Pérolas da minha surdez — Nuccia De Cicco

Título: Pérolas da minha surdez
Autora: Nuccia De Cicco
Editora: Bindi
Páginas: 218
Ano: 2020 (2º edição)

Se tem uma coisa que eu não faço é ficar planejando com antecedência o que eu vou ler. Claro que eu tenho uma lista infinita de livros a serem lidos, mas quando chega o momento de escolher a próxima leitura, eu simplesmente olho para o que está parado e deixo, sei lá, meu sexto sentido, escolher por mim. Por sorte, em um momento difícil, esse meu sexto sentido escolheu Pérolas da minha surdez e foi uma banho que me lavou a alma.

“Uma época em que você tinha tantas esperanças, outros tantos sonhos e, de repente, passou a sentir que tudo foi roubado”

Confesso que relutei com a escolha. Fiquei encarando a capa, pensando se era o momento certo. Isso porque, até então, tudo o que eu sabia/imaginava era que o livro falava sobre a surdez da autora e os percalços e momentos desse caminho. O que eu só fui descobrir com a leitura é que, na verdade, esse livro é bem mais que isso.

“O problema de ser forte o tempo inteiro é que pessoa alguma percebe quando você quebra. Eu quebro o tempo todo. Vê quem quer”

Devido à minha relutância, porém, antes de realmente mergulhar na obra, li um conto que veio com ela, também da autora. Chamado Ponte de vista, o conto foi escrito para acompanhar o livro e sua leitura já foi um bom e necessário choque de realidade. Ao contrário de Pérolas da minha surdez, ele tem um tom ficcional, mas daqueles que nos tocam como qualquer história real e palpável. Lido isto, resolvi encarar o livro.

Logo nas primeiras páginas, esta obra mostra a que veio ao mundo. Nas linhas inicias já nos deparamos com a oportunidade de conhecer mais da vida da autora, de ver uma sucessão de tombos, mas também uma sucessão de cabeças erguidas para tudo isso. E, com certeza, foi isso que fez eu me agarrar com ainda mais força à obra.

“Desapegar não é esquecer”

Aos poucos, claro, também vão entrando muitas explicações. Ao longo das páginas, Nuccia nos fala sobre os tipos de surdez (sim, existem muitos!), sobre a história da surdez, sobre Libras, sobre acessibilidade.

“Acessibilidade não é apenas permitir meios para que alguém consiga entrar. É, além disso, conceder oportunidades para que estas mesmas pessoas possam permanecer e entender o que ali existe”

Com pitadas de humor — ácido, por vezes — a autora tenta desmistificar “o universo surdo”, além de tentar fazer entrar em nossa cabeça como enxergamos e encaramos as coisas de maneira errada e até absurda.

“É lembrar que o surdo não é diferente, porque não existe ninguém igual”

Mas se engana, como eu já comentei um pouco no início, quem acha que são páginas e mais páginas técnicas e apenas voltadas para a surdez. Em Pérolas da minha surdez estamos em contato com uma história real, de um ser humano real e, portanto, cheio de sonhos, de aventuras, de desejos. E é por isso que, além de aprender sobre a surdez, podemos aprender muita coisa, inclusive sobre, por exemplo, dança do ventre.

“Rótulos são problemáticos, exclusivos, classificadores e não ajudam em nada, a não ser a uma pequena parcela de profissionais e às estatísticas”

Ah, e a Nuccia também ressalta, em mais de um momento, que ela é surda, mas que isso não a torna alheia ao mundo. Muito pelo contrário. Quando não podemos mais contar com um de nossos sentidos, os outros tornam-se ainda mais sensíveis…

“Eu não posso escutar. Mas a surdez é social, não minha”

Para além de tudo o que já mencionei, outros dois elementos que me conquistaram demais nessa obra, foram o fato de, apesar de explicar e apresentar muita coisa, a autora usar uma linguagem muito fácil e acessível, o que torna a leitura bem fluída e interessante.

“Senhoras e senhores, apresento-vos o capacitismo: o preconceito cultural que implica em duvidar da capacidade de um indivíduo em ser ou fazer o que ele desejar”

E o fato de que, como esta é a segunda edição, publicada em 2020, li uma versão atualizada da obra, mencionando o contexto pandêmico também, que trouxe sim mais algumas barreiras para os surdos. Porém, isso também me fez perceber uma coisa: esse é tipo de livro que, infelizmente, sempre terá algumas informações datadas. Como eu disse, ele foi republicado em 2020 e já há uma informação — mas esta para o bem! — desatualizada. Num dado momento, Nuccia fala que “A Itália possui uma cultura surda e os surdos utilizam uma língua de sinais não-oficial”. Pois bem, em maio de 2021 a LIS (Língua de Sinais Italiana) foi finalmente reconhecida! Bom ver que as coisas estão começando a caminhar mais nesse sentido, né?

“Sair do mundo ouvinte para o do silêncio na fase adulta é equivalente a atravessar uma parede de concreto espesso com apenas um passo”

Considero que Pérolas da minha surdez é um daqueles livros que precisam ser lidos ao menos uma vez na vida. Ao final da obra, ainda há uma série de referências de livros e filmes/séries com personagens surdos ou sobre a surdez. Ou seja, uma obra para termos sempre à mão também (ainda bem que optei por comprar a versão física, que agora está mais difícil de conseguir).

E aí, se interessou? Então clica aqui (ebook). Também aproveite para conhecer as outras obra da Nuccia aqui. E se quiser, tem resenha de Cadeados aqui.

Cadeados — Nuccia De Cicco

Título: Cadeados — o amor é a chave
Autora: Nuccia De Cicco
Editora: The Books
Páginas: 361
Ano: 2018

cadeados blog

Cadeados foi um livro que me fez sentir muita coisa. A começar pela aflição, pois a história se inicia com um grave acidente de carro e as consequência deste sobre Pam, a protagonista. Ela fica gravemente ferida, passa por cirurgias, convulsiona… E tudo é descrito no livro, sem nos poupar de detalhes.

“Naquele milésimo de segundo, eu voei”

Depois, veio uma agonia imensa, causada pela dor de ver Pam sofrendo por tudo o que perdera (em primeiro lugar, seus pais e um pouco do movimento das pernas — esses ao menos recuperáveis com a fisioterapia) e também escondendo sintomas importantes, o que nos leva à terceira sensação…

“O tempo passava por cima da gente sem piedade. A saudade não diminuía nunca”

Tristeza. Não porque “ah, coitadinha”, mas porque esse é o reflexo dos próprios sentimentos de Pam. Ela se fecha em si mesma, se isola, perde a vontade de viver. É até irônico ler essa parte, porque ela não quer mais sair de casa, enquanto nós daríamos tudo para podermos estar nas ruas novamente.

“Não havia mais motivos para sair da cama, quem dirá do quarto ou da casa”

Depois vem a esperança. A luz no fim do túnel. A vontade de seguir lendo e lendo para ver que as coisas podem melhorar. A esperança de que existam cadeados que podem ser abertos.

“Para cada cadeado, uma chave especial”

E claro que, por fim, há a alegria. Depois de todas essas sensações, nos deparamos com um final leve, porém verídico. Nada de contos de fadas, mas de realidades palpáveis.

“Ele me entendia; às vezes mais do que eu mesma”

Cadeados é narrado por personagens diversos. Apenas os trechos de Pam são em primeira pessoa, os dos outros personagens são em terceira pessoa. Essa dinâmica torna tudo ainda mais interessante, pois ao mesmo tempo que mergulhamos no universo da protagonista, temos a oportunidade de estar próximos dos demais personagens que, mesmo não sendo protagonistas, têm a sua importância.

“Eu podia ser independente, mas nunca estaria sozinha”

Como eu disse mais acima, no acidente, Pam perde os pais, um pouco dos movimentos da perna (coisa que se recupera depois) e… A audição. E essa é a grande temática desse livro, que nos ensina um pouco mais sobre o universo surdo, sobre as dificuldades encontradas nesse mundo, ainda não preparado para lidar com deficiências, mas que também nos mostra que ser ensurdecido (termo apresentado no livro, que designa ouvintes que, por algum motivo, deixam de ouvir) tem as suas dores particulares.

“Ouvi durante vinte três anos, deixar de depender de um sentido não era como um passe de mágica”

Como se já não fosse suficiente apresentar tudo isso que acabei de mencionar, o livro ainda consegue falar sobre relacionamentos abusivos e depressão. E nenhuma dessas temáticas entra de maneira forçada na história, muito pelo contrário.

“Amar não devia ser engolir todas essas porcarias”

Recomendo imensamente esse livro para quem quer aprender mais sobre surdez, mas também para quem tem estômago forte e nem um pouco de medo de permitir que um livro mexa imensamente com seus sentimentos. Uma leitura daquelas que precisam ser feitas com calma, ainda que a gente queira devorar tudo de uma vez, torcendo pelo “final feliz”, que pode vir das mais diferentes maneiras.

“Quando perdemos um sentido e o conquistamos de volta, percebemos o quanto as pequenas coisas são as mais importantes”

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