TAG: Direitos do Leitor

TAG_ DIREITOS DO LEITOR

Deu saudades de responder uma TAG por aqui, e resolvi fazer essa, que me remete ao livro do Daniel Pennac, Como um romance, um livro que eu recomendo muito e que fala justamente sobre o ato de ler (e como incutir esse hábito em seus alunos) e sobre os “direitos” do leitor! Antes das respostas, porém, queria dizer que eu vi essa TAG lá no Fantástica Ficção, da Jessica Rabelo.

  • O direito de não ler: um livro que você não quer ler nem que te paguem

Acredito que “50 tons de cinza“. Responder essa pergunta certamente requer certa dose de preconceito, mas eu acredito que se eu sempre tivesse a escolha entre esse livro e outro, escolheria o outro.

  • O direito de pular páginas: um livro que você leu… só o que interessava

Momento confissão: no livro “O mundo de Sofia” eu pulei algumas das páginas sobre filosofia para ir logo para as páginas com a história da menina… Mas foram só algumas paginas!

  • O direito de não terminar um livro: um livro que você começou algumas vezes antes de ler inteiro

Acreditem ou não, “Harry Potter“. Tentei começar a ler quando era nova demais e as palavras eram extramente difíceis para mim.

  • O direito de reler: um livro que você salvaria no fim do mundo, para reler pela eternidade

Considerando a quantidade de vezes que já reli esse livro, acredito que “A Princesinha“.

  • O direito de ler qualquer coisa: o livro mais improvável que você já leu e gostou, e que algumas pessoas talvez duvidem que você leu

Não sei… Talvez o livro “Piadas nerds“??

  • O direito ao bovarismo: um livro que parecia ótimo! Mas que o tempo passou… e você pensou a respeito.

Vou citar aqui “O jardim secreto“, mas a verdade é: eu tinha altas expectativas sobre esse livro. Eu havia visto o filme em minha infância e me lembro de ter adorado, porém… Fiquei bem decepcionada com o livro, foi uma leitura muito arrastada.

  • O direito de ler em qualquer lugar: o lugar mais estranho/improvável em que você já leu um livro

Acho que na “cadeira do castigo”, na cozinha. Não era verdadeiramente uma cadeira do castigo, mas, na época, meu quarto estava em reforma e eu passava mais tempo em outros cômodos da casa. Quando estavam vendo televisão na sala, eu sentava em uma cadeira na cozinha para ler e aí parecia que eu estava de castigo ali.

  • O direito de ler uma frase aqui e outra ali: um livro que te alimenta com pequenas doses diárias

Confesso que não sei responder essa… Mas quando pego livros de contos ou de poesia para ler, acabo lendo em “doses homeopáticas”.

  • O direito de ler em voz alta: um livro que você precisou ler em voz alta

Não foi um livro, mas um conto: “Desenredo“, de Guimarães Rosa.

  • O direito de calar: um livro que te deixou sem palavras, porque era muito bom… ou muito ruim

Eu poderia citar tantos aqui que prefiro não citar nenhum…  E estou falando de livros bons mesmo!

 

Citações #9 — Diário de escola

O livro da vez é Diário de Escola, escrito por Daniel Pennac. Li a edição em italiano (Diario di scuola) publicada em 2017 (10º edição) pela editora Universale Economica Feltrinelli. Tentarei colocar as citações em português, torcendo para que a minha tradução consiga abarcar o significado de cada trecho que destaquei. Esse é o primeiro livro que aparece aqui no Citações e que tem, também, a resenha completa no blog. Em minhas resenhas costumo colocar algumas passagens do livro, mas são diferentes das que trarei aqui.

Como eu comentei na resenha, neste livro, Pennac fala sobre os alunos que são considerados maus alunos, falando com propriedade, por ter sido um deles. É por isso que ele consegue nos transmitir o quão difícil e solitário é para uma criança que é considerada burra ou um fracasso escolar.

“Experimentei cedo o desejo de fugir. Para onde? Não sei bem. Digamos que fugir de mim mesmo e, ao mesmo tempo, dentro de mim” (p.25)

“Quando uma pessoa sente que não pertence a nada, tende a fazer juramentos a si mesma” (p.30)

O autor nos mostra o quanto há de incompreensão por parte dos que ensinam ou não são maus alunos.

“Falar a eles do que está por vir significa pedir que meçam o infinito com uma régua” (p.74)

Por outro lado, ele é a prova viva de que tudo passa e que as coisas tomam seus devidos rumos com o passar dos anos.

“As coisas nunca acontecem como prevemos, mas uma coisa é certa: nós nos tornamos” (p.84)

Daniel Pennac foi de mau aluno a um grande professor e escritor. Destaco ainda  passagens que trazem esse lado dele, o lado adulto que superou as dificuldades da infância:

“Uma boa classe não é regimento que marcha cadentemente, é uma orquestra que experimenta a mesma sinfonia” (p.107)

[Claro que eu não deixaria de lado esse trecho em que o autor faz uma comparação da sala de aula com uma orquestra. É um dos trechos mais lindos do livro (ou talvez eu seja suspeita para falar por adorar colocar música em tudo)].

Mas voltando ao lado professor, Pennac, por ter tido suas dificuldades como estudante, consegue aplicar métodos interessantes em sala de aula. Um deles é saber jogar com a matéria, transformando o aprendizado em diversão, como podemos perceber com esta última passagem que trago a vocês:

“E além do mais, brincar com a matéria é uma maneira, como tantas outras, de se acostumar a dominá-la” (p.131)

 

 

Diário de Escola – Daniel Pennac

Título: Diario di scuola
Original: Chagrin d’école
Autor: Daniel Pennac
Editora: Universale Economica Feltrinelli
Páginas: 243
Ano: 2017 (10º edição)
Tradução (para o italiano): Yasmina Melaouah

Diário de escola não é o primeiro livro que leio de Daniel Pennac e, espero, não será o último. O autor tem uma escrita leve e fluída e trata de assuntos que muito me interessam. Neste livro, por exemplo, ele fala sobre alunos com baixo rendimento escolar e faz isso com propriedade por conhecer os dois pontos de vista: como aluno, Pennac era considerado um fracasso; como professor, ele tem de lidar diariamente com estudantes que não possuem um desempenho satisfatório.

“Basta um professor – apenas um! – para nos salvar de nós e nos fazer esquecer de todos os outros”

Diário de escola (pg. 209)

É muito interessante o modo como o autor nos mostra que o “mau aluno” muitas vezes (quase sempre, na verdade) é fruto da forma como os outros o tratam: considera-se o “mau aluno” um aluno perdido e não é dada a chance para que ele prove o contrário. Mais que isso: o próprio estudante deixa de acreditar em si mesmo.

“E é esse o destino do ignorante: ninguém acredita nele”

Diário de escola (pg. 73)

 

O livro é dividido em 6 grandes capítulos (que chamarei de seções), cada um deles subdividido em 12 capítulos menores. Apenas as seções possuem título e são acompanhadas de uma epígrafe, como mostrarei abaixo:

I- O aterro de Djibuti

Estatisticamente tudo se explica; pessoalmente tudo se complica.

II- Tornar-se

Tenho doze anos e meio e não concluí nada

III- Nós ou o presente da encarnação

Nunca conseguirei

IV- Mas então você faz isso de propósito

Não fiz de propósito

V- Maximilien ou o culpado ideal

Os professores nos tiram do sério

VI- O que significa amar

Neste mundo é preciso ser um pouco bom demais para ser o suficiente (Marivaux, Il gioco dell’amore del caso).

Diário de escola foi um livro que tive vontade de falar para o mundo sobre. Ele é uma importante ferramenta para professores, uma ótima leitura para curiosos e uma excelente ajuda para “maus alunos”. Um livro, portanto, para muitos gostos.

“Nada sai como o previsto, é a única coisa que o futuro nos ensina quando se torna passado”

Diário de escola (pg. 43)

A minha vontade é citar quase metade do livro aqui, mas não quero estragar o prazer da leitura daqueles que se interessaram por ele. Deixo, então, apenas mais uma citação e aproveito para dizer que li o livro em italiano e todas as citações que aqui aparecem foram traduzidas por mim do italiano para o português.

“Reduzidos a nós mesmos, somos reduzidos a nada. Tanto que, por vezes, nos suicidamos”

Diário de escola (pg.58)
A edição brasileira pode ser encontrada aqui.