Citações #93 — Recesso

Recesso, do autor Claus Castro, foi uma leitura que me apareceu do nada, graças ao contato do próprio autor, e que me fez pensar em alguns (vários) assuntos, que retomo aqui, com alguns trechos que destaquei ao longo da leitura e que ficaram de fora da resenha.

O primeiro deles é a nossa memória: aquilo que lembramos e esquecemos, por querer ou pela passagem do tempo.

“Lembrar é um presente me tomando o futuro e este tempo é um sono do qual não posso despertar”

“Algo morre em você e você não consegue continuar sendo a mesma pessoa. Você se perde, no amor ou nessa ausência, e passa a ser tudo aquilo que detestava, para esquecer, para não esquecer, para tampar o rombo no seu peito com a continuação de uma história que já terminou”

“Você esconde no fundo de um álbum no celular uma foto de alguém que não vê há dez anos”

“Toda vez que ficamos, estamos deixando algo para trás, um lapso, uma oportunidade ou o início de uma memória que seja”

Tempo, aliás, é outra temática muito presente, e o autor nos faz pensar sobre a História e o que estamos fazendo com nossas vidas.

“Três revoluções industriais, e a tecnologia foi capaz de nos aproximar de tudo, menos de nós mesmos”

“Quando nasci havia um muro, e pessoas morrendo por uma liberdade em cima dele. Hoje somos livres e vivemos nossas vidas construindo barreiras entre nós”

“A história não era linear, não éramos lineares, nossas histórias não passavam de linhas que ora se trançavam e ora se desembaraçavam numa grande fiação de mais um maquinário que nos roubava”

O narrador possui uma amargura muito visível e, por isso, essas temáticas são tão densas, assim como quando ele fala sobre a relação que temos uns com os outros e como deveríamos estar mais verdadeiramente presentes.

“Mal saíamos de casa e nos sentíamos tão sozinhos, nossas dores não eram mais capazes de nos unir de nos fazer encontrar no outro um ombro para desabar”

“Antes precisávamos de pessoas que falassem, agora precisamos de pessoas que possam escutá-las”

“Nunca antes se falou tanto em amor e nunca antes quisemos ser verdadeiramente tão amados”

Relacionamentos, aliás, estão no cerne dessa narrativa, e nos despertam muitas reflexões.

“Quem era ela pra querer um homem em mim? E quem era eu pra querer uma mulher nela?”

“Mulheres… o que fazer com elas? O que faríamos sem elas? O que estaríamos fazendo se fôssemos elas?”

Há um destaque especial para a dor, presente em diversos momentos da narrativa.

“Não há como combater a dor com a dor, tudo que se tira disso é mais sofrimento”

“A dor é tudo que me move”

Barulho e silêncio também aparecem em tantos outros momentos da história.

“O barulho te assusta num primeiro momento, mas o silêncio pode trazer à tona muitas outras palavras que não foram escutadas”

“Não há conversas, nem murmúrios, só o que existe é o caos, e você em silêncio querendo lutar contra isso”

Recesso é uma leitura que ecoa muito em nós por, além dos temas já mencionados, trazer uma profunda reflexão de um eu que não sabe bem que é e porque veio ao mundo. 

“Diziam que eu poderia ser tudo o que quisesse, porém não consigo nem ser eu mesmo”

“Não importa quanto tempo passe, eu ainda estarei aqui. E acho que é isso o que mais me desespera”

“A vida estava tentando me ensinar uma lição, que eu nunca poderia aprender”

E por nos lembrar constantemente de que a vida não é fácil.

“Por que é que quando a coisa resolve andar é aí que ela volta pior do que antes?”

“Aceitar que a vida é um caminho difícil não vai tornar as coisas mais fáceis; no entanto, isso tornará as que seguirem assim verdadeiras”

Concluo este post com uma passagem que vai dar muito o que pensar e convido você a saber mais sobre este livro através da minha resenha. 

“A barbárie está na indiferença, no cruzar dos braços. Não mexe um músculo move muito mais coisa que se pode imaginar”

Recesso — Claus Castro

Título: Recesso 
Autor: Claus Castro
Editora: Telha
Páginas: 236
Ano: 2022 

Sinopse

Em meio à pandemia do coronavírus, um professor desiludido com a vida, profissão e relacionamentos se vê impedido de deixar sua rotina caótica, lutando contra o tempo para se libertar da pior prisão em que já foi posto.

Recesso é um romance que busca sintetizar todo o desprezo e o sentimento de fracasso passado ao longo da carreira do autor até o momento.

Resenha

Sabe quando um livro simplesmente surge na sua frente e a sinopse te faz dizer “ok, essa será minha próxima leitura”? Pois foi isso o que aconteceu com Recesso, cuja temática é de grande interesse para mim. 

“A chave estava em não procurar por uma entrada”

Donizete (ou Doni) é um professor que, aos 30 anos, está desiludido com tudo: o emprego, as relações humanas, a vida.

“Todo propósito de uma vida pode ser resumido em chegar no instante em que ela acaba”

Narrada por ele, a história se torna densa e, em muitos pontos, incômoda, o que não poderia ser diferente diante do momento em que ele vive e as situações que o circundam.

“Minha bússola era o mero acaso e em minha direção vinha o desconhecido”

Tantas críticas já foram feitas ao ensino brasileiro, principalmente àquele público, mas através da história de Doni podemos enxergar o outro lado: o do professor que tem de dar tudo de si para receber tão pouco em troca.

“Você precisa estar preparado para tudo e isso não existe”

O protagonista desta história não é concursado, mas um professor substituto, coisa que, infelizmente, tem se tornado tão comum nas escolas. 

“Estamos transformando o mundo em algo que não pode ser vivido, trancando nossos sonhos à luz do dia e escrevendo sobre eles em quartinhos escuros”

Esses professores são jogados em escolas que podem ser perto ou distantes de suas residências, e cobrem licenças e afastamentos. Estão ali temporariamente, na incerteza do amanhã.

“Esse sistema, essa rotina, essa ansiedade, fazem com que eu não veja a hora do dia terminar e de começar outro, para ver seu fim outra vez”

Diante desse cenário, não seria de se espantar que Doni tivesse uma vida cheia de problemas. Mas, para melhorar a situação, ele também é um viciado em álcool e sexo.

“Tudo corria mais ou menos bem e não estava sendo nada mal ter algumas expectativas não correspondidas a essa hora”

O personagem se afoga na vida e nos vícios e é difícil não ir afundando com ele, percebendo o quanto estamos errando e fazendo tão pouco para melhorar as perspectivas.

“Seja lá o que estamos fazendo, é melhor pararmos, e pararmos depressa. Estamos perdidos e perdendo-os, um por um, dizendo para nós mesmos que não há nenhuma salvação possível. Somos nós os próprios carrascos daqueles que um dia juramos libertar”

Há, ainda, um agravante importante para esta narrativa: a pandemia do coronavirus. Imagina viver toda essa profusão de sentimentos num momento tão caótico para a humanidade. É difícil não se identificar em alguma medida.

“Era a corrida da morte, uma grande fuga de algo que não enxergamos, mas que víamos em todos os lugares, um verdadeiro ‘salve-se quem puder’”

Com palavras ácidas e diretas, Claus Castro, através de Doni, consegue nos fazer refletir sobre capitalismo (e seus absurdos), solidão, educação (e, muitas vezes, a falta dela), sonhos e hipocrisias.

“Na escola não respeitamos os jovens. Nas ruas não respeitamos os velhos. Como pode se ter um presente assim?”

Foi estranho, depois de um longo período, ler uma história com um protagonista masculino e hétero, que me despertou tantas lembranças de pessoas parecidas e ao mesmo tempo tão diferentes dele. 

“Não há respostas o suficiente para minhas perguntas”

A forma como as mulheres são retratadas ao longo das páginas (lembrando aqui que o personagem tem o seu vício em sexo, ao mesmo tempo que é extremamente solitário) foi algo que há tempos eu não via e que, com certeza foi um baque, principalmente por me lembrar que muitas vezes somos vistas assim.

“Pode levar o tempo que for, você nunca irá entender completamente, nem em parte, nem minimamente uma mulher, não importa a idade que ela tenha ou que pensa que carrega”

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