Título: Rabo de pipa Autora: Maitê Rosa Alegretti Editora: Laranja Original Páginas: 108 Ano: 2022

Sinopse
Em seu segundo livro, Maitê Alegretti nos conduz por um percurso. Dificilmente os leitores não associariam esse movimento aos tempos recentes pelos quais passamos e às dificuldades que encontramos para retomar nossos caminhos cotidianos. De início, a obra em questão já nos introduz que, após essas vivências, nada mais seria como antes, pois “eu precisava aprender/ que a mesma rua/ já não guardava as pessoas de antes/ e a cidade se deslocava todos os dias/ centímetros abaixo de nós”.
Há, dessa forma, evidente melancolia nesse movimento de regresso ao mundo exterior, que exige, inclusive, uma preparação. Afinal, depois da clausura, “ter espaço/ de sobra/ dentro dos pulmões/ parece tarefa/ desmedida”. Apesar de o mundo continuar se movimentando abaixo de nossos pés, a percepção do tempo, a partir do contexto posto e imposto, altera-se. Assim, “o tempo parece não existir” e é necessário um esforço para a realização da possibilidade que se dispõe aos sujeitos: “apenas os movimentos/ circundantes”. A dimensão temporal, desprovida de parâmetros anteriores, impõe o ritmo do corpo, mais lento, aos poucos acontecimentos. Por isso, o dia, com todas as suas horas, precisa ser distendido para contemplar cada músculo de carne.
Todavia, ao direcionar o olhar ao que é possível ver, surgem as varandas. Na obra, os detalhes que se mostram por meio dessas aberturas são os recortes do mundo e o pedaço reduzido do outro a que os sujeitos podem ter acesso. Tal percepção culmina em versos que podem ser associados a outra questão: “na minha versão/ dentro de nós/ era tudo claro e/ luminoso”. Esse tipo de construção evidencia a dinâmica que se estabelece entre interior e exterior no que se refere a outros sujeitos.
Além disso, elaborar esse retorno, a nível da própria linguagem, também é um desafio. Desse modo, parte dos poemas e da prosa poética aventura-se por idiomas estrangeiros, como o italiano, língua estudada por Maitê Alegretti ao longo de sua formação acadêmica. Lado a lado, páginas em diferentes idiomas mostram distintos caminhos para a mesma questão, a busca pelo retorno perdido e a retomada do que não mais se verifica igual.
Entretanto, há um momento singular do livro que faz o sujeito e os leitores buscarem os céus, a despeito da clausura: o aparecimento das pipas e do vento, “como se/ antes não/tivesse sido/ detido”, que se espraia e leva esses recortes coloridos pelo dia de cor azul irretocável. A vida parece se anunciar novamente, apesar de um carnaval triste, o qual não apaga o passado, ao mesmo tempo em que a separação deve se converter no indivisível. Por fim,o último poema demonstra um novo parâmetro, o qual deve reger esse mundo por vir, por se criar e se recriar em nossas mãos, para que possamos, enfim, amarrar a vida às costas e desejá-la como nossa. A despeito da melancolia e das constatações de que nada permanece igual, há, ao final, uma esperança em relação ao porvir.
Luana Claro
Resenha
Rabo de pipa é o mais novo livro de poesias da Maitê e é uma daquelas obras que a gente pode — e deve — apreciar com calma e reflexão, como uma pipa que encontra o equilíbrio e plana na imensidão do céu.
“Eu precisava aprender
que a mesma rua
já não guardava as pessoas de antes”
O livro está dividido em seis partes, com os seguintes títulos:
- Inaudito
- Varandas
- Rabo de pipa
- Nenúfares
- Indivisível
- O tempo que se leva
Além disso, Rabo de pipa ainda conta com um prefácio (assinado por Mariana Marino) e um posfácio (assinado por Anna Clara de Vito). Ambos os texto enriquecem nossa leitura e trazem uma interessante análise dos poemas que encontramos ali.
“mas se você olhar lá fora
o pôr do sol parece
estranhamente
ainda mais
bonito”
Ao longo das páginas deste livro, nos deparamos com um mundo que é tão nosso, mas que, ao mesmo tempo, é tão novo. Um mundo a ser (re)descoberto, apreciado, vivido.
“mas para que tanto sofrimento
se o espírito
é pulsação e
vibra?”
Um mundo em consonância com o caos interior que tantas vezes carregamos, e com a vontade de viver aquilo que períodos difíceis não nos permitem viver, apreciando a imensidão, mas também a pequenez.
E no meio da observação do mundo, Maitê ainda insere sentimentos tão seus e conhecimentos que a vida pouco a pouco foi lhe propiciando, a ponto dela se arriscar a ir além de referências italianas em seus versos, escrevendo também uma breve prosa poética bilíngue.
Dentre os poemas lidos, o meu preferido foi O tempo que se leva, que me parece fechar com chave de ouro esta coletânea. Mas não pense você que é uma escolha fácil dentre os belos versos com os quais nos deparamos ao longo das páginas desta delicada e saborosa obra.
“Não é o tempo do trabalho
Não é o tempo da doença
Não é o tempo presente”
A diagramação e o uso de papel pólen para a impressão tornam a leitura do exemplar físico ainda mais confortável, propiciando ao leitor um tranquilo momento de lazer e esquecimento em meio aos versos da Maitê.
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