Citações #88 — A cor púrpura

O post de hoje vai para você que ainda não se convenceu a ler A cor púrpura, escrito por Alice Walker.

Uma obra que, para além de um clássico, realmente tem muito a nos transmitir, falando, por exemplo, sobre pertencimento.

“Pela primeira vez na minha vida, eu sinto que tô no meu lugar”

Sobre o respeito ao próximo, mesmo que o próximo seja uma mulher vivendo numa sociedade extremamente machista.

“Eu num brigo as briga da Sofia, ele fala. Meu negócio é amar ela e levar ela pra onde ela quer ir”

Uma história sobre amores, não apenas românticos (aliás, este talvez seja o menos presente) e sobre exemplos.

“Talvez só de morarmos juntos, amar as pessoas faz com que elas se pareçam com a gente, eu falei. Você sabe como algumas pessoas casadas há muito tempo se parecem”

Mas, acima de tudo, uma obra sobre preconceitos, desrespeito e sobre vencer diariamente muitas batalhas. 

“Eu sei que os branco nunca escutam os negro, e pronto. Se eles escutam, eles só escutam o bastante pra poder dizer procê o que você deve fazer”

Se você acha que precisa ler esta obra (e spoiler: precisa mesmo) clique na resenha para saber mais sobre ela e garantir o seu exemplar. 

A cor púrpura — Alice Walker

Título: A cor púrpura 
Original: The color purple
Autora: Alice Walker
Editora:  José Olympio
Páginas:  355
Ano: 2021 (25º edição)
Tradução: Betúlia Machado, Maria José Silveira e Peg Bodelson 

Sinopse

Alguns dos personagens mais marcantes da literatura norte-americana recente estão neste livro – ganhador do Pulitzer e do American Book Award –, que inspirou a obra-prima cinematográfica homônima dirigida por Steven Spielberg e o aclamado musical da Broadway, adaptado para o cinema.

A cor púrpura , ambientado no Sul dos Estados Unidos, entre os anos 1900 e 1940, conta a história de Celie, mulher negra, pobre e semianalfabeta. Brutalizada desde a infância, a jovem foi estuprada pelo padrasto e forçada a se casar com Albert, um viúvo violento, pai de quatro filhos, que enxergava a esposa como uma serviçal e fazia dos sofrimentos físicos e morais sua rotina.

Durante trinta anos, Celie escreve cartas para Deus e para a irmã Nettie, missionária na África. Os textos têm uma linguagem peculiar, que assume cadência e ritmo próprios à medida que Celie cresce e passa a reunir experiências, amores e amigos. Entre eles está a inesquecível Shug Avery, cantora de jazz e amante de Albert.

Apesar da dramaticidade do enredo, A cor púrpura é uma história sobre mudanças, redenção e amor. A partir da vida de Celie, a aclamada escritora Alice Walker tece críticas ao poder dado aos homens em uma sociedade que ainda hoje luta por igualdade entre gêneros, raças e classes sociais. Eleito pela BBC um dos 100 romances que definem o mundo, A cor púrpura é um retrato da vivência da mulher negra na época da segregação racial, cujos reflexos ainda estão presentes na nossa sociedade.

Resenha

Em janeiro de 2020, uma amiga me convidou para assistir ao musical A cor púrpura (inclusive, escrevi sobre isto aqui). Até então eu não sabia nada sobre esta história — e esta obra literária — mas lembro que saí totalmente encantada do teatro, querendo mais e mais. 

“Mamãe Netti, ele falou, sentado na cama ao meu lado, como você sabe quando realmente ama uma pessoa?”

Depois de muito tempo, finalmente o livro chegou até mim, e por muito tempo mais eu tive medo de encará-lo. Mesmo sabendo que a história era ótima, se tratava de um clássico, então tinha medo de como poderia ser a sua linguagem, o que, por si só, já demonstra o quão pouco eu havia absorvido naquele espetáculo.

“Já é duro o bastante tentar levar a vida sem ser maluco”

Sim, porque a linguagem deste livro é um dos primeiros pontos que temos a destacar sobre ele: ela é simples. Não necessariamente fácil, mas simples. 

“Se ele alguma vez escutasse uma pobre mulher negra o mundo seria um lugar bem diferente, eu posso garantir”

Isto porque o livro é epistolar e quem escreve a maioria das cartas é Celie, uma mulher negra e semianalfabeta. E este é outro ponto de destaque neste livro: seus personagens, em toda sua simplicidade, são extremamente ricos

“Ela brigou, ela fugiu. Que que isso trouxe de bom? Eu num brigo, eu fico onde me mandam. Mas eu tô viva”

A história se passa nos Estados Unidos, numa época em que a segregação racial ainda era muito marcada e poder acompanhar o dia a dia de personagens negros neste contexto nos leva a muitas reflexões.

“É um milagre como os branco conseguem afligir tanto a gente, Sofia falou”

Por meio das cartas de Celie, ora endereçadas a Deus, ora endereçadas a Nettie, sua irmã mais nova que parece ter tido um pouco mais de sorte na vida, vamos mergulhando nesta história que fala sobre perdas, famílias, preconceito.

“Começa a parecer que é difícil dimais continuar a viver”

Celie tem uma vida muito sofrida: seu pai abusou dela, depois a fez se casar com um viúvo cujos filhos apenas a maltratavam (não que ele também a tratasse muito melhor). E, no meio disso tudo, ela ainda se vê obrigada a se afastar de Nettie, sua única alegria nesta vida.

“Todo mundo quer ser amado. A gente canta e dança, faz careta e dá buquê de rosa, tentando ser amado”

No meio de tanta adversidade, porém, Celie tem a oportunidade de conhecer Shug Avery e, com ela, aprender muito sobre o mundo, sobre o amor e sobre si mesma.

“Afinal, Albert sabia tanto quanto eu que o amor tinha que ser dimais pra ser melhor que o nosso”

Aliás, dizer que esta história fala sobre amores pode parecer simplista demais, mas não temos como ignorar, também, a presença de um amor forte, puro e que foi escrito numa época que este tipo de amor era ainda menos aceito que nos dias de hoje.

“Alguém para onde fugir. Parecia bom dimais pra durar”

Para além dos assuntos já mencionados, A cor púrpura é uma história que consegue nos fazer pensar sobre religião, colonização — inclusive tem passagens da Nettie que são verdadeiras aulas com relação a isso — e sobre nosso lugar no mundo.

“Por que eles nos venderam? Como é que eles puderam fazer isso? E por que será que nós ainda assim os amamos?”

Outra questão que chamou muito minha atenção foram os nomes — ou, em alguns casos, a ausência deles — e a importância que se dá àquilo que é nomeado.

“Faz o Harpo chamar você pelo seu nome verdadeiro, eu falei. Aí quem sabe ele vai ver você mesmo quando tiver com um problema”

A cor púrpura é um daqueles livros que não queremos largar. Os capítulos são, em sua maioria, relativamente curtos, o que ajuda bastante no processo de “só mais um pouquinho”.

“E eu tento ensinar meu coração a num querer nada que ele num pode ter”

Também é uma daquelas obras que me faz ficar pensando no trabalho que foi traduzi-la (não à toa, esta edição conta com três nomes para essa função): como terá sido o processo de encontrar o tom certo para Celie?

Por fim, esta é uma história que vai te fazer ter vontade de se aproximar de Celie, bater em Albert, se apaixonar por Shug Avery (quem não é apaixonado por ela?), torcer por Nettie, lutar por e com Sofia… Enfim, uma história marcada por ótimos personagens e uma narrativa extremamente necessária.

Li A cor púrpura na edição física da José Olympio e achei a diagramação bem limpa e confortável. O papel off-white também contribuiu para uma leitura agradável.

Se você ainda não teve o prazer de ler este livro, clique abaixo e saiba mais sobre ele!

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Tatianices Recomenda [10] — dica teatral

Primeiro final de semana do ano e a cidade ainda está relativamente vazia (se é que em algum momento ela fica realmente “um pouco vazia”). O teatro está lotado, numa tarde chuvosa de janeiro. As cortinas se abrem e começa o espetáculo. Senhoras e senhores, que espetáculo!

A Cor Púrpura – O Musical é uma peça baseada na obra homônima, escrita por Alice Walker e vencedora do Prêmio Pulitzer (um livro que acabou de entrar na minha lista de livros que preciso ler urgentemente). Sim, a dica de hoje é teatral, mas ainda está relacionada a livros.

Com um elenco composto 100% por atores negros, A Cor Púrpura – O Musical retrata a dura vida de Celie, uma mulher negra no início do século XX. Assistindo ao espetáculo eu só conseguia pensar como o livro que deu origem a ele deve ser incrível. E olha que eu nem tinha certeza de uma coisa: o fato dele ter sido escrito por uma mulher!

Gente, pensem: A Cor Púrpura retrata a vida (e o sofrimento) de uma mulher. Uma mulher negra. No início do século XX. É uma história que denuncia abusos, machismo e que, ao mesmo tempo, fala sobre como a mulher existe sim na sociedade, como ela pode impor respeito e, mais que isso, deve sim ser respeitada como ser humano! Ver essa peça (e provavelmente ler esse livro) é um mix de “isso não acontece”, “isso não pode acontecer”, com “isso acontece sim” e “socorro que mundo é esse em que vivemos?”. E, sim, infelizmente, por mais que retrate uma sociedade do início do século XX, a trama dessa peça é muito atual.

A peça está em cartaz no Teatro Net, em São Paulo (fica dentro do Shopping Vila Olímpia e é pertinho da estação Vila Olímpia da linha 9-Esmeralda), até meados de fevereiro. Os ingresso podem ser adquiridos aqui ou diretamente na bilheteria (opção que eu recomendo, viu!). Os valores do ingresso são um pouco salgadinhos (a inteira mais barata custa R$75,00 e a mais cara custa R$220,00), mas não vou negar que cada centavo vale. Dá para ficar arrepiado do começo ao fim e, mesmo com todo o peso da história, é possível também dar boas risadas.

Quem me chamou para ver essa peça foi minha amiga Nati, administradora do Blog (maravilhoso) Napolitano como meu pé e eu agradeço imensamente o convite e a oportunidade de ver e conhecer uma história dessas e tantas outras que você me apresenta!