Pra não fazer desfeita — Andrea Romão

Título: Pra não fazer desfeita
Autora: Andrea Romão
Editora: Duplo Sentido Editorial
Páginas: 48
Ano: 2021

Seguindo em nossa viagem pelo Brasil, com o ônibus da Duplo Sentido Editorial, ainda na região Sudeste, começo com uma pergunta: é possível falar mal de Minas Gerais? Ao menos como turista, acho difícil.

Já tive a sorte de conhecer algumas cidades — Tiradentes, São João del Rei, Belo Horizonte, além daquelas que sempre me deixam em dúvida se fazem parte de São Paulo ou Minas, como Monte Verde e Poços de Caldas — e até mesmo a capital carrega um clima muito gostoso (no sentido da atmosfera do lugar e das pessoas, não necessariamente o tempo climático — este, aliás, bem desfavorável da última vez que estive em terras mineiras…), além de muita cultura (sério, BH tem muito museu incrível!).

“Viver em meu estado e morar numa rua plana é um verdadeiro luxo que ainda não faz parte das nossas vidas”

Através da protagonista Cecília, neste conto vamos conhecendo diversos traços mineiros muito interessantes que, confesso, eu não imaginava.

“Quando se é mineiro, chegar na hora significa chegar meia hora antes”

Toda a história, aliás, gira muito ao redor dessas características tão peculiares e que, colocadas da forma que foram colocadas, conseguem conferir um ar de tensão e, ao mesmo tempo, diversão — para nós leitores — à narrativa.

“Não é possível ter nascido em Minas Gerais e não estar constantemente pensando, considerando e sofrendo pelo sentimento alheio”

O drama de Cecília é que ela tem um namorado ultratímido e gostaria de apresentá-lo à família (pai e mãe apenas) em seu aniversário de 16 anos, mas não fazer uma festa de aniversário para toda a (enorme) família e vizinhança é uma afronta para eles.

“Um bom mineiro fingiria um desmaio para não ter que confrontar alguém”

E é a partir desse “drama” que vamos nos apaixonando cada vez mais pelo “jetim” mineiro, ao mesmo tempo em que torcemos para que Cecília encontre uma solução para a enrascada na qual se meteu.

“A frase ‘vou passar um cafezinho’ é a sentença final para decretar que ninguém irá embora tão cedo”

Aliás — sem spoilers, claro —, o final é muito bom! Então, como não poderia deixar de ser, convido você a ler este conto também. E se você ainda não assinava o projeto quando ele foi enviado, é só clicar aí embaixo para garantir o seu Pra não fazer desfeita.

Para ficar por dentro do projeto e conhecer os contos anteriores, não deixe de conferir as minhas resenhas também:

Desenredo — Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro

Talvez os leitores da clássica literatura brasileira estranhem o título deste post, mas já adianto que nem você leu errado e nem eu fiquei maluca. Hoje vou falar sobre uma música, mas não temos como não mencionar Guimarães quando vemos um título desses, certo?

Comecemos, então, pela literatura, já que ela é, também, o assunto principal deste blog: sou daquelas leitoras que pouco leu Guimarães Rosa. Ainda estou à espera do iluminado momento em que finalmente me sentirei pronta para embarcar na leitura de Grande Sertão: Veredas. Mas já li Primeiras Estórias, um livro de contos do autor. Isso aconteceu lá em 2014, quando eu estava na faculdade e ainda me lembro, olhando os títulos das histórias, de algumas sensações que tive ao conhecê-las.

Meu primeiro contato com a escrita e a obra de Guimarães, no entanto, foi justamente através de um conto de título Desenredo, que faz parte da obra Tutaméia: Terceiras Estórias. É difícil explicar o que esta narrativa me fez/faz experimentar. Há, até hoje, uma frase dela que repercute em mim:

“Todo abismo é navegável a barquinhos de papel”

Forte, não?

Tempos depois, um amigo — que sabia desse meu encantamento com as narrativas de Guimarães, em especial Desenredo — perguntou-me se eu conhecia a música de mesmo nome.

Tudo o que narrei até aqui estava esquecido em algum canto de minha memória, até que, semana passada, meu Spotify colocou para tocar Desenredo, interpretada pelo grupo Boca Livre. E foi assim que resolvi escrever aqui sobre essa música.

Pesquisando um pouco sobre ela, descobri que não há exatamente uma relação entre esta e o conto homônimo. Mas, Dori Caymmi estava lendo Guimarães quando compôs esta canção e, provavelmente influenciado pela leitura, estava relembrando os tempos em que vivera em Minas, unindo, assim, diversas imagens que podem encontrar ecos durante uma leitura da obra Rosiana.

Desenredo — a canção — foi composta em 1976, mas só foi gravada quatro anos depois, ganhando versões também nas vozes de Nana Caymmi, Edu Lobo e Roberta Sá. Ao final do post, deixarei a versão que escutei, pelo grupo Boca Livre.

O ritmo dela me traz uma sensação quase tão difícil de explicar quanto a leitura do conto mencionado, mas posso tentar definir como uma sensação de paz, tranquilidade.

É muito interessante notar, ao longo do texto da música, como a escolha do título faz sentido, havendo esse jogo entre as palavras “fio”, “enredo”, “tramas”, “novelo”, “trança”, “corda”, “enrosco”, que são termos que, pelo seu significado e usos na letra, estão diretamente ligados ao “desenredo”, ou seja, ao “ato ou efeito de desenredar; desenlace; solução”.

Também está muito presente, na música, uma certa imagem desoladora e a própria morte — sem disfarces e sem eufemismos —, figuras que igualmente encontramos nas obras de Guimarães Rosa.

Para quem quiser conferir com os próprios olhos e ouvidos, eis a letra e, logo em seguida, o vídeo da versão que mencionei:

Por toda terra que passo me espanta tudo que vejo
A morte tece seu fio de vida feita ao avesso
O olhar que prende anda solto
O olhar que solta anda preso
Mas quando eu chego eu me enredo
Nas tramas do teu desejo
O mundo todo marcado a ferro, fogo e desprezo
A vida é o fio do tempo, a morte o fim do novelo
O olhar que assusta anda morto
O olhar que avisa anda aceso
Mas quando eu chego eu me perco
Nas tranças do teu segredo
Ê Minas, ê Minas, é hora de partir, eu vou
Vou-me embora pra bem longe
A cera da vela queimando, o homem fazendo seu preço
A morte que a vida anda armando, a vida que a morte anda tendo
O olhar mais fraco anda afoito
O olhar mais forte, indefeso
Mas quando eu chego eu me enrosco
Nas cordas do seu cabelo
Ê Minas, ê Minas, é hora de partir, eu vou
Vou-me embora pra bem longe…

A melodia da alma — Maya Brito

Título: A melodia da alma
Autora: Maya Brito
Editora: Publicação independente
Páginas: 44
Ano: 2019

melodia da alma

A melodia da alma foi aquele livro que, antes de mais nada, me conquistou pela capa. Eu não posso ver uma história relacionada à música que eu já quero ler. E esse foi meu ponto fraco com relação à história, mas vamos à resenha para explicar melhor isso.

Quem nos conta sua própria história é Eliza, uma mineira que, de uma hora para outra abandona sua vida e sua música em Minas e se muda para São Paulo, onde dá início a uma nova vida, trabalhando com consultoria.

A narrativa começa doze anos depois desse episódio e os detalhes desse passado são revelados bem aos poucos, o que nos prende à leitura, porque estamos sempre querendo compreender o que há por trás dessa mulher que viveu uma mágoa tão grande que foi capaz de fazê-la mudar de rumo e se fechar a tudo e a todos.

“E ali estava ele pintando meu apartamento para trazer vida a ele, para tirar dele o que o fazia tão meu… O vazio”

Um dia, porém, o passado bate à porta de Eliza (quase que literalmente, digamos) e a vida de nossa protagonista vira de cabeça para baixo. Para nós, leitores, as peças do quebra-cabeça vão se encaixando e é praticamente impossível não ficar com um nó na garganta e lágrimas nos olhos.

“Perder pessoas importantes e, ao mesmo tempo, perder a música que preenchia nosso ser era uma dor absoluta. E eu a conhecia muito bem”

Em tão poucas páginas, Maya consegue nos falar tanto! Em A melodia da alma somos presenteados com uma história que fala sobre amor, amizade, traição, erros, recomeços e perdão. E não estou exagerando ao listar tudo isso (ainda correndo o risco de ter deixado importantes lições de fora).

Logo depois de terminar a leitura dessa obra, tive a sorte de poder conversar pessoalmente com a Maya e comentei como fui abalada por essa linda história e ela me respondeu que não esperava isso, que não imaginava que faria seus leitores chorarem. Mas, como disse meu namorado, um escritor não tem como saber o quanto irá mexer com seus leitores: ver Eliza abandonar seus sonhos, sua paixão, foi doloroso. E, depois, descobrir os motivos que a fizeram tomar tal decisão, é ainda mais triste. Mas a história é linda e nos enche de esperança. E terminamos (ao menos eu terminei) com um sorriso no rosto.

Você também quer conhecer a história da Eliza? Então corre aqui!