Citações #97 — Uma canção para a libélula

Uma canção para a libélula, da Juliana Daglio, foi minha primeira leitura de 2025 e, ainda que quase um ano tenha se passado, ainda há ecos destas páginas em mim. Como mencionei na resenha, trata-se de uma obra densa, porque aborda temas como a dor (física e emocional):

“Quando uma dor pede para levar embora suas lembranças ruins, ela leva também a parte boa”

“Não havia amor no mundo que pudesse me salvar da dor cortante que já tinha roubado a vida dentro de mim”

“Naquele ínterim, eu compreendi com uma certeza quase palpável, que as vítimas da Depressão e do Suícidio não são apenas aqueles que sofrem”

“Ninguém sabia a tristeza atroz que estava dentro de mim, oca e funda como um abismo aberto dentro do peito”

“Às vezes, é só ouvindo ou lendo sobre a dor de outras pessoas que conseguimos encontrar saída para as nossas”

“Apesar da dor que carregava sobre os ombros, era bom me sentir ouvida”

“Talvez a dor seja inevitável. Algo que todos os seres vivos terão que passar eventualmente”

Ao longo da narrativa, descobrimos que muito dessa dor vem da perda e do luto.

“Quando você morre, mata também uma parte das pessoas que o amam”

“O mundo me deu um anjo e eu o deixei partir”

“O dia que conheci minha mulher, foi o mesmo em que a perdi”

“Talvez ainda houvesse algo em mim a ser salvo; um caco do que um dia eu fui”

“O frio, só o frio. Mas ele não foi suficiente para calar a voz da menina que eu fui…”

“A vida e a morte não se posicionam em lados opostos de um tabuleiro…”

“Quando você morre, mata também uma parte das pessoas que o amam”

Provavelmente, já deu para perceber que uma das temáticas centrais da obra é a depressão, que se faz presente sobretudo através da Vilã Cinzenta:

“Saí dali terminando de desmoronar, certa de que não havia tratamento nenhum que pudesse parar aquilo”

“Tinham me dito que os remédios iam fazer efeito com o tempo e eu me sentiria um pouco melhor, mas nada disso aconteceu”

“Mandar um depressivo ver as coisas de forma mais positiva é como pedir a um deficiente auditivo que ouça uma música…”

“A angústia trazida pela depressão causa um horror imenso, sem motivos concretos…”

“Nada é realmente belo, num patamar totalmente multicolorido, para quem tem a Depressão nas veias da mente”

“Ali estava a Vilã Cinzenta me sabotando novamente, me dizendo que nada seria como antes”

“Não há motivos para seguir em frente, não há galhos em que se apoiar quando se cai de cabeça no abismo dessa Vilã”

Esta é uma temática que também nos conduz à solidão e ao vazio existencial:

“É dolorosamente solitário não ser compreendido”

“É preciso ter coragem para enfrentar a sobrevivência”

Para tratar dos assuntos até aqui mencionados, é preciso falar, também, das relações humanas, cruciais para esta história:

“Alex e Marcos viveram treze anos com um fantasma meu pairando na casa”

“Suas palavras ecoavam, derrubando as muralhas que eu tinha construído ao redor de mim”

 “Pessoas tendem a dramatizar, algo que sempre me incomodou nas relações sociais”

“Ninguém é bom ou mau, tampouco uma mistura exata. As pessoas são complexas…”

Mas também há espaço para o amor:

“Pessoas como eu, que crescem frias, distantes e cheias de complexidades, quando cedem não amam pouco, mas poucos”

“Estar apaixonada era correr o risco de ser rejeitada”

“Era sobre aquilo que as pessoas apaixonadas escreviam em canções…”

“De alguma forma ser forte por outra pessoa era mais fácil do que ser forte por mim mesma”

E há espaço para a poesia, na forma de música, de arte, de expressão.

“A música era minha liberdade”

“Usei a música para fugir de alguns dos meus problemas, para realmente não ter que enfrentá-los”

“A canção da Libélula era um fragmento perdido da minha alma”

“Certas mensagens são mais eficazes se ditas sem palavras”

Um livro introspectivo, que nos faz refletir, também, sobre autoconhecimento:

“A verdade fere, mas liberta”

“Não queria me identificar com aquilo. Era humilhante e doloroso”

“Eu não queria mais ser eu, porque não queria pôr outra pessoa quebrada no mundo”

“As cicatrizes não são algo para se exibir, mas podemos usar as nossas para evitar as dos outros”

“— Superar, Vanessa — retrucou de imediato. — Não é esquecer e nem passar por cima do que aconteceu”

“É nos momentos que precedem à loucura que toda a sensatez se volta para a realidade da vida”

“Não importa em qual lugar dessa cidade eu esteja, meu passado vai sempre me perseguir”

Apesar das muitas frases que trouxe aqui, ainda há muito a se explorar na leitura de Uma canção para a libélula, então, se você se interessou, não deixe de procurar.

Uma canção para a libélula — Juliana Daglio

Título: Uma canção para a libélula 
Autora: Juliana Daglio
Editora: Publicação independente
Páginas: 611
Ano: 2018 

(Para ler ao som de Here in the now – Angra)

Sinopse

Ainda criança, a talentosa Vanessa compôs uma canção para expressar seu fascínio por libélulas. Sem compreender o significado desses insetos alados em sua vida, ela cresceu para se tornar uma pianista de sucesso, famosa em toda a Europa. Porém, sua alma sombria e quieta segue assombrada por uma presença cinza, uma doença inescrutável. A jovem pianista precisa retornar ao Brasil, ignorando a voz obscura que ronda sua mente, prometendo tragá-la para as memórias terríveis que cercam sua antiga casa em São Paulo. Seu reencontro com a mãe não facilita para que enfrente os sintomas de fraqueza que a acometem, levando-a a um abismo em si mesma. Contudo, Vanessa não estará mais sozinha. Em meio a todo o caos, conhece Nathan, um misterioso rapaz que se esconde por trás de meios sorrisos. Logo ele se mostra decidido na missão de ajudá-la a encarar a parte mais difícil de sua doença – a sobrevivência.

Uma história sobre depressão, perdas e superação, que já conquistou centenas de leitores em suas primeiras edições. Agora o texto chega até o leitor em uma segunda versão, com o conteúdo renovado e cenas inéditas que compõe a mesma história. A trajetória de uma simples ninfa através de lagos sombrios, de um casulo apertado, até o romper das asas de uma imponente Libélula.

Seja forte agora, mas não contenha suas lágrimas.

Ouça a Canção até o final.

AVISO DE GATILHO: O livro descreve grandes conflitos internos e emocionais, bem como cenas fortes que podem desencadear emoções latentes.

Resenha

O encontro com essa obra foi lento, até que me vi enredada por ela, querendo mais e mais desse belo texto, escrito por vezes com palavras difíceis, por vezes com palavras poéticas.

“Eu poderia compor uma canção sobre isso, pensei, afastando meu rosto para vê-lo”

Talvez tenha sido uma escolha estranha pegar um livro tão denso para iniciar o ano (essa foi minha primeira leitura concluída em 2025, minha resenhas estão um pouco atrasadas), mas existiria realmente um momento ideal para uma leitura como essa?

“Sentia-me desesperada, experimentando uma sensação de aceleramento, indefesa e perdida num mundo que não me pertencia. Se eu pudesse somente evaporar”

A história de Vanessa não é nada simples e ao longo de todo livro acompanhamos a sua angústia e a sua dor.

“Ouvia a música dentro mim, mas tornei-me silêncio. Uma garotinha de cabelos de algodão, perdida em si mesma, tomada por uma dor devastadora feito uma ferida esburacada de um pedaço que fora arrancado de mim. Algo havia sido tirado a força de mim, de fato. Doía mais do que qualquer agrura física”

Sabemos que ela carrega uma enorme culpa, mas é aos poucos que vamos entendendo de onde ela vem e o que há realmente por trás disso. As peças são encaixadas aos poucos, fazendo surgir o quadro completo no momento certo.

“Porém havia de fato ocorrido uma desgraça naquela casa, e cada parte daquele piso e daquelas paredes me fazia lembrar dela”

Muito antes do acontecimento que marca sua existência, Vanessa já era uma criança retraída – e aqui também vamos entendendo aos poucos o porquê – e depois as coisas só pioraram.

“Odiava essa mania que as pessoas tinham de medir palavras para falarem comigo, como se eu fosse de vidro”

Mas o terror poderia ser ainda maior, se Vanessa não tivesse uma família capaz de ajudá-la. Enquanto sua mãe era seu maior pesadelo, foi sua tia que a tirou daquela realidade e permitiu que a menina se tornasse uma das pianistas de maior renome mundial.

“Algumas pessoas me acusaram de tirar uma criança de um lar, embora eu estivesse dando a ela um lar. Mas no final de tudo, você tem seu próprio mundo, sua alma e seu coração de libélula”

O amor de sua prima também é algo belo de se acompanhar. Duas amigas-irmãs que sempre estiveram ali, uma pela outra.

“Minha prima se apaixonava e desapaixonava com muita frequência, mas não deixava de ser real e intenso em todas as vezes que acontecia”

No entanto, sabemos, a vida não dá tréguas e, no auge de sua carreira, a vida de Vanessa dá outra volta e ela se vê obrigada a enfrentar seu passado e seus temores.

“Todo mundo que me olha sabe que eu estou quebrada”

É bonita a forma como a obra trata a depressão, sem romantizá-la. A protagonista se refere à “Vilã Cinzenta” que a assombra e acredito que esta seja uma boa forma imagética de enxergarmos as coisas.

“Tudo começa assim: uma tristeza aqui, um dia de apatia ali; uma angústia fraca, outra forte. Depois vem a perda de interesses. Resolve-se reconhecer a própria inutilidade. Não há vontade alguma de levantar da cama, e, quando se levanta, não há vontade de voltar. Daí por diante, tudo parece estar perdido. Parece não ter volta. Talvez não tenha…”

Nem tudo no livro, porém, é perfeito. Nathan, um cara um tanto quanto misterioso, por mais encantador que seja, não me convenceu de todo.

“— Estou tentando mostrar o mundo que você não estava vendo”

Colocado como o salvador de Vanessa, algumas de suas ações parecem exageradas, ainda que bem intencionadas 

“Sei que pensa que as pessoas não sabem as coisas que não fala, mas você não tem a mínima noção do que seu rosto diz, do quanto você é transparente”

Por diversos momentos me questionei como esta história poderia acabar e, claro, até o último momento estava difícil imaginar qual exatamente seria o desfecho. Faria sentido um final feliz? E se não fizesse, como concluir sem deixar o leitor desesperançoso?

“Experimentei um grau de ansiedade boa, como há muito não sentia”

O livro é narrado pela própria protagonista, o que provavelmente nos faz mergulhar ainda mais em sua profusão de sentimentos.

“Eu não era feliz. Não conseguia esquecer, tinha me esfriado, tornando-me incapaz de sentir coisas boas, de me permitir alguma alegria”

Para além da depressão, pelo próprio jeito de ser desta protagonista, a obra também fala muito sobre relações sociais, sempre nos dando o que pensar.

“A verdade é que minhas relações sociais sempre giraram em torno da tentativa de não ser desagradável”

Uma canção para a libélula é um livro que vai mexer em muitas questões para cada ser humano que entrar em contato com ele. Uma obra que, sem dúvidas, vale a leitura. E, se você quiser saber mais sobre ela, clique abaixo

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