Título: A cor púrpura
Original: The color purple
Autora: Alice Walker
Editora: José Olympio
Páginas: 355
Ano: 2021 (25º edição)
Tradução: Betúlia Machado, Maria José Silveira e Peg Bodelson

Sinopse
Alguns dos personagens mais marcantes da literatura norte-americana recente estão neste livro – ganhador do Pulitzer e do American Book Award –, que inspirou a obra-prima cinematográfica homônima dirigida por Steven Spielberg e o aclamado musical da Broadway, adaptado para o cinema.
A cor púrpura , ambientado no Sul dos Estados Unidos, entre os anos 1900 e 1940, conta a história de Celie, mulher negra, pobre e semianalfabeta. Brutalizada desde a infância, a jovem foi estuprada pelo padrasto e forçada a se casar com Albert, um viúvo violento, pai de quatro filhos, que enxergava a esposa como uma serviçal e fazia dos sofrimentos físicos e morais sua rotina.
Durante trinta anos, Celie escreve cartas para Deus e para a irmã Nettie, missionária na África. Os textos têm uma linguagem peculiar, que assume cadência e ritmo próprios à medida que Celie cresce e passa a reunir experiências, amores e amigos. Entre eles está a inesquecível Shug Avery, cantora de jazz e amante de Albert.
Apesar da dramaticidade do enredo, A cor púrpura é uma história sobre mudanças, redenção e amor. A partir da vida de Celie, a aclamada escritora Alice Walker tece críticas ao poder dado aos homens em uma sociedade que ainda hoje luta por igualdade entre gêneros, raças e classes sociais. Eleito pela BBC um dos 100 romances que definem o mundo, A cor púrpura é um retrato da vivência da mulher negra na época da segregação racial, cujos reflexos ainda estão presentes na nossa sociedade.
Resenha
Em janeiro de 2020, uma amiga me convidou para assistir ao musical A cor púrpura (inclusive, escrevi sobre isto aqui). Até então eu não sabia nada sobre esta história — e esta obra literária — mas lembro que saí totalmente encantada do teatro, querendo mais e mais.
“Mamãe Netti, ele falou, sentado na cama ao meu lado, como você sabe quando realmente ama uma pessoa?”
Depois de muito tempo, finalmente o livro chegou até mim, e por muito tempo mais eu tive medo de encará-lo. Mesmo sabendo que a história era ótima, se tratava de um clássico, então tinha medo de como poderia ser a sua linguagem, o que, por si só, já demonstra o quão pouco eu havia absorvido naquele espetáculo.
“Já é duro o bastante tentar levar a vida sem ser maluco”
Sim, porque a linguagem deste livro é um dos primeiros pontos que temos a destacar sobre ele: ela é simples. Não necessariamente fácil, mas simples.
“Se ele alguma vez escutasse uma pobre mulher negra o mundo seria um lugar bem diferente, eu posso garantir”
Isto porque o livro é epistolar e quem escreve a maioria das cartas é Celie, uma mulher negra e semianalfabeta. E este é outro ponto de destaque neste livro: seus personagens, em toda sua simplicidade, são extremamente ricos.
“Ela brigou, ela fugiu. Que que isso trouxe de bom? Eu num brigo, eu fico onde me mandam. Mas eu tô viva”
A história se passa nos Estados Unidos, numa época em que a segregação racial ainda era muito marcada e poder acompanhar o dia a dia de personagens negros neste contexto nos leva a muitas reflexões.
“É um milagre como os branco conseguem afligir tanto a gente, Sofia falou”
Por meio das cartas de Celie, ora endereçadas a Deus, ora endereçadas a Nettie, sua irmã mais nova que parece ter tido um pouco mais de sorte na vida, vamos mergulhando nesta história que fala sobre perdas, famílias, preconceito.
“Começa a parecer que é difícil dimais continuar a viver”
Celie tem uma vida muito sofrida: seu pai abusou dela, depois a fez se casar com um viúvo cujos filhos apenas a maltratavam (não que ele também a tratasse muito melhor). E, no meio disso tudo, ela ainda se vê obrigada a se afastar de Nettie, sua única alegria nesta vida.
“Todo mundo quer ser amado. A gente canta e dança, faz careta e dá buquê de rosa, tentando ser amado”
No meio de tanta adversidade, porém, Celie tem a oportunidade de conhecer Shug Avery e, com ela, aprender muito sobre o mundo, sobre o amor e sobre si mesma.
“Afinal, Albert sabia tanto quanto eu que o amor tinha que ser dimais pra ser melhor que o nosso”
Aliás, dizer que esta história fala sobre amores pode parecer simplista demais, mas não temos como ignorar, também, a presença de um amor forte, puro e que foi escrito numa época que este tipo de amor era ainda menos aceito que nos dias de hoje.
“Alguém para onde fugir. Parecia bom dimais pra durar”
Para além dos assuntos já mencionados, A cor púrpura é uma história que consegue nos fazer pensar sobre religião, colonização — inclusive tem passagens da Nettie que são verdadeiras aulas com relação a isso — e sobre nosso lugar no mundo.
“Por que eles nos venderam? Como é que eles puderam fazer isso? E por que será que nós ainda assim os amamos?”
Outra questão que chamou muito minha atenção foram os nomes — ou, em alguns casos, a ausência deles — e a importância que se dá àquilo que é nomeado.
“Faz o Harpo chamar você pelo seu nome verdadeiro, eu falei. Aí quem sabe ele vai ver você mesmo quando tiver com um problema”
A cor púrpura é um daqueles livros que não queremos largar. Os capítulos são, em sua maioria, relativamente curtos, o que ajuda bastante no processo de “só mais um pouquinho”.
“E eu tento ensinar meu coração a num querer nada que ele num pode ter”
Também é uma daquelas obras que me faz ficar pensando no trabalho que foi traduzi-la (não à toa, esta edição conta com três nomes para essa função): como terá sido o processo de encontrar o tom certo para Celie?
Por fim, esta é uma história que vai te fazer ter vontade de se aproximar de Celie, bater em Albert, se apaixonar por Shug Avery (quem não é apaixonado por ela?), torcer por Nettie, lutar por e com Sofia… Enfim, uma história marcada por ótimos personagens e uma narrativa extremamente necessária.
Li A cor púrpura na edição física da José Olympio e achei a diagramação bem limpa e confortável. O papel off-white também contribuiu para uma leitura agradável.
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