O segredo de Susan — Maicon Moura

Título: O segredo de Susan 
Autor: Maicon Moura 
Editora: Publicação independente 
Páginas: 140 
Ano: 2022

Acho que dificilmente alguém não se interessa pela palavra segredo no título de um livro, afinal, são muitas as possibilidades narrativas a partir dessa simples junção de letras, não é mesmo?

Uma vez mais, o autor Maicon Moura soube fazer um bom uso dos recursos narrativos à sua disposição, construindo uma história que não apenas gira em torno de um mistério interessante, mas que também nos coloca para refletir sobre alguns elementos que nos rodeiam.

“Se isso fosse um romance, isso tudo pareceria loucura”

Como podemos imaginar, pelo título, Susan é a protagonista desta obra. Aos 12 anos (ou 11, se quisermos ser mais exatos), a pequena Susan Ernesto foi sequestrada e passou os seus 12 anos seguintes em cativeiro.

“Os hematomas em meus braços lembram aquilo que vivi”

Assim, a história se passa em dois momentos: os anos do sequestro e o presente. A obra inclusive começa no momento em que Susan chega à delegacia, após finalmente fugir do cativeiro.

“— Deve ter sido horrível ficar doze anos presa — ele diz. — Imagino como deve ter sido. 

Penso em todos que me falaram isso, imagino qual seja a fantasia que querem realizar”

O que chama a atenção, logo de cara, são as críticas que o autor vai inserindo de maneira natural, dando coesão e peso à história.

“Você lê o jornal e percebe como o sujeito que escreveu aquilo sabe como é viver em um cativeiro”

As críticas, porém, não são direcionadas a um único assunto e, se por um lado, isso faz com que o autor não se aprofunde em nenhuma das questões apontadas, por outro lado, isso dá ainda mais sentido à história como um todo.

“No mundo você precisa mudar para sobreviver”

De início, como eu disse, acompanhamos Susan voltando à sociedade e vivendo toda a fama que o cativeiro acabou gerando para ela, que se torna uma influencer conhecidíssima e disputadíssima.

Nas revistas, eles pensam que todo mundo é igual”

Alternadamente, vemos flashes do sequestro muito bem inseridos ali, mesmo quando parecem ser apenas episódio aleatórios e soltos. Isso nos faz entender a história de Susan e nos aproxima da protagonista.

Mas o ponto alto da história é que Susan se perde em seu personagem e com a aparição de Marvin nós também acabamos por nos perder. Mas não de uma maneira ruim!

“Quem sou eu? Essa é uma pergunta difícil, considerando a filosofia por trás disso tudo. Estamos presos em pessoas que falaram quem somos” 

A verdade é que já vivemos perdidos: em um mundo feito de aparências — e das aparências que queremos mostrar — é difícil saber quem cada um é de verdade. E, ao mesmo tempo, é muito fácil acreditar em qualquer um e se deixar levar pelos discursos de quem tem coragem de se impor.

O final dessa narrativa mostra justamente isso: como as pessoas — nós inclusive — se deixam levar e como isso pode trazer muitas consequências. Como é preciso que tenhamos calma no momento de processar as informações que recebemos e, principalmente, de julgarmos os outros ou darmos voz a qualquer um.

“E terão pessoas que vão duvidar de você. Que não vão acreditar no quão forte você é. Essas pessoas são as que você menos espera”

Geralmente eu tenho dificuldade de relacionar uma leitura com outra que eu já tenha feito, mas ao longo das páginas de O segredo de Susan, por diversas vezes, me lembrei de Luigi Pirandello, um autor clássico italiano que eu gosto muito. Ao final desta obra brasileira, tive ainda mais certeza da proximidade entre os escritos desses autores, mesmo que Maicon nunca tenha lido Pirandello.

Se você já leu Pirandello e duvida do que eu estou falando, leia O segredo de Susan. Se você nunca leu Pirandello, mas entendeu que temos aqui uma obra incrível para ler, baixe O segredo de Susan. E se você ainda está em dúvida… Bom, está esperando o quê para já garantir o seu exemplar e se apaixonar por essa história também?

Algumas considerações sobre grupos de leitura [tradução 24]

Imersa no segmento literário das redes sociais, muitas foram as vezes que vi chamadas para leituras coletivas e clubes de leitura. Nunca tive coragem, porém, de me aventurar nesses universos.

Reconheço, contudo, que essas práticas têm muito a agregar e trazem inúmeros benefícios a seus participantes e, por isso, hoje resolvi trazer a tradução de um artigo que fala justamente sobre essa temática.

O texto original foi escrito por Morgan Palmas, em 30/10/2009, no site Sul Romanzo, e você pode conferi-lo aqui. Apesar de publicado há anos, é impressionante como ele continua atual e certeiro.


Na Itália, a prática da leitura está em declínio, como se sabe, mas, por outro lado — ou talvez justamente por isso — percebe-se, por parte de quem lê habitualmente, uma forte necessidade de encontrar-se e dividi-la. Porque essa categoria de pessoa existe e é bem presente, mesmo que rara: cada biblioteca ou livraria tem os seus habitués, talvez apenas um ou dois, mas eles são muito presentes, amam os livros e amam falar de livros.

Na esteira de um hábito difundido principalmente em países anglófanos e hispânicos, estão espalhando-se entre nós, então, aqueles que são chamados Grupos de Leitura.

Moda? Imitação?

Claro, às vezes o pontapé inicial para a criação de um grupo também pode ser esse, mas muitas vezes reunir-se é uma necessidade real dos indivíduos para compartilhar interesses e paixões

Mas o que é um Grupo de Leitura?

É uma ponte entre a leitura individual e aquela coletiva.

No primeiro caso temos um leitor sozinho consigo mesmo e o seu livro em uma leitura silenciosa e íntima. No segundo, uma ou mais pessoas que se alternam lendo em voz alta um texto para os outros.

No Grupo de Leitura, “mais pessoas leem ao mesmo tempo um livro” (para usar uma definição agora consolidada) e depois se reúnem para discutir, juntas, sensações e problemáticas que ele provocou nelas.

O objetivo é justamente aprofundar e enriquecer-se mutuamente em uma análise de leitura não imposta (como pode acabar sendo uma palestra crítica ou mesmo uma leitura coletiva), mas elaborada pelo indivíduo e desenvolvida na pluralidade.

Aquilo que move as pessoas a juntar-se, além disso, é o interesse pela leitura em si, não circunscrita a um único texto ou livro.

Mas onde e quando se reúne um Grupo de Leitura?

Não há a necessidade de sedes especiais: na prática, basta um cômodo tranquilo com um círculo de cadeiras, de modo que todos possam olhar-se cara a cara. Geralmente quem patrocina ou propõe a iniciativa é uma Biblioteca ou uma Livraria, mas também conheço Grupos de Leitura que se encontram em Círculos Culturais ou Associações várias. Não é o lugar que cria o grupo, mas a vontade de se encontrar. No verão, uma solução simpática pode ser um jardim ou um quintal sombreado.

O único requisito é a vontade e a disponibilidade para ouvir e compartilhar.

A frequência (semanal, mensal ou qual for) é decidida pelo grupo mesmo, conforme os tempos e as exigências dos participantes.

Que regras deve ter um Grupo de Leitura?

No âmbito inglês foi elaborado um regulamento muito rígido, mas, pessoalmente, acho isso um pouco limitante. Acho que para além das regras comuns da boa educação, depende do grupo se autodeterminar as regras adequadas ao próprio caso.

De maneira geral, vale aquela (bem óbvia) de que só quem leu o livro pode pedir a palavra, mas as perguntas ou intervenções mesmo de quem não leu podem ser escutadas, principalmente quando se abordam temas mais gerais retirados da leitura.

Um coordenador pode ser útil, sobretudo no começo, e para fazer e atualizar a lista dos participantes (caso desejem fazê-la para simplificar as eventuais comunicações entre um encontro e outro) e gerenciar as questões práticas relacionadas, por exemplo, ao local. O importante é que a pessoa tenha a capacidade de permanecer no círculo, de ser justo com os outros, sem abuso e sem firmar-se como centro da reunião, caso contrário tudo descamba em uma exposição passiva, não em uma participação coral.

É importante lembrar que cada grupo é um mundo em si, em contínua evolução, depende somente da vontade dos participantes que podem mudar, suceder-se, alterna-se nos vários encontros.

Mas como se escolhe um livro?

O grupo o escolhe. Pela maioria, fazendo uma seleção entre alguns propostos, ao acaso pela internet, seguindo um gênero ou uma temática… Pode-se elaborar um calendário sazonal, por exemplo, ou estabelecer a cada encontro.

O importante é que sejam textos que podem gerar discussões dentro do grupo.

Em geral, para a primeira reunião, aqueles de quem parte a iniciativa escolhem um livro que sabem que podem interessar o maior número de pessoas, não para impor as coisas, mas justamente para dar o pontapé inicial e quebrar o gelo.

Quem participa de um Grupo de Leitura?

Quem ama ler e falar sobre aquilo que leu. Bastam duas pessoas (em tese) para formar um Grupo. Obviamente, quanto mais pessoas participam, mais se sente o enriquecimento, mas também só de poder falar com outra pessoa já é positivo.

Geralmente, a predominância feminina nesses encontros é esmagadora.

Mas, em resumo, por que eu deveria participar de um Grupo de Leitura?

Para além do simples prazer de compartilhar e comunicar para os outros as próprias impressões, pode-se encontrar um enriquecimento pessoal inesperado.

Impelidos pela vontade de participar, podemos encontrar livros ou gêneros que jamais, por preconceito ou outros motivos, teríamos aberto ou que jamais teríamos ido além das primeiras páginas por nossa própria conta. Acontece. Como pode acontecer de descobrirmos que gostamos ou que ao menos valia a pena lê-los.

Quando lemos, colocamos muito de nós na leitura, notamos detalhes, interpretamos fatos. Mas as chaves de leitura são diversas e incontáveis: perceber, através dos comentários sobre o mesmo texto, fatos dos outros, com outros percursos e outros pontos de vista é muito estimulante e ajuda a expandir os horizontes. De repente, sentimos vontade de reler, de perceber coisas que nos fugiram. Ou, por outro lado, destacar aquilo que fugiu aos outros. Ou aprofundar por nossa conta temas não abordados antes.

Um diferencial pode ser, durante a reunião, a leitura de frases ou pequenos trechos que os participantes tenham achado, de alguma maneira, estimulantes para a conversação.

Em geral, discutir junto permite refletir sobre o quanto se leu, não esquecer de imediato, mas elaborar a leitura e focar melhor os conceitos e sensações. Parar, apropriar-se de tempos que muitas vezes perdemos, arrastados pela fúria do fazer.

Enfim, para retomar o início do discurso, reunir-se dá a sensação de não estar sozinho em uma ocupação tão pouco considerada nos dias de hoje, que é a leitura.

Vale reiterar que ler não é inútil.

Na internet, muitos são os sites que se ocupam de Grupos de Leitura ou que os organizam, lembro, dentre estes: http://gruppodilettura.wordpress.com/


Ufa, chegou até aqui? Qual é a sua opinião sobre grupos de leitura? Participa de algum?

Quero aproveitar o tema para deixar uma super dica para você que, além de ler, estuda italiano: conheça o grupo de leitura Leggiamo Tutti e se inscreva! O primeiro encontro será dia 12 de março, não fique de fora.

Bahia de todos os sonhos — Bárbara Sá

Título: Bahia de todos os sonhos
Autora: Bárbara Sá
Editora: Duplo Sentido Editorial
Páginas: 51
Ano: 2021

O projeto Meu Brasil é assim, infelizmente, deu uma bela derrapada, mas há dois contos que ainda não resenhei por aqui e hoje é a vez de um deles: o que se passa na Bahia.

Nele encontramos a história de Tatiana, nascida em São Tomé, na Bahia, mas que há sete anos mora em Londres, como sempre sonhara e batalhara.

“Essa é Tatiana, nascida e criada em São Tomé, mora em Londres há o quê, cinco anos?”

Fiquei extremamente surpresa em me deparar com uma protagonista de nome Tatiana. Se já li alguma obra com uma personagem com esse nome, foi há muito tempo!

Aproveitando as férias, a protagonista foge do frio e do cinza londrino e vem passar uma temporada no calor baiano, ao lado de suas maiores saudades: sua família.

“Existiam coisas incríveis na vida, mas nada se comparava a voltar para casa”

Durante a estadia de Tatiana aqui no Brasil, conhecemos sua irmã, sua mãe e sua avó e logo captamos a amizade e a leveza que a relação delas transmite. Além disso, também passeamos pelos lugares preferidos dela, conhecendo um pouco mais da cultura e da culinária baiana, de maneira leve e engraçada.

“No entanto estar aqui, colocando-me num lugar de turista do meu próprio lar, me fez perceber que eu sentia mais falta da minha terra do que eu pensava”

Mas sabe quem também passeia conosco ao longo dessas páginas? O primeiro amor de Tatiana, aquele que ela reencontra ao voltar para sua terra natal: Marcos. E, ao contrário de tudo o que ela imaginava, o amor ainda está ali e ele faz questão de passar o tempo com ela, mesmo que o futuro seja uma incógnita para ambos.

“Tudo tem um fim e para tudo existe um recomeço”

É difícil torcer por eles, pois percebemos que cada um acabou construindo sua vida, mas também é difícil não torcer por eles, porque vemos que poderia haver uma forma deles se acertarem. Ainda são jovens, estão num momento em que as certezas da vida são poucas e sempre podem mudar.

“Ficar questionando tudo o tempo todo nos fazia perder momentos importantes da vida”

Depois de muitos suspiros e de uma maravilhosa viagem pelas terras baianas, o final deste conto nos deixa de coração quentinho, sem dúvidas.

No momento, a obra não está disponível em lugar algum, mas vamos torcer para que ele volte para a Amazon ou outra plataforma, para que quem não pode assinar o projeto possa ler essa obra deliciosa!

Quem é o mascarado? — Marie Pessoa

Título: Quem é o mascarado
Autora: Marie Pessoa
Editora: Se Liga Editorial
Páginas: 41
Ano: 2021

(Para ler ao som de Tudo que se quer — Emilio Santiago e Verônica Sabino)

Algumas autoras são figurinhas carimbadas por aqui, porque adoro ler e resenhar suas histórias. É o que acontece com a Marie Pessoa, que não deixo passar um lançamento que seja (mesmo que às vezes eu demore um pouco para pegar e ler).

Quem é o mascarado? não é o obra mais incrível da Marie, mas ainda assim é uma narrativa que conquista e, ao mesmo tempo que tem um quê de leveza, também aborda algumas questões fortes e importantes. Uma daquelas histórias para ler em uma sentada só e, ainda assim, guardar consigo e refletir sobre alguns pontos.

“Mulher nenhuma nasceu pra ser saco de pancada”

A jovem protagonista Cris sonha em participar de um grande festival musical de nome Good Music. E apesar do incentivo de sua mãe e de sua melhor amiga, o namorado sempre a desencorajou a isso e ela acaba acreditando que não tem talento e capacidade para tanto.

“Se não quisermos machucar quem amamos, é muito simples: tomamos cuidado com nossas palavras, nossas ações”

Ao enviar, sem querer, um super desabafo em um grupo relacionado ao festival, porém, Cris acaba conhecendo Angel, uma pessoa misteriosa que demora a se revelar, mas que passa a ser um porto seguro para a protagonista.

“Angel conseguiu o que eu achava ser impossível: fez com que eu acreditasse no poder das minhas próprias canções”

No meio desses acontecimentos — que por si só já dariam uma interessante narrativa —, a autora ainda consegue abordar questões como relacionamentos abusivos, maternidade solo, relacionamentos entre mulheres, além de homofobia e transfobia.

Para os apaixonados por O fantasma da ópera, aqui está uma chance de, em poucas páginas, dar um novo significado à história. Mas se você não conhece nadinha do musical, não se preocupe, essa narrativa também é para você. Não deixe de conferir!

A filha primitiva — Vanessa Passos

Título: A filha primitiva 
Autora: Vanessa Passos 
Editora: Publicação independente 
Páginas: 97 
Ano: 2021

Há cerca de um ano, conheci a obra Desesterro, da Sheyla Smanioto. Agora, uma vez mais, me deparo com uma história forte, densa — apesar da linguagem relativamente fácil de ler — intensa e, em certa medida, brutal.

“Que alegria tem botar criança no mundo pra sofrer?”

E por que mencionar Desesterro aqui, ao invés de ir diretamente para a resenha de A filha primitiva? Porque ao iniciar a leitura desta obra, deparei-me com uma epígrafe que trazia, justamente, um trecho de Desesterro. E se de início isso foi uma surpresa, ao final da obra eu conseguia entender que a escolha talvez não pudesse ter sido melhor.

“Se tem os rastros, é porque a vida não é mais a mesma”

Em uma ficção que é a verdade de tantas pessoas, Vanessa Passos nos transporta em uma imensidão de sentimentos. E assim, uma obra curta transforma-se numa leitura que pede pausas, uma tomada de fôlego para seguirmos com os acontecimentos e pensamentos.

“Vou me descobrindo enquanto escrevo, quando puxo de dentro uma palavra depois da outra, sem sentido lógico as palavras continuam vindo”

A narrativa se passa em Fortaleza e retrata uma mulher — a protagonista — que tenta (re)construir sua história, mas que sem ter peças muito importantes para tal empreitada, desespera-se, revolta-se, amargura-se.

“Um dia eu engoli o orgulho e fui procurar a vizinha, perguntar sobre o meu pai”

Sobre isso, a própria autora traz uma reflexão muito importante na introdução do livro: às vezes, ter uma história também é um privilégio de classe e gênero. Forte, não? Pois lendo o livro, a gente sente com ainda mais força essas palavras.

A mãe dessa protagonista recusa-se a dar qualquer informação sobre o pai, mesmo diante de todo tipo de insistência da filha. E é evidente os embates que elas vivem diariamente, numa relação um tanto quanto complicada e dolorosa.

“Fui levando para frente as escolhas que eram mais delas do que minhas”

Não bastasse a complexidade da vida entre essas duas mulheres, soma-se uma terceira à história: a filha. E, ainda que ela não tenha muita consciência do que se passa ao seu redor (apesar de provavelmente sentir), é uma personagem igualmente sofrida. Afinal, é como a autora também diz na introdução: como uma mãe que não se sente pertencente ao mundo pode transmitir esse sentimento à filha?

“A menina sugando de dentro de mim a mãe que eu não era”

Nenhuma dessas três figuras femininas têm nome. E apesar deste não ser um recurso original, ele ainda causa um efeito muito forte, principalmente em uma história como essa.

“Um personagem só ganha vida, só se materializa com o nome”

O fato das personagens não terem nome é ainda mais relevante quando compreendemos que a protagonista é uma pessoa que conhece, aprecia e participa da literatura.

“Dói parir palavras. Dói mais ainda viver com elas dentro”

Mas não é como se nenhum personagem tivesse nome ao longo do livro. Os homens tem. O que também é bem significativo diante da narrativa que se desenrola, permeada de violências, dores, desamores.

“Naquele dia eu descobri que a palavra rasga mais que faca no corpo”

Ao olharmos para A filha primitiva, talvez não possamos imaginar o que nos aguarda. A riqueza dessa narrativa certamente surpreende. Não à toa, a obra foi vencedora da 6º Edição do Prêmio Kindle de Literatura. Então, se quiser conhecê-la, não deixe de clicar aí embaixo:

Malditos morangos — Tatiane Lucheis

Título: Malditos morangos 
Autora: Tatiane Lucheis 
Editora: Publicação independente 
Páginas: 56 
Ano: 2021

Sabe aquela história para ler em uma sentada só e que, disfarçada de narrativa leve, vem recheada de mistérios e acontecimentos que fazem nosso coração saltar? Pois Malditos Morangos, da Tatiane Lucheis, é uma dessas histórias!

Narrado em terceira pessoa, logo somos apresentados a alguns elementos chave da história, como os personagens (Bruna — a protagonista —, seu pai e sua madrasta Janaína) e os locais (Atibaia — cidade em que Bruna cresceu —, São Paulo e o Festival do Morango, tradicional na cidade interiorana).

Bruna está de férias e vai representar seu pai na competição do melhor morango do ano. Com os investimentos e estudos dele, as chances de vitória são grandes e, como logo sabemos, se concretizam.

“O pai não precisava que ninguém lhe tirasse o doce sabor da vitória”

O problema é o que começa a acontecer após esse episódio: uma série de infortúnios se abate sobre a produção dos saborosos morangos Atibruna (sim, o pai não pôde deixar de brincar com o nome da filha, o que garantiu a ela anos de zoação).

Ao mesmo tempo que acompanhamos o desenrolar desses fatos, também vamos conhecendo mais da protagonista, seja sobre o seu passado, seja sobre sua vida em São Paulo, onde faz faculdade.

“Em São Paulo, às vezes se sentia muito solitária e assustada”

Um dos pontos fortes da narrativa é que ela, além de propiciar uma fácil leitura, também é uma história crível, seja nos bons ou nos maus momentos. Nada é exagerado ou demasiadamente inventivo a ponto de não podermos imaginar acontecendo com alguém — inclusive nós mesmos.

“As leituras da faculdade se acumulavam tão rapidamente que ela passava o semestre todo tentando colocar a matéria em dia”

Que tal conhecer Bruna, sua família e como eles resolvem (ou não) os problemas que surgem um após o outro?

Citações #47 — Os sete maridos de Evelyn Hugo

Os sete maridos de Evelyn Hugo, da Taylor Jenkins Reid é aquele livro que a gente vê todo mundo comentando, mas que só lendo podemos entender o quanto é realmente bom.

Já postei minha resenha por aqui e agora trago mais alguns trechinhos dessa obra realmente surpreendente. Serão poucos, mas foram passagens que eu gostei e não queria perdê-las de vista.

Como comentei anteriormente, a obra nos apresenta a uma lendária estrela Hollywoodiana e, com isso, nos dá uma visão muito interessante do “por trás das telas“.

“É impossível ter intimidade sem confiança. E seria uma idiotice da nossa parte confiar umas nas outras”

Porém, o que surpreende é que a história consegue ir muito além disso, abordando questões como a homossexualidade (em tempos ainda mais complicados que hoje).

“Ele se revelou para mim, ainda que de forma vaga. E eu reagi com aceitação, ainda que de forma indireta”

O livro também fala sobre violência doméstica e relacionamentos abusivos.

“Com dois meses de casamento, ele começou a me bater”

“Desconfie de homens que precisam muito provar alguma coisa”

E, como não poderia deixar de ser, visto que a protagonista se casou sete vezes, fala sobre o amor, as relações humanas, os laços afetivos (elementos que também permeiam, de certa forma, muitas das passagens já trazidas até aqui).

“As pessoas acham que intimidade tem a ver com sexo. Mas intimidade tem a ver mesmo é com a verdade”

“A decepção amorosa é uma perda. O divórcio é um documento”

A longa noite de Bê — Fernando Ferrone

Título: A longa noite de Bê 
Autor: Fernando Ferrone 
Editora: Publicação independente
Páginas: 348 
Ano: 2021

Muito mais que uma linda capa, A longa noite de Bê me conquistou pela sinopse, fazendo com que a obra descaradamente furasse a fila de livros por aqui.

“Acho muito legal isso de não falar sobre algo e esse algo não existir”

Devo dizer que a diagramação da obra (que li em formato físico) logo me conquistou também: é bem limpa e confortável de ler.

A narrativa realmente se passa durante uma única longa noite, mas boa parte do livro é composta de flashbacks que nos deixam a cada página mais curiosos para saber o que vem a seguir.

“Enfim, a gente é feliz quando é inocente”

Como não há um bem e um mal estabelecidos, eu fui lendo sem saber onde essa história poderia dar. E, definitivamente, não seria possível prever o fim, porque mesmo não esperando por algo em específico, há um plot twist (isso talvez soe estranho, mas lendo você provavelmente há de concordar comigo).

A história, aos nossos olhos, se constrói através de algumas vozes, que vão trazendo seus pontos de vista e suas informações. Parece haver mais pluralidade conforme nos aproximamos do final e isso também tem relação com o desfecho surpreendente.

“Porque viver é experimentar sensações diferentes. Viver é não se restringir àquilo que acham que é o melhor pra ti. Viver é descobrir do que você é capaz”

Uma das coisas que mais gostei enquanto lia foi ver o ambiente universitário ali retratado: sem glamour — assim como os próprios personagens não são nem um pouco glamourizados — nos deparamos com um ambiente cotidiano, palpável que, para quem conhece, quase se materializa diante dos olhos ao longo da leitura.

“Um cachorro sem dono entrou na sala de aula”

E olha que estou falando de uma realidade universitária bem distante da que eu vivi. Em A longa noite de Bê, os protagonistas — se é que podemos chamá-los, e somente a eles, assim — Bê, Rasta e Lila montam um laboratório amador para produzir e vender cocaína nas festas estudantis.

“O mundo da pesquisa científica também vivia de gambiarra”

Essa ação, que apesar dos pesares, apenas tinha como função ajudar financeiramente Bê, acaba desencadeado uma série de acontecimentos que nos levam à narrativa apresentada no livro, na qual também conhecemos alguns outros personagens para além desses três, que estão sempre no centro da narrativa (em especial Lila e Bê, sendo que este último já era de se esperar, pelo título da história).

“Mesmo que quem mais precisasse de ajuda naquele momento fosse ela”

Uma narrativa feita para ser saboreada e descoberta a cada linha, composta por personagens complexos, como o próprio Bê que, aos poucos, vai nos revelando traços que nos permitem compreender sua condição.

“Você não foi feito pra esse mundo mesmo, Bê”

É até difícil falar muito sobre essa história, para não correr o risco de estragar o prazer do leitor em descobrir cada reviravolta.

Contudo, também não posso deixar de mencionar como o autor conseguiu mesclar elementos de uma narrativa densa, misteriosa, com alusões e menções a elementos da cultura que nos circunda e abraça.

“Sabe aquela música? Ela era de leão e ele tinha dezesseis. Era bem isso mesmo. Só que a Lila não era de leão e você tinha já seus vinte”

Se você quer conhecer Bê, Rasta e Lila e descobrir como seus destinos se cruzam, descruzam e encontram-se de novo, não deixe de clicar aí embaixo ou garantir sua edição física nas tantas livrarias que o autor conseguiu disponibilizar sua obra. Para saber mais, não deixe de acompanhá-lo em suas redes sociais.

Uma noite inesquecível — Adrielli Almeida

Título: Uma noite inesquecível 
Autora: Adrielli Almeida 
Editora: Publicação independente 
Páginas: 70 
Ano: 2021

Um começo inusitado, que esconde uma história que poderia ser como tantas outras, mas que tem muitos detalhes que a tornam única. É assim que adentramos Uma noite inesquecível, cujo honesto título já nos adianta que os acontecimentos têm uma breve duração.

Passadas as primeiras páginas, somos apresentados a Darin Moon.

“Darin era o tipo de garoto feito na medida certa. Bonito, mas não a ponto de ser obsceno. Inteligente, mas não a ponto de ser uma enciclopédia irritante. Gostava da namorada, mas não a ponto de ser apaixonado por ela”

O jovem, acostumado a ter do bom e do melhor, não esperava que tudo pudesse desandar justamente no dia do seu baile de formatura: o término de seu namoro, intrusos na festa que fora planejada por tanto tempo e com tanto cuidado, uma briga… E daí para pior (sim, sempre pode piorar!).

“Darin pensou que tudo estava fadado a dar terrivelmente errado. Sua noite, sua vida, a droga da sua experiência como colegial”

Em paralelo a esse caos, também vamos conhecendo Camilo Dantas, um garoto bem diferente de Darin.

“Camilo Dantas gostava de acreditar em milagres”

A vida deles talvez nunca tivesse se cruzado, se não fossem justamente os infortúnios que tiram a paz de Darin. Às vezes, no olho do furacão, a gente não consegue perceber que as coisas precisam dar errado antes de darem certo (ou não).

“Ele sabia que era uma péssima ideia desde o começo, mas, às vezes, a gente precisa ver tudo dar errado para entender que… daria errado para um caralho”

Darin e Camilo acabam se aproximando e vivendo uma noite inesquecível, regida por um envelope vermelho vindo sabe-se lá de onde (nós talvez saibamos).

“Ele não deveria mesmo estar ali. (Mas agora estava.)”

A escrita desta narrativa é tão marcante que é impossível não ser contaminado por ela e se você leu (ou se resolver ler) a história, perceberá as influências nesta resenha. Isso sem falar no tom poético, que mescla elementos da natureza e sensações, trazendo uma sinestesia muito forte para a leitura.

“Acho que se apaixonar é diferente para cada um. Para mim, é como… É como… Pular em uma cama elástica em um dia de chuva”

E além de falar sobre diferenças, aventuras e descobertas, Uma noite inesquecível também fala sobre relacionamentos, família e vivências.

“Os dois primos trocaram um olhar cheio de significado e de mensagens que só pessoas que crescem juntas conseguem desenvolver com o passar do tempo”

Uma leitura extremamente rápida e prazerosa, que você também pode realizar clicando aí embaixo.

Uma mentira imperfeita — Beatriz Cortes

Título: Uma mentira imperfeita 
Autora: Beatriz Cortes 
Editora: Bendita Editora 
Páginas: 314 
Ano: 2021

Estava com saudades de ler um clichê e, ao mesmo tempo, uma história capaz de me surpreender. Parece impossível que esses dois elementos possam coexistir? Pois Uma mentira imperfeita está aí para provar que isso é possível sim!

“Como podemos ser nós mesmos em um mundo que insiste em nos dizer quem devemos ser?”

Narrado em primeira pessoa, podemos quase dizer que a história não possui uma, mas duas protagonistas: Marina e Nina.

“A Nina era bem mais divertida do que a Marina, com essas roupas sérias e a agenda regrada. A Nina aproveitava a vida de verdade, ela tinha sonhos…”

Marina está prestes a assumir a empresa de seu pai, falecido antes da hora. É uma responsabilidade enorme, afinal não é uma empresa qualquer. E ela, sempre série e tentando entender suas funções, sendo sempre pressionada e criticada pela madrasta, ainda tem de lidar com as nada simples questões do coração.

“Na minha vida, é tanta tempestade que já estou até sem barco. Naufraguei de vez e, a cada vez que saio com alguém, bebo um pouco mais de água salgada”

Nina, por outro lado, é uma pessoa leve, que consegue equilibrar novas e emocionantes aventuras com as suas obrigações. Como diria Otto, seu melhor amigo, ela pega sem se apegar.

“A Nina é uma baita de uma sortuda!”

A verdade, porém, é que Nina e Marina são a mesma pessoa. Nina é, no fundo, uma versão quase perdida de Marina, resgatada por Otto, que está cansado de vê-la levando a vida tão a sério e deixando de lado a oportunidade de aproveitar um pouco o que há de bom.

“Otto pode ter umas ideias meio doidas, mas acho fofa a forma como ele se preocupa comigo”

É aquela velha história: é só quando deixamos de nos preocupar com certas coisas que elas acontecem. E foi assim que Marina (quer dizer, Nina, porque ela sim é despreocupada) conheceu Zac.

“É engraçado olhar para trás e perceber tudo de bom que eu teria perdido se as coisas tivessem acontecido como eu planejava”

Desde o começo da história fica muito claro para nós, leitores, que Marina não está nada confortável com a ocupação que ocupa e, menos ainda, com a que vai ocupar. E logo vamos entendendo quais são as suas verdadeiras paixões.

“— Pensar no que a gente ama sempre faz bem, Nina. Esse é o segredo”

Mas aos poucos também vamos percebendo outro detalhe: Marina carrega uma culpa. E nós passamos boa parte da leitura tentando entender que culpa é essa, coisa que vai sendo revelada bem aos poucos, na medida certa.

“Estou tremendo. A parede que levei anos construindo dentro de mim para isolar essa história do resto do mundo (e de mim mesma) parece se rasgar como uma folha de papel”

Não foi somente a forma como a autora soube usar esse sentimento para construir um mistério na trama, porém, que me prendeu até a última página. Também fiquei bem intrigada com o desenrolar do nó em que Nina se enfiou.

Mesmo sendo uma grande apaixonada por histórias de amor, chegou um ponto da história que eu não poderia torcer para ela ter o final feliz dela ao lado de Zac. Não da forma como as coisas estavam acontecendo, porque Marina era apenas Nina para ele, mas ela precisava se encontrar entre uma e outra (ou até em ambas, na medida certa. Ou em nenhuma).

“Eu definitivamente não sei quem sou”

Confesso que tive medo da história simplesmente acabar feliz, mas de maneira absurda. Mas se tem uma coisa que posso dizer, sem dar spoilers, é que a história não decepciona. A autora vai conduzindo tudo de forma a nos fazer ler com atenção até o último ponto final, sedentos por todos os desfechos bem pensados e que nos fazem concluir a leitura com um sorriso no rosto e um quentinho no coração.

“Há muito tempo não me sentia assim, livre, desprendida, animada”

Que tal conhecer Marina, Nina e o que mais puder surgir dessa mulher que tem muito a aprender, mas também a ensinar? É só clicar aqui embaixo!