Resto qui — Marco Balzano

Título: Resto qui 
Autor: Marco Balzano 
Editora: Einaudi 
Páginas: 192 
Ano: 2020 
Título em português: Daqui não saio

Sabe aquele livro que a gente se pergunta por que nunca leu antes? Pois bem, Resto qui é um desses.

Não digo isso pela sua escrita, que não é tão especial assim, sendo direta e até um pouco dura. Mas, puderas: seus temas não dão muita escolha. E são justamente eles que, para mim, dão tanto destaque a esta história.

“Pelo contrário, vou te contar sobre a nossa vida, sobre sermos sobreviventes. Vou te contar sobre aquilo que aconteceu aqui em Curon. No vilarejo que não existe mais”

O texto começa com uma mãe falando com sua filha, numa espécie de carta, e, neste primeiro momento, podemos perceber uma dor que ainda não compreendemos muito bem a origem, o que nos faz querer seguir adiante, mesmo com medo do que pode vir (e que já sentimos que não tem como ser bom).

“Você não sabe nada sobre mim e, no entanto, sabe muito porque é minha filha”

Logo, então, chegamos ao primeiro assunto que me faz gostar desse livro: Curon

Talvez você já tenha ouvido falar desta pequena cidade italiana, conhecida pela torre de um campanário que desponta do meio de um lago. Há inclusive uma série da Netflix com este nome.

O que poucos sabem é a verdadeira história de Curon, e é justamente isso que encontraremos em Resto qui. Uma história que tem muita relação com o nazismo e a guerra, dois temas que me são caros e que contribuíram para o meu encantamento com esta narrativa, porque aqui aparecem de uma perspectiva diferente da que costumamos encontrar.

“O nazismo era a maior vergonha e cedo ou tarde o mundo perceberia isso”

Apesar de estar na Itália, Curon é uma cidade que faz fronteira com a Suíça e a Áustria, tendo mais características alemãs que italianas propriamente ditas. Seus habitantes, por exemplo, falavam alemão, o que foi um grande problema à época de Mussolini, que obrigou toda a Itália a falar o italiano.

“Contudo o italiano e o alemão eram muros que continuavam a ser levantados. As línguas tinham se tornado marcas de raça. Os ditadores as tinham transformado em armas e declarações de guerra”

Tina, a narradora de Resto qui — assim como praticamente toda a população de Curon —, era uma pessoa de origem e hábitos humildes. Mas havia algo que unia esse povo: o sentimento de lar que a cidade gerava neles. E, por isso, eles lutaram até o fim contra a construção da represa que deixou toda a cidade submersa, restando apenas o campanário da igreja.

“Se nós formos embora, eles terão vencido”

O problema é que os habitantes de Curon não tinham apenas a diga para se preocupar: durante a guerra, tiveram de fazer escolhas nada fáceis.

Enquanto alguns voluntariamente se alistavam aos exércitos nazistas, outros, como o marido de Tina, preferiam desertar e, por isso, tiveram de fugir e viver escondidos.

“Era difícil aceitar, mas tudo havia ficado para trás. Eu deveria apenas não pensar mais nisso”

Resto qui é uma história real e necessária, que vai nos fazer refletir sobre nossas origens, o sentimento de pertencimento, o poder de uma língua, as dores da guerra e do distanciamento dos filhos.

“Era a minha dor secreta, sobre a qual não falavo com ninguém. Nem comigo mesma”

Dentre as tantas críticas que uma história como essa pode fazer, Resto qui ainda se encerra com uma interessante reflexão sobre a banalização turistica da história local.

“A vida era mais uma questão de afetos que de ideias”

O livro foi traduzido para o português, recebendo o título de Daqui não saio. No entanto, li o original, em italiano, e os trechos acima foram traduzidos por mim. Abaixo, deixo, na ordem usada ao longo desta resenha, os trechos tais quais li no livro.

“Ti racconterò invece della vita di noi, del nostro essere sopravvissuti. Ti dirò di quello che è successo qui a Curon. Nel paese che non c’è più”

“Non sai niente di me, eppure sai tanto perché sei mia figlia”

“Il nazismo era la vergogna piú grande e presto o tardi il mondo se ne sarebbe accorto”

“Invece l’italiano e il tedesco erano muri che continuavano ad alzarsi. Le lingue erano diventate marchi di razza. I dittatori le avevano trasformate in armi e dichiarazioni di guerra”

“Se ce ne andremo avranno vinto loro”

“Era difficile da accettare, ma tutto era alle spalle. Dovevo solo non pensarti piú”

“Era il mio dolore segreto, di cui non parlavo con nessuno. Nemmeno con me stessa”

“La vita era una questione di idee prima che di affetti”

É possível ler qualquer uma das versões em formato ebook, basta clicar na que você preferir abaixo:

As pequenas virtudes — Natalia Ginzburg

Título: As pequenas virtudes
Original: Le piccole virtù
Autora: Natalia Ginzburg
Editora: Einaudi
Páginas: 65 
Ano: 1962 

Antes de começar a resenha em si, gostaria de fazer como a própria Natalia Ginzburg e deixar aqui um aviso: li o livro em língua italiana (por isso não tem o nome do tradutor ali em cima), mas trarei as citações de acordo com a tradução feita por Maurício Santana Dias, na edição brasileira, publicada em 2015 pela Cosac Naify.

O aviso da autora, por outro lado, é sobre o fato de que a obra reúne ensaios publicados em diferentes jornais e revistas, bem como em períodos diferentes de sua vida. E já com esse aviso inicial temos a oportunidade de nos deliciar com a escrita de Natalia. As pequenas virtudes é aquele livro que queremos ler, mas que até entrar em contato com ele, não temos como saber (então se permita entrar em contato com ele!).

“E, vejam bem, não é que se possa esperar da escrita um consolo para a tristeza”

O livro é dividido em duas partes, mas confesso que não ficou muito claro para mim se há algo que justifique essa divisão. De qualquer forma, a primeira parte é composta pelos seguintes títulos:

  • Inverno em Abruzzo
  • Os sapatos rotos
  • Retrato de um amigo
  • Elogio e lamento da Inglaterra
  • La maison Volpé
  • Ele e eu

Não vou falar sobre cada um deles, mas também não posso deixar de comentar que Inverno em Abruzzo foi um bom começo para este livro. Ele nos dá a dimensão da pessoalidade por trás dos textos, além de já nos permitir uma deliciosa viagem através das palavras da autora.

“Uma vez sofrida, jamais se esquece a experiência do mal”

E quando eu digo “deliciosa viagem” não estou necessariamente falando de algo feliz, muito menos de uma passeio, mas do fato que a escrita é tão envolvente e tão bem construída que todo o cenário surge diante de nossos olhos.

“Mas aquele era o tempo melhor da minha vida, e só agora, que me escapou para sempre, só agora eu sei”

Mas desses primeiros ensaios, aquele que mais chamou minha atenção foi Os sapatos rotos. Isso porque o texto fala muito mais que sobre “sapatos quebrados”. Fala sobre viver e, consequentemente, sofrer. E sobre seguir adiante mesmo assim. A metáfora presente neste ensaio é tão bem construída que nos emociona.

“Tenho os sapatos rotos, e a amiga com quem vivo neste momento também tem os sapatos rotos”

A imagem dos sapatos, aliás, não aparece apenas neste texto, mas também em outros. E é algo que realmente nos faz pensar.

“Aliás, para aprender mais tarde a caminhar com sapatos rotos talvez seja bom ter os pés enxutos e aquecidos quando se é criança”

Eu falei que não ia comentar texto por texto, mas os ensaios dessa primeira parte são bem marcantes, então também gostaria de dizer que achei divertido o Elogio e lamento da Inglaterra e que achei curiosa a relação de amizade apresentada em Retrato de um amigo.

“Sobre minhas dores reais, não choro nunca”

Mas o ensaio que não posso mesmo deixar de citar é Ele e eu. Um retrato de uma relação real. Até demais. Tudo começa às mil maravilhas e, pouco a pouco, vai se tornando algo complicado. Triste. E a maneira que Natalia apresenta isso é muito bonita.

“Acho que ele gosta que eu dependa dele, em tantos aspectos”

Os textos da segunda parte, por sua vez, são:

  • O filho do homem
  • O meu ofício
  • Silêncio
  • As relações humanas
  • As pequenas virtudes

Nessa segunda parte achei alguns textos mais longos e cansativos. Mas O meu ofício é bem interessante, porque a autora vai traçando sua vida de escritora, nos contando sobre inspirações e momentos. E imagine tudo isso feito com essa linguagem tão dela que, a essa altura, já estamos mais que afeiçoados.

“Assim, e cada vez mais, tenho a sensação de errar em cada coisa que faço”

Agora As pequenas virtudes mais que ser o ensaio que dá nome ao livro, é, também, um texto lindíssimo. Fechou com chave de ouro, nos deixando reflexivos e, ao mesmo tempo, com o coração quentinho.

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