Música em contos 2 – Susana Silva (parte 5)

música em contos 5

Hoje venho apresentar o último conto (já??) da provinha que tive de Música em contos 2. E esse foi para fechar com chave de ouro, sendo um conto bem diferente dos anteriores. Escrito por Lu Franzin, o título dele é Deus me deu você, e ele é baseado na música God gave me you (Blake Shelton). A canção faz parte da história, o que justifica a semelhança dos títulos.

Considero esse conto o mais diferente dos outros que li, por ele ter certo grau de fantasia. A protagonista Makena — ou Kena, como prefere ser chamada — possui o poder de “absorver” a dor dos animais. Ver um animal sofrendo, portanto, é uma tortura imensa para ela. E, para melhorar, seu pai é veterinário. Sua mãe, por outro lado, é pediatra infantil, e adoraria — apesar de tudo — que esse poder funcionasse com as crianças também.

Mas para termos ideia do tamanho desse dom, Kena não consegue se formar em veterinária, pois o sofrimento dos animais era extenuante demais para ela. Quando um animal está mal, ela absorve essa dor e, consequentemente perde sua própria energia, colocando, algumas vezes, em risco a própria vida.

E Kena ainda é daquelas protagonistas teimosas, capazes de “sequestrar” um animal que estivesse mal, para poder curá-lo na clínica de seu pai. E claro que isso a coloca em diversas encrencas. Mas é em um desses “sequestros” que ela conhece Daniel, que apesar da raiva consegue reconhecer o que ela fizera por seu querido cachorro.

Foi muito bom ter conhecido um pouco dessa antologia, organizada por Susana Silva. O livro ainda não tem previsão de lançamento (mas falta pouco!) porém, quem quiser conhecer um trabalho da autora nessa mesma linha pode ler Música em contos 1.

A ascensão da Dama da Noite — Luciano Maia

Título: A ascensão da Dama da Noite — As crônicas de Aljana
Autor: Luciano Maia
Editora: Viseu
Páginas: 250
Ano: 2019

ascensão

A resenha de hoje é para você que gosta de fantasias bem escritas ou então para você que acha que não há bons livros de fantasias escritos por brasileiros (é cada coisa que a gente tem que ler nesse mundo, né?).

A ascensão da Dama da Noite nos traz uma narrativa complexa. Para que vocês tenham uma ideia, a história tem três focos que vão se alternando a cada capítulo: a história da Dama da Noite, que dá título ao livro, e que vive com o Grão Mestre; cenas que se passam no castelo do Rei Marcado, nos mostrando, principalmente, o monarca em questão; a libertação (em diversos sentidos) de alguns personagens e os rumos que eles tomam, guiados, de uma forma ou de outra, pelo Grande Rei.

“— É preciso compreender o passado para podermos nos transformar em algo melhor”

Eu demorei um pouco para realmente mergulhar na história devido à minha dificuldade com nomes, ainda mais porque esse livro não facilitou nem um pouco: passei capítulos confundindo o Grande Rei e o Grão Mestre (shame on me).

“Revelar o nome a alguém significava tornar-se vulnerável”

Em A ascensão da Dama da Noite conhecemos Lúmen, um continente controlado pelos detentores de magia, os Magis, que são seres que possuem uma vesícula, além da glândula Magísterus, que os permite produzir o mana necessário para sentir e manipular a magia. Como em toda sociedade, porém, há Magis mais poderosos que outros e existem diversas formas de dominação.

“O mundo era injusto. Os perversos conquistavam o que queriam e os bons caíam. Parecia-lhe que a maldade compensava”

Este é um livro de fantasia que fala muito sobre vingança, poder, força. É como se uma nuvem escura pairasse sobre a história. Mas também é um livro que nos faz pensar, que toca em pontos importantes sobre quem somos e as escolhas que fazemos. Um livro com metáforas e com muitas possibilidades interpretativas.

“Cada escolha que fazemos nos leva a algum lugar, as suas os trouxeram até aqui”

Ao longo das leituras, conforme as peças desse quebra-cabeça narrativo vão se encaixando, vamos nos surpreendendo mais e mais. Mas, sendo A ascensão da Dama da Noite apenas o primeiro volume das Crônicas de Aljana, há muito por vir! Algumas pontas ainda ficaram soltas e há muito para acontecer e ser revelado neste mundo (literalmente) fantástico.

“O mundo havia se transformado num lugar imprevisível e perigoso”

Apesar dos três focos narrativos que mencionei no início deste resenha, fica claro (até mesmo pelo título) que o destaque deste primeiro volume é a jornada da Dama da Noite, e, por isso, acompanhamos acontecimentos desde a sua infância até o momento em que ela ascende a altos cargos, antes tão inalcançáveis para ela.

“Muitos vão duvidar de sua capacidade, de seu poder e até de quem você é”

Que jornada surpreendente. Que personagem única. a Dama da Noite é aquela mulher que teve uma infância difícil e solitária e que deu a volta por cima, se recuperou e lutou para se tornar reconhecida. Mas também para se vingar de tudo e todos…

Se você acha que não pode deixar de conhecer todos os mistérios de A ascensão da Dama da Noite, clique aqui.

 

Guardião do medo – Michelle Pereira

Título: Guardião do medo
Autor: Michelle Pereira
Editora: Editora Garcia
Páginas: 252
Ano: 2016 (1º edição)

guardião do medo

Já adianto que falar de Guardião do medo não será nem um pouco fácil, simplesmente porque esse livro é doido demais (calma, no bom sentido!). A Michelle (autora parceira <3) disse que eu ia sentir raiva do personagem principal desse livro, mas eu, como sempre, saio em defesa desse ser… Bom, vamos à história para que vocês possam compreender tudo isso.

“Por que julgar uma pessoa pela aparência e não pelo caráter?”

Guardião do medo é narrado por Alexander Magnus, um rapaz que cresceu em um terrível orfanato — que é apresentado para nós logo nas primeiras páginas — e que, aos 20 anos é internado com câncer.

“Nunca mais senti frio. Mas também excluí qualquer possibilidade de ter um amigo”

Imaginem vocês crescer em um lugar onde não há amor, onde as demais crianças fazem bullying com você e quando você se torna um adulto, já machucado disso tudo, se descobre com uma doença que está, aos poucos, te matando por dentro?

“Eu sou um jovem que poderia ser tudo. Poderia ter sonhos. Poderia ter uma família. Poderia ter um emprego. Mas estou mergulhado na morte”

Alexander é aquele paciente que certamente todos os médicos e enfermeiras odeiam: fechado, mal-humorado, sem fé na vida. Ele apenas deseja morrer logo, mas não tem coragem de se matar, então o máximo que ele faz é não comer muito a comida do hospital. Até porque ele vive revoltado com o fato de sempre servirem sopa ou algo que não precisa ser mastigado.

“Ninguém deveria viver a vida que você estava vivendo, se escondendo dentro de mágoas e tormentos e esperando pela morte todos os dias”

Alexander é um ser descrente de tudo até que Raya aparece. Ela é a guardiã dele e tenta mostrá-lo que há um lado bom em toda essa história. E mais, que Alexander pode escolher juntar-se ao bem. Justo ele, que enquanto esperava a morte, se via indo para o inferno.

“Quando está escuro, todos os nossos medos vêm à tona. Quando não há ninguém acordado para ouvir nossos lamentos, ele parecem nos afogar”

Eu confesso que quando a Raya surgiu eu fiquei com um pé atrás em relação à história. Isso porque, no início, ela ficava tentando convencer Alexander de que ainda havia motivos para acreditar no bem. Gente, olha a história dele! Qualquer pessoa teria perdido toda sua fé na humanidade.

“—Eu não tenho motivos para achar que a ajuda chegou agora. Não há mais tempo. Não há como voltar atrás”

Mas eu gostei da transformação que se deu em Alexander. Obviamente ele não vira a pessoa mais positiva e feliz do mundo, pois isso seria muito inverossímil, mas ele se permite olhar para o lado. E isso faz com que ele conheça Mateus, converse mais com a enfermeira Lúcia e, mais tarde, venha a conhecer Marcela.

“—Mas é um fato, Alexander: você não precisa ser uma pessoa má porque as pessoas lhe fizeram mal”

Mas voltemos à Raya: ela é um anjo, uma Guardiã da Criação, e sua missão é fazer com que Alexander acredite no bem e escolha isso em sua morte. E Raya vai até as últimas consequências para convencer seu protegido. E por que? Porque Alexander é um Vórtice do Medo, uma criatura poderosíssima tanto para o bem quanto para o mal. E obviamente as Filhas de Daemon, ou seja, o lado mau, está vencendo dentro do coração de Alexander.

“É melhor não tentar entender isso pela lógica. É melhor apenas sentir”

O espaço da história é bem restrito — ela se passa basicamente no hospital — e, ainda assim, nos surpreendemos com o tanto de coisa que pode acontecer nesse ambiente tão “controlado”. A narrativa, como eu disse, é feita por Alexander, mas há alguns interlúdios escritos por Raya também. E ela, além de esconder muitas coisas de Alexander, nos esconde muitas outras. Que personagem misteriosa e intensa!

“Como ela podia ter olhos tão expressivos?”

Se você quer ler um livro que parece que trará elementos “normais” e, de repente, te joga no olho do furacão, trazendo diversos mistérios, imprevistos e angústias, recomendo Guardião do medo. Só não seja como o Alexander: não tenha pressa de descobrir as respostas, porque quando elas chegam, meus amigos… Que reviravolta!

“Acho que não posso confiar em ninguém”

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citações #19 — Adelphos

Citações #19

Quem leu a resenha de Adelphos deve ter percebido o quanto amei esse livro. Escrito por M. Pattal e publicado em 2016 pela PenDragon, Adelphos é um livro de fantasia que consegue dosar muito bem ficção e realidade.

A resenha desse livro ficou bem grandinha e, ainda assim, muitas passagens ficaram de fora. Mas também, como abarcar tudo o que está contido em um livro que fala sobre amizade, justiça, humildade, perseverança e tantas coisas mais?

Por exemplo, logo no início do livro recebemos uma bela lição no quesito vingança:

“Decisões tomadas pela vingança geralmente são insensatas” (p.74)

Ou seja, não devemos nos guiar pelas “brilhantes ideias” que temos quando estamos tomados pela raiva. Ao contrário: devemos deixar que nossa cabeça esfrie e nossa mente clareie. Essa também é uma mensagem importante para a história que vemos em Adelphos e isso nos leva a outro trecho do livro:

“Se você estiver magoada com alguém, é necessário perdoá-la e não esperar que o tempo resolva as coisas. O tempo não resolve nada, quem resolve é você” (p.221)

Ah, sim, esqueci de avisar que Adelphos é tapa na cara atrás de tapa na cara!

Mas, falando em tempo…

“— Você pode possuir muito pouco ou quase nada em relação aos bens materiais, mas sempre terá o mesmo tempo que qualquer pessoa no mundo” (p.220)

Bom, a passagem acima pode ser problemática se a levarmos para o lado da meritocracia, mas não a vejo assim. A questão é que não é apenas com bem materiais que trilhamos nosso caminho. Precisamos de tempo e experiência para crescermos e isso, todos temos igualmente, mas nem todos o usam com sabedoria (alô, procrastinação). E ainda nessa linha, falando sobre tempo, outra passagem excelente:

“Ficarmos presos ao passado nos impede de viver o presente e de construir o nosso futuro” (p.337)

Somos quem somos por tudo o que vivemos, mas não podemos deixar que as coisas ruins do nosso passado afetem nossas escolhas presentes e nos impeçam de crescer. Está certo que o ser humana consegue ser bem cruel, por vezes…

“Com as pessoas é diferente. Basta uma falha com alguém para que nos descartem. E não apena isso, se não correspondemos às expectativas de alguns, já não servimos para nada, somos desprezados” (p.98)

É por isso que o mundo precisa de mais empatia e de mais humildade. A humildade, aliás, vem muito bem definida em Adelphos:

“Ser humilde é colocar o outro em primeiro lugar. Por isso condenamos o ato de diminuir as pessoas, para nós todas têm a sua importância e um propósito neste mundo” (p.149)

E a gente nunca sabe pelo que o outro está passando não é mesmo? Por falar nisso, eu comentei que Adelphos abarca muitos assuntos, certo? Pois então, na história também há muitos sentimentos. Por isso, termino esse post (que já está ficando imenso) com uma passagem belíssima, para que possamos sempre nos lembrar do poder das lágrimas:

“— As lágrimas não são nossas inimigas. Elas nos ajudam a externar nossas emoções e evitar que implodamos por dentro” (p.318)

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