Tatianices Recomenda [19]

Tatianices recomenda [19]

Hoje é dia de trazer recomendações literárias, mas esse mês eu não trarei livros para os desafios que sempre trago e vocês já vão entender o porquê.

Em primeiro lugar, achei as categorias dos desafios que costumo trazer aqui bem difíceis: a Geração Editorial nos desafiava com um livro que tenha ganhado o prêmio Jabuti; o Skoob com um livro do gênero que eu menos gosto (não sei qual gênero eu menos gosto!) e a Livraria Cultura com um diário (esse até era fácil, mas ia recomendar mais do mesmo — Anne Frank —).

Unindo minha falta de inspiração ao agradável, resolvi selecionar livros que já li e que, de alguma forma, abordam a questão do suicídio, trazendo um pouquinho desse assunto neste Setembro Amarelo. Eu acho importante que existam livros sobre o assunto, e que eles sejam abordados de maneira responsável. Por isso, trago somente livros que realmente já li, ainda que eu não tenha quase nada de conhecimento sobre o assunto, que ainda precisa ser muito debatido e tratado com o devido respeito. Mais de um desses livros também nos faz refletir sobre o bullying e seus efeitos nos jovens e acho que são leituras que todos deveriam fazer, seja para se conscientizar, para poder ajudar alguém, ou mesmo pelo simples prazer de aprender com personagens que são, ao mesmo tempo, fortes e sensíveis.

Vamos às indicações?

                                        

Para saber mais sobre cada um desses títulos, basta clicar sobre as capas!

E vocês, que livros já leram sobre suicídio? E para os desafios mencionados no início deste post, teriam indicações?

 

Extraordinário – R. J. Palacio

Título: Extraordinário
Original: Wonder
Autor: R. J. Palacio
Editora: Intrínseca
Páginas: 320
Ano: 2013
Tradução: Rachel Agavino

Finalmente, graças à minha sogra (que ainda escreveu uma dedicatória super fofa), ganhei e li Extraordinário, de R. J. Palacio. Essa foi uma das poucas vezes que vi o filme antes de ler o livro e, ainda assim, queria ler essa história que tem muitas mensagens para nós e sobre a qual muitas pessoas já teceram seus comentários ou escreveram suas impressões.

Fiquei um pouco em dúvida em como estruturar esta resenha e acabei optando por seguir cada uma das parte que compõem o livro. Para quem não sabe, Extraordinário está dividido em 8 partes e cada uma delas é narrada, em primeira pessoa, por um personagem (mas não são 8 personagens diferentes, como veremos). Como as narrações são em primeira pessoa, parece sempre que estamos lendo o diário de cada um. Além disso, no início de cada uma dessas partes, vem escrito o nome do personagem que está escrevendo e uma citação, que pode ser o trecho de uma música, um poema ou um livro. Todas as citações estão traduzidas e, principalmente no caso das músicas, fica engraçado, porque às vezes demoramos para nos tocar de que a conhecemos. Mas… Chega de enrolação, não é mesmo?

A primeira parte do livro, como não poderia deixar de ser, é narrada por August Pullman, também conhecido por Auggie. Aos 10 anos de idade, Auggie já passou por 27 cirurgias, uma vez que nasceu com a Síndrome de Treacher, que é uma condição genética muito rara e que atinge principalmente os ossos do rosto. Essas cirurgias salvaram a vida dele, mas não tornaram seu rosto menos “incomum”, cheio de cicatrizes.

“Talvez a única pessoa no mundo que percebe o quanto sou comum seja eu”

Extraordinário (p.11)

Até os 10 anos de idade, Auggie estudou em casa. O livro se passa justamente no momento em que ele começa a frequentar a escola. Por isso que essa é uma história muito conhecida por falar sobre bullying, empatia e amizade. Mas acho que é uma história que vai além e que, por isso, os outros personagens também têm sua voz. E mais: o livro reforça bastante a ideia de que ir para a escola pode ser difícil para qualquer criança. Que todos nós temos os nossos fantasmas interiores e problemas e como tudo isso vai muito além do físico.

A segunda parte de Extraordinário é narrada por Olivia (Via), irmã mais velha de Auggie. Como eu queria que essa parte recebesse a atenção que merece! A gente foca tanto na questão do bullying e acaba deixando de lado uma coisa: é muito perceptível o quão difícil a situação é para a Via também.

“Então me acostumei a não reclamar e a não incomodar meus pais com coisas sem importância”

Extraordinário (p.89)

Vocês enxergam o quão problemática é essa situação? O quanto isso pode dar início a problemas psicológicos como a depressão?

É evidente, ao longo da história, o quanto Via ama seu irmão. E o quanto ela quer acreditar que os problemas dele sempre serão maiores que tudo. Acontece que, ao mesmo tempo em que ele está entrando na escola, ela está começando o Ensino Médio em uma escola nova. E nessa mesma época ela se vê sem amigos. E sua querida avó morrera a pouco. E ela é uma adolescente cheia de sentimentos e emoções… Questões que ninguém enxerga porque a própria Via não quer que as pessoas vejam isso. E mesmo quando ela começa a ter acessos de raiva e crises de choro, seus pais não conseguem compreender o que se passa. Porque nesses momentos, também, sempre acontece algo com Auggie. É angustiante!

Todos nós temos problemas e por mais que sempre vá existir alguém no mundo passando por situações muito piores, nós não podemos comparar. Problemas são problemas e cada um sabe a dor que está passando. Queria que as pessoas lembrassem disso quando estivessem lendo a parte de Via.

As partes 3 e 4 são narradas, respectivamente, por Summer e Jack, colegas de Auggie. Summer é uma menina muito inteligente e a primeira a se aproximar de Auggie por livre e espontânea vontade, sentando com ele todos os dias na hora do almoço. Jack, por outro lado, não é tão “corajoso” desde o começo, mas logo se mostra um grande amigo.

“-Jack, às vezes magoamos as pessoas sem querer. Entende?”

Extraordinário (p.146)

Jack é aquele tipo de criança que agrada a todos: é engraçadinho, educado, dedicado, bonito. Todas essas qualidades, porém, não impedem que ele sofra bullying quando decide que ser amigo de Auggie é melhor que ser amigo de Julian, o riquinho popular da escola. E acredito que essa seja outra lição muito válida nesse livro: não é apenas o fato de Auggie ser totalmente (fisicamente falando) diferente das outras crianças que faz com que exista bullying na escola. Trata-se de uma violência presente em todas as instituições e que pode ter diversas causas.

A quinta parte do livro é narrada por Justin, um rapaz que Via conhece em sua nova escola e com quem começa a namorar. Inclusive, ele diz algo sobre ela que, acredito eu, resume muita coisa:

“a olivia é uma garota que vê tudo”

Extraordinário (p.196)

O que achei engraçado é que o Justin escreve sem letras maiúsculas (pois é, não digitei errado ali em cima). Isso reforça a sensação de que, ao longo do livro, estamos lendo diversos diários, mas não compreendi porque a autora lançou mão dessa tática com um dos poucos narradores que já está no Ensino Médio, enquanto as crianças escrevem com vocabulário super trabalhado.

Na sexta parte voltamos a August, porém a um August muito mais maduro. Sem contar que, tendo lido a história pela visão de outros personagens, podemos entender melhor o cenário em que a narrativa se passa.

“É engraçado como às vezes nos preocupamos muito com uma coisa e ela acaba não sendo nem um pouco importante”

Extraordinário (p.222)

Quem narra a parte 7 é Miranda, que era a melhor amiga de infância de Via, até que elas entraram no Ensino Médio e tudo mudou. Bem, quase tudo, porque, no fundo, Miranda continuava gostando muito de Via e de Auggie, que era quase um irmão mais novo para ela.

Não posso deixar de ressaltar, porém, que acho problemática a seguinte passagem:

“Uma das coisas que mais sinto falta com relação à amizade de Via é a família dela”

Extraordinário (p.247)

Solta, essa frase não parece dizer nada demais, visto que, como dito ali em cima, Miranda se dava muito bem com Via e seu irmão. No entanto, é possível sentir, com os rumos da narrativa, que há também certa inveja por parte de Miranda. Outro aspecto, portanto, que o livro trabalha, mas que passa desapercebido.

E porque inveja? Porque apesar de tudo, de todos os problemas de Via (que, lembrando, ela busca esconder) e da situação de August, os Pullman são uma família extremamente amorosa e bem humorada. E uma família que tem amor, tem tudo!

A oitava e última parte também é narrada por August, que sobreviveu bravamente ao seu primeiro ano de escola e ainda fez muitas amizades. As últimas páginas falam muito sobre gentileza e são maravilhosas. Ou eu deveria dizer extraordinárias?