Figuras femininas e masculinas — Diário de leitura (14)

Imagem inicial com a capa de "As mil e uma noites"

No diário de leitura de hoje vou comentar duas histórias que li, porque a primeira, na verdade, era bem curtinha e não tenho tanto o que falar. Trata-se de A história do príncipe Zein Alasnam e do rei dos gênios.

O que eu mais gostei nesta narrativa foi o fato dela retratar os excesso cometidos por um jovem que torna-se rei muito cedo e que, como tantas pessoas fazem ainda hoje, ao ver-se dono de enormes riquezas, gasta-as como se elas nunca fossem acabar. Mas acabam.

Porém, este não é exatamente o foco desta história. O ponto principal dela são alguns sonhos que este jovem tem — quando já está tudo praticamente perdido em sua vida — e que lhe parecem uma mensagem. Ele decide, então, seguir esse sonhos, mas nas duas primeiras vezes que o faz, nada acontece. Porém, nada como a persistência, não é mesmo?

Depois, li A história de Codadad e seus irmãos e, quando dei início à leitura, pensei já tê-la lido, pois é realmente muito parecido com o de narrativas anteriores:

“Os que escreveram a história do reino de Diarbekir dizem que na cidade de Harran reinara um rei magnífico e poderoso. Amava seus súditos e era amado por eles. Possuía mil virtudes, e só lhe faltava, para ser perfeitamente feliz, ter um herdeiro. Embora vivessem no seu harém as mais formosas criaturas do mundo, não conseguia ter filhos delas”

(As mil e uma noites – volume 2 — p. 190)

Seguindo um pouco na leitura, porém, percebi que era realmente uma nova narrativa, que logo me prendeu. Claro que, por algum milagre, o rei teve não apenas um, mas cinquenta filhos! Um desses filhos, porém, é criado por um primo do rei e, no final das contas, é aquele que melhor se desenvolve nas habilidades necessárias para tornar-se um rei.

Mas nenhuma narrativa de As mil e uma noites é tão simples assim, então claro que esta é recheada de reviravoltas. E ela está conectada à A história da princesa de Deriabar. Essas duas narrativas encerram-se juntas (portanto, as li como sendo uma única história).

Acho que o único ponto reflexivo que me vem agora à mente, com relação a essas últimas duas narrativas, é como a figura masculina é sempre cumulada de glórias, bons feitos e bênçãos que ajudam a fugir de uma má sorte, enquanto a figura feminina é sempre desgraçada, sofrida e até mesmo causa de todo o mal.

Não digo que em todas as narrativas desta obra é assim, provavelmente eu estaria mentindo se fizesse tal afirmação, mas consigo me lembrar de muitas nas quais a mulher traz algum tipo de infortúnio ao homem. Porém, não sejamos injustos: muitas vezes elas também lutam para que a verdade seja apresentada e a figura masculina não sofra alguma pena não merecida.

A próxima narrativa que lerei chama-se A história do adormecido despertado, um título que já despertou minha curiosidade (e a do sultão da Índia, conforme mencionado no próprio livro). Ela é um pouco mais longa (são mais de 60 páginas), então não sei muito bem o que esperar (e quando trarei o próximo diário de leitura, confesso).

Mas fiquem de olho! E se já tiverem lido As mil e uma noites tentem me contar o que vem pela frente, sem dar spoilers (sim, estou desafiando vocês!).

A riqueza de um clássico — Diário de leitura (6)

Depois das narrativas de Simbá, o marinheiro, que pareciam nunca acabar, cheguei em A história de Nunredin Ali e de Bedredin Hassan, que se estendeu da 93º noite até a 122º. Essa sim me cativou: mesmo sendo uma história relativamente extensa, eu sempre queria saber o que viria a seguir, visto que ela é cheia de encontros e desencontros.

Tudo começa com dois irmãos que cresceram muito unidos, mas que, em dado momento, brigaram. E, com essa briga, um deles decide partir e é aí que as coisas vão ficando mais e mais interessantes, até chegarmos ao surpreendente desfecho.

Por conta dessa narrativa, acabei pensando um pouco na diferença temporal que existe entre o momento que As mil e uma noites foram escritas e o momento em que as leio. As tecnologias que conhecemos hoje, e mesmo algumas mais rudimentares de anos atrás, teriam evitado muitos dos desencontros que vemos nesta história. Bem, na verdade ela provavelmente sequer existiria.

Por outro lado, há cenas que beiram ao absurdo nesta narrativa, como a manipulação que fazem com Bedredin Hassan para que ele acredite que tudo o que vivera não passara de um sonho. Parece absurdo não por ser impossível, mas porque todos parecem se divertir às custas desse episódio, inclusive Shahriar, o sultão que, noite após noite, escuta Sherazade.

“Shahriar não pôde deixar de rir por ter Bedredin Hassan tomado a realidade por simples sonho”

No meio dessa história, chegamos à 100º noite. E, na edição que tenho em mãos, há uma nota do tradutor:

“A 101º e a 102º noites, no original, passaram-se na descrição de sete vestidos e de sete adornos diferentes trocados pela filha do vizir Chemsedin Mohammed, ao som dos instrumentos. Como tal descrição não me pareceu agradável, e como também vem acompanhada de versos belíssimos em árabe, mas que nós não poderíamos apreciar, julguei conveniente não traduzi-las”

Uma nota como essa me faz lembrar a riqueza que essa obra possui. E como aqui no Brasil, até o momento, temos acesso a apenas uma parcela dela. E, ainda assim, olha o quanto de coisa é possível extrair dessas páginas. Não cheguei sequer à metade do primeiro livro (a edição que eu tenho é dividida em dois volumes), mas já fiz diversas reflexões diante do que li, além de ter conhecido muitas histórias cheias de detalhes.

Terminada A história de Nunredin Ali e de Bedredin Hassan, Sherazade se arrisca: o dia já estava amanhecendo e ela não teria tempo de dar início a uma nova narrativa, mas fala o seguinte para Shahriar:

“— Mas, senhor — acrescentou Sherazade, notando que o dia estava a despontar —, por mais agradável que seja a história que acabei de vos contar, sei outra que é muito mais. Se desejardes ouvi-la amanhã de noite, estou certo de que vos agradará”

Se funcionou? Bem, acredito que vocês já saibam a resposta, mas o resto eu deixo para contar somente na próxima semana…