Brasileira academia — Moraes Moreira

Literatura e música são minhas paixões e não escondo isso de ninguém (até porque eu nem conseguiria). 

Encontrar um livro que fale de música ou uma música que fale de livros é sempre um doce acontecimento. 

Por isso não tinha como eu não me encantar com Brasileira academia, música de Moraes Moreira lançada em 2012, no álbum A revolta dos ritmos, pela Biscoito Fino.

O interessante é que este álbum é uma celebração aos diversos ritmos da música brasileira e, ao mesmo tempo, consegue ser uma celebração à toda a cultura de nosso país, homenageando também escritores, poetas e compositores, como podemos ver justamente na música escolhida para este post.

Ao iniciar a letra da música, Moreira menciona que é de um país e, mesmo sem usar seu nome, logo sabemos de que país se trata, pois ele enumera personalidades literárias daqui, começando por aquele que talvez seja o mais conhecido de todos: Machado de Assis.

Em seguida, o compositor cita outros grandes autores sem, contudo, colocar seus nomes de maneira mais completa. E mesmo assim, continuamos a reconhecê-los ao longo do texto: Guimarães (Rosa), (Manuel) Bandeira, (Carlos) Drummond (de Andrade), Darcy (Ribeiro), Anísio (Teixeira), Afrânio (Peixoto), (Jorge) Amado, (João) Ubaldo (Ribeiro), (Gregório de Matos) Boca do Inferno, Gonçalves (Dias), Gilberto (Freyre), Ariano (Suassuna), Patativa (do Assaré), (Luís da Câmara) Cascudo, (Mario) Quintana, (Luís Fernando) Veríssimo, Rubem (Alves), Vinícius (de Moraes), Clarice (Lispector), Rachel (de Queiroz), (Augusto) dos Anjos, (Augusto de) Campos, João Cabral (de Melo Neto).

Mas Machado de Assis não é o único mencionado com o nome completo pelo qual o conhecemos. Há também Castro Alves, Oswald de Andrade, Euclides da Cunha, José de Alencar, Olavo Bilac e Rui Barbosa.

Através destas figuras, Moraes Moreira também consegue fazer uma viagem do norte ao sul do Brasil, passando pelos sertões, Bahia, Pernambuco, São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte (e também do Sul).

Vale lembrar, ainda, que a menção a tantos nomes e o título da música não são mero acaso: muitos dos escritores mencionados (mas não todos) estão entre os membros da Academia Brasileira de Letras (ABL).

Deixo aqui a letra e a música, para que você também possa apreciá-la.

Brasileira Academia (Moraes Moreira)

Eu sou de um país

Machado de Assis

De lá dos sertões

Eu sou Guimarães

Divino é o dom

Bandeira e Drummond

Darcy e Antônio

Anísio e Afrânio

Amado e Ubaldo

Sou mesmo baiano

Maldito e eterno

Boca do Inferno

Eu sou Castro Alves

Até sou Gonçalves

Um Pernambucano

Gilberto e Ariano

Um ser paulistano

Sou Oswald de Andrade

Eu mudo de alcunha

Euclides da Cunha

José de Alencar

A chama está viva

Eu sou Patativa

E sou do Rio Grande

Do Norte contudo

Antigo e Cascudo

Piano e fortíssimo

Quintana e Veríssimo

Também sou do sul

E sob os auspícios

Sou Rubem, Vinícius

O Rio e o céu

Clarice, Rachel

Dos Anjos, de Campos

Augustos são tantos

Conforme o sotaque

Olavo Bilac

Sou pedra e pau

Eu sou João Cabral

Dois dedos de prosa

Eu sou Rui Barbosa

Poeta, poesia

De uma academia

Chamada Brasil

Dois dedos de prosa

Eu sou Rui Barbosa

Poeta, poesia

De uma academia

Chamada Brasil

Brasil

Brasil

Cartola (Antologia)

Título: Cartola
Autor: vários autores
Editora: Cartola Editora
Páginas: 203
Ano: 2021

(leia ao som de Cartola – playlist by Editora Cartola)

A antologia Cartola, publicada pela Editora de mesmo nome, é o primeiro volume de uma série que, quando vi, logo me apaixonei pela proposta: a coleção Músicos e Poetas será composta por antologias inspiradas em músicas de artistas selecionados, em uma homenagem a compositores e poetas brasileiros.

“Eu estava lá e num piscar de olhos não estava mais. Em um momento eu tocava meu violão enquanto Amália cantava a meu lado, sua mão tão relaxadamente posta em minha perna. E, então, eu não estava mais”

Cordas de aço (Thais Rocha)

Como amo a mistura de música e literatura, eu não poderia deixar de conferir o resultado desse trabalho. E uma coisa muito interessante é que ele é um prato cheio tanto para os que conhecem Cartola quanto para os que não conhecem.

“É possível sentir saudades de coisas que você mal lembra ter feito ou vivido?”

Cordas de aço (Thais Rocha)

Para quem já é fã, é uma forma de ver algumas das músicas dele ganhando nova vida, contando outras histórias. E para quem não conhece quase nada do compositor, é uma maneira de se interessar por algumas de suas letras. Eu mesma, não conhecia bem todas as canções selecionadas, então buscava a letra e depois lia a história, observando como aquele texto havia sido inserido na narrativa.

“O mundo é um moinho, vô. E a saudade de você me tritura por dentro”

O mundo é um moinho (Alessandra Solletti)

Além disso, alguns autores optaram por não apenas inserir a música, mas também alguns acontecimentos da própria biografia do compositor ao longo da narrativa, nos fazendo realmente mergulhar no mundo de Cartola.

“Junto com a sua chegada, ele trouxe uma angústia que nunca esteve ali. Descobri o medo da perda”

As rosas não falam (Lili Dantas)

Não posso deixar de confessar, porém, que mesmo animada para essa coleção, iniciei a leitura sem grandes expectativas, mas me surpreendi bastante (e positivamente) com a forma como ela fluiu. Ela contém contos que dão vontade de continuar lendo e desvendando seus segredos. Além disso, foi muito gostoso ver as escolhas de cada autor.

“Você deve escolher quais batalhas deve lutar, eu escolhi fazer o melhor que posso com o tempo que me resta”

Autonomia (C. B. Kaihatsu)

Esta antologia é composta por 20 contos, inspirados, por sua vez, em 20 composições diversas, sendo elas, em ordem (e com o nome dos autores):

1 – Acontece – Naiane Nara

2 – Alvorada – Bruny Guedes

3 – Amor proibido – Nilsa M. Souza

4 – As rosas não falam – Lili Dantas

5 – Autonomia – C. B. Kaihatsu

6 – Cordas de aço – Thais Rocha

7 – Corra e olhe o céu – Ana Farias Ferrari

8 – Disfarça e chora – Juliana Kaori

9 – Meu drama – Ana Paula Del Padre

10 – Minha – Aline Cristina Moreira

11 – Não posso viver sem ela – Edilaine Cagliari

12 – O mundo é um moinho – Alessandra Solletti

13 – O sol nascerá – Meg Mendes

14 – Peito vazio – Simone Aubin

15 – Pranto do poeta – Ana Lúcia dos Santos

16 – Preciso me encontrar – Vanessa Belo

17 – Sala de recepção – Walison Lopes

18 – Sei chorar – Priscila Morais

19 – Tive sim – Alec Silva

20 – Verde que te quero rosa – Rodrigo Barros

É interessante notar como há temáticas e sentimentos que se repetem — sem, no entanto, soarem repetitivos ao longo da obra —, como é o caso da tristeza, da melancolia, da angústia.

“falei sem mais saber o que dizer, como colocar em palavras os sentimentos todos, sendo que ainda não os sabia nomear?”

Corra e olhe o céu (Ana Farias Ferrari)

Mas também há, claro, amor, amizade, leveza. Sentimentos leves e pesados colocados lado a lado e construindo histórias fáceis de ler, mesmo quando surge aquele leve incômodo de um nó na garganta, que logo dá espaço para outros sentimentos.

“Éramos opostos, mas, apesar disso, ou, por causa disso, nos dávamos muito bem, sempre fomos unha e carne”

Meu drama (Ana Paula Del Padre)

A leitura de qualquer antologia pode trazer muitas sensações diversas para cada leitor, uma vez que carrega múltiplas histórias e escritas, mas eu não posso deixar de mencionar aqui que um dos meus contos preferidos foi “Corra e olhe o céu”, da Ana Farias Ferrari.

“Quando pequena, todo os sábados à tarde meus pais e meus tios deixavam os filhos na casa de paredes cor-de-rosa, quase no fim da pequena cidade do interior, sob os cuidados nada cautelosos de vó Naná e do vô Alceu”

Corra e olhe o céu (Ana Farias Ferrari)

Tenho total consciência de que essa é uma escolha bem pessoal, baseada no fato de que me identifiquei muito com a protagonista e com os momentos narrados por ela, dando-me muita saudade e nostalgia.

“Não sei exatamente quando essas tardes mágicas acabaram, talvez com a cobrança da escola e dos cursos extracurriculares nós passamos a ter menos tempo para brincadeiras aos fins de semana, ou talvez a idade e a vontade de ver o mundo se tornaram mais atraentes do que o mundo criado entre aquelas paredes rosas”

Corra e olhe o céu (Ana Farias Ferrari)

Mas já que cada um pode encontrar o seu conto preferido, deixo aqui meu convite para que você conheça essa obra e me conte qual foi a sua história preferida!

Música em contos 2 — Susana Silva (parte 4)

música em contos 4

Vamos para o quarto conto que li da antologia Música em Contos 2? Ele chama-se A canção e foi escrito por Thelma Miguel. A música de inspiração foi You don’t know me (Michael Bublé). Esse conto é um pouco mais extenso que o da semana passada, mas não chega a ser tão extenso quanto o A Tísica.

Narrado por Antônio — ou Tony —, um cidadão que vive pacatamente (até demais) numa pequena cidade, mas que, de repente, vê sua vida virar do avesso devido a um incidente na porta de sua casa, com o ônibus da cantora Catharina — ou Katy — e sua equipe.

“Dei-me conta de que a minha vida tinha um vazio enorme”

Era noite e nevava, o que obrigou Tony a hospedar todas aquelas pessoas em sua casa, que era um pouco afastada da cidade. E essa situação acaba se estendendo um pouco, devido à dificuldade de conseguir a peça necessária para arrumar o ônibus. Com isso, Tony passa a sentir algo que jamais havia sentido. Algo que se torna ainda mais intenso com a partida da banda e com uma descoberta que ele faz pouco antes disso.

“Eu havia me transformado para sempre”

Trata-se de uma história romântica, mas não é um romance óbvio. Isso porque toda essa situação e tudo o que Tony vive, geram uma modificação interna nesse personagem. Um simples acontecimento abre os olhos de Tony para o mundo que sempre esteve à sua frente, mesmo que em uma cidade pequena como a que ele vivia.

Esse é um daqueles contos que nos permite pensar em em uma infinidade de assuntos (nossas vidas, a forma como enxergamos o mundo, o que nos move, quem são as pessoas que nos cercam e muito mais), ainda que seja uma narrativa breve. E a música que inspira o conto aparece diretamente na história, mas também tem uma letra que, por si só, já nos faz entender a inspiração. Além disso, essa canção é um dos elementos que despertam Tony para sua vida.