Il paese dei balocchi [tradução 38]

Introdução

Recentemente, tive a sorte de ser apresentada ao rock progressivo (que os conhecedores chamam mais simplesmente de prog). E, como se não bastasse poder conhecer um estilo musical que estou adorando ouvir, também fui apresentada a grupos italianos de prog!

Por isso, trago aqui a tradução de uma resenha que fala sobre um grupo de prog italiano bem interessante, cujo nome despertou minha atenção logo de cara: Il paese dei balocchi.

Eu sabia que este nome não me era estranho e que estava ligado ao universo literário. E a resposta veio fácil: Pinocchio. Quer algo mais italiano que isso?

O texto que trago aqui fala sobre a banda, mas também sobre o único disco dela, que tem o mesmo nome. E se a pulga já estava atrás da orelha, bastou ver os títulos das músicas e apertar o play para pensar: eu PRECISO saber mais sobre isso.

Antes de passar para a tradução em si, porém, uma explicação sobre o que é, em Pinocchio, Il paese dei balocchi, porque isso não vai aparecer ao longo do artigo, mas acho que esta introdução pode deixar as coisas ainda mais interessantes.

Il paese dei balocchi (ou “O país dos brinquedos, da diversão”) é um lugar mágico, onde as crianças podem fazer o que querem, sem regras ou responsabilidades. Seria o paraíso, se não fosse por um detalhe: quem fica muito tempo por lá se transforma em burro

Pinocchio é uma história infantil e Il paese dei balocchi tem a sua função ali: simbolizar que viver uma vida sem disciplina, trabalho e responsabilidade traz consequências.

O que isso tudo tem a ver com um disco de prog italiano? Bom, leia a tradução abaixo, deste texto aqui, originalmente publicado no site Donato Ruggiero, em março de 2020.

Tradução 

Estamos em 1972, ano de publicação de muitas obras primas do prog italiano (só para citar alguns, o álbum homônimo e “Darwin”, dos Banco, “Us” do Balletto di Bronzo, “Nuda”, dos Garybaldi, “Jumbo” e “DNA”, dos Jumbo, “Uomo di pezza” do Orme, “Storia di un minuto” e “Per un amico”, do PFM) e entre eles encontramos uma pequena pérola, desconhecida para a maioria: Il Paese dei Balocchi, disco da banda homônima, formada em Roma.

Nascido das cinzas dos Under 2000, ativos desde 1965, o PdB, em 1971, foi notado pelo produtor Adriano Fabi, que propôs a gravação de um álbum. Isso aconteceu no ano seguinte e as gravações duraram somente duas semanas. Fizeram parte delas também o maestro Claudio Gizzi (futuro membro dos Automat, com Musumarra) que cuidou dos arranjos das cordas.

A obra que nasce das mentes de Armando Paone (voz, teclado), Fabio Fabiani (guitarra), Marcello Martorelli (baixo) e Sandro Laudadio (bateria, voz), é um álbum conceito de temática muito pessimista “porque naqueles tempos não acreditávamos nas instituições ‘oficias’ e estávamos enjoados e oprimidos por tudo o que nos rodeava (Vietnã, política, conformismo hipócrita,…) em que os ‘porquês’ eram tantos e sem respostas convincentes. Nos inspiramos espiritualmente em tudo isso para a criação do nosso LP… Justamente procurando ‘AS’ respostas. O nosso LP, em linhas  gerais, é uma viagem do homem dentro de si mesmo… (‘si mesmo’… aqui imaginado como um Paese dei Balocchi, aquele onde todos nós gostaríamos de viver, fugindo de uma realidade que não nos empolga e onde quem tem os fios do poder… é um rei déspota que nos manobra como ‘fantoches’). É a busca por nós mesmos, ou melhor, pela própria identidade humana, passando através do bem e do mal, tentando entender quem somos, porque estamos aqui e aonde estamos indo, até chegar à esperança… vã, porque no final da viagem descobrimos que a ‘crua’ realidade na qual vivemos, nada mais é do que um espelho no qual podemos ver o reflexo da nossa própria alma” (da entrevista de Fabio Fabiani, concedida a Augusto Croce).

A divulgação do álbum acontece também com a participação da banda em dois grandes eventos organizados naquele ano: o grande concerto de Villa Pamphili, em Roma, e a Mostra d’Oltremare, em Napoli. Do disco, lembra Laudadio, foram publicadas somente 1800 cópias.

A capa, onde se pode ver diversos pedaços de tecido coloridos costurados, representa em cheio a colagem de sons (clássicos e eletrônicos) e atmosferas (forçadamente melancólica) presentes no álbum, que não deve ser entendido como uma composição confusa, mas como uma grande habilidade técnica e capacidade de fazer malabarismos no complicado universo do “conhecer a si mesmo”.

A primeira faixa do álbum, com um longo título, é Il trionfo dell’egoismo, della violenza, della presunzione e dell’indifferenza (o triunfo do egoísmo, da violência, da presunção e da indiferença). O início é arrebatador: um passeio que nos lembra uma pequena parte, depois do solo de bateria no início, de Il tramonto di un popolo (O pôr do sol de um povo), música do Capitolo 6, presente no álbum Frutti per Kagua (publicado no mesmo ano). Neste o destaque é a flauta, enquanto naquele não tem um elemento que se sobressai, mas é a sublime mistura entre guitarra, órgão, baixo e bateria que se impõe. E então uma mudança abrupta: entram os instrumentos de corda, criando um suspense, e a música muda completamente. Os últimos segundos são muito relaxantes.

Música multifacetada é Impotenza dell’umiltà e della rassegnazione (Impotência da humildade e da resignação). Em apenas quatro minutos, Il paese dei balocchi se aventura em numerosas e repentinas mudanças que desorientam o ouvinte. O começo é bem minimalista, com uma guitarra “distante” e um tema de poucas notas, retomados pouco depois, de maneira decidida, por uma guitarra distorcida. A evolução da música é introduzida pelo baixo de Martorelli e a sucessiva entrada de toda a banda, acompanhada por coros (presentes já um pouco antes da entrada do baixo). Pouco depois, o órgão, sozinho, tenta trazer calma, mas só aparentemente: os coros entram novamente com uma guitarra toda em estilo “western”. Em seguida, um breve trecho de teclado ao estilo de Battiato. A música termina com um bom e puro prog “made in 1972”.

Com Canzone della speranza (Música da esperança), o PdB “respira” um pouco. É a primeira faixa cantada do álbum. Um leve arpejo dá início a uma balada melancólica (estado de espírito endossado pelos coros). A tristeza base da música está presente também nos instrumentos de corda, na voz e no texto: “Eu vendo tudo e vou embora, todos os sonhos, a melancolia / deixo a tranquilidade por um pouco de liberdade / uma sobra de sinceridade, a fé, um pouco de caridade / procuro coisas que nunca tive / as mãos estendidas de um amigo, talvez um sorriso / palavras doces que nunca ouvi / perdi o país com o qual sonhei, o vento vai me levar / mundo mais novo, estou aqui para você / cores vivas me curarão / o amor que agora não está em mim, verá”.

Evasione (Evasão) tem um sabor onírico, psicodélico (sensação criada pelo som “aquoso” da guitarra na primeira parte da canção). A partir do segundo minuto, a atmosfera de sonho ganha mais força com a entrada do teclado e da bateria. Vale notar algumas esporádicas inserções de sintetizador e um final mais encorpado.

Risveglio e visione del paese dei balocchi (Despertar e visão do país dos brinquedos) tem uma estrutura e ainda cria uma atmosfera capaz de ser usada sem problemas como música de filme. O riff de baixo do interlúdio parece tirado de uma faixa dos Banco.

Música de dupla personalidade é Ingresso e incontro con i baloccanti (Entrada e encontro com os brincalhões). A primeira parte tem uma introdução muito animada, que exala algo de medieval. A segunda parte foi confiada apenas à voz, que se exibe em um canto de tom “monástico”.

A breve, mas intensa, Canzone della verità (Música da verdade), realizada apenas com cordas, lembra muito de perto músicas presentes nos três “Concerto Grosso” do New Trolls.

Outra música bem curta é Narcisismo della perfezione (Narcisismo da perfeição). Os únicos participantes da “contenda” são guitarra e voz. Enxerga-se ali algo que será próprio de Angelo Branduardi nos anos seguintes.

Vanità dell’intuizione fantastica (Vaidade da intuição fantástica). depois de dois minutos de som “em baixo volume” (órgão e guitarra), é o baixo, acompanhado das percussões, que dá sentido à música. Eles preparam o terreno para um bom trecho de prog. O solo de órgão presente aqui soa muito britânico. A última parte da música tem sonoridades mais psicodélicas.

É uma “prova de força”  do órgão, muito bem tocado por Paone, que ocupa os mais de quatro minutos de Ritorno alla condizione umana (Retorno à condição humana). Para a ocasião foi usado um órgão Mescioni, de 1947, presente na igreja de S. Euclide, igreja na qual também foram registrados alguns coros (para aproveitar a reverberação) presentes no disco. Para complementar, algumas intervenções de sintetizador.

Conclusão

Se você, assim como eu, não conhecia nada disso, espero que tenha gostado. E se já conhecia, que esta tradução ao menos tenha trazido algumas informações novas.

Sigo escutando Il paese dei balocchi, tentando unir a sonoridade a todas essas possíveis interpretações e significados que cada uma das músicas (e são apenas 10, passa tão rápido!) pode ter.

Ah, e se quiser ouvir também, é só dar o play

Contos aleatórios da vida (i)rreal — Fernanda Frankka

Título: Contos aleatórios da vida (i)rreal 
Autora: Fernanda Frankka
Editora:  Publicação independente
Páginas:  23
Ano: 2021 

Sinopse

Três contos que passeiam desde a comédia, o romance até o terror. Casos que poderiam ou não ser reais no nosso mundo atual. Aqui, vocês vão conhecer Henrique, Jack e Anne. Personagens que podem te fazer sonhar ou, nunca pensar em colocar seus pés numa casa de campo no meio do nada.

Resenha

Para quem busca uma leitura bem rápida, aqui vai uma dica interessante, porque em apenas 23 páginas, Fernanda Frankka consegue transitar por estilos literários diversos e nos apresentar três histórias deliciosas de ler.

“Três histórias aleatórias, de gêneros diferentes, igualmente escritos por uma mente que não para de pensar. Espero que sintam a euforia dos que procuram, o frescor dos que amam e da lealdade dos que se conectam”

O primeiro conto desta breve coletânea é No compasso da vida e nele conhecemos Henrique — ou Kito —, um desses caras que adora ir para a balada com os amigos e não sai de lá sem uma mulher.

“Ou a pessoa diz logo o que quer ou então não faz graça”

(No compasso da vida)

Bem no estilo “só pego, não me apego”, Henrique não é um personagem cativante. Muito pelo contrário: que cara chatíssimo! E ainda preconceituoso. Mas ele tinha de ser assim, se não essa história nem existiria.

O título é quase uma grande ironia, porque a vida de Henrique está bem descompassada. E apesar dele ser horrível, quase dá para sentir uma leve dó, por ele ter perdido a chance de talvez conhecer uma garota incrível.

“Pena que a vida não é feita somente de sonhos”

(No compasso da vida)

O segundo conto desta obra é Perfume de amor e este me arrancou algumas gargalhadas de indignação com a criatividade da autora.

Os protagonistas são dois nerds e amigos de infância — Jack e Gabe — e a história toda se desenrola porque Jack se meteu em uma grande enrascada.

Basicamente, ele criou uma poção do amor… E o feitiço virou contra o feiticeiro.

Por fim, temos Terror no campo, para deixar a respiração em suspenso e sentir uns calafrios.

“Eu só quero voltar pra casa e, embora queira esquecer tudo o que aconteceu essa noite, sei que não vou conseguir”

(Terror no campo)

Quatro amigos decidem passar uns dias na casa de campo da família de dois deles, os irmãos Maicon e Anne.

Uma casa de campo, no meio do nada e praticamente abandonada… Como poderia sair algo de bom disso?

E mais: uma casa que tantas pessoas diziam ser… Sim, mal assombrada.

“Penso no diário de minha tia e quantos mais segredos podem estar impressos lá. Mas é algo que não cabe à mim saber. Não mais”

(Terror no campo)

Por mais clichê que possa parecer, o conto é bem construído e é extremamente interessante de ler, nos dando frio na barriga e nos fazendo repensar nossas teorias a cada palavra lida.

Não posso deixar de dizer que além de ter adorado ler esta obra, ótima para termos uma ideia de como é a escrita da autora, a Fernanda é uma fofa e você pode acompanhá-la em suas redes sociais (Instagram | Twitter).

E, claro, não deixe de garantir seu exemplar. Clique abaixo e saiba mais.

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Citações #87 — Quero andar de mãos dadas

Quero andar de mãos dadas, como comentei na resenha, foi uma obra que comecei a ler sem esperar muita coisa e que me surpreendeu bastante. 

“Algumas coisas chamam nossa atenção e nos fazem ficar presos a elas de uma maneira quase hipnótica”

A obra, escrita por Victor Lopes, aborda diversos assuntos delicados, mas necessários, como as mentiras que contamos, muitas vezes numa tentativa de nos proteger ou sobreviver.

“As mentiras da minha vida ficavam cada vez maiores e nada de bom surgia delas. Nada de bom. Só surgia dor”

“Mais uma mentira contada. Agora era só esperar pela próxima”

No caso desta história, essas mentiras são a forma que os protagonistas encontram para se defender num mundo que, mesmo se dizendo tão evoluído, ainda é tão retrógrado.

“Deveria ter colocado um ponto final, pois sei melhor do que ninguém que não vai dar certo, que não posso gostar dele e deixar acontecer o que quer que seja que poderia acontecer”

“— A verdade é que nós sempre precisamos fazer as coisas mais comuns meio escondidos, isso se não quisermos que nos xinguem, ou nos batam ou tentem nos matar. Desculpa, não queria te assustar.

— De boa. Eu sei como é. 2014 e as pessoas ainda não aceitam”

“Meus sonhos de encontrar alguém por quem eu me apaixonasse trouxeram com eles o pesadelo da realidade”

“As pessoas me olhavam e eu tinha certeza de que elas viam em meus olhos o que acontecera, conseguiam ver minhas mentiras e me julgavam por ser gay. É isso o que as pessoas fazem, não importa quem sejam. Nada importa para elas se você não for igual a elas”

E, como não poderia deixar de ser, o medo se faz bem presente.

“Talvez esse seja o motivo pelo qual não nos falamos normalmente ontem, porque estamos com medo de nossos sentimentos”

“Resolvi enfrentar esse medo, mesmo sabendo que não podia haver muitas consequências positivas”

Medo esse que faz um dos protagonistas não conseguir agir como gostaria. O impede de ser quem realmente é.

“Eu não posso ser outra pessoa, ainda que queira”

“Essa minha cara é a cara de alguém que não pode ser quem é e não pode viver o que quer por medo do que vocês vão fazer e pensar e do que vai acontecer com nossa família”

“Cada coisa que eu deixava de fazer para poder manter meu segredo, era uma tonelada a mais colocada sobre meus ombros”

“— Eu estragaria tudo para eles.

— Você prefere estragar tudo para você?

— É só o que posso fazer agora”

“Eu não posso fazer o que quero fazer e preciso aceitar isso”

“Eu fiz um pedido. Pedi que tudo mudasse. Pedi que eu pudesse viver”

Uma hora, porém, quando guardamos demais dentro de nós, as coisas acabam extravasando.

“E certo dia foi exatamente o que aconteceu. Eu explodi”

À espreita, nesta história, há muito mais. A morte, principalmente, está sempre rondando, de mãos dadas com muita angústia e ansiedade.

“Um dia eu chegaria da escola e ela não estaria mais lá. Eu só torcia para que esse dia não fosse hoje”

“Eu não via como era possível existir desse jeito com coisas tão boas acontecendo e sendo substituídas, transformadas quase num passe de mágica, em sentimentos desesperadores”

“Depois de um fim, algo começa”

“E eu fiz. Às três e meia da manhã, eu fiz a dor por dentro parar. A dor por fora era muito mais libertadora. No meio do quarto escuro tudo ficou vermelho e eu vi todas as luzes se apagarem antes mesmo de conseguir pedir ajuda”

Porém nem só de dor e tristeza vivem as páginas desta obra. Há também muito amor companheirismo.

“Meu mundo estava em meus braços e eu não queria largar”

“Por fim, acho que fiz a coisa certa, por mais doloroso que possa ser para ele, eu precisava tocar no assunto, mostrar que estaria ao lado dele e que existem coisas mais importantes do que o que a família pensa sobre ele. Mas será que eu disse tudo isso?”

Se você se interessou por esses trechos, leia a resenha completa clicando abaixo e garanta seu exemplar.

Tatianices recomenda [20] — Citrus Fest

Depois de muito tempo, venho resgatar esta seção do Blog (um pouco “esquecida” ultimamente porque acho que o conteúdo que eu postava aqui faz mais sentido na newsletter) porque quero muito (e preciso muito) divulgar um evento que vai rolar ainda esse mês na cidade de São Paulo

No dia 20 de julho, na Jai Club, vai acontecer o Citrus Fest II, um festival de bandas independentes que fazem um som delicioso de se ouvir.

Na ocasião, será lançando o primeiro álbum da banda Refúgio: Velhos Hábitos.

Além disso, o público poderá curtir Theo Huppes & Enrico Bertagnoli e a banda Mrs. Bloom.

E por que eu precisava muito divulgar esse evento?

Porque desde o ano passado eu acompanho o trabalho de toda essa galera e, de verdade: eu adoro! Mas sabemos que não é fácil produzir arte (de qualquer tipo) no Brasil, então resolvi tentar trazer para cá esse povo e, quem sabe, chegar a mais uma ou duas pessoas fora da minha bolha.

Se você quer ter uma idea do que estou falando, antes de qualquer outra coisa, deixo alguns links aqui:

E se você acha que pode ser interessante conhecê-los ao vivo, aqui vão as informações completas do Festival:

Data: 20/07/2024 (sábado)
Horário: das 16 às 22
Local: Jai Club — Rua Verguerio 2676
Ingressos: https://hoppin.com.br/citrusfest
Para ficar por dentro das novidades: https://www.instagram.com/citrusmusic/

Se você não é de São Paulo, mas conheça quem é e pode se interessar, por favor, não deixe de divulgar também! Será de grande ajuda.

E se você for de São Paulo e resolver ir… Dá um alô!

Um fake dating com benefícios — Tayana Alvez

Título: Um fake dating com benefícios — A atriz e o rockstar 
Autora: Tayana Alvez
Editora:  Publicação independente
Páginas:  434
Ano: 2024

(para ler ao som de Quando um certo alguém — Lulu Santos)

Sinopse

Se você é uma atriz famosa, não siga o seu ex (leia-se cantor mundialmente conhecido) no Instagram.

Depois de um longo hiato na carreira, Beatriz está pronta para voltar às telas. Superado o luto, um coração partido e uma pandemia que mudou o mundo, nada pode estragar o seu retorno… Exceto ela mesma.

Ao seguir – acidentalmente – o babaca que a abandonou no pior momento de sua vida, a garota vê uma fofoca comprometer seu grande retorno. E esse furacão promete prejudicar não só ela, mas também Guilherme Almeida, (_leia-se o babaca_) agora um astro internacional, que retorna ao Brasil após anos fora com sua banda, a Vicious Bonds, com o projeto de conquistar os fãs brasileiros — e abalar todas as convicções de ódio que Beatriz tinha sobre ele.

Pressionados pela opinião pública, os dois concordam que apenas uma coisa pode salvar suas reputações: Um namoro falso. Mas uma mentirinha em nome das próprias carreiras pode se transformar em uma montanha russa de emoções, desafiando Beatriz e Guilherme a confrontarem seus sentimentos, destrincharem o passado e redescobrirem o significado de segundas chances.

Resenha

Comecei a leitura de Um faking date com benefícios só esperando quando esse livro ia me pegar de jeito e fiquei feliz que esse momento demorou a chegar. Mas também, veio com tudo.

“Raios caem duas vezes no mesmo lugar, estrelas cadentes não”

E sim, eu sabia que em algum momento essa história cutucaria alguma ferida, porque é isso que a Tayana Alvez sempre faz (e quem acompanha este blog sabe que eu leio todos os livros dela, mesmo que ela não pague a minha terapia depois).

“É fácil esquecer por algumas horas, mas não sei como seria a vida toda”

Como a autora costuma fazer, a obra é narrada, alternadamente, pelos dois protagonistas: Guilherme e Beatriz.

“— Porque eu acho que eu gosto dele.

— Ah, você acha?”

Guilherme mora fora do Brasil e é o vocalista de  uma banda internacionalmente conhecida: a Vicious Bond.

“A Vicious Bonds parece uma daquelas piadas de péssimo gosto que nossos tios favoritos contavam quando éramos crianças: um brasileiro, um francês, um canadense e um inglês entram num bar”

Mais do que uma banda, aliás, eles são uma família que teve a sorte de se constituir e que canta músicas que arrastam multidões de Vagabonders, como são chamadas as fãs deles.

“Assim como as carinhas deles, as músicas são ótimas. A melodia carrega alma, as letras têm dor, paixão, tristeza e amor. É tudo muito intenso”

Beatriz, por sua vez, é atriz e está voltando às telas brasileiras após alguns anos longe delas (anos que incluem a pandemia).

“Apesar da pandemia, apesar do mundo ter virado de cabeça para baixo, apesar de eu ter ficado quase quatro anos sem atuar e ter perdido muito mais do que isso pelo caminho, o céu daqui ainda é azul o bastante, as ondas vêm e vão da mesma maneira que o vento derruba os arbustos na Serra, e as pessoas já não me assustam tanto”

Assim, aos poucos, vamos conhecendo esses dois personagens e, claro, o passado que eles têm em comum e que vem à tona derrubando toda e qualquer crença — deles e nossas.

“Quanto tempo um amor pode fingir que morreu?”

Beatriz e Guilherme se conheceram muito jovens e tiveram um relacionamento daqueles de fazer inveja. Até que, da noite pro dia, Guilherme terminou tudo e deixou o Brasil. Assim, sem mais nem menos!

“O fato de que boa parte dos fãs da GenZ me odeia porque terminei com a Beatriz do nada e fui embora é um assunto sensível”

Isso é muito claro desde o começo, mas leva um tempo para desconfiarmos das motivações de Guilherme e mais outro tempo para termos a nossa confirmação.

“É culpa do destino. E a gente não pode brigar com o destino; eu já tentei, não dá certo”

Até porque, se tem outra coisa que fica bem evidente é que esses dois ainda se amam. E muito. 

“Durante os quatro anos do nosso relacionamento, Beatriz representou tudo o que eu entendia sobre o amor. Depois da minha partida, ela se tornou as verdades não ditas sobre minha aflição. Anos depois, em nosso primeiro reencontro, ela é uma mistura dos dois, e nunca vai saber disso”

Só que a dor da Beatriz que foi abandonada ainda é muito real e, caramba, como doeu ler tudo isso. São tantos pontos de identificação com essa história, ao mesmo tempo que ela é tão única que é até difícil explicar.

“— Queria poder gostar de Guilherme e lutar para fazer dar certo. — afirmo, mais para mim do que para ela. — Mas a partida dele quebrou alguma coisa no meu coração, e deixá-lo entrar de novo desse jeito é injusto com a Beatriz que ele abandonou.

— E talvez, não o deixar entrar seja injusto com todo o resto da sua vida, Beatriz”

O reencontro entre Guilherme e Beatriz acontece porque ela, num momento de stalk e inabilidade com redes sociais, acaba seguindo o ex no Instagram o que acaba levado os dois a ter de fingir, diante da imprensa, que reataram

“Quero que isso seja encenação. Mas também não quero. E não sei exatamente como lidar com essa antinomia”

E o acordo é claro: esse relacionamento de mentirinha vai durar dois meses. O tempo que a Vicious Bond estará no Brasil.

“Demorei demais para me refazer depois dele para deixar tudo desmoronar por causa de um reencontro com data de validade”

A narrativa, então, se passa num intervalo de um pouco mais de dois meses, mas é tanta intensidade, que poderia ser muito mais também. 

“Cada uma dessas palavras foi planejada há meses, agora parecem erradas. Parte de uma mentira que eu não quero mais contar”

Diante de todos esses fatos, é importante destacar que esta história fala muito sobre como as histórias não têm um ou dois lados. Às vezes têm muito mais.

“Mas foi interessante de um jeito estranho saber que, apesar de tudo, há lugar no qual Guilherme escolheu não nos apagar”

E como a culpa é muito mais complexa do que podemos imaginar.

“É difícil ficar sem quem a gente ama. Dói ser esquecido. Mas pior do que todas essas coisas é o fato de que eu sei que a culpa é minha”

Mas também é uma história sobre o poder das amizades e do amor. Aliás, os demais personagens nos encantam (alguns até mais que o próprio Guilherme) e fico feliz em saber que eles ainda voltarão em outros volumes (porque sim, este é só o primeiro…)

“Enfrentei a dor da perda do meu pai segurando a mão da Nina e, mesmo que eu nunca vá conseguir agradecer o suficiente, sei que não estaria aqui se não fosse por ela”

Um fake dating com benefícios também nos faz refletir muito sobre o perdão.

“Se tem uma coisa que eu percebi nos últimos tempos é que é perfeitamente possível você perdoar uma pessoa e amar essa pessoa, de todo o seu coração, e, ainda assim, não conseguir ignorar toda a dor que ela te faz sentir”

E, como sempre, a diagramação do ebook pode ser simples, mas com detalhes que encantam e que tornam a leitura de tudo isso ainda melhor.

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Amor I love you — Marisa Monte

Em junho eu tive a grande oportunidade de ouvir Marisa Monte ao vivo e, desde então, tenho estado um pouco (muito) mais fascinada com essa artista e, sobretudo, com suas músicas, que falam tão bem dos mais diversos momentos de nossas vidas.

Foi durante o show — num momento um tanto quanto chocante, diga-se de passagem — que me veio o estalo de que eu ainda não tinha trazido para cá a música Amor I love you e, principalmente, a intertextualidade que acontece nela. Mas vamos por partes.

Em primeiro lugar, é preciso dizer que o “momento chocante” do show foi perceber que ninguém mais ninguém menos que o próprio Arnaldo Antunes subiu ao palco para recitar os 10 segundos da obra que dialoga diretamente com Amor I love you. E é a partir daqui que este post começa de verdade.

Amor I love you faz parte do álbum Memórias, Crônicas e Declarações de amor, gravado em 2000. A letra foi composta por Carlinhos Brown e Marisa Monte e, como mencionado, conta com uma participação especial do Arnaldo Antunes.

Num primeiro momento, pelo título e pela letra, parece apenas mais uma música romântica, uma declaração de amor. Mas, basta um olhar mais atento e percebemos que esse é… um amor que não pode ser declarado e vivido como se espera?

É, é só assistir o clipe oficial (que colocarei ao final deste post) e essa suspeita acaba se confirmando: um casal idoso, apaixonado, mas cuja mulher esconde um grande segredo. Seu verdadeiro amor não é o seu marido.

Quando chegamos na metade da música, tudo se confirma: Arnaldo Antunes entra recitando Primo Basílio do Eça de Queirós, uma obra literária com a seguinte sinopse:

“Durante uma viagem prolongada de seu marido, Luísa se deixa seduzir por Basílio, um primo seu que voltava a Portugal depois de uma temporada no Brasil. Imprudentes e indiscretos, os amantes acabam flagrados por Juliana, a empregada da casa, que passa a chantagear a patroa. Com o anúncio da iminente volta do marido, está armado o cenário para um caso exemplar de decadência do estilo de vida pequeno-burguês, com seus preconceitos e moralismos, seus tipos parasitários, suas relações amesquinhadas e seu frágil equilíbrio” 

Uma história em que a protagonista busca amor e romantismo (como a música parece carregar quase em excesso) e acaba por encontrá-los não em seu “verdadeiro” relacionamento, mas no amor e na atenção que lhe são entregues fora do casamento.

E por que a música, sendo inspirada em uma obra literária portuguesa, carrega em seu título e refrão a expressão do amor em inglês?

Aqui são muitas as explicações possíveis. A começar pelo fato de que, inserindo I love you, o amor expresso na música torna-se quase “universal”.

Mas há também a época em que a música foi gravada. Se hoje ainda somos muito “submissos” à cultura norte-americana, antes talvez fôssemos ainda mais.

E ao cantar esse amor verdadeiro, mas não “tradicional”, com um romantismo exagerado, Marisa Monte (e Carlinhos Brown) também ironizam um pouco daquilo que se via como o melhor que se produzia em termos de cultura (músicas melosas e com backing vocals igualmente melosos).

Lendo agora o texto (e a citação) de Amor I love you o que você acha disso tudo? Eu só acho tudo ainda mais genial agora que parei para refletir sobre o assunto.

Deixa eu dizer que te amo
Deixa eu pensar em você
Isso me acalma, me acolhe a alma
Isso me ajuda a viver

Hoje contei pras paredes
Coisas do meu coração
Passeei no tempo, caminhei nas horas
Mais do que passo a paixão
É o espelho sem razão
Quer amor, fique aqui

Meu peito agora dispara
Vivo em constante alegria
É o amor que está aqui

Amor, I love you
Amor, I love you
Amor, I love you
Amor, I love you

Tinha suspirado
Tinha beijado o papel devotamente!
Era a primeira vez que lhe escreviam
Aquelas sentimentalidades

E o seu orgulho dilatava-se
Ao calor amoroso que saía delas
Como um corpo ressequido
Que se estira num banho tépido

Sentia um acréscimo de estima por si mesma
E parecia-lhe que entrava
Enfim, numa existência
Superiormente interessante

Onde cada hora tinha o seu encanto diferente
Cada passo conduzia a um êxtase
E a alma se cobria
De um luxo radioso de sensações!

Amor, I love you
Amor, I love you
Amor, I love you
Amor, I love you

Tash e Tolstói — Kathryn Ormsbee

Título: Tash e Tolstói 
Original: Tash hearts Tolstoy
Autora: Kathryn Ormsbee
Editora: Seguinte
Páginas:  375
Ano: 2017
Tradução: Lígia Azevedo

Sinopse

Natasha Zelenka é apaixonada por filmes antigos, livros clássicos e pelo escritor russo Liev Tolstói. Tanto que Famílias Infelizes, a websérie que a garota produz no YouTube com Jack, sua melhor amiga, é uma adaptação moderna de Anna Kariênina. Quando o canal viraliza da noite para o dia, a súbita fama rende milhares de seguidores ― e, para surpresa de todos, uma indicação à Tuba Dourada, o Oscar das webséries. Esse evento é a grande chance de Tash conhecer pessoalmente Thom, um youtuber de quem sempre foi a fim. Agora, só falta criar coragem para contar a ele que é uma assexual romântica ― ou seja, ela se interessa romanticamente por garotos, mas não sente atração sexual por eles. O que Tash mais gostaria de saber é: o que Tolstói faria?

Resenha

Eu poderia ter quebrado a cara com esse livro, porque a expectativa estava lá em cima. Mas a verdade é que na primeira página eu já não queria mais largar a história.

“Não importa o que aconteça no futuro, temos isto: contamos uma história que não poderíamos ter contado sem a ajuda um do outro”

Há anos sendo um item da minha wishlist literária, o que sempre me chamou a atenção neste livro foi o fato dele ter uma protagonista assexual romântica. E, por conta disso, sempre ignorei que o Tolstói do título fosse… Tolstói!

“Nos abraçamos todas essas vezes e este abraço é exatamente igual aos outros e totalmente diferente deles”

Tash ainda está indo para o último ano do colégio, mas já tem uma vida e tanto: com sua melhor amiga, ela escreve e dirige uma websérie Famílias Infelizes — que é, nada mais nada menos, que uma adaptação de Anna Kariênina — livro que, aliás, agora preciso muito ler (aceito opiniões nos comentários).

“Solto um suspiro, tentando manter a calma. Às vezes dirigir é como cuidar de uma criança pequena: requer muita paciência, pulmões fortes e a habilidade de convencer criaturas egoístas a fazer o que você quer”

Como se isso já não fosse enredo suficiente para um livro, a websérie acaba viralizando da noite para o dia, então Tash, Jack e todo o elenco têm de lidar com a fama repentina (e com tudo o que ela traz, inclusive o hate), bem como a realização de alguns sonhos e o surgimento de muitas dúvidas.

“Algumas pessoas são um livro aberto — dá para saber o que sentem sem muita dificuldade”

Só que Tash e Tolstói ainda tem muito mais. O livro trabalha temas como amizade e relações familiares, bem como pontos onde esses dois assuntos se misturam e se confundem.

“Não tenho certeza de que estou totalmente bem com isso, mas vou estar. Em algum momento”

E, claro, tem a questão da (as)sexualidade da Tash, que poucas vezes vi tão bem trabalhada quanto vi neste livro.

“Não é engraçado como algo pode ser sério por tanto tempo até que de repente não seja mais? Um dia, vira uma piada”

Talvez o mais fascinante desse livro — que eu fiz questão de devorar, ao mesmo tempo que não queria que acabasse nunca — seja o fato de que nada fica forçado na narrativa. Temas sérios são abordados com leveza e com personagens que possuem suas personalidades tão únicas.

“Quando é um momento oportuno para más notícias?”

E mesmo sendo narrado em primeira pessoa — pela Tash — a narrativa nos permite conhecer em boa medida a Jack, a Klaudie (irmã da Tash, responsável por boa parte — mas não toda — das questões familiares desta história), o Paul (irmão da Jack e melhor amigo da Tash, com um papel importante em suas descobertas) e todo o elenco de Famílias Infelizes.

Por se passar nos Estados Unidos, a história também nos lembra de questões relativas ao ensino superior por lá: nem todo mundo tem a oportunidade de realmente fazer o que quiser (ok, não só por lá, mas lendo o livro dá para entender o que é diferente daqui do Brasil).

“Às vezes você tem que seguir as regras injustas da vida”

A história se passa em alguns poucos meses, mas temos flashes de anos anteriores, necessários para a construção da narrativa. E esses poucos meses do presente também valem por muitos. Quanta coisa pode acontecer em dois ou três meses?

“Não é engraçado como algo pode ser uma piada por muito tempo e de repente não ser mais?”

Acho que isso é o que posso falar desse livro sem dar muitos spoilers. E sim, em alguns momentos você vai sentir raiva de certos personagens. Inclusive da Tash. Mas nas páginas finais você vai querer muito saber como essa história pode terminar. E eu gostei da forma que a autora uniu o início ao fim da narrativa.

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Citações #86 — No meu lugar

No meu lugar foi uma leitura forte que realizei este ano. 

Escrito por Jorge Castro, o livro aborda temas importantes e assuntos pesados. Talvez por isso a lembrança seja algo difícil ao longo da história.

“Lembrar é doloroso. Desperta outros medos”

Assim como o medo é uma presença constante. 

“Tudo pode acontecer. E pode ser bem ruim”

Mas onde há medo, também há coragem

“É corajoso deixar o mundo saber que você existe”

Aliás, há personagens corajosos também, e cheios de personalidade.

“Carol não puxou em nada as características do irmão. Aventureira nata, desde pequena. Nunca gostou de ser limitada”

Mas, sem dúvidas, a principal lição da obra é a necessidade de sermos quem somos, independentemente do que os outros dizem (ou pensam). 

“A gente só consegue ser feliz quando para de se preocupar com a forma como os outros veem nossa casa, e passa a focar no que realmente importa: se sentir bem dentro dela”

Se quiser saber mais sobre No meu lugar, não deixe de ler a resenha completa clicando abaixo

Crônicas da surdez — Paula Pfeifer

Título: Crônicas da surdez — aparelhos auditivos 
Autora: Paula Pfeifer
Editora: Publicação independente
Páginas:  126
Ano: 2020

Sinopse

Paula Pfeifer é uma surda que ouve — e que fala — graças a dois ouvidos biônicos. Começou a perder a audição progressivamente na infância. O diagnóstico correto chegou na adolescência, mas a vergonha da própria surdez a impediu de usar aparelhos auditivos por muitos anos.

A jornada da deficiência auditiva foi muito solitária e assustadora, e a publicação deste livro celebra a sua saída definitiva do armário da surdez. “Crônicas da Surdez” reúne textos que contam sua história, experiências com o uso de aparelhos auditivos, reflexões sobre vergonha, aceitação, direitos, além de contar algumas aventuras num mundo que ainda não tem toda a acessibilidade necessária.

Foi indicado ao Prêmio Biblioteca Nacional e matéria na revista Vogue Brasil, Vogue Portugal, Marie Claire, em inúmeros programas de TV e nos principais jornais brasileiros.

Resenha

A leitura de Crônicas da surdez é fácil: sua linguagem é simples e faz parecer que a autora está conversando conosco.

“Conviver com a surdez requer uma boa dose de bom humor e paciência”

Ainda assim, senti certo estranhamento no início. Algo me incomodava nas palavras delas. Provavelmente porque esqueci, logo de cara, do próprio alerta da autora.

“Este livro é filho do seu tempo. Foi escrito no início de 2013, quando eu era usuária de aparelhos auditivos. De lá para cá, muita coisa mudou. Hoje, escuto todos os sons do mundo através de dois ouvidos biônicos”

A verdade é que a surdez é múltipla e, ainda que nenhuma experiência seja individual nesta vida, por mais que eu já tenha estudado um pouco da comunidade surda, ela é tão ou mais diversa que a comunidade ouvinte. E eu estava acostumada ao grupo que optou (ou não podia mesmo optar) por aparelhos auditivos e implantes cocleares.

“Como se não bastasse a surdez ser um monstrinho de sete cabeças, ela ainda é heterogênea: existem diferentes graus e tipos de surdez, o que também gera formas diversas de comunicação”

Mas se engana quem imagina que esta obra é apenas para surdos, para que quem está perdendo ou nunca teve audição sinta-se abraçado(a).

“Sempre quis ler o que um surdo oralizado tinha a dizer a respeito de suas conquistas, dúvidas, alegrias e tristezas”

O livro também serve para conscientizar muitos ouvintes sobre uma realidade tantas vezes ignorada.

“A família vive a surdez conosco”

Crônicas da surdez é dividido em três partes.

Na primeira, mergulhamos no universo da surdez, entendendo um pouco da sua multiplicidade, mas também conhecendo melhor o percurso da própria autora neste meio, afinal, ela não nasceu surda, mas foi perdendo a audição durante a infância e teve de se adaptar a uma vida um pouco diferente.

“Precisamos jogar com as cartas que temos em vez de passar longos anos lamentando a falta das cartas que gostaríamos de ter. A vida é curta”

Na segunda parte, a autora nos conta alguns causos de sua vida, sempre buscando incentivar as pessoas a se aceitar, a buscar ajuda e, acima de tudo, qualidade de vida.

“É preciso ter em mente que acessibilidade não pode custar caro e deve ser algo que qualquer pessoa consiga acessar 24 horas, sete dias por semana”

Por fim, na terceira parte, a autora traz alguns depoimentos que recebeu ao longo dos anos, pois ela escreve muito sobre o assunto. E é interessante ver algumas histórias contadas por outros pontos de vista e também a reação da autora a essas narrativas.

“Existe algo mais vergonhoso do que envergonhar‑se de si mesmo?”

Aliás, Paula Pfeifer tem um grande trabalho relacionado à comunidade surda, com muito material e incentivo, principalmente àqueles que pensam em implantes cocleares ou aparelhos auditivos. Ela fala muito sobre tudo isso ao longo de todo o livro.

“O projeto se chamou Surdos Que Ouvem e foi um sucesso. Milhões de pessoas assistiram a nossa campanha de vídeos, milhares participaram dos nossos eventos e incontáveis pessoas passaram a usar aparelhos auditivos (ou fizeram um implante coclear) após conhecer o nosso trabalho”

Mas você também pode conhecer melhor o seu trabalho seguindo-a em suas redes sociais: Instagram | Linkedin | Newsletter

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Se dovessi scegliere una persona

In un giorno qualsiasi, un mio collega mi ha fatto una domanda che da parte sua l’aveva domandato una piccola bambina.

Non è una domanda originale, anzi è una di quelle tante che vediamo su internet, da usare per conoscere meglio una persona o semplicemente per iniziare una conversazione un po’ più filosofica.

Sì, in un pomeriggio qualsiasi un mio collega mi ha chiesto con chi passerei quattro ore chiusa dentro un ascensore fuori servizio

Mi è venuta la voglia di scrivere su questo non perché volevo raccontarvi la mia risposta, ma perché pensando a questa domanda una riflessione mi è passata per la mente (e, in più, volevo scrivere qualcosa in italiano).

Il punto è: perché quando ci fanno queste domande, ci viene in mente che dobbiamo rispondere con un nome conosciuto e giustificare la nostra scelta su perché questa personalità e non quell’altra?

Beh, il mio primo pensiero è stato questo. Dovevo — in maniera intelligente — rispondere con un nome conosciuto, anche se non sono una persona che ha grandi idoli. Ma dovevo scegliere, tra nomi più o meno conosciuti, uno. Un cantante? Una scrittrice? Un’attivista? Chi scegliere? Perché?

Dopo la domanda, però, mio collega (che da parte sua ancora non aveva una risposta) mi ha detto un’altra cosa che ha collaborato a questa riflessione: in quattro ore possiamo parlare di molte cose. Quattro ore chiusi dentro un ascensore può essere una quantità molto grande di ore. Tempo abbastanza per scoprire cose che forse non volevamo scoprire.

Così, la scelta dev’essere fatta bene, altrimenti ci annoieremo o ci deluderemo. E come molte persone dicono (persino la protagonista del libro che sto leggendo e che, anche lei, ha contribuito a tutta questa riflessione) è sempre un rischio voler conoscere più a fondo i nostri idoli.

Sì, abbiamo bisogno di persone modelli. Abbiamo bisogno di credere che alcune persone sono incredibili. Ma, in fondo, sappiamo che nessuno è perfetto. E in quattro ore potremmo avere la certezza di questa verità.

Detto tutto ciò, chi scegliere come risposta a una domanda del tipo? Beh, alla fine mi è sembrato un po’ ovvio: se devo passare quattro ore chiusa con una persona qualsiasi, che sia una persona con chi è facile parlare e stare insieme. Una persona che conosco già e con chi sarebbe piacevole parlare per quattro ore di seguito. Sceglierei passare quattro ore chiusa con un(a) grande amico(a).

Sì, questa non è una celebrità o qualcuno che abbia fatto qualcosa che l’abbia trasformato in una persona conosciuta, ma è qualcuno che ha sempre delle parole che mi fanno riflettere, che mi fanno crescere o almeno che mi fanno sentire bene (principalmente in una situazione terribile come questa).

E allora, con chi passeresti quattro ore chiuso(a) in un ascensore?