Fechando histórias abertas — Diário de leitura (8)

Finalmente li a história dos seis irmãos do barbeiro e, consequentemente, cheguei ao final de dois arcos narrativos que estavam pendentes em minhas leituras de As mil e uma noites. Mas vamos por partes, certo?

Em meu último diário de leitura, eu parei por volta da 167º noite, que é quando começa A história do primeiro irmão do barbeiro. E essa narrativa seguem:

  • A história do segundo irmão do barbeiro
  • A história do terceiro irmão do barbeiro
  • A história do quarto irmão do barbeiro
  • A história do quinto irmão do barbeiro
  • A história do sexto irmão do barbeiro

Nenhuma dessas narrativas é fácil de ler, pois todos esses irmãos sofreram com algo. E, para piorar, as histórias são contadas para divertir o Sultão que as escutava. Porém, não bastassem ser histórias tristes, a do quinto irmão do barbeiro me incomodou profundamente de início, pois ele sonhava em se casar com uma mulher que deveria ser extremamente submissa e que, ainda assim, ele pretendia ignorar e fazer sofrer.

Eu estava indignada lendo esse trecho, ainda que ele fosse apenas um sonho distante para tal homem, e fiquei muito aliviada quando um acontecimento o tirou desses pensamentos horríveis e, mais ainda, fiquei feliz, confesso, por ver outro homem rindo do infortúnio, considerando-o “bem feito” diante dos pensamentos do irmão do barbeiro.

Ao terminar de ouvir essas histórias, o Sultão de Casgar, que as escutava para decidir se eram tão boas quanto as histórias do seu falecido corcunda, fica satisfeito e decide não mais condenar à morte aqueles que se haviam apresentado como culpados pelo falecimento do tal. Neste ponto, já estamos na 183º noite e ainda há mais um episódio interessantíssimo deste arco narrativo, contado no dia seguinte, quando finalmente chegamos ao final destas narrativas.

“A sultana Sherazade terminou assim essa longa série de aventuras às quais a suposta morte do corcunda dera origem” (p. 416)

Eu estou aqui falando de fim e parece que eu cheguei ao final do livro, mas não! Falta muito ainda. Provavelmente até dezembro vocês ainda vão me ouvir falar de As mil e uma noites. O que será que vem por aí? Já engatei em mais uma história que promete…

A riqueza de um clássico — Diário de leitura (6)

Depois das narrativas de Simbá, o marinheiro, que pareciam nunca acabar, cheguei em A história de Nunredin Ali e de Bedredin Hassan, que se estendeu da 93º noite até a 122º. Essa sim me cativou: mesmo sendo uma história relativamente extensa, eu sempre queria saber o que viria a seguir, visto que ela é cheia de encontros e desencontros.

Tudo começa com dois irmãos que cresceram muito unidos, mas que, em dado momento, brigaram. E, com essa briga, um deles decide partir e é aí que as coisas vão ficando mais e mais interessantes, até chegarmos ao surpreendente desfecho.

Por conta dessa narrativa, acabei pensando um pouco na diferença temporal que existe entre o momento que As mil e uma noites foram escritas e o momento em que as leio. As tecnologias que conhecemos hoje, e mesmo algumas mais rudimentares de anos atrás, teriam evitado muitos dos desencontros que vemos nesta história. Bem, na verdade ela provavelmente sequer existiria.

Por outro lado, há cenas que beiram ao absurdo nesta narrativa, como a manipulação que fazem com Bedredin Hassan para que ele acredite que tudo o que vivera não passara de um sonho. Parece absurdo não por ser impossível, mas porque todos parecem se divertir às custas desse episódio, inclusive Shahriar, o sultão que, noite após noite, escuta Sherazade.

“Shahriar não pôde deixar de rir por ter Bedredin Hassan tomado a realidade por simples sonho”

No meio dessa história, chegamos à 100º noite. E, na edição que tenho em mãos, há uma nota do tradutor:

“A 101º e a 102º noites, no original, passaram-se na descrição de sete vestidos e de sete adornos diferentes trocados pela filha do vizir Chemsedin Mohammed, ao som dos instrumentos. Como tal descrição não me pareceu agradável, e como também vem acompanhada de versos belíssimos em árabe, mas que nós não poderíamos apreciar, julguei conveniente não traduzi-las”

Uma nota como essa me faz lembrar a riqueza que essa obra possui. E como aqui no Brasil, até o momento, temos acesso a apenas uma parcela dela. E, ainda assim, olha o quanto de coisa é possível extrair dessas páginas. Não cheguei sequer à metade do primeiro livro (a edição que eu tenho é dividida em dois volumes), mas já fiz diversas reflexões diante do que li, além de ter conhecido muitas histórias cheias de detalhes.

Terminada A história de Nunredin Ali e de Bedredin Hassan, Sherazade se arrisca: o dia já estava amanhecendo e ela não teria tempo de dar início a uma nova narrativa, mas fala o seguinte para Shahriar:

“— Mas, senhor — acrescentou Sherazade, notando que o dia estava a despontar —, por mais agradável que seja a história que acabei de vos contar, sei outra que é muito mais. Se desejardes ouvi-la amanhã de noite, estou certo de que vos agradará”

Se funcionou? Bem, acredito que vocês já saibam a resposta, mas o resto eu deixo para contar somente na próxima semana…