Citações #91 — As grandes navegações

As grandes navegações, obra escrita por Gael Rodrigues e publicada em 2023, foi uma grata surpresa para mim no último ano.

Ganhei o ebook da presente da Geovana, do Capítulo 20 e não tinha grandes expectativas sobre a obra, apesar da sinopse ter chamado minha atenção com uma simples palavra: amizade.

“Algo passa a existir para gente depois que o nomeamos. Um desconhecido pega o mesmo vagão do metrô que o seu, todas as manhãs, mas começa a existir apenas depois de ser apresentado numa festa qualquer por um amigo qualquer”

“Recomenda-se compartilhar os sonhos numa mesa de café da manhã, com cheiro de café quente atingindo as narinas, aquecendo os sorrisos”

A história, contudo, vai muito além do tema da amizade, nos fazendo mergulhar num universo novo e encantador, uma vez que se inicia em Moçambique, para, em seguida, trabalhar certo contraste com o Brasil.

“A mulher-insular, agora, era também oca. Sem rumo e sem peso. Nada sentia, lágrima nenhuma corria pelo seu rosto. Oca, oca”

“São Paulo era uma cidade grande, feita para caber mentiras e vidas escondidas”

Outro tema que aparece em diversos momentos da narrativa é a questão da diferença e do diferente.

“Protegia-te e mesmo que não soubesses, eu estava em segurança contigo. Dois diferentes juntos são menos diferentes”

“‘O diferente tem vocação para partir. Seja da casa em que ele nunca teve cômodo próprio. Do grupo de amigos em que, apesar das tentativas, o diferente falhou em se conectar profundamente. Ou de uma torre’”

“Mas é o sonho a casa dos diferentes, e é preciso que eles saibam. Feito abraço quente que nunca houve”

“O homem acordado tem asco à diferença. O homem acordado quer a segurança dos iguais, para não ser surpreendido com a aterrorizante ideia de tomar decisões. De trilhar caminhos novos. De ter à sua frente um alienígena a revelar tanto do que ele tenta esconder”

E destaco aqui outro ponto crucial nesta narrativa: a língua.

“A língua separa, mas também une, ela também dizia”

O que me leva, ainda, a outras temáticas importantes: o contar histórias e o lembrar

“Memória de branco é boa porque eles vivem remoendo o passado”

“A brincadeira de encaixe ensinou Leonildo a ser paciente. Não havia lugar para onde ir, nem a pressa dos que vão. Aprendeu a humildade de desistir de uma conclusão, não se ater ao encaixe mais rápido e fácil. Desconfiar. Foco, mais foco. Voltar à estaca zero e recomeçar”

“Deveria ser algo novo dentro dele a transmutar as coisas todas do mundo em uma determinada pessoa”

“Eu tinha cinco anos e algo se quebrou num lugar tão profundo, impossível de achar”

“Leonildo contava sorridente, como se o passado não tivesse sido difícil, como se o presente também não o fosse”

“A máscara foi embora e Guilherme se deparou com um rosto diferente do que ele imaginava. Ele, como outros, completaram os rostos das pessoas incompletas, dando-se conta depois que haviam errado”

“Às vezes, a gente precisa fingir que está contando outra história para contar o que a gente realmente quer contar”

“Às vezes, ter acontecido é o motivo de não se falar mais da coisa, porque ela ficou completa e enterrada”

Também me chamou a atenção o fato da história, em certo momento, se passar durante a pandemia e nos transportar a algumas dificuldades que este período trouxe.

“Perderam o emprego e não queriam perder a vida, estavam prestes a perder o juízo”

Com tantas temáticas abordadas de maneira quase poética, há uma que não poderia deixar de aparecer: o amor

“Se soubesse, se pudesse, construiria um mundo onde o sol sempre estaria na iminência de se pôr”

“O sorriso dele cedeu a um certo constrangimento, ciente de que o amor é incapaz de tornar um chiqueiro num palácio”

“Eles sorriam, estavam felizes. Eram novos demais, por isso felizes”

“Ainda faltava uma estação e uma eternidade”

Uma história que fala de presente, passado e futuro

“Era como se ela soubesse que o futuro seria brilhante, que precisava aprender desde já como se é feliz”

E que nos lembra que, mesmo diante de toda e qualquer maldade, o que vale é o que temos dentro de nós, principalmente a bondade

“‘Não deixe o medo impedir você de compartilhar o que você tem de bom aí dentro, eles sempre aparecem e fazem a gente desacreditar, perder a confiança, mas nem todos são como eles, confie na sua intuição, e compartilhe o que você tem aí dentro’”

Se você acha que este livro pode te interessar, leia a resenha completa para saber mais e garantir seu exemplar.

As grandes navegações — Gael Rodrigues

Título: As grandes navegações 
Autor: Gael Rodrigues
Editora: Publicação independente 
Páginas: 193
Ano: 2023

Sinopse

UMA AMIZADE QUE CRUZARÁ OCEANOS E O TEMPO

Leonildo nasce em cima de um baobá durante uma enchente. É albino, o que antes parece um milagre para o povo de Beira, Moçambique, aos poucos se torna maldição. O menino precisa ser escondido para seu corpo não ser transformado em amuleto.

Guilherme ao perceber o que é, foge da Paraíba para São Paulo, depois é expulso da casa da tia religiosa. Espera pela operação de redesignação sexual até que vem a pandemia e seu corpo é interrompido junto ao tempo.

Dois homens vivendo em ocupações que antes foram hotéis de luxo. Dois países distantes mas que dividem a mesma exploração original e parecem repetir a mesma história. Uma amizade improvável e inesquecível, que com ajuda dos sonhos é capaz de atravessar oceanos.

Resenha

As grandes navegações é uma história que nos transporta para dois universos tão diferentes e tão semelhantes entre si, através de uma narrativa em prosa quase onírica.

“Contar essa história é cartografar o universo único de dois amigos. É também um mapa para se compreender a segunda e definitiva morte de Leonildo”

Na primeira parte da história estamos em Beira, uma cidade moçambicana. 

“Era um povo acostumado a desgraças. Desde cedo, empilhavam uma sobre outra, o dia a dia ensinando a carregar mais peso”

Uma realidade difícil, de grande pobreza e marcada por catástrofes naturais.

“Uma mulher feito terra conquistada à força e, depois de roubado o viço e riquezas, abandonada. Uma mulher-Moçambique”

Em Beira, Fauzi e Bomani se conhecem e se apaixonam e desse amor nasce Leonildo (ou Nido).

“O encontro de dois desconhecidos é terra seca à espera. Entre os olhares ergue-se uma ponte. Do toque, funda-se um prédio”

O casal passa a viver junto no Grande Hotel, um antigo hotel de luxo, hoje abandonado e ocupado. E apesar das dificuldades, eles parecem se amar. Até que toda a vitalidade de ambos é sugada pela dura realidade e o amor parece não mais resistir.

“Ela precisava ser forte para continuar sendo ela, era o que a avó a ensinou. Ser ela era ser todas antes dela”

O nascimento de Nido é quase a morte de Fauzia. Um nascimento duríssimo, mas considerado um milagre: ele é parido no topo de uma árvore, em meio a uma tempestade. E há ainda um detalhe: Nido é albino.

“Ele enxergava pouco, assim como outros albinos, mas isso ele não sabia, porque, ao menos ali no prédio, não havia outro como ele”

Nessa primeira parte da obra, navegamos pela infância de Nido. Uma infância duríssima, ainda mais para ele, que não pode sair à luz do dia e que, inclusive, passa boa parte da infância escondido, contribuindo para a encenação de sua mãe de que ele morrera, ideia que ela teve para protegê-lo (até que ponto realmente conseguiu?).

“Normalmente, o menino saía apenas depois da chegada da noite”

Já na segunda parte da obra, estamos em São Paulo. O ano é 2020 e a pandemia assola o mundo. 

“As coisas iam voltar aos eixos, apesar do mundo ainda de cabeça para baixo. Em breve, encontrariam uma vacina, o mundo iria se aquietar”

Aqui o protagonista é Guilherme, que nascera Alice e nunca se encontrara em seu corpo feminino.

“Eu mudei as linhas do meu corpo todo santo dia para tentar não constranger alguém. E todo santo dia eu constrangi alguém”

Não bastasse toda a luta para mudar de sexo, Guilherme também leva uma vida quase miserável, morando numa ocupação, em um prédio abandonado.

“A vida é repetição e repetimos os outros”

É justamente no centro de São Paulo que as histórias de Nido e Guilherme se cruzam e se tornam uma.

“Se essa é a história de uma amizade, ela precisa ao menos de duas pessoas que se encontram, criam laços, riem juntas, arquitetam planos. A história de dois amigos há de conter abraços”

Há ainda Alima, a moça dos olhos violetas, que conhece Nido ainda em Beira e que vem procurá-lo em São Paulo, onde também conhece Guilherme.

“Quem mais poderia, além do sonho, nos colocar em lugares que nunca pisamos, voar, mesmo sem ter asas, e conhecer pessoas tantas que não caberiam na geografia”

É difícil falar sobre As grandes navegações, porque cada personagem colocado ali tem um papel importante para a história, constrói algo essencial na narrativa.

“Era um sábado à noite, e apesar de tanta gente na sala, de tantos apertos de mãos, de perguntas e respostas ensaiadas num balé do desinteresse, nossos olhos se encontraram e se reconheceram”

Enquanto de Nido conhecemos toda a infância, de Guilherme pouco sabemos e apenas juntamos alguns fragmentos de sua história.

“Acompanhar a infância de Leonildo tem tanto significado quanto omitir a infância de Guilherme”

Além disso, as temáticas são muito fortes e variadas, sem que o fio da meada se perca ao longo das páginas. A amizade é, sem dúvidas, um ponto crucial, mas antes deles muitos outros temas permeiam as páginas deste livro de maneira igualmente importante.

“A amizade é o sentimento mais forte do mundo”

Um livro que nos faz refletir sobre medos, perdas, a dureza da vida e, apesar de tudo, as suas belezas e a importância do sonhar.

“Apesar de também ser cheio, alegre, colorido, o sonho é lugar onde se prepara para a guerra’”

Tive a sorte de ganhar um ebook de As grandes navegações de presente, da Geovana, do capitulo_20 (indico demais, não deixe de seguir), e agora que tive a oportunidade de ler esta obra, sou ainda mais grata pelo presente! Somente depois de entrar em contato com esta narrativa é que pude compreender como e porque ela foi finalista do Prêmio Kindle.

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