Em você me (re)conheço. O poder curativo das palavras [tradução 26]

Depois de muito tempo sem trazer uma tradução por aqui, resolvi voltar com uma que, logo de cara, chamou a minha atenção pelo título — forte, não? — e que, depois, mostrou-se um pouco diferente do que costumo trazer nesta seção.

Quer dizer, o artigo ainda fala sobre leitura e literatura, mas, dessa vez, com um pouco de psicologia também. Não à toa, ele foi escrito pela doutora Anna Rossi, uma psicoterapeuta.

Encontrei o texto no site da própria doutora Anna, sem a data de publicação. Caso queira conferir o original, basta clicar aqui. E abaixo você poderá ler a minha tradução.


“Cada leitor, quando lê, lê a si mesmo” (Marcel Proust)

“Essa é a parte mais bonita de toda a literatura: descobrir que os seus desejos são desejos universais, que você não está só ou isolado de ninguém. Você pertence” (Francis Scott Fitzgerald)

Contar sobre si faz bem. Sabem bem disso os psicoterapeutas que descobrem nas narrações de histórias de vida dos pacientes o meio pelo qual alcançar maiores níveis de bem-estar.

Falar sobre si nos torna visíveis, a nós mesmos e ao mundo. Abre um espaço de compartilhamento com o outro, talvez justamente no território tão temido das fragilidades humanas. Dá às histórias vividas a possibilidade de serem escutadas e acolhidas com curiosidade, que vem do latim “cuidado”, com interesse autêntico e sem julgamentos. Contar histórias cria alianças, nos liga intimamente a quem as escuta.

Contar sobre si equivale a percorrer de novo as experiências de vida passadas, na presença de uma testemunha, para atualizá-las e conferir-lhes finalmente um sentido. Um sentido que talvez seja precário, remodelável, não definitivo. Mas que, mesmo assim, é sentido e, como tal, é capaz de oferecer continuidade, coerência e unidade àquilo que somos e sentimos. Falar sobre si na terapia significa escrever e reescrever a própria história. De maneira inédita, pessoal, criativa, que seja fonte de paz com o passado e trampolim para um salto responsável em direção ao possível.

Contar-se através da escrita, para além do espaço terapêutico, é, no fundo, algo muito parecido ao que acabamos de dizer. E talvez já soubessem bem disso aqueles autores do presente e do passado que fizeram da escrita seu antídoto pessoal contra a dor. Que através da criação de mundos e histórias deram espaço ao vivido, aos desejos, ao sofrimento e àquelas insistentes questões existenciais que não encontraram outro lugar no mundo lá fora. Que, assim, deram direito ao próprio ponto de vista de existir no mundo, mesmo que este fosse cheio de zonas sombrias e de contradições não resolvidas. Que puderam finalmente confiar a nomes e personagens aquela pluralidade de vozes guardada em suas almas e um significado àquilo, pouco ou muito, que da vida puderam experimentar. 

Se contar histórias faz bem, e faz, o que acontece quando abrimos as portas às histórias de um outro? Marielle Macé, diretora de pesquisa no CNRS e docente de literatura na EHESS e na Universidade de Nova York, se coloca a pesquisar sobre aquilo que acontece na mente do leitor de uma perspectiva que faz referência à atividade, atualmente já mais conhecida, dos neurônios espelho. Em Façons de lire, manières d’être ela afirma: “a experiência concreta do sentido tem uma verdadeira dimensão motora, e não apenas intelectual. Olhando o fazer ou o pensar dos personagens, nós esboçamos gestou ou pseudo gestos; […] a compreensão não é inerte, consiste precisamente no ativar em nós simulações gestuais […]”. E não podemos não estar de acordo com ela. Ler desempenha uma importante função na compreensão da mente dos outros e na potencialização da empatia. Permite desenvolver uma melhor teoria da mente, como demonstra o estudo de David Comer Kidd e Emanuele Castano da Nova Escola de Pesquisa Social de Nova Iorque, cujos resultados foram publicados na revista Science. “Exatamente como na vida real, a literatura é rica de indivíduos complexos, cujo mundo interior não podemos compreender se não com uma capacidade de investigação psicológica bastante refinada” explica Castanos. Através da escuta de uma história o leitor consegue acessar o mundo emotivo e cognitivo dos personagens, observar as variações e as evoluções dos estados de ânimos deles, visualizar as consequências dos sentimentos e das ações deles. Ler histórias é como ser jogado dentro de um espaço laboratorial onde se pode experimentar as infinitas nuances da emotividade humana e as múltiplas declinações da identidade. Onde poder viver, simulando, inúmeros acontecimentos. E através desta experimentação, aprender a refletir sobre si, a compreender melhor o próprio mundo interno, as suas facetas e a sua complexidade. A se tornar mais consciente dos mecanismos que estão sujeitos ao sofrimento, a entender que essa é uma experiência universal que nos une aos outros e não que nos separa. A perdoar os nossos limites e a ser mais compassivo com as nossas vulnerabilidades. A cultivar a confiança nas mudanças que, afinal, são a lei da vida.

As histórias dos outros nos dão a possibilidade de encontrar e nos aproximar, gradualmente e sem sobressaltos àquelas emoções que nos dizem respeito mas que tendemos a fugir por medo de ter de reconhecê-las em nós e ter de confrontá-las. Vê-las agindo em personagens que não somos nós, nos ajuda a torná-las familiares, menos assustadoras. Nos ensina a tê-las por perto sem medo.

A narrativa é, portanto, para todos os efeitos, um potente instrumento de autoexploração e cuidado. E, durante a terapia, pode ser o lugar pelo qual o paciente e o terapeuta se encontram para depois, juntos, encaminhar-se em direção a outras possibilidades.


E aí, o que achou?

Já li muitos texto que falam sobre como pessoas que leem muito são mais empáticas, mas achei interessante que, nesse texto, há todo um destaque para a importância de não apenas ouvirmos outras histórias, mas também contarmos a nossa.

7 comentários em “Em você me (re)conheço. O poder curativo das palavras [tradução 26]

  1. >>Já li muitos texto que falam sobre como pessoas que leem muito são mais empáticas,

    De fato eu me sinto mais empático. Mas não sei se os outros são empáticos com a minha empatia. A leitura me fez gostar de altos papos, “papo-cabeça”, etc., mas sinto que as pessoas não apreciam mais uma boa [e empática] conversa, e tendem a achar arrogante os que têm intimidade com as letras. Sua experiência pode ser diferente.

    Belo texto!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Entendo a sua dúvida com relação à empatia dos outros. Realmente, é difícil encontrar pessoas dispostas a “papos cabeça” e que vejam isso com normalidade, não como arrogância. E mais difícil ainda é encontrar pessoas a ter papos cabeça sobre temas que conhecemos e gostamos! Mas o importante é continuar procurando. E saber que temos refúgio nos livros, ao menos

      Curtido por 1 pessoa

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