Recesso — Claus Castro

Título: Recesso 
Autor: Claus Castro
Editora: Telha
Páginas: 236
Ano: 2022 

Sinopse

Em meio à pandemia do coronavírus, um professor desiludido com a vida, profissão e relacionamentos se vê impedido de deixar sua rotina caótica, lutando contra o tempo para se libertar da pior prisão em que já foi posto.

Recesso é um romance que busca sintetizar todo o desprezo e o sentimento de fracasso passado ao longo da carreira do autor até o momento.

Resenha

Sabe quando um livro simplesmente surge na sua frente e a sinopse te faz dizer “ok, essa será minha próxima leitura”? Pois foi isso o que aconteceu com Recesso, cuja temática é de grande interesse para mim. 

“A chave estava em não procurar por uma entrada”

Donizete (ou Doni) é um professor que, aos 30 anos, está desiludido com tudo: o emprego, as relações humanas, a vida.

“Todo propósito de uma vida pode ser resumido em chegar no instante em que ela acaba”

Narrada por ele, a história se torna densa e, em muitos pontos, incômoda, o que não poderia ser diferente diante do momento em que ele vive e as situações que o circundam.

“Minha bússola era o mero acaso e em minha direção vinha o desconhecido”

Tantas críticas já foram feitas ao ensino brasileiro, principalmente àquele público, mas através da história de Doni podemos enxergar o outro lado: o do professor que tem de dar tudo de si para receber tão pouco em troca.

“Você precisa estar preparado para tudo e isso não existe”

O protagonista desta história não é concursado, mas um professor substituto, coisa que, infelizmente, tem se tornado tão comum nas escolas. 

“Estamos transformando o mundo em algo que não pode ser vivido, trancando nossos sonhos à luz do dia e escrevendo sobre eles em quartinhos escuros”

Esses professores são jogados em escolas que podem ser perto ou distantes de suas residências, e cobrem licenças e afastamentos. Estão ali temporariamente, na incerteza do amanhã.

“Esse sistema, essa rotina, essa ansiedade, fazem com que eu não veja a hora do dia terminar e de começar outro, para ver seu fim outra vez”

Diante desse cenário, não seria de se espantar que Doni tivesse uma vida cheia de problemas. Mas, para melhorar a situação, ele também é um viciado em álcool e sexo.

“Tudo corria mais ou menos bem e não estava sendo nada mal ter algumas expectativas não correspondidas a essa hora”

O personagem se afoga na vida e nos vícios e é difícil não ir afundando com ele, percebendo o quanto estamos errando e fazendo tão pouco para melhorar as perspectivas.

“Seja lá o que estamos fazendo, é melhor pararmos, e pararmos depressa. Estamos perdidos e perdendo-os, um por um, dizendo para nós mesmos que não há nenhuma salvação possível. Somos nós os próprios carrascos daqueles que um dia juramos libertar”

Há, ainda, um agravante importante para esta narrativa: a pandemia do coronavirus. Imagina viver toda essa profusão de sentimentos num momento tão caótico para a humanidade. É difícil não se identificar em alguma medida.

“Era a corrida da morte, uma grande fuga de algo que não enxergamos, mas que víamos em todos os lugares, um verdadeiro ‘salve-se quem puder’”

Com palavras ácidas e diretas, Claus Castro, através de Doni, consegue nos fazer refletir sobre capitalismo (e seus absurdos), solidão, educação (e, muitas vezes, a falta dela), sonhos e hipocrisias.

“Na escola não respeitamos os jovens. Nas ruas não respeitamos os velhos. Como pode se ter um presente assim?”

Foi estranho, depois de um longo período, ler uma história com um protagonista masculino e hétero, que me despertou tantas lembranças de pessoas parecidas e ao mesmo tempo tão diferentes dele. 

“Não há respostas o suficiente para minhas perguntas”

A forma como as mulheres são retratadas ao longo das páginas (lembrando aqui que o personagem tem o seu vício em sexo, ao mesmo tempo que é extremamente solitário) foi algo que há tempos eu não via e que, com certeza foi um baque, principalmente por me lembrar que muitas vezes somos vistas assim.

“Pode levar o tempo que for, você nunca irá entender completamente, nem em parte, nem minimamente uma mulher, não importa a idade que ela tenha ou que pensa que carrega”

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Música para morrer de amor — Rafael Gomes

Título: Música para morrer de amor 
Autor: Rafael Gomes
Editora: Incompleta
Páginas: 218
Ano: 2021

(Para ler ao som de Codinome beija-flor Cazuza)

Sinopse

A trama é das mais simples, uma variação do clássico triângulo amoroso: Isabela sofre por um coração partido, Felipe quer muito se apaixonar e Ricardo, seu melhor amigo, está apaixonado por ele. Mas, numa obra que é sobre as canções para morrer de amor tanto quanto sobre os caminhos da paixão, e se pensássemos nessa sinopse de uma forma, digamos, mais musical? Em vez de um triângulo, um terceto. Em vez de uma ciranda de sentimentos, três duetos. Ou então a orquestração de três solos intercalados de corações pós-adolescentes que batem com a impulsividade e o derramamento típico das paixões juvenis (e não importa que idade se tenha, sempre estaremos sujeitos às paixões juvenis). A história do trio completa uma década. Mas este livro comemorativo não é apenas sobre aventuras românticas. É também um estudo aprofundado sobre como levar aos cinemas uma história de amor e música nascida nos palcos. O texto original da premiada peça Música para cortar os pulsos (2010) chega ao livro em versão revisada. Guiados por letras de canções das quais extraem sua educação sentimental, os três amigos embaralham alguns paradigmas da trama amorosa e confirmam outros, questionando padrões de sexualidade e duvidando da certeza dos próprios sentimentos. O roteiro do longa-metragem Música para morrer de amor, adaptado do texto teatral e lançado em 2020, vem publicado na íntegra e acrescido de mais de uma centena de notas do autor-diretor. Nelas, Rafael Gomes detalha o processo de adaptação entre as duas linguagens e as especificidades de cada formato, além de curiosidades de bastidores.

Resenha

Dia desses a Nati, minha amiga, me entregou um livro e disse “acho que está na hora de você ler isso”. O livro em questão era Música para morrer de amor.

“Mas é preciso acabar, e isso é bonito”

Eu sabia que encontraria alguma coisa dela ali. Mas encontrar alguma coisa dela significava encontrar algo de mim também. E foi o que aconteceu.

“Medimos a velocidade de um carro em quilômetros por hora, e a área construída de um imóvel em metros quadrados. Para mensurar o espanto que me causou essa primeira leitura, proponho a adoção de uma nova medida: epifania por parágrafo”

Este livro contém muitas coisas dentro de si, para além das tantas mensagens que me tocaram de alguma forma. Começo, então, falando sobre a estrutura, para só então passar para a história em si.

“Eu não sei o que você tá pensando, mas provavelmente é útil você descobrir que ser amado também é dolorido”

A obra começa com o prefácio A parte que me toca, escrito por Vinicius Calderoni, de onde extraí a passagem usada um pouco mais acima.

Em seguida, mergulhamos no ensaio ficcional Uma década de playlists, escrito por Rafael Gomes. 

“Quantas coisas em uma história de amor são playlists, para além das seleções musicais?”

A essa altura, é difícil já não estar morrendo de amores pelo livro e querer mais e mais. 

“Eu sou esse cara que se apaixona por um monte de gente o tempo todo, mas eu juro que são coisas diferentes, de jeitos específicos”

Finalmente, chegamos a Música para cortar os pulsos, roteiro revisado da peça homônima, escrita por Rafael Gomes e encenada no teatro do Sesc Pinheiros, em 2010.

“O amor nunca é só amor. O amor é um monte de outros sentimentos misturados”

Como eu queria ter assistido a essa peça, mas em 2010 eu sequer sabia da existência dela (e talvez não pudesse compreender nem metade de tudo o que ela tem a transmitir).

“Ri das cicatrizes quem nunca foi ferido”

Aqui conhecemos Ricardo, Isabela e Felipe. Três jovens tão únicos e tão iguais a tantos outros. Cheios de amores, dúvidas e medos.

“Difícil isso de dar nome para os sentimentos, apreender o sentido das coisas”

Isabela está tentando superar o final de um relacionamento. Aquele que parecia tão certo e tão especial.

“Eu tenho um coração partido e eu nunca mais vou amar ninguém”

Ricardo está lidando com os sentimentos que carrega dentro de si, os amores que transbordam e a vontade de abraçar o mundo. 

“De mentira eu me apaixono o tempo todo”

E Felipe, coitado, está no meio do caminho. Querendo se apaixonar perdidamente, ele percebe que precisa, em primeiro lugar, entender o que realmente deseja e também se conhecer melhor.

“Quando eu digo ‘amor’ e você diz ‘amor’, quem disse que a gente tá falando da mesma coisa?” 

Uma história incrível, que certamente tocou muitos corações. Tanto é que ganhou uma adaptação para as telonas. Ou quase isso.

“A única coisa que eu penso é que talvez eu vá explodir. E tudo por causa de um coração que um dia vai parar mesmo, de qualquer jeito”

Depois do roteiro da peça, neste livro, nos deparamos com Música para morrer de amor, também de Rafael Gomes. Este é o roteiro do longa-metragem, comentado pelo autor (o que torna a leitura ainda mais agradável e interessante). 

“Todo mundo é imaturo, amor. Só que todo mundo finge que não”

Por mais que algumas falas e cenas sejam semelhantes, como o próprio autor explica, passar a história para as telas levou a modificações necessárias. E é possível notar isso ao longo da leitura.

“Na raiz do amor já está a destruição: a gente começa e já começa a terminar”

Mas Música para morrer de amor não chegou efetivamente às telonas. Ele foi parar somente nos serviços de streaming, porque foi lançado durante a pandemia, em 2020.

“E amor assim, tão espontâneo e tão imprevisto e que vive ganhando tão pouco em troca, deve ser no fim das contas pelo menos um sentimento bom”

O livro termina, ainda, com a seção Caixas, cadernos e HDs, que reúne registros fotográficos e visuais de tudo o que pudemos acompanhar ao longo do livro. 

“E o sorriso é uma porta de entrada confiável pro pensamento”

A diagramação de toda a obra é ótima: tem cores, desenhos e o papel utilizado é extremamente confortável de ler e manusear.

Além disso, essa é uma daquelas obras que tranquilamente podemos ler enquanto escutamos uma boa música e, se a mágica der certo, tudo irá se completar e conversar.

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O caçador de pipas — Khaled Hosseini

Título: O caçador de pipas 
Original: The kite runner
Autor: Khaled Hosseini
Editora: Nova Fronteira 
Páginas: 365
Ano: 2005
Tradução: Maria Helena Rouanet 

Sinopse

“O Caçador de Pipas” é um romance com tintas autobiográficas que conta a história da amizade de Amir e Hassan, dois meninos quase da mesma idade, que vivem vidas muito diferentes no Afeganistão da década de 1970.

Amir é rico e bem-nascido, um pouco covarde, e sempre busca a aprovação de seu próprio pai. Hassan, que não sabe ler nem escrever, é conhecido pela coragem e bondade. Os dois, no entanto, são loucos por histórias antigas de grandes guerreiros, filmes de caubói americanos e pipas. E é justamente durante um campeonato de pipas, no inverno de 1975, que Hassan dá a Amir a chance de ser um grande homem, mas ele não enxerga sua redenção. Após este episódio, Amir vai para os Estados Unidos, fugindo da invasão soviética ao Afeganistão, mas 20 anos depois Hassan e a pipa azul o fazem voltar à sua terra natal para acertar contas com o passado.

Best-seller mundial, este livro vendeu mais de 5 milhões no mundo todo e ganhou uma versão cinematográfica.

Resenha

Apesar de ser uma obra tão conhecida, mergulhei na leitura de O caçador de pipas sabendo apenas que era um desses livros que precisamos ler ao menos uma vez na vida.

“— As crianças não são cadernos de colorir. Você não tem de preenchê-lo com suas cores favoritas”

Como não poderia deixar de ser em uma obra escrita por um autor que não está no eixo euro americano, realizar esta leitura foi me dar conta, mais uma vez, do quão pouco sei. Seja sobre outras culturas, sobre religião, sobre os conflitos que marcam o Oriente Médio e também sobre as relações humanas

“— Bem… — disse eu. Mas nunca consegui acabar aquela frase. Porque, de repente, o Afeganistão mudou para sempre”

A obra se inicia na infância de Amir, que é o narrador desta história. 

“Era esquisito, mas fiquei feliz vendo que alguém sabia exatamente quem eu era. Já estava cansado de fingir”

Uma infância bem privilegiada, uma vez que seu pai era muito rico e respeitado e Amir ainda podia contar com o fiel amigo e servo Hassan

“No inverno de 1975 vi Hassan correr atrás de uma pipa pela última vez”

Mas estamos falando de uma infância no Afeganistão e, da noite para o dia, toda essa vida aparentemente perfeita, ruiu.

“Meu pai passou a vida inteira enfrentando ursos. Perdeu a jovem esposa. Teve de criar um filho sozinho. Precisou abandonar a sua querida terra natal, o seu watan. Conheceu a pobreza. A indignidade. Até que, afinal, apareceu um urso que ele não conseguiu derrotar”

Acontece que, lendo esta narrativa da perspectiva de Amir, sabemos que as coisas já estavam difíceis muito antes dele ter de sair de sua terra natal.

“Para mim, os Estados Unidos eram o lugar onde podia enterrar as minhas lembranças”

Sua mãe morrera no parto e, desde a infância, Amir apenas queria conquistar o amor e a admiração de seu pai. Sentimentos esses, aliás, que ele parecia nutrir muito mais facilmente por Hassan.

“Sempre dói mais ter algo e perdê-lo do que não ter aquilo desde o começo”

Essa relação (ou a falta dela) entre pai e filho é um fio condutor importante na obra, sendo o propulsor da maioria das ações e decisões (sobretudo ruins) do narrador, além de trazer um plot interessante ao final.

“Pensei em todos os espaços vazios que baba ia deixar atrás de si depois que se fosse, e fiz um esforço enorme para pensar em outra coisa”

A lealdade também é um tema recorrente ao longo das páginas deste livro, assim como a culpa, que permeia cada vírgula desta história. 

“Acho que certas histórias não precisam ser contadas”

O caçador de pipas pode ser uma história bem amarga, não apenas por tudo aquilo que o narrador carrega consigo, mas também porque há alguns pontos da cultura afegã que podem ser difíceis – sobretudo para as mulheres – de digerir. 

“E toda mulher precisa de um marido. Mesmo que ele faça calar a canção que existe nela”

Violência – física e psicológica – também marcam diversos pontos desta narrativa, que realmente tem o poder de tocar seus leitores. 

“Eles não permitem que a gente seja humano”

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As grandes navegações — Gael Rodrigues

Título: As grandes navegações 
Autor: Gael Rodrigues
Editora: Publicação independente 
Páginas: 193
Ano: 2023

Sinopse

UMA AMIZADE QUE CRUZARÁ OCEANOS E O TEMPO

Leonildo nasce em cima de um baobá durante uma enchente. É albino, o que antes parece um milagre para o povo de Beira, Moçambique, aos poucos se torna maldição. O menino precisa ser escondido para seu corpo não ser transformado em amuleto.

Guilherme ao perceber o que é, foge da Paraíba para São Paulo, depois é expulso da casa da tia religiosa. Espera pela operação de redesignação sexual até que vem a pandemia e seu corpo é interrompido junto ao tempo.

Dois homens vivendo em ocupações que antes foram hotéis de luxo. Dois países distantes mas que dividem a mesma exploração original e parecem repetir a mesma história. Uma amizade improvável e inesquecível, que com ajuda dos sonhos é capaz de atravessar oceanos.

Resenha

As grandes navegações é uma história que nos transporta para dois universos tão diferentes e tão semelhantes entre si, através de uma narrativa em prosa quase onírica.

“Contar essa história é cartografar o universo único de dois amigos. É também um mapa para se compreender a segunda e definitiva morte de Leonildo”

Na primeira parte da história estamos em Beira, uma cidade moçambicana. 

“Era um povo acostumado a desgraças. Desde cedo, empilhavam uma sobre outra, o dia a dia ensinando a carregar mais peso”

Uma realidade difícil, de grande pobreza e marcada por catástrofes naturais.

“Uma mulher feito terra conquistada à força e, depois de roubado o viço e riquezas, abandonada. Uma mulher-Moçambique”

Em Beira, Fauzi e Bomani se conhecem e se apaixonam e desse amor nasce Leonildo (ou Nido).

“O encontro de dois desconhecidos é terra seca à espera. Entre os olhares ergue-se uma ponte. Do toque, funda-se um prédio”

O casal passa a viver junto no Grande Hotel, um antigo hotel de luxo, hoje abandonado e ocupado. E apesar das dificuldades, eles parecem se amar. Até que toda a vitalidade de ambos é sugada pela dura realidade e o amor parece não mais resistir.

“Ela precisava ser forte para continuar sendo ela, era o que a avó a ensinou. Ser ela era ser todas antes dela”

O nascimento de Nido é quase a morte de Fauzia. Um nascimento duríssimo, mas considerado um milagre: ele é parido no topo de uma árvore, em meio a uma tempestade. E há ainda um detalhe: Nido é albino.

“Ele enxergava pouco, assim como outros albinos, mas isso ele não sabia, porque, ao menos ali no prédio, não havia outro como ele”

Nessa primeira parte da obra, navegamos pela infância de Nido. Uma infância duríssima, ainda mais para ele, que não pode sair à luz do dia e que, inclusive, passa boa parte da infância escondido, contribuindo para a encenação de sua mãe de que ele morrera, ideia que ela teve para protegê-lo (até que ponto realmente conseguiu?).

“Normalmente, o menino saía apenas depois da chegada da noite”

Já na segunda parte da obra, estamos em São Paulo. O ano é 2020 e a pandemia assola o mundo. 

“As coisas iam voltar aos eixos, apesar do mundo ainda de cabeça para baixo. Em breve, encontrariam uma vacina, o mundo iria se aquietar”

Aqui o protagonista é Guilherme, que nascera Alice e nunca se encontrara em seu corpo feminino.

“Eu mudei as linhas do meu corpo todo santo dia para tentar não constranger alguém. E todo santo dia eu constrangi alguém”

Não bastasse toda a luta para mudar de sexo, Guilherme também leva uma vida quase miserável, morando numa ocupação, em um prédio abandonado.

“A vida é repetição e repetimos os outros”

É justamente no centro de São Paulo que as histórias de Nido e Guilherme se cruzam e se tornam uma.

“Se essa é a história de uma amizade, ela precisa ao menos de duas pessoas que se encontram, criam laços, riem juntas, arquitetam planos. A história de dois amigos há de conter abraços”

Há ainda Alima, a moça dos olhos violetas, que conhece Nido ainda em Beira e que vem procurá-lo em São Paulo, onde também conhece Guilherme.

“Quem mais poderia, além do sonho, nos colocar em lugares que nunca pisamos, voar, mesmo sem ter asas, e conhecer pessoas tantas que não caberiam na geografia”

É difícil falar sobre As grandes navegações, porque cada personagem colocado ali tem um papel importante para a história, constrói algo essencial na narrativa.

“Era um sábado à noite, e apesar de tanta gente na sala, de tantos apertos de mãos, de perguntas e respostas ensaiadas num balé do desinteresse, nossos olhos se encontraram e se reconheceram”

Enquanto de Nido conhecemos toda a infância, de Guilherme pouco sabemos e apenas juntamos alguns fragmentos de sua história.

“Acompanhar a infância de Leonildo tem tanto significado quanto omitir a infância de Guilherme”

Além disso, as temáticas são muito fortes e variadas, sem que o fio da meada se perca ao longo das páginas. A amizade é, sem dúvidas, um ponto crucial, mas antes deles muitos outros temas permeiam as páginas deste livro de maneira igualmente importante.

“A amizade é o sentimento mais forte do mundo”

Um livro que nos faz refletir sobre medos, perdas, a dureza da vida e, apesar de tudo, as suas belezas e a importância do sonhar.

“Apesar de também ser cheio, alegre, colorido, o sonho é lugar onde se prepara para a guerra’”

Tive a sorte de ganhar um ebook de As grandes navegações de presente, da Geovana, do capitulo_20 (indico demais, não deixe de seguir), e agora que tive a oportunidade de ler esta obra, sou ainda mais grata pelo presente! Somente depois de entrar em contato com esta narrativa é que pude compreender como e porque ela foi finalista do Prêmio Kindle.

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Contos aleatórios da vida (i)rreal — Fernanda Frankka

Título: Contos aleatórios da vida (i)rreal 
Autora: Fernanda Frankka
Editora:  Publicação independente
Páginas:  23
Ano: 2021 

Sinopse

Três contos que passeiam desde a comédia, o romance até o terror. Casos que poderiam ou não ser reais no nosso mundo atual. Aqui, vocês vão conhecer Henrique, Jack e Anne. Personagens que podem te fazer sonhar ou, nunca pensar em colocar seus pés numa casa de campo no meio do nada.

Resenha

Para quem busca uma leitura bem rápida, aqui vai uma dica interessante, porque em apenas 23 páginas, Fernanda Frankka consegue transitar por estilos literários diversos e nos apresentar três histórias deliciosas de ler.

“Três histórias aleatórias, de gêneros diferentes, igualmente escritos por uma mente que não para de pensar. Espero que sintam a euforia dos que procuram, o frescor dos que amam e da lealdade dos que se conectam”

O primeiro conto desta breve coletânea é No compasso da vida e nele conhecemos Henrique — ou Kito —, um desses caras que adora ir para a balada com os amigos e não sai de lá sem uma mulher.

“Ou a pessoa diz logo o que quer ou então não faz graça”

(No compasso da vida)

Bem no estilo “só pego, não me apego”, Henrique não é um personagem cativante. Muito pelo contrário: que cara chatíssimo! E ainda preconceituoso. Mas ele tinha de ser assim, se não essa história nem existiria.

O título é quase uma grande ironia, porque a vida de Henrique está bem descompassada. E apesar dele ser horrível, quase dá para sentir uma leve dó, por ele ter perdido a chance de talvez conhecer uma garota incrível.

“Pena que a vida não é feita somente de sonhos”

(No compasso da vida)

O segundo conto desta obra é Perfume de amor e este me arrancou algumas gargalhadas de indignação com a criatividade da autora.

Os protagonistas são dois nerds e amigos de infância — Jack e Gabe — e a história toda se desenrola porque Jack se meteu em uma grande enrascada.

Basicamente, ele criou uma poção do amor… E o feitiço virou contra o feiticeiro.

Por fim, temos Terror no campo, para deixar a respiração em suspenso e sentir uns calafrios.

“Eu só quero voltar pra casa e, embora queira esquecer tudo o que aconteceu essa noite, sei que não vou conseguir”

(Terror no campo)

Quatro amigos decidem passar uns dias na casa de campo da família de dois deles, os irmãos Maicon e Anne.

Uma casa de campo, no meio do nada e praticamente abandonada… Como poderia sair algo de bom disso?

E mais: uma casa que tantas pessoas diziam ser… Sim, mal assombrada.

“Penso no diário de minha tia e quantos mais segredos podem estar impressos lá. Mas é algo que não cabe à mim saber. Não mais”

(Terror no campo)

Por mais clichê que possa parecer, o conto é bem construído e é extremamente interessante de ler, nos dando frio na barriga e nos fazendo repensar nossas teorias a cada palavra lida.

Não posso deixar de dizer que além de ter adorado ler esta obra, ótima para termos uma ideia de como é a escrita da autora, a Fernanda é uma fofa e você pode acompanhá-la em suas redes sociais (Instagram | Twitter).

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Um fake dating com benefícios — Tayana Alvez

Título: Um fake dating com benefícios — A atriz e o rockstar 
Autora: Tayana Alvez
Editora:  Publicação independente
Páginas:  434
Ano: 2024

(para ler ao som de Quando um certo alguém — Lulu Santos)

Sinopse

Se você é uma atriz famosa, não siga o seu ex (leia-se cantor mundialmente conhecido) no Instagram.

Depois de um longo hiato na carreira, Beatriz está pronta para voltar às telas. Superado o luto, um coração partido e uma pandemia que mudou o mundo, nada pode estragar o seu retorno… Exceto ela mesma.

Ao seguir – acidentalmente – o babaca que a abandonou no pior momento de sua vida, a garota vê uma fofoca comprometer seu grande retorno. E esse furacão promete prejudicar não só ela, mas também Guilherme Almeida, (_leia-se o babaca_) agora um astro internacional, que retorna ao Brasil após anos fora com sua banda, a Vicious Bonds, com o projeto de conquistar os fãs brasileiros — e abalar todas as convicções de ódio que Beatriz tinha sobre ele.

Pressionados pela opinião pública, os dois concordam que apenas uma coisa pode salvar suas reputações: Um namoro falso. Mas uma mentirinha em nome das próprias carreiras pode se transformar em uma montanha russa de emoções, desafiando Beatriz e Guilherme a confrontarem seus sentimentos, destrincharem o passado e redescobrirem o significado de segundas chances.

Resenha

Comecei a leitura de Um faking date com benefícios só esperando quando esse livro ia me pegar de jeito e fiquei feliz que esse momento demorou a chegar. Mas também, veio com tudo.

“Raios caem duas vezes no mesmo lugar, estrelas cadentes não”

E sim, eu sabia que em algum momento essa história cutucaria alguma ferida, porque é isso que a Tayana Alvez sempre faz (e quem acompanha este blog sabe que eu leio todos os livros dela, mesmo que ela não pague a minha terapia depois).

“É fácil esquecer por algumas horas, mas não sei como seria a vida toda”

Como a autora costuma fazer, a obra é narrada, alternadamente, pelos dois protagonistas: Guilherme e Beatriz.

“— Porque eu acho que eu gosto dele.

— Ah, você acha?”

Guilherme mora fora do Brasil e é o vocalista de  uma banda internacionalmente conhecida: a Vicious Bond.

“A Vicious Bonds parece uma daquelas piadas de péssimo gosto que nossos tios favoritos contavam quando éramos crianças: um brasileiro, um francês, um canadense e um inglês entram num bar”

Mais do que uma banda, aliás, eles são uma família que teve a sorte de se constituir e que canta músicas que arrastam multidões de Vagabonders, como são chamadas as fãs deles.

“Assim como as carinhas deles, as músicas são ótimas. A melodia carrega alma, as letras têm dor, paixão, tristeza e amor. É tudo muito intenso”

Beatriz, por sua vez, é atriz e está voltando às telas brasileiras após alguns anos longe delas (anos que incluem a pandemia).

“Apesar da pandemia, apesar do mundo ter virado de cabeça para baixo, apesar de eu ter ficado quase quatro anos sem atuar e ter perdido muito mais do que isso pelo caminho, o céu daqui ainda é azul o bastante, as ondas vêm e vão da mesma maneira que o vento derruba os arbustos na Serra, e as pessoas já não me assustam tanto”

Assim, aos poucos, vamos conhecendo esses dois personagens e, claro, o passado que eles têm em comum e que vem à tona derrubando toda e qualquer crença — deles e nossas.

“Quanto tempo um amor pode fingir que morreu?”

Beatriz e Guilherme se conheceram muito jovens e tiveram um relacionamento daqueles de fazer inveja. Até que, da noite pro dia, Guilherme terminou tudo e deixou o Brasil. Assim, sem mais nem menos!

“O fato de que boa parte dos fãs da GenZ me odeia porque terminei com a Beatriz do nada e fui embora é um assunto sensível”

Isso é muito claro desde o começo, mas leva um tempo para desconfiarmos das motivações de Guilherme e mais outro tempo para termos a nossa confirmação.

“É culpa do destino. E a gente não pode brigar com o destino; eu já tentei, não dá certo”

Até porque, se tem outra coisa que fica bem evidente é que esses dois ainda se amam. E muito. 

“Durante os quatro anos do nosso relacionamento, Beatriz representou tudo o que eu entendia sobre o amor. Depois da minha partida, ela se tornou as verdades não ditas sobre minha aflição. Anos depois, em nosso primeiro reencontro, ela é uma mistura dos dois, e nunca vai saber disso”

Só que a dor da Beatriz que foi abandonada ainda é muito real e, caramba, como doeu ler tudo isso. São tantos pontos de identificação com essa história, ao mesmo tempo que ela é tão única que é até difícil explicar.

“— Queria poder gostar de Guilherme e lutar para fazer dar certo. — afirmo, mais para mim do que para ela. — Mas a partida dele quebrou alguma coisa no meu coração, e deixá-lo entrar de novo desse jeito é injusto com a Beatriz que ele abandonou.

— E talvez, não o deixar entrar seja injusto com todo o resto da sua vida, Beatriz”

O reencontro entre Guilherme e Beatriz acontece porque ela, num momento de stalk e inabilidade com redes sociais, acaba seguindo o ex no Instagram o que acaba levado os dois a ter de fingir, diante da imprensa, que reataram

“Quero que isso seja encenação. Mas também não quero. E não sei exatamente como lidar com essa antinomia”

E o acordo é claro: esse relacionamento de mentirinha vai durar dois meses. O tempo que a Vicious Bond estará no Brasil.

“Demorei demais para me refazer depois dele para deixar tudo desmoronar por causa de um reencontro com data de validade”

A narrativa, então, se passa num intervalo de um pouco mais de dois meses, mas é tanta intensidade, que poderia ser muito mais também. 

“Cada uma dessas palavras foi planejada há meses, agora parecem erradas. Parte de uma mentira que eu não quero mais contar”

Diante de todos esses fatos, é importante destacar que esta história fala muito sobre como as histórias não têm um ou dois lados. Às vezes têm muito mais.

“Mas foi interessante de um jeito estranho saber que, apesar de tudo, há lugar no qual Guilherme escolheu não nos apagar”

E como a culpa é muito mais complexa do que podemos imaginar.

“É difícil ficar sem quem a gente ama. Dói ser esquecido. Mas pior do que todas essas coisas é o fato de que eu sei que a culpa é minha”

Mas também é uma história sobre o poder das amizades e do amor. Aliás, os demais personagens nos encantam (alguns até mais que o próprio Guilherme) e fico feliz em saber que eles ainda voltarão em outros volumes (porque sim, este é só o primeiro…)

“Enfrentei a dor da perda do meu pai segurando a mão da Nina e, mesmo que eu nunca vá conseguir agradecer o suficiente, sei que não estaria aqui se não fosse por ela”

Um fake dating com benefícios também nos faz refletir muito sobre o perdão.

“Se tem uma coisa que eu percebi nos últimos tempos é que é perfeitamente possível você perdoar uma pessoa e amar essa pessoa, de todo o seu coração, e, ainda assim, não conseguir ignorar toda a dor que ela te faz sentir”

E, como sempre, a diagramação do ebook pode ser simples, mas com detalhes que encantam e que tornam a leitura de tudo isso ainda melhor.

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Tash e Tolstói — Kathryn Ormsbee

Título: Tash e Tolstói 
Original: Tash hearts Tolstoy
Autora: Kathryn Ormsbee
Editora: Seguinte
Páginas:  375
Ano: 2017
Tradução: Lígia Azevedo

Sinopse

Natasha Zelenka é apaixonada por filmes antigos, livros clássicos e pelo escritor russo Liev Tolstói. Tanto que Famílias Infelizes, a websérie que a garota produz no YouTube com Jack, sua melhor amiga, é uma adaptação moderna de Anna Kariênina. Quando o canal viraliza da noite para o dia, a súbita fama rende milhares de seguidores ― e, para surpresa de todos, uma indicação à Tuba Dourada, o Oscar das webséries. Esse evento é a grande chance de Tash conhecer pessoalmente Thom, um youtuber de quem sempre foi a fim. Agora, só falta criar coragem para contar a ele que é uma assexual romântica ― ou seja, ela se interessa romanticamente por garotos, mas não sente atração sexual por eles. O que Tash mais gostaria de saber é: o que Tolstói faria?

Resenha

Eu poderia ter quebrado a cara com esse livro, porque a expectativa estava lá em cima. Mas a verdade é que na primeira página eu já não queria mais largar a história.

“Não importa o que aconteça no futuro, temos isto: contamos uma história que não poderíamos ter contado sem a ajuda um do outro”

Há anos sendo um item da minha wishlist literária, o que sempre me chamou a atenção neste livro foi o fato dele ter uma protagonista assexual romântica. E, por conta disso, sempre ignorei que o Tolstói do título fosse… Tolstói!

“Nos abraçamos todas essas vezes e este abraço é exatamente igual aos outros e totalmente diferente deles”

Tash ainda está indo para o último ano do colégio, mas já tem uma vida e tanto: com sua melhor amiga, ela escreve e dirige uma websérie Famílias Infelizes — que é, nada mais nada menos, que uma adaptação de Anna Kariênina — livro que, aliás, agora preciso muito ler (aceito opiniões nos comentários).

“Solto um suspiro, tentando manter a calma. Às vezes dirigir é como cuidar de uma criança pequena: requer muita paciência, pulmões fortes e a habilidade de convencer criaturas egoístas a fazer o que você quer”

Como se isso já não fosse enredo suficiente para um livro, a websérie acaba viralizando da noite para o dia, então Tash, Jack e todo o elenco têm de lidar com a fama repentina (e com tudo o que ela traz, inclusive o hate), bem como a realização de alguns sonhos e o surgimento de muitas dúvidas.

“Algumas pessoas são um livro aberto — dá para saber o que sentem sem muita dificuldade”

Só que Tash e Tolstói ainda tem muito mais. O livro trabalha temas como amizade e relações familiares, bem como pontos onde esses dois assuntos se misturam e se confundem.

“Não tenho certeza de que estou totalmente bem com isso, mas vou estar. Em algum momento”

E, claro, tem a questão da (as)sexualidade da Tash, que poucas vezes vi tão bem trabalhada quanto vi neste livro.

“Não é engraçado como algo pode ser sério por tanto tempo até que de repente não seja mais? Um dia, vira uma piada”

Talvez o mais fascinante desse livro — que eu fiz questão de devorar, ao mesmo tempo que não queria que acabasse nunca — seja o fato de que nada fica forçado na narrativa. Temas sérios são abordados com leveza e com personagens que possuem suas personalidades tão únicas.

“Quando é um momento oportuno para más notícias?”

E mesmo sendo narrado em primeira pessoa — pela Tash — a narrativa nos permite conhecer em boa medida a Jack, a Klaudie (irmã da Tash, responsável por boa parte — mas não toda — das questões familiares desta história), o Paul (irmão da Jack e melhor amigo da Tash, com um papel importante em suas descobertas) e todo o elenco de Famílias Infelizes.

Por se passar nos Estados Unidos, a história também nos lembra de questões relativas ao ensino superior por lá: nem todo mundo tem a oportunidade de realmente fazer o que quiser (ok, não só por lá, mas lendo o livro dá para entender o que é diferente daqui do Brasil).

“Às vezes você tem que seguir as regras injustas da vida”

A história se passa em alguns poucos meses, mas temos flashes de anos anteriores, necessários para a construção da narrativa. E esses poucos meses do presente também valem por muitos. Quanta coisa pode acontecer em dois ou três meses?

“Não é engraçado como algo pode ser uma piada por muito tempo e de repente não ser mais?”

Acho que isso é o que posso falar desse livro sem dar muitos spoilers. E sim, em alguns momentos você vai sentir raiva de certos personagens. Inclusive da Tash. Mas nas páginas finais você vai querer muito saber como essa história pode terminar. E eu gostei da forma que a autora uniu o início ao fim da narrativa.

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Crônicas da surdez — Paula Pfeifer

Título: Crônicas da surdez — aparelhos auditivos 
Autora: Paula Pfeifer
Editora: Publicação independente
Páginas:  126
Ano: 2020

Sinopse

Paula Pfeifer é uma surda que ouve — e que fala — graças a dois ouvidos biônicos. Começou a perder a audição progressivamente na infância. O diagnóstico correto chegou na adolescência, mas a vergonha da própria surdez a impediu de usar aparelhos auditivos por muitos anos.

A jornada da deficiência auditiva foi muito solitária e assustadora, e a publicação deste livro celebra a sua saída definitiva do armário da surdez. “Crônicas da Surdez” reúne textos que contam sua história, experiências com o uso de aparelhos auditivos, reflexões sobre vergonha, aceitação, direitos, além de contar algumas aventuras num mundo que ainda não tem toda a acessibilidade necessária.

Foi indicado ao Prêmio Biblioteca Nacional e matéria na revista Vogue Brasil, Vogue Portugal, Marie Claire, em inúmeros programas de TV e nos principais jornais brasileiros.

Resenha

A leitura de Crônicas da surdez é fácil: sua linguagem é simples e faz parecer que a autora está conversando conosco.

“Conviver com a surdez requer uma boa dose de bom humor e paciência”

Ainda assim, senti certo estranhamento no início. Algo me incomodava nas palavras delas. Provavelmente porque esqueci, logo de cara, do próprio alerta da autora.

“Este livro é filho do seu tempo. Foi escrito no início de 2013, quando eu era usuária de aparelhos auditivos. De lá para cá, muita coisa mudou. Hoje, escuto todos os sons do mundo através de dois ouvidos biônicos”

A verdade é que a surdez é múltipla e, ainda que nenhuma experiência seja individual nesta vida, por mais que eu já tenha estudado um pouco da comunidade surda, ela é tão ou mais diversa que a comunidade ouvinte. E eu estava acostumada ao grupo que optou (ou não podia mesmo optar) por aparelhos auditivos e implantes cocleares.

“Como se não bastasse a surdez ser um monstrinho de sete cabeças, ela ainda é heterogênea: existem diferentes graus e tipos de surdez, o que também gera formas diversas de comunicação”

Mas se engana quem imagina que esta obra é apenas para surdos, para que quem está perdendo ou nunca teve audição sinta-se abraçado(a).

“Sempre quis ler o que um surdo oralizado tinha a dizer a respeito de suas conquistas, dúvidas, alegrias e tristezas”

O livro também serve para conscientizar muitos ouvintes sobre uma realidade tantas vezes ignorada.

“A família vive a surdez conosco”

Crônicas da surdez é dividido em três partes.

Na primeira, mergulhamos no universo da surdez, entendendo um pouco da sua multiplicidade, mas também conhecendo melhor o percurso da própria autora neste meio, afinal, ela não nasceu surda, mas foi perdendo a audição durante a infância e teve de se adaptar a uma vida um pouco diferente.

“Precisamos jogar com as cartas que temos em vez de passar longos anos lamentando a falta das cartas que gostaríamos de ter. A vida é curta”

Na segunda parte, a autora nos conta alguns causos de sua vida, sempre buscando incentivar as pessoas a se aceitar, a buscar ajuda e, acima de tudo, qualidade de vida.

“É preciso ter em mente que acessibilidade não pode custar caro e deve ser algo que qualquer pessoa consiga acessar 24 horas, sete dias por semana”

Por fim, na terceira parte, a autora traz alguns depoimentos que recebeu ao longo dos anos, pois ela escreve muito sobre o assunto. E é interessante ver algumas histórias contadas por outros pontos de vista e também a reação da autora a essas narrativas.

“Existe algo mais vergonhoso do que envergonhar‑se de si mesmo?”

Aliás, Paula Pfeifer tem um grande trabalho relacionado à comunidade surda, com muito material e incentivo, principalmente àqueles que pensam em implantes cocleares ou aparelhos auditivos. Ela fala muito sobre tudo isso ao longo de todo o livro.

“O projeto se chamou Surdos Que Ouvem e foi um sucesso. Milhões de pessoas assistiram a nossa campanha de vídeos, milhares participaram dos nossos eventos e incontáveis pessoas passaram a usar aparelhos auditivos (ou fizeram um implante coclear) após conhecer o nosso trabalho”

Mas você também pode conhecer melhor o seu trabalho seguindo-a em suas redes sociais: Instagram | Linkedin | Newsletter

E, claro, não deixe de adquirir seu exemplar de Crônicas da surdez clicando abaixo.

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A cor púrpura — Alice Walker

Título: A cor púrpura 
Original: The color purple
Autora: Alice Walker
Editora:  José Olympio
Páginas:  355
Ano: 2021 (25º edição)
Tradução: Betúlia Machado, Maria José Silveira e Peg Bodelson 

Sinopse

Alguns dos personagens mais marcantes da literatura norte-americana recente estão neste livro – ganhador do Pulitzer e do American Book Award –, que inspirou a obra-prima cinematográfica homônima dirigida por Steven Spielberg e o aclamado musical da Broadway, adaptado para o cinema.

A cor púrpura , ambientado no Sul dos Estados Unidos, entre os anos 1900 e 1940, conta a história de Celie, mulher negra, pobre e semianalfabeta. Brutalizada desde a infância, a jovem foi estuprada pelo padrasto e forçada a se casar com Albert, um viúvo violento, pai de quatro filhos, que enxergava a esposa como uma serviçal e fazia dos sofrimentos físicos e morais sua rotina.

Durante trinta anos, Celie escreve cartas para Deus e para a irmã Nettie, missionária na África. Os textos têm uma linguagem peculiar, que assume cadência e ritmo próprios à medida que Celie cresce e passa a reunir experiências, amores e amigos. Entre eles está a inesquecível Shug Avery, cantora de jazz e amante de Albert.

Apesar da dramaticidade do enredo, A cor púrpura é uma história sobre mudanças, redenção e amor. A partir da vida de Celie, a aclamada escritora Alice Walker tece críticas ao poder dado aos homens em uma sociedade que ainda hoje luta por igualdade entre gêneros, raças e classes sociais. Eleito pela BBC um dos 100 romances que definem o mundo, A cor púrpura é um retrato da vivência da mulher negra na época da segregação racial, cujos reflexos ainda estão presentes na nossa sociedade.

Resenha

Em janeiro de 2020, uma amiga me convidou para assistir ao musical A cor púrpura (inclusive, escrevi sobre isto aqui). Até então eu não sabia nada sobre esta história — e esta obra literária — mas lembro que saí totalmente encantada do teatro, querendo mais e mais. 

“Mamãe Netti, ele falou, sentado na cama ao meu lado, como você sabe quando realmente ama uma pessoa?”

Depois de muito tempo, finalmente o livro chegou até mim, e por muito tempo mais eu tive medo de encará-lo. Mesmo sabendo que a história era ótima, se tratava de um clássico, então tinha medo de como poderia ser a sua linguagem, o que, por si só, já demonstra o quão pouco eu havia absorvido naquele espetáculo.

“Já é duro o bastante tentar levar a vida sem ser maluco”

Sim, porque a linguagem deste livro é um dos primeiros pontos que temos a destacar sobre ele: ela é simples. Não necessariamente fácil, mas simples. 

“Se ele alguma vez escutasse uma pobre mulher negra o mundo seria um lugar bem diferente, eu posso garantir”

Isto porque o livro é epistolar e quem escreve a maioria das cartas é Celie, uma mulher negra e semianalfabeta. E este é outro ponto de destaque neste livro: seus personagens, em toda sua simplicidade, são extremamente ricos

“Ela brigou, ela fugiu. Que que isso trouxe de bom? Eu num brigo, eu fico onde me mandam. Mas eu tô viva”

A história se passa nos Estados Unidos, numa época em que a segregação racial ainda era muito marcada e poder acompanhar o dia a dia de personagens negros neste contexto nos leva a muitas reflexões.

“É um milagre como os branco conseguem afligir tanto a gente, Sofia falou”

Por meio das cartas de Celie, ora endereçadas a Deus, ora endereçadas a Nettie, sua irmã mais nova que parece ter tido um pouco mais de sorte na vida, vamos mergulhando nesta história que fala sobre perdas, famílias, preconceito.

“Começa a parecer que é difícil dimais continuar a viver”

Celie tem uma vida muito sofrida: seu pai abusou dela, depois a fez se casar com um viúvo cujos filhos apenas a maltratavam (não que ele também a tratasse muito melhor). E, no meio disso tudo, ela ainda se vê obrigada a se afastar de Nettie, sua única alegria nesta vida.

“Todo mundo quer ser amado. A gente canta e dança, faz careta e dá buquê de rosa, tentando ser amado”

No meio de tanta adversidade, porém, Celie tem a oportunidade de conhecer Shug Avery e, com ela, aprender muito sobre o mundo, sobre o amor e sobre si mesma.

“Afinal, Albert sabia tanto quanto eu que o amor tinha que ser dimais pra ser melhor que o nosso”

Aliás, dizer que esta história fala sobre amores pode parecer simplista demais, mas não temos como ignorar, também, a presença de um amor forte, puro e que foi escrito numa época que este tipo de amor era ainda menos aceito que nos dias de hoje.

“Alguém para onde fugir. Parecia bom dimais pra durar”

Para além dos assuntos já mencionados, A cor púrpura é uma história que consegue nos fazer pensar sobre religião, colonização — inclusive tem passagens da Nettie que são verdadeiras aulas com relação a isso — e sobre nosso lugar no mundo.

“Por que eles nos venderam? Como é que eles puderam fazer isso? E por que será que nós ainda assim os amamos?”

Outra questão que chamou muito minha atenção foram os nomes — ou, em alguns casos, a ausência deles — e a importância que se dá àquilo que é nomeado.

“Faz o Harpo chamar você pelo seu nome verdadeiro, eu falei. Aí quem sabe ele vai ver você mesmo quando tiver com um problema”

A cor púrpura é um daqueles livros que não queremos largar. Os capítulos são, em sua maioria, relativamente curtos, o que ajuda bastante no processo de “só mais um pouquinho”.

“E eu tento ensinar meu coração a num querer nada que ele num pode ter”

Também é uma daquelas obras que me faz ficar pensando no trabalho que foi traduzi-la (não à toa, esta edição conta com três nomes para essa função): como terá sido o processo de encontrar o tom certo para Celie?

Por fim, esta é uma história que vai te fazer ter vontade de se aproximar de Celie, bater em Albert, se apaixonar por Shug Avery (quem não é apaixonado por ela?), torcer por Nettie, lutar por e com Sofia… Enfim, uma história marcada por ótimos personagens e uma narrativa extremamente necessária.

Li A cor púrpura na edição física da José Olympio e achei a diagramação bem limpa e confortável. O papel off-white também contribuiu para uma leitura agradável.

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Quero andar de mãos dadas — Victor Lopes

Título: Quero andar de mãos dadas 
Autor: Victor Lopes
Editora: Publicação independente
Páginas:  412
Ano: 2017

(Para ler ao som de Esquinas — Banda Refúgio. Eu poderia colocar tantas músicas aqui, mas toda a renda desta será revertida para o Instituto Bem do Estar).

Sinopse

Johnny e Nicholas não se conheciam, mas desde que se encontraram pela primeira vez, viram que momentos bons podem existir em meio a sentimentos ruins e a uma vida onde nada parece estar do jeito certo. A partir desse encontro quase sem querer, surge uma amizade e um desejo adolescente que só cresce com as conversas, as opiniões musicais compartilhadas e os segredos confessados. O que dois jovens garotos com um sentimento em comum um pelo outro podem fazer para se sentirem livres e viverem algo bom quando tudo ao redor parece conspirar contra? Mais do que isso, como lidar com os próprios pensamentos e opiniões indo de encontro aos seus desejos mais profundos e verdadeiros? “Quero andar de mãos dadas” é um romance LGBT sobre um amor adolescente, a importância da família e a necessidade de lidar com coisas muito maiores que a própria vontade para que se possa ser feliz.

Resenha

Iniciei a leitura de Quero andar de mãos dadas sem expectativa alguma. Adquiri o ebook em 2019 e, apesar de conseguir detectar diversos elementos na sinopse que possam ter despertado meu interesse, não sei o quê exatamente me fez comprar o ebook.

“Mesmo sabendo de tudo eu não sabia de nada”

Ao embarcar nas primeiras páginas desta obra, achei que este seria só mais um ebook com alguns lugares comuns neste tipo de história: jovens adolescentes que estão se descobrindo gays e que não podem ficar juntos, famílias homofóbicas e depressão (sempre tem alguém com depressão em histórias assim).

“Eu definitivamente nunca passara por isso, seria possível que meus hormônios estivessem finalmente se erguendo de seus túmulos?”

A verdade, porém, é que encontrei muito mais. Mas antes de me aprofundar na história é preciso dizer que sim, há gatilhos. Há cenas de violência doméstica e de automutilação, além de toda a questão da depressão abordada.

“Respirei fundo, afastando meus pensamentos para bem longe, tentando evitar pensar que eu poderia arruinar tantas vidas se soubessem a verdade sobre minha sexualidade, e me esforçando mais ainda para não lembrar do Johnny”

A história é narrada, alternadamente, pelos dois protagonistas: Johnny e Nicholas.

“Ao abraçar o garoto que eu gostava foi como se eu dissesse ao mundo que queria parar, que não queria mais jogar o jogo em que fora colocado”

Johnny já é assumido para sua família, o que não significa que sua vida seja só flores, mesmo que o bom humor dele seja quase inabalável.

“Mas a verdade é que tudo estava ótimo assim, mesmo com problemas e preocupações extras, talvez esse fosse o verdadeiro significado de viver e eu finalmente estava experimentando a vida. Eu só queria que tudo fosse um pouco menos complicado, queria ouvir verdades por piores que fossem e ter a certeza de que por mais feio que tudo parecesse, tudo estava indo e acontecendo e seguindo em frente”

O jovem mora com a mãe — que está em depressão — e com o padrasto, que claramente é uma pessoa extremamente tóxica e que só faz mal para quem está ao seu redor.

“É bem verdade que ninguém sabe realmente o que se passa na vida dos outros, assim fica fácil querer ser alguém diferente, para se ter apenas momentos de felicidade não exigiria muito esforço”

Por outro lado, Nicholas parece ter a vida perfeita: uma família unida, equilibrada e feliz. Até a segunda página, claro.

“Eu minto para o mundo sobre quem eu sou, mas, antes disso, minto para mim mesmo”

O problema de Nicholas é que ele tem certeza que não pode revelar para sua família quem ele é verdadeiramente. E, aos poucos, fica muito claro como esta é uma família que simplesmente não conversa de verdade. 

“Perceberam, eu acho. Mas a gente não fala sobre isso, é melhor deixar para lá e fingir que está tudo bem. Até porque é assim que as coisas melhoram”

Isso é um problema enorme, porque o que Nicholas faz é carregar um peso tremendo, sem ter a certeza de que ele é realmente necessário (bom, ele tem certeza de que é. E tem gente que sabe que não pode arriscar descobrir).

“Posso estar prestes a fazer com que a vida de várias pessoas entre em colapso, mas ter o Johnny comigo faria com que tudo parecesse estar bem”

Algumas pessoas talvez achem exageradas as reações de Nicholas, podem até considerá-lo dramático demais, dizer que não precisava de tanto. Mas quem tem uma mente ansiosa e que sempre imagina os piores cenários provavelmente vai entender os pensamentos do personagem.

“Eu precisava respirar fundo. Desliguei o celular, sem querer falar com ninguém e precisando ficar sozinho. Estava faminto, mas não queria passar pela sala, pois sabia que eles estariam conversando sobre mim e minhas mentiras, minha mãe estaria chorando por saber que sou gay e meu pai estaria pronto para me punir. Eu era uma decepção e um exemplo a não ser seguido”

Os dois se conhecem através de uma pessoa em comum: Lavínia, a melhor amiga de Johnny e prima de Nicholas.

“Eu o olhava sem conhecê-lo de verdade e era como se houvesse algo ali que me incomodava e me atraía, muito além da beleza dele”

O primeiro encontro deles é totalmente despretensioso, mas uma chama se acende ali e suas vidas viram do avesso.

“Levei dezesseis anos para construir minhas proteções e entender como elas funcionavam, para aceitar como eu me sentia bem assim, atrás delas. Mas não foi preciso nem três meses para que tudo fosse completamente destruído”

Em meio à ansiedade da última semana de aula, seus problemas pessoais, seus medos e suas descobertas, os dois vão se aproximando, se apaixonando intensamente e sofrendo na mesma medida.

“Mas eu olho para mim e vejo as coisas virando de ponta cabeça”

Através deste emaranhado de acontecimentos, somos levados a pensar sobre preconceito, saúde mental, medos e, claro, a importância de se conversar de verdade

“Nada melhor para arrumar algo do que botando tudo para fora”

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