Próxima parada – Juliana S. Catalão e Marcele Cambeses (orgs.)

Título: Próxima parada
Organizado por: Juliana S. Catalão e Marcele Cambeses
Editora: Duplo Sentido
Páginas: 102
Ano: 2016 (1º edição)

prox. parada

Próxima Parada é um livro de contos incrível e só por alguns fatores externos isso já fica claro: é um livro totalmente escrito e organizado por mulheres, é nacional e tem uma capa mega fofa! E mais: os contos se passam dentro de um ônibus e trazem muito do cotidiano daqueles acostumados à usar um meio de transporte público. É um daqueles livros que qualquer pessoa com uma boa imaginação tem vontade de escrever, mas acabou nunca fazendo… Bem, ao menos não até que essas garotas se reunissem e dessem vida a personagens tão reais!

Neste livro temos 7 contos, unidos, como já mencionado, pela temática do ônibus. Além disso, outra semelhança entre eles, como veremos, é que contam com dois personagens centrais, geralmente um casal. Vamos entender melhor sobre cada um desses contos?

Primeira parada — Idas e vindas (Bruna Fontes)

Esse conto retrata uma paixão cheia de vai e volta, não vai e nem volta entre Marina e Henrique, dois jovens que se conhecem desde pequenos.

“— Não dá pra você forçar as coisas só porque quer muito chegar ao ponto final”

Uma das coisas que mais gostei nesse conto foi o panorama sobre o ônibus que a Marina, narradora da história, faz logo no início, nos apresentando os tipos que se encontram no mesmo meio de trasporte que ela quase todos os dias. Mas também não posso deixar de mencionar que adorei a forma como nossos sentimentos e ações são comparadas ao movimento do ônibus ou qualquer outro meio de transporte.

“Somos todos suscetíveis a batida e perdas totais, mas a incerteza é um preço que se paga para alcançar a plenitude”

Próxima parada — sete minutos (Júlia Braga)

Já nesse segundo conto temos uma história um pouco diferente: Vanessa e Eduardo são dois amigos que, em meio a uma brincadeira, acabam tendo de se beijar e isso certamente afeta a relação deles.

O maior problema deles, no entanto, não foi simplesmente o beijo, mas o fato de ter sido o primeiro beijo de cada um deles. E mais: eles achavam (cada um consigo mesmo) que eram os únicos a nunca ter beijado. Sério, dá vontade de bater nesses dois, porque eles quase perdem uma amizade por causa de uma mera falta de comunicação!

“O que poderia ser simplesmente resolvido com um pouco de comunicação e algumas risadas para reviver o clima, havia rapidamente se tornado uma destruição de amizade”

Próxima parada — Transbordante (Thati Machado)

A história de Marcos e Naldo (Ronaldo) não é simples, pois eles são amigos de infância que acabam se afastando quando Naldo se descobre apaixonado por Marcos. Esse conto também é um belo retrato das dificuldade que um garoto (ou uma garota) passam ao se assumir LGBT.

“Meus colegas haviam desistido de mim; minha família havia desistido de mim; Marcos havia desistido de mim; e em alguns momentos, eu fazia o mesmo”

É um conto extremamente bonito e que nos traz uma bela lição.

“— Nós somos dois garotos, eu sei. Mas tive muitos anos para entender que o amor não tem gênero”

Próxima parada — Querer é poder (Vanessa S. Marine)

Neste quarto conto, narrado por Hugo, temos a história de um garoto super tímido e apaixonado por Maristela.

“Se cada pessoa é uma poesia, Maristela é o meu poema favorito”

Mas, muito mais que se ser uma simples história de amor, temos aqui um texto sobre as escolhas que fazemos na vida, e eu adoro quando encontro algo com essa temática, pois nunca é fácil ter de decidir o caminho que queremos seguir.

“— Eu só estaria com medo se eu tivesse me condenando a um caminho que eu sei que não me fará feliz”

Próxima parada — Espelho (Mel Geve)

Esse conto arrancou boas risadas de mim, simplesmente porque começa nos apresentando Augusto, um ser que fica julgando as pessoas à sua volta no ônibus como muitas vezes, querendo ou não, acabamos fazendo, principalmente quando estamos esgotados como ele.

“A menina era com certeza um daqueles casos de gente alheia à realidade. Dispersa, perdida, turista da vida real. Ainda mais com aqueles fones de ouvido gigantescos, que impediam que os pensamentos saíssem de sua cabeça”

A pessoa com quem Augusto “encrenca” em seus julgamentos é Giuliana. Mas quando eles começam a conversar, tudo muda…

“Talvez ela fosse, sim, digna do lugar em que sentava”

Próxima parada — Juntos (Tamara Soares)

Essa é uma daquelas histórias que você lê correndo porque tem certeza que vai ter confusão e fica curioso para chegar logo nessa parte. Isso porque, logo de início, a narradora começa a contar que pegou o ônibus com o ex… Vocês já imaginam, né! E pior, ele está acompanhado de outra menina!

O conto também nos conta sobre o relacionamento deles e, caramba, que conto! Tem um ótimo plot e um final muito bonito.

Próxima parada — os cinco estágios (Marcele Cambeses)

O último conto do livro é o que considero o mais poético de todos e é um conto que também traz um casal LGBT, mas agora formado por Daniele e Manuela. E é um conto que, além de tudo, serve para, uma vez mais, amarrar as histórias anteriores.

Eu realmente gostei bastante desse livro (acho que deu para perceber…) e recomendo para todos aqueles que querem ler algo bem escrito, com leituras rápidas mas que, ao mesmo tempo, se unem e se completam.

Das autoras desse livro, as únicas que eu já conhecia algo eram a Mel (Trago seu amor em 3 dias), a Bruna Fontes (A matemática das relações humanas) e a Vanessa S. Marine, que escreveu a introdução de A matemática das relações humanas. Quanto às outras autoras, esse foi meu primeiro contato e eu adorei!

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Trago seu amor em 3 dias — Mel Geve

Título: Trago seu amor em 3 dias
Autor: Mel Geve
Editora: Duplo Sentido Editorial
Páginas: 368
Ano: 2018 (1º edição)

Acho que não importa quantos anos eu tenha, eu sempre vou gostar de ler um belo de um romance. Ainda mais desses que podem parecer improváveis, que a gente acha que só existe nos livros ou nos filmes.

Amélia é uma jovem paulistana como tantas outras: cursa Design em uma faculdade particular, tem seus dilemas e suas batalhas particulares, está procurando um estágio, tem duas ótimas amigas – Pipa e Amanda – que estão sempre com ela, adora uma boa balada.

E é justamente numa balada – a preferida dela, aliás – que toda a história começa. Amélia está no Sobradinho, um pouco entediada – uma vez que Pipa está ficando com alguém, deixando-a sozinha – quando Theo aparece para mudar sua noite. E talvez a sua vida.

“Ele parecia um ator contratado por uma equipe de roteiristas especializados em Amélia, pronto para me seduzir. Ele era simpático, sorridente, inteligente, intrigante e mantinha meu interesse sem qualquer dificuldade”

Trago seu amor em 3 dias – p.30

Theo e Amélia estão se dando super bem, até que ele resolve ir ao banheiro e é aí que começa o problema: Amélia tem de ir embora às pressas, pois o tio Joca, pai de Pipa, havia chegado para buscá-las. Amélia não tem opção, senão ir embora, sem ao menos poder se despedir e, pior ainda, sem pegar qualquer contato de Theo. Mas, persistente que só, Amélia se utiliza de todos os recursos possíveis para reencontrar Theo. E sim, está explicado o nome do livro: até à Madame Zumba nossa protagonista recorre.

“As pessoas passam a vida inteira em busca de momentos como esse, sabe? O brilho nos olhos, a conversa fluída, o riso solto, os beijos intermináveis e a atração física magnética… Eu não podia deixar uma coisa assim escapar”

Trago seu amor em 3 dias – p.73

Contudo, antes que vocês achem que o livro se resume a uma Amélia desesperada em reencontrar o amor da sua vida e, mais ainda, que eles vivem felizes para sempre, preciso dizer que há muito mais nessas 368 páginas. A história também consegue abordar questões como feminismo, homofobia, saúde mental e preconceito religioso.

Algumas frases feministas me pareceram um pouco forçadas na história, como se fossem uma tentativa de inserir o assunto em trechos que não precisaria. Por outro lado, o trecho do Theô (sim, com acento… Longa história e só lendo para saber) ficou maravilhoso e foi totalmente necessário, além de ter sido uma ótima saída.

A homofobia também aparece de forma bem breve na história, inserida por um personagem – tio de Amélia – que é gay. Gostei da inserção desse personagem na narrativa, ainda mais pelo fato de que é aquele tipo de pessoa que dá vontade de conhecer.

E por falar em coisas gostosas desse livro, toda a história é contada pela própria Amélia, que intercala sua escrita com diálogos e conversas de Whatsapp. Quem mais aparece nesses momentos são suas amigas – Pipa e Amanda – e, claro, Theo. Também não posso deixar de mencionar o fato de adorei todas as zuações feitas sobre o Direito, ainda mais por saber que a autora é formada nesse curso!

“Essas pessoas do Direito eram muito pouco criativas e todos os nomes soavam iguais”

Trago seu amor em 3 dias – p.77

Mas voltando às temáticas do livro, a questão do preconceito religioso aparece quando Theo apresenta a Umbanda para Amélia. Esses trechos são muito incríveis! Para quem, assim como eu, não sabe nada sobre essa religião, é muito bacana aprender um pouquinho.

Já os trechos sobre saúde mental, aparecem mais para o final da história, em conversas entre Amélia, Amanda e Pipa, uma vez que a última, desde o começo do livro, sente-se infeliz com seu trabalho. Aliás, isso, em si, já uma temática bem interessante também e corrobora para o senso de realidade que o livro traz.

“- Sua alma não está à venda, Pipa, algumas coisas nessa vida não são negociáveis, sabe? Sua saúde mental é uma delas”

Trago seu amor em 3 dias – p.349

A verdade é que eu devorei Trago seu amor em 3 dias por causa de tudo isso que descrevi aí em cima. Cheguei ao final – que não é nem um pouco previsível – querendo mais. Inclusive, podia ter uma continuação, já que o final é bem aberto!

“Estar ao seu lado nunca era chato e eu só queria mais e mais e mais, porque eu me sentia roubada na hora das despedidas”

Trago seu amor em 3 dias – p.262