Amor I love you — Marisa Monte

Em junho eu tive a grande oportunidade de ouvir Marisa Monte ao vivo e, desde então, tenho estado um pouco (muito) mais fascinada com essa artista e, sobretudo, com suas músicas, que falam tão bem dos mais diversos momentos de nossas vidas.

Foi durante o show — num momento um tanto quanto chocante, diga-se de passagem — que me veio o estalo de que eu ainda não tinha trazido para cá a música Amor I love you e, principalmente, a intertextualidade que acontece nela. Mas vamos por partes.

Em primeiro lugar, é preciso dizer que o “momento chocante” do show foi perceber que ninguém mais ninguém menos que o próprio Arnaldo Antunes subiu ao palco para recitar os 10 segundos da obra que dialoga diretamente com Amor I love you. E é a partir daqui que este post começa de verdade.

Amor I love you faz parte do álbum Memórias, Crônicas e Declarações de amor, gravado em 2000. A letra foi composta por Carlinhos Brown e Marisa Monte e, como mencionado, conta com uma participação especial do Arnaldo Antunes.

Num primeiro momento, pelo título e pela letra, parece apenas mais uma música romântica, uma declaração de amor. Mas, basta um olhar mais atento e percebemos que esse é… um amor que não pode ser declarado e vivido como se espera?

É, é só assistir o clipe oficial (que colocarei ao final deste post) e essa suspeita acaba se confirmando: um casal idoso, apaixonado, mas cuja mulher esconde um grande segredo. Seu verdadeiro amor não é o seu marido.

Quando chegamos na metade da música, tudo se confirma: Arnaldo Antunes entra recitando Primo Basílio do Eça de Queirós, uma obra literária com a seguinte sinopse:

“Durante uma viagem prolongada de seu marido, Luísa se deixa seduzir por Basílio, um primo seu que voltava a Portugal depois de uma temporada no Brasil. Imprudentes e indiscretos, os amantes acabam flagrados por Juliana, a empregada da casa, que passa a chantagear a patroa. Com o anúncio da iminente volta do marido, está armado o cenário para um caso exemplar de decadência do estilo de vida pequeno-burguês, com seus preconceitos e moralismos, seus tipos parasitários, suas relações amesquinhadas e seu frágil equilíbrio” 

Uma história em que a protagonista busca amor e romantismo (como a música parece carregar quase em excesso) e acaba por encontrá-los não em seu “verdadeiro” relacionamento, mas no amor e na atenção que lhe são entregues fora do casamento.

E por que a música, sendo inspirada em uma obra literária portuguesa, carrega em seu título e refrão a expressão do amor em inglês?

Aqui são muitas as explicações possíveis. A começar pelo fato de que, inserindo I love you, o amor expresso na música torna-se quase “universal”.

Mas há também a época em que a música foi gravada. Se hoje ainda somos muito “submissos” à cultura norte-americana, antes talvez fôssemos ainda mais.

E ao cantar esse amor verdadeiro, mas não “tradicional”, com um romantismo exagerado, Marisa Monte (e Carlinhos Brown) também ironizam um pouco daquilo que se via como o melhor que se produzia em termos de cultura (músicas melosas e com backing vocals igualmente melosos).

Lendo agora o texto (e a citação) de Amor I love you o que você acha disso tudo? Eu só acho tudo ainda mais genial agora que parei para refletir sobre o assunto.

Deixa eu dizer que te amo
Deixa eu pensar em você
Isso me acalma, me acolhe a alma
Isso me ajuda a viver

Hoje contei pras paredes
Coisas do meu coração
Passeei no tempo, caminhei nas horas
Mais do que passo a paixão
É o espelho sem razão
Quer amor, fique aqui

Meu peito agora dispara
Vivo em constante alegria
É o amor que está aqui

Amor, I love you
Amor, I love you
Amor, I love you
Amor, I love you

Tinha suspirado
Tinha beijado o papel devotamente!
Era a primeira vez que lhe escreviam
Aquelas sentimentalidades

E o seu orgulho dilatava-se
Ao calor amoroso que saía delas
Como um corpo ressequido
Que se estira num banho tépido

Sentia um acréscimo de estima por si mesma
E parecia-lhe que entrava
Enfim, numa existência
Superiormente interessante

Onde cada hora tinha o seu encanto diferente
Cada passo conduzia a um êxtase
E a alma se cobria
De um luxo radioso de sensações!

Amor, I love you
Amor, I love you
Amor, I love you
Amor, I love you

Música: versão brasileira ou italiana?

Você sabia que existem músicas que têm uma versão em português e outra em italiano? Eu já comentei sobre uma delas neste post, mas hoje venho aqui para fazer um apanhado que, espero eu, vai te surpreender!

Vamos começar com algumas combinações bem fáceis (e também as primeiras que descobri): Laura Pausini e Sandy & Júnior. Sim! Você conhece Inesquecível? Ela é uma adaptação de Incancellabile, lançada em 1996, enquanto a versão brasileira é de 1997. Neste caso, é praticamente uma tradução, com as devidas adaptações para manter o ritmo e o sentido. Veja:

De Sandy & Júnior e Laura Pausini temos, ainda, Não ter, versão brasileira de Non c’è. Além disso, eles também gravaram Quando você passa, versão brasileira de Tutururu (Francesco Boccia).

Bom, essas eram fáceis. Mas, um belo dia, eu já estava na faculdade e ouvi uma música chamada La mia storia tra le dita (de 1995) e pensei “caramba, conheço essa música!”. E sim, em português, como Quem de nós dois (de 2001). As letras, aqui, já são mais diferentes, sendo mantida apenas a melodia. Aqui vai:

Ainda na faculdade, meu querido Spotify me apresentou La notte (2012), cuja relação com A noite (2014) é bem fácil de se fazer, apesar de, novamente, as letras serem bem diferentes!

Fazendo esse post, descobri, ainda, Gente di mare (1988) e a versão brasileira Felicidade (1988):

Mais recentemente, ouvi ainda È po’ che fa (1982) e a versão brasileira Bem que se quis (1989), também bem diferentes uma da outra (no quesito letra):

Agora, claro, o mais chocante de todos: sabe a música Eva (1997)? Sim, o axé! Pois é, ela também é uma versão brasileira! A música original também chama Eva (1982), e as diferenças nos textos são poucas, apenas adaptações necessárias. Por outro lado, claro, essa é a música que a melodia muda um pouco mais (afinal, virou um axé!):

Uma vez li que essa prática de fazer versões em outras línguas de algumas músicas é algo que ocorre com certa frequência (certamente você já ouviu versões brasileiras de muitas músicas que são, originalmente, em inglês) e é uma técnica antiga.

E não somos apenas nós que fazemos isso não! Nos anos 60, na Itália, era comum que se pegasse as músicas do Reino Unido ou dos Estados Unidos que estivessem fazendo muito sucesso e se fizesse uma versão italiana, a ser cantada por um cantor ou grupo muito famoso. Quer um exemplo? Veja aqui:

E você, que versões/traduções conhece? Não esquece de me contar nos comentários, eu adoro essas coisas! Recentemente, li um livro que me apresentou algumas pérola nesse sentido (incluindo mais Sandy & Júnior!).