Da barca do inferno – Marcia Capella

Título: Da barca do inferno para um auto sem barca: novos horizontes para jovens da rede pública
Autor: Marcia Capella
Editora: Pró-saber
Páginas: 192
Ano: 2014

Ganhei o livro Da barca do inferno para um auto sem barca: novos horizontes para jovens da rede pública do meu melhor amigo, uma pessoa que se interessa muito por educação de qualidade e projetos incríveis e é justamente sobre isso que esse livro fala.

“O próprio projeto Novos Horizontes: educação de excelência para jovens da rede pública guiou-se pela “ideia de extraordinário”. Iniciado em agosto de 2007 e agora finalmente documentado em livro, seu compartilhamento há de reavivar em muita gente o ânimo educativo”

Da barca do inferno para um auto sem barca (p.7)

Impossível não dizer que o livro cumpriu bem seu objetivo: através da descrição do projeto Novos Horizontes, dos depoimentos de alunos e professores e da apresentação da monografia dos alunos — uma releitura do Auto da barca do inferno — é impossível que o desejo de fazer algo transformador e a força em acreditar em uma educação de qualidade não sejam reavivados.

O Novos Horizontes não era um reforço para alunos de escola pública, mas um projeto que buscava ampliar a visão de mundo de seus alunos e oferecer ferramentas que os tornassem cidadãos do mundo. Ali, os alunos tinham aulas de filosofia, português, literatura, história, teatro, arte, coral, matemática, meio ambiente, informática, inglês. Em muitos casos, as disciplinas se mesclavam e davam frutos ainda mais interessantes.

“No lugar do ensino instrumentalizado e partido, pôs-se em prática um verdadeiro exercício de interdisciplinaridade, com o qual se procurou levar os alunos a uma ampla compreensão do conhecimento humano nos âmbitos cultural, histórico, filosófico, social e científico”

Da barca do inferno para um auto sem barca (p.12)

Para entrar nesse projeto, alguns alunos de diversas escolas públicas cariocas foram indicados e passaram por uma entrevista, além de ter de escrever uma redação. A partir disso, foram selecionados os alunos que efetivamente fariam parte do projeto. Em tese, os melhores alunos; na prática, os professores tiveram de adaptar um pouco seus planos.

Para estimular o interesse dos alunos, os professores buscavam instigar quatro atitudes, que são descritas no livro e seguidas de depoimentos dos alunos. Essas atitudes são: pertencimento, compromisso, autotelia e oportunidade de realização.

“Cada um aqui tomou as rédeas da sua própria vida”

Da barca do inferno para um auto sem barca (p.130)

Depois de descrever como funcionou cada disciplina — ou cada conjunto de disciplinas — a autora do livro ainda nos apresenta mais alguns depoimentos dos alunos, obtidos em uma conversa sobre o projeto. Por meio das palavras desses jovens, conseguimos ter uma ideia melhor do que significou para cada um ter feito parte do Novos Horizontes.

“A educação no nosso país parece que é um deserto: chato, vazio, sem graça”

Da barca do inferno para um auto sem barca (p.129)

“Talvez seja aberto demais para implantar em todas as escolas que existem, mas um pouquinho disso não faz mal a ninguém”

Da barca do inferno para um auto sem barca (p.131)

Também vale ressaltar como a visão sobre a educação mudou para esse alunos. Eles passaram a enxergar o aprendizado de outra forma e souberam valorizar a oportunidade que tiveram. Muitos ingressaram em Universidades públicas ou, no mínimo, conseguiram se encontrar ao longo dessa trajetória que durou 3 anos.

“Apesar da vontade de muitos, não houve outra edição do Novos Horizontes”

Da barca do inferno para um auto sem barca (p.25)

O livro todo tenta nos preparar para o anexo final, que é a transcrição da monografia feita pelos alunos: uma releitura do Auto da Barca do Inferno, escrita totalmente pelos alunos, em um texto de 60 páginas, chamado Auto sem barca. Como eu disse, o livro tenta nos preparar para esse anexo, mas não consegue. Ao menos eu não estava nem um pouco preparada para toda a qualidade que tal peça tem.

Substituindo o “anjo” e o “diabo” por “psiquê” e “sociedade”, os alunos do Novos Horizontes colocaram em julgamento personagens de nosso cotidiano: a barraqueira, o traficante, a fofoqueira, a professora, o policial, o gari, o aluno e o mendigo (que encerra a peça — e o livro — nos dando um belo tapa na cara). Minha vontade é fazer o mundo inteiro ler essa releitura da obra de Gil Vicente, de tão maravilhosa que achei!

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