Teto para dois — Beth O’Leary

Título: Teto para dois 
Original: The flatshare 
Autora: Beth O’Leary 
Editora: Intrínseca 
Páginas: 400 
Ano: 2019 
Tradutora: Carolina Selvatici

Alguns livros são mais difíceis de resenhar que outros e eu não poderia imaginar que Teto para dois seria um desses livros, mesmo depois de ler as palavras da Fernanda nesta resenha.

“Quando repetimos uma verdade vezes o bastante, quando nos esforçamos o suficiente, um dia funciona”

A dificuldade de falar desse livro não reside no fato de que muito já se falou sobre ele, mas sim no quanto ele pode atingir de maneiras tão únicas e pessoais cada um de nós.

“Deveria ficar feliz, mas não consigo”

Com uma narrativa em primeira pessoa que alterna entre os protagonistas, Tiffy e Leon, a história aborda temas como relacionamentos tóxicos, injustiça, amizade, força e a necessidade de falarmos e não desperdiçarmos as oportunidades que a vida nos dá.

“Não deixe sua.. reticência natural atrapalhar você. Deixe claro o que sente por ela. Afinal, você é um livro fechado, Leon”

Tiffy precisa desesperadamente de um lugar não muito caro para morar. Ela e seu (ex) namorado já haviam terminado (de novo) há três meses, mas ela ainda morava no apartamento dele e a situação tornava-se insustentável (isso pode parecer óbvio, mas com o desenrolar da história a coisa só piora…).

Depois de muitas visitas a apartamentos terríveis, Tiffy se depara com um anúncio bem inusitado: uma proposta de divisão de uma casa de apenas um quarto, mas que seria ocupado durante o dia pelo dono e a noite e aos finais de semana por Tiffy.

“É preciso dizer uma coisa sobre o desespero: ele deixa a cabeça da gente muito mais aberta”

Claro que o dono desse anúncio é Leon, que precisa muito de dinheiro para pagar o advogado de Richie, seu irmão, que está preso (injustamente? Só a leitura nos fará descobrir).

Mas de um lado temos Gerty e Mo, grandes amigos de Tiffy, achando essa ideia absurda; de outro lado temos Kay, namorada de Leon, que certamente não gosta nem um pouco de saber que, mesmo que indiretamente, ele vai dividir sua cama com outra mulher.

E claro que essa divisão — que acaba realmente acontecendo — é apenas o começo de tudo o que se desenrola depois.

“Aquela sensação de novo, a raiva represada ao ouvir alguém que você tenta muito amar dizer as piores coisas”

Tiffy tem um coração enorme. Daqueles que não mecerem experienciar a maldade humana tão de perto, mas que talvez justamente por isso, acabam experienciando.

“Estou com medo de que ele esteja preparando alguma coisa. Homens assim não vão embora depois de um susto”

Ao mesmo tempo em que vamos conhecendo aos poucos essa protagonista, também vamos descobrindo, com ela, as feridas de seu antigo relacionamento. Até chegar um ponto em que é difícil não ter horror a Justin.

“Sei que é difícil pensar coisas ruins dele, Tiffy, mas, seja qual for a desculpa que queira arranjar para todo o resto, nem você pode ignorar que ele deixou você para ficar com outra mulher”

Cada revelação e acontecimento são como uma facada no coração ou, pior ainda, um espelho para quem já viveu coisas parecidas, mesmo sem se dar conta.

“Então estar com ele era divertido. Mas será que era bom para mim?”

Enquanto Tiffy vai nos fazendo refletir sobre a toxicidade de seu relacionamento, Leon nos faz enxergar dois outros importantes pontos sobre as relações humanas: a dor de enxergar que já não há mais espaço, em nossas vidas, para aquela pessoa que um dia amamos (e com quem, muitas vezes, ainda estamos juntos, talvez por hábito) e a necessidade de não deixarmos para depois o amor que temos para dar hoje.

“Holly: você é péssimo em contar às pessoas o que sente de verdade”

Se a história de Tiffy e Leon — tanto separadamente quanto quando elas se cruzam — já daria um livro, Teto para dois nos surpreende, também, com as narrativas paralelas que aparecem, e que trazem as demais temáticas que mencionei anteriormente.

Gostei da forma como a amizade de Mo, Gerty e Tiffy funciona. É clara a preocupação de Mo e Gerty com Tiffy, mas eles também sabem que ela precisa caminhar com as próprias pernas, mesmo que eles não estejam de acordo com as escolhas dela. O que, contudo, não faz com eles saiam do lado dela.

“Ser legal é uma coisa boa. A gente pode ser forte e legal. Não precisa ser uma coisa de cada vez”

Foi difícil não se deixar envolver por essa narrativa. Eu estava curiosa com a troca de post its entre Tiffy e Leon, que eu já sabia que acontecia, mas não imaginava que esses pedacinhos de papel nos ajudariam a enxergar tanta coisa também.

“É estranho ver como é fácil conhecer alguém pelos vestígios que a pessoa deixa para trás”

Quando, já perto do final, a história deu um salto de dois anos, eu quase chorei (mais), pois não queria que o livro acabasse. É difícil se despedir de personagens tão marcantes e presentes como esses.

Se você ainda não leu Teto para dois e ficou com vontade, não deixe de clicar abaixo para saber mais. E se você já leu, vem me contar o que achou!

Caixa de pássaros — Josh Malerman

Título: Caixa de pássaros
Original: Bird Box
Autor: Josh Malerman
Editora: Intríseca
Páginas: 272
Ano: 2015
Tradutor: Carolina Selvatici

caixa de pássaros blog

Sei que muito já foi falado sobre Caixa de pássaros (mais conhecido por Bird Box) e que talvez eu não traga nada de novo aqui, mas como não gostei tanto de Uma casa no fundo de um lago, nada mais justo que voltar a Josh Malerman e escrever sobre uma história que gostei.

Me lembro que quando o filme estourou na Netflix, muitas pessoas tentaram interpretar a história, e tantas outras não a entenderam. Depois de assistir ao filme e ler o livro, fico aqui pensando quantas camadas tem essa história e o quão pouco eu realmente devo ter absorvido dela.

“Ninguém tem respostas. Ninguém sabe o que está acontecendo. As pessoas estão vendo alguma coisa que as leva a machucar os outros. A machucar a si mesmas”

(p.31)

Neste livro, para quem ainda não o conhece, é retratado um mundo em que algo faz com que as pessoas que o vêem, se suicidem. Ninguém sabe ao certo o que é que desencadeia essa reação, mas as pessoas passam a compreender que a única solução é não olhar.

“Parece que não importa sob que ângulo vemos as criaturas, elas sempre nos machucam”

(p.75)

Deste modo, “não olhe”, se torna o mantra dos sobreviventes deste mundo apocalíptico. Só é possível sair às ruas de olhos vendados. E ainda que as pessoas tentem tomar cuidado, chega um momento em que a sobrevivência vai se tornando cada vez mais complicada, porque ainda que se saia de olhos vendados, onde conseguir itens básicos, como comida e produtos de higiene?

A narrativa se alterna entre passado — quando tudo começa a ficar estranho e Malorie, sozinha no mundo e grávida, encontra um grupo que está fazendo o possível para sobreviver, dividindo uma casa — e presente, quando Malorie está com duas crianças, tentando dar uma vida digna a elas num cenário que se tornou ainda mais apocalíptico.

“Como pode esperar que seus filhos sonhem em chegar às estrelas se não podem erguer a cabeça e olhar para elas?”

(p.71)

Caixa de pássaros é um livro que nos prende pelo seu suspense, por seus pontos angustiantes e por nossa curiosidade diante do desconhecido total. Duvido que você leia esse livro e não fique se perguntando como seria viver sem poder ver.

Como eu disse anteriormente, a frase “não olhe” é repetida como um mantra salvador que às vezes pode nos parecer estranho. Mas fico pensando quantas coisas nos são repetidas (quase como mantras) diariamente e que se tornam normais para nós (ainda que não o sejam)? (eu penso muito, por exemplo, quando pego metrô no horário de pico e — todo santo dia — eles dão repetidamente os mesmos avisos, como “utilize a escada fixa no final do corredor” ou “a faixa amarela é a sua segurança” e afins).

“Disseram a eles que poderiam enlouquecer. Então eles enlouquecem”

(p.190)

E se Caixa de Pássaros me faz refletir sobre o que está à minha volta, mesmo retratando algo totalmente diferente do que eu conheço ou vivo, então, certamente, esse é um livro para não deixar passar.

Para saber mais sobre esse mundo assustador e sobre como termina a aventura vivida por Malorie, clique aqui.