Um mistério entre nós — Paula Barros

Título: Um mistério entre nós
Autora: Paula Barros
Editora: Viseu
Páginas: 96 
Ano: 2019

Um mistério entre nós é aquele tipo de livro que tem tudo para fazer muito sucesso: uma protagonista que guarda um grande segredo e um casal que, por algum motivo, não pode ficar junto. Dois fatos que, de alguma forma estão unidos e que precisamo ler para descobrir que fim terão. Mas… Não foi um livro que me conquistou.

Luísa, a protagonista, é jornalista. Ela trabalha para a coluna de negócios, mas seu sonho sempre fora a coluna policial do jornal. E é por isso que ela vê em um bilhete caído no chão uma grande oportunidade de realizar seu sonho. O que ela não tinha ideia, porém, era que seu sonho poderia, literalmente, transformar-se em pesadelo.

“O que pensou que seria motivo de orgulho para ela, agora era pura vergonha”

A narrativa de Um mistério entre nós, vai, assim, se alternando entre passado — o momento em que Luisa entra em uma grande enrascada — e presente. Já li diversos livros com essa alternância temporal e costumo gostar muito disso, mas senti que, nesta obra, isso não funcionou tão bem.

No meio desse caminho aparece um tal de Gustavo e, de início, Luisa se mostra evitando ele. A impressão que temos é que ele é um cara que está flertando com Luisa, mas com quem ela não quer contato, devido ao seu segredo. Mais adiante, porém, descobrimos que eles eram, na verdade, namorados e que, “do nada” (há o tal mistério da história, mas isso não justifica), ela para de falar com ele. A narrativa dessa relação é meio confusa: uma hora parece que eles só estão ficando, outra hora temos a impressão de que eles namoravam sério. Isso acabou atrapalhando minha identificação com os personagens.

Mas talvez exista outra coisa que tenha feito com que eu não tenha conseguido me dar muito bem com a alternância temporal e com detalhes como o que acabei de mencionar: a própria escrita do texto. Senti que daria para trabalhar melhor a construção textual. Em mais de um momento eu pensei que determinada frase ou diálogo poderia ter sido melhor escrito. Espero não estar me tornando crítica em excesso em minhas leituras…

Apesar de tudo isso, porém, eu acredito que essa história cumpre muito bem seu papel. Eu mesma, a peguei em busca de algo rápido e leve. E, mesmo com todo o mistério e as situações policiais, a narrativa conseguiu entregar justamente isso que eu procurava, um momento para se desligar do mundo.

Um mistério entre nós é apenas o primeiro volume de uma trilogia. Como eu disse, o livro é pequeno, acredito que os outros dois também sejam, então, mesmo sendo uma trilogia, é algo para se ler rapidinho. Eu, ao menos por enquanto, porém, fico apenas com esse primeiro volume.

Se você quiser descobrir qual é o grande mistério que Luisa esconde, clique aqui.

Contar histórias salva vidas? — diário de leitura (2)

Depois da introdução existente na edição da Nova Fronteira, finalmente podemos mergulhar na história d’As mil e uma noites. E quando ouvimos falar nesta obra, logo pensamos em Sherazade contando uma história após a outra para adiar a sua morte e, consequentemente, salvar a de tantas outras mulheres, certo? Mas, evidentemente, o livro não começa por aí (e, aliás, esse momento, na minha edição, só chega lá na página 47).

Primeiro precisamos entender quando um certo rei — Shahriar — decide que a cada dia se casará com uma nova mulher que, no dia seguinte, será assassinada, evitando assim que se repita o que sua primeira esposa havia feito: traí-lo.

“Aquela desumanidade sem precedentes causou consternação geral na cidade, onde só se ouvia gritos e lamentações.

É interessante destacar esse trecho, pois é a tomada dessa decisão que faz com que todo o resto da obra exista. Porém, trata-se de uma ação cruel, fruto de um coração partido. O que nos leva a refletir sobre como um coração que sofre pode vir a tentar causar o mesmo sofrimento a outros corações. E faz isso de maneira irracional.

A reflexão acima, no entanto, me faz pensar em outra, ainda relacionada à história: um coração ferido, foi capaz de gerar muito mal à uma sociedade. E um bom coração foi capaz de encontrar uma cura para esse mal. Uma lição que aparece das mais diversas formas em tantas histórias que lemos até hoje e também algo para levarmos para a vida.

Ainda antes das histórias de Sherazade, ainda temos uma fábula contada por seu pai, no intuito de tentar dissuadi-la da ideia de se apresentar como próxima esposa do rei Shahriar. Tal história chama-se “A fábula do burro, do boi e do lavrador” e não foi suficiente para demover Sherazade de seu propósito. E é assim que, finalmente, podemos mergulhar em suas histórias.

A primeira delas é “O mercador e o gênio”, e é contada da primeira até a quarta noite, quando se inicia “A história do primeiro ancião e a da corsa”. Como se pode imaginar, essa segunda história é como uma narrativa menor dentro da primeira (que por sua vez, já é uma narrativa menor dentro da obra). E ela é acompanhada, ainda, de “A história do segundo ancião e dos dois cães negros”, contada entre às sexta e oitava noites.

Porém, nem sempre uma história é apenas uma história menor dentro de outra. Sherazade consegue encontrar outras formas de ligar uma história na outra, de modo que o rei não perca o interesse em suas narrativas e, assim, adie a sua morte. Isso acontece, por exemplo, na 8º noite quando, terminada a história do segundo ancião, mas ainda com tempo sobrando, Sherazade dá início à “História do pescador”, que passará a englobar outras narrativas, como a “História do rei grego e do médico Dubã”, que dura até a 14º noite.

Um elemento que tenho sentido muito presente nas histórias até aqui é a questão da morte. Sempre há alguém que morre ou deve morrer por algo. Mas também há algo que aparece logo nas primeiras histórias e que não deixa de ser uma das grandes molduras desta obra: o fato de que contar histórias pode nos salvar. Contar histórias salva vidas. Deixo esses pontos aqui, para ver o que acontece até o final do livro…

Desmistificando o mestrado [9] — Dados da pesquisa

Esse post é para você que ingressou no Mestrado — ou está quase para ingressar — e não sabe nem por onde começar a pesquisa. Mas esse post também é para você que nunca pensou em fazer um Mestrado por achar que é “areia demais” para o próprio caminhãozinho. Dar o primeiro passo pode ser assustador, mas não é impossível. Vem comigo?

Esse tal “primeiro passo” é a definição do tema. Se você está realmente para iniciar a sua pesquisa, esse tópico já deveria estar resolvido, não? Afinal, eu falei aqui sobre o projeto de pesquisa. E se você ainda está pensando se faz ou não faz um Mestrado, não deixe de ler o post que eu indiquei, os demais e, claro, esse.

O que você deve fazer em seguida é começar a ler muito sobre o assunto. Porque, veja bem, por mais original que a sua pesquisa seja, ela precisa se sustentar. E, para isso, você vai precisar da ajuda de pessoas mais experientes que você, que vão te ajudar a argumentar sobre as suas hipóteses e respostas encontradas.

Mas não leia tudo o que encontrar pela frente e pronto. Já vá separando aquilo que te chamar mais atenção, destaque trechos que podem ser úteis e, o melhor de tudo: reúna em um mesmo arquivo todas essas referências. Será o seu arquivo de consulta básica.

Este arquivo deve conter os trechos que você acha que pode vir a usar em sua pesquisa, completamente referenciados, porque na hora que você tiver perdido as contas de quantos textos já leu, não vai mais saber de onde tirou o quê. Um trecho completamente referenciado é aquele que indica de onde foi retirado (que livro ou texto), quem é o autor e em que página se encontra. O ideal é já colocar as demais informações que você precisará para fazer as referências segundo as normas da ABNT e, para te ajudar nisso, indico esse site aqui, que é uma mão na roda.

Se você já tiver costume de lidar com planilhas, fica ainda melhor organizar os trechos que você destacar. As colunas base dessa planilha são: assunto (para você já mais ou menos saber em que parte da pesquisa aquilo pode ser usado), trecho, como citar e referência bibliográfica completa (já de acordo com as normas da ABNT, porque aí depois é só copiar e colar).

Depois de conhecer bem o assunto que está pesquisando, você precisa de dados que corroborem — ou não, e isso não é um problema — com a sua tese. Esses dados podem ser de vários tipos: estatísticas, depoimentos, amostras… Tudo depende de come é a pesquisa que você está desenvolvendo.

No meu caso, por exemplo, eu elaborei um material didático e, para saber se ele funcionou ou não e o que poderia ser modificado, elaborei um questionário para os alunos e um para as professoras que usaram o material. Cada questionário tinha cerca de dez questões e as respostas me ajudaram a ter um bom panorama das informações que precisava.

Com os dados em mãos, precisamos dar ainda mais um passo: analisá-los. Você já pesquisou bastante sobre o assunto e já reuniu os seus próprios dados, falta somente compreendê-los e usá-los adequadamente em seu trabalho. Algumas pessoas montam tabelas e gráficos, para poder apresentar visualmente esses dados. Outras pessoas apenas os descrevem textualmente, sem a necessidade de outros aparatos.

Vocês se lembram que eu contei que coletei dados por meio de questionários, certo? Todas as perguntas desses questionários eram de resposta aberta e dissertativa. Na hora de analisar, portanto, eu li resposta por resposta e agrupei as mais parecidas, para também ter uma ideia quantitativa sobre algumas opiniões.

Para coletar e analisar os dados de sua pesquisa, portanto, não há uma fórmula mágica. Tudo depende muito do tipo de pesquisa e da área com a qual você está trabalhando. Mas uma boa dose de organização e de paciência para entender qual é a melhor forma de compreender seus dados e apresentá-los ao público serão essenciais para que você não acabe arrancando os próprios cabelos no meio do caminho! Procure sempre deixar à mão aquilo que lhe parecer mais útil e necessário à sua pesquisa, a fim de evitar momentos de preguiça na hora de escrever a dissertação, tema que abordarei em um post futuro.

Me poupe! — Nathalia Arcuri

Título: Me poupe! — 10 passos para nunca mais faltar dinheiro no seu bolso
Autora: Nathalia Arcuri
Editora: Sextante
Páginas: 176
Ano: 2018

Você, leitor acostumado a acompanhar esse blog, vai — apenas de início, porque vou explicar tudo aqui — estranhar o post de hoje.

Vamos começar por uma faceta minha que vocês provavelmente não conhecem: eu me preocupo com dinheiro. Isso porque, infelizmente, vivemos em uma sociedade em que praticamente tudo depende dele.

“Antes de comprar qualquer coisa ou pagar por um serviço, o que quer que fosse, eu me perguntava: ‘Será que existe um modo mais barato de ter/fazer isso?’ Em geral, existia”

Por outro lado, tive muita sorte na vida: além de crescer em uma família de leitores, cresci em uma família que sabe administrar o próprio dinheiro, que também se preocupa em ter uma reserva para o futuro e, o mais importante, que constrói e me ensina a construir a minha reserva desde que eu nasci.

“Ter dinheiro sobrando é bom, mas saber multiplicá-lo para realizar sonhos audaciosos é ainda melhor”

Isso tudo significa que ler esse livro foi uma experiência um tanto quanto… Interessante. A opção por fazer essa leitura foi minha (não estou escrevendo nada disso por ter parceria com a autora ou com a editora) e mesmo imaginando que encontraria muita coisa que eu ao menos fazia ideia, também imaginava que poderia encontrar algo de novo. E realmente encontrei, mas esse não será necessariamente o foco deste texto.

Para quem não sabe, a Nathalia Arcuri tem um Blog e um canal no youtube com o mesmo nome do livro que estou apresentando aqui. Eu mesma, confesso, nunca havia efetivamente acessado essas redes, apesar de já ter ouvido falar nelas. Mas aproveitei um dia de gratuidade do ebook e resolvi baixá-lo para ler.

O propósito da Nathalia é ensinar as pessoas a cuidar do próprio dinheiro, fazendo com que poupemos uma parte e, claro, façamos investimentos para que esse dinheiro poupado possa se multiplicar.

O trabalho dela é muito bem feito — confesso que não me aprofundei muito no Blog ou no canal, mas o livro é bem interessante, como eu disse lá no início — e, de certa forma importante. Mas ainda que ela diga que quer ajudar o maior número possível de brasileiros, sei que, lendo o que li, ela ainda está muito longe disse. E é muito fácil identificar isso pelo que ela conta no livro.

“Quando a gente tem um objetivo, poupar se torna muito mais fácil, racional e, sobretudo, estimulante”

Em primeiro lugar, ela vem de um lugar social muito parecido com o meu: uma família bem estruturada, informada. Isso já a coloca anos luz à frente de MUITOS brasileiros. Não bastasse isso, ela começou a se preocupar com dinheiro desde pequena, ainda que não tivesse uma poupança ou investimentos desde aquela época. Nem todas as famílias conseguem transmitir esses valores para seus filhos e sabemos como nos espelhamos demais em nossos pais nessas coisas.

Mas, o ponto crucial: quantos brasileiros sustentam uma família com menos de um salário mínimo? Mesmo que essa pessoa corte muitos gastos, faça milagres, não há magia que faça um salário mínimo ser suficiente para sobreviver e ainda investir para ter no futuro. Infelizmente.

“O essencial nada mais é do que a sua vida no presente”

A autora até já busca se precaver dessas pequenas críticas em seu texto. Mas a sua argumentação não me convenceu. As dicas dela podem ser aplicada por mim, por exemplo. Mas é muito claro que ainda somos uma pequena parcela da população brasileira.

Confesso que ler esse livro no atual momento também foi um mix doido de sensações aqui dentro. Os dias têm sido uma caixinha de surpresas e não consigo me ver aplicando as sugestões que a Nathalia dá, porque, para isso, você precisa ter uma ideia de quanto recebe no mês e, desde que comecei a trabalhar, ganhar de alguma forma meu próprio dinheiro, esse tem sido meu momento mais instável. Ainda estou em busca de formas de voltar a ter um salário e, enquanto isso não acontece, vou fazendo o que está ao meu alcance e adiando os planos que precisam ser adiados.

Uma das coisas que achei interessante, porém, é que desde o início do livro a Nathalia procura nos ajudar a acabar com uma doença que ela chama de “dinheirofobia”. Isto nada mais é do que o nosso medo de falar sobre dinheiro e de se preocupar de maneira saudável com ele. Sabe aquela vergonha de pedir um aumento, de enxergar que estamos afogados em dívidas? Tudo isso é dinheirofobia e, segundo a autora, o nosso primeiro grande empecilho para melhorarmos as nossas finanças. Ok, desse ponto eu já duvido um pouco, mas não 100%.

“Passo 1. Fale sobre dinheiro antes de o dinheiro faltar (e ele não vai faltar)”

Outro elemento que eu gostaria de destacar (afinal não vim aqui só criticar, mas sim trazer a minha opinião sincera) é a linguagem. O livro todo é como uma conversa com o leitor. Um diálogo super tranquilo, sem termos econômicos assustadores. Muito pelo contrário, aliás, a autora conseguiu me esclarecer algumas coisas básicas, mas muito úteis.

Por fim, eu gostaria de fechar essa resenha com um trecho que, ainda que fale sobre as nossas escolhas com relação ao nosso dinheiro e à nossa própria vida, também serve muito bem para o momento delicado que vivemos e que não podemos ignorar.

“O que não percebemos muitas vezes é que, ao não tomar uma atitude e permanecer na mesma situação, também estamos fazendo uma escolha”

Se você se interessou por esse livro, clique aqui.

As mil e uma noites — diário de leitura (1)

A vida às vezes nos traz alegrias e prazeres doidos, não é?

Eu adoro criar novas sessões por aqui e, confesso, estou empolgada com esta. Assim como estou empolgada com a leitura que ela apresentará e isso foi algo que me surpreendeu muito!

Não me recordo bem se foi em um aniversário ou num natal, e nem exatamente em que ano, só sei que um dia meu irmão me chega com uma belíssima edição de As mil e uma noites, da Editora Nova Fronteira. Sem brincadeira, é difícil não se apaixonar por tamanha beleza, viu?

Já se imaginou ganhando uma caixa com dois volumes (e que volumes… Cada um tem cerca de 500 páginas!) em capa dura e cores lindíssimas? Pois é, essa já é a impressão que essa edição passa, logo de cara. E basta uma folheada rápida para ver que a leitura será muito confortável, pois a fonte é boa, assim como o espaçamento e a qualidade do papel.

E, apesar de tudo isso… Enrolei para pegar esses livros. Porque, claro, eles assustam. Vejam bem, é uma edição lindíssima, mas enorme. Nada prática de sair carregando por aí. Sem contar que eu pensava que nunca conseguiria acabar de ler… Somados os dois volumes, temos exatas 1120 páginas!

Mas a quarentena nos faz repensar algumas coisas, não? Bem, no meu caso, sim. E lá no começo do ano eu me propus a ler 12 tipos de livros em 2020. Naquele momento eu não selecionei os títulos, não sirvo para fazer isso com muita antecedência, gosto de ler o que me der vontade; selecionei apenas alguns gêneros ou algumas características que gostaria de encontrar a cada mês em minhas leituras. E resolvi incluir ao menos um clássico.

E foi assim que, juntando esse desafio, com os livros encalhados na estante e o pensamento de que eu não preciso ter pressa e posso ler no meu tempo que, finalmente, resolvi pegar As mil e uma noites. E tem sido muito bom! Tem sido tão bom que, ao invés de fazer um comentário genérico lá na frente, quando eu terminar as 1120 páginas (e talvez não lembrar mais com detalhes das primeiras) que resolvi vir aqui toda semana contar um pouco do que li e das minhas impressões. Vocês embarcam comigo nessa viagem?

Como esse texto já ficou mais longo do que eu esperava, vou apenas comentar sobre algo que vem antes da história em si. Nesta edição da Nova Fronteira, temos uma apresentação que vem esclarecer e explicar muitas coisas que eu não sabia!

O texto que temos em mão é a tradução de uma versão d’As mil e uma noites original. É uma das primeiras versões, mas, ainda assim, já não é o texto original. E mais, essa versão, feita por um francês, cortou muito da história original (de fato, ela pega somente 1/4 da história original, segundo a apresentação desta edição), pois o autor considerava que, assim, o texto se tornaria mais agradável e aceito por seu público. Bem, o objetivo desse autor e tradutor francês, Antoine Galland (que também é apresentado no começo do livro) foi atingido, pois a obra tornou-se um grande sucesso não apenas na França, mas em toda a Europa. E, no final das contas, ela é traduzida até hoje.

Aliás, é importante dizer, apenas para concluir, que minha edição é de 2015 e foi traduzida por Alberto Diniz. E, como eu comentei mais acima, tem sido uma leitura bem fluida, o que significa que é uma tradução que, ao menos para mim, tem funcionado muito bem.

Se você se interessa pelo livro, pode encontrá-lo aqui.

Resumão — maio de 2020

O que eu andei aprontando por aqui em maio? Este é o momento de conferir tudo! Mas eu também quero saber o que vocês fizeram de bom esse mês. Me conta nos comentários?

Comecei o mês com uma TAG sobre mulheres na literatura, e foi super gostoso respondê-la. De conteúdos diferentes também falei sobre o que é a qualificação, no mestrado; trouxe alguns quotes do incrível Os guardiões dos livros e do igualmente maravilhoso Cadeados; apresentei os microcontos da Michelle Pereira; traduzi um artigo que fala sobre quando a escola nos faz odiar os clássicos; e, por fim, falei sobre a música Ideologia. Ufa!

Já as minhas resenhas foram:

Os livros lidos ao longo de maio foram exatamente os resenhados este mês, exceto “Quando a noite cai”, que li no final de abril. E, no momento, estou lendo:

  • Me poupe (Nathalia Arcuri)
  • Um mistério entre nós (Paula Barros)

A casa de vidro — Anna Fagundes Martino

Título: A casa de vidro
Autora: Anna Fagundes Martino
Editora: Dame Blanche
Páginas: 87
Ano: 2016

Sabe aquele livro que você termina de ler e se pergunta se realmente entendeu algo? Pois então, essa foi minha sensação com A casa de vidro. Não se trata de um texto muito rebuscado, mas bastante metafórico. Ao menos eu acho!

“Vocês têm uma obsessão por isso de normal”

A história é curta e, neste caso, isso talvez contribua para a dificuldade em entendê-la. É como se tivesse faltado algo para que o leitor pudesse realmente mergulhar no cenário proposto e entender o mundo criado pela autora. Não que seja um mundo totalmente novo também, pois uma parte dele é o nosso mundo: humano, com guerras e etiquetas, por vezes, difíceis de compreender.

“Esse mundo de vocês tem regras demais. Como vocês dão conta de lembrar de tudo?”

A casa de vidro nos apresenta Eleanor, uma jovem que vive com seu pai em uma casa cheia de empregados, e em cujo quintal há uma grande estufa — a tal casa de vidro — fruto de caprichos de seu genitor.

A vida de todos era pacata, até o aparecimento de um novo jardineiro, que passaria a se dedicar à estufa: Sebastian. Ninguém, além de Eleanor, pareceu se importar muito com o fato de que, depois que Sebastian passou a integrar o quadro de funcionários, a estufa ganhara muito mais vida, assim como a natureza ao redor dela. As pessoas só pareciam se importar, porém, com o fato dele ser “estranho”.

Até esse ponto é relativamente fácil acompanhar a narrativa, ainda que, desde o início, ela tenha saltos temporais, indicados já nos títulos dos capítulos. Mas depois de conhecer Sebastian, não é apenas a vida de Eleanor que muda. A nossa compreensão da história acaba sofrendo um pouco.

“Você diz uma coisa e sente outra o tempo todo”

Aos poucos vamos entendendo que Sebastian não é exatamente humano e, se essa é uma das raras coisas que realmente ficam claras ao longo da história, é igualmente evidente o quanto é esse personagem que nos faz refletir sobre a nossa existência neste mundo.

“E quando um humano fica triste, seu coração dói de tal forma… Que é como se fosse sólido como osso e tivesse se rachado. E aí dói”

Por outro lado, a figura de Eleanor também nos faz refletir: vivendo em uma época em que a figura feminina era totalmente dependente e submissa à figura masculina, Eleanor parece ser uma mulher diferente, uma mulher que enxerga todo seu poder e que mostra como, no fundo, as coisas não são exatamente o que parecem.

“Quando o marido morrer, também ela deixará de existir diante dos olhos do mundo”

Creio que há muito mais por trás das páginas deste curto livro do que aquilo que consegui compreender, mas isto é tudo o que tenho a apresentar a vocês.

Citações #31 — Cadeados

Citações #31

Depois de ler Cadeados, da autora brasileira Nuccia de Cicco, foram muitos os sentimentos que ainda ressoaram dentro de mim. Sentimentos, aliás, foi algo que comentei bastante na minha resenha desse livro, publicado pela editora The Books. Mas também foram muitos os trechos incríveis que destaquei durante a minha leitura, que, no entanto, tive de deixar de fora da resenha. Agora, porém, trago-os aqui, em mais um Citações!

“Fiquei tão preocupada em desvendar as sensações do mundo do silêncio que esqueci de todo o resto”

O primeiro sentimento sobre o qual falei em minha resenha foi a aflição, fruto do trágico acidente inicial.

“Chegava a ser incrível a capacidade que um ser humano tem para aguentar tanta porrada da vida”

Depois da aflição veio a agonia. Essa sensação me acompanhou por boa parte do livro, e por motivos diversos. Primeiro, pelo medo de se perder algo que estamos habituados a ter.

“Um dia você tem todos os sons. No seguinte, mais nada”

Agonia também por ver que quem poderia ajudar, precisava igualmente de ajuda.

“Um dia, Íris não aguentaria toda essa carga que sustentava sozinha”

E claro, agonia por ver uma pessoa tão jovem praticamente desistir de viver, mas sem desistir da vida (e, por mais contraditório que isso possa parecer, se você leu o livro, entenderá que faz sentido)

“Íris não me contou o que pretendia fazer, tampouco me perguntou o que eu achava. Confesso que não me importei. Tinha dor demais para lidar”

Essa tal agonia também se misturou com outro sentimento que se fez muito presente ao longo da leitura, a tristeza. Esta se deu, em grande medida, pela dureza de ver alguém se fechar em seu próprio mundo, mesmo tendo pessoas dispostas a mostrar que havia caminhos e soluções.

“Havia novos cadeados me prendendo dentro de mim mesma. Eu estava cercada de gente e totalmente só em um mundo exclusivo meu”

Mas foi triste também ver essa protagonista fechada não apenas em seu mundo, mas em seu quarto.

“Em algum lugar da minha mente, o mundo lá fora era sinônimo de caos, doença e desespero. As cores estavam desbotando em tudo e todos”

Mesmo sabendo que aquela não era a melhor saída.

“Meu quarto era meu refúgio e minha prisão”

Mas esse foi, também, um livro que me fez sentir alegria. Principalmente ao poder ver a protagonista se reerguendo.

“Sem o som, eu passei a ouvir com o tato e meus olhos”

E, depois de tudo o que mencionei, imagino que tenha ficado evidente o quanto pude aprender com essa história!

“Ninguém sabe encarar a própria dor e todos teimam em fazer isso sozinhos”

E o quanto eu imagino que pessoas diversas podem se identificar com ela, de alguma forma.

“De algum jeito, com todos os seus demônios, a vida continuava seguindo o rumo”

E também o quanto ficamos reflexivos depois.

“Não dá para superar algo do qual se sente falta todos os dias”

Em resumo, leiam Cadeados: o amor é a chave e conversem sobre esse livro!

“Para todo mundo, eu perdera apenas a audição. Para mim, perdera toda minha vida”

Ideologia — Cazuza

Ideologia - cazuza

Me lembro que, quando eu era pequena, me perguntava o que era ideologia e como se usava uma dessas para viver. Cheguei até a procurar no dicionário o sentido da palavra, mas fiquei tão confusa quanto antes.

ideologia
i·de·o·lo·gi·a

sf
1 FILOS Ciência que trata da formação das ideias.
2 Tratado das ideias de forma abstrata.
3 Conjunto de sistemas de valores sociais que reconhecem o poder econômico da classe dominante quanto à legitimidade dos ideais que refletem a ânsia por transformações radicais que dignifiquem a classe dominada ou o proletariado, segundo o marxismo e seus seguidores.
4 FILOS Doutrina que considera a sensação como fonte única dos nossos conhecimentos e único princípio das nossas faculdades.
5 Maneira de pensar que caracteriza um indivíduo ou um grupo de pessoas, um governo, um partido etc.
6 PEJ Conjunto de concepções abstratas que constituem mera análise ou discussão sem fundamento de ideias distorcidas da realidade.

Fonte: https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/ideologia/

Naquela época, recorrer ao dicionário de nada me adiantou porque, no fundo, eu também não entendia a música que me fizera conhecer tal palavra. E, para ser sincera, esta é a primeira vez que paro para realmente ler a letra e analisá-la… O que me faz ter de contar para vocês uma coisa interessante: descobri que, além de tudo, havia uma parte que eu cantava errada! Eu sempre cantei “Frequenta as festas do candomblé” (isso me parecia fazer muito sentido — e eu não sei porque eu acentuava de maneira fechada a palavra candomblé) e acabo de descobrir que o certo é “Frequenta as festas do Grand Monde” (coisa que eu jamais imaginaria, pois até instantes atrás eu sequer sabia o que era isso).

Ideologia foi composta em 1987 e lançada em 1988. O Brasil acabara de sair da ditadura (já tantas vezes mencionada nesta seção), mas as coisas ainda estavam longe de se tornarem boas. Soma-se a isso o fato de que, justamente em 1987, foi confirmado que Cazuza tinha AIDS. É nesse cenário que nasce essa canção, cheia de críticas, mas, principalmente, de desilusão — coisa que fica extramente clara nos primeiros versos. A música tem apenas três estrofes e consegue transmitir uma mensagem clara e forte.

O tal “Grand Monde” que o eu lírico passa a frequentar, segundo a canção, era uma balada LGBT frequentada pela alta sociedade da época. Isso significa que dizer que “Aquele garoto que ia mudar o mundo / Frequenta agora as festas do Grand Monde” nada mais é do que dizer que mesmo aquelas pessoas cheias de vontade e esperança de fazer a diferença, já não possuem tal força e se entregam ao sistema vigente, aos costumes daqueles que tanto criticavam.

Além disso, com seus heróis mortos por overdose — e aqui Cazuza provavelmente se refere a grandes artistas que literalmente morreram de overdose — e seus inimigos no poder, o eu lírico se sente perdido, tendo a necessidade de encontrar uma nova ideologia, uma nova forma de pensar com a qual ele se identifique e que lhe traga novas forças para lutar. Acho que quando eu era mais nova eu me fazia a pergunta errada: não deveria ser “como” mas “por que” se viveria com uma dessas?

A última estrofe da canção começa com um verso interessante. Como mencionei acima, Ideologia foi composta um pouco depois do cantor ter se descoberto soropositivo, mas seus fãs só vieram a saber disso por volta de 1989, ainda que, nesta canção, o autor já tenha falado sobre a doença de maneira sutil… E ao mesmo tempo nem tão sutil assim, porque são versos capazes de escandalizar os mais conservadores.

Meu partido
É um coração partido
E as ilusões estão todas perdidas
Os meus sonhos foram todos vendidos
Tão barato que eu nem acredito
Eu nem acredito ah
Que aquele garoto que ia mudar o mundo
Mudar o mundo
Frequenta agora as festas do “Grand Monde”

Meus heróis morreram de overdose
Eh, meus inimigos estão no poder
Ideologia
Eu quero uma pra viver
Ideologia
Eu quero uma pra viver

O meu tesão
Agora é risco de vida
Meu sex and drugs não tem nenhum rock ‘n’ roll
Eu vou pagar a conta do analista
Pra nunca mais ter que saber quem eu sou
Saber quem eu sou
Pois aquele garoto que ia mudar o mundo
Mudar o mundo
Agora assiste à tudo em cima do muro, em cima do muro

A bruxa não vai para a fogueira neste livro —Amanda Lovelace

Título: A bruxa não vai para a fogueira neste livro
Original: The witch doesn't burn in this one
Autora: Amanda Lovelace
Editora: Leya
Páginas: 208
Ano: 2018
Tradutora: Izabel Aleixo

a bruxa não vai

Depois de ler A princesa salva a si mesma neste livro, foi a vez de ler A bruxa não vai para a fogueira neste livro e não sei muito bem o que dizer sobre ele. Anteriormente, fiz minha ressalva com relação ao formato “poesia”, escolhido pela autora, ainda que os temas realmente fossem muito tocantes.

Neste volume, porém, sinto que o quesito poesia está um pouco melhor, mas as temáticas, ainda que importantes, não foram abordadas de maneira tão forte quanto anteriormente. Ou apenas eu que não consegui me conectar com a obra, não sei.

Me parece que em A bruxa não vai para a fogueira neste livro a autora se preocupou mais em seguir um certo fio narrativo, anunciado deste o título, isto é, a questão da mulher, vista por tantos homens como “bruxa”. Feminismo e empoderamento, portanto, aparecem com força, enquanto os homens, a cada página, são os grandes vilões. Interessante, mas repetitivo. E um pouco exagerado vez ou outra.

Quando digo que a poesia, neste livro, me parece melhor — como formato — estou me referindo ao fato de que a leitura fica mais fluida, com menos quebras estranhas. Além disso, há pedaços em prosa também. Mas neste ponto, a ausência de letras maiúsculas em praticamente tudo no livro salta aos olhos. Provavelmente uma escolha da autora. Mas uma escolha que não vem justificada ou explicada em parte alguma.

O projeto gráfico desta obra é bem interessante. Tudo nele é branco, vermelho ou preto. Logo de cara chama a atenção o fato de que todo o texto foi impresso em vermelho, como o sangue dos inocentes ou as chamas das fogueiras que somos incentivadas, ao longo das páginas, a acender. Os textos também, por vezes, trabalham a questão do uso da página, não estando sempre numa mesma posição. Trata-se, portanto, de uma obra bem atraente aos olhos.

 Por fim, gostaria de destacar uma poesia, provavelmente a que mais gostei dentre todas:

“ser uma

mulher

é estar

pronta para a guerra,

sabendo

que todas as probabilidades

estão

contra você

– e nunca desistir apesar disso

(pg. 49)
Se você se interessou por esse livro, clique aqui.