Desmistificando o mestrado [4] — Projeto de pesquisa

Desmistificando o mestrado [4] O projeto de pesquisa

O post de hoje talvez seja um dos mais difíceis dessa categoria e digo isso porque pretendo falar sobre algo que, ao mesmo tempo que é essencial para uma pesquisa, é algo sobre o qual temos poucas orientações.

Eu poderia dizer que o projeto de pesquisa é o início de tudo. Um documento que mostrará suas ideias e que, se bem feito, servirá de guia para toda a sua pesquisa. Em outros termos, ele é um esboço do que virá.

No Programa de Pós-Graduação em Língua, Literatura e Cultura Italianas (PPGLLCI) — e creio que na maioria dos Programas de Pós —, a entrega do projeto de pesquisa faz parte do processo seletivo. É através desse documento que os professores avaliam a sua ideia, se ela tem sentido, se é relevante e, claro, viável.

Um bom projeto de pesquisa deve ter, essencialmente, as seguintes partes:

  • Introdução: para que você conte um pouco de onde surgiu sua ideia, da sua relação com o tema proposto. Tema, aliás, é a palavra chave aqui: o que você vai pesquisar?Eu acabei usando essa parte, também, para citar algumas pesquisas sobre o mesmo tema que a minha e qual era o “buraco” que eu queria “cobrir”, o que relacionou muito essa parte com outra que aparecerá logo mais.
  • Objetivo:  se você está se propondo a se debruçar sobre um tema, você provavelmente tem um objetivo, quer chegar a algo. E aqui você vai tentar mostrar onde pretende chegar. No caso de pesquisas de Doutorado, é necessário colocar também uma hipótese que será ou não comprovada ao final da pesquisa. Para o Mestrado, você pode elencar uma ou duas perguntas para responder ao final da pesquisa.
  • Justificativa: depois de apresentar sua ideia, dizer onde quer chegar, alcançamos um ponto crucial: por que você quer fazer isso? Qual é a relevância da sua pesquisa? (e essa era a parte que estava muito ligada à minha introdução).
  • Metodologia: com todas as informações acima tendo sido apresentadas, você precisará esclarecer como pretende realizar a sua façanha. Aqui você poderá descrever os passos necessários, as ferramentas que utilizará e o que mais achar necessário esclarecer.
  • Fundamentação teórica: essa é uma parte complicadinha do projeto, pois você precisará mostrar quais autores/pensadores te ajudarão em sua caminhada. Afinal, mesmo a mais original das ideias precisa de forças para se concretizar, e é nesta parte que você mostrará quem te inspirou e como as ideias dessas pessoas podem te ajudar. Acho que essa foi a parte mais extensa do meu projeto, porque a ideia é você realmente falar um pouco sobre cada obra que pode vir a te servir na pesquisa (isso acaba mudando muito depois, você descobre novos textos, elimina alguns anteriores, não tem problema nenhum!)
  • Cronograma: para terminar, é hora de mostrar em quanto tempo você pretende realizar a pesquisa proposta. Mas não se engane: você não tem o tempo que quiser para isso. No PPGLLCI, por exemplo, temos no máximo dois anos (Mestrado) ou três anos (Doutorado) para concluir a pesquisa. Então, nessa parte, tudo o que você precisa mostrar é que é viável fazer o que você quer fazer no tempo que tem à disposição.
  • Referências bibliográficas: como todo trabalho acadêmico, você fechará o seu projeto de pesquisa com as referências dos textos utilizados para construí-lo. O ponto positivo dessa parte é que ela será muito útil no resto de sua pesquisa, afinal, boa parte dos textos usados no projeto serão utilizados no restante do trabalho (a menos que ele sofra uma mudança radical — o que pode vir a ocorrer também).

Como eu disse, essas são as partes essenciais de um projeto, mas a sequência e a estrutura dele pode variar de um Programa para outro, por isso é sempre importante tentar conseguir essas informações com outros alunos ou mesmo com professores.

Se você se sente extremamente perdido(a) com relação ao projeto de pesquisa, dá uma procurada no livro Como elaborar projetos de pesquisa, ele pode ser bem útil! O mais importante, porém, é não ter medo. Faça um rascunho, converse com que já passou por essa etapa, pergunte, pesquise. O projeto de pesquisa é uma parte importante da pesquisa, mas não é a pesquisa em si. Muita água ainda vai rolar depois disso.

Desmistificando o mestrado [3] — Prova de conhecimentos específicos e entrevista

Desmistificando o mestrado [3]

Depois de falar para vocês sobre a prova de proficiência, chegou a hora de falar sobre as outras duas etapas de seleção do Programa de Pós-Graduação em Língua, Literatura e Cultura Italianas, que são, na sequência: prova de conhecimentos específicos e entrevista.

Neste Programa de Pós-Graduação, a prova de conhecimentos específicos é realizada no dia seguinte à prova de proficiência, para facilitar o acesso àqueles que vem de outras cidades ou até mesmo Estados.

Para realizar essa prova você deve ler a bibliografia indicada, que varia de acordo com a área para a qual você está prestando a prova (língua, literatura ou tradução). Essa prova acontece da seguinte maneira: recebemos cerca de cinco perguntas relativas à área que escolhemos e devemos responder a duas delas, com um texto dissertativo de cerca de 20 linhas para cada questão escolhida. Quase sempre essa prova acontece em salas que possuem computadores, o que ajuda muito na hora de escrever e rescrever as respostas.

Nesta prova não é permitido nenhum tipo de consulta, mas também não é nenhum bicho de sete cabeças. Claro que, para isso, é importante ter lido a bibliografia e também ter certo conhecimento na área e, principalmente, sobre aquilo que você irá pesquisar.

Superada essa etapa, chegamos à entrevista. Cerca de duas semanas depois das duas provas já mencionadas, os alunos selecionados (ou seja, que foram aprovados em ambas as provas) são chamados para a tal entrevista. A quantidade de professores que vão nos entrevistar varia de acordo com a disponibilidade deles (quando eu fiz, estavam praticamente todos lá!).

Os professores vão fazendo perguntas sobre seu projeto (que em algum momento, no meio do caminho, já foi entregue), para verificar se você realmente tem ideia do que vai pesquisar e, mais que isso, se é realmente viável a sua pesquisa. Também é uma forma deles conhecerem um pouco mais sobre você e seu percurso acadêmico até ali. É nessas horas que ter feito uma iniciação científica, por exemplo, faz diferença, ainda que ela não seja um requisito para esse Programa de Pós-Graduação (mas é para alguns outros, então preste atenção a isso).

Depois da entrevista, tudo o que nos resta é aguardar o resultado final. Neste Programa de Pós-Graduação não somos nós quem escolhemos o orientador, mas os próprios professores que dividem os candidatos entre si. Então, quando recebemos o resultado final, em caso de aprovação, ficamos sabendo, também, quem será nosso orientador.

Espero que tenham gostado do post e, se tiverem dúvidas, fiquem à vontade para perguntar. O próximo post será sobre o projeto de pesquisa, que acabei não explicando ainda.

Desmistificando o mestrado [2] — Prova de proficiência

Desmistificando o mestrado [2]

Hoje é, finalmente, dia de continuar a falar sobre o Mestrado! E, para falar dele, precisamos, antes de mais nada, falar como começar ele. O post de hoje, portanto, é dedicado à uma das etapas do processo seletivo: a prova de proficiência.

A proficiência é, em geral,  uma das primeiras etapas e é eliminatória. Isso significa que, para iniciar um Mestrado, você deve saber ao menos uma língua estrangeira. E falar dessa etapa é um pouco complicado, pois, só na Letras, já existem diversas nuances, imagine fora dela.

Por exemplo, se você vai fazer Mestrado em uma área de literatura (brasileira, portuguesa ou clássicas) — e se eu não estou enganada —, você pode escolher fazer a proficiência em qualquer língua. Agora, se você vai fazer um Mestrado em uma área de línguas estrangeiras (ainda que seja relacionado à literatura daquela língua), como foi meu caso, você, necessariamente, deverá comprovar proficiência naquela língua (o que, digamos, faz muito sentido).

Mas também existem diversos tipos de prova de proficiência. Na Universidade de São Paulo, a mais simples é a do Centro de Línguas, que prepara provas para diversos Programas da Universidade. Nela, você basicamente precisa demonstrar que consegue ler e interpretar um texto na língua estrangeira escolhida. Para isso, claro, há um texto na língua em questão e questões de múltipla escolha referentes a ele, em português. E ainda pode usar um dicionário monolingue.

O segundo tipo de prova é aquela preparada especialmente para os Programas de línguas estrangeiras, como é o caso do Programa de Pós-Graduação em Língua, Literatura e Cultura italianas. É uma prova relativamente parecida com a do Centro de Línguas, mas um pouco mais elaborada, entrando algumas questões dissertativas e de tradução.

Por fim, sempre temos a opção de fazer uma prova externa, que geralmente é bem mais complexa, porque abrange as quatro competências (ler, ouvir, escrever e falar). Acho que um dos exemplos mais conhecidos que posso dar desse tipo de prova é o TOEFL. No caso do italiano podemos mencionar o CELI e o CILS. E eu (que adoro complicar quando posso facilitar) optei por esse tipo de prova.

Aí você me pergunta “por que?”, já que além de mais difícil, esse tipo de prova é bem mais cara. Mas há uma vantagem: enquanto as duas primeiras provas que mencionei valem somente para ingressar no Mestrado dessa Universidade, e mesmo ali costumam ter uma validade de dois anos, as provas externas, são válidas/exigidas em diversos lugares/países, e quando têm validade, ela é de pelo menos 5 anos.

Espero ter conseguido explicar um pouco sobre as provas de proficiência, mas caso tenham dúvidas, basta comentar aqui! Em breve, falarei sobre as outras etapas do processo seletivo. Achei que caberia tudo em um único post, mas falar da proficiência já deu muito pano pra manga!

E se você não viu o primeiro post dessa série, clique aqui.

Desmistificando o Mestrado [1]

Desmistificando o mestrado [1]

E finalmente lhes apresento a segunda nova seção do Blog ou a segunda novidade que eu queria trazer para cá: resolvi compartilhar com vocês minha experiência no Mestrado! E por que? Bem, no post de hoje eu vou justamente explicar meus motivos para criar essa seção e nos próximos posts vou efetivamente mergulhar nesse mundo.

Mas vamos por partes, certo? Para falar do Mestrado eu preciso falar do que veio antes dele. Eu me graduei em Letras, pela Universidade de São Paulo (USP), tendo feito o Bacharelado e a Licenciatura — porque sim, no caso da Letras, na USP, essas são duas coisas distintas. Além de termos a opção de fazer só o Bacharelado ou fazer o Bacharelado e a Licenciatura (não é possível, no caso da Letras, fazer apenas Licenciatura), também escolhemos entre as habilitações que podem ser apenas português, português e linguística, só linguística, uma língua estrangeira (como alemão, japonês, grego, inglês, coreano, árabe…) ou português e uma língua estrangeira (ufa, espero não ter esquecido nenhuma das opções!). Eu optei por fazer Português e Italiano, porque, na verdade, já entrei querendo isso (ah, claro, cabe mais uma explicação aqui: no primeiro ano temos o chamando ciclo básico e só ao final deles fazemos a escolha da nossa habilitação, mas se vamos ou não conseguir a habilitação desejada dependerá das notas que tivemos em nosso ciclo básico).

A Letras é um dos maiores cursos da USP. Entram cerca de 800 calouros por ano! Para dar conta desse mar de gente e dessa (quase) infinidade de opções, a Letras é dividida em cinco Departamentos: DLCV (Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas), DLM (Departamento de Letras Modernas), DL (Departamento de Linguistica), DLO (Departamento de Letras Orientais) e DTLLC (Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada). Dentro de cada um desses departamentos existem áreas. Por exemplo, o DLM é dividido entre as Áreas de Alemão, Inglês, Francês, Italiano e Espanhol. E cada uma dessas áreas pode ter o seu Programa de Pós-Graduação, como por exemplo o Programa de Pós-graduação em Língua, Literatura e Cultura Italiana, do qual faço parte. Complexo, né?

Cada Programa de Pós pode ter suas especificidades, portanto, antes de mais nada (apesar de tudo o que já expliquei), quero deixar claro que o que trarei aqui diz respeito ao Programa do qual faço parte, mas pode servir de base para outros Programas também.

Dito tudo isso, volto à pergunta do início: por que falar sobre a Pós aqui no Blog? Bom, mais do que ter feito/estar fazendo meu Mestrado junto ao Programa de Pós-Graduação em Língua, Literatura e Cultura Italianas, eu fui estagiária do Programa e da Área de Italiano por quase dois anos e isso me permitiu aprender muita coisa do funcionamento da Universidade, da burocracia e de como funciona a Pós-Graduação. Tendo esse conhecimento, sempre me coloquei à disposição para quem quisesse tirar dúvidas, principalmente sobre a Pós, mas acabei percebendo que as perguntas eram quase sempre as mesmas ou então que são sempre os mesmo assuntos que nos confundem.

O que eu espero, portanto, é poder ajudar outras pessoas que tenham interesse em fazer uma Pós, mas que não sabem muito bem por onde começar. No próximo post, por exemplo, falarei sobre o Processo Seletivo do Programa de Pós-Graduação em Língua, Literatura e Cultura Italianas.