Citações #51 — Uma mentira imperfeita

Acho que não é segredo para ninguém (ao menos não deveria ser) que eu adoro romances, daqueles bem “água com açúcar” mesmo. O que talvez nem todo mundo concorde é que mesmo esses livros podem nos trazer algumas reflexões interessantes, ainda que esse não seja o objetivo deles.

“Como algo pode ser a razão da sua vida e, ainda assim, te destruir?”

Foi o que aconteceu enquanto eu lia Uma mentira imperfeita, da Beatriz Cortes, publicado pela Bendita Editora. Li o livro no começo deste ano e adorei! Muitos dos trechos que destaquei durante a leitura ficaram de fora da resenha (que você pode ler aqui) e agora os trago neste post.

Acho que umas das coisas mais interessantes sobre essa história é que ela fala muito sobre autoconhecimento.

“Estou totalmente aliviada por ter, enfim, chegado a alguma conclusão sobre mim mesma”

“Eu sou uma fraude, não consigo terminar nada do que me propus a fazer na vida, nem mesmo uma maldita terapia”

“Uma das coisas que percebi nesses longos anos de redescoberta de mim mesma foi que, enquanto eu dizia sim para todo mundo, deixei que o não tomasse conta de quem eu sou”

E, ao mesmo tempo, também fala sobre conhecer o outro.

“Não adianta ficar procurando fundamento nas escolhas do outro se você ainda não consegue entender as suas próprias”

“Tento pensar se em algum momento houve indícios de que essa transformação aconteceria com ele, mas no fundo eu sei que essas coisas acontecem de uma hora ou outra”

Como já era de se esperar, a história fala, ainda, sobre o amor, mas percorre caminhos interessantes para isso, muito ligados, também, ao que já mencionei sobre a obra.

“Todas as minhas tentativas de relacionamento foram exatamente assim, como saltar de paraquedas e descobrir no meio do caminho que ele está com defeito: você sabe que, quando chegar ao chão, vai ser uma droga, mas a sensação de poder voar é indescritível”

“Quando perdemos alguém que amamos muito, a gente também corre o risco de nos perder de quem somos”

“É incrível como ele consegue tornar até um furacão muito mais leve”

Um assunto que fica pairando ao longo da narrativa e que desperta a nossa curiosidade é a culpa que a protagonista carrega e que queremos entender melhor.

“Hoje faz oito anos, e, sempre que essa fatídica data chega, tenho a sensação de que estou revivendo aquele pesadelo”

“Só queria que soubesse que te amo, e que não tem um dia da minha vida que eu não me arrependa do que aconteceu”

“Absorvi toda a culpa, todo o sofrimento, e achei que isso fosse o necessário para permanecer firme, para me tornar forte”

“A chama da culpa sempre esteve aqui, crepitando ao meu redor, e ele nunca percebeu. Ninguém nunca notou”

Outro sentimento forte é a melancolia, que gera pensamentos que nos fazem querer abraçar a protagonista.

“Descobri, com o passar do tempo, que existem muitas formas de morrer, e não sou capaz de perdê-lo em mais uma”

“Sinto o peso de suas palavras destroçarem meu coração em mil pedaços”

“É a minha vida despencando aos poucos, afundando em uma areia movediça, desmanchando feito papel”

Mas o mais interessante mesmo é ver como somos múltiplos e como uma única pessoa pode se transformar tanto em tão pouco tempo.

“Não dá para simplesmente ser outra pessoa depois de tanto tempo sendo… eu”

“É uma pena que não haja espaço para a Nina no Rio de Janeiro, no mundo real. Talvez um dia eu possa me dar o luxo de viver algo parecido outra vez”

Se esta obra despertou o seu interesse, não deixe de clicar no livro aí embaixo para conhecê-lo melhor!

Uma mentira imperfeita — Beatriz Cortes

Título: Uma mentira imperfeita 
Autora: Beatriz Cortes 
Editora: Bendita Editora 
Páginas: 314 
Ano: 2021

Estava com saudades de ler um clichê e, ao mesmo tempo, uma história capaz de me surpreender. Parece impossível que esses dois elementos possam coexistir? Pois Uma mentira imperfeita está aí para provar que isso é possível sim!

“Como podemos ser nós mesmos em um mundo que insiste em nos dizer quem devemos ser?”

Narrado em primeira pessoa, podemos quase dizer que a história não possui uma, mas duas protagonistas: Marina e Nina.

“A Nina era bem mais divertida do que a Marina, com essas roupas sérias e a agenda regrada. A Nina aproveitava a vida de verdade, ela tinha sonhos…”

Marina está prestes a assumir a empresa de seu pai, falecido antes da hora. É uma responsabilidade enorme, afinal não é uma empresa qualquer. E ela, sempre série e tentando entender suas funções, sendo sempre pressionada e criticada pela madrasta, ainda tem de lidar com as nada simples questões do coração.

“Na minha vida, é tanta tempestade que já estou até sem barco. Naufraguei de vez e, a cada vez que saio com alguém, bebo um pouco mais de água salgada”

Nina, por outro lado, é uma pessoa leve, que consegue equilibrar novas e emocionantes aventuras com as suas obrigações. Como diria Otto, seu melhor amigo, ela pega sem se apegar.

“A Nina é uma baita de uma sortuda!”

A verdade, porém, é que Nina e Marina são a mesma pessoa. Nina é, no fundo, uma versão quase perdida de Marina, resgatada por Otto, que está cansado de vê-la levando a vida tão a sério e deixando de lado a oportunidade de aproveitar um pouco o que há de bom.

“Otto pode ter umas ideias meio doidas, mas acho fofa a forma como ele se preocupa comigo”

É aquela velha história: é só quando deixamos de nos preocupar com certas coisas que elas acontecem. E foi assim que Marina (quer dizer, Nina, porque ela sim é despreocupada) conheceu Zac.

“É engraçado olhar para trás e perceber tudo de bom que eu teria perdido se as coisas tivessem acontecido como eu planejava”

Desde o começo da história fica muito claro para nós, leitores, que Marina não está nada confortável com a ocupação que ocupa e, menos ainda, com a que vai ocupar. E logo vamos entendendo quais são as suas verdadeiras paixões.

“— Pensar no que a gente ama sempre faz bem, Nina. Esse é o segredo”

Mas aos poucos também vamos percebendo outro detalhe: Marina carrega uma culpa. E nós passamos boa parte da leitura tentando entender que culpa é essa, coisa que vai sendo revelada bem aos poucos, na medida certa.

“Estou tremendo. A parede que levei anos construindo dentro de mim para isolar essa história do resto do mundo (e de mim mesma) parece se rasgar como uma folha de papel”

Não foi somente a forma como a autora soube usar esse sentimento para construir um mistério na trama, porém, que me prendeu até a última página. Também fiquei bem intrigada com o desenrolar do nó em que Nina se enfiou.

Mesmo sendo uma grande apaixonada por histórias de amor, chegou um ponto da história que eu não poderia torcer para ela ter o final feliz dela ao lado de Zac. Não da forma como as coisas estavam acontecendo, porque Marina era apenas Nina para ele, mas ela precisava se encontrar entre uma e outra (ou até em ambas, na medida certa. Ou em nenhuma).

“Eu definitivamente não sei quem sou”

Confesso que tive medo da história simplesmente acabar feliz, mas de maneira absurda. Mas se tem uma coisa que posso dizer, sem dar spoilers, é que a história não decepciona. A autora vai conduzindo tudo de forma a nos fazer ler com atenção até o último ponto final, sedentos por todos os desfechos bem pensados e que nos fazem concluir a leitura com um sorriso no rosto e um quentinho no coração.

“Há muito tempo não me sentia assim, livre, desprendida, animada”

Que tal conhecer Marina, Nina e o que mais puder surgir dessa mulher que tem muito a aprender, mas também a ensinar? É só clicar aqui embaixo!