Desmistificando o mestrado [2] — Prova de proficiência

Desmistificando o mestrado [2]

Hoje é, finalmente, dia de continuar a falar sobre o Mestrado! E, para falar dele, precisamos, antes de mais nada, falar como começar ele. O post de hoje, portanto, é dedicado à uma das etapas do processo seletivo: a prova de proficiência.

A proficiência é, em geral,  uma das primeiras etapas e é eliminatória. Isso significa que, para iniciar um Mestrado, você deve saber ao menos uma língua estrangeira. E falar dessa etapa é um pouco complicado, pois, só na Letras, já existem diversas nuances, imagine fora dela.

Por exemplo, se você vai fazer Mestrado em uma área de literatura (brasileira, portuguesa ou clássicas) — e se eu não estou enganada —, você pode escolher fazer a proficiência em qualquer língua. Agora, se você vai fazer um Mestrado em uma área de línguas estrangeiras (ainda que seja relacionado à literatura daquela língua), como foi meu caso, você, necessariamente, deverá comprovar proficiência naquela língua (o que, digamos, faz muito sentido).

Mas também existem diversos tipos de prova de proficiência. Na Universidade de São Paulo, a mais simples é a do Centro de Línguas, que prepara provas para diversos Programas da Universidade. Nela, você basicamente precisa demonstrar que consegue ler e interpretar um texto na língua estrangeira escolhida. Para isso, claro, há um texto na língua em questão e questões de múltipla escolha referentes a ele, em português. E ainda pode usar um dicionário monolingue.

O segundo tipo de prova é aquela preparada especialmente para os Programas de línguas estrangeiras, como é o caso do Programa de Pós-Graduação em Língua, Literatura e Cultura italianas. É uma prova relativamente parecida com a do Centro de Línguas, mas um pouco mais elaborada, entrando algumas questões dissertativas e de tradução.

Por fim, sempre temos a opção de fazer uma prova externa, que geralmente é bem mais complexa, porque abrange as quatro competências (ler, ouvir, escrever e falar). Acho que um dos exemplos mais conhecidos que posso dar desse tipo de prova é o TOEFL. No caso do italiano podemos mencionar o CELI e o CILS. E eu (que adoro complicar quando posso facilitar) optei por esse tipo de prova.

Aí você me pergunta “por que?”, já que além de mais difícil, esse tipo de prova é bem mais cara. Mas há uma vantagem: enquanto as duas primeiras provas que mencionei valem somente para ingressar no Mestrado dessa Universidade, e mesmo ali costumam ter uma validade de dois anos, as provas externas, são válidas/exigidas em diversos lugares/países, e quando têm validade, ela é de pelo menos 5 anos.

Espero ter conseguido explicar um pouco sobre as provas de proficiência, mas caso tenham dúvidas, basta comentar aqui! Em breve, falarei sobre as outras etapas do processo seletivo. Achei que caberia tudo em um único post, mas falar da proficiência já deu muito pano pra manga!

E se você não viu o primeiro post dessa série, clique aqui.

Itinerãças – Béatrice Costa

Título: Itinerãças
Autor: Béatrice Réichen V. Costa
Editora: Paulistana
Páginas: 110
Ano: 2018

Como o título desse livro provavelmente causa certo estranhamento, começo esta resenha por ele. Vocês conhecem Manoel de Barros? Se conhecerem, provavelmente já terão entendido a referência. Caso contrário, explico: Manoel de Barros, poeta brasileiro que adorava brincar com as palavras, possui um livro chamado Livro das Ignorãças. Béatrice deparou-se com essa obra justamente quando pensava em um título para seu livro e resolveu entrar na brincadeira: assim nasceu Itinerãças.

Mas não é apenas o título que supreende: Itinerãças é algo inédito, e tudo está muito bem explicado desde o início. O que temos aqui é uma espécie de diário (literalmente) de mestrado, em que a autora compartilha conosco suas dúvidas, incertezas, medos, alegrias, descobertas e avanços.

Mas como e por quê um “diário de mestrado”? Béatrice começa seu livro nos explicando isso. Tudo surgiu com uma sugestão de sua orientadora:

“Compre um caderno bem bonito. E comece a escrever”

Itinerãças (p.7)

Esta sugestão foi dada ante a angústia de Béatrice, que não sabia bem como e nem por onde começar a escrever sua dissertação. A ideia foi acatada, sem que elas desconfiassem que a “brincadeira” viria a ser publicada.

A escrita de Béatrice é deliciosa. Tem certo ar poético e brincalhão e consegue ser leve mesmo nos momentos em que ela provavelmente se encontrava em grande dúvida. Os capítulos são super curtos e é possível ler esse livro “em uma sentada só”. Mais do que isso, dá vontade de ler de novo e de novo!

Pessoalmente, fui pega de surpresa com um capítulo em que Béatrice fala sobre o livro O som e o sentido, que estou há tempos enrolando para começar a ler. O mesmo ocorreu com ela e por motivo semelhante: o medo que ele nos causa, parecendo extremamente técnico para alguém que folheia suas páginas. Quando li esse medo descrito nas páginas de Itinerãças percebi que está mais do que na hora de enfrentá-lo.

Confesso que não sei se é muito fácil encontrar esse livro, talvez apenas entrando em contato com a editora Paulistana. Só cheguei a ele por conhecer sua autora: Béatrice foi mestranda do Programa de Pós-Graduação em Francês, da Universidade de São Paulo e sua pesquisa é muito interessante. Ela trabalha com a canção no ensino de línguas, tema que muito me atrai. Além disso, o formato que ela usou em sua dissertação é inovador e torna até mesmo a leitura de um trabalho acadêmico totalmente prazerosa (quando minha orientadora sugeriu que eu lesse, não achei que iria gostar tanto quanto gostei. Me tornei fã de Béatrice sem que ela soubesse). É possível ter acesso a essa pesquisa, entitulada A música como experiência: potencialidades da canção no ensino-aprendizagem de francês língua estrangeira, e eu recomendo para aqueles que se interessam por língua estrangeira e música.

Já com relação ao livro, recomendo a todos que pretendem fazer um mestrado ou um doutorado, ou mesmo para aqueles que já estão nesta trajetória. Poderia ir mais além, e recomendar esta obra para todos aqueles que se encontram em um momento de bloqueio de escrita ou mesmo para aqueles que têm medo de uma página em branco. Este diário nos mostra como começar colocando tudo o que nos vem à mente em um papel pode ajudar a clarear nosso pensamentos e “destravar” a escrita.

“Perco-me em devaneios. É tão mais fácil e prazeroso sonhar. Realizar é perigoso, dá trabalho, abre espaço para críticas”

Itinerãças (p.47)