Algumas palavras “intraduzíveis” em outras línguas [tradução 31]

Aproveitando o barco da resenha desta semana, e com uma pequena (alta) dose de loucura, hoje eu resolvi traduzir um artigo sobre palavras italianas que não têm tradução em outras línguas. Contraditório? Talvez! Mas fique até o final para entender como isso seria possível.

Cheguei ao texto em questão através da newsletter da Treccani, a famosa enciclopédia italiana. Ele foi escrito por Eva Luna Mascolino, tendo sido publicado originalmente em novembro de 2022, no illibbraio.it.

E aí, me acompanha neste desafio?


Como traduzir uma palavra que serve de reforço, como “mica” ou a interjeição “boh”, sem recorrer a uma perífrase? E como explicar conceitos como o de “meriggiare”, de “struggimento” ou de “abbiocco” para quem não fala a nossa língua? Uma curiosa e fascinante análise de palavras que existem (quase) somente em italiano… 

Conhecida também como a língua do sim, graças à conhecida divisão dos idiomas românicos na obra de Dante Alighieri, o italiano é há séculos repleta de termos poéticos, vocabulários multifacetados e palavras tão pontuais que não podem ser facilmente explicadas para quem não conhece essa língua, ou para quem busca traduzi-la com perfeição.

Como geralmente acontece em muitos sistemas linguísticos, de fato, existem conceitos enraizados de tal forma na cultural local ou com uma história etimológica tão característica que existem (quase) apenas no nosso país: a seguir, uma análise dedicada a alguns dos exemplos mais curiosos e fascinantes disso, para refletir sobre a unicidade dos ternos que usamos cotidianamente e conhecer melhor as suas origens.

Vamos nos debruçar, então, em algumas palavras italianas “intraduzíveis” em outras línguas:

Abbiocco

Termo italiano regional, cada vez mais difundido em toda a península, abbiocco é uma palavra que deriva de galinha, ou seja, um animal que, por excelência, está em uma posição recolhida, agachada, para chocar os ovos. A partir disso, começou a indicar uma pessoa que enrosca-se em si mesma porque está muito cansada, como já podíamos ler, por exemplo, no romance Meninos da vida, de Pier Paolo Pasolini. E assim, nos dias de hoje, o intraduzível abbiocco italiano define o comportamento de quem foi vencido pelo marasmo, principalmente depois de ter consumido uma farta refeição. Em inglês só é possível traduzir com um sintagma (food coma), assim como em francês (coup de pompe o coup de barre) e em muitas outras línguas estrangeiras.

Boh

Escutamos essa palavra ser pronunciada algumas tantas vezes ao dia e, contudo, a interjeição boh que comumente exprime para nós o conceito de incerteza é tudo, menos compreensível, em outras partes do mundo. Não existem, de fato, correspondentes tão rápidos e incisivos em outros sistemas linguísticos, especialmente se levamos em conta que além de significar não sei ou não tenho ideia, o monossílabo boh também pode exprimir o ceticismo de quem fala, ou até mesma a irritação, o desconcerto, a perplexidade. Por isso, há anos, circula nas redes manuais para o uso do boh, que ajudam quem está aprendendo italiano e quer se familiarizar com as nuances e com as possíveis exceções desta curiosa palavrinha.

Magari

Continuamos no tema das interjeições e focalizamos agora na palavra magari, proveniente do grego μακάριος (makàrios, pt. feliz) e que inserido em uma exclamação é sinônimo de eu adoraria, realmente gostaria, enquanto como função adverbial pode substituir o mais frequente forse (talvez). O seu fascínio reside na dificuldade de captar todas as possíveis implicações, a partir do momento em que, com base no contexto, pode exprimir uma sensação de esperança, de felicitação, de arrependimento, ou de dúvida: esse é o motivo pelo qual em línguas como o inglês, por exemplo, podemos traduzi-lo como if only, mas também como I wish ou ainda como you wish, sem que exista, contudo, apenas um correspondente igualmente polissêmico.

Meriggiare

Meriggiare pallido e assorto / presso un rovente muro d’orto, / ascoltare tra i pruni e gli sterpi / schiocchi di merli, frusci di serpi: é assim que se abre uma poesia de Eugenio Montale, na qual o protagonista é justamente esse vocabulário áulico, mas atualmente em desuso, tão amado pelos intelectuais italianos desde Burchiello até chegar, no século passado, ao já mencionado escritor genovês e ao “poeta vate” Gabriele D’Annunzio. Trata-se, neste caso, de uma condição comportamental, que mais detalhadamente significa em repouso e na sombra das primeiras horas de uma tarde de sol. Em outras palavras, em um estado de calmaria, em contato com a natureza.

Mica

E sempre a propósito de palavras italianas “intraduzíveis” em outras línguas, talvez não todos saibam que em latim a mica equivalia a uma migalha de pão, exatamente com acontece ainda hoje em algumas zonas do norte da Itália, nas quais a michetta é um precioso tipo de pão. E como uma migalha, na atualidade, mica tornou-se um advérbio que pode ser encontrado em qualquer lugar, de perguntas a exclamações enfáticas. A sua função, de fato, é aquela de reforçar uma negação (exemplo: não sei mesmo quem é o assassino deste livro), que, consequentemente não é nem um pouco fácil de traduzir: em inglês se poderia recorrer a it’s not as if, at all, certainly e afins, mas se tratam sempre de perífrases genéricas e bem mais longas, que não correspondem totalmente ao original.

Struggimento

Vamos concluir com um substantivo de retrogosto melancólico e romântico, o struggimento, cuja etimologia está relacionada ao verbo latino destruere. Se considerarmos que antigamente a palavra significava desfazer, liquefazer ou reduzir a nada, entendemos facilmente como hoje, em italiano, esteja associada à ideia de um pensamento nostálgico e impossível de realizar, que consome pouco a pouco tanto a nossa mente quanto o nosso corpo, e que geralmente se deve a um amor atormentado. Pode parecer estranho, contudo não são muitas as línguas nas quais se pode expressar a mesma faceta da dor com um substantivo tão específico que não seja, por exemplo, um genérico heartache ou torment.


Gostou desta tradução? Não deixa de me contar nos comentários se você já conhecia alguma das palavras apresentadas aqui e como você as traduziria para o português.

Lost in Translation — Ella Frances Sanders

Título: Lost in translation: um compêndio ilustrado de palavras intraduzíveis de todas as partes do mundo
Original: Lost in translation: an illustrated compendium of untranslatable words from around the world
Autora: Ella Frances Sanders
Editora: Livros da Raposa Vermelha
Páginas:  110
Ano: 2018
Tradutora: Livia Deorsola

Olhando muito rapidamente para a capa (e para o formato) deste livro, pode parecer que se trata de uma obra infantil. Mas basta vislumbrar o título e já ficamos em dúvida. Com o subtítulo, então, tudo fica ainda mais claro: não, Lost in Translation não é um livro infantil e sim “um compêndio ilustrado de palavras intraduzíveis de todas as partes do mundo”!

Mesmo folheando esta obra, porém, ainda poderia restar a impressão de ser um livro infantil, devido às páginas coloridas e ilustradas. Ouso dizer até que a simplicidade e a forma poética dos textos contribua para transmitir muito da pureza infantil, afirmação que faço como um elogio à obra.

“As palavras deste livro podem ser respostas a perguntas que você jamais imaginou fazer, ou quem sabe a outras que alguma vez já tenha feito. Elas podem concretizar emoções e experiências que pareciam imprecisas ou indescritíveis, e até mesmo fazer você se lembrar de alguém que esqueceu há muito tempo”

Como alguém que trabalha (também) com tradução, não pude deixar de imaginar como foi a experiência de traduzir este livro. Isso porque ele nos traz inúmeras palavras, de línguas diversas, e que não têm uma tradução exata em outros idiomas. Quer um exemplo? A palavra “kabelsalat”, do alemão, que significa algo tipo “salada de cabos”, ou seja, aquele emaranhado de fios que a gente nunca consegue resolver.

Já dá para imaginar, portanto, como esse livro é um prato cheio para quem, assim como eu, tem paixão por línguas diversas. Mas tenho certeza que a forma como ele foi pensado consegue encantar mesmo quem não tem tanto interesse assim por outros idiomas, mas que gosta de aprender sobre o mundo.

“Embora às vezes mostrem um falso aspecto de permanência, os idiomas não são imutáveis” 

Uma coisa que achei curiosa é que este livro realmente traz palavras de diversos idiomas — muitos, aliás, eu sequer conhecia e são falados por um grupo realmente pequeno de pessoas — mas não traz nenhumazinha de italiano ou de português!

Jayus: uma piada tão ruim que não resta nada a fazer a não ser rir” (Indonésio)

Lost in translation vai seguindo um único formato em toda a sua extensão: a palavra em sua língua original e seu significado, além de um pequeno (pequeno mesmo!) texto sobre ela, sobre seu uso ou alguma curiosidade, como acontece, por exemplo, com a palavra holandesa “Struisvogellpolitiek” cujo significado é “literalmente ‘política do avestruz’. Agir como se a coisa não fosse com você… quando você sabe perfeitamente que algo ruim aconteceu” e que vem acompanhada do seguinte texto:

“Esse termo não deixa de ser surpreendente, afinal, os avestruzes mais próximos vivem a milhares de quilômetros da Holanda…”

Claro que o mais interessante desse livro é que a gente descobre diversas palavras que significam algo que sempre quisemos explicar. Vou deixar aqui alguns exemplos que mais chamaram a minha atenção:

Trepverter: A frase ou resposta engenhosa que passa pela nossa cabeça quando já é muito tarde para usá-la. Literamente ‘palavras de escadas’” (Ídiche)

Ah, e claro, antes de continuar, queria ressaltar que é importante tomarmos cuidado com palavras que podem parecer algo (por conta da nossa língua) e que não são, mas também como nem tudo é tão diferente assim!

Karelu: a marca que fica na pele por se usar algo muito apertado” (Tulu — falado numa região do sudeste da Índia)

Szimpatikus: alguém que você acaba de conhecer e que, no entanto, intui que é boa pessoa” (Húngaro)

Vacilar: quando a experiência de viajar é um si mesma mais importante que o destino” (Espanhol)

E aí, ficou com vontade de conhecer mais palavras que você sempre buscou e não sabia? Então clique aqui e divirta-se!