A bibliotecária de Auschwitz — Antonio G. Iturbe

Título: A bibliotecária de Auschwitz
Original: La bibliotecaria de Auschwitz
Autor: Antonio G. Iturbe
Editora: Harper Collins Brasil
Páginas: 402
Ano: 2016
Tradutor: Dênia Sad

Ao mesmo tempo que queria muito falar sobre esse livro, adiei por diversas vezes esta resenha. E olha que ler livros sobre o período do holocausto é algo que tenho o hábito de fazer, motivada por um fascínio que talvez só se explique pelo fato de que quanto mais leio, menos acredito que uma coisa dessas pode ter acontecido de verdade.

“Em Auschwitz, a vida humana vale menos que nada”

Claro que a primeira coisa que me chamou a atenção foi o título desta obra. E, num primeiro momento, não pelo estranhamento que ele deveria causar, e sim porque qualquer coisa relacionada a livros chamaria a minha atenção. Mas livros em Auschwitz?

“Os livros em Auschwitz oficialmente não existem”

Sim, livros em Auschwitz. É difícil explicar como eles chegaram até ali e como ali permaneceram, mas também é difícil não se envolver nessa narrativa que mistura ficção e realidade e que cita ou faz paralelos — de maneira direta ou indireta — com tantas outras obras literárias, inclusive a minha mais longa leitura de 2020: As mil e uma noites.

“No entanto, houve sim um dia em que a infância se fechou como a gruta de Ali Babá e ficou sepultada na areia”

Narrado em terceira pessoa, A bibliotecária de Auschwitz nos dá um excelente panorama dos horrores que aconteciam em um campo de concentração, ao mesmo tempo que consegue focar em alguns personagens chave que dão vida e nos prendem à essa narrativa tão densa.

“Pediram que ele fizesse algo que estava além de suas forças. Além das forças de qualquer um”

A primeira personagem que não posso deixar de mencionar, por ser a protagonista desta história — ainda que protagonismo seja uma palavra difícil de usar neste contexto — é Edita (ou Dita) Adlerova, a bibliotecária.

“Mais do que um bibliotecária, desde esse dia ela se tornou uma enfermeira de livros”

A bem da verdade, Dita era apenas uma jovem que perdeu sua adolescência para o nazismo. Mas ela ainda teve “sorte” de poder trabalhar no bloco 31, que funcionava como uma escola. Claro que, aos olhos dos guardas, nada demais se ensinava, mas aquele era um refúgio e também um bloco de resistência. Até de sonhos, se é que se pode dizer isso.

“Não importa quantos colégios os nazistas fechem, respondia. Cada vez que alguém se detiver num canto para contar algo e algumas crianças se sentarem ao redor para escutar, ali terá sido fundada uma escola”

E, quando falamos no bloco 31, não podemos deixar de mencionar Fredy Hirsch, outro personagem de extrema importância para esta narrativa. Ele era o diretor do bloco e uma pessoa que inspirava a todos, um símbolo de luta e resistência. Mas, por trás daquela máscara que vestia, parecia esconder muita coisa.

“Em Auschwitz, quase nada é o que parece”

A partir de Dita e Fredy, a narrativa vai se construindo, nos apresentando outros personagens que também ganham o seu destaque na história, como a própria família de Dita. É interessante perceber como em Auschwitz todos estão sozinhos e, ao mesmo tempo, sem cada pessoa que aparece na narrativa, ela não seria a mesma.

“Dita Adlerova se movimenta sozinha em meio a centenas de pessoas, mas corre sozinha. Sempre corremos sozinhos”

Ainda que fale muito sobre o campo de concentração, A bibliotecária de Auschwitz não se resume a esse espaço. Conhecemos um pouco da vida de Dita antes dela ir para lá, quando ainda vivia plenamente em Praga e, depois, quando passou a viver na murada cidade de Terezín, que já era um preparo — sem nada preparar — para o que viria a seguir.

“Terezín era uma cidade onde as ruas não levavam a parte alguma”

Mas não são apenas os espaços que variam nesta narrativa: há temas muito importantes e interessantes abordados ao longo destas páginas. São passagens sobre homofobia, sobre o peso da vida e sobre a importância da educação que contribuem para tornar esta narrativa ainda mais rica e impactante.

“Ao longo da história, todos os ditadores, tiranos e repressores, fossem arianos, negros, orientais, árabes, eslavos ou de qualquer outro tom de pele, defenderam a revolução popular, os privilégios das classes nobres, os mandamentos de Deus ou a disciplina sumária dos militares. Qualquer que fosse sua ideologia, todos tiveram algo em comum: sempre perseguiram os livros com verdadeira sanha. São muito perigosos, fazem pensar”

Outra coisa que chamou muito a minha atenção durante a leitura foi que, no bloco 31, além de alguns raros exemplares em papel, eles contavam com “livros vivos“, isto é, professores que sabiam alguma história de cabeça e as contavam aos alunos. Isso, sem dúvidas, me fez lembrar das bibliotecas vivas e é muito estranho (ou doloroso?) pensar como, no fundo, ambas podem ter nascido de uma mesma raiz: o preconceito.

“Naquele lugar tão escuro em que a humanidade chegou a alcançar a própria sombra, a presença dos livros era um vestígio de tempos menos lúgubres, mais benignos, quando as palavras ressoavam mais do que as metralhadoras”

E, por falar em livros, já mencionei como esta história nos faz lembrar de tantas outras, como não poderia deixar de ser, uma vez que diversas passagens exaltam o poder que a literatura tem. Mas há uma passagem em específico que me lembrou muito É isto um homem?, outro livro sobre o holocausto que já li e que considero extremamente marcante:

“A primeira lição que qualquer veterano dá a um recém-chegado é a de que sempre se deve ter claro seu objetivo: sobreviver. Sobreviver mais umas horas e assim acumular mais um dia, que somado a outros poderá se transformar em mais uma semana. E assim sucessivamente: nunca fazer grandes planos, nunca ter grandes objetivos, apenas sobreviver a cada momento. Viver é um verbo que se conjuga no presente”

Se a história de A bibliotecária de Aushwitz nos deixa com algumas dúvidas, ao final, o autor faz alguns esclarecimentos muito interessantes e que eu recomendo fortemente que você não pule. Inclusive, uma das mensagens deste trecho é:

“Com pão para comer e água para beber, o homem sobrevive, mas só com isso a humanidade inteira morre”

Por fim, eu gostaria de comentar que a experiência de ter lido este livro pode ter sido ainda mais intensa pelo fato de estarmos em isolamento social. Por diversas vezes me vi pensando: as pessoas têm reclamado de estar em casa, de não poder sair, mas veja bem, estamos no conforto de nossas casas, com comida, água, podendo ter a melhor das higienes e com acesso a internet. Tudo isso é muito mais do que qualquer paraíso sonhado por um prisioneiro de Auschwitz.

“Os ingleses pensavam que libertariam um campo de prisioneiros, mas o que encontraram foi um cemitério”

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Enlace — Ana Farias Ferrari & Érulos Ferrari Filho

Título: Enlace
Autores: Ana Farias Ferrari & Érulos Ferrari Filho
Editora: Publicação independente
Páginas: 45 
Ano: 2020

Se você acompanha este blog, provavelmente viu a resenha de Não quero patos elétricos, que foi uma leitura bem diferente do que estou acostumada a fazer. E, logo depois deste livro, resolvi ler Enlace, que também era algo que eu já imaginava ser totalmente fora da minha zona de conforto.

Apesar de muito mais curta — afinal, trata-se de um conto — a leitura de Enlace já foi mais difícil para mim, por realmente adentrar na ficção científica e abordar a questão das inteligências artificiais (que, para muitos — eu inclusive — ainda é um universo praticamente desconhecido). Uma narrativa breve, mas com uma profundidade sem igual, que fui apreciando aos poucos.

Aliás, este conto vai além disso, pois nos apresenta, dentre os personagens, à inteligência artificial mais evoluída já criada pela humanidade. Uma IA capaz de raciocinar e até de ser empática! E Enlace é o título desta história, mas também o nome da tal inteligência artificial retratada. Ela é enviada ao espaço com dois seres humanos que compartilham um passado. E um passado recheado de… Sentimentos!

“Eu sou quem sou porque vivi essa experiência, sem ela eu não sei quem eu seria”

Pelo pouco que sei sobre inteligências artificiais, vejo-as com máquinas com uma enorme capacidade de raciocínio. Mas raciocínio lógico, daqueles que segue uma regra e que pode acabar por errar diante de qualquer coisa que fuja à essa regra. Enlace (a inteligência artificial) surpreende, nesta história, por isso: ela dialoga com os seres humanos que a controlam, dando respostas ou reagindo de uma maneira que não seria esperada para uma inteligência artificial.

“Existir vale a pena, mesmo com risco de dor, mesmo com risco de sofrimento”

Aos poucos, porém, vamos compreendendo (assim como os humanos da narrativa) porque isso acontece. E, então, somos encaminhados a um desfecho que, uma vez mais, nos deixa estarrecidos (daqueles que você sente sua cabeça explodindo e uma voz ao fundo dizendo “uau!”).

Por fim, é preciso mencionar ainda uma particularidade da obra: ela foi escrita a quatro mãos, por pai e filha! Ao longo da leitura, porém, senti a narrativa bem uniforme, sem conseguir distinguir o que foi escrito por cada um. A história é em terceira pessoa e consegue nos apresentar muito bem todas as nuances que a história precisava ter.

Mais do que desvendar todos os mistérios desta narrativa, a leitura de Enlace também vale a pena porque todo o valor arrecadado com a venda do ebook será doado ao Grupo Noel, que trabalha com famílias em situação de vulnerabilidade social.

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Calafrio — Tayana Alvez

Título: Calafrio
Autora: Tayana Alvez
Editora: Publicação independente
Páginas: 116
Ano: 2020

Antes de nos deixar embarcar em Calafrio, Tayana avisa que esta não é uma história qualquer, nem mesmo para ela, que está se arriscando em um novo gênero. Também fica o aviso de que a narrativa pode conter gatilhos, mas que, para quem tiver estômago, que siga em frente na leitura e deixe para tirar as conclusões ao final.

O recado estava dado e, mesmo assim, fui enormemente surpreendida com a leitura.

Para começo de conversa, a história toma rumos inesperados a cada instante e vai jogando com reviravoltas que estavam quase me fazendo torcer pelo final errado, mas sobre isso eu explico mais pra frente. A narrativa alterna entre presente e passado e cada peça desse quebra-cabeça vai se encaixando aos poucos, mas, de novo, sem necessariamente nos preparar para o final. Com o passado, vamos conhecendo a história de Imaní e Maia, quem são (ou eram) eles, o que fazem, de onde vêm e, com o presente, vemos o desenrolar deles, juntos.

“Às vezes, na vida, coisas estranhas acontecem. Coisas ruins acontecem”

Imaní é uma jovem que sonha com sua liberdade. Ironicamente, porém, ela é sequestrada. Pior: por alguém em quem estava começando a confiar e que parecia ser quase uma promessa de dias melhores.

“A verdade é o que você acredita que ela é”

Segundo o pouco que vai contando de si, porém, Maia — que começa como um bom amigo e acaba como sequestrador de Imaní — também se sente preso. Não como ela, claro, mas no sentido de não ter escolhas na vida. E aqui temos um ponto: Maia é humano demais, real demais.

Ele quase me convenceu de que poderia passar de vilão a herói e que estaria tudo bem se isso acontecesse. Quase me fez torcer por um final feliz. Não que o final não seja, de alguma forma, feliz, mas ele vem com um belo tapa na cara dado pela autora.

Obrigada, Tayana, por não me deixar embarcar nas conversas de Maia e mostrar que Imaní era ainda melhor do que se apresentara no início da história.

E, aliás, devo discordar que Calafrio não tenha nada a ver com o que já foi publicado por Tayana: Imaní tem a força que as outras protagonistas da autora têm e também a capacidade de nos fazer enxergar para muito além de nossa visão de mundo.

Por fim, Calafrio não é somente o título do livro, mas também a sensação que nos percorre ao realizar essa leitura, bem como é o que Imaní sente muitas vezes, ainda que, no início, não compreenda muito o porquê.

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Um namorado para minha mãe — Rafa Alves

Título: Um namorado para minha mãe
Autora: Rafa Alves
Editora: Publicação Independente
Páginas: 85
Ano: 2020

Este conto começa com um clichê clássico: uma mulher que descobre que está sendo traída e volta aos prantos para casa. Mas a mulher em questão tem algo diferente de tantos clichês: uma filha.

Esta variável acrescenta algumas questões interessantes à narrativa, como o fato de Bianca — a protagonista — demonstrar uma preocupação e um apego enormes à menina, uma vez que fora abandonada grávida (sim, isso mesmo, ela foi abandonada grávida, depois entrou em outro relacionamento e se descobriu traída).

Só com isso, já levantamos três pontos importantes: o abandono que muitas mulheres sofrem ao se descobrirem grávidas e as consequências psicológicas que isto traz não apenas para a mãe, mas também para o filho. Além, claro, do medo de se viver a própria vida e de se permitir sentir e amar novamente. Cada passo que Bianca dá, ela pensa no que isso influenciaria Vivi, sua filha. Nas consequências que isso poderia trazer para a pequena.

Mas Vivi é uma menina doce, carinhosa e que quer, a todo custo, juntar sua mãe com o “tio preferido” que é ninguém menos que o melhor amigo de Bianca. Amigo, este, que esteve ao lado dela em todos os momento, inclusive da gravidez e que, querendo ou não, sempre foi quase um pai para Vivi.

Claro que o fato de uma criança arquitetar planos para juntar a mãe com alguém já diz muita coisa sobre o que ela vive e como ela se tornou uma mini adulta. Mas confesso que, enquanto lia Um namorado para minha mãe não pensava muito em todos esses aspectos.

Com uma narrativa doce e envolvente, a história simplesmente vai fluindo diante de nós e é difícil não se apaixonar pelas mulheres da narrativa e não torcer por um final feliz, principalmente depois de todo esse passado conturbado de Bianca.

Além disso, este conto é uma boa e rápida forma de conhecer a escrita da autora Rafa Alves, visto que ele não está relacionado à série Escolhas, que também é super gostosa de ler.

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24h adolescente e às vezes apaixonada — Cláudia Zambrana

Título: 24h adolescente e às vezes apaixonada
Autora: Cláudia Zambrana
Editora: Chiado
Páginas: 322
Ano: 2021

A resenha de hoje tem sabor especial porque eu tive a honra e o prazer de revisar este livro que, agora, encontra-se em pré-venda (ao final do post colocarei os links de onde é possível encontrá-lo).

24h adolescente e às vezes apaixonada tem uma narrativa envolvente — na qual acompanhamos muitos momentos de Bia — e também misteriosa, porque é difícil prever qual será o desfecho da obra.

“A verdade é que me sinto diferente de qualquer pessoa que existe na face da Terra”

Esta não é uma história que nos faz torcer por um “felizes para sempre”, porque Bia ainda é muito jovem e mais que isso: ela é muito real. Uma adolescente que pode facilmente retratar alguma conhecida nossa, mesmo com todas as confusões nas quais ela entra.

“— Não podemos amar aquilo que não conhecemos, minha filha. Conheça e depois fale se ama”

A narrativa é em primeira pessoa — o que talvez contribua para tornar Bia tão palpável — e a história é intercalada por algumas páginas do diário da jovem. Além disso, toda a narrativa é construída de forma bem visual, mas sem descrições em demasia. Ao contrário, aliás, a história é muito dinâmica, cheia de vida.

Na verdade, acredito que não poderia ser diferente, uma vez que se trata da história de uma adolescente e geralmente eles são assim: cheios de vida e de sonhos. Bia é uma personagem que passa por uma grande evolução ao longo da narrativa, indo de uma menina quieta, meio nerd, tímida, para uma garota que vive algumas situações que não desejamos a ninguém, mas que também desfruta intensamente essa fase tão única e tão recheada de descobertas.

“É assim na vida, muitas vezes vamos apenas entulhando todas as situações que nos acontecem e não tomamos nenhuma decisão, ou outras vezes, mesmo não gostando da situação, não nos permitimos começar algo novo, assim como mantemos velhos hábitos só para nos dar uma certa segurança”

Além de Bia, 24h adolescente tem outros personagens muito marcantes: sua família, principalmente sua mãe, que é bem próxima da protagonista e traz o equilíbrio das palavras certas nos momentos certos; os amigos de Bia — a Tetê, a Jô, a Lara e o Dani — e, claro, os garotos que são a causa de toda a confusão sentimental que Bia vive: o Rafa (que também é seu amigo de infância), o Igor (um gatinho que ela conhece no clube e, mais tarde, descobre ser o primo da sua melhor amiga) e o Diego (que ela conhece em uma festa, em outra cidade, mas que o destino teima em aproximar a cada dia).

“Será que é possível gostar de duas pessoas ao mesmo tempo?”

Todo o livro se passa em cerca de um semestre. Começa no final das férias de verão — quando, além de tudo, Bia tem a chance de viajar com seus amigos para a casa de praia da família de Lara — e termina praticamente nas férias seguintes (praticamente porque, na verdade, Bia antecipa um pouco o início de suas férias e só lendo para descobrir o porquê).

Um aspecto interessante (e positivo) da obra é a forma como ela trata certos aspectos tão importantes para os jovens, mas que ainda precisam de tanto debate. Cláudia conseguiu inserir na narrativa passagens sobre feminismo, sexo, sexualidade, bullying, autoconhecimento, empatia… Enfim, muitos temas realmente importantes. E a inserção desses momentos é muito coerente com a história narrada.

“Acho que isso acaba acontecendo com o tempo, por mais que as pessoas falem que os amigos são para sempre, a vida acaba separando em algum momento”

24h adolescente e às vezes apaixonada tem tudo para fazer sucesso entre adolescentes, mas também entre pais de adolescentes que já esqueceram de tudo o que essa fase carrega e estão precisando daquela ajudinha para entender seus filhos.

E você pode encontrar o livro (em pré-venda) nas seguintes livrarias:

Livraria travessa | Livraria Martins Fontes | Amazon | Fnac Portugal | Bertrand Livreiros

Enseada negra — Brias Ribeiro

Título: Enseada Negra
Autora: Brias Ribeiro
Editora: Publicação independente
Páginas: 85
Ano: 2020

Na reta final deste ano, fui surpreendida com uma leitura muito interessante: Enseada Negra. Uma história narrada em terceira pessoa e, diferente de muitos livros de autores nacionais que já li, que se passa fora do Brasil, começando na Áustria e passando também pela Alemanha (que na verdade é o país natal da protagonista) e França.

Contudo, o fator mais surpreendente não é o cenário, mas a própria história. Logo no primeiro capítulo somos apresentados à rígida educação de Liesel, a protagonista. E, ao mesmo tempo, vamos percebendo o quanto ela é solitária e reprimida, a ponto de reprimir-se totalmente, em um nível realmente assustador.

“É difícil não acreditar que merece toda a dor física e psicológica que o mundo tem a oferecer”

Por outro lado, logo conhecemos, Grete, alguém que também está naquele contexto repressor, mas que tem uma base familiar muito diferente da de Liesel e que, portanto, ao invés de reprimir-se, contesta e luta, principalmente por aquilo que acredita e por aquilo que é.

No início, Grete é uma pessoa totalmente distante de Liesel, mas logo sentimos que isso pode mudar com os rumos da história. O fato é: nós não poderíamos imaginar o quanto mudaria. Tudo bem, sabendo que se trata de um romance LGBT, podemos desconfiar de algumas coisas, mas tudo acontece de forma muito mais surpreendente que o esperado.

“Por que está sempre preocupando a única pessoa que tem algum apreço por ela? Por que não consegue fazer nada direito?”

Algo que, na minha opinião, contribuiu muito para a atmosfera da história, é a presença de arte nela. Explico: em primeiro lugar, Liesel encontra no desenho uma forma de se expressar. E através de suas obras conseguimos mergulhar — mesmo com a narrativa em terceira pessoa — em seus sentimentos. Além disso, a música é um dos fios condutores da história.

Liesel é totalmente reprimida e fechada, mas é apaixonada por um gênero musical que seus pais certamente abominariam e, mais ainda, um gênero musical que lhe permite extravasar e, também, sair um pouco das regras impostas a ela. E, claro, esse gênero musical é o que a une ainda mais a Grete.

Não sei se pelo fato de Liesel desenhar ou se apenas por mero estilo de escrita, a história é recheada de descrições. Nada, porém, que nos faça morrer de sono. Ao contrário, são descrições que tornam ainda mais reais as cenas apresentadas.

Uma história densa, profunda e diferente. E uma leitura rápida! Vale a pena conhecer Enseada Negra.

E se você tiver ficado com vontade de ler esta história, clique aqui.

Não quero patos elétricos — Maicon Moura

Título: Não quero patos elétricos
Autor: Maicon Moura
Editora: Lettre
Páginas: 227
Ano: 2020

É comum termos medo de sair da nossa zona de conforto, inclusive (ou principalmente?) quando se trata de gosto literário. Não quero patos elétricos é uma obra que tinha tudo para me manter longe, principalmente pelo gênero, mas é difícil não sentir certa curiosidade com esse título, principalmente em combinação com a capa. Ainda assim, o medo estava ali comigo quando peguei este livro para ler.

“— Ele é um humano, seu corpo foi feito pra responder apenas com medo a tudo que ele não entender”

A verdade, porém, é que fui fisgada logo de início. Talvez tenha contribuído imensamente para isso o fato de que, logo de cara, compreendemos tanto o título quanto a capa. Aliás, a cada virar de página vemos que nada foi colocado no livro em vão. Mas também não posso deixar de mencionar o carisma dos personagens desta história.

“A ideia singela de vida foi questionada, ironicamente, por toda a vida”

O humano Adam Igan e seu amigo robô, Craig, vivem viajando pelo espaço em uma nave chamada Gandan, cujo sistema operacional — de nome Moe — age quase como uma mãe para eles. Juntos, eles vivem altas aventuras — autodenominando-se cowboys espaciais — e nós, ao longo da leitura de Não quero patos elétricos passamos a conhecer apenas uma mínima parte delas, compreendo, no entanto, um pouco do passado e do presente deles.

“Após ser ativado dentro de uma pequena fábrica, em algum lugar que você ainda não conhece, espera que sua vida seja simples. Por que te deram a noção de vida?”

Confesso que não sei o que eu deveria esperar de um livro que tem uma pegada mais para a ficção científica, mas dei boas risadas com Não quero patos elétricos. Achei a leitura super leve, mas, ao mesmo tempo, instigante, porque esse é o tipo de história em que nada é o que parece ser e, a cada momento, todo o rumo da narrativa muda, mas sem ficar confuso ou sem nexo.

Ao mesmo tempo em que me diverti ao longo das páginas deste livro, porém, também encontrei algumas críticas sutis, mas muito bem colocadas. Críticas que cabem muito bem em histórias como essa, que se passam em um futuro que, na realidade, apenas podemos imaginar.

“Mas para um grupinho de 10 bilhões de pessoas, a raça humana — que se dividia em partes por conta de papel com valor, ou por conta da cor, ou por causa de uma coisa que eles chamavam de gênero —, mudanças climáticas não faziam sentido nenhum e aquecimento global era algo inventado para arrecadar dinheiro. Era o que eles diziam”

A questão do tempo, na história, é outra coisa a se levar em consideração. Apesar do tanto de ação e aventura com a qual nos deparamos, me parece que a história se passa em um curto intervalo de tempo. E este é um tema que inclusive gera um plot na narrativa.

“Em uma semana me amarraram mais que em toda minha vida”

E por falar em plot… Como eu disse antes, a leitura deste livro é instigante e uma das coisas que contribui para isso é o fato de que sempre há algo novo que queremos descobrir através, principalmente, do olhar de Adam. São vários plots muito bem pensados e encaixados.

Não quero patos elétricos é muito mais que uma busca por patos de verdade, é uma história que irá te fazer se desligar do mundo real, ao mesmo tempo que vai te propiciar alguma reflexões interessantes. Então, se você busca algo leve, diferente e surpreendente, recomendo que leia este livro.

Onde encontrá-lo? Aqui (físico) ou aqui (ebook).

Alameda do Carvalho — Ninna Vicari

Título: Alameda do carvalho
Autora: Ninna Vicari
Editora: Publicação independente
Páginas: 388
Ano: 2020

Você já ficou encarando a capa de um livro, tentando entender os elementos que a compõem e o título que grita nela?

A Ninna entrou em contato comigo, perguntando se eu queria ler Alameda do carvalho. Claro que ela usou as palavras mágicas “é um romance” (bom, na verdade ela explicou que “é uma história de amor entre dois personagens adultos”). Aceitei na hora, ainda que pensasse que havia algo de futurista nessa história que talvez não fosse me encantar tanto assim.

“Era tarde demais para voltar atrás. Não havia outra direção a seguirem, a não ser adiante”

Só depois de muito avançar na leitura é que comecei a entender alguns detalhes (da capa, no caso, a história está bem escrita, não tive dificuldades para acompanhar) e entender que eu não precisava me preocupar, tratava-se do exato tipo de narrativa que eu tanto adoro.

“As pessoas sempre se sentem culpadas depois de uma tragédia, mas nunca se sentem responsáveis durante os eventos que precedem a tragédia”‘

O livro é dividido em três partes, todas elas narradas em terceira pessoa. A terceira parte é a mais curta, mas não a menos intensa.

“Será que ele choraria? Ou guardaria suas lágrimas em segredo?”

A história começa com Tom e sua filha, Lily. Logo percebemos que ele está se reerguendo e que tem de cuidar da pequena sozinho, uma vez que sua esposa morrera. Uma morte, porém, que o persegue por muito tempo e que somente aos poucos vamos entendendo o que há por trás deste episódio.

Decidido a tentar retomar as rédeas de sua vida, Tom se muda para Londres e, portanto, acaba tendo de contratar uma babá para cuidar de Lily. E é assim que ele conhece Mia.

“Mia tinha tendência a abraçar problemas que não eram seus e sentia a necessidade de resolvê-los”

Mia é estudante de direito e trabalha como babá para poder se sustentar. Apesar de ter sempre um sorriso gentil a oferecer, ela também tem um passado complicado, que certamente moldou seu caráter compreensível e empático.

“Ouvir a história de Mia fez Thomas colocar sua própria vida em perspectiva”

Como a primeira parte do livro é dedica a Tom, ainda que Mia tenha um papel essencial e uma presença marcante, ficamos propensos a querer saber tudo sobre esse homem misterioso e fechado.

A segunda parte, porém, é dedicada a Mia, e só então percebemos como há tanto a ser descoberto sobre ela também. Uma mulher inspiradora, sem dúvidas.

É claro que a combinação Tom e Mia não poderia ser mais explosiva que a apresentada em Alameda do Carvalho. Fica evidente, ao longos das páginas desta obra, que jamais poderemos controlar nosso coração, escolher por quem iremos nos apaixonar.

“Não bastasse ter que superar as adversidades que a vida lhe jogara, também teria que lidar com preconceitos que nunca havia experienciado antes”

Sim, eu chorei em alguns trechos. Também fiquei com o coração na mão em outros. E tive medo de ser surpreendida por um final totalmente inesperado. Mas tive a sorte de terminar a leitura com o coração quentinho.

“Ela estava ali naquele momento, mas ele temia que não estaria ali para sempre”

Como eu disse antes, a terceira parte do livro é a mais curta, mas também a mais reveladora. Dedicada a Lily, é o momento em que cada peça desse quebra-cabeça finalmente se encaixa. Não há ponto sem nó na história.

“Lily não entendia, ainda era inocente demais para compreender as nuances que relacionamentos humanos possuíam”

Com uma narrativa envolvente, indico Alameda do carvalho para quem busca um romance mais maduro (sem ser maçante), recheado de temas como amizade, superação, alcoolismo, preconceitos… Uma história que aborda tudo isso e muito mais de maneira natural e responsável.

Se você se interessou por Alameda do carvalho, clique aqui. E não esquece de seguir a Ninna nas redes sociais: Twitter / Instagram

Princesa de Natal — Ingrid Sousa

Título: Princesa de Natal
Autora: Ingrid Sousa
Editora: Lettre
Páginas: 156
Ano: 2020

Agora que definitivamente chegamos a dezembro, muitas pessoas começam a procurar ou indicar filmes e livros com temáticas natalinas. Eu confesso que nunca fui muito de fazer leituras temáticas e, menos ainda, indicá-las (por falta de conhecimento mesmo). Mas tive a oportunidade de ler Princesa de Natal e acredito que não posso deixar essa obra passar em branco.

“E nada melhor que uma boa leitura para tirar nossos pés do chão”

Se não fosse a capa e o título, isto é, se tivessem me entregado este livro sem uma informação sequer sobre ele, eu teria me surpreendido demais com os rumos que a história toma.

“Antes de te conhecer, minha vida estava uma turbulência e você trouxe a paz e a alegria que eu tanto quis e nunca tive”

Isto porque, nas primeiras páginas, somos apresentadas a Heloise, uma escritora que, após seu primeiro grande sucesso literário, encontra-se em um tremendo bloqueio criativo. E sua amiga — Sarah —, com quem ela divide o apartamento, sugere que Heloise deve fazer uma viagem. Mais que isso, a tal amiga inclusive indica o destino para Heloise: Krajina Kvetov. Um país de nome difícil e cujo sistema governamental é uma monarquia.

Quando digo que eu me surpreenderia com os rumos da história, quero dizer que eu não esperaria se tratar de uma história que fala sobre natal e romance, uma vez que, ao que tudo indica nas primeiras páginas, estamos “apenas” falando de uma escritora em busca de inspiração.

E, em um primeiro momento, Heloise não vê muito sentido na sugestão de Sarah. Mas ela resolve pesquisar um pouco sobre tal país e fica hipnotizada com as informações que encontra.

O empurrão final para que tal viagem se concretize, porém, é a ligação de seu ex-noivo, querendo reatar um relacionamento que não tinha mais possibilidade de voltar a existir.

“É insano pensar que ainda existe esse tipo de pensamento machista e preconceituoso e que as pessoas convivem tranquilamente com isso”

E assim, através da narrativa em primeira pessoa, desembarcamos em Krajina Kvetov, na época de natal, e passamos a conhecer esta pequena monarquia sob o olhar de Heloise. Um país extremamente pacífico, mas que esconde grandes problemas em sua família real.

“— Querida, nós não precisamos abrir feridas para descobrir que elas estão infeccionadas”

Princesa de Natal é uma história com o clima que essa época do ano pede: leve e mágico, mas com imprevistos na medida certa. E mais: uma história que traz reflexões necessárias para o momento, como a questão do amor e da empatia, tão mais em alta perto das épocas de final de ano, tão esquecidos nos outros 300 e tantos dias.

“Só queria dar amor e alegria a quem tem tão pouco e, mesmo assim, encontra motivos para sorrir e ser feliz”

Com Heloise, conhecemos os costumes e as celebrações de Krajina Kvetov, principalmente às relativas ao natal, mas também descobrimos o passado e o presente de alguns personagens, além de entender um pouco como funciona esse país tão diferente.

Indico a leitura para quem quer se desligar um pouco dos problemas do mundo e conectar-se a uma história capaz de despertar doces sentimentos.

E se você se interessou, clique aqui para conhecer esta obra em formato físico e aqui para adquirir o ebook.

Brilhante — Renato Ritto

Título: Brilhante
Autor: Renato Ritto
Editora: Publicação independente
Páginas: 44
Ano: 2020

Você já enviou um email que não deveria ter enviado e entrou em desespero, sem saber o que fazer? Para a nossa sorte, hoje em dia é possível desfazer o envio, se formos velozes em notar o erro.

Mas por que estou falando sobre emails em uma resenha? Porque Brilhante é um conto totalmente escrito neste formato, isto é, cada detalhe ao qual temos acesso, nesta história, nos chega através de emails trocados entre os personagens.

Tudo começa, conforme nos indica o cabeçalho do primeiro email, numa segunda-feira, dia 6 de abril de 2020. Trata-se de uma mensagem de Frank Lima para Alex Gomes, dois funcionários da Agência Brilho.

Para ser mais exata, Frank é gerente de projetos da agência e está dando um leve puxão de orelha — entremeado por muitos elogios — em Alex, o estagiário. O email é escrito de forma muito interessante, pois não parece exatamente uma bronca. E isso é um ponto, de certa maneira, discutido mais adiante no conto.

Se fosse só essa primeira “bronca”, tudo bem. O problema é que o tal gerente decide mandar um email coletivo e Alex resolve escrever uma resposta bem sincera… Que não deveria ser enviada! O que era para ser apenas um desabafo, vira uma grande confusão.

Ao perceber a burrada, Alex envia outro email, desesperado, mas para sua colega, Thais Rosa, também estagiária da agência. E daí para frente, são muitas reviravoltas! A gente fica com o coração na mão, querendo saber como Alex irá se safar dessa situação.

Ao mesmo tempo que Brilhante é uma leitura extremamente leve e divertida — sim, daquelas que você dá risadas enquanto lê — tem um certo quê de crítica, seja à desvalorização que estagiários e artistas sofrem, seja à forma como as coisas podem ser conduzidas em agências (este é um tipo de ambiente totalmente desconhecido para mim e foi muito interessante vê-lo retratado em uma história como esta).

No momento que cheguei à última página, soltei um sonoro “quê???”. Um excelente final aberto, que nos deixa ansiando por muito mais. Dá vontade de ler de novo, para absorver cada detalhezinho desta história.

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