No meu lugar foi uma leitura forte que realizei este ano.
Escrito por Jorge Castro, o livro aborda temas importantes e assuntos pesados. Talvez por isso a lembrança seja algo difícil ao longo da história.
“Lembrar é doloroso. Desperta outros medos”
Assim como o medo é uma presença constante.
“Tudo pode acontecer. E pode ser bem ruim”
Mas onde há medo, também há coragem.
“É corajoso deixar o mundo saber que você existe”
Aliás, há personagens corajosos também, e cheios de personalidade.
“Carol não puxou em nada as características do irmão. Aventureira nata, desde pequena. Nunca gostou de ser limitada”
Mas, sem dúvidas, a principal lição da obra é a necessidade de sermos quem somos, independentemente do que os outros dizem (ou pensam).
“A gente só consegue ser feliz quando para de se preocupar com a forma como os outros veem nossa casa, e passa a focar no que realmente importa: se sentir bem dentro dela”
Se quiser saber mais sobre No meu lugar, não deixe de ler a resenha completa clicando abaixo.
Título: Crônicas da surdez — aparelhos auditivos Autora: Paula Pfeifer Editora: Publicação independente Páginas: 126 Ano: 2020
Sinopse
Paula Pfeifer é uma surda que ouve — e que fala — graças a dois ouvidos biônicos. Começou a perder a audição progressivamente na infância. O diagnóstico correto chegou na adolescência, mas a vergonha da própria surdez a impediu de usar aparelhos auditivos por muitos anos.
A jornada da deficiência auditiva foi muito solitária e assustadora, e a publicação deste livro celebra a sua saída definitiva do armário da surdez. “Crônicas da Surdez” reúne textos que contam sua história, experiências com o uso de aparelhos auditivos, reflexões sobre vergonha, aceitação, direitos, além de contar algumas aventuras num mundo que ainda não tem toda a acessibilidade necessária.
Foi indicado ao Prêmio Biblioteca Nacional e matéria na revista Vogue Brasil, Vogue Portugal, Marie Claire, em inúmeros programas de TV e nos principais jornais brasileiros.
Resenha
A leitura de Crônicas da surdez é fácil: sua linguagem é simples e faz parecer que a autora está conversando conosco.
“Conviver com a surdez requer uma boa dose de bom humor e paciência”
Ainda assim, senti certo estranhamento no início. Algo me incomodava nas palavras delas. Provavelmente porque esqueci, logo de cara, do próprio alerta da autora.
“Este livro é filho do seu tempo. Foi escrito no início de 2013, quando eu era usuária de aparelhos auditivos. De lá para cá, muita coisa mudou. Hoje, escuto todos os sons do mundo através de dois ouvidos biônicos”
A verdade é que a surdez é múltipla e, ainda que nenhuma experiência seja individual nesta vida, por mais que eu já tenha estudado um pouco da comunidade surda, ela é tão ou mais diversa que a comunidade ouvinte. E eu estava acostumada ao grupo que optou (ou não podia mesmo optar) por aparelhos auditivos e implantes cocleares.
“Como se não bastasse a surdez ser um monstrinho de sete cabeças, ela ainda é heterogênea: existem diferentes graus e tipos de surdez, o que também gera formas diversas de comunicação”
Mas se engana quem imagina que esta obra é apenas para surdos, para que quem está perdendo ou nunca teve audição sinta-se abraçado(a).
“Sempre quis ler o que um surdo oralizado tinha a dizer a respeito de suas conquistas, dúvidas, alegrias e tristezas”
O livro também serve para conscientizar muitos ouvintes sobre uma realidade tantas vezes ignorada.
“A família vive a surdez conosco”
Crônicas da surdez é dividido em três partes.
Na primeira, mergulhamos no universo da surdez, entendendo um pouco da sua multiplicidade, mas também conhecendo melhor o percurso da própria autora neste meio, afinal, ela não nasceu surda, mas foi perdendo a audição durante a infância e teve de se adaptar a uma vida um pouco diferente.
“Precisamos jogar com as cartas que temos em vez de passar longos anos lamentando a falta das cartas que gostaríamos de ter. A vida é curta”
Na segunda parte, a autora nos conta alguns causos de sua vida, sempre buscando incentivar as pessoas a se aceitar, a buscar ajuda e, acima de tudo, qualidade de vida.
“É preciso ter em mente que acessibilidade não pode custar caro e deve ser algo que qualquer pessoa consiga acessar 24 horas, sete dias por semana”
Por fim, na terceira parte, a autora traz alguns depoimentos que recebeu ao longo dos anos, pois ela escreve muito sobre o assunto. E é interessante ver algumas histórias contadas por outros pontos de vista e também a reação da autora a essas narrativas.
“Existe algo mais vergonhoso do que envergonhar‑se de si mesmo?”
Aliás, Paula Pfeifer tem um grande trabalho relacionado à comunidade surda, com muito material e incentivo, principalmente àqueles que pensam em implantes cocleares ou aparelhos auditivos. Ela fala muito sobre tudo isso ao longo de todo o livro.
“O projeto se chamou Surdos Que Ouvem e foi um sucesso. Milhões de pessoas assistiram a nossa campanha de vídeos, milhares participaram dos nossos eventos e incontáveis pessoas passaram a usar aparelhos auditivos (ou fizeram um implante coclear) após conhecer o nosso trabalho”
Mas você também pode conhecer melhor o seu trabalho seguindo-a em suas redes sociais: Instagram | Linkedin | Newsletter
E, claro, não deixe de adquirir seu exemplar de Crônicas da surdez clicando abaixo.
* Lembrando que qualquer compra feita na Amazon a partir dos links postados neste Blog, irá gerar uma comissão para este espaço, sem custo algum para você, ou seja, todos saem felizes nesta história (:
In un giorno qualsiasi, un mio collega mi ha fatto una domanda che da parte sua l’aveva domandato una piccola bambina.
Non è una domanda originale, anzi è una di quelle tante che vediamo su internet, da usare per conoscere meglio una persona o semplicemente per iniziare una conversazione un po’ più filosofica.
Sì, in un pomeriggio qualsiasi un mio collega mi ha chiesto con chi passerei quattro ore chiusa dentro un ascensorefuori servizio.
Mi è venuta la voglia di scrivere su questo non perché volevo raccontarvi la mia risposta, ma perché pensando a questa domanda una riflessione mi è passata per la mente (e, in più, volevo scrivere qualcosa in italiano).
Il punto è: perché quando ci fanno queste domande, ci viene in mente che dobbiamo rispondere con un nome conosciuto e giustificare la nostra scelta su perché questa personalità e non quell’altra?
Beh, il mio primo pensiero è stato questo. Dovevo — in maniera intelligente — rispondere con un nome conosciuto, anche se non sono una persona che ha grandi idoli. Ma dovevo scegliere, tra nomi più o meno conosciuti, uno. Un cantante? Una scrittrice? Un’attivista? Chi scegliere? Perché?
Dopo la domanda, però, mio collega (che da parte sua ancora non aveva una risposta) mi ha detto un’altra cosa che ha collaborato a questa riflessione: in quattro ore possiamo parlare di molte cose. Quattro ore chiusi dentro un ascensore può essere una quantità molto grande di ore. Tempo abbastanza per scoprire cose che forse non volevamo scoprire.
Così, la scelta dev’essere fatta bene, altrimenti ci annoieremo o ci deluderemo. E come molte persone dicono (persino la protagonista del libro che sto leggendo e che, anche lei, ha contribuito a tutta questa riflessione) è sempre un rischio voler conoscere più a fondo i nostri idoli.
Sì, abbiamo bisogno di persone modelli. Abbiamo bisogno di credere che alcune persone sono incredibili. Ma, in fondo, sappiamo che nessuno è perfetto. E in quattro ore potremmo avere la certezza di questa verità.
Detto tutto ciò, chi scegliere come risposta a una domanda del tipo? Beh, alla fine mi è sembrato un po’ ovvio: se devo passare quattro ore chiusa con una persona qualsiasi, che sia una persona con chi è facile parlare e stare insieme. Una persona che conosco già e con chi sarebbe piacevole parlare per quattro ore di seguito. Sceglierei passare quattro ore chiusa con un(a) grande amico(a).
Sì, questa non è una celebrità o qualcuno che abbia fatto qualcosa che l’abbia trasformato in una persona conosciuta, ma è qualcuno che ha sempre delle parole che mi fanno riflettere, che mi fanno crescere o almeno che mi fanno sentire bene (principalmente in una situazione terribile come questa).
E allora, con chi passeresti quattro ore chiuso(a) in un ascensore?
Título: A cor púrpura Original: The color purple Autora: Alice Walker Editora: José Olympio Páginas: 355 Ano: 2021 (25º edição) Tradução: Betúlia Machado, Maria José Silveira e Peg Bodelson
Sinopse
Alguns dos personagens mais marcantes da literatura norte-americana recente estão neste livro – ganhador do Pulitzer e do American Book Award –, que inspirou a obra-prima cinematográfica homônima dirigida por Steven Spielberg e o aclamado musical da Broadway, adaptado para o cinema.
A cor púrpura , ambientado no Sul dos Estados Unidos, entre os anos 1900 e 1940, conta a história de Celie, mulher negra, pobre e semianalfabeta. Brutalizada desde a infância, a jovem foi estuprada pelo padrasto e forçada a se casar com Albert, um viúvo violento, pai de quatro filhos, que enxergava a esposa como uma serviçal e fazia dos sofrimentos físicos e morais sua rotina.
Durante trinta anos, Celie escreve cartas para Deus e para a irmã Nettie, missionária na África. Os textos têm uma linguagem peculiar, que assume cadência e ritmo próprios à medida que Celie cresce e passa a reunir experiências, amores e amigos. Entre eles está a inesquecível Shug Avery, cantora de jazz e amante de Albert.
Apesar da dramaticidade do enredo, A cor púrpura é uma história sobre mudanças, redenção e amor. A partir da vida de Celie, a aclamada escritora Alice Walker tece críticas ao poder dado aos homens em uma sociedade que ainda hoje luta por igualdade entre gêneros, raças e classes sociais. Eleito pela BBC um dos 100 romances que definem o mundo, A cor púrpura é um retrato da vivência da mulher negra na época da segregação racial, cujos reflexos ainda estão presentes na nossa sociedade.
Resenha
Em janeiro de 2020, uma amiga me convidou para assistir ao musical A cor púrpura (inclusive, escrevi sobre isto aqui). Até então eu não sabia nada sobre esta história — e esta obra literária — mas lembro que saí totalmente encantada do teatro, querendo mais e mais.
“Mamãe Netti, ele falou, sentado na cama ao meu lado, como você sabe quando realmente ama uma pessoa?”
Depois de muito tempo, finalmente o livro chegou até mim, e por muito tempo mais eu tive medo de encará-lo. Mesmo sabendo que a história era ótima, se tratava de um clássico, então tinha medo de como poderia ser a sua linguagem, o que, por si só, já demonstra o quão pouco eu havia absorvido naquele espetáculo.
“Já é duro o bastante tentar levar a vida sem ser maluco”
Sim, porque a linguagem deste livro é um dos primeiros pontos que temos a destacar sobre ele: ela é simples. Não necessariamente fácil, mas simples.
“Se ele alguma vez escutasse uma pobre mulher negra o mundo seria um lugar bem diferente, eu posso garantir”
Isto porque o livro é epistolar e quem escreve a maioria das cartas é Celie, uma mulher negra e semianalfabeta. E este é outro ponto de destaque neste livro: seus personagens, em toda sua simplicidade, são extremamente ricos.
“Ela brigou, ela fugiu. Que que isso trouxe de bom? Eu num brigo, eu fico onde me mandam. Mas eu tô viva”
A história se passa nos Estados Unidos, numa época em que a segregação racial ainda era muito marcada e poder acompanhar o dia a dia de personagens negros neste contexto nos leva a muitas reflexões.
“É um milagre como os branco conseguem afligir tanto a gente, Sofia falou”
Por meio das cartas de Celie, ora endereçadas a Deus, ora endereçadas a Nettie, sua irmã mais nova que parece ter tido um pouco mais de sorte na vida, vamos mergulhando nesta história que fala sobre perdas, famílias, preconceito.
“Começa a parecer que é difícil dimais continuar a viver”
Celie tem uma vida muito sofrida: seu pai abusou dela, depois a fez se casar com um viúvo cujos filhos apenas a maltratavam (não que ele também a tratasse muito melhor). E, no meio disso tudo, ela ainda se vê obrigada a se afastar de Nettie, sua única alegria nesta vida.
“Todo mundo quer ser amado. A gente canta e dança, faz careta e dá buquê de rosa, tentando ser amado”
No meio de tanta adversidade, porém, Celie tem a oportunidade de conhecer Shug Avery e, com ela, aprender muito sobre o mundo, sobre o amor e sobre si mesma.
“Afinal, Albert sabia tanto quanto eu que o amor tinha que ser dimais pra ser melhor que o nosso”
Aliás, dizer que esta história fala sobre amores pode parecer simplista demais, mas não temos como ignorar, também, a presença de um amor forte, puro e que foi escrito numa época que este tipo de amor era ainda menos aceito que nos dias de hoje.
“Alguém para onde fugir. Parecia bom dimais pra durar”
Para além dos assuntos já mencionados, A cor púrpura é uma história que consegue nos fazer pensar sobre religião, colonização — inclusive tem passagens da Nettie que são verdadeiras aulas com relação a isso — e sobre nosso lugar no mundo.
“Por que eles nos venderam? Como é que eles puderam fazer isso? E por que será que nós ainda assim os amamos?”
Outra questão que chamou muito minha atenção foram os nomes — ou, em alguns casos, a ausência deles — e a importância que se dá àquilo que é nomeado.
“Faz o Harpo chamar você pelo seu nome verdadeiro, eu falei. Aí quem sabe ele vai ver você mesmo quando tiver com um problema”
A cor púrpura é um daqueles livros que não queremos largar. Os capítulos são, em sua maioria, relativamente curtos, o que ajuda bastante no processo de “só mais um pouquinho”.
“E eu tento ensinar meu coração a num querer nada que ele num pode ter”
Também é uma daquelas obras que me faz ficar pensando no trabalho que foi traduzi-la (não à toa, esta edição conta com três nomes para essa função): como terá sido o processo de encontrar o tom certo para Celie?
Por fim, esta é uma história que vai te fazer ter vontade de se aproximar de Celie, bater em Albert, se apaixonar por Shug Avery (quem não é apaixonado por ela?), torcer por Nettie, lutar por e com Sofia… Enfim, uma história marcada por ótimos personagens e uma narrativa extremamente necessária.
Li A cor púrpura na edição física da José Olympio e achei a diagramação bem limpa e confortável. O papel off-white também contribuiu para uma leitura agradável.
Se você ainda não teve o prazer de lereste livro, clique abaixo e saiba mais sobre ele!
* Lembrando que qualquer compra feita na Amazon a partir dos links postados neste Blog, irá gerar uma comissão para este espaço, sem custo algum para você, ou seja, todos saem felizes nesta história (:
Hoje, portanto, trago estes trechos, para que você possa conhecer um pouco mais desta obra tão encantadora.
Como o título já deve deixar claro, trata-se de uma antologia LGBTQIA+, que vai nos fazer refletir sobre como nosso amor vai muito além de uma mera nomenclatura.
“Ainda assim, Mateus está confuso consigo mesmo. Não se reconhece bissexual nem gay… A sensação é que nenhuma nomenclatura o representa de verdade e isso o apavora, embora não saiba explicar o motivo”
(Multicolor — Thati Machado)
Aliás, a temática do amor, claro, se faz muito presente ao longo das páginas desta obra.
“Amar é sobre ser inteiro, é sobre dois uns que se unem pra somar, não se anular”
(Três versões de mim — Leonardo Antam)
Mas o livro vai muito além. Fala sobre perdas.
“Agnes odiava perdas. Havia perdido tanto na vida…”
(Multicolor — Thati Machado)
“A hora de nos formarmos oficialmente chegou e isso significa que talvez sigamos caminhos diferentes”
(Monocromático — Rafael Ribeiro)
E medos.
“Então… parece que o Dani tá surtando e não quer mais casar.”
(Três versões de mim — Leonardo Antam)
Também fala sobre primeiras impressões e expectativas.
“Primeiras impressões podem dar uma rasteira na gente”
(Monocromático — Rafael Ribeiro)
“O ensino médio começou sem mudanças significativas. Como a cidade é pequena, não tem muita gente nova pra conhecer, então tudo estava igual. As mesmas pessoas, a mesma escola, até alguns professores continuavam lecionando. As expectativas estavam lá embaixo”
(Monocromático — Rafael Ribeiro)
“Isso não vai complicar as coisas? Por que é tão difícil achar alguém legal? O problema sou eu?”
(Três versões de mim — Leonardo Antam)
O primeiro conto trata muito da questão do lar e como este pode ser um tema bem delicado para a comunidade LGBTQIA+.
“— O meu lar é onde você está”
(Multicolor — Thati Machado)
E ainda encontramos histórias que falam sobre os rituais que conhecemos tão bem, mas que ganham novos formatos.
“É o dia de dizer “sim”. Das trocas de juras pretensamente eternas, de trocar as alianças. Seguir o protocolo e fazer tudo que os noivos fazem até o fim”
(Três versões de mim — Leonardo Antam)
Acima de tudo, esta é uma obra que fala sobre humanidade.
“Se ninguém ligava para ela enquanto pessoa, os trataria como máquinas”
(A garota no bar — Delson Neto)
Mas sem deixar de conter histórias de diferentes gêneros, inclusive ficção científica.
“Se um dia fossem pegos a cadeia seria um destino básico, pois as consequências de um cybercrime já eram bem piores naquela altura”
(A garota no bar — Delson Neto)
Se interessou? Então leia a resenha completa para saber mais e garantir seu exemplar!
Dia desses me deparei com o artigo italiano cujo título (e conteúdo) você encontra traduzido aqui: Se as escolas ensinassem bem a literatura e se enchesse as salas de aula com livros, todos saberiam o que é amor.
O artigo em questão foi escrito pela redação do site Orizzonte Scuola, e foi publicado em 12 de abril de 2024, como você pode ver no post original.
Claro que o título despertou minha curiosidade, apesar de, no fim das contas, o texto não aprofundar exatamente a questão da literatura, mas sim a importância de fazermos perguntas.
Tradução
No seu último livro para jovens, “As grandes perguntas”, Umberto Galimberti defende que as perguntas são mais importantes que as respostas. Uma afirmação que pode causar dúvidas: se não temos respostas, como podemos nos orientar no mundo?
Para Galimberti, em uma entrevista ao La Stampa, as respostas não são a chave. Inclusive, correm o risco de sufocar a nossa curiosidade e fechar a nossa mente. Como diagnósticos e receitas pré-confeccionadas, nos oferecem uma falsa segurança, nos fazendo crer que sabemos e temos tudo sob controle. Este comportamento nos leva a “desligar o cérebro”, renunciando à fadiga de buscar e se aprofundar.
Por outro lado, as perguntas nos mantém alertas, nos fazem questionar e se colocar à prova. São o motor do conhecimento, o ponto de partida para explorar novos territórios e ampliar os nossos horizontes.
Mas atenção: nem todas as perguntas são iguais. Algumas nos conduzem a ruas sem saída, enquanto outras nos abrem novas perspectivas. Como dizia Ésquilo, só o verdadeiro saber tem poder sobre a dor. E esse saber não se adquire por osmose, mas através um percurso de busca e de confronto crítico.
Um exemplo evidente é a literatura. Se as escolas ensinassem a ler os grandes clássicos, não apenas com uma abordagem didática estéril, mas com paixão e envolvimento, os jovens aprenderiam a conhecer a alma humana em todas as suas facetas. Aprenderiam a reconhecer o amor, o sofrimento, a alegria e o medo, emoções que fazem parte da vida de cada indivíduo. E, sobretudo, aprenderiam a lidar com a dor que, inevitavelmente, estas emoções carregam consigo.
Perguntas e respostas são duas faces da mesma moeda, ambas indispensáveis para o nosso crescimento intelectual e emotivo. As perguntas nos impulsionam a buscar, mas as respostas nos oferecem uma direção. Porém é importante lembrar que o verdadeiro saber não se resume a uma simples fórmula, mas é um processo contínuo de descoberta e de confronto. Só através desse processo podemos aprender a viver com sabedoria e a enfrentar os desafios que a vida nos apresenta.
Conclusão
Qual a sua opinião: perguntas são mais importantes que respostas?
Acho que vivemos numa sociedade que quer tudo pronto (e tem muita coisa assim, na palma da mão) e que talvez realmente esteja perdendo parte de sua capacidade questionadora, então consigo compreender os pontos do autor, ainda que também discorde em alguns outros pontos.
Johnny e Nicholas não se conheciam, mas desde que se encontraram pela primeira vez, viram que momentos bons podem existir em meio a sentimentos ruins e a uma vida onde nada parece estar do jeito certo. A partir desse encontro quase sem querer, surge uma amizade e um desejo adolescente que só cresce com as conversas, as opiniões musicais compartilhadas e os segredos confessados. O que dois jovens garotos com um sentimento em comum um pelo outro podem fazer para se sentirem livres e viverem algo bom quando tudo ao redor parece conspirar contra? Mais do que isso, como lidar com os próprios pensamentos e opiniões indo de encontro aos seus desejos mais profundos e verdadeiros? “Quero andar de mãos dadas” é um romance LGBT sobre um amor adolescente, a importância da família e a necessidade de lidar com coisas muito maiores que a própria vontade para que se possa ser feliz.
Resenha
Iniciei a leitura de Quero andar de mãos dadas sem expectativa alguma. Adquiri o ebook em 2019 e, apesar de conseguir detectar diversos elementos na sinopse que possam ter despertado meu interesse, não sei o quê exatamente me fez comprar o ebook.
“Mesmo sabendo de tudo eu não sabia de nada”
Ao embarcar nas primeiras páginas desta obra, achei que este seria só mais um ebook com alguns lugares comuns neste tipo de história: jovens adolescentes que estão se descobrindo gays e que não podem ficar juntos, famílias homofóbicas e depressão (sempre tem alguém com depressão em histórias assim).
“Eu definitivamente nunca passara por isso, seria possível que meus hormônios estivessem finalmente se erguendo de seus túmulos?”
A verdade, porém, é que encontrei muito mais. Mas antes de me aprofundar na história é preciso dizer que sim, há gatilhos. Há cenas de violência doméstica e de automutilação, além de toda a questão da depressão abordada.
“Respirei fundo, afastando meus pensamentos para bem longe, tentando evitar pensar que eu poderia arruinar tantas vidas se soubessem a verdade sobre minha sexualidade, e me esforçando mais ainda para não lembrar do Johnny”
A história é narrada, alternadamente, pelos dois protagonistas: Johnny e Nicholas.
“Ao abraçar o garoto que eu gostava foi como se eu dissesse ao mundo que queria parar, que não queria mais jogar o jogo em que fora colocado”
Johnny já é assumido para sua família, o que não significa que sua vida seja só flores, mesmo que o bom humor dele seja quase inabalável.
“Mas a verdade é que tudo estava ótimo assim, mesmo com problemas e preocupações extras, talvez esse fosse o verdadeiro significado de viver e eu finalmente estava experimentando a vida. Eu só queria que tudo fosse um pouco menos complicado, queria ouvir verdades por piores que fossem e ter a certeza de que por mais feio que tudo parecesse, tudo estava indo e acontecendo e seguindo em frente”
O jovem mora com a mãe — que está em depressão — e com o padrasto, que claramente é uma pessoa extremamente tóxica e que só faz mal para quem está ao seu redor.
“É bem verdade que ninguém sabe realmente o que se passa na vida dos outros, assim fica fácil querer ser alguém diferente, para se ter apenas momentos de felicidade não exigiria muito esforço”
Por outro lado, Nicholas parece ter a vida perfeita: uma família unida, equilibrada e feliz. Até a segunda página, claro.
“Eu minto para o mundo sobre quem eu sou, mas, antes disso, minto para mim mesmo”
O problema de Nicholas é que ele tem certeza que não pode revelar para sua família quem ele é verdadeiramente. E, aos poucos, fica muito claro como esta é uma família que simplesmente não conversa de verdade.
“Perceberam, eu acho. Mas a gente não fala sobre isso, é melhor deixar para lá e fingir que está tudo bem. Até porque é assim que as coisas melhoram”
Isso é um problema enorme, porque o que Nicholas faz é carregar um peso tremendo, sem ter a certeza de que ele é realmente necessário (bom, ele tem certeza de que é. E tem gente que sabe que não pode arriscar descobrir).
“Posso estar prestes a fazer com que a vida de várias pessoas entre em colapso, mas ter o Johnny comigo faria com que tudo parecesse estar bem”
Algumas pessoas talvez achem exageradas as reações de Nicholas, podem até considerá-lo dramático demais, dizer que não precisava de tanto. Mas quem tem uma mente ansiosa e que sempre imagina os piores cenários provavelmente vai entender os pensamentos do personagem.
“Eu precisava respirar fundo. Desliguei o celular, sem querer falar com ninguém e precisando ficar sozinho. Estava faminto, mas não queria passar pela sala, pois sabia que eles estariam conversando sobre mim e minhas mentiras, minha mãe estaria chorando por saber que sou gay e meu pai estaria pronto para me punir. Eu era uma decepção e um exemplo a não ser seguido”
Os dois se conhecem através de uma pessoa em comum: Lavínia, a melhor amiga de Johnny e prima de Nicholas.
“Eu o olhava sem conhecê-lo de verdade e era como se houvesse algo ali que me incomodava e me atraía, muito além da beleza dele”
O primeiro encontro deles é totalmente despretensioso, mas uma chama se acende ali e suas vidas viram do avesso.
“Levei dezesseis anos para construir minhas proteções e entender como elas funcionavam, para aceitar como eu me sentia bem assim, atrás delas. Mas não foi preciso nem três meses para que tudo fosse completamente destruído”
Em meio à ansiedade da última semana de aula, seus problemas pessoais, seus medos e suas descobertas, os dois vão se aproximando, se apaixonando intensamente e sofrendo na mesma medida.
“Mas eu olho para mim e vejo as coisas virando de ponta cabeça”
Através deste emaranhado de acontecimentos, somos levados a pensar sobre preconceito, saúde mental, medos e, claro, a importância de se conversarde verdade.
“Nada melhor para arrumar algo do que botando tudo para fora”
Se você se interessou por esta narrativa, clique abaixo para saber mais. E aproveite para seguir o autor em suas redes sociais e conhecer seus outros trabalhos: Instagram | Twitter
* Lembrando que qualquer compra feita na Amazon a partir dos links postados neste Blog, irá gerar uma comissão para este espaço, sem custo algum para você, ou seja, todos saem felizes nesta história (:
A verdade é que uma resenha pode nascer de muitas formas e eu não pretendo, neste post, trazer uma receita de bolo, mas apenas compartilhar um pouco de como nascem as minhas resenhas.
Em primeiro lugar, é preciso que exista um objeto a ser resenhado. Neste blog, você encontra sobretudo resenhas literárias, mas por vezes também falo de músicas.
As resenhas literárias pressupõem a leitura de algo, o que leva tempo (que cada vez parece mais e mais escasso).
Ter este blog certamente transformou um pouco da minha experiência de leitura: já vou buscando trechos que possam ilustrar minhas palavras sobre a obra, além de estar sempre pensando “isso entra ou não na resenha?”.
Concluída a leitura, muitas vezes preciso de um tempo para digerir as palavras. E mais outro tempo para colocar as minhas no papel na tela em branco. Coisa que, aliás, muitas vezes acabo fazendo em meus deslocamentos diários (de metrô).
Há, sem dúvidas, algumas informações que são extremamente necessárias: título e autoria. Também pode ser interessante falar do ano de publicação e, no caso de livros, a quantidade de páginas.
Há quem opte por colocar a sinopse da obra (coisa que, com o tempo, comecei a fazer também) e então partir para as próprias impressões.
Nesta parte, é interessante que se apresente o enredo, os personagens, os temas principais e tudo aquilo que você acha importante destacar, mas sem estragar demais a surpresa de quem ainda vai apreciar aquela obra.
Algumas pessoas gostam de, ao final, dar uma nota para a obra resenhada, seja de maneira numérica, seja em forma de estrelas. Ainda não me convenci deste tipo de informação, acho muito subjetiva e seria necessário deixar os critérios bem claros.
É gostoso compartilhar desta forma minhas impressões sobre as leituras que faço. Acredito que, para mim, o tempo de refletir sobre a leitura e elaborar a resenha são essenciais para compreender melhor os livros.
E por aí: você tem o hábito de escrever resenhas? Como elas nascem?
É muito bom quando, mesmo por meio de histórias curtas, um autor consegue escrever tanta coisa interessante que dá vontade de colocar diversos trechos na resenha, coisa que, no final das contas, torna-se inviável.
É por isso que hoje trago este post, com trechos de Som do fim do mundo, do Maicon Moura.
Um ponto que ressaltei na resenha, foi que, em algumas histórias, o autor consegue transmitir muito bem o comportamento e as emoções de um adolescente.
“Eu devia estar com uns dezesseis anos talvez. Aquela idade em que a gente começa a se sentir dono do mundo e a pensar que sabemos de tudo”
(As estrelas do lago)
“É interessante pensar que antes de ser um adolescente a gente não sabe de nada e, por conta de uma mudança no número que conta o tanto de tempo que nós vivemos, passamos a acreditar que sabemos muito mais do que sabíamos antes”
(As estrelas do lago)
Outras histórias possuem um ritmo único, que combinam com sua temática.
“E foi isso mesmo. Outra noite. Outra festa. Lá estava ela: outro vestido, outro penteado e dançando outra música”
(Minha alma entre batidas)
E, assim, o autor vai construindo narrativas diversas, que tratam de temas como o amor.
“Isso não era amor. Nem paixão. Era vício. Talvez abstinência”
(Minha alma entre batidas)
“Um único beijo entre batidas secas seria o suficiente para ela entender que estava livre para levar de mim aquilo que eu nem sabia que existia”
(Minha alma entre batidas)
O medo, principalmente do vazio e da solidão.
“Rosnan, com um aperto no peito, chegou em sua cabana vazio e cheio ao mesmo tempo. Ele sentia como se o mundo vazasse pelos seus dedos”
(Tupavntis: o limite do poder é o estômago)
“No fim, a solidão veio para mim”
(Oi, meu bebê)
“Nunca tive medo do escuro. Mas sempre tive medo de ficar sozinha. Sei que não estou”
(Oi, meu bebê)
E a necessidade de olharmos o quadro todo, não apenas uma pequena parte dele.
“Mas esse não era o problema, e eu não estava olhando para a situação esperando ver o problema”
(Minha alma entre batidas)
Se você se interessou por essa obra, clique abaixo e saiba mais sobre ela.
Título: O jovem Carlos Mattos Autora: Maria Augusta Bastos de Mattos Editora: Migalhas Páginas: 304 Ano: 2023
Sinopse
Como foi a infância e a juventude de Carlos Mattos antes de se tornar o filósofo e professor que viveu por quase meio século na interiorana cidade de Capivari, em SP?
O livro oferece ao leitor a experiência autobiográfica dos primeiros anos de um profundo estudioso: como se forja um intelectual? quais livros lê? com quem aprende? Tudo isso é apresentado ao leitor, tendo como cenário São Paulo na década de 1920 e a Europa no entre guerras.
O livro partiu de textos memorialísticos, trechos de diários infantis e juvenis, cartas à família e colegas, anotações variadas e registros cotidianos de Carlos – cujo lema era Nulla dies sine linea. Temperados com recordações e rearranjos feitos por seus descendentes, recompôs-se neste livro um pouco de sua história pessoal e familiar, escolar e religiosa, desde seu nascimento, em 1910, até o final de sua formação acadêmica formal, em 1940. Junto a uma erudição que vai se consolidando com o passar dos anos, percebe-se intacta sua veia finamente humorística.
O trabalho é de autoria da professora dra. Maria Augusta Bastos de Mattos.
É o primeiro da coleção “Nenhum dia sem uma linha”.
Resenha
“Quando reviraram minha mala, eu disse: ‘é filosofia, vocês não entendem’”
Como seria incrível se todos nós pudéssemos ter a oportunidade de ver a vida de pessoas importantes para nós contada em um livro pensado com todo o cuidado e o carinho necessários.
“A vida de cada indivíduo é um fragmento da história”
O jovem Carlos Mattos não é exatamente um livro para o grande público, mas é uma obra que, para mim, tem um valor sem igual: me permitiu conhecer ainda mais meu vô, que, de toda forma, só conheci por meio das histórias contadas por outras pessoas. Mas calma, este livro é bem mais complexo que isso.
“Os bisnetos e trinetos, com um recuo de mais de 100 anos, é que gostarão de reler (ainda se lerá nesse tempo?) coisas tão antigas, inéditos guardados para eles que viverão num mundo tão diferente”
A começar pelo fato de que este é apenas o primeiro volume de uma trilogia (ainda não completa), e nos conta sobre a infância e a juventude (até os estudos universitários) de Carlos Lopes de Mattos.
Além disso, trata-se de um livro com múltiplas vozes: em alguns trechos, lemos palavras escritas por Carlos em diários e cartas; em outros momentos, tudo é costurado pela narrativa que torna esta obra possível, reunindo também documentos e imagens que enriquecem ainda mais o que está exposto ali.
“A narrativa que segue foi composta tendo como base sua autobiografia (escrita em 1987 a partir de suas lembranças e de suas anotações em dois diários, o de 1925 e o que escreveu entre 1935 e 40). Somaram-se as lembranças e impressões de seus filhos, histórias sempre repetidas na família, transcrições de cartas, informações esparsas e mesmo textos escritos por outras pessoas ligadas a ele”
Por meio deste livro pude perceber como o peculiar humor da minha família realmente tem seus traços herdados (genéticos?) e também pude me surpreender com a cultura e as pessoas com quem meu vô teve contato, ainda que eu já imaginasse um pouco (mas não soubesse nem da metade).
Também pude conhecer, mesmo que através de sua escrita, um lado extremamente humano de meu vô, que mesmo com todos os seus estudos e conhecimentos, jamais se esquecera de onde viera e quem era, ressaltando, mais de uma vez, as suas inseguranças.
“Lembro-me de que, quando saía com meu irmão mais velho e meu pai, sentia-me impedido de falar, de medo de cair no ridículo. Sempre me senti inferiorizado”
Mas esta não é uma obra de interesse apenas familiar. Por meio das passagens deste livro, podemos conhecer uma São Paulo antiga (e foi uma delícia viajar por ruas que hoje são tão movimentadas e que, naquela época, ainda eram, literalmente, “tudo mato”) e vivenciar um pouco da História, não apenas brasileira, mas também internacional (nas páginas finais deste volume, Carlos está vivendo numa Europa novamente em guerra: a II Guerra Mundial).
“Nasci em São Paulo, à rua Martinho Prado, 25, defronte do que hoje é a Praça Roosevelt, a 26 de setembro de 1910”
Se este livro despertou o seu interesse, você pode encontrá-lo neste link.