Sei que muito já foi falado sobre Caixa de pássaros (mais conhecido por Bird Box) e que talvez eu não traga nada de novo aqui, mas como não gostei tanto de Uma casa no fundo de um lago, nada mais justo que voltar a Josh Malerman e escrever sobre uma história que gostei.
Me lembro que quando o filme estourou na Netflix, muitas pessoas tentaram interpretar a história, e tantas outras não a entenderam. Depois de assistir ao filme e ler o livro, fico aqui pensando quantas camadas tem essa história e o quão pouco eu realmente devo ter absorvido dela.
“Ninguém tem respostas. Ninguém sabe o que está acontecendo. As pessoas estão vendo alguma coisa que as leva a machucar os outros. A machucar a si mesmas”
(p.31)
Neste livro, para quem ainda não o conhece, é retratado um mundo em que algo faz com que as pessoas que o vêem, se suicidem. Ninguém sabe ao certo o que é que desencadeia essa reação, mas as pessoas passam a compreender que a única solução é não olhar.
“Parece que não importa sob que ângulo vemos as criaturas, elas sempre nos machucam”
(p.75)
Deste modo, “não olhe”, se torna o mantra dos sobreviventes deste mundo apocalíptico. Só é possível sair às ruas de olhos vendados. E ainda que as pessoas tentem tomar cuidado, chega um momento em que a sobrevivência vai se tornando cada vez mais complicada, porque ainda que se saia de olhos vendados, onde conseguir itens básicos, como comida e produtos de higiene?
A narrativa se alterna entre passado — quando tudo começa a ficar estranho e Malorie, sozinha no mundo e grávida, encontra um grupo que está fazendo o possível para sobreviver, dividindo uma casa — e presente, quando Malorie está com duas crianças, tentando dar uma vida digna a elas num cenário que se tornou ainda mais apocalíptico.
“Como pode esperar que seus filhos sonhem em chegar às estrelas se não podem erguer a cabeça e olhar para elas?”
(p.71)
Caixa de pássaros é um livro que nos prende pelo seu suspense, por seus pontos angustiantes e por nossa curiosidade diante do desconhecido total. Duvido que você leia esse livro e não fique se perguntando como seria viver sem poder ver.
Como eu disse anteriormente, a frase “não olhe” é repetida como um mantra salvador que às vezes pode nos parecer estranho. Mas fico pensando quantas coisas nos são repetidas (quase como mantras) diariamente e que se tornam normais para nós (ainda que não o sejam)? (eu penso muito, por exemplo, quando pego metrô no horário de pico e — todo santo dia — eles dão repetidamente os mesmos avisos, como “utilize a escada fixa no final do corredor” ou “a faixa amarela é a sua segurança” e afins).
“Disseram a eles que poderiam enlouquecer. Então eles enlouquecem”
(p.190)
E se Caixa de Pássaros me faz refletir sobre o que está à minha volta, mesmo retratando algo totalmente diferente do que eu conheço ou vivo, então, certamente, esse é um livro para não deixar passar.
Para saber mais sobre esse mundo assustador e sobre como termina a aventura vivida por Malorie, clique aqui.
Título: Meu menino vadio - histórias de um garoto autista e seu pai estranho Autor: Luiz Fernando Vianna Editora: Intrínseca Páginas: 205 Ano: 2017 (1º edição)
O primeiro livro que li sobre autismo foi O que me faz pular (Naoki Higashida) e, a partir daí, passei a me interessar muito pelo assunto. E se menciono isso agora é porque este livro também é citado em Meu menino vadio, escrito por Luiz Fernando Vianna, pai de Henrique, um jovem autista:
“Sei que há quem me veja, antes de tudo, como pai de autista. É um personagem que não me incomoda, mas no qual nem sempre me reconheço”
Meu menino vadio (p.18)
Se ter um filho autista já é complicado por si só, para Luiz Fernando Vianna a situação era ainda mais difícil: fruto de um relacionamento conturbado, Henrique cresceu no meio de um fogo cruzado e acabou sendo levado por sua mãe e seu padrasto para a Austrália. O autor do livro lutou para que seu filho continuasse a morar no Brasil, mas o resultado foi apenas mais um imenso desgaste.
“A justiça brasileira não é para principiantes”
Meu menino vadio (p.13)
Depois de anos vivendo na Austrália, a família de Henrique muda-se novamente, mas dessa vez para os Estados Unidos. Neste ponto da vida do jovem, outra grande mudança acontece também: se antes ele apenas passava as férias com o pai, no Brasil, agora ele começaria a passar um ano com cada um de seus pais. Sim, isso mesmo: um ano no Brasil, um ano nos Estados Unidos. Se para qualquer ser humano isso já é extremamente complicado, imagina para um menino com autismo.
Os capítulos de Meu menino vadio são curtos e escritos numa linguagem fácil de ler. A história, por sua vez, é capaz de despertar diversos sentimentos em nós, além de ser um texto atual e que nos faz refletir sobre o modo como agimos também.
“Não guardamos segredos, mas gritamos. Não registramos na memória, mas fotografamos. Não refletimos, mas opinamos”
Meu menino vadio (p.115)
Vianna também consegue mesclar muito bem seus perrengues, as dificuldades do filho, informações importantes e estudos sobre autismo, tornando o livro extremamente informativo e, ao mesmo tempo, gostoso de ler.
Outro ponto interessante do livro é que os títulos de todos os capítulos possuem inspiração musical, nos aproximando ainda mais do autor da obra. Ao final do livro, podemos encontrar uma lista das músicas que serviram de inspiração.
Eu acabei adiando e adiando essa resenha e, no final das contas, ela veio parar em abril, mês da conscientização sobre o autismo. Além desse post, em breve farei mais um sobre o tema, não perca!
Título: ExtraordinárioOriginal: WonderAutor: R. J. PalacioEditora: IntrínsecaPáginas: 320Ano: 2013Tradução: Rachel Agavino
Finalmente, graças à uma pessoa super querida (que ainda escreveu uma dedicatória mega fofa), ganhei e li Extraordinário, de R. J. Palacio. Essa foi uma das poucas vezes que vi o filme antes de ler o livro e, ainda assim, queria ler essa história que tem muitas mensagens para nós e sobre a qual muitas pessoas já teceram seus comentários ou escreveram suas impressões.
Fiquei um pouco em dúvida em como estruturar esta resenha e acabei optando por seguir cada uma das partes que compõem o livro. Para quem não sabe, Extraordinário está dividido em 8 partes e cada uma delas é narrada, em primeira pessoa, por um personagem (mas não são 8 personagens diferentes, como veremos). Como as narrações são em primeira pessoa, parece sempre que estamos lendo o diário de cada um. Além disso, no início de cada uma dessas partes, vem escrito o nome do personagem que está escrevendo e uma citação, que pode ser o trecho de uma música, um poema ou um livro. Todas as citações estão traduzidas e, principalmente no caso das músicas, fica engraçado, porque às vezes demoramos para nos tocar de que a conhecemos. Mas… Chega de enrolação, não é mesmo?
A primeira parte do livro, como não poderia deixar de ser, é narrada por August Pullman, também conhecido por Auggie. Aos 10 anos de idade, Auggie já passou por 27 cirurgias, uma vez que nasceu com a Síndrome de Treacher, que é uma condição genética muito rara e que atinge principalmente os ossos do rosto. Essas cirurgias salvaram a vida dele, mas não tornaram seu rosto menos “incomum”, cheio de cicatrizes.
“Talvez a única pessoa no mundo que percebe o quanto sou comum seja eu”
Extraordinário (p.11)
Até os 10 anos de idade, Auggie estudou em casa. O livro se passa justamente no momento em que ele começa a frequentar a escola. Por isso que essa é uma história muito conhecida por falar sobre bullying, empatia e amizade. Mas acho que é uma história que vai além e que, por isso, os outros personagens também têm sua voz. E mais: o livro reforça bastante a ideia de que ir para a escola pode ser difícil para qualquer criança. Que todos nós temos os nossos fantasmas interiores e problemas e como tudo isso vai muito além do físico.
A segunda parte de Extraordinário é narrada por Olivia (Via), irmã mais velha de Auggie. Como eu queria que essa parte recebesse a atenção que merece! A gente foca tanto na questão do bullying e acaba deixando de lado uma coisa: é muito perceptível o quão difícil a situação é para a Via também.
“Então me acostumei a não reclamar e a não incomodar meus pais com coisas sem importância”
Extraordinário (p.89)
Vocês enxergam o quão problemática é essa situação? O quanto isso pode dar início a problemas psicológicos como a depressão?
É evidente, ao longo da história, o quanto Via ama seu irmão. E o quanto ela quer acreditar que os problemas dele sempre serão maiores que tudo. Acontece que, ao mesmo tempo em que ele está entrando na escola, ela está começando o Ensino Médio em uma escola nova. Nessa mesma época, ela se vê sem amigos. Sua querida avó morrera há pouco. Ela é uma adolescente cheia de sentimentos e emoções… Questões que ninguém enxerga porque a própria Via não quer que as pessoas vejam isso. E mesmo quando ela começa a ter acessos de raiva e crises de choro, seus pais não conseguem compreender o que se passa. Porque nesses momentos, também, sempre acontece algo com Auggie. É angustiante!
Todos nós temos problemas e por mais que sempre vá existir alguém no mundo passando por situações muito piores, nós não podemos comparar. Problemas são problemas e cada um sabe a dor que está passando. Queria que as pessoas lembrassem disso quando estivessem lendo a parte de Via.
As partes 3 e 4 são narradas, respectivamente, por Summer e Jack, colegas de Auggie. Summer é uma menina muito inteligente e a primeira a se aproximar de Auggie por livre e espontânea vontade, sentando com ele todos os dias na hora do almoço. Jack, por outro lado, não é tão “corajoso” desde o começo, mas logo se mostra um grande amigo.
“-Jack, às vezes magoamos as pessoas sem querer. Entende?”
Extraordinário (p.146)
Jack é aquele tipo de criança que agrada a todos: é engraçadinho, educado, dedicado, bonito. Todas essas qualidades, porém, não impedem que ele sofra bullying quando decide que ser amigo de Auggie é melhor que ser amigo de Julian, o riquinho popular da escola. E acredito que essa seja outra lição muito válida nesse livro: não é apenas o fato de Auggie ser totalmente (fisicamente falando) diferente das outras crianças que faz com que exista bullying na escola. Trata-se de uma violência presente em todas as instituições e que pode ter diversas causas.
A quinta parte do livro é narrada por Justin, um rapaz que Via conhece em sua nova escola e com quem começa a namorar. Inclusive, ele diz algo sobre ela que, acredito eu, resume muita coisa:
“a olivia é uma garota que vê tudo”
Extraordinário (p.196)
O que achei engraçado é que o Justin escreve sem letras maiúsculas (pois é, não digitei errado ali em cima). Isso reforça a sensação de que, ao longo do livro, estamos lendo diversos diários, mas não compreendi porque a autora lançou mão dessa tática com um dos poucos narradores que já está no Ensino Médio, enquanto as crianças escrevem com vocabulário super trabalhado.
Na sexta parte voltamos a August, porém a um August muito mais maduro. Sem contar que, tendo lido a história pela visão de outros personagens, podemos entender melhor o cenário em que a narrativa se passa.
“É engraçado como às vezes nos preocupamos muito com uma coisa e ela acaba não sendo nem um pouco importante”
Extraordinário (p.222)
Quem narra a parte 7 é Miranda, que era a melhor amiga de infância de Via, até que elas entraram no Ensino Médio e tudo mudar. Bem, quase tudo, porque, no fundo, Miranda continuava gostando muito de Via e de Auggie, que era quase um irmão mais novo para ela.
Não posso deixar de ressaltar, porém, que acho problemática a seguinte passagem:
“Uma das coisas que mais sinto falta com relação à amizade de Via é a família dela”
Extraordinário (p.247)
Solta, essa frase não parece dizer nada demais, visto que, como dito ali em cima, Miranda se dava muito bem com Via e seu irmão. No entanto, é possível sentir, com os rumos da narrativa, que há também certa inveja por parte de Miranda. Outro aspecto, portanto, que o livro trabalha, mas que passa desapercebido.
E por que inveja? Porque apesar de tudo, de todos os problemas de Via (que, lembrando, ela busca esconder) e da situação de August, os Pullman são uma família extremamente amorosa e bem humorada. E uma família que tem amor, tem tudo!
A oitava e última parte também é narrada por August, que sobreviveu bravamente ao seu primeiro ano de escola e ainda fez muitas amizades. As últimas páginas falam muito sobre gentileza e são maravilhosas. Ou eu deveria dizer extraordinárias?
Se você ainda não leu Extraordinário, não deixe de fazer esse favor a si!