A maior resenha que escrevi ano passado (e talvez em toda a minha existência) foi, sem dúvidas, a da obra Clichês em Rosa, roxo e azul, da autora Maria Freitas, uma antologia com diversos contos com protagonismo bissexual.
Apesar da imensa resenha, comentando conto a conto, inúmeros quotes ficaram de fora, então hoje talvez tenhamos outro post imenso (e já peço desculpas por isso, mas eu não poderia deixar de compartilhar tantas frases marcantes por aqui).
Inclusive, gostaria de começar ressaltando as frases que falam sobre o tema central: a bissexualidade (e outras tantas formas de amar).
“Pensar nas coisas que nós temos que esconder me destrói”
(Conto: Mas… e se?)
“Como contar para a sua irmã que você está encantado por uma garota… e por um garoto também?”
(As razões de Henrique)
“Sempre achei aquela garota magnética”
(Conto: um corpo de verão)
“Eu já me esforçava para amar as minhas próprias imperfeições. Não seria tão difícil assim amar as dela também”
(Conto: um corpo de verão)
“Olho por cima do peito de Felipe e vejo que ele e Ana estão de mãos dadas. Não sinto ciúme. Sinto que tudo está certo. No lugar. Como o prólogo de um livro bom: apenas começando uma nova história”
(Bregafunk do amor)
Mas os contos não são só sobre isso. Cada história, a seu modo, entrega muito mais. Há, por exemplo, diversas passagens sobre a solidão.
“Como dizer a ele que receber um milhão de mensagens não afasta a solidão?”
(Azeitonas)
“Talvez a melhor coisa que eu faça nessa minha vida seja realmente seguir em frente”
(Azeitonas)
“A solidão era uma constante na minha vida”
(Bregafunk do amor)
“Eu conheço tão bem a solidão nos olhos de uma pessoa. Tenho espelho em casa”
(Bregafunk do amor)
E também sobre o medo.
“Você tem razão, eu estou feliz e tenho medo de perder isso”
(Conto: Mas… e se?)
“Tenho medo de voar e cair”
(Conto: Mas… e se?)
“Mas, agora, deitado ali, percebo que não ter medo é quase impossível quando se está feliz”
(Conto: Mas… e se?)
“Era como se ela quisesse se fechar em uma casca, onde ninguém pudesse atingi-la, onde ninguém pudesse chegar até ela”
(Conto: um corpo de verão)
O livro fala, ainda, sobre a falta e a tristeza que todos os sentimentos mencionados até aqui podem gerar.
“Abraço essa mulher como se nunca mais fosse abraçar alguém na vida”
(Conto: Mas… e se?)
“Nessa nossa vida, a gente precisa se acostumar com a falta”
(Conto: Mas… e se?)
“É difícil hoje, foi difícil ontem, mas espero que não precise ser difícil amanhã.”
(Azeitonas)
“E, nesse jogo de War, não quero que a tristeza conquiste todos os meus territórios”
“Preciso estar em movimento, sempre, senão minha tristeza me engole”
(Um papai Noel de outro planeta)
A verdade é que o conjunto da obra nos faz refletir — e muito — sobre a complexidade das relações humanas, seja com o outro, seja com nós mesmos.
“A época que morei com a minha avó foi muito difícil, tipo, muito mesmo. Acho que não me adaptei à cidade grande até hoje. Barulho demais, longe demais, carros demais. Gente demais. Talvez seja por isso que escolhi fazer minha faculdade no interior, perto de onde cresci. Sei lá, eu devo ser uma pessoa de raízes”
(Conto: um corpo de verão)
“Homens héteros (e cis) têm muitíssima dificuldade em demonstrar qualquer tipo de afeto básico por medo de ferir sua pobre masculinidade frágil”
(Conto: um corpo de verão)
“Sinceramente, às vezes eu ficava na dúvida se estava apaixonada ou tendo um ataque cardíaco”
(Conto: um corpo de verão)
“Tentei explicar coisas que eu nem sabia que estava guardando dentro de mim”
(Conto: um corpo de verão)
“Bia, só a gente sabe a nossa dor”
(Conto: um corpo de verão)
“Quando nossos olhos se cruzam, sinto que perdi tudo”
(Estrela e a flor)
“Algumas coisas são facilmente substituíveis, outras não”
(Azeitonas)
“Não fomos capazes de enfrentar nada, não é? Você era a minha pessoa, como foi que a gente se perdeu?”
(Azeitonas)
“Ultimamente, vinha respondendo todo mundo no automático, sem realmente me conectar com ninguém”
(Azeitonas)
“Desde o meu último namoro — que deu completamente errado —, jurei que não seria trouxa. Fui trouxa”
(As razões de Henrique)
“Só sabia sentir e sentia demais”
(As razões de Henrique)
“Mesmo sendo nova na cidade, dá para perceber que, ainda que também haja conflitos e diferenças, as pessoas daqui são mais acolhedoras”
(Bregafunk do amor)
“Sou extremamente grata por tudo que ela fez desde que eu cheguei aqui, aliás de antes. Minha vida andava muito vazia até que ela me acolheu e me trouxe para cá. Me sinto abraçada todo dia”
(Bregafunk do amor)
“De alguma forma, esse olhar me reflete e me completa”
(Bregafunk do amor)
“Ele foi meu fã, quando tudo o que eu queria era um amigo”
(Bregafunk do amor)
E também nos lembra da importância da comunicação, tão subestimada nos dias de hoje.
“As palavras se perdem dentro de mim”
(Conto: Mas… e se?)
“Mas pra uma conversa existir é preciso que as duas partes queiram falar e ouvir”
(Azeitonas)
“Às vezes, acho que essa sensação de que alguém está apertando minha garganta, impedindo o ar e as palavras de saírem, nunca mais vai embora”
(Um papai Noel de outro planeta)
Não posso deixar de trazer, também, algumas reflexões importantes sobre o tempo, o fracasso, a decepção.
“Detestava perder tempo. Sabia que o relógio andava rápido demais”
(As razões de Henrique)
“E a pergunta mais difícil de responder, no fim das contas, é: quem é que vai nos enxergar, se estamos todos com pressa?”
(As razões de Henrique)
“Tecnicamente, o próprio tempo-espaço encontra maneiras de colocar tudo no lugar e de curar a si mesmo”
(Um papai Noel de outro planeta)
“Fracasso é não saber a hora certa de desistir, o momento oportuno para abandonar o barco e começar a nadar”
(As razões de Henrique)
“Não sei o que acontece, mas toda vez que me decepciono com algo uma dor crescente invade meu peito, causando um calafrio horrível. Uma vontade de levantar e ir embora. Fugir”
(Bregafunk do amor)
“Lembro da frase que minha psicóloga sempre usa: ‘Estar vivo é decepcionar e ser decepcionada’”
(Bregafunk do amor)
“Estou ainda mais decepcionada comigo mesma, por querer tanto algo e não ter a capacidade de expressar em palavras meus desejos”
(Bregafunk do amor)
A obra te interessou? Então não deixe de ler a resenha completa e, claro, garantir o seu exemplar.
Título: Clichês em Rosa, Roxo e Azul: coleção de contos com protagonismo bissexual
Autora: Maria Freitas
Editora: Publicação independente
Páginas: 685
Ano: 2021
Introdução
Durante a pandemia que se iniciou em 2020 e, aqui no Brasil, se prolongou com um cenário tão terrível quanto em 2021, inúmeros autores e editoras deixaram, em algum momento, suas obras liberadas para download gratuito.
“Acho que o mundo não vai acabar. Ele só vai ser diferente daqui em diante”
(Conto: Amor de janela)
Muitos artistas — ao menos aqueles que conseguiram manter um pouco de sanidade em meio ao caos — também aproveitaram esse período para produzir e publicar.
“Via na expressão artística a chance de escapar um pouquinho, de atingir o outro, de mudar o mundo”
(Conto: As razões de Henrique)
Foi justamente nessa época que surgiram os contos da Maria Freitas, reunidos, posteriormente no livro Clichês em rosa, roxo e azul: coleção de contos com protagonismo bissexual.
“Estou muito longe de ser aquilo que esperam que eu seja e de amar o tipo de pessoa que eles esperam que eu ame”
(Conto: Mas… e se?)
Foram inúmeras as vezes que essas histórias apareceram para mim, mas foi somente agora que realmente parei para entrar em contato com elas. E, como sempre, acredito que foi no momento certo.
“É difícil não se sentir um incômodo quando você passou a vida inteira se sentindo exatamente desse jeito”
(Conto: um corpo de verão)
O livro me tocou bastante e os contos, cada um à sua maneira, ao seu estilo, me fizeram refletir sobre inúmeros assuntos (para além, claro, do protagonismo bissexual). Assim sendo, achei que seria justo comentar um a um, então esse post talvez fique um pouco longo, mas é por uma ótima causa.
“Eu entendo, Cecília. Mas é preciso estar vivo pra militar”
(Conto: Azeitonas)
Sobre o livro
Antes, porém, alguns apontamentos sobre a obra como um todo: apesar da grande quantidade de páginas (são mais de 600), a leitura flui muito rapidamente, afinal são diversos contos reunidos e todos eles conseguem nos fazer mergulhar na história.
“Não preciso nem abrir os olhos para saber que estou no lugar certo”
(Conto: Emma, Cobra e a criatura na parede)
Além disso, é muito interessante ver que diversas narrativas, de alguma forma, se conectam, assim como há elementos que se repetem, como, por exemplo, a presença de pesadelos. Também dei altas risadas a cada título ou nome de autor real que vi levemente modificado ao longo dessas páginas. Sem contar o quentinho no coração de ver a literatura nacional sendo valorizada dentro da literatura nacional.
“Se ela gosta dos livros do Mariano, é porque tem bom caráter, não é?”
(Conto: Bregafunk do amor)
Gostei muito das descrições dos personagens, sempre inseridas de maneira natural e nos possibilitando uma visualização melhor deles. Outro ponto positivo é que a maioria dos personagens é “fora do padrão“, trazendo uma diversidade muito maior e natural à obra.
“Quando eu era criança, confiava demais em todo mundo. Mas aí me tornei um adolescente solitário, com tantas questões internas, tantas coisas guardadas dentro de mim, flutuando entre mil “eus”, que me fechei”
(Conto: Um papai Noel de outro planeta)
Sem mais delongas, vamos a cada uma das histórias, na ordem em que aparecem no livro que as reúne. Ao clicar sobre o título, você irá acessar a página da Amazon do conto em si. Ao final do post, deixarei o link para a obra completa, caso você, assim como eu, não queira perder nenhuma dessas maravilhosas histórias.
Depois de uma (longa) temporada de shows, o cantor sertanejo Henrique finalmente volta para casa.
“Cansei de dormir no banco de passageiro, cansei de chorar de saudade com a cabeça encostada no vidro frio da janela”
(Conto: Mas… e se?)
Mas, além de ter que se readaptar à calmaria da vida numa cidade do interior de Minas, ele também tem de se acostumar com o novo (não tão novo assim) namorado de sua esposa.
“Preciso beber algo quente, preciso da cafeína para me situar, para entender todas as mudanças que aconteceram na minha vida, quando eu não estava vivendo”
(Conto: Mas… e se?)
Confuso? Bem, esse conto já começa nos mostrando que o amor é algo realmente complexo e que, por vezes, há espaço para mais de um amor verdadeiro dentro de nossos corações.
“Quem nos bagunça são os outros”
(Conto: Mas… e se?)
E bota amor verdadeiro nisso, viu? Nem as traições do passado foram capazes de diminuí-lo (e claro que não darei mais detalhes, porque se eu estava muito curiosa para entender o passado desses personagens, também quero deixar a curiosidade te dominar).
Acho que o título desse conto já deixa bem claro um dos pontos principais dessa narrativa: a insegurança que temos com relação aos nossos corpos, principalmente diante de tantas pressões estéticas impostas pela mídia e pela sociedade.
“As pessoas sempre vão encontrar algo para dizer. Sempre. Não importa o que você faça, elas sempre vão estar lá para te julgar”
(Conto: um corpo de verão)
Mas Vanessa também tem muitas outras coisas com as quais lidar, como as dificuldades pelas quais a mãe passou e tudo o que teve de abrir mão para que a protagonista tivesse uma vida razoável.
“Nunca achei justo o sacrifício que ela teve que fazer. Nunca achei justo não termos escolha”
(Conto: um corpo de verão)
Não bastasse isso, Vanessa ainda queria poder beijar a amiga de infância. Amiga da qual havia se afastado quando tudo ficou confuso dentro dela.
“Parecia que a gente tinha se perdido uma da outra, se desconhecido”
(Conto: um corpo de verão)
E nessa busca uma pela outra e por si mesmas, vamos enxergando o quanto Vanessa guarda dentro de si, e vamos aprendendo a amá-la como ela mesma, aos poucos, também vai aprendendo.
“Algo se revirou no meu estômago. Uma sensação ruim de quem está sentindo coisas demais, coisas que não sabe como decifrar”
Acho que esse é um dos contos mais diferentes deste livro, numa pegada mais romance de época. Sim, com protagonismo bi, por que não?
“Ninguém se importa com o que sentimos”
(Conto: Espero que não perca)
Mas essa não era a única dificuldade das protagonistas dessa história: Mercedes pertencia à burguesia, enquanto Alzira era uma mulher negra. Já imaginou o tamanho do problema para uma história que começa por volta dos anos 30?
A história das duas se cruza pela primeira vez no velório da avó de Mercedes, uma mulher que, segundo as descrições, parece ter sido incrível.
“Há uma linha tênue que separa a vida da morte. Um suspiro. Um último sorriso. Mas nem sempre a morte é o fim de uma história. Às vezes, ela é o começo”
(Conto: Espero que não perca)
Dali para frente elas têm de lidar com os sentimentos do coração e os preconceitos que a cercam, fazendo nascer uma história cujo final emociona até o mais duro dos corações.
Amor de janela era um conto que eu tinha curiosidade em ler, porque o título já deixa bem explícito o período em que se passa a narrativa: a pandemia.
“— Ficar em casa é mais difícil pra algumas pessoas que pra outras, né?”
(Conto: Amor de janela)
Apesar de estar acostumada à paz do seu quarto, a pandemia também mexe muito com Camila, que tem de aprender (e tentar) a conviver com sua família.
“Já estava acostumada a ficar em casa o dia inteiro, mas a impossibilidade de sair deixa as coisas muito piores. É essa falta de escolha que me incomoda, não a limitação de opções de lazer”
(Conto: Amor de janela)
Um belo dia, porém, algo (alguém) quebra a monotonia dessa vida reclusa: Erick, o vizinho de Camila.
“Ando sentindo tão pouco, que sentir algo, mesmo que bobo, faz meu coração saltar”
(Conto: Amor de janela)
E enquanto os dois vão se conhecendo, nós vamos nos apaixonando por cada um e torcendo por aquele quentinho no coração necessário.
“Para você que está em casa, sonhando com abraços e lidando com a solidão. Nós vamos vencer isso!”
Já imaginou se ver vivendo cenários futuros que dependem das escolhas que você faz hoje?
Pois é isso que encontramos em Outra dimensão para nós dois, história na qual conhecemos Maycon, apaixonado por Rafael, o melhor amigo com quem divide a casa.
“Em algum ponto desastroso do tempo ou das nossas escolhas”
(Conto: Outra dimensão para nós dois)
E claro que Rafael não facilita em nada a situação. Primeiro porque ele é daqueles que quer pegar todo mundo e não ficar com ninguém (bem diferente de Maycon). E segundo porque ele é muito tranquilo, acha que a vida não precisa ser levada tão a sério.
“A gente faz escolhas erradas todos os dias. Ainda estamos aqui, não estamos?”
(Conto: Outra dimensão para nós dois)
Este é um conto leve, apesar de trazer questões pesadas. Um conto que começa como uma nuvem cinza pairando, deságua e, enfim, faz o sol brilhar sobre nós.
Aqui temos um conto que está mais no gênero da fantasia, retratando uma região que era de terras pacíficas — Alveiros —, até que um brilho forte surge no céu e muda a história local.
“As coisas não começam do meio, Estrela…”
(Conto: Estrela e a flor)
Na noite em que começa a história, tudo está ainda mais diferente: o pai de Estrela, única pessoa capaz de acender uma fogueira que resista ao frio da região, já não está mais vivo para desempenhar seu papel.
“Esta noite, em especial, tudo parece grande demais para suportar”
(Conto: Estrela e a flor)
Mas a festa é salva por uma figura que também desperta sentimentos e reflexões dentro de Estrela, que tem muito a aprender sobre sua própria história.
“Eu nem sabia que estava sentindo tantas coisas até todas elas transbordarem”
Óbvio que eu, que amo azeitonas, fiquei intrigada com o título desse conto. Só não imaginava que essa simples maravilha poderia ser tão significativa para a história de um relacionamento.
“Rótulos são políticos. Você deve usá-los para se reunir com pessoas iguais a você, para reivindicar direitos e debater sobre dores em comum. Não para se diminuir”
(Conto: Azeitonas)
Ao mesmo tempo, a história nada tem a ver com as azeitonas em si, indo muito além disso. Aliás, este é outro conto que retrata muito bem o período da pandemia.
“Passo o mais longe dele que consigo e vou (mais uma vez) tomar um banho. Já estou de saco cheio. Essa pandemia tem que acabar!”
(Conto: Azeitonas)
Cecília está vivendo esse período com o avô, e resolveu se voluntariar para fazer as compras para ele e para outros vizinhos idosos.
Ela tem todo um esquema para organizar as compras, mas um dia, perdida em pensamentos, acaba misturando as coisas, dando início a uma troca de bilhetes entre seu avô e um dos vizinhos.
“Acho que preciso focar um pouco mais no mundo que está aqui à minha frente”
(Conto: Azeitonas)
A troca de bilhetes, os sentimentos de Cecília e as conversas que ela tem com seu avô fazem com que a jovem acabe entendendo um pouco melhor o término do seu relacionamento, além de compreender as novas relações em sua vida.
“Pra mim é isso o que mais importa, Cecília. Ter alguém que preencha, ao menos um pouquinho, o meu vazio”
(Conto: Azeitonas)
Nós também temos muito a aprender com essa história, que retrata o amor na sua forma mais pura, simples e verdadeira.
“Quero falar sobre sentir dor, sobre estar triste, sobre… amar as pessoas…”
Henrique mora no interior de Minas com sua mãe, Débora, e suas irmãs, Vanessa, Carol e Alessandra. O pai vive com outra família.
“A separação dos pais é um acontecimento traumático para a maioria das pessoas. Para Henrique não. Sentia-se aliviado”
(Conto: As razões de Henrique)
O drama na vida de Henrique, porém, são as inúmeras vezes que teve de trocar de escola devido a problemas.
“Ele queria dizer a ela que nunca tinha feito aquilo. Queria dizer que, na verdade, estava fugindo das perseguições dos colegas das outras escolas onde havia estudado”
(Conto: As razões de Henrique)
O que ninguém sabe, porém, é que os “problemas” dele são o bullying sofrido por ser diferente de seus colegas.
“Henrique queria ser hétero, queria muito, mas não era”
(Conto: As razões de Henrique)
Em Santa Maria Madalena, contudo, as coisas parecem ser diferentes.
“Nunca havia sido acolhido em escola nenhuma antes, nem tinha passado por sua cabeça a possibilidade de que ali ele pudesse se sentir bem. Mas ele se sentiu, assim que Malu se sentou na cadeira do lado dele”
(Conto: As razões de Henrique)
E realmente são. É nessa cidade que Henrique passa a viver um amontoado de sentimentos, buscando entender o que se passa em seu coração.
“Em todos os seus quinze anos, Henrique nunca havia sentido o coração bater tão forte no peito”
(Conto: As razões de Henrique)
Mais do que falar sobre a descoberta da bissexualidade (em um lugar onde ainda há muito preconceito com o que “foge à norma”), esse conto também nos faz refletir sobre o tempo, sobre olhar com calma ao nosso redor.
“É que… às vezes, a gente está com tanta pressa, tão preso na nossa própria vida, que esquece de todas as vidas que nos cercam. Elas também são importantes, mas ninguém vê”
(As razões de Henrique)
Um conto que também faz com que nos apaixonemos pelos personagens.
“Pela primeira vez na vida, Henrique quis parar. E permanecer”
Devo confessar que o título deste conto não despertava muito da minha curiosidade, mas hoje eu leria até mesmo o livro que aprofunda essa história.
Emma e Cobra eram bons amigos. Até deixarem de se falar. E claro que o afastamento deles se deve a um mix de sentimentos que só a adolescência e essa fase de descobertas é capaz de despertar em nós.
Alguns acontecimentos estranhos, porém, juntam esses dois amigos novamente: Emma ouve vozes vindas da sua parede (e não são vizinhos, pois ela mora na última casa da cidade), enquanto Cobra é capaz de ler os pensamentos dos outros.
“E eu penso que está muito além da nossa compreensão entender como aquele meteoro nos transformou na nova geração dos X-Men, só que no interior de Minas Gerais”
(Conto: Emma, Cobra e a criatura na parede)
Enquanto tentam entender o que está acontecendo, Emma e Cobra se reaproximam, conhecem criaturas vindas de outra dimensão do tempo e espaço e têm a oportunidade de perdoar um ou outro.
“Ela respeitou meu pronome no íntimo de sua mente… E pensar nisso faz com que eu me sinta culpado”
Ao contrário do último conto, este aqui obviamente já ganhou meu coração só pelo nome, apesar do começo ter sido um pouco mais arrastado do que eu esperava.
Tudo começa com Juan indo assistir a uma apresentação de Lili simplesmente porque ela um dia fora parceira musical de João Vinícius, por quem Juan é apaixonado desde a adolescência.
“Perdi mais uma vez para João Vinícius”
(Conto: Acho que fiz uma música)
Acontece que Juan não tem ideia do fim desastroso que a parceria e a amizade de Lili e João Vinícius tivera.
Ainda assim (e mesmo que muito a contragosto), Lili aceita a proposta de Juan: ela o ajuda a conhecer João Vinícius e ele a ajuda a melhorar seu marketing.
“Parte de mim ainda acha que deveria lutar contra isso. Só que tenho lutas demais na vida, não preciso de mais uma”
(Conto: Acho que fiz uma música)
Juan só não contava em se apaixonar mais uma vez no meio desse caminho. E é difícil não torcer por esse amor.
“Eu não havia reparado tanto nela antes, mas Lili é muito bonita. Do tipo de beleza que parece um tapa na cara, você só percebe quando bate. E te tira do eixo”
Preciso confessar que eu jamais imaginaria que um conto com esse título poderia falar, também, de uma paixão que me move: livros.
“Há um lugar, porém, onde sempre posso encontrar um refúgio, onde sei que irei me identificar com os personagens vivendo suas vidas de forma extremamente mágica… ou não. E esse lugar são os livros do Mariano Madeira”
(Conto: Bregafunk do amor)
E é justamente isso que une Ana Cecília, Felipe e Mirela, três jovens apaixonados pelos livros de Mariano Madeira.
“Então vocês também gostam do Madeira? — Mirela pergunta baixinho. Parece até que estamos planejando derrubar o presidente. O que não seria uma má ideia”
(Conto: Bregafunk do amor)
Felipe e Mirela já se conhecem de longa data e têm um passado que fica pairando no ar a todo momento.
“E meu coração acelerou por Felipe por muito, muito tempo. Até o dia em que ele o feriu”
(Conto: Bregafunk do amor)
Ana, por sua vez, também parece ter um passado e tanto, mas é nova na cidade e está tentando recomeçar e se reencontrar ali.
“O olhar de Ana é puro terror. Parece que já viu mais coisas do que deveria ser aceito uma adolescente ver”
(Conto: Bregafunk do amor)
Ao descobrir a paixão em comum, porém, os três jovens se unem em um plano infalível (só que não) para ir à sessão de autógrafos do autor na cidade vizinha.
“Nossa sintonia é tão palpável que eu poderia morar nesse espaço que estamos construindo”
(Conto: Bregafunk do amor)
Narrado em primeira pessoa, cada vez por um desses personagens, este conto nos entrega muitas reflexões e muita profundidade, disfarçadas de uma história totalmente leve e até engraçada.
“Só posso me responsabilizar por aquilo que eu faço. As atitudes, mentiras e silêncios deles, são responsabilidades deles”
É natal, mas a data não está nada celebrativa para Gal, pois sua namorada está desaparecida.
“O vazio que eu sinto ao perceber que minha mãe não me conhece mais — que ela nunca me conheceu — foi até suportável em outros natais, mas não neste”
(Conto: Um papai Noel de outro planeta)
O que Gal não imagina é que é justamente um Papai Noel (um pouco diferente talvez) a pessoa que irá ajudar nessa busca.
“É engraçado como naturalizamos o que não deveria ser naturalizado”
(Conto: Um papai Noel de outro planeta)
Este é o último conto do livro e ele consegue reunir muitas das outras histórias lidas. É muito gostoso passar pelas aventuras de Gal, que por si só já dão muito pano para manga, e, ao mesmo tempo, relembrar um pouco do que foi lido ao longo do livro.
Aqui, novamente, temos viagem pelo tempo e espaço, mistérios a serem resolvidos e muitos sentimentos envolvidos.
“Viajar no tempo é conviver com sua própria inexistência”
(Conto: Um papai Noel de outro planeta)
E também temos muita reflexão disfarçada em meio a algo que pode parecer leve.
“Eu me deixei de lado, por muito tempo, tentando ser aquilo que esperavam de mim”
(Conto: Um papai Noel de outro planeta)
Conclusão
Como eu disse lá no começo dessa resenha, Clichês em rosa, roxo e azul foi uma obra que me tocou bastante. Com ela, pude ter ótimos momentos de lazer, mas também aprendi muito.
“Não é a quantidade nem a frequência das mensagens, é a conversa em si e a atenção que você dá a ela”
(Conto: Azeitonas)
Através dos personagens, passei a enxergar a diversidade com olhos ainda mais amplos, compreendendo, também, que são inúmeras e variadas as formas de amar verdadeiramente. Além de enxergar com mais clareza uma parte de mim também.
“É muito fácil me acostumar com ele aqui, como se sua presença fosse natural”
(Conto: Mas… e se?)
E para quem, assim como eu, não saberia escolher apenas um conto para ler, deixo aqui o link para a obra completa. Aproveite para também conhecer as redes sociais da autora (Site | Instagram | Twitter) e ficar por dentro dos lançamentos dela.