E se eu pudesse voltar no tempo? — Marie Pessoa

Título: E se eu pudesse voltar no tempo?
Autora: Marie Pessoa
Editora: Publicação independente
Páginas: 45
Ano: 2021

Você provavelmente já pensou “e se eu pudesse voltar no tempo?”. Nos últimos meses, talvez mais do que nunca. Mas este conto da autora Marie Pessoa carrega outros tantos momentos de reconhecimento de alguma situação que já vivemos ou de algo que sentimos.

“Em alguns dias seria a nossa formatura e eu não via a hora de entrar na faculdade para esquecer o período escolar”

Clarice é uma jovem que está se formando no ensino médio e sua infância e adolescência foram permeadas de dificuldades. Sendo filha da “tia da faxina”, ela teve a oportunidade de estudar em uma boa escola particular, o que poderia lhe permitir um bom futuro, mas também muitos percalços nos anos escolares.

“No entanto, demorei para entender que não era sua culpa o bullying e as constantes ameaças sofridas naquele lugar”

Não bastasse isso, as dificuldades de sua vida também deviam-se ao fato dela não estar dentro dos padrões estéticos impostos pela sociedade e também por ser não ter pai.

“Aprendi desde cedo que uma família era composta por um homem e uma mulher, e quando o amor era demais, surgiam crianças. Então, era muito triste a ideia de não fazer parte de uma família ‘de verdade’”

As coisas começam a melhorar um pouco, porém, quando ainda pequena, ela conhece Sofia, que apesar de ser quase seu oposto, tem ao menos algo em comum: o fato de não ter pai. Mas, para além disso, Sofia tem um enorme coração e elas logo se tornam grandes amigas.

“Às vezes, quando me imaginava em um filme, reparava em como a nossa amizade parecia indestrutível. Nada poderia nos separar”

Para Clarice, porém, esse sentimento acaba ganhando uma força ainda maior, o que, claro, acaba deixando-a muito confusa.

“E, mais profundo do que nossa amizade, eu a amava tanto que em muitos momentos duvidava da força do sentimento”

E se eu pudesse voltar no tempo? é uma história que nos suga para dentro de suas palavras; uma narrativa que nos faz recordar nossa adolescência, nossas descobertas. É, ainda, um conto capaz de nos fazer sentir, torcer, querer. Querer voltar no tempo, mas também seguir em frente, tirando força de onde não sabemos que podemos tirar.

“Sofia sabia viver, e eu precisava apenas de mais alguns momentos com ela para aprender também”

Esta é uma obra que eu indico a quem precisa sentir um abraço amigo ou então acreditar numa segunda chance. É também uma história para quem só quer se libertar de uma dor, um peso, uma saudade, algumas lembranças de um passado que já ficou para trás.

“Eu me sentia, enfim, grata pela oportunidade, independente do sofrimento. Aquilo era passado, em breve daria início a um novo momento da minha vida”

Uma vez mais fui presenteada com a escrita da autora Marie Pessoa, que a cada novo lançamento me surpreende com seu talento e sua força. Obrigada por mais essa história que tanto me ensinou, Marie!

E para quem nunca leu nada dela, já deixo aqui essas duas obras incríveis:

A playlist da minha vida – Leila Sales

Título: A playlist da minha vida 
Original: This song will save your life 
Autor: Leila Sales
Editora: Globo Livros 
Páginas: 310 
Ano: 2014 (1º edição) 
Tradução: Amanda Orlando

Narrado por Elise Dembowski, A playlist da minha vida é um livro que nos traz os dramas e as aventuras de uma jovem excluída. Aos quinze anos de idade, Elise não tem amigos e sofre bullying na escola. Em sua visão, as pessoas se afastam dela por sua inteligência admirável, seus gostos peculiares, seu jeito de ser e sua opinião formada.

“Dar duro no que quer que seja, por definição, não é nada descolado”

A playlist da minha vida (p.13)

Cansada de ser sozinha e “a esquisita da escola”, Elise decide tomar providências: ela passa as férias inteiras tentando aprender a ser uma adolescente normal e “descolada”. No primeiro dia de aula, porém, percebe que todo seu esforço foi em vão e, então, decide agir mais drasticamente, pensando em se matar. Antes, porém, ela faz um “teste” cortando apenas um pouquinho  dos pulsos.

“Eu queria ferir a mim mesma”

A playlist da minha vida (p.41)

Ao se recuperar, Elise percebe que o suicídio não era exatamente o que ela buscava para si. Ela queria dar uma lição naqueles que a maltratavam, mas ao se matar, ela só deixaria para eles um gostinho de vitória, sem conseguir provar que seria capaz de dar a volta por cima.

“Há coisas que você não pode mudar”

A playlist da minha vida (p.190)

Alguns meses depois desse acontecimento, Elise adquire o hábito de andar pelas ruas da cidade durante a noite, saindo às escondidas, depois que todos em sua casa vão se deitar. É justamente em uma dessas andanças que ela descobre a Start, uma balada underground. Ali ela faz amizades, principalmente com Vicky e Pippa, apaixona-se pelo DJ Char e ainda descobre mais um talento: discotecar.

Conhecer a Start, fazer amizades, apaixonar-se… Tudo parece um sonho para Elise, mas sua vida ainda está cheia de problemas e altos e baixos. Nossa protagonista nunca deixa de se meter em algumas enrascadas.

“Às vezes, temos aqueles dias em que tudo dá errado. Mas, às vezes, alguma coisa pode dar certo da maneira mais inesperada possível”

A playlist da minha vida (p.102)

Não dá para dizer que este seja um livro de drama adolescente, uma vez que nem todos  nesta fase são tão isolados ou sofrem tanto bullying quanto Elise. No entanto, é, sem dúvidas, uma excelente recomendação de leitura para jovens, tanto “excluídos” quanto “populares”, uma vez que, para os primeiros pode trazer alento, enquanto para os demais pode trazer alguns bons ensinamentos.

“Às vezes, as pessoas acham que sabem quem você é. Elas sabem de algumas poucas coisas a seu respeito e juntam as peças de uma forma que faça sentido para elas”

A playlist da minha vida (p.270)

Cada capítulo começa com o trecho de uma música, construindo, assim, a playlist de Elise.

E por falar nisso, uma coisa que achei interessante neste livro é o fato dele falar sobre discotecagem, afinal, quando um livro como este trata de música, geralmente são as canções e não um outro lado desse universo. Eu nunca havia pensado em como um DJ tem de tomar cuidado ao passar as músicas, não apenas combinando uma com a outra, mas também acertando a maneira de fazer esta transição. Além disso, como o próprio Char diz, o DJ deve saber ler seu público, perceber o que agrada e o que faz todo mundo sair um pouco da pista.