??

7. Era uma vez (Kell Smith): um livro que te marcou na infância

sempre cito esse: A princesinha (Frances Hodgson Burnett).

8. My heart will go on (Céline Dion): um livro que está eternamente no seu coração

Um livro que li para a escola e que adoro até hoje: Cuidado, garoto apaixonado (Toni Brandão).

9. Home (Gabrielle Aplin): um livro que faz você se sentir em casa

Os livros da Pipi Meialonga (Astrid Lindgren), apesar de fazer anos que não os leio.

10. Scarborough Fair (Aurora): um livro que te fez ir a outro mundo

Os livros do Ciclo da Herança (Christopher Paolini).

11. Aquarela do Brasil (Ary Barroso): aquele livro nacional inesquecível

Maldade citar apenas um aqui (detalhe que fui eu quem sugeriu essa)! Mas vou de O demônio no campanário (Michelle Pereira).


E as suas respostas, quais seriam? Sinta-se livre para participar também!

Ah, e os títulos mencionados nesta TAG e que se encontram em vermelho são livros já resenhados aqui no Blog.

Alzehan: Magos e Alquimistas — Rikelmy Ribeiro

Título: Alzehan: Magos e Alquimistas
Autor: Rikelmy Rodrigues Ribeiro
Editora: Lettre
Páginas: 166
Ano: 2021

Antes de iniciar essa resenha, preciso confessar que sou um pouco cética quanto aos comentários de outras pessoas sobre os livros. Gosto de ler resenhas — principalmente de obras que nunca ouvi falar na vida — mas nunca tomo as palavras do resenhista como verdades universais e, assim, não importa se a pessoa amou ou odiou o livro, se pego aquele livro para ler, inicio a leitura sem nenhuma expectativa.

Dito isso, gostaria de acrescentar que o que eu ouvia falar de Alzehan é que este é um livro de fantasia — coisa que já dá para esperar pela capa e pelo título — mas com algumas questões filosóficas inseridas na história. Eu pensava se não era um pouco exagerada essa definição, mas resolvi conferir com meus próprios olhos.

No início da história conhecemos Alzehan, a cidade dourada. Mais que isso, uma cidade poderosa e cheia de mistérios, que abriga dentro de seus muros grandes magos. E dentre eles temos os personagens centrais desta história: Évelon Kovalev, pai de Isaac e Eivil Kovalev, irmãos gêmeos completamente diferentes entre si em todos os sentidos possíveis.

“Eivil não era mal, mas curioso e disposto. O mundo não gosta de pessoas assim, então ele tenta derrubá-las e foi exatamente o que aconteceu com Eivil Kovalev”

Nesta história, porém, não é apenas Alzehan que tem seus mistérios. Todos os personagens parecem carregar mais do que falam e mostram ao longo da narrativa. E, claro, existem outros reinos para além de Alzehan. Reinos não tão ricos e não tão protegidos, mas que têm algo em comum: a vontade de destruir a Cidade Dourada.

“Desde que a vida caminhou sobre a Terra, ela permaneceu em guerra. A paz tornou-se uma utopia, visto que os instintos primitivos se sobressaem até mesmo nas mentes mais intensas”

Nós conhecemos um pouco mais sobre o que há para além dos muros Alzehanianos através de Eivil que, na infância, é expulso da cidade ao desrespeitar uma regra importante. E também é graças a esse acontecimento que conhecemos Érica Asténs, uma figura feminina de muita força, coragem e tristes lembranças, além de outros personagens que compõem a narrativa.

Évelon é um mago muito poderoso e esse poder não só é passado aos filhos, como é aprimorado por eles. Por isso, querendo ou não, todos temiam o que poderia acontecer após a expulsão de Eivil de Alzehan, ainda que, na época, ele fosse apenas um garoto. Isaac também já previa as consequências e, por isso, dedicava-se dia e noite a se tornar um mago ainda mais poderoso que seu pai. É como se todos soubessem que Eivil se vingaria da expulsão, ainda que em momento algum ele seja descrito como vingativo.

“Nós lutamos de maneira imperfeita para que Alzehan continue perfeita, entende?”

É muito fácil mergulhar nessa história — e olha que fantasia não é sequer o meu gênero preferido — e ficar com aquela vontade de saber o que vem a seguir, como os fatos irão se desenrolar. A guerra está sempre pairando, é verdade, mas ela vai muito além de um “bem” contra um “mal” e isso nos deixa sem conseguir prever o que pode acontecer ou mesmo o que gostaríamos que acontecesse.

“— No mundo real não existem vilões, apenas convicções diferentes”

E é justamente por brincar com questões como essa — de não haver exatamente um lado certo e um errado numa guerra — ou então com a questão de que, se não mudarmos, sempre haverá guerras no mundo, porque queremos apenas que nossos desejos sejam atendidos, é que Alzehan: magos e alquimistas é uma obra de fantasia que consegue ir muito além daquilo que esperamos.

“Uma vez, travei uma batalha contra um mago de Zafira. Ele me disse que ‘o mundo trabalha contra os bons’ e, de certa forma, fazia sentido”

Esse é o livro de estreia do autor e a história não acaba aqui (espero!). Se você é um amante de fantasia e quer conhecer esses personagens tão cheios de segredos e reflexões, adquira o ebook aqui ou o livro físico aqui e boa leitura!

A jornada — Davi Busquet

Título: A jornada
Autor: Davi Busquet
Editora: Publicação independente
Páginas: 11 
Ano: 2020

Em uma história rápida — o conto pode ser lido em questão de minutos — e certeira, Davi Busquet nos faz refletir sobre a vida (e a morte) e sobre as pessoas que nos cercam.

Com personagens sem nome — chamados apenas de o Velho, o Garoto e a Esposa do Velho — a história torna-se ainda mais universal. Uma narrativa cujo título já explica muito e, ao mesmo tempo, não tem como explicar nada.

No conto, somos jogados em um úmido fim de tarde, chegando com o Velho a um lugar que não sabemos qual… Ou que apenas não queremos saber qual é. Ali, diante de um muro, muitas lembranças se passam em sua mente, mesmo que sejam muito poucas perto da vida que ele provavelmente viveu.

“Assim se defendia a mente de um velho”

Também vamos acompanhando algumas reflexões desse tal Velho, enquanto os demais personagens estão ali para compor a sua história.

Com uma linguagem metafórica, o conto exige uma leitura atenta, para que sejamos realmente transportados nessa viagem existencial.

Para ler o conto, clique aqui. Além disso, o autor está lançando um novo livro pela Editora Lettre. Trata-se da obra No coração de um assassino que, de maneira diferente da apresentada neste conto, também nos faz refletir sobre nossa existência e o que fazemos com o nosso lugar no mundo.

Verbos “essere” e “avere”

Todo mês tenho tentado trazer um pouco da língua italiana para cá e agora em abril isso quase passou em branco. Mas, como se diz: meglio tarde che mai (ou, em bom português: “antes tarde do que nunca”). E ainda vim aqui para falar deles, os verbos que considero os mais importante do italiano: essere e avere.

E por que esses verbos são tão importantes? Porque além de os usarmos em muitas das informações básicas que damos sobre nós (e você já vai entender melhor isso), eles também costumam ser o verbo auxiliar em tempos compostos (por exemplo, para nos referirmos a uma ação passada, existe um tempo verbal chamado passato prossimo que é formado pelo presente do verbo essere ou avere + particípio passado do verbo principal. Mas isso é coisa para outro momento, ok?).

Abaixo, te apresentarei cada um desses verbos, com alguns exemplos e a conjugação deles no tempo presente. Vem comigo?

Il verbo essere

O verbo essere corresponde aos nossos verbos ser e estar. Vejamos alguns exemplos:

  • Sono Tatiana = Sou a Tatiana.
  • Siamo a casa = Estamos em casa.
  • Siete felici? = Vocês são felizes?
  • Dov’è? = Onde está? / Onde ela/ele está?
  • Sono marito e moglie = Eles são marido e mulher.
  • Quanto sei fortunata! = Como você é sortuda!

Depois de ler as frases acima, talvez fique mais fácil entender que a conjugação do verbo essere, no presente do modo indicativo, é:

PersonaVerbo essere
Iosono
Tusei
lei / lui / Leiè
Noisiamo
Voisiete
Lorosono

Il verbo avere

O verbo avere, por sua vez, significa, ter. Mas atenção: é o ter que usamos no sentido de posse. Vejamos os exemplos:

  • Hanno molti soldi = Eles têm muito dinheiro.
  • Avete pazienza = Tenham paciência.
  • Ho paura! = Tenho medo!.
  • Abbiamo una bella casa = Temos uma linda casa.
  • Hai un minuto? = Você tem um minuto?
  • Ha 30 anni = Ele/ela tem 30 anos.

Assim sendo, a conjugação do verbo avere, no presente do modo indicativo, é:

PersonaVerbo avere
ioho
tuhai
lei/lui/Leiha
noiabbiamo
voiavete
lorohanno

Esses dois verbos, além de importante, são irregulares. Isso porque, quando conhecemos a conjugação de verbos regulares, vemos que há uma regrinha bem simples de seguir, mas que não é possível aplicar em verbos como esses. O jeito é praticar bastante!

E aí, você conseguiria formar frases usando esses verbos? Deixe as suas nos comentários, vou adorar lê-las! E se tiver dúvidas, sinta-se livre para perguntar.

Raimundo — Lucas Oller

Título: Raimundo
Autor: Lucas Oller
Editora: Chiado Books
Páginas: 109
Ano: 2021

Sei que ainda estamos em abril (quase maio), mas posso dizer que 2021 tem sido um ano de aventuras no universo literário. Depois de Desesterro, chegou a vez de comentar sobre Raiumundo, um poema épico moderno. Você já leu algo assim?

Ao segurarmos o livro em mãos, ele pode parecer pequeno, fino. Mas desde a capa podemos ver todo um trabalho feito sobre ele. Também há ilustrações ao longo da obra, além de um prefácio muito bem escrito e que pode te ajudar a mergulhar de cabeça (e com fôlego) no principal: a poesia. Ao final, Raimundo já não parece mais tão pequeno assim…

“Eu serei tudo, a complexidade inalcançável de ser vivo. Chamo-me Raimundo, e é deste ponto que parto para conquistar o mundo”

Dividido em 3 atos, este livro nos transporta para longe e, ao mesmo tempo, para tão perto: para o nosso lado mais natural e animalesco, primitivo. Com o protagonista, partimos para a conquista do mundo. Mas que mundo?

“Sua sina divina sempre dizia: um dia dará à luz a esse mundo”

Como qualquer herói — e somos todos um pouco heróis — Raimundo passa por percalços em seu caminho e, ao longo destas páginas, nós o acompanhamos, sendo guiados — tanto nós quanto ele mesmo — por um narrador que se faz presente, mas que também joga Raimundo em seu devido lugar.

“— Eu já nasci sem escolhas”

É inevitável pensar, desde o título da obra, mas também em alguns de seus trechos, no Poema de Sete Faces, de Carlos Drummond de Andrade. Ambos poéticos, mas muito diferentes entre si. E, ao mesmo tempo, com algo que vai muito além da poesia unindo-os.

“Vai menino, vai ser Deus desse mundo”

Essa porém, não é a única referência que podemos captar ao longo das páginas desta obra, que me parece ser fruto de muito estudo, elaboração e conhecimento.

Raimundo é, muito provavelmente, diferente de qualquer coisa que você poderia imaginar, com passagens muito diretas, mas também com versos e interpretações entremeadas, que devem ser degustadas com calma, mas que podem ser concluídas em uma sentada só, a depender do seu fôlego.

Indico a obra para quem quer fazer um mergulho literário e, mais que isso, um mergulho dentro de si e da natureza, seja ela humana ou não. É possível adquiri-la em diversos sites como Amazon (ebook), Livraria da Travessa ou no site da própria Editora Chiado.

Bela Amizade — Jacqueline Gulmini

Título: Bela Amizade
Autora: Jacqueline Gulmini
Editora: Publicação independente
Páginas: 18
Ano: 2021

Ressurgi das cinzas — depois de pouco mais de uma semana afastada daqui do Blog, uma pausa necessária às vezes, né? — para trazer a resenha de um conto super leve e com uma bela mensagem (já voltei fazendo trocadilhos ruins, perdoe-me). Em poucas páginas, Jacqueline consegue transmitir aos seus leitores muito mais do que o que está escrito ali.

Luna é uma jovem que acabou de conquistar sua independência plena, isto é, saiu da casa dos pais para morar sozinha. Mas imagina dar esse grande passo e… Bum! Uma pandemia para te deixar totalmente isolada. Imagina como dever ter sido para quem tem boas relações familiares, mas decidiu se mudar e foi surpreendido por uma pandemia. Esse isolamento forçado deve ter sido um baque e tanto e esse conto nos faz pensar nisso. Mas não só!

O título do conto, claro, não é à toa e, mesmo em meio ao isolamento, nasce uma bela amizade: Luna, inspirada por outros jovens, coloca-se à disposição para ajudar quem ela puder ajudar e, assim, conhece a Dona Dulce, uma senhora que mora no mesmo prédio que ela e que não pode ficar saindo para ir ao mercado.

Luna, portanto, se compromete a ajudá-la com as compras e, além disso, elas também passam a fazer companhia uma para a outra, através de vídeo chamadas e até de jogos online. E é assim que elas vão tentando driblar a saudade da família e da rotina pré-pandemia.

As duas personagens desta história são bem diferentes entre si, principalmente pela distância entre uma faixa etária e outra. Mas ambas têm algo a ensinar e é muito bonito ver isso, além, claro, da relação que elas vão construindo.

“Ela sempre me dizia que, quando somos jovens, tudo parece ser o fim, sem solução, que não vamos aguentar”

Nós, assim como a própria Luna, passamos a história na expectativa de um encontro presencial entre ambas. Como seria? Qual seria a sensação de conversar cara a cara?

“Ainda que não pudéssemos nos abraçar, eu sabia que um dia teríamos o nosso abraço”

Indico Bela Amizade para quem já não tem esperanças de (ou mesmo que já não consegue) ver coisas boas no meio dessa pandemia. Às vezes, algo pode acontecer quando menos esperamos e vir de onde menos esperamos. Aliás, de acordo com os acontecimentos deste conto, tanto algo bom quanto algo um pouquinho assustador pode acontecer a qualquer momento… Mas logo tudo (de ruim) passa!

E aí, ficou com vontade de fazer essa leitura rapidinha? Então clica aqui.

Desesterro — Sheyla Smanioto

Título: Desesterro
Autora: Sheyla Smanioto
Editora: Record
Páginas: 303
Ano: 2018 (3º edição)

Ler Desesterro é, sem dúvidas, uma experiência literária. Acho que o próprio título já nos mostra que algo diferente está por vir e a capa ajuda a dar um toque final à complexidade da obra. Não à toa, a obra foi vencedora do Prêmio Sesc de Literatura, na categoria romance — ainda que sua linguagem seja muito mais poética que prosaica —, do Prêmio Machado de Assis (da Biblioteca Nacional), além de ter sido premiado no Jabuti e finalista do Prêmio São Paulo.

“Ler é: devorar a fome dos outros”

Logo na primeira página, não pude deixar de pensar em Vidas Secas (Graciliano Ramos), porque a autora começa a obra com a descrição de uma cidade pequena — Vilaboinha —, humilde e seca. Mas, ainda que ao longo da leitura essa semelhança ainda ecoasse em mim, também há muita coisa única neste livro.

“Até a fome da gente a terra devora, mas a terra não guarda tudo, não senhora”

O livro é dividido em partes, mas que se misturam, assim como as muitas vozes que compõem a narrativa, mas que, por vezes, parecem uma só. Nem tudo tem nome, nem mesmo os sentimentos.

“Desesterro: a única palavra que Scarlett conhecia”

Desesterro é um livro que diz e não diz. Se em alguns trechos eu pensava “será que a autora está falando disso?”, em outros, eu tinha certeza. E por disso entende-se muita coisa: miséria, violência, estupro, abandono paternal.

“Tonho tantas vezes batendo em Fátima ela nem se importa, mulher nenhuma morreu de apanhar de marido, exceto as que estão mortas”

Ainda que sejam temáticas sérias e pesadas, a leitura flui, porque as palavras escorrem em seu tom poético. E o “disse não disse” também nos ajuda a engolir duras verdades.

“Nasceu da morte dela, vê se isso é coisa de gente”

Mas há também outras temáticas na obra, como o passado que nos assombra e o ato de migrar (interna ou externamente).

“Transformação é: migração de dentro.

Sem uma linha temporal clara e com construções gramaticais bem diferentes do comum, Deseterro pode assustar alguns leitores. Mas é uma leitura que merece um esforço, talvez uma leitura em voz alta de alguns trechos (inclusive, se vocês procurarem por esse título no Google, encontrarão diversos vídeos da autora declamando alguns trechos).

“Mas filha é assim mesmo, a Fátima sabe, meu Deus, a Fátima não sabe a Fátima só imagina como é ser mãe. Mas, diacho, quem é que sabe?”

Desesterro é uma leitura para quem quer fugir do óbvio, mas também para quem consegue levar alguns socos no estômago ao virar das páginas. Por fim, uma leitura que irá surpreender a quem decidir realizá-la.

“Ele foi embora com o sol, assustado com a descoberta imprevista”

Se você se interessou, não deixe de clicar aqui (livro físico) ou aqui (ebook).

Ressaca literária: o que estou fazendo para superá-la [tradução 13]

Para a tradução deste mês, resolvi falar sobre um assunto que todo leitor, em algum momento, fala: a famosa ressaca literária.

E escolhi esse tema porque tenho visto muitas pessoas com dificuldade para ler nesses últimos tempos. É a soma de notícias ruins, mais de um ano vivendo uma grande incógnita e, em alguns casos (e me encaixo nessa) uma correria danada, apesar de tudo.

O artigo original, porém, foi escrito em janeiro de 2018 (ou seja, um contexto bem diferente do nosso, né?), por Chiara Nicolazzo, e pode ser lido aqui. Espero que alguma dessas dicas possa ser útil!

Também gostaria de ressaltar que uma tradução mais literal do título seria algo como “o bloqueio do leitor”, mas adoro esse termo “ressaca” que adotamos por aqui. Então vamos ao que interessa?


Começo a escrever este post sem muita enrolação, mas partindo de uma confissão. Estou de ressaca literária. Uma ótima situação para alguém que administra um blog no qual se fala principalmente de livros, né?

Devo dizer que nunca fui uma daquelas leitoras que se importa com o número de livros lidos, mas é um fato: se vocês acompanham a minha coluna os livros do mês, vocês provavelmente perceberam que ultimamente tenho lido pouco. O que está acontecendo?, perguntei-me. A única resposta que consegui me dar foi que nos últimos meses tenho acumulado muito stress. A experiência de comprar e reestruturar uma casa com certeza foi emocionante, mas também foi um projeto que me sugou tudo. Paciência, tempo, energia mental. Desde setembro comecei a enfrentar situações antipáticas para alguém que se define como uma leitora compulsiva. Leio e percebo que não estou atenta, porque a minha mente vaga para outros cantos. Olho os livros à espera de serem lidos e não tenho vontade nem mesmo de pegá-los. Digo a mim mesma que estou lendo muito pouco e percebo que não me importo com isso.

Inicialmente, pensei que uma vez que passasse o caos de trabalhadores dentro de casa e os problemas mais urgentes, a situação melhoraria. No entanto, continuo me sentindo presa a uma situação que não me pertence. Mais ligada às tarefas cotidianas que às aventuras fantásticas que vivem nos livros.

Pensei, portanto, que poderia ser útil falar com vocês. O que estou fazendo para mudar essa situação? Digamos que não existem regras mágicas, busco apenas escutar o meu instinto e devo dizer que, devagar, as coisas estão melhorando. Então resolvi contar a vocês a minha experiência através das 5 coisas que estou fazendo para superar a ressaca literária.

1) Não me forçar

Percebi que é inútil me forçar. Se eu leio quando não tenho vontade e estou pensando em outras coisas, ler torna-se simplesmente algo automático. E não é bom, porque não aproveito o momento e não gravo nada. Consequentemente, me irrito. Ler apenas por dever, apenas para não perder o hábito, torna-se mais uma daquelas ações que cotidianamente “tenho que fazer”, não uma daquelas que “quero fazer”.

2) Não experimentar

Nesses meses, tentei por diversas vezes ler algum dos livros que estavam pegando poeira na minha cabeceira, à espera de serem lidos. Em sua maioria, são livros que comprei ao acaso, apenas porque custavam pouco, ou que recebi de brinde de alguma editora. Em ambos os casos, são livros que acabaram nas minhas mãos quase por acaso, não porque eu os desejasse ler há muito tempo. Percebi, portanto, que é inútil experimentar novas leituras neste período, porque esta se revelou uma atividade improdutiva.

3) Estabelecer quantas páginas ler por dia

Ter ressaca literária significa que existem dias que encontro mil desculpas e mil tarefas para fazer só para não abrir um livro. Nos últimos tempos, por exemplo, estou acompanhando várias séries televisivas e voltei a fazer crochê com o objetivo de fazer um suéter (mas isso é uma outra história). Entendi, portanto, que é eficaz sim, dizer a mim mesma “Chiara, você tem que ler pelo menos vinte páginas e depois pode fazer o que bem entender“. Comigo funciona. Isso de estabelecer um total de páginas para ler por dia me permite reestabelecer uma conexão entre eu e o livro que, sem isso, não seria possível.

4) Reler o meu livro/autor preferido

Um sintoma dessa situação é o de ter perdido o entusiasmo de me perder em uma história. Percebi, porém, que isso não acontece quando releio um livro que amo muito ou aproximando-me de escritores que eu curto. Por isso que ultimamente reli diversos livros que sempre têm o poder de me levar de volta para casa. Entre os livros que tirei das caixas estão, por exemplo, L’ora di tutti de Maria Corti e Se non ti vedo non esisti de Levante e, depois, também foi fundamental, como sempre, a minha escritora preferida Isabel Allende, de quem reli alguns trechos dos meus romances preferidos, o seu último trabalho, Além do inverno, e agora estou relendo inteiramente Il quaderno di Maya. Além disso, justamente ontem fiz uma compra online contendo dois títulos que gostaria de ler há muito tempo e que, por diversos motivos, nunca comprei. Acredito que esse seja o caminho.

5) Me dar um tempo

É inútil me desesperar por uma situação que, eu sei, não mudará da noite para o dia, mas que se desenrolará naturalmente e com alguma prudência da minha parte. Não posso me culpar por todo o stress que interiorizei nos últimos tempos e que saiu de mim desta forma. Tudo o que eu posso fazer é me dar um tempo para reencontrar o entusiasmo pela leitura nos autores e nas palavras que amo dia após dia.

Preciso dizer que resolvi dividir com vocês a minha situação porque acho que confrontar essa situação pode ser uma arma a meu favor e talvez também a favor de alguém mais que possa estar na mesma situação. Eu gostaria, portanto, se vocês quiserem, de ouvir as histórias de vocês o seus conselhos.


E aí, o que você faz quando está de ressaca literária? Ou você é uma pessoa tão abençoada que nunca passou por essa situação?

Eu concordo com a autora do texto que é preciso ir ao poucos e não se forçar. Às vezes dá uma sensação de que não vai passar nunca, mas aí a gente reencontra a vontade sim. A única coisa que não costumo fazer, nem mesmo nesses casos, e reler alguma obra. Mas recorro ao meu gênero favorito: um bom romance clichê!

A importância da leitura sensível e da leitura crítica

Confesso que a motivação para escrever este post vem de um livro que li ano passado. Ou melhor, não li, apenas iniciei. Eu dificilmente largo um livro depois de começar a ler, mas ano passado foram dois, quase ao mesmo tempo. E não sei se o problema estava realmente nos livros ou se foi também pelo fato de que iniciei a leitura um pouco antes de começar a quarentena por aqui… Mas o fato é que, num desses livros, havia uma coisa bem clara me incomodando.

Quem me acompanha por aqui provavelmente já sabe que eu sou professora de italiano. Fiz faculdade e continuo a estudar cotidianamente sobre a língua e a cultura. Um dos livros que larguei ano passado trazia um personagem italiano. Coisa, aliás, que me fez ir atrás do livro para ler.

Eu já sabia, antes de iniciar a leitura, que esse tal personagem, na história, pertencia à máfia italiana, mas isso não me pareceu um problema. Não até eu iniciar a leitura e me dar conta que, uma vez mais, eram pessoas de fora tentando retratar a “famosa máfia italiana”.

A questão é que máfia é uma coisa muito complicada. E muito séria também. Sabe aqueles políticos que nos deixam indignados porque desviam dinheiro, roubam milhões e deixam outras milhares de pessoas na miséria? Pois é, a máfia não é muito diferente disso… Matam sem dó, extorquem as pessoas…

Para além do fato de que reproduzimos erroneamente um conceito de máfia que foi exportado, principalmente, pela indústria cinematográfica, o livro em questão me incomodou porque a autora quis inserir “falas em italiano”, mas, aparentemente, sem ter conhecimento algum da língua e, consequentemente, recorrendo ao Google Tradutor. Era fácil perceber isso porque havia palavras que eu entendia como uma tradução literal ou então frases que não faziam sentido algum em italiano.

E o pior que esse não foi o primeiro livro no qual vi algo do tipo, mas no anterior, como não era o foco da história, consegui relevar mais facilmente.

A questão é que isso ficou ecoando em mim (bom, já faz mais de um ano e só agora que, finalmente, estou escrevendo esse post!). Eu não sou de criticar autores nacionais, muito pelo contrário aliás, vocês sabem que boa parte das minhas resenhas são de autores que estão iniciando ou que ainda não têm um grande público. E eu realmente não sou uma leitora chata, mesmo tendo um olhar crítico.

Mas o fato de eu relevar muita coisa não significa que eu não enxergue, por exemplo, erros de português (sim, tem dias que a revisora que habita em mim está atacada) ou coisas que, sinceramente, poderiam ser melhoradas em uma história.

A questão é que, muitos autores, seja por falta de tempo, de dinheiro ou mesmo de conhecimento, se esquecem que escrever um livro vai muito além de sentar e escrever (por mais contraditório que isso possa soar). Escrever um livro pode envolver muita pesquisa e planejamento antes da escrita em si e muito aprimoramento depois que é colocado o último ponto final do arquivo. Sim, porque depois da primeira escrita é que podemos lapidar e melhorar aquela obra, por mais cansativo que isso pareça (e é).

Nem sempre seremos nós a enxergar o que precisa ser melhorado! Por isso a importância de um leitor beta, um leitor crítico, por vezes um leitor sensível e, claro, um revisor (mas isso é coisa para depois da história já lapidada).

E aí você vira e me diz: leitor beta? Leitor crítico? Leitor sensível? O que são essas coisas? Bem, os nomes talvez já se expliquem (ao menos em partes), mas vou tentar trazer uma breve descrição de cada um desses tipos de leitor.

Leitor beta

O leitor beta é o seu primeiro leitor. Aquela(s) pessoa(a) para quem você vai mostrar seu livro antes de todo mundo, para poder ver as reações dessa(s) pessoa(s) enquanto lê(em). Pode ser um cônjuge, parente, amigo, quem for. Só tem de ser alguém em quem você confie e que também uma pessoa que tenha afinidade com o tipo de texto que você escreve (porque, se a pessoa não gosta daquilo, pode não gostar de seus escritos, o que não significaria que eles estão ruins!). E se você não conhece nenhuma pessoa que preencha esses requisitos, saiba que existem muitos leitores dispostos a ser leitor beta, mas é preciso saber encontrá-los. Alguns até podem cobrar por esse tipo de “serviço”, ainda que a leitura beta seja a mais fácil de se conseguir gratuitamente. Encontrar um leitor beta que não seja alguém do seu círculo social também pode ser bom, porque a pessoa poderá te dar uma opinião até mais sincera do que alguém que você conheça e que pode ter medo de te magoar.

Leitor crítico

O leitor crítico já está um passo além do leitor beta. Neste caso, é importante escolher alguém que tenha uma certa bagagem literária e que seja ainda mais sincero em suas opiniões (aqui já é mais difícil contar com conhecidos, pois eles acabarão tendo uma visão menos imparcial da obra). O que espera-se desse leitor é que ele leia a obra e aponte os pontos fortes e fracos, sugerindo modificações onde achar necessário (modificações essas que podem ou não ser aceitas pelo autor, que é quem dá a palavra final) e apontando o que poderia ser melhorado. Neste caso, é mais provável que você encontre pessoas que cobrem por esse serviço, afinal, ele requer dedicação e conhecimento.

Leitor sensível

Por fim, alguns tipos de obra requerem a leitura de um leitor sensível. Se você escrever sobre alguma minoria ou cultura que não é a sua, contrate um leitor sensível que tenha conhecimento sobre aquela causa. Isso vai evitar que você passe vergonha com o seu livro publicado, viu?

Vamos supor que você quer escrever sobre um personagem surdo, mas você é uma pessoa ouvinte. Por mais que você pesquise, se informe, conheça pessoas surdas, é importante contratar um surdo para fazer a leitura sensível de sua obra, pois só ele poderá dizer se a sua representação está bem feita, se você não deixou passar algo (para um ouvinte colocar um personagem surdo ouvindo algo é rapidinho, né?).

No caso de autores brasileiros que queiram escrever sobre a máfia italiana, claro, a leitura sensível já é um pouco mais complicada. Isso porque o ideal seria contratar alguém que vive (ou viveu) numa cidade dominada por esse tipo de poder, mas aí temos dois empecilhos: o fato de que “onde eu vou achar uma pessoa dessas? Eu nem falo italiano!” e o fato de que talvez as pessoas não queiram falar sobre isso, porque a vida delas poderia estar em risco (pois é!).

Para esses casos, porém, é importante buscar informações em fontes seguras e históricas, a fim de evitar apenas a reprodução de estereótipos. Além disso, você também pode contar com a leitura de pessoas que tenham mais conhecimento que você sobre aquele determinado assunto, de acordo com a formação delas (e outras bagagens culturais, porque diploma também não é tudo nessa vida, né?).

E você, já leu algum livro e sentiu que faltou uma leitura crítica e/ou sensível antes da publicação?

A sandália virada — H. L. Amaral

Título: A sandália virada
Autor: H. L. Amaral
Editora: Publicação independente
Páginas: 180
Ano: 2021

Eu era bem pequena quando outra criança, tão pequena quanto eu, ensinou-me que não se pode deixar as sandálias viradas para baixo, porque isso causa a morte da mãe. Assunto macabro para crianças, né? Mas bem, são as crendices populares que permeiam o nosso imaginário cultural.

E neste livro, H. L. Amaral trabalha justamente com essa ideia, criando uma narrativa muito instigante, daquelas que não queremos largar, porque cada capítulo nos faz querer ler “só mais um…”.

Lara, a protagonista desta história, tem apenas 12 anos e a vida de ponta cabeça. Bom, na verdade eu talvez esteja sendo tão dramática quanto ela, mas ao longo da leitura vamos entendendo como ela tem seus motivos e, em momento algum, ela é uma protagonista insuportável, ainda que seja um pouco mimada.

“Não importa o quanto ela quisesse, era como tentar abrir uma porta com a chave errada”

O que acontece é que Lara perdeu sua mãe aos oito anos de idade e não consegue aceitar sua madrasta. Para piorar tudo, é por conta dessa madrasta que ela e seu pai precisam mudar de cidade, o que só aumenta a raiva da jovem.

“O nome ‘Cidade Nova’ era bem literal para mim”

Um dia — ou, sendo mais específica, uma noite — Lara, irritada com sua madrasta, decide testar a famosa crendice popular da sandália virada. Mas ela não esperava que o efeito pudesse ser tão potente e real! No dia seguinte, Lara e Heloísa — sua madrasta — sofrem um acidente de carro, do qual Lara sai praticamente ilesa, enquanto Heloísa fica entre a vida e a morte.

“Eu era a rainha dos planos idiotas, acho que isso já ficou claro”

Claro que, neste dia, o pai de Lara viajara a trabalho e teve de voltar às pressas para Cidade Nova. Mas Lara, acreditando que tudo aquilo era culpa da sandália virada, decide fugir do hospital e voltar o quanto antes para casa, para tentar reverter o estrago.

“De onde estava, pude ver que era um sinal de noventa segundos de espera. Esses intervalos parecem durar uma eternidade quando tudo que você quer é chegar em casa”

A maior parte do livro se passa nesse momento, isto é, no caminho de Lara até a sua casa. Um caminho, porém, recheado de obstáculos, não apenas pelo fato dela não conhecer a cidade, mas por ser carnaval e por Cidade Nova, de acordo com as descrições da história, não ser muito segura, principalmente a noite.

“Agora, perdida no meio da noite, vejo que aquilo foi um erro. Eu não devia brincar com o que eu não entendia por completo”

Por “sorte”, no início desse percurso, Lara encontra Elmo, seu único amigo naquela cidade (e que, até então, ela sequer sabia se poderia realmente chamar de amigo).

“Amigos precisam ser transparentes feito amebas”

E é assim que por páginas e páginas acompanhamos as aventuras e desventuras desses dois jovens e, ao mesmo tempo, vamos conhecendo um pouco mais cada um e de seus respectivos passados e presentes.

“Quando me dei conta, já estávamos rindo pela noite de Cidade Nova, rindo como as crianças que éramos”

É impressionante como, se pararmos para analisar, Sandália Virada se passa basicamente (mas não totalmente) em uma única noite. Melhor ainda, em algumas poucas horas. E, ainda assim, há muito conteúdo entremeado ali. Sem contar o fato de que o autor consegue, em meio a tanta ação, abordar alguns assuntos como nuances das mais diversas relações familiares, a verdadeira amizade, confiança, bullying e superação.

“Tem gente que tem o sorriso torto. Tem gente que sequer sorri. Já vi gente legal e gente ruim em ambos os casos”

Sandália virada se passa em uma noite que mais parece uma vida e ainda toca em temas importantes, conseguindo ser leve e emocionante, fluída e prazerosa de ler. Uma história para todas as idades e que provavelmente vai te surpreender.

“Aquela noite não era sobre o que eu queria ou o que eu precisava. Nunca foi”

Esse livro caiu do céu em meio às minhas leituras, sendo aquela fuga necessária em meio a tanto caos, ainda que o universo de Lara seja bem caótico também.

“Eu podia ser uma maluca que acreditava em pragas da época da minha bisavó, mas ele ainda segurava minha mão”

Se você se interessou por essa história, clique aqui para conhecer Lara, Elmo e toda a confusão que uma simples sandália virada pode causar!