Eu matei minha mãe — Brias Ribeiro

Título: Eu matei minha mãe
Autora: Brias Ribeiro
Editora: Publicação independente
Páginas: 22
Ano: 2021

Se o título desse lançamento da autora Brias Ribeiro parece pesado, logo compreende-se que muito mais pesada é a narrativa. Aliás, para ser mais justa, a narrativa é até leve, mas aborda uma questão muito importante.

Neste conto conhecemos Diego, um rapaz cuja infância e pré-adolescência foram relativamente boas no aspecto familiar, mas um pouco complicadas na escola, onde sofria bullying, sendo chamado de “viadinho” e “afeminado”, coisa que os pais diziam ser impossível.

Como esses pais sempre faziam tudo por Diego, aos 12 anos ele conseguiu convencê-los que era hora de trocar de colégio. Aos 14 anos, porém, tudo mudou: Diego foi pego atrás da escola, com outro garoto. Aquele foi o fim da relação familiar aparentemente tranquila e equilibrada que existia até ali.

Os pais de Diego, que até então o “amavam”, passaram a odiá-lo e desprezá-lo. Também passaram a brigar constantemente, o que levou à separação deles. Diego continuou morando com a mãe até quando foi possível, mas a situação tornou-se insustentável cedo demais.

“Sentia uma vontade imensa de chorar, mas não conseguia mais”

Logo no início da faculdade — Diego optou por cursar artes cênicas — ele foi definitivamente expulso de casa e teve de se virar. Por sorte, tudo o que lhe faltava de amor familiar, transbordava de amor em suas poucas amizades, que prontamente o acolheram.

“Foram 6 anos de invencibilidade. 6 anos sem chorar que finalmente chegaram ao fim. Era difícil chorar, difícil estar chorando”

Apesar de ter sido totalmente rejeitado por seus pais apenas pela sua sexualidade, Diego sempre tentou conversar, tentou se reaproximar deles, mas todas as suas tentativas foram em vão.

O final do conto é um pouco ambíguo — propositalmente — e, ao mesmo tempo, catártico, ao menos para Diego. Um desfecho que, ao mesmo tempo que surpreende, nos deixa com aquela sensação de “como assim essa história vai acabar aqui?”.

Eu matei minha mãe, portanto, é um conto que fala sobre relações familiares, autoconhecimento, homofobia, amizade, bullying… Caramba, são muitos temas importantes em poucos páginas, mas sem ficar atropelado ou forçado!

E se você quer conferir essa história, clique aqui.

Regras da Zona Sul — Leblon Carter

Título: Regras da Zona Sul
Autor: Leblon Carter
Editora: Publicação independente
Páginas: 41
Ano: 2020

Ainda na vibe de O som no fim do túnel, Regras da Zona Sul é um conto que nos mostra mais um pouco da realidade brasileira. Aqui, porém, na periferia de São Paulo. E mesmo em locais “tão” diferentes, os personagens de ambas as narrativas têm muito em comum.

A similaridade mais gritante, claro, é o fato de que Igor — protagonista e narrador de Regras da Zona Sul — também mora apenas com o pai, que está sempre bêbado e largado pelos cantos, e com Érico, seu irmão mais velho que não vê a hora de se livrar daquela realidade.

“Anos de negligência fazem isso com o afeto”

Consequentemente, a falta de amor é, também, algo muito presente na vida de Igor, assim como era na vida de Maycom.

Ao mesmo tempo que é fácil destacar essas similaridades, porém, é possível destacar muitas diferenças, que vão para além do fato da história se passar em Estados diversos.

Regras da Zona Sul é muito mais real, muito mais cru: não há uma superação da realidade ali vivida, não há uma verdadeira perspectiva de dias melhores, ainda que os personagens tenham consciência do que vivem.

“Tento evitar que as drogas comam os poucos neurônios que me restam por conviver com aquela família”

Além disso, este conto aborda algumas questões interessantes como romances LGBTQ+, religiosidade e o valor que a família tem, nos casos em que esta ainda é sólida e unida (e, lembrando, tudo isso narrado a partir do ponto de vista da periferia).

“Os Russo poderiam ser baderneiros, criminosos e violentos, mas a família sempre estava em primeiro lugar”

Ao longo das páginas também fica claro o valor que a verdade e a honra podem ter mesmo em lugares onde só parecer haver violência e injustiça.

Mas, para entender como isso se dá, só lendo Regras da Zona Sul, porque esses elementos têm a ver com os principais acontecimentos da história.

E, se me permite uma sugestão, leia este conto. Leitura rápida, mas que vai te fazer conhecer um pouco mais da nossa realidade e te fazer pensar sobre ela. E, nesta leitura, você não precisa ter tanto estômago quanto para ler O som no fim do túnel.

Se interessou? Clica aqui!

Brilhante — Renato Ritto

Título: Brilhante
Autor: Renato Ritto
Editora: Publicação independente
Páginas: 44
Ano: 2020

Você já enviou um email que não deveria ter enviado e entrou em desespero, sem saber o que fazer? Para a nossa sorte, hoje em dia é possível desfazer o envio, se formos velozes em notar o erro.

Mas por que estou falando sobre emails em uma resenha? Porque Brilhante é um conto totalmente escrito neste formato, isto é, cada detalhe ao qual temos acesso, nesta história, nos chega através de emails trocados entre os personagens.

Tudo começa, conforme nos indica o cabeçalho do primeiro email, numa segunda-feira, dia 6 de abril de 2020. Trata-se de uma mensagem de Frank Lima para Alex Gomes, dois funcionários da Agência Brilho.

Para ser mais exata, Frank é gerente de projetos da agência e está dando um leve puxão de orelha — entremeado por muitos elogios — em Alex, o estagiário. O email é escrito de forma muito interessante, pois não parece exatamente uma bronca. E isso é um ponto, de certa maneira, discutido mais adiante no conto.

Se fosse só essa primeira “bronca”, tudo bem. O problema é que o tal gerente decide mandar um email coletivo e Alex resolve escrever uma resposta bem sincera… Que não deveria ser enviada! O que era para ser apenas um desabafo, vira uma grande confusão.

Ao perceber a burrada, Alex envia outro email, desesperado, mas para sua colega, Thais Rosa, também estagiária da agência. E daí para frente, são muitas reviravoltas! A gente fica com o coração na mão, querendo saber como Alex irá se safar dessa situação.

Ao mesmo tempo que Brilhante é uma leitura extremamente leve e divertida — sim, daquelas que você dá risadas enquanto lê — tem um certo quê de crítica, seja à desvalorização que estagiários e artistas sofrem, seja à forma como as coisas podem ser conduzidas em agências (este é um tipo de ambiente totalmente desconhecido para mim e foi muito interessante vê-lo retratado em uma história como esta).

No momento que cheguei à última página, soltei um sonoro “quê???”. Um excelente final aberto, que nos deixa ansiando por muito mais. Dá vontade de ler de novo, para absorver cada detalhezinho desta história.

E se você se interessou, clique aqui e saiba mais!