Céu sem estrelas — Iris Figueiredo

Título: Céu sem estrelas
Autora: Iris Figueiredo
Editora: Seguinte
Páginas:357
Ano: 2018

céu sem estrelas blog

Sabe aquela brincadeira de descrever de forma tosca um livro? Pois se fosse para falar de Céu sem estrelas nesses termos eu diria que é o livro da menina depressiva que gosta de ler livros depressivos. Claro que, como eu disse essa seria uma descrição tosca. Mas ao mesmo tempo, a tosquice tem um fundo de sentido, porque esse é um livro que nos apresenta uma protagonista… Comum!

“Acho que todo mundo só enxerga no outro aquilo que é conveniente”

(p. 90)

Quando eu digo que Cecília é comum, porém, não estou dizendo que ela é uma pessoa qualquer — afinal, Céu sem estrelas também nos mostra que todos somos especiais, cada um do seu jeito — mas que ela é uma personagem como nós, alguém que facilmente podemos encontrar em um amigo querido, em um parente, em qualquer lugar que frequentemos. E é tão bom poder ler um livro com alguém tão real quanto Cecília (e os demais personagens).

“Por mais que a gente achasse que conhecia uma pessoa, sempre havia mais”

(p. 317)

Esse é um livro que tem a sua dose de romance (coisa que eu amo), mas que vai muito além disso. A narrativa é alternada entre capítulos de Cecília e de Bernardo, que é o irmão mais velho de Iasmin, que, por sua vez, é a melhor amiga de Cecília.

“Cecília era uma caixinha de segredos e mentiras, tentando encobrir as partes feias da vida e pintar uma versão melhor de si mesma para o mundo. Ela não queria que sentissem pena”

(p. 161)

Cecília é uma garota que sofre com seus ataques de pânico e com uma mente que não consegue controlar, além de ter de lidar com olhares e palavras maldosas dos outros (inclusive familiares) por estar acima do peso. Para completar seu infortúnios, ela não se dá muito bem com a mãe a ainda perde o emprego, o que gera uma briga familiar e tanto.

“Nem eu mesma sabia quem eu era. Tinha passado tanto tempo preocupada em fazer as coisas do jeito certo, ser perfeita… Só fazia o que as pessoas queriam que eu fizesse. Porque eu queria ser amada”

(p. 70)

Bernardo, por outro lado, vem de uma família rica e aparentemente bem estruturada. Mas sabemos que isso geralmente é só aparência mesmo. Seus pais vivem brigando e, em seu íntimo, Bernardo sofre com isso. A família dele é quase um belo retrato daquela “família tradicional brasileira” bem estereotipada mesmo.

“Eu ainda me desdobrava em duas — quem as pessoas queriam ver e quem eu realmente era. Tinha me acostumado com a dupla identidade”

(p. 214)

Como esperado, Iasmin também é uma personagem importante ao longo da trama, e por meio dela a autora ainda consegue nos fazer refletir sobre relacionamentos abusivos.

“Eu tinha certeza que princesas não escondiam cicatrizes”

(p. 232)

Para completar o trio de amigas inseparáveis temos, Rachel, que é cadeirante e provavelmente uma das personagens mais sensatas da história.

“Quando nos importamos com alguém que vive uma luta tão profunda contra seus próprios monstros, o medo de que algo esteja fora do lugar sempre bate à porta”

(p. 321)

Por meio dos personagens secundários, Iris ainda consegue retratar muito da vida (e do estilo de vida) dos jovens universitários e também da rotina da faculdade em si.

“Eu estava cansada de pedir desculpas por meus sentimentos. Às vezes tinha a impressão de que fazia isso o tempo inteiro”

(p. 182)

Céu sem estrelas era um desses livros que eu ouvia falar e tinha muita vontade de ler. Graças à Ingrid (obrigada, miga!!) meu desejo se realizou e sinto que a espera valeu a pena. O livro chegou no momento certo e apesar de abordar tantos assuntos delicados, serviu como um abraço quentinho. A leitura flui muito bem, daquele jeitinho que a gente não quer largar o livro até o final, mesmo quando percebe que vai dar tudo errado.

“Era tudo na minha cabeça. A dor era toda na minha cabeça, mas isso não a tornava menos real”

(p. 191)

Não sei se essa história poderia ser gatilho para algumas pessoas, mas acredito que não. Cecília vive na pele um pouco de tudo. Senti que a história conseguiu ser realista e sensível, mostrando inclusive como é difícil pedir ajuda ou mesmo entender o que se está passando.

“Eram muitas perguntas, e eu não queria descobrir as respostas. Era cansativo viver com um cérebro que pensava demais”

(p. 150)
Se interessou por esse livro? Então clique aqui!

Um jeito de recomeçar — Filipe Salomão

Título: Um jeito de recomeçar — Novos sonhos, pesadelos antigos
Autor: Filipe Salomão
Editora: Publicação independente
Páginas: 107
Ano: 2019

jeito de recomeçar

Sabe quando você termina um livro e não sabe bem o que fazer, pois o final não era nada do que você esperava (para o bem e para o mal)? Pois então, confesso que fiquei desnorteada com o final de Um jeito de recomeçar.

“Eu não sabia o que queria, e isso é saber mais do que muita gente”

Aliás, desnorteada talvez seja uma boa palavra para definir muito das minhas sensações ao ler esse livro. Uma leitura que te prende, ainda que você tenha medo de saber o que vem pela frente. Uma vontade de descobrir tudo para, no final das contas, não ser nada do que você poderia imaginar.

Carolina — ou Carol, como prefere ser chamada — uma jovem rica, chega em casa um belo dia e vê seu mundo destruído: o pai assassinara a mãe e, em seguida, cometera suicídio. Já da para imaginar, portanto, que neste livro não encontraremos uma história leve.

“Sabe, aprendemos mais com o fundo do poço do que com o topo da montanha, mas de um é fácil sair, do outro não”

E realmente, ao longo das páginas vamos conhecendo uma depressiva Carolina que tenta recomeçar sua vida longe de tudo e todos e que passa boa parte da história em uma pousada localizada em uma praia quase deserta, interagindo com aqueles que vivem ali e trabalham na pousada.

“Às vezes, começar do zero, largar tudo, assusta”

É interessante observar a rotina dos personagens, ver como cada um tem muito a oferecer e ensinar. E também vamos acompanhando algumas pequenas confusões causadas por Carol.

“Podemos nos acostumar com tudo na vida. Menos com o mar”

O problema é que essas “pequenas” confusões se tornam imensas confusões e, aos poucos, tudo vai ruindo novamente. É angustiante! E, como eu disse lá cima, desnorteador.

Carol é uma personagem que engana. Sentimos pena dela (ainda que ela não queira isso) e tentamos compreender sua dor (assim como os personagens que a cercam) e tudo o que ela faz e acabar com a paz que havia. Carol não é nada empática, ainda que a gente queira sentir isso em relação a ela.

“Amor é isso, não? Amor é compartilhar os piores segredos e sentimentos”

Mas aprendemos muito com essa leitura. E refletimos também. Afinal, a vida (e a morte) é uma caixinha de surpresas, não?

Se interessou por Um jeito de recomeçar? Então clica aqui.