Uma canção para a libélula — Juliana Daglio

Título: Uma canção para a libélula 
Autora: Juliana Daglio
Editora: Publicação independente
Páginas: 611
Ano: 2018 

(Para ler ao som de Here in the now – Angra)

Sinopse

Ainda criança, a talentosa Vanessa compôs uma canção para expressar seu fascínio por libélulas. Sem compreender o significado desses insetos alados em sua vida, ela cresceu para se tornar uma pianista de sucesso, famosa em toda a Europa. Porém, sua alma sombria e quieta segue assombrada por uma presença cinza, uma doença inescrutável. A jovem pianista precisa retornar ao Brasil, ignorando a voz obscura que ronda sua mente, prometendo tragá-la para as memórias terríveis que cercam sua antiga casa em São Paulo. Seu reencontro com a mãe não facilita para que enfrente os sintomas de fraqueza que a acometem, levando-a a um abismo em si mesma. Contudo, Vanessa não estará mais sozinha. Em meio a todo o caos, conhece Nathan, um misterioso rapaz que se esconde por trás de meios sorrisos. Logo ele se mostra decidido na missão de ajudá-la a encarar a parte mais difícil de sua doença – a sobrevivência.

Uma história sobre depressão, perdas e superação, que já conquistou centenas de leitores em suas primeiras edições. Agora o texto chega até o leitor em uma segunda versão, com o conteúdo renovado e cenas inéditas que compõe a mesma história. A trajetória de uma simples ninfa através de lagos sombrios, de um casulo apertado, até o romper das asas de uma imponente Libélula.

Seja forte agora, mas não contenha suas lágrimas.

Ouça a Canção até o final.

AVISO DE GATILHO: O livro descreve grandes conflitos internos e emocionais, bem como cenas fortes que podem desencadear emoções latentes.

Resenha

O encontro com essa obra foi lento, até que me vi enredada por ela, querendo mais e mais desse belo texto, escrito por vezes com palavras difíceis, por vezes com palavras poéticas.

“Eu poderia compor uma canção sobre isso, pensei, afastando meu rosto para vê-lo”

Talvez tenha sido uma escolha estranha pegar um livro tão denso para iniciar o ano (essa foi minha primeira leitura concluída em 2025, minha resenhas estão um pouco atrasadas), mas existiria realmente um momento ideal para uma leitura como essa?

“Sentia-me desesperada, experimentando uma sensação de aceleramento, indefesa e perdida num mundo que não me pertencia. Se eu pudesse somente evaporar”

A história de Vanessa não é nada simples e ao longo de todo livro acompanhamos a sua angústia e a sua dor.

“Ouvia a música dentro mim, mas tornei-me silêncio. Uma garotinha de cabelos de algodão, perdida em si mesma, tomada por uma dor devastadora feito uma ferida esburacada de um pedaço que fora arrancado de mim. Algo havia sido tirado a força de mim, de fato. Doía mais do que qualquer agrura física”

Sabemos que ela carrega uma enorme culpa, mas é aos poucos que vamos entendendo de onde ela vem e o que há realmente por trás disso. As peças são encaixadas aos poucos, fazendo surgir o quadro completo no momento certo.

“Porém havia de fato ocorrido uma desgraça naquela casa, e cada parte daquele piso e daquelas paredes me fazia lembrar dela”

Muito antes do acontecimento que marca sua existência, Vanessa já era uma criança retraída – e aqui também vamos entendendo aos poucos o porquê – e depois as coisas só pioraram.

“Odiava essa mania que as pessoas tinham de medir palavras para falarem comigo, como se eu fosse de vidro”

Mas o terror poderia ser ainda maior, se Vanessa não tivesse uma família capaz de ajudá-la. Enquanto sua mãe era seu maior pesadelo, foi sua tia que a tirou daquela realidade e permitiu que a menina se tornasse uma das pianistas de maior renome mundial.

“Algumas pessoas me acusaram de tirar uma criança de um lar, embora eu estivesse dando a ela um lar. Mas no final de tudo, você tem seu próprio mundo, sua alma e seu coração de libélula”

O amor de sua prima também é algo belo de se acompanhar. Duas amigas-irmãs que sempre estiveram ali, uma pela outra.

“Minha prima se apaixonava e desapaixonava com muita frequência, mas não deixava de ser real e intenso em todas as vezes que acontecia”

No entanto, sabemos, a vida não dá tréguas e, no auge de sua carreira, a vida de Vanessa dá outra volta e ela se vê obrigada a enfrentar seu passado e seus temores.

“Todo mundo que me olha sabe que eu estou quebrada”

É bonita a forma como a obra trata a depressão, sem romantizá-la. A protagonista se refere à “Vilã Cinzenta” que a assombra e acredito que esta seja uma boa forma imagética de enxergarmos as coisas.

“Tudo começa assim: uma tristeza aqui, um dia de apatia ali; uma angústia fraca, outra forte. Depois vem a perda de interesses. Resolve-se reconhecer a própria inutilidade. Não há vontade alguma de levantar da cama, e, quando se levanta, não há vontade de voltar. Daí por diante, tudo parece estar perdido. Parece não ter volta. Talvez não tenha…”

Nem tudo no livro, porém, é perfeito. Nathan, um cara um tanto quanto misterioso, por mais encantador que seja, não me convenceu de todo.

“— Estou tentando mostrar o mundo que você não estava vendo”

Colocado como o salvador de Vanessa, algumas de suas ações parecem exageradas, ainda que bem intencionadas 

“Sei que pensa que as pessoas não sabem as coisas que não fala, mas você não tem a mínima noção do que seu rosto diz, do quanto você é transparente”

Por diversos momentos me questionei como esta história poderia acabar e, claro, até o último momento estava difícil imaginar qual exatamente seria o desfecho. Faria sentido um final feliz? E se não fizesse, como concluir sem deixar o leitor desesperançoso?

“Experimentei um grau de ansiedade boa, como há muito não sentia”

O livro é narrado pela própria protagonista, o que provavelmente nos faz mergulhar ainda mais em sua profusão de sentimentos.

“Eu não era feliz. Não conseguia esquecer, tinha me esfriado, tornando-me incapaz de sentir coisas boas, de me permitir alguma alegria”

Para além da depressão, pelo próprio jeito de ser desta protagonista, a obra também fala muito sobre relações sociais, sempre nos dando o que pensar.

“A verdade é que minhas relações sociais sempre giraram em torno da tentativa de não ser desagradável”

Uma canção para a libélula é um livro que vai mexer em muitas questões para cada ser humano que entrar em contato com ele. Uma obra que, sem dúvidas, vale a leitura. E, se você quiser saber mais sobre ela, clique abaixo

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Céu sem estrelas — Iris Figueiredo

Título: Céu sem estrelas
Autora: Iris Figueiredo
Editora: Seguinte
Páginas:357
Ano: 2018

céu sem estrelas blog

Sabe aquela brincadeira de descrever de forma tosca um livro? Pois se fosse para falar de Céu sem estrelas nesses termos eu diria que é o livro da menina depressiva que gosta de ler livros depressivos. Claro que, como eu disse essa seria uma descrição tosca. Mas ao mesmo tempo, a tosquice tem um fundo de sentido, porque esse é um livro que nos apresenta uma protagonista… Comum!

“Acho que todo mundo só enxerga no outro aquilo que é conveniente”

(p. 90)

Quando eu digo que Cecília é comum, porém, não estou dizendo que ela é uma pessoa qualquer — afinal, Céu sem estrelas também nos mostra que todos somos especiais, cada um do seu jeito — mas que ela é uma personagem como nós, alguém que facilmente podemos encontrar em um amigo querido, em um parente, em qualquer lugar que frequentemos. E é tão bom poder ler um livro com alguém tão real quanto Cecília (e os demais personagens).

“Por mais que a gente achasse que conhecia uma pessoa, sempre havia mais”

(p. 317)

Esse é um livro que tem a sua dose de romance (coisa que eu amo), mas que vai muito além disso. A narrativa é alternada entre capítulos de Cecília e de Bernardo, que é o irmão mais velho de Iasmin, que, por sua vez, é a melhor amiga de Cecília.

“Cecília era uma caixinha de segredos e mentiras, tentando encobrir as partes feias da vida e pintar uma versão melhor de si mesma para o mundo. Ela não queria que sentissem pena”

(p. 161)

Cecília é uma garota que sofre com seus ataques de pânico e com uma mente que não consegue controlar, além de ter de lidar com olhares e palavras maldosas dos outros (inclusive familiares) por estar acima do peso. Para completar seu infortúnios, ela não se dá muito bem com a mãe a ainda perde o emprego, o que gera uma briga familiar e tanto.

“Nem eu mesma sabia quem eu era. Tinha passado tanto tempo preocupada em fazer as coisas do jeito certo, ser perfeita… Só fazia o que as pessoas queriam que eu fizesse. Porque eu queria ser amada”

(p. 70)

Bernardo, por outro lado, vem de uma família rica e aparentemente bem estruturada. Mas sabemos que isso geralmente é só aparência mesmo. Seus pais vivem brigando e, em seu íntimo, Bernardo sofre com isso. A família dele é quase um belo retrato daquela “família tradicional brasileira” bem estereotipada mesmo.

“Eu ainda me desdobrava em duas — quem as pessoas queriam ver e quem eu realmente era. Tinha me acostumado com a dupla identidade”

(p. 214)

Como esperado, Iasmin também é uma personagem importante ao longo da trama, e por meio dela a autora ainda consegue nos fazer refletir sobre relacionamentos abusivos.

“Eu tinha certeza que princesas não escondiam cicatrizes”

(p. 232)

Para completar o trio de amigas inseparáveis temos, Rachel, que é cadeirante e provavelmente uma das personagens mais sensatas da história.

“Quando nos importamos com alguém que vive uma luta tão profunda contra seus próprios monstros, o medo de que algo esteja fora do lugar sempre bate à porta”

(p. 321)

Por meio dos personagens secundários, Iris ainda consegue retratar muito da vida (e do estilo de vida) dos jovens universitários e também da rotina da faculdade em si.

“Eu estava cansada de pedir desculpas por meus sentimentos. Às vezes tinha a impressão de que fazia isso o tempo inteiro”

(p. 182)

Céu sem estrelas era um desses livros que eu ouvia falar e tinha muita vontade de ler. Graças à Ingrid (obrigada, miga!!) meu desejo se realizou e sinto que a espera valeu a pena. O livro chegou no momento certo e apesar de abordar tantos assuntos delicados, serviu como um abraço quentinho. A leitura flui muito bem, daquele jeitinho que a gente não quer largar o livro até o final, mesmo quando percebe que vai dar tudo errado.

“Era tudo na minha cabeça. A dor era toda na minha cabeça, mas isso não a tornava menos real”

(p. 191)

Não sei se essa história poderia ser gatilho para algumas pessoas, mas acredito que não. Cecília vive na pele um pouco de tudo. Senti que a história conseguiu ser realista e sensível, mostrando inclusive como é difícil pedir ajuda ou mesmo entender o que se está passando.

“Eram muitas perguntas, e eu não queria descobrir as respostas. Era cansativo viver com um cérebro que pensava demais”

(p. 150)
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Um jeito de recomeçar — Filipe Salomão

Título: Um jeito de recomeçar — Novos sonhos, pesadelos antigos
Autor: Filipe Salomão
Editora: Publicação independente
Páginas: 107
Ano: 2019

jeito de recomeçar

Sabe quando você termina um livro e não sabe bem o que fazer, pois o final não era nada do que você esperava (para o bem e para o mal)? Pois então, confesso que fiquei desnorteada com o final de Um jeito de recomeçar.

“Eu não sabia o que queria, e isso é saber mais do que muita gente”

Aliás, desnorteada talvez seja uma boa palavra para definir muito das minhas sensações ao ler esse livro. Uma leitura que te prende, ainda que você tenha medo de saber o que vem pela frente. Uma vontade de descobrir tudo para, no final das contas, não ser nada do que você poderia imaginar.

Carolina — ou Carol, como prefere ser chamada — uma jovem rica, chega em casa um belo dia e vê seu mundo destruído: o pai assassinara a mãe e, em seguida, cometera suicídio. Já da para imaginar, portanto, que neste livro não encontraremos uma história leve.

“Sabe, aprendemos mais com o fundo do poço do que com o topo da montanha, mas de um é fácil sair, do outro não”

E realmente, ao longo das páginas vamos conhecendo uma depressiva Carolina que tenta recomeçar sua vida longe de tudo e todos e que passa boa parte da história em uma pousada localizada em uma praia quase deserta, interagindo com aqueles que vivem ali e trabalham na pousada.

“Às vezes, começar do zero, largar tudo, assusta”

É interessante observar a rotina dos personagens, ver como cada um tem muito a oferecer e ensinar. E também vamos acompanhando algumas pequenas confusões causadas por Carol.

“Podemos nos acostumar com tudo na vida. Menos com o mar”

O problema é que essas “pequenas” confusões se tornam imensas confusões e, aos poucos, tudo vai ruindo novamente. É angustiante! E, como eu disse lá cima, desnorteador.

Carol é uma personagem que engana. Sentimos pena dela (ainda que ela não queira isso) e tentamos compreender sua dor (assim como os personagens que a cercam) e tudo o que ela faz e acabar com a paz que havia. Carol não é nada empática, ainda que a gente queira sentir isso em relação a ela.

“Amor é isso, não? Amor é compartilhar os piores segredos e sentimentos”

Mas aprendemos muito com essa leitura. E refletimos também. Afinal, a vida (e a morte) é uma caixinha de surpresas, não?

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