Os pais da língua italiana [tradução 29]

Sendo este um blog sobre livros e também um espaço em que compartilho um pouco do meu conhecimento de italiano, já estava mais do que na hora de falar sobre o assunto que escolhi para hoje, não é mesmo?

O artigo que venho traduzir desta vez consegue unir esses dois assuntos: como você poderá ver, os “pais” da língua italiana são, justamente, três grandes autores que, por meio de suas obras, ajudaram a construir a língua que hoje é falada na Itália.

O texto original foi retirado do site Scuola Mondo Italia & Home stay e foi publicado em 22 de junho de 2014, pelos autores do próprio site, como você pode conferir aqui.


É útil e bonito aprender uma nova língua, principalmente o italiano, mas alguma vez você já se perguntou quando e como nasceu o italiano moderno?

Dando uma volta no museu Uffizi, em Firenze, podemos admirar as três estátuas dos “Grandes do século XIV” mais conhecidos como “os pais da língua italiana”, ou seja, Dante, Petrarca e Boccaccio.

Com Italiahomestay buscamos descobrir o porquê e, para honrar as nobres origens desta língua, Italiahomestay apresenta este artigo inteiramente em italiano!

Com relação ao clima histórico-político do período, é possível considerar fundamental o intelectual Dante, porque ele viveu bem a fundo a situação crítica de Firenze. As suas obras principais são: De Vulgari eloquentia, na qual tentou estabelecer uma língua vulgar italiana de norte a sul; La Vita Nuova, antologia poética, De Monarchia e Il Convivio. A sua cultura foi enciclopédica e aberta aos impulsos tecnológicos e de Averroè. Ele viveu nos anos finais da Idade Média, quando a cultura romana estava se apagando, sobrecarregada por uma Itália dividida em cidades.

Petrarca, assim como Dante, dedicou suas obras a uma mulher. Se Dante personificou a teologia, o conhecimento e a fé, em Beatriz; Petrarca escreveu Il Canzoniere para Laura. Uma obra fascinante de Petrarca, e il Secretum, no qual ele dialoga com Santo Agostinho, falando sobre suas angústias. É um livro muito íntimo, sofisticado. Não faltam outras obras, menos conhecidas que il Canzoniere, mas não por isso menos importantes, e são obras em latim, em verso e em prosa, como o De bucolicum Carmen ou l’Africa. Ele viveu na época das senhorias, em um período de transição entre a Idade média e o Humanismo e a crise da Igreja e do Império: as duas instituições que haviam sido um ponto de referência para o ser humano.

Além disso, Petrarca, diferentemente de Dante, identifica no latim a língua da comunicação, a língua oficial da cultura. Utiliza o vulgar no Canzioniere, mas privilegia nas obras de conteúdo mais elevado o latim, e tem consciência da ruptura ocorrida entre o mundo antigo e o mundo contemporâneo.

Giovanni Boccaccio aparece mais aberto à comunicação com um público burguês e se diferencia dos dois primeiros por uma questão muito simples: foi, antes de mais nada, um narrador, mais que um poeta. E, de fato, o seu Decameron é uma antologia de novelas. No Decameron ele expressa uma narrativa de grande fascínio comunicativo que é um modelo e um cânone para as histórias em prosa, assim como Dante e Petrarca são para as obras poéticas.

Fundamental na produção escrita dos três é a figura feminina que se concretiza respectivamente em Beatrice, Laura e nas damas de honra que circundam Fiammetta. Dante encarrega a figura feminina de um forte significado simbólico: a beleza de Beatrice se reflete no mundo que a circunda e dela emergem os versos que a elogiam, que a tornam uma figura salvadora mesmo mantendo as características de uma criatura mortal.

Ao amor por Laura, por outro lado, são dedicados quase todas as composições do Canzioniere de Petrarca, cuja experiência é completamente marcada por este amor. Toda concretude física, porém, é eliminada, e tudo se torna abstrato e simbólico. O amor confere ao poeta um valor excepcional, mas diferentemente de Dante, é algo inerente à alma sem antecedentes filosóficos, não é uma força salvadora, mas um desejo que se torna razão de vida, um amor sexual, terreno.

Diversas são, por outro lado, as figuras femininas no Decameron: sedutoras e misteriosas, mas também doces e apaixonadas figuras maternas. E é o sentimento que constituiu a síntese dos motivos amorosos de Boccaccio. A grande novidade é que o autor atribui a palavra diretamente a uma voz feminina: a mulher não é mais “objeto de amor” contado por uma voz masculina, mas um objeto falante, amante, às vezes abandonada e desesperada, que busca a cumplicidade feminina.

A mulher, para Boccaccio, é a protagonista de muitas novelas; não se limita a ser sombra e reflexo das paixões do homem, mas se torna a verdadeira atriz, que afronta e sofre a questão amorosa dentro de si, como sincera criação do próprio coração.


Agora me conte: você já conhecia esses autores? E sabia desses detalhes sobre suas obras?

Aristóteles e Dante descobrem os segredos do Universo – Benjamin Sáenz

Título: Aristóteles e Dante descobrem os segredos do Universo
Original: Aristotle and Dante discover the secrets of the Universe
Autor: Benjamin Alire Sáenz
Editora: Seguinte
Páginas: 390
Ano: 2014 (1º edição)
Tradução: Clemente Pereira

Aristóteles e Dante descobrem os segredos do Universo foi o segundo livro de Benjamin Alire Sáenz que li , apesar deste livro ter sido lançado no Brasil antes de A lógica inexplicável da minha vida. Pensando nesses dois livros, é possível notar muitos elementos em comum, mas cada história possui suas surpresas e sua narrativa cativante.

Além disso, a leitura desse livro foi ainda mais especial para mim, pois ao longo das páginas havia vários recados deixados por meu melhor amigo. Cada um desses recados enriqueceu ainda mais minhas impressões e reflexões, além de me deixar muito feliz.

O livro é narrado por Aristóteles, um jovem que, assim como Salvador (de A lógica inexplicável da minha vida), tem muitas dúvidas com relação à vida. Aristóteles é um pouco mais novo que Sally, mas ambos estão em uma fase realmente conturbada: os anos de ensino médio, cheios de dúvidas, medos e descobertas.

“Acho que eu era um mistério até para mim mesmo”

Aristóteles e Dante descobrem os segredos do Universo (p.26)

Aristóteles é um jovem bem soturno (o que também torna a narração deste livro mais taciturna que a de A lógica inexplicável da minha vida). Ele mora com os pais e tem duas irmãs bem mais velhas, além de um irmão sobre o qual ninguém fala, pois ele está preso. Fora isso, seu pai é uma pessoa muito calada e guarda muita coisa dentro de si, principalmente as sombras do seu passado na Guerra do Vietnã.

“Não falar pode deixar alguém muito solitário”

Aristóteles e Dante descobrem os segredos do Universo (p.22)

Durante as férias de verão Aristóteles faz uma amizade, coisa rara para ele. Seu novo amigo chama-se Dante (até eles riem dessa “coincidência”).

“Dante se tornou mais um mistério em um mundo cheio de mistérios”

Aristóteles e Dante descobrem os segredos do Universo (p.28)

Juntos, Aristóteles e Dante descobrem os segredos do Universo vivem momentos únicos: eles conversam, jogam, trocam conhecimentos, discutem… Enfim, fazem o que seres humanos “normais” fazem juntos (eles vivem batendo na tecla de que não são normais).

“- Ninguém sabe exatamente o que está fazendo”

Aristóteles e Dante descobrem os segredos do Universo (p.58)

Por falar em “bater na mesma tecla”, Aristóteles tem uma péssima autoestima. Além de ser fechado ele consegue se autodepreciar o livro inteiro! Fora que ele acha que é o único que tem dificuldades de entender a si mesmo e se encontrar.

“O mundo de Dante tinha ordem”

Aristóteles e Dante descobrem os segredos do Universo (p.40)

Os adultos também são importantes nessa história e estão representados, principalmente, na figura dos pais de Aristóteles e dos pais de Dante.

“Fiquei pensando que poemas são como pessoas. Algumas pessoas você entende de primeira. Outras você simplesmente não entende… e nunca entenderá”

Aristóteles e Dante descobrem os segredos do Universo (p.40)

Com relação às semelhanças entre este livro e A lógica inexplicável da minha vida, temos ainda o fato de que ambas as histórias se passam em El Paso, os jovens possuem uma questão com a identidade (entre mexicana e americana), as delineação das relações familiares e sociais, a questão da amizade, a homossexualidade, os conflitos internos pelos quais os jovens passam, a questão da lealdade… Enfim, há várias temáticas que realmente retornam.

“Às vezes, você só precisa contar a verdade às pessoas. Elas não vão acreditar. E deixarão você em paz”

Aristóteles e Dante descobrem os segredos do Universo (p.178)

Outra semelhança é a estrutura dos livros: ambos são divididos em partes, que ganham um título e uma frase (ou citação) e os capítulos são apenas numerados. As partes (e suas respectivas frases) de Aristóteles e Dante descobrem os segredos do Universo são:

1. As diferentes regras do verão

O problema da minha vida era que ela tinha sido ideia de outra pessoa.

2. Pardais que caem do céu

Quando criança, costumava acordar achando que o mundo ia acabar

3. O fim do verão

Lembra-te do verão chuvoso… Deves deixar cair tudo o que quiser cair (Karen Fiser)

4. Letras sobre uma página

Há certas palavras que nunca aprenderei a escrever

5. Não se esqueça da chuva

Virando vagarosamente as páginas em busca de sentido (W. S. Merwin)

6. Todos os segredos do Universo

Por toda a minha juventude te busquei, sem saber o que buscava (W. S. Merwin)

Estou encantada com as histórias de Benjamin Saénz. Ele consegue falar de temas muito importantes de maneira que a história não fica nem chata e nem óbvia. Há sempre algum acontecimento que vem para modificar toda a ordem das coisas (muitas vezes já caótica) e há sempre um mistério que perdura até os momentos finais do livro. A narrativa nos permite um ritmo agradável, com altos e baixos que nos prendem, tensionam e depois nos tranquilizam.