Destacando alguns aspectos — Diário de leitura (13)

Depois de um breve hiato, é hora de voltar com o meu diário de leitura de “As mil e uma noites” e, desta vez, com A história de Ganem, filho de Abu Airu, Escravo do Amor. E confesso que, escrevendo esse título, percebi que ele pode ser um pouco ambíguo, pois “Escravo do Amor” poderia referir-se à Ganem ou à Abu Airu. Lendo a história, porém, compreendo que refere-se à Ganem.

Essa é uma história, de uma forma ou de outra, muito parecida com algumas outras, mas não sei se pelos dias que fiquei afastada do livro ou se pela forma da narrativa mesmo, consegui detectar claramente dois traços culturais interessantes. Antes disso, porém, gostaria de destacar essa passagem, que ainda hoje nos serve tão bem:

“Apressou o passo para chegar mais depressa, mas como acontece frequentemente, quanto mais pressa se tem tanto menos se avança, tomou um caminho pelo outro e perdeu-se na escuridão, de modo que já era quase meia-noite quando chegou à porta da cidade”

Isso é o que hoje chamaríamos de Lei de Murphy. É interessante ver esse tipo de pensamento já numa história tão antiga quanto As mil e uma noites. Mas passemos aos traços culturais que mais pude notar nesta narrativa.

Outro dia, meu namorado me ensinou que, na cultura do Oriente Médio, coisas importantes não podem ser ditas em pé, porque essas coisas não podem ser ditas com pressa, já que, sendo importantes, precisamos refletir sobre elas. Quando ele me disse isso, pensei já ter visto algo do tipo em As mil e uma noites, mas não tinha nenhum exemplo concreto em mente. Nesta história, porém, isto apareceu novamente:

“Ele queria permanecer de pé, mas ela respondeu que não tocaria em nada se ele não se sentasse e comesse também”

Tendo esse conhecimento que meu namorado me transmitiu, uma frase que poderia não significar grande coisa, adquire todo um novo sentido. E isso, uma vez mais, me faz pensar em quanta coisa provavelmente foi passando ao longo da leitura, ainda que tantas outras me tenham feito pensar.

Porém, nessa mesma história, em duas ocasiões ocorre algo que eu ainda não sei o real significado, mas que me parece importante também: para demonstrar que determinada ordem do Califa será cumprida, seus súditos colocam a mão (ou uma carta, no caso de um deles) sobre a cabeça, como uma forma de “jurar” o cumprimento das ordens dadas. Alguém conhece o significado desse gesto na cultura oriental?

Para pensar sobre outras culturas — Diário de leitura (12)

Como eu comentei em meu último diário de leitura, agora não há mais a interrupção da narrativa a cada noite, e também já não é mais possível acompanhar em que noite da história nos encontramos.

Ainda assim, a história que venho comentar hoje, “A história de Beder, príncipe da Pérsia, e de Sahara, princesa do reino de Samandal”, era relativamente longa e, por isso, foi dividida em duas partes. Em minha opinião, achei a divisão desnecessária. Continuou sendo um longo “capítulo” que, por diversas vezes, interrompi no meio da leitura.

A história em sim, porém, foi mais uma narrativa capaz de prender o leitor. Era difícil escolher o momento de interromper a leitura, pois eu sempre queria saber o que viria a seguir. E olha que há muitos elementos já presentes em outras narrativas desta obra, como um casal que passa por mil desventuras até chegar ao final feliz, humanos transformados em animais, lutas entre reinos.

Logo no início, contudo, uma questão me deixou pensativa e é daí que vem o título do diário de hoje. Não quero fazer qualquer julgamento aqui, pois sei que estou me referindo a uma cultura muito diferente da minha (e sobre a qual continuo não sendo grande conhecedora), mas chamou-me a atenção que, de início, esta era uma narrativa sobre um rei que “apesar das mil mulheres”, não teve um filho para dar continuidade a seu reinado.

“Só num ponto se julgava infeliz: estar muito idoso e de todas as suas mulheres não haver uma só que lhe tivesse dado um príncipe que lhe sucedesse após a sua morte. No entanto, possuía mais de cem, todas acomodadas magnífica e separadamente, com escravas para servi-las e eunucos para guardá-las”

E bem, pensando aqui comigo, se de 100 mulheres, nenhuma lhe deu filhos, talvez o problema não fossem as mulheres… Mas não pude deixar de achar “engraçado” esse pensamento de que nem mesmo com tudo do bom e do melhor, o rei pode ter um filho. A prepotência dele, por assim dizer, também fica clara em outra passagem, um pouco mais adiante:

“Por que ficas tão silenciosa? De onde vem essa frieza, essa tristeza que te aflige? Lastimas teus pais, teus amigos? Mas então um rei da Pérsia, que te ama, que te adora, não é capaz de fazer-te esquecer tudo no mundo?”

O mais curioso de tudo isso, porém, é que a história flui. Eu tive certa estranheza com esses pontos, apenas de início, mas tudo segue tão naturalmente que acabamos não sentido nada de negativo com relação a esse rei. Muito pelo contrário, aliás, pois ressalta-se a sua bondade e lealdade que qualquer outra coisa. Para ser sincera, eu até mesmo havia me esquecido desse início… E aí, relendo agora, fico pensando como ele havia dito que era velho, mas, no final das contas, teve o filho que tanto desejava e ainda foi capaz de vê-lo crescer.

Mas faz sentido que a história seja assim e, principalmente, que o modo de se comportar deste rei não nos cause repulsa. É uma outra cultura e eram também, outros tempos. E é por isso que tem sido tão interessante fazer esse mergulho pelas “Mil e uma noites”.

Mudanças na estrutura da obra — Diário de leitura (11)

Depois das narrativas apresentadas em meu último diário de leitura, dei início à História de Nuredin e da Formosa Persa. Logo de cara, porém, um baque: deste ponto em diante não há mais a interrupção a cada noite, isto é, os “capítulos” do livro, agora, são formados por cada uma das narrativas de maneira completa, o que significa que são capítulos mais extensos.

Eu, particularmente, não gostei muito deste novo formato pois, como dito acima, os capítulos ficam mais extensos, mas também porque as interrupções a cada novo amanhecer me instigavam a continuar a leitura. Era aquela coisa de “só mais um capítulo”, porque geralmente isso significava só mais algumas páginas. Agora não, agora sinto que tenho de me dedicar à história inteira de uma vez e isso, por vezes, dá uma certa preguiça…

Esse formato, também, me faz pensar se, daqui para frente, haverá menos narrativas dentro das outras narrativas, como acontecia anteriormente. Na história de agora, por exemplo, foi assim. Havia, ali, apenas a história de Nuredin e da Formosa Persa.

Não que tenha sido uma história sem graça, muito pelo contrário. Trata-se de uma narrativa no estilo de outras que já li nesta obra, com idas e vindas e com passagens que nos fazem pensar “não é possível, isso não pode acontecer”. E, uma vez mais, o amor se faz presente, nos mostrando, também, muitos costumes da época ou da cultura oriental.

Um dos pontos que mais me chamou a atenção, porém, foi uma passagem sobre a confiança. Sobre como, desde sempre, muitas relações são baseadas no interesse e que, quando não temos mais nada a oferecer ao outro, ele nos dá as costas.

“Reconheceu, então, o erro irreparável de ter confiado tão facilmente nos falsos amigos e nos seus protestos de amizade, enquanto lhes oferecia banquetes suntuosos e os cumulava de benefícios”

Imagino que essa passagem mesmo seja uma crítica a esse comportamento e é uma pena ver que, passam-se anos e anos e algumas coisas não mudam.

Das reviravoltas — Diário de leitura (10)

Como eu disse em meu diário anterior, chegando ao final do primeiro volume de As mil e uma noites, iniciei a leitura de mais uma história de amor. Trata-se de uma narrativa longa, que durou da noite 211 até a 236.

Compõem esse arco as seguintes narrativas:

  • A história dos amores de Camaralzaman, príncipe da ilha dos filhos de Kaledan, e de Badura, princesa da China;
  • A história de Marzavan, com o prosseguimento da história de Camaralzaman;
  • Separação do príncipe e da princesa de Badura;
  • A história da princesa Badura após a separação do príncipe Camaralzaman;
  • Continuação da história do príncipe Camaralzaman desde a sua separação da princesa Badura;
  • A história dos príncipes Amdjad e Assad;
  • A prisão do príncipe Assad ao entrar na Cidade dos Magos;
  • A história do príncipe Amdjad e de uma dama da Cidade dos Magos;
  • Continuação da história do príncipe Assad.

São muitos encontros e desencontros aqui, bem como muitos momentos tensos. Eu diria até angustiantes. Foi uma história que me prendeu bastante e que dava vontade de saber o que viria a seguir. E o final é daqueles que você fica “aaaah, não acredito, que final incrível!”.

Começamos conhecendo dois jovens que, cada um em seu reino, precisam se tornar rei e rainha, e que, portanto, precisam se casar. Seus pais, porém, querem lhes dar a liberdade de escolher o par perfeito, mas esses jovens são bem exigentes…

Em tese, eles nunca viriam a se conhecer, mas alguns seres mágicos, para satisfazer seus próprios desejos, acabam por aproximá-los… E igualmente separá-los. E é neste ponto que as coisas começam a ganhar mais emoção.

Mas não para por aí não. Toda vez que achamos que as coisas estão se resolvendo, uma nova reviravolta ocorre. O próprio título “Separação do príncipe e da princesa de Badura” já nos dá uma ideia disso. Lembro-me que quando vi tal nome fiquei chocada. Como assim, depois de tanto trabalho para ficarem juntos, eles se separaram? Mas claro, as coisas não são tão simples assim… Até princesa se travestindo de príncipe tem nessa história toda (o que me fez pensar em Mulan também).

Mas… Se lá no primeiro diário eu super elogiei a minha edição desta obra, agora venho trazer uma pequena decepção: a editora provavelmente quis fazer dois volumes de tamanho praticamente iguais e, para isso, teve de colocar uma parte dessas narrativas que acabei de apresentar no primeiro volume, e uma parte no segundo. A divisão, assim, ficou um pouco abrupta. Achei que seria melhor ter deixado todo um arco no mesmo volume. Mas isso pode ter sido uma estratégia também, para nos fazer continuar, da mesma maneira que a Sherazade faz…

Como vocês devem ter percebido, portanto, terminei o primeiro volume de As mil e uma noites! E dando uma fuçadinha aqui, já vi que terei algo para comentar (talvez reclamar, de novo) no próximo diário, sobre esse segundo volume…

Histórias de amor — Diário de leitura (9)

Em meu último diário de leitura de As mil e uma noites, comentei que havia começado a leitura de uma história que parecia prometer. Isso porque, desde o início, notei que era uma narrativa de amor como até então eu não havia visto nesta obra. Algo diferente do que vinha aparecendo, mais forte e profundo.

Com efeito, a História de Abul-Hassan Ali Ebn Becar e de Chemselnihar, favorita do Califa Harun al-Rashid — que dura das noites 185 até a 210 — é bem intensa, nos apresentando um amor proibido, quase num estilo Romeu e Julieta (olha eu comparando ocidente e oriente de novo).

E, no meio dessa narrativa, é inserido um novo tipo textual: a carta, meio de comunicação entre os protagonistas. É importante destacar isso porque As mil e uma noites, além de ser uma obra coletiva (sim, ela não foi construída por narrativas de um único autor) é uma obra com diversos gêneros que, ao longos das traduções e adaptações, foram se perdendo. Hoje, temos acesso, a uma grande parte narrativa, mas As mil e uma noites é composta por poesias, cartas, bilhetes…

Estou chegando perto do final do primeiro volume da edição que tenho. A história que ainda está se desenrolando também é de amor, mas com a intervenção de criaturas mágicas, algo já um pouco mais próximo do que havia aparecido anteriormente.

Será que conseguirei falar sobre a conclusão desse primeiro volume justamente no 10º diário de leitura? Espero que sim! E veremos o que me aguarda no segundo (e último) volume. Vocês estão gostando dessa série de posts?

Fechando histórias abertas — Diário de leitura (8)

Finalmente li a história dos seis irmãos do barbeiro e, consequentemente, cheguei ao final de dois arcos narrativos que estavam pendentes em minhas leituras de As mil e uma noites. Mas vamos por partes, certo?

Em meu último diário de leitura, eu parei por volta da 167º noite, que é quando começa A história do primeiro irmão do barbeiro. E essa narrativa seguem:

  • A história do segundo irmão do barbeiro
  • A história do terceiro irmão do barbeiro
  • A história do quarto irmão do barbeiro
  • A história do quinto irmão do barbeiro
  • A história do sexto irmão do barbeiro

Nenhuma dessas narrativas é fácil de ler, pois todos esses irmãos sofreram com algo. E, para piorar, as histórias são contadas para divertir o Sultão que as escutava. Porém, não bastassem ser histórias tristes, a do quinto irmão do barbeiro me incomodou profundamente de início, pois ele sonhava em se casar com uma mulher que deveria ser extremamente submissa e que, ainda assim, ele pretendia ignorar e fazer sofrer.

Eu estava indignada lendo esse trecho, ainda que ele fosse apenas um sonho distante para tal homem, e fiquei muito aliviada quando um acontecimento o tirou desses pensamentos horríveis e, mais ainda, fiquei feliz, confesso, por ver outro homem rindo do infortúnio, considerando-o “bem feito” diante dos pensamentos do irmão do barbeiro.

Ao terminar de ouvir essas histórias, o Sultão de Casgar, que as escutava para decidir se eram tão boas quanto as histórias do seu falecido corcunda, fica satisfeito e decide não mais condenar à morte aqueles que se haviam apresentado como culpados pelo falecimento do tal. Neste ponto, já estamos na 183º noite e ainda há mais um episódio interessantíssimo deste arco narrativo, contado no dia seguinte, quando finalmente chegamos ao final destas narrativas.

“A sultana Sherazade terminou assim essa longa série de aventuras às quais a suposta morte do corcunda dera origem” (p. 416)

Eu estou aqui falando de fim e parece que eu cheguei ao final do livro, mas não! Falta muito ainda. Provavelmente até dezembro vocês ainda vão me ouvir falar de As mil e uma noites. O que será que vem por aí? Já engatei em mais uma história que promete…

A repetição em “As mil e uma noites” — Diário de leitura (5)

Voltando às minhas leituras de As mil e uma noites, na 69º noite, Sherazade dá início às narrativas de Simbá, e elas se estendem até a 90º noite. As histórias deste ciclo são:

  • A história de Simbá, o marinheiro
  • A primeira viagem de Simbá, o marinheiro
  • A segunda viagem de Simbá, o marinheiro
  • A terceira viagem de Simbá, o marinheiro
  • A quarta viagem de Simbá, o marinheiro
  • A quinta viagem de Simbá, o marinheiro
  • A sexta viagem de Simbá, o marinheiro
  • A sétima e última viagem de Simbá, o marinheiro

Confesso que quando cheguei na quinta viagem de Simbá eu já estava “ah, não, de novo não!”. Não que as histórias sejam tão repetitivas quanto os títulos que acabo de apresentar, mas há um “quê” semelhante entre uma e outra: são narrativas cheias de surrealismo.

Simbá, em cada uma de suas viagens, se depara, em algum momento, com uma quase morte (sim, a morte novamente presente aqui) e, de alguma forma, se sai bem de todas as situações, conseguindo, inclusive, inúmeras riquezas a cada retorno bem sucedido.

E a cada retorno, Simbá diz que não irá mais se aventurar pelos mares, que irá desfrutar de suas riquezas em segurança, com a família. Mas sempre surge uma nova aventura que ele não consegue recusar e assim se vão as sete viagens narradas por ele.

Todos esses acontecimentos me fizeram pensar sobre a presença do maravilhoso em As mil e uma noites. “Maravilhoso” e “fantástico”, dois gêneros literários que se confundem, o que me lembra que eu também estava com vontade de trazer para vocês posts sobre isso, né? Ainda não desisti, mas percebi que preciso estudar e revisar muitas coisas antes. E quem sabe essa leitura de As mil e uma noites não me ajude também!

Outra coisa que não posso deixar de mencionar é que, na 70º noite, há uma nota: dali em diante não haverá mais, constantemente, as palavras da irmã de Sherazade, pedindo que ela continue a história do dia anterior. Segundo a nota que explica isso, Antoine Galland suprimiu essas passagens de sua tradução pois elas haviam “chocado” o público da época. “Chocado” é o termo que o próprio tradutor utiliza em sua nota, mas creio que seja mais uma questão de incômodo, como eu fiquei incomodada com a “repetição” nas histórias de Simbá.

Efetivamente, a partir desse trecho, a passagem de uma noite a outra é muito mais direta, sem grandes falas ou explicações, entrando quase que diretamente na continuação das narrativas de Sherazade.

Depois das 8 histórias de Simbá, temos “As três maçãs” (contada entre as noites 90 e 92) e “A história da jovem trucidada e do seu jovem marido” (contada entre as noites 92 e 93), duas narrativas interligadas e que levam a outra, de grande extensão, que comentarei somente no próximo post, pois ainda estou lendo.

Quantas coisas podemos aprender? — Diário de leitura (4)

Durantes as noites 28 e 69 d’As mil e uma noites, estive mergulhada em uma longa história que se desdobrou em várias narrativas menores. Observar a construção desse quadro foi muito interessante e espero conseguir compartilhar um pouco disso com vocês.

É preciso, antes de mais nada, ressaltar que a primeira narrativa recebe o segundo título: A história dos três calândares, filhos de rei, e das cinco damas de Bagdá. Só por aí já poderíamos imaginar que o desdobramento dela seria longo, uma vez que cada um desses personagens — e temos oito mencionados acima — poderia ter a sua própria história.

No caso das cinco damas, porém, não chegamos a ler uma história para cada, mas, ao longo da narrativa, também surgem outros personagens, então não é de se espantar que esse conjunto se estenda por tantos dias seguidos.

“Sherazade preparava-se para continuar a sua história, mas percebendo que era dia, calou-se. A qualidade dos novos atores que ela acaba de introduzir na cena aguçou a curiosidade de Shahriar, que certo de que sucederiam coisas singulares, aguardou com paciência a noite seguinte”

Os títulos que compõem esse arco, além do já mencionado acima, são:

  • A história do primeiro calândar, filho do rei
  • A história do segundo calândar, filho do rei
  • A história do invejoso e do invejado
  • A história do terceiro calândar, filho do rei
  • A história de Zobeida
  • A história de Amina

É uma história mais interessante que a outra, sem dúvidas. Mas me chamou a atenção um pedaço da narrativa de Zobeida que, em um dado momento, conta sobre chegar a uma cidade em que todas as pessoas estavam petrificadas. Elas encontravam-se assim devido a alguma espécie de maldição, mas não pude deixar de lembrar de Pompeia, cidade italiana que foi tragada pela lava do Vesúvio, matando muitos moradores petrificados após o resfriamento desta.

Também não posso deixar de comentar a seguinte passagem:

“Respondi-lhe que era gramático, poeta e, sobretudo, que sabia escrever perfeitamente bem. Com tudo quanto acabastes de dizer, disse-me, não ganhareis neste país o suficiente para um simples pedaço de pão; aqui nada é mais inútil do que qualquer desses conhecimentos”

Ouvir que conhecimentos linguísticos e poesia são conhecimentos inúteis é algo comum até os dias de hoje, mas ver isso estampado em uma história que representa justamente o poder que as narrativas têm de salvar vidas (coisa que já comentei melhor aqui) é assustador. Passam-se os anos — afinal, As mil e uma noites foi escrita tanto tempo atrás — e não evoluímos nossas crenças…

Outra coisa que tem chamado minha atenção, não apenas nas histórias aqui mencionadas, mas também em tantas outras anteriormente lidas: a quantidade de narrativas que apresentam humanos transformados em animais e vice-versa. Essa é uma característica que talvez valesse a pena uma pesquisa um pouco mais aprofundada, pois certamente há muito da cultura local e da época por trás disso. Inclusive, se alguém tiver algum conhecimento relacionado a isso, não deixe de compartilhar aqui, porque, confesso, sou uma negação em saberes relacionados à cultura oriental.

A curiosidade matou o gato? — Diário de leitura (3)

Antes de explicar o título desse post, preciso contar uma coisa para vocês: quando eu conhecia As mil e uma noites só de ouvir falar (isto é, antes de efetivamente pegar esse livro e ler) eu achava que a Sherazade contava as histórias no momento em que ela e o rei iam se deitar e que ele pegava no sono e, por isso, na noite seguinte ela continuava as histórias. Algo não tão absurdo assim se pensarmos que essa coisa de contar histórias para os filhos dormirem é normal no ocidente. Esse livro, porém, não vem de uma cultura ocidental…

Logo de início, portanto, fui surpreendida: todas as manhãs, antes do sol efetivamente raiar, a irmã de Sherazade, que dorme ao lado do rei e da rainha, acorda a irmã e pede para que ela continue a história iniciada na manhã anterior e Sherazade conta, mas, quando vê que o dia já raiou, interrompe a narrativa, lembrando a Shahriar que ele precisa ir cumprir seus deveres de rei, e ele se levanta com a pulga atrás da orelha, curioso para ouvir mais.

Faz muito sentido que seja assim: talvez, se Sherazade contasse as histórias de noite, o rei, na manhã seguinte, já teria perdido parte do entusiasmo por saber mais e acabaria ordenando que matassem sua esposa, dando fim ao plano de nossa protagonista.

Dentre as narrativas que li recentemente, estão “A história do marido e do papagaio”, que foi contada entre as 14º e 15º noites, “A história do vizir punido” (esta um pouco mais longa, durando até a 22º noite) e “A história do jovem rei das ilhas negras” (contada até a 27º noite). Não posso deixar de mencionar que gostei muito de “A história do marido e do papagaio”. De uma forma ou de outra ela foi bem reinventada e repaginada ao longo dos anos, e ainda faz parte de nosso repertório, sendo a base de inúmeras histórias que conhecemos de lições de moral para maridos que não confiam em suas esposas.

Mas o que realmente comecei a pensar lendo essas histórias (e algumas das seguintes, que ainda não mencionarei aqui porque a ligação entre elas não chegou a um fim muito claro) é que, em muitas delas, aparece a questão da curiosidade.

Em diversas narrativas, o personagem principal sofre — ou até mesmo morre — devido à sua curiosidade. Por outro lado, Sherazade só sobrevive porque a curiosidade de Shahriar o impede de matá-la. E é daí que vem o título deste post: afinal, a curiosidade matou o gato? Em alguns casos sim, em outros não. Por quanto tempo, ainda, Sherazade ficará viva graças à essa qualidade?

Contar histórias salva vidas? — diário de leitura (2)

Depois da introdução existente na edição da Nova Fronteira, finalmente podemos mergulhar na história d’As mil e uma noites. E quando ouvimos falar nesta obra, logo pensamos em Sherazade contando uma história após a outra para adiar a sua morte e, consequentemente, salvar a de tantas outras mulheres, certo? Mas, evidentemente, o livro não começa por aí (e, aliás, esse momento, na minha edição, só chega lá na página 47).

Primeiro precisamos entender quando um certo rei — Shahriar — decide que a cada dia se casará com uma nova mulher que, no dia seguinte, será assassinada, evitando assim que se repita o que sua primeira esposa havia feito: traí-lo.

“Aquela desumanidade sem precedentes causou consternação geral na cidade, onde só se ouvia gritos e lamentações.

É interessante destacar esse trecho, pois é a tomada dessa decisão que faz com que todo o resto da obra exista. Porém, trata-se de uma ação cruel, fruto de um coração partido. O que nos leva a refletir sobre como um coração que sofre pode vir a tentar causar o mesmo sofrimento a outros corações. E faz isso de maneira irracional.

A reflexão acima, no entanto, me faz pensar em outra, ainda relacionada à história: um coração ferido, foi capaz de gerar muito mal à uma sociedade. E um bom coração foi capaz de encontrar uma cura para esse mal. Uma lição que aparece das mais diversas formas em tantas histórias que lemos até hoje e também algo para levarmos para a vida.

Ainda antes das histórias de Sherazade, ainda temos uma fábula contada por seu pai, no intuito de tentar dissuadi-la da ideia de se apresentar como próxima esposa do rei Shahriar. Tal história chama-se “A fábula do burro, do boi e do lavrador” e não foi suficiente para demover Sherazade de seu propósito. E é assim que, finalmente, podemos mergulhar em suas histórias.

A primeira delas é “O mercador e o gênio”, e é contada da primeira até a quarta noite, quando se inicia “A história do primeiro ancião e a da corsa”. Como se pode imaginar, essa segunda história é como uma narrativa menor dentro da primeira (que por sua vez, já é uma narrativa menor dentro da obra). E ela é acompanhada, ainda, de “A história do segundo ancião e dos dois cães negros”, contada entre às sexta e oitava noites.

Porém, nem sempre uma história é apenas uma história menor dentro de outra. Sherazade consegue encontrar outras formas de ligar uma história na outra, de modo que o rei não perca o interesse em suas narrativas e, assim, adie a sua morte. Isso acontece, por exemplo, na 8º noite quando, terminada a história do segundo ancião, mas ainda com tempo sobrando, Sherazade dá início à “História do pescador”, que passará a englobar outras narrativas, como a “História do rei grego e do médico Dubã”, que dura até a 14º noite.

Um elemento que tenho sentido muito presente nas histórias até aqui é a questão da morte. Sempre há alguém que morre ou deve morrer por algo. Mas também há algo que aparece logo nas primeiras histórias e que não deixa de ser uma das grandes molduras desta obra: o fato de que contar histórias pode nos salvar. Contar histórias salva vidas. Deixo esses pontos aqui, para ver o que acontece até o final do livro…