Citações #90 — Um fake dating com benefícios

Digo e repito sempre: sou muito fã dos livros da Tayana Alvez e com Um fake dating com benefícios, publicado em 2024, não foi diferente. Por isso, hoje trago alguns (vários) trechos que ficaram de fora da resenha

O que mais me encanta na escrita da autora é que ela consegue abordar, de maneira inteligente e envolvente, temas muito importantes. Neste livro, posso citar, por exemplo, a forma como a autora trata das marcas deixadas pela pandemia do coronavírus.

“Contudo, o fim da pandemia devolveu o sol para uma vida que, até então, era de um inverno constante e me permitiu, aos poucos, conseguir sair de casa, reconquistar uma rotina ‘normal’ e interagir com as pessoas sem que o pânico que a doença me causou por anos me dominasse”

“E, por Deus, o covid tirou muitas coisas de mim, não tinha a menor chance dele tirar toda a minha vida das minhas mãos também”

“Dois anos se passaram desde o fim do caos, mas alguns de nós vão ter sequelas para sempre”

Por outro lado, como o próprio título da obra talvez possa sugerir, um dos temas centrais é, sem dúvidas, o amor e suas complexidades

“Só que, ainda assim, não posso fingir que não sinto nada, quando a verdade é que, todas as vezes que termino de ler a lista antes de ir a um dos nossos encontros, uma voz alta e clara toma minha cabeça dizendo que está tudo bem ele ser um problema. Afinal, eu sempre fui uma aluna nota dez em matemática”

“Isso não é paixão e muito, muito menos, amor. É só nostalgia e carência”

“Mas no amor os resultados lógicos raramente existem”

“Já ouvi que o amor é um sentimento, é o encontro de dois acasos, é uma escolha, mas a verdade é que o amor é exatamente como o mar: uma força, irrefreável e impiedosa, que lança nossas certezas por terra e acaba com cada plano que temos para contê-lo; amar alguém é incrível na mesma medida que perigoso”

“Beijar na boca é gostoso. Beijar alguém por quem você se atrai é uma delícia. Mas nada se compara a beijar a única mulher pela qual você sempre foi apaixonado”

“Eu sou maluco por essa mulher. Ela gosta de mim. E isso devia ser o suficiente”

“Se gosta tanto de mim, por que me largou aqui sozinha, Guilherme?”

“Na verdade, o amor que vejo em seus olhos todas as vezes que ele olha para mim é o mais perto que cheguei do meu coração explodir em anos”

“Queria odiar essa sensação. Queria detestá-lo, lembrar o tempo inteiro que ele foi embora e como foi, mas é o que Nina me disse: não consigo”

“O amor é a linha invisível que nos liga à lucidez. O amor é a força invisível que nos impulsiona a seguir”

“— A gente ama as pessoas apesar das coisas, não por causa das coisas, Beatriz”

“Qual verdade? — A de que a vida pode ser boa de muitos jeitos, mas não vale a pena sem amor”

Acredito que muitos dos trechos acima também vão nos levando a outro ponto importante para esta narrativa: o passado e alguns erros que ele esconde.

“São letras sobre amor, dor e culpa. Cada uma delas conta os fragmentos de uma história que jurei deixar morta e enterrada no passado”

“E eu gostaria que isso não fosse uma lembrança, mas é”

“Nós éramos fortes, feitos para nunca quebrar. E a única coisa que nos mantém longe é eu não saber porque nós quebramos”

“Talvez contar o que aconteceu não destrua tudo no fim das contas”

“Nós sabemos. Temos completa certeza de que o passado vai nos destruir”

“Na verdade, o tempo não cura nada”

“Mas o passado não é um lugar no qual a gente possa mexer…”

“Talvez não exista culpa, talvez as coisas tenham acontecido como deveriam e foi uma sucessão de equívocos que nos trouxe até aqui”

Uma história que carrega muitas dores, mágoas e a necessidade do perdão.

“Dois milhões de justificativas para dar, mas vejo em seus olhos escuros e perdidos que ela não se importa. Não mais”

“Às vezes, tudo que você precisa é de uma pessoa que ame de todo o coração bebendo água de coco na orla com você, depois de uma manhã de trabalho. E, às vezes, tudo o que o outro merece é o melhor de você depois de tanto tempo encarando apenas o pior e decidindo ficar”

“Você me traiu da pior forma que alguém pode trair outra pessoa: jurando que era pro meu bem”

“Perdoar, nunca vai significar esquecer”

Outra coisa que chama a minha atenção na escrita da Tayana é a sua capacidade de criar personagens tão reais e, também, tão incríveis. A forma como ela retrata o ser humano é precisa, marcante.

“Homens sensíveis são perigosos, eles cuidam de você, cantam para você e aí, pronto, você dorme agarrada neles. Mais especificamente, sendo a parte de dentro da conchinha”

“E todas essas pequenas grandes coisas fazem da minha amiga o meu xodó, aquilo que me traz esperança na humanidade”

“— Às vezes, as pessoas acham que sabem o que estão fazendo quando, na verdade, não têm a menor ideia”

E, claro, ela não se esquece jamais de colocar pessoas pretas como protagonistas, fazendo questão de nos lembrar do básico.

“É bom, é simplesmente bom saber que pessoas pretas e periféricas também conseguem realizar sonhos”

Por fim, acho importante destacar que os livros dessa autora sempre nos deixam lições marcantes, que com certeza vão variar muito de pessoa para pessoa, de acordo com o momento que estamos vivendo e aquilo que acreditamos, mas que, de uma forma ou de outra, estarão ali, ecoando em nós.

“Tentar fingir que você não quer ser feliz quando tudo o que precisa está a dois passos?”

“A vida é maior. Maior que a dor, a insegurança, a reclusão e o rancor”

Se você gostou dos quotes que encontrou aqui, não deixe de ler a resenha completa, para saber mais sobre este livro!

O que todo pedagogo precisa saber sobre comunicação inclusiva — Eduardo de Campos Garcia

Título: O que todo pedagogo precisa saber sobre Comunicação Inclusiva 
Autor: Eduardo de Campos Garcia
Editora: Wak Editora
Páginas: 128
Ano: 2019 

Sinopse

Este livro fala sobre os possíveis meios e modos de comunicação existentes para um trabalho efetivo e significativo a ser realizado com todo e qualquer ser humano, seja ele ouvinte, surdo, cego etc. Tem como objetivo colocar na mesa assuntos que, até então, tornavam o tema tabu que, talvez, por insegurança, afastavam pessoas que deveriam estar próximas. Seus capítulos, embora não definam problemas, procuram amenizar a dúvida e apresentam as possibilidades para a prática da comunicação assistiva e inclusiva.

Resenha

Uma leitura que fiquei em dúvida se traria para cá, mas que acabei me inspirando a escrever a resenha na semana de dia dos professores e que, por fim, não postei devido ao meu pequeno sumiço deste espaço (que comentei brevemente aqui). 

O que todo pedagogo precisa saber sobre comunicação inclusiva é uma obra curtinha e bem fácil de ler, pois o autor escreve como se estivesse conversando conosco. 

“Comunicar algo, em muitos momentos, é fazer com que a ideia comunicada pareça uma verdade, muitas vezes inquestionável”

O fato da obra ser curta e fácil é bom e ruim ao mesmo tempo. Bom porque torna o conhecimento contido nela acessível, mas ruim porque ele é um tanto quanto superficial. 

“Mas, nem todo pensamento é flexional e linear”

Para chegar à comunicação inclusiva, o autor inicia o percurso com o capítulo Comunicação: conceito e história, no qual ele traz algumas definições do que é comunicação.

Em seguida, Eduardo Campos traz o capítulo Cuidado! Nem tudo, embora pareça, é comunicação alternativa e suplementar. Aqui, o autor explica o que seria uma comunicação alternativa e suplementar, dando exemplos do que se encaixa ou não nessas categorias.

Por fim, no quarto capítulo — de título Tecnologia assistiva: usabilidade por meio de outros recursos — o autor nos apresenta diversas coisas presentes no nosso cotidiano, e que são importantes para a inclusão. Até mesmo o esporte entra neste grupo e isso foi bem interessante de aprender.

“A prática esportiva estimula não apenas o desenvolvimento neuromotor, o fortalecimento muscular e o equilíbrio mas também a comunicação e a formulação de estratégias”

Apesar de ter achado a obra superficial e até um pouco repetitiva em alguns pontos, consegui refletir sobre alguns elementos e aprender coisas interessantes com ela, como a diferença que existe nos pisos táteis, que podem ser divididos em pisos de alerta e pisos direcionais. 

“Relevante é entender que o que é convencional para determinada cultura não o é para outra”

A obra também oferece algumas atividades ao final de cada capítulo, que servem tanto para verificar se o que foi apresentado foi realmente compreendido, quanto para ampliar nossos horizontes. 

O que todo pedagogo precisa saber sobre comunicação inclusiva é um livro indicado para quem está adentrando o mundo da inclusão e da comunicação e não faz ideia de onde começar. 

“Nem todo mundo processa a linguagem da mesma forma”

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Ler faz bem (mas não importa a ninguém) [tradução 39]

Introdução 

Depois de um longo tempo sumida aqui do Blog (falei um pouco sobre isso aqui), finalmente trago um post novo. E, para marcar este retorno, escolhi traduzir um artigo cujo título chamou minha atenção, porque um dos intuitos deste espaço é justamente incentivar a leitura (inclusive, se você conhece alguém que colocou nas metas deste ano ler mais, já convida para conhecer esse espaço e trocar uma ideia).

Desfrute abaixo da tradução de Ler faz bem (mas não importa a ninguém), escrito por Maria Teresa Carbone e publicado originalmente no Il Manifesto, em 8 de agosto de 2024.

Tradução 

Que o hábito da leitura (de livros, não de mensagens de whatsapp) faz bem, é coisa que já se sabe. Mas se por acaso passou despercebido a alguém os infinitos artigos nos quais são elencadas as vantagens físicas e psicológicas escondidas entre as páginas de um romance ou de um ensaio, de uma antologia poética ou mesmo de um bom livro de receitas, eis que María J. García-Rubio e Ana Merino, no La Vanguardia, repropõem o tema à luz das mais recentes descobertas da neurociência.

O ponto de partida, como já havia explicado Maryanne Wolf no seu Proust e il calamaro (Editora Vita e Pensiero), é que ler — diferentemente do caminhar e do falar — não é uma característica inata aos seres humanos, uma vez que a escrita existe há “apenas” seis mil anos. Em outras palavras — explicam García-Rubio e Merino — “do ponto de vista neurocientífico, a leitura não está ligada a áreas cerebrais específicas, como, por outro lado, acontece com a visão, o olfato, a audição”. Este, que poderia parecer um problema, tem, contudo, consequências positivas, porque o cérebro da menina e do menino que aprende a ler é obrigado a encontrar uma — de certo modo inédita — “especialização” que envolve várias regiões cerebrais: “o giro supramarginal, o giro angular, as áreas frontais relacionadas aos processos motores envolvidos na articulação, e as áreas occipitais responsáveis pelo processamento de estímulos visuais como as letras, sem contar as áreas ligadas à memória, ao significado e ao conteúdo emocional dos grafemas e fonemas”.

Em resumo, um treinamento que faz parecer àquele dos atletas para as Olimpíadas uma piada, e que traz consigo, conforme aumenta o nível de complexidade dos textos, outros benefícios em termos de concentração, atenção e capacidade de empatia. De acordo com os últimos estudos sobre o tema, trazem à tona García-Rubio e Merino, a leitura reduz os níveis de estresse, porque “quando lemos são liberados neurotransmissores ‘bons’ como a dopamina e a ocitocina” e “retarda o envelhecimento, graças ao conceito de reserva cognitiva, uma espécie de ‘dispensa do conhecimento’ com a qual o cérebro se reabastece”. 

Diante de dados como esse, poderia-se esperar um assalto generalizado às livrarias e bibliotecas. Ao contrário, infelizmente devo dizer, quanto mais os cientistas demonstram, com estudos em mãos, que a leitura é um salva vidas, menos se lê. E não estamos falando só da Itália onde, sabe-se, a paixão pelos livros nunca foi um esporte de massa, mas de países há anos considerados como paraísos de leitores. 

Os últimos números sobre a leitura dos adultos no Reino Unido são uma dolorosa confirmação disso: como escreve Ella Creamer no Guardian, mostrando os resultados do relatório The State of the Nation’s Adult Reading, 35% dos cidadãos britânicos maiores de 16 anos declara ser um ex leitor, “ou seja, uma pessoa que lia regularmente por prazer, mas agora faz isso raramente ou nunca”. Este é, provavelmente, o dado mais melancólico da pesquisa, mas existe um outro ainda mais inquietante: o grupo etário entre 16 e 24 anos registra o nível mais baixo de leitores regulares (32%). E mais: 44% dos “jovens adultos” declara se considerar um ex leitor.

Para redimir estes desertores da leitura, será suficiente sacudir debaixo dos olhos deles as pesquisas da neurociência? Duvidamos e duvidam também os editores que, na metade de julho (escreve sobre isso Porter Anderson no Publishing Perspectives) na Feira do Livro de Frankfurt e na Feira do Livro para Jovens de Bolonha anunciaram em um comunicado conjunto que “às atividades das feiras para o desenvolvimento do livro serão acrescentados um centro de negócios sobre jogos”. 

Conclusão 

Ler é uma delícia, para além de qualquer benefício que estudos científicos possam descobrir com relação a este hábito. 

É uma pena, portanto, que poucas pessoas tenham consciência disso, mas, principalmente, que haja pouco incentivo para o florescimento deste hábito, ainda que, nos últimos tempos, temos visto redes sociais como o Tik Tok ajudando a disseminar e incentivar este hábito.

Recesso — Claus Castro

Título: Recesso 
Autor: Claus Castro
Editora: Telha
Páginas: 236
Ano: 2022 

Sinopse

Em meio à pandemia do coronavírus, um professor desiludido com a vida, profissão e relacionamentos se vê impedido de deixar sua rotina caótica, lutando contra o tempo para se libertar da pior prisão em que já foi posto.

Recesso é um romance que busca sintetizar todo o desprezo e o sentimento de fracasso passado ao longo da carreira do autor até o momento.

Resenha

Sabe quando um livro simplesmente surge na sua frente e a sinopse te faz dizer “ok, essa será minha próxima leitura”? Pois foi isso o que aconteceu com Recesso, cuja temática é de grande interesse para mim. 

“A chave estava em não procurar por uma entrada”

Donizete (ou Doni) é um professor que, aos 30 anos, está desiludido com tudo: o emprego, as relações humanas, a vida.

“Todo propósito de uma vida pode ser resumido em chegar no instante em que ela acaba”

Narrada por ele, a história se torna densa e, em muitos pontos, incômoda, o que não poderia ser diferente diante do momento em que ele vive e as situações que o circundam.

“Minha bússola era o mero acaso e em minha direção vinha o desconhecido”

Tantas críticas já foram feitas ao ensino brasileiro, principalmente àquele público, mas através da história de Doni podemos enxergar o outro lado: o do professor que tem de dar tudo de si para receber tão pouco em troca.

“Você precisa estar preparado para tudo e isso não existe”

O protagonista desta história não é concursado, mas um professor substituto, coisa que, infelizmente, tem se tornado tão comum nas escolas. 

“Estamos transformando o mundo em algo que não pode ser vivido, trancando nossos sonhos à luz do dia e escrevendo sobre eles em quartinhos escuros”

Esses professores são jogados em escolas que podem ser perto ou distantes de suas residências, e cobrem licenças e afastamentos. Estão ali temporariamente, na incerteza do amanhã.

“Esse sistema, essa rotina, essa ansiedade, fazem com que eu não veja a hora do dia terminar e de começar outro, para ver seu fim outra vez”

Diante desse cenário, não seria de se espantar que Doni tivesse uma vida cheia de problemas. Mas, para melhorar a situação, ele também é um viciado em álcool e sexo.

“Tudo corria mais ou menos bem e não estava sendo nada mal ter algumas expectativas não correspondidas a essa hora”

O personagem se afoga na vida e nos vícios e é difícil não ir afundando com ele, percebendo o quanto estamos errando e fazendo tão pouco para melhorar as perspectivas.

“Seja lá o que estamos fazendo, é melhor pararmos, e pararmos depressa. Estamos perdidos e perdendo-os, um por um, dizendo para nós mesmos que não há nenhuma salvação possível. Somos nós os próprios carrascos daqueles que um dia juramos libertar”

Há, ainda, um agravante importante para esta narrativa: a pandemia do coronavirus. Imagina viver toda essa profusão de sentimentos num momento tão caótico para a humanidade. É difícil não se identificar em alguma medida.

“Era a corrida da morte, uma grande fuga de algo que não enxergamos, mas que víamos em todos os lugares, um verdadeiro ‘salve-se quem puder’”

Com palavras ácidas e diretas, Claus Castro, através de Doni, consegue nos fazer refletir sobre capitalismo (e seus absurdos), solidão, educação (e, muitas vezes, a falta dela), sonhos e hipocrisias.

“Na escola não respeitamos os jovens. Nas ruas não respeitamos os velhos. Como pode se ter um presente assim?”

Foi estranho, depois de um longo período, ler uma história com um protagonista masculino e hétero, que me despertou tantas lembranças de pessoas parecidas e ao mesmo tempo tão diferentes dele. 

“Não há respostas o suficiente para minhas perguntas”

A forma como as mulheres são retratadas ao longo das páginas (lembrando aqui que o personagem tem o seu vício em sexo, ao mesmo tempo que é extremamente solitário) foi algo que há tempos eu não via e que, com certeza foi um baque, principalmente por me lembrar que muitas vezes somos vistas assim.

“Pode levar o tempo que for, você nunca irá entender completamente, nem em parte, nem minimamente uma mulher, não importa a idade que ela tenha ou que pensa que carrega”

Se você quer saber mais sobre o Doni e seus questionamentos e revoltas contra o mundo que vivemos, clique abaixo para saber mais e adquirir seu exemplar. 

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Citações #89 — Crônicas da surdez

Há tempos me interesso pelo assunto surdez. Não sei muito bem o porquê do interesse, mas é sempre um prazer poder aprender um pouco mais sobre o tema.

Com isso, não é de hoje que o trabalho da Paula Pfeifer tem estado no meu radar e esse ano eu finalmente li Crônicas da Surdez, cuja resenha você encontra aqui

Logo no início da obra há um esclarecimento muito importante sobre o que ela irá nos apresentar, ao mesmo tempo em que a autora tem a oportunidade de abordar uma questão de extrema importância: a heterogeneidade da surdez. 

“Vamos esclarecer de uma vez por todas: a surdez não é homogênea, não existe certo nem errado quando se trata da forma pela qual um surdo escolheu para se comunicar e viver. Sou a favor do respeito à diversidade de escolha. O que funciona para mim pode não funcionar para você, e vice‑versa. Não tenho nada contra a língua de sinais e admiro muito os surdos bilíngues (que dominam o português e a LIBRAS). São tantos surdos com experiências de vida e comunicação distintas que quis escrever este livro para me comunicar com aqueles que vivem as mesmas situações que eu. Minha vivência com a língua de sinais e com surdos sinalizados é praticamente nula”

“Quando você lê a palavra “surdo”, o que lhe vem à cabeça? Pois saiba que a surdez é uma deficiência heterogênea. Não há uma definição única, e existem vários graus de perda auditiva”

Aliás, a autora nos lembra, como não poderia deixar de ser, que cada deficiência é única e traz as suas dificuldades, mas também a oportunidade de desenvolver algumas habilidades.

“Só que não existe deficiência melhor ou pior. Ao contrário, cada deficiência afeta e prejudica a vida da pessoa que convive com ela das mais variadas maneiras – é impossível e seria muito injusto escolher a pior de todas”

“A surdez torna as pessoas mais observadoras. A visão fica mais aguçada, e você passa a prestar atenção em coisas que antes passavam batido. Em especial, no comportamento humano”

O tema no qual ela mais se centraliza nesta obra, porém, é o da importância de buscar profissionais capacitados para atender e te ajudar em sua deficiência e, principalmente, não ter vergonha dela. Não se esconder, mas sim encarar a realidade

“Quando a surdez se manifesta na infância, são pouquíssimas as famílias que a encaram logo de primeira”

“No fundo, eu sabia, mas era mais seguro fingir que não era comigo e evitar qualquer contato telefônico com quem quer que fosse”

“Você quer cuidar da saúde ou viver de aparências?”

“Sentir vergonha da surdez é uma vergonha”

Para ajudar seus leitores nessa jornada, a autora ressalta que não somos o centro do universo: nem todos estão prestando atenção em nós (o que quase sempre é uma benção) e que há muitas pessoas gentis nessa vida.

“A maior epifania que já tive na vida foi perceber que, quase sempre, os outros não estão nem 1% interessados em nossa condição como achamos que eles estão”

“Acho que encontramos muito mais pessoas gentis e acolhedoras na vida do que gente rude, e ficar triste com algumas grosserias que nos fazem é bobagem – no geral, quem age assim nem lembra do que fez ou não considera sua atitude errada”

E ela também nos lembra de uma coisa muito importante.

“Viajar é um dos maiores prazeres da vida, que não deve ser deixado de lado por medo. Quem fica com receio de viajar sozinho para o exterior deveria pensar que imprevistos podem acontecer a qualquer um, independentemente de ouvir ou não”

Por fim, não posso deixar de ressaltar que o silêncio e o barulho marcam presença constante ao longo das páginas deste livro (o que talvez já fosse de se esperar, não é mesmo?). 

“Sinceramente, nunca consegui identificar no silêncio as trevas sombrias que muitas pessoas veem nele”

“Quando o silêncio faz parte de nós, não percebemos até que ponto o mundo é barulhento”

Se interessou por Crônicas da Surdez? Então leia a resenha completa e adquira o seu exemplar!

Chi ti ispira?

L’anno scorso ho partecipato ad una sfida di scrittura in italiano: 30 giorni scrivendo dei piccoli testi (uno al giorno) per allenarmi e migliorare la mia scrittura.

Questa è stata una delle cose che mi ha motivato a realizzare un cosa che da tempo pensavo di fare: questa sezione sul Blog. 

Anche se non voglio avere l’obbligo di portare ogni tanto qualcosa qui, mi pareva che da un tempo non scrivevo qualcosa in italiano e volevo riprendere. Intanto ero senza idee.

Ma proprio quando mi sono messa a riprovare, mi sono ricordata della sfida e uno dei testi mi è venuto in testa. Quello che ho deciso di condividere qui oggi.

Ma prima devo ancora fare un’osservazione: probabilmente questo testo mi è venuto in mente perché il giorno in cui ho pensato a tutto questo, era proprio il giorno in cui, sette anni prima, mia nonna era scomparsa. 

Senza dilungarmi troppo, quindi, ecco quello che ho scritto l’anno scorso e che ho già ripetuto anche in portoghese (qui), ma che ora condivido in italiano.

Ah, sì, lo spunto per il testo era la domanda: chi ti ispira

Le persone che mi ispirano sono persone reali cioè gente della mia convivenza, e non persone che conosco solo tramite i media. 

La prima tra queste è mia nonna che anche non essendo più viva sarà (ed è sempre stata) il mio più grande esempio. Una donna colta, indipendente, attiva. 

Era piena di salute, di parole gentili, di conoscenze. Aveva il cuore più grande al mondo ed una forza incredibile. E grazie a lei, oggi posso ispirarmi anche ai miei zii, che portano con sé qualcosa di lei. Direi di più: mia intera famiglia mi ispira, ognuno a modo suo. 

Ho anche la fortuna di essere circondata da amici ammirevoli. Persone che mi ispirano con le sue idee, le sue parole, il suo modo di essere al mondo. 

Infine, ci sono persone che lavorano con delle cose che ammiro e che mi mostrano una nuova forma di vedere queste cose, una nuova forma di dare vita a idee che neanche immaginavo poter avere dentro di me. 

Música para morrer de amor — Rafael Gomes

Título: Música para morrer de amor 
Autor: Rafael Gomes
Editora: Incompleta
Páginas: 218
Ano: 2021

(Para ler ao som de Codinome beija-flor Cazuza)

Sinopse

A trama é das mais simples, uma variação do clássico triângulo amoroso: Isabela sofre por um coração partido, Felipe quer muito se apaixonar e Ricardo, seu melhor amigo, está apaixonado por ele. Mas, numa obra que é sobre as canções para morrer de amor tanto quanto sobre os caminhos da paixão, e se pensássemos nessa sinopse de uma forma, digamos, mais musical? Em vez de um triângulo, um terceto. Em vez de uma ciranda de sentimentos, três duetos. Ou então a orquestração de três solos intercalados de corações pós-adolescentes que batem com a impulsividade e o derramamento típico das paixões juvenis (e não importa que idade se tenha, sempre estaremos sujeitos às paixões juvenis). A história do trio completa uma década. Mas este livro comemorativo não é apenas sobre aventuras românticas. É também um estudo aprofundado sobre como levar aos cinemas uma história de amor e música nascida nos palcos. O texto original da premiada peça Música para cortar os pulsos (2010) chega ao livro em versão revisada. Guiados por letras de canções das quais extraem sua educação sentimental, os três amigos embaralham alguns paradigmas da trama amorosa e confirmam outros, questionando padrões de sexualidade e duvidando da certeza dos próprios sentimentos. O roteiro do longa-metragem Música para morrer de amor, adaptado do texto teatral e lançado em 2020, vem publicado na íntegra e acrescido de mais de uma centena de notas do autor-diretor. Nelas, Rafael Gomes detalha o processo de adaptação entre as duas linguagens e as especificidades de cada formato, além de curiosidades de bastidores.

Resenha

Dia desses a Nati, minha amiga, me entregou um livro e disse “acho que está na hora de você ler isso”. O livro em questão era Música para morrer de amor.

“Mas é preciso acabar, e isso é bonito”

Eu sabia que encontraria alguma coisa dela ali. Mas encontrar alguma coisa dela significava encontrar algo de mim também. E foi o que aconteceu.

“Medimos a velocidade de um carro em quilômetros por hora, e a área construída de um imóvel em metros quadrados. Para mensurar o espanto que me causou essa primeira leitura, proponho a adoção de uma nova medida: epifania por parágrafo”

Este livro contém muitas coisas dentro de si, para além das tantas mensagens que me tocaram de alguma forma. Começo, então, falando sobre a estrutura, para só então passar para a história em si.

“Eu não sei o que você tá pensando, mas provavelmente é útil você descobrir que ser amado também é dolorido”

A obra começa com o prefácio A parte que me toca, escrito por Vinicius Calderoni, de onde extraí a passagem usada um pouco mais acima.

Em seguida, mergulhamos no ensaio ficcional Uma década de playlists, escrito por Rafael Gomes. 

“Quantas coisas em uma história de amor são playlists, para além das seleções musicais?”

A essa altura, é difícil já não estar morrendo de amores pelo livro e querer mais e mais. 

“Eu sou esse cara que se apaixona por um monte de gente o tempo todo, mas eu juro que são coisas diferentes, de jeitos específicos”

Finalmente, chegamos a Música para cortar os pulsos, roteiro revisado da peça homônima, escrita por Rafael Gomes e encenada no teatro do Sesc Pinheiros, em 2010.

“O amor nunca é só amor. O amor é um monte de outros sentimentos misturados”

Como eu queria ter assistido a essa peça, mas em 2010 eu sequer sabia da existência dela (e talvez não pudesse compreender nem metade de tudo o que ela tem a transmitir).

“Ri das cicatrizes quem nunca foi ferido”

Aqui conhecemos Ricardo, Isabela e Felipe. Três jovens tão únicos e tão iguais a tantos outros. Cheios de amores, dúvidas e medos.

“Difícil isso de dar nome para os sentimentos, apreender o sentido das coisas”

Isabela está tentando superar o final de um relacionamento. Aquele que parecia tão certo e tão especial.

“Eu tenho um coração partido e eu nunca mais vou amar ninguém”

Ricardo está lidando com os sentimentos que carrega dentro de si, os amores que transbordam e a vontade de abraçar o mundo. 

“De mentira eu me apaixono o tempo todo”

E Felipe, coitado, está no meio do caminho. Querendo se apaixonar perdidamente, ele percebe que precisa, em primeiro lugar, entender o que realmente deseja e também se conhecer melhor.

“Quando eu digo ‘amor’ e você diz ‘amor’, quem disse que a gente tá falando da mesma coisa?” 

Uma história incrível, que certamente tocou muitos corações. Tanto é que ganhou uma adaptação para as telonas. Ou quase isso.

“A única coisa que eu penso é que talvez eu vá explodir. E tudo por causa de um coração que um dia vai parar mesmo, de qualquer jeito”

Depois do roteiro da peça, neste livro, nos deparamos com Música para morrer de amor, também de Rafael Gomes. Este é o roteiro do longa-metragem, comentado pelo autor (o que torna a leitura ainda mais agradável e interessante). 

“Todo mundo é imaturo, amor. Só que todo mundo finge que não”

Por mais que algumas falas e cenas sejam semelhantes, como o próprio autor explica, passar a história para as telas levou a modificações necessárias. E é possível notar isso ao longo da leitura.

“Na raiz do amor já está a destruição: a gente começa e já começa a terminar”

Mas Música para morrer de amor não chegou efetivamente às telonas. Ele foi parar somente nos serviços de streaming, porque foi lançado durante a pandemia, em 2020.

“E amor assim, tão espontâneo e tão imprevisto e que vive ganhando tão pouco em troca, deve ser no fim das contas pelo menos um sentimento bom”

O livro termina, ainda, com a seção Caixas, cadernos e HDs, que reúne registros fotográficos e visuais de tudo o que pudemos acompanhar ao longo do livro. 

“E o sorriso é uma porta de entrada confiável pro pensamento”

A diagramação de toda a obra é ótima: tem cores, desenhos e o papel utilizado é extremamente confortável de ler e manusear.

Além disso, essa é uma daquelas obras que tranquilamente podemos ler enquanto escutamos uma boa música e, se a mágica der certo, tudo irá se completar e conversar.

Se você se interessou por este livro, saiba mais sobre ele clicando abaixo. E se quiser conhecer mais o trabalho do Rafael Gomes, siga-o em suas redes sociais (Instagram).

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O caçador de pipas — Khaled Hosseini

Título: O caçador de pipas 
Original: The kite runner
Autor: Khaled Hosseini
Editora: Nova Fronteira 
Páginas: 365
Ano: 2005
Tradução: Maria Helena Rouanet 

Sinopse

“O Caçador de Pipas” é um romance com tintas autobiográficas que conta a história da amizade de Amir e Hassan, dois meninos quase da mesma idade, que vivem vidas muito diferentes no Afeganistão da década de 1970.

Amir é rico e bem-nascido, um pouco covarde, e sempre busca a aprovação de seu próprio pai. Hassan, que não sabe ler nem escrever, é conhecido pela coragem e bondade. Os dois, no entanto, são loucos por histórias antigas de grandes guerreiros, filmes de caubói americanos e pipas. E é justamente durante um campeonato de pipas, no inverno de 1975, que Hassan dá a Amir a chance de ser um grande homem, mas ele não enxerga sua redenção. Após este episódio, Amir vai para os Estados Unidos, fugindo da invasão soviética ao Afeganistão, mas 20 anos depois Hassan e a pipa azul o fazem voltar à sua terra natal para acertar contas com o passado.

Best-seller mundial, este livro vendeu mais de 5 milhões no mundo todo e ganhou uma versão cinematográfica.

Resenha

Apesar de ser uma obra tão conhecida, mergulhei na leitura de O caçador de pipas sabendo apenas que era um desses livros que precisamos ler ao menos uma vez na vida.

“— As crianças não são cadernos de colorir. Você não tem de preenchê-lo com suas cores favoritas”

Como não poderia deixar de ser em uma obra escrita por um autor que não está no eixo euro americano, realizar esta leitura foi me dar conta, mais uma vez, do quão pouco sei. Seja sobre outras culturas, sobre religião, sobre os conflitos que marcam o Oriente Médio e também sobre as relações humanas

“— Bem… — disse eu. Mas nunca consegui acabar aquela frase. Porque, de repente, o Afeganistão mudou para sempre”

A obra se inicia na infância de Amir, que é o narrador desta história. 

“Era esquisito, mas fiquei feliz vendo que alguém sabia exatamente quem eu era. Já estava cansado de fingir”

Uma infância bem privilegiada, uma vez que seu pai era muito rico e respeitado e Amir ainda podia contar com o fiel amigo e servo Hassan

“No inverno de 1975 vi Hassan correr atrás de uma pipa pela última vez”

Mas estamos falando de uma infância no Afeganistão e, da noite para o dia, toda essa vida aparentemente perfeita, ruiu.

“Meu pai passou a vida inteira enfrentando ursos. Perdeu a jovem esposa. Teve de criar um filho sozinho. Precisou abandonar a sua querida terra natal, o seu watan. Conheceu a pobreza. A indignidade. Até que, afinal, apareceu um urso que ele não conseguiu derrotar”

Acontece que, lendo esta narrativa da perspectiva de Amir, sabemos que as coisas já estavam difíceis muito antes dele ter de sair de sua terra natal.

“Para mim, os Estados Unidos eram o lugar onde podia enterrar as minhas lembranças”

Sua mãe morrera no parto e, desde a infância, Amir apenas queria conquistar o amor e a admiração de seu pai. Sentimentos esses, aliás, que ele parecia nutrir muito mais facilmente por Hassan.

“Sempre dói mais ter algo e perdê-lo do que não ter aquilo desde o começo”

Essa relação (ou a falta dela) entre pai e filho é um fio condutor importante na obra, sendo o propulsor da maioria das ações e decisões (sobretudo ruins) do narrador, além de trazer um plot interessante ao final.

“Pensei em todos os espaços vazios que baba ia deixar atrás de si depois que se fosse, e fiz um esforço enorme para pensar em outra coisa”

A lealdade também é um tema recorrente ao longo das páginas deste livro, assim como a culpa, que permeia cada vírgula desta história. 

“Acho que certas histórias não precisam ser contadas”

O caçador de pipas pode ser uma história bem amarga, não apenas por tudo aquilo que o narrador carrega consigo, mas também porque há alguns pontos da cultura afegã que podem ser difíceis – sobretudo para as mulheres – de digerir. 

“E toda mulher precisa de um marido. Mesmo que ele faça calar a canção que existe nela”

Violência – física e psicológica – também marcam diversos pontos desta narrativa, que realmente tem o poder de tocar seus leitores. 

“Eles não permitem que a gente seja humano”

Se você ainda não leu O caçador de pipas, clique abaixo para saber mais.

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Citações #88 — A cor púrpura

O post de hoje vai para você que ainda não se convenceu a ler A cor púrpura, escrito por Alice Walker.

Uma obra que, para além de um clássico, realmente tem muito a nos transmitir, falando, por exemplo, sobre pertencimento.

“Pela primeira vez na minha vida, eu sinto que tô no meu lugar”

Sobre o respeito ao próximo, mesmo que o próximo seja uma mulher vivendo numa sociedade extremamente machista.

“Eu num brigo as briga da Sofia, ele fala. Meu negócio é amar ela e levar ela pra onde ela quer ir”

Uma história sobre amores, não apenas românticos (aliás, este talvez seja o menos presente) e sobre exemplos.

“Talvez só de morarmos juntos, amar as pessoas faz com que elas se pareçam com a gente, eu falei. Você sabe como algumas pessoas casadas há muito tempo se parecem”

Mas, acima de tudo, uma obra sobre preconceitos, desrespeito e sobre vencer diariamente muitas batalhas. 

“Eu sei que os branco nunca escutam os negro, e pronto. Se eles escutam, eles só escutam o bastante pra poder dizer procê o que você deve fazer”

Se você acha que precisa ler esta obra (e spoiler: precisa mesmo) clique na resenha para saber mais sobre ela e garantir o seu exemplar. 

As grandes navegações — Gael Rodrigues

Título: As grandes navegações 
Autor: Gael Rodrigues
Editora: Publicação independente 
Páginas: 193
Ano: 2023

Sinopse

UMA AMIZADE QUE CRUZARÁ OCEANOS E O TEMPO

Leonildo nasce em cima de um baobá durante uma enchente. É albino, o que antes parece um milagre para o povo de Beira, Moçambique, aos poucos se torna maldição. O menino precisa ser escondido para seu corpo não ser transformado em amuleto.

Guilherme ao perceber o que é, foge da Paraíba para São Paulo, depois é expulso da casa da tia religiosa. Espera pela operação de redesignação sexual até que vem a pandemia e seu corpo é interrompido junto ao tempo.

Dois homens vivendo em ocupações que antes foram hotéis de luxo. Dois países distantes mas que dividem a mesma exploração original e parecem repetir a mesma história. Uma amizade improvável e inesquecível, que com ajuda dos sonhos é capaz de atravessar oceanos.

Resenha

As grandes navegações é uma história que nos transporta para dois universos tão diferentes e tão semelhantes entre si, através de uma narrativa em prosa quase onírica.

“Contar essa história é cartografar o universo único de dois amigos. É também um mapa para se compreender a segunda e definitiva morte de Leonildo”

Na primeira parte da história estamos em Beira, uma cidade moçambicana. 

“Era um povo acostumado a desgraças. Desde cedo, empilhavam uma sobre outra, o dia a dia ensinando a carregar mais peso”

Uma realidade difícil, de grande pobreza e marcada por catástrofes naturais.

“Uma mulher feito terra conquistada à força e, depois de roubado o viço e riquezas, abandonada. Uma mulher-Moçambique”

Em Beira, Fauzi e Bomani se conhecem e se apaixonam e desse amor nasce Leonildo (ou Nido).

“O encontro de dois desconhecidos é terra seca à espera. Entre os olhares ergue-se uma ponte. Do toque, funda-se um prédio”

O casal passa a viver junto no Grande Hotel, um antigo hotel de luxo, hoje abandonado e ocupado. E apesar das dificuldades, eles parecem se amar. Até que toda a vitalidade de ambos é sugada pela dura realidade e o amor parece não mais resistir.

“Ela precisava ser forte para continuar sendo ela, era o que a avó a ensinou. Ser ela era ser todas antes dela”

O nascimento de Nido é quase a morte de Fauzia. Um nascimento duríssimo, mas considerado um milagre: ele é parido no topo de uma árvore, em meio a uma tempestade. E há ainda um detalhe: Nido é albino.

“Ele enxergava pouco, assim como outros albinos, mas isso ele não sabia, porque, ao menos ali no prédio, não havia outro como ele”

Nessa primeira parte da obra, navegamos pela infância de Nido. Uma infância duríssima, ainda mais para ele, que não pode sair à luz do dia e que, inclusive, passa boa parte da infância escondido, contribuindo para a encenação de sua mãe de que ele morrera, ideia que ela teve para protegê-lo (até que ponto realmente conseguiu?).

“Normalmente, o menino saía apenas depois da chegada da noite”

Já na segunda parte da obra, estamos em São Paulo. O ano é 2020 e a pandemia assola o mundo. 

“As coisas iam voltar aos eixos, apesar do mundo ainda de cabeça para baixo. Em breve, encontrariam uma vacina, o mundo iria se aquietar”

Aqui o protagonista é Guilherme, que nascera Alice e nunca se encontrara em seu corpo feminino.

“Eu mudei as linhas do meu corpo todo santo dia para tentar não constranger alguém. E todo santo dia eu constrangi alguém”

Não bastasse toda a luta para mudar de sexo, Guilherme também leva uma vida quase miserável, morando numa ocupação, em um prédio abandonado.

“A vida é repetição e repetimos os outros”

É justamente no centro de São Paulo que as histórias de Nido e Guilherme se cruzam e se tornam uma.

“Se essa é a história de uma amizade, ela precisa ao menos de duas pessoas que se encontram, criam laços, riem juntas, arquitetam planos. A história de dois amigos há de conter abraços”

Há ainda Alima, a moça dos olhos violetas, que conhece Nido ainda em Beira e que vem procurá-lo em São Paulo, onde também conhece Guilherme.

“Quem mais poderia, além do sonho, nos colocar em lugares que nunca pisamos, voar, mesmo sem ter asas, e conhecer pessoas tantas que não caberiam na geografia”

É difícil falar sobre As grandes navegações, porque cada personagem colocado ali tem um papel importante para a história, constrói algo essencial na narrativa.

“Era um sábado à noite, e apesar de tanta gente na sala, de tantos apertos de mãos, de perguntas e respostas ensaiadas num balé do desinteresse, nossos olhos se encontraram e se reconheceram”

Enquanto de Nido conhecemos toda a infância, de Guilherme pouco sabemos e apenas juntamos alguns fragmentos de sua história.

“Acompanhar a infância de Leonildo tem tanto significado quanto omitir a infância de Guilherme”

Além disso, as temáticas são muito fortes e variadas, sem que o fio da meada se perca ao longo das páginas. A amizade é, sem dúvidas, um ponto crucial, mas antes deles muitos outros temas permeiam as páginas deste livro de maneira igualmente importante.

“A amizade é o sentimento mais forte do mundo”

Um livro que nos faz refletir sobre medos, perdas, a dureza da vida e, apesar de tudo, as suas belezas e a importância do sonhar.

“Apesar de também ser cheio, alegre, colorido, o sonho é lugar onde se prepara para a guerra’”

Tive a sorte de ganhar um ebook de As grandes navegações de presente, da Geovana, do capitulo_20 (indico demais, não deixe de seguir), e agora que tive a oportunidade de ler esta obra, sou ainda mais grata pelo presente! Somente depois de entrar em contato com esta narrativa é que pude compreender como e porque ela foi finalista do Prêmio Kindle.

Se você se interessou, clique abaixo para saber mais, e não deixe de seguir o autor em suas redes sociais (Instagram)

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