Enlace — Ana Farias Ferrari & Érulos Ferrari Filho

Título: Enlace
Autores: Ana Farias Ferrari & Érulos Ferrari Filho
Editora: Publicação independente
Páginas: 45 
Ano: 2020

Se você acompanha este blog, provavelmente viu a resenha de Não quero patos elétricos, que foi uma leitura bem diferente do que estou acostumada a fazer. E, logo depois deste livro, resolvi ler Enlace, que também era algo que eu já imaginava ser totalmente fora da minha zona de conforto.

Apesar de muito mais curta — afinal, trata-se de um conto — a leitura de Enlace já foi mais difícil para mim, por realmente adentrar na ficção científica e abordar a questão das inteligências artificiais (que, para muitos — eu inclusive — ainda é um universo praticamente desconhecido). Uma narrativa breve, mas com uma profundidade sem igual, que fui apreciando aos poucos.

Aliás, este conto vai além disso, pois nos apresenta, dentre os personagens, à inteligência artificial mais evoluída já criada pela humanidade. Uma IA capaz de raciocinar e até de ser empática! E Enlace é o título desta história, mas também o nome da tal inteligência artificial retratada. Ela é enviada ao espaço com dois seres humanos que compartilham um passado. E um passado recheado de… Sentimentos!

“Eu sou quem sou porque vivi essa experiência, sem ela eu não sei quem eu seria”

Pelo pouco que sei sobre inteligências artificiais, vejo-as com máquinas com uma enorme capacidade de raciocínio. Mas raciocínio lógico, daqueles que segue uma regra e que pode acabar por errar diante de qualquer coisa que fuja à essa regra. Enlace (a inteligência artificial) surpreende, nesta história, por isso: ela dialoga com os seres humanos que a controlam, dando respostas ou reagindo de uma maneira que não seria esperada para uma inteligência artificial.

“Existir vale a pena, mesmo com risco de dor, mesmo com risco de sofrimento”

Aos poucos, porém, vamos compreendendo (assim como os humanos da narrativa) porque isso acontece. E, então, somos encaminhados a um desfecho que, uma vez mais, nos deixa estarrecidos (daqueles que você sente sua cabeça explodindo e uma voz ao fundo dizendo “uau!”).

Por fim, é preciso mencionar ainda uma particularidade da obra: ela foi escrita a quatro mãos, por pai e filha! Ao longo da leitura, porém, senti a narrativa bem uniforme, sem conseguir distinguir o que foi escrito por cada um. A história é em terceira pessoa e consegue nos apresentar muito bem todas as nuances que a história precisava ter.

Mais do que desvendar todos os mistérios desta narrativa, a leitura de Enlace também vale a pena porque todo o valor arrecadado com a venda do ebook será doado ao Grupo Noel, que trabalha com famílias em situação de vulnerabilidade social.

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Calafrio — Tayana Alvez

Título: Calafrio
Autora: Tayana Alvez
Editora: Publicação independente
Páginas: 116
Ano: 2020

Antes de nos deixar embarcar em Calafrio, Tayana avisa que esta não é uma história qualquer, nem mesmo para ela, que está se arriscando em um novo gênero. Também fica o aviso de que a narrativa pode conter gatilhos, mas que, para quem tiver estômago, que siga em frente na leitura e deixe para tirar as conclusões ao final.

O recado estava dado e, mesmo assim, fui enormemente surpreendida com a leitura.

Para começo de conversa, a história toma rumos inesperados a cada instante e vai jogando com reviravoltas que estavam quase me fazendo torcer pelo final errado, mas sobre isso eu explico mais pra frente. A narrativa alterna entre presente e passado e cada peça desse quebra-cabeça vai se encaixando aos poucos, mas, de novo, sem necessariamente nos preparar para o final. Com o passado, vamos conhecendo a história de Imaní e Maia, quem são (ou eram) eles, o que fazem, de onde vêm e, com o presente, vemos o desenrolar deles, juntos.

“Às vezes, na vida, coisas estranhas acontecem. Coisas ruins acontecem”

Imaní é uma jovem que sonha com sua liberdade. Ironicamente, porém, ela é sequestrada. Pior: por alguém em quem estava começando a confiar e que parecia ser quase uma promessa de dias melhores.

“A verdade é o que você acredita que ela é”

Segundo o pouco que vai contando de si, porém, Maia — que começa como um bom amigo e acaba como sequestrador de Imaní — também se sente preso. Não como ela, claro, mas no sentido de não ter escolhas na vida. E aqui temos um ponto: Maia é humano demais, real demais.

Ele quase me convenceu de que poderia passar de vilão a herói e que estaria tudo bem se isso acontecesse. Quase me fez torcer por um final feliz. Não que o final não seja, de alguma forma, feliz, mas ele vem com um belo tapa na cara dado pela autora.

Obrigada, Tayana, por não me deixar embarcar nas conversas de Maia e mostrar que Imaní era ainda melhor do que se apresentara no início da história.

E, aliás, devo discordar que Calafrio não tenha nada a ver com o que já foi publicado por Tayana: Imaní tem a força que as outras protagonistas da autora têm e também a capacidade de nos fazer enxergar para muito além de nossa visão de mundo.

Por fim, Calafrio não é somente o título do livro, mas também a sensação que nos percorre ao realizar essa leitura, bem como é o que Imaní sente muitas vezes, ainda que, no início, não compreenda muito o porquê.

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Um namorado para minha mãe — Rafa Alves

Título: Um namorado para minha mãe
Autora: Rafa Alves
Editora: Publicação Independente
Páginas: 85
Ano: 2020

Este conto começa com um clichê clássico: uma mulher que descobre que está sendo traída e volta aos prantos para casa. Mas a mulher em questão tem algo diferente de tantos clichês: uma filha.

Esta variável acrescenta algumas questões interessantes à narrativa, como o fato de Bianca — a protagonista — demonstrar uma preocupação e um apego enormes à menina, uma vez que fora abandonada grávida (sim, isso mesmo, ela foi abandonada grávida, depois entrou em outro relacionamento e se descobriu traída).

Só com isso, já levantamos três pontos importantes: o abandono que muitas mulheres sofrem ao se descobrirem grávidas e as consequências psicológicas que isto traz não apenas para a mãe, mas também para o filho. Além, claro, do medo de se viver a própria vida e de se permitir sentir e amar novamente. Cada passo que Bianca dá, ela pensa no que isso influenciaria Vivi, sua filha. Nas consequências que isso poderia trazer para a pequena.

Mas Vivi é uma menina doce, carinhosa e que quer, a todo custo, juntar sua mãe com o “tio preferido” que é ninguém menos que o melhor amigo de Bianca. Amigo, este, que esteve ao lado dela em todos os momento, inclusive da gravidez e que, querendo ou não, sempre foi quase um pai para Vivi.

Claro que o fato de uma criança arquitetar planos para juntar a mãe com alguém já diz muita coisa sobre o que ela vive e como ela se tornou uma mini adulta. Mas confesso que, enquanto lia Um namorado para minha mãe não pensava muito em todos esses aspectos.

Com uma narrativa doce e envolvente, a história simplesmente vai fluindo diante de nós e é difícil não se apaixonar pelas mulheres da narrativa e não torcer por um final feliz, principalmente depois de todo esse passado conturbado de Bianca.

Além disso, este conto é uma boa e rápida forma de conhecer a escrita da autora Rafa Alves, visto que ele não está relacionado à série Escolhas, que também é super gostosa de ler.

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Enseada negra — Brias Ribeiro

Título: Enseada Negra
Autora: Brias Ribeiro
Editora: Publicação independente
Páginas: 85
Ano: 2020

Na reta final deste ano, fui surpreendida com uma leitura muito interessante: Enseada Negra. Uma história narrada em terceira pessoa e, diferente de muitos livros de autores nacionais que já li, que se passa fora do Brasil, começando na Áustria e passando também pela Alemanha (que na verdade é o país natal da protagonista) e França.

Contudo, o fator mais surpreendente não é o cenário, mas a própria história. Logo no primeiro capítulo somos apresentados à rígida educação de Liesel, a protagonista. E, ao mesmo tempo, vamos percebendo o quanto ela é solitária e reprimida, a ponto de reprimir-se totalmente, em um nível realmente assustador.

“É difícil não acreditar que merece toda a dor física e psicológica que o mundo tem a oferecer”

Por outro lado, logo conhecemos, Grete, alguém que também está naquele contexto repressor, mas que tem uma base familiar muito diferente da de Liesel e que, portanto, ao invés de reprimir-se, contesta e luta, principalmente por aquilo que acredita e por aquilo que é.

No início, Grete é uma pessoa totalmente distante de Liesel, mas logo sentimos que isso pode mudar com os rumos da história. O fato é: nós não poderíamos imaginar o quanto mudaria. Tudo bem, sabendo que se trata de um romance LGBT, podemos desconfiar de algumas coisas, mas tudo acontece de forma muito mais surpreendente que o esperado.

“Por que está sempre preocupando a única pessoa que tem algum apreço por ela? Por que não consegue fazer nada direito?”

Algo que, na minha opinião, contribuiu muito para a atmosfera da história, é a presença de arte nela. Explico: em primeiro lugar, Liesel encontra no desenho uma forma de se expressar. E através de suas obras conseguimos mergulhar — mesmo com a narrativa em terceira pessoa — em seus sentimentos. Além disso, a música é um dos fios condutores da história.

Liesel é totalmente reprimida e fechada, mas é apaixonada por um gênero musical que seus pais certamente abominariam e, mais ainda, um gênero musical que lhe permite extravasar e, também, sair um pouco das regras impostas a ela. E, claro, esse gênero musical é o que a une ainda mais a Grete.

Não sei se pelo fato de Liesel desenhar ou se apenas por mero estilo de escrita, a história é recheada de descrições. Nada, porém, que nos faça morrer de sono. Ao contrário, são descrições que tornam ainda mais reais as cenas apresentadas.

Uma história densa, profunda e diferente. E uma leitura rápida! Vale a pena conhecer Enseada Negra.

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Alameda do Carvalho — Ninna Vicari

Título: Alameda do carvalho
Autora: Ninna Vicari
Editora: Publicação independente
Páginas: 388
Ano: 2020

Você já ficou encarando a capa de um livro, tentando entender os elementos que a compõem e o título que grita nela?

A Ninna entrou em contato comigo, perguntando se eu queria ler Alameda do carvalho. Claro que ela usou as palavras mágicas “é um romance” (bom, na verdade ela explicou que “é uma história de amor entre dois personagens adultos”). Aceitei na hora, ainda que pensasse que havia algo de futurista nessa história que talvez não fosse me encantar tanto assim.

“Era tarde demais para voltar atrás. Não havia outra direção a seguirem, a não ser adiante”

Só depois de muito avançar na leitura é que comecei a entender alguns detalhes (da capa, no caso, a história está bem escrita, não tive dificuldades para acompanhar) e entender que eu não precisava me preocupar, tratava-se do exato tipo de narrativa que eu tanto adoro.

“As pessoas sempre se sentem culpadas depois de uma tragédia, mas nunca se sentem responsáveis durante os eventos que precedem a tragédia”‘

O livro é dividido em três partes, todas elas narradas em terceira pessoa. A terceira parte é a mais curta, mas não a menos intensa.

“Será que ele choraria? Ou guardaria suas lágrimas em segredo?”

A história começa com Tom e sua filha, Lily. Logo percebemos que ele está se reerguendo e que tem de cuidar da pequena sozinho, uma vez que sua esposa morrera. Uma morte, porém, que o persegue por muito tempo e que somente aos poucos vamos entendendo o que há por trás deste episódio.

Decidido a tentar retomar as rédeas de sua vida, Tom se muda para Londres e, portanto, acaba tendo de contratar uma babá para cuidar de Lily. E é assim que ele conhece Mia.

“Mia tinha tendência a abraçar problemas que não eram seus e sentia a necessidade de resolvê-los”

Mia é estudante de direito e trabalha como babá para poder se sustentar. Apesar de ter sempre um sorriso gentil a oferecer, ela também tem um passado complicado, que certamente moldou seu caráter compreensível e empático.

“Ouvir a história de Mia fez Thomas colocar sua própria vida em perspectiva”

Como a primeira parte do livro é dedica a Tom, ainda que Mia tenha um papel essencial e uma presença marcante, ficamos propensos a querer saber tudo sobre esse homem misterioso e fechado.

A segunda parte, porém, é dedicada a Mia, e só então percebemos como há tanto a ser descoberto sobre ela também. Uma mulher inspiradora, sem dúvidas.

É claro que a combinação Tom e Mia não poderia ser mais explosiva que a apresentada em Alameda do Carvalho. Fica evidente, ao longos das páginas desta obra, que jamais poderemos controlar nosso coração, escolher por quem iremos nos apaixonar.

“Não bastasse ter que superar as adversidades que a vida lhe jogara, também teria que lidar com preconceitos que nunca havia experienciado antes”

Sim, eu chorei em alguns trechos. Também fiquei com o coração na mão em outros. E tive medo de ser surpreendida por um final totalmente inesperado. Mas tive a sorte de terminar a leitura com o coração quentinho.

“Ela estava ali naquele momento, mas ele temia que não estaria ali para sempre”

Como eu disse antes, a terceira parte do livro é a mais curta, mas também a mais reveladora. Dedicada a Lily, é o momento em que cada peça desse quebra-cabeça finalmente se encaixa. Não há ponto sem nó na história.

“Lily não entendia, ainda era inocente demais para compreender as nuances que relacionamentos humanos possuíam”

Com uma narrativa envolvente, indico Alameda do carvalho para quem busca um romance mais maduro (sem ser maçante), recheado de temas como amizade, superação, alcoolismo, preconceitos… Uma história que aborda tudo isso e muito mais de maneira natural e responsável.

Se você se interessou por Alameda do carvalho, clique aqui. E não esquece de seguir a Ninna nas redes sociais: Twitter / Instagram

Brilhante — Renato Ritto

Título: Brilhante
Autor: Renato Ritto
Editora: Publicação independente
Páginas: 44
Ano: 2020

Você já enviou um email que não deveria ter enviado e entrou em desespero, sem saber o que fazer? Para a nossa sorte, hoje em dia é possível desfazer o envio, se formos velozes em notar o erro.

Mas por que estou falando sobre emails em uma resenha? Porque Brilhante é um conto totalmente escrito neste formato, isto é, cada detalhe ao qual temos acesso, nesta história, nos chega através de emails trocados entre os personagens.

Tudo começa, conforme nos indica o cabeçalho do primeiro email, numa segunda-feira, dia 6 de abril de 2020. Trata-se de uma mensagem de Frank Lima para Alex Gomes, dois funcionários da Agência Brilho.

Para ser mais exata, Frank é gerente de projetos da agência e está dando um leve puxão de orelha — entremeado por muitos elogios — em Alex, o estagiário. O email é escrito de forma muito interessante, pois não parece exatamente uma bronca. E isso é um ponto, de certa maneira, discutido mais adiante no conto.

Se fosse só essa primeira “bronca”, tudo bem. O problema é que o tal gerente decide mandar um email coletivo e Alex resolve escrever uma resposta bem sincera… Que não deveria ser enviada! O que era para ser apenas um desabafo, vira uma grande confusão.

Ao perceber a burrada, Alex envia outro email, desesperado, mas para sua colega, Thais Rosa, também estagiária da agência. E daí para frente, são muitas reviravoltas! A gente fica com o coração na mão, querendo saber como Alex irá se safar dessa situação.

Ao mesmo tempo que Brilhante é uma leitura extremamente leve e divertida — sim, daquelas que você dá risadas enquanto lê — tem um certo quê de crítica, seja à desvalorização que estagiários e artistas sofrem, seja à forma como as coisas podem ser conduzidas em agências (este é um tipo de ambiente totalmente desconhecido para mim e foi muito interessante vê-lo retratado em uma história como esta).

No momento que cheguei à última página, soltei um sonoro “quê???”. Um excelente final aberto, que nos deixa ansiando por muito mais. Dá vontade de ler de novo, para absorver cada detalhezinho desta história.

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Árvore de espíritos — Michelle Pereira

Título: Árvore de espíritos 
Autora: Michelle Pereira
Editora: Publicação independente 
Ano: 2020

Uma das coisas mais fantásticas sobre fechar parceria com autores (não todos, mas grande parte) é o fato de que podemos conhecê-los melhor, estarmos mais próximos e… sabermos das novidades de antemão!

E a Michelle Pereira é uma dessas escritoras que sempre tem algo novo a mostrar aos seus leitores e que gosta de ouvir nossas opiniões sobre tudo. E foi por isso que seus parceiros (eu inclusa!) tiveram a oportunidade de ler Árvore de espíritos antes de todo mundo.

Trata-se de mais um conto desta escritora que consegue nos surpreender a cada lançamento. Desta vez, a atmosfera é mais sombria e por isso o lançamento oficial (com direito a gratuidade do conto na Amazon) será amanhã, dia de halloween.

Trazendo elementos da cultura japonesa, Árvore de espíritos nos conta a história de dois irmãos — Pam e Tae — que, quando mais novos, viam espíritos. E é com isso que Michelle nos apresenta a coruja que colhe espíritos: o youkai.

“Eu e meu irmão víamos espíritos, uma maldição da qual não pude escapar”

Esta é uma história para nos lembrar que nem tudo é o que parece ser e é muito interessante como o ritmo dela vai crescendo ao longo da leitura, aumentando a nossa tensão, até chegarmos ao desfecho de tudo o que se desenrola.

“As pessoas ao nosso redor me olham com estranheza, mas decido ignorar”

O conto é narrado por Pam, que vive no Brasil, onde já não vê tantos espíritos quanto antes. Mas a história se passa quando, após oito anos, ela retorna ao Japão…. E tudo acontece.

“O que você pensa que está fazendo, Tae?”

Se você quer saber o que acontece com Pam e Tae, clique aqui. Lembrando que o conto estará gratuito de 31/10 a 02/11/2020

Em casa — L. S. Morgan

Título: Em casa
Autora: L. S. Morgan
Editora: Publicação independente
Páginas: 14
Ano: 2020

Desde que nasci, moro na mesma casa. Ao longo dos anos, porém, conheci muitas pessoas que se mudaram. Não apenas de casa, mas também de cidade, de estado, de país. Muitas dessas pessoas tiveram a oportunidade de fazer essa mudança por escolha, o que não minimiza tanto assim os impactos, as dificuldades que se tem de enfrentar em um lugar que não é o seu. Principalmente, também, quando se sai de um lugar tranquilo para um lugar agitado.

“Sinto cheiro de mato, de terra, de saudade guardada no peito”

Já nas primeiras linhas de Em casa me lembrei desses rostos que me remetem a mudança e que sempre admirei. A protagonista, com uma narrativa envolvente, consegue retratar bem o impacto que abandonar uma cidade pacata e chegar a uma cidade grande e caótica pode nos causar. Mas, ao contrário das tantas pessoas que conheci, ela não se mudou por opção: fora arrancada de seu lar.

Uma criança tirada à força de casa. É isso que Em casa nos mostra. Mas não só: o texto fala sobre a perda de alguém que se ama. Aliás, perda talvez seja o maior fio condutor dessa história, porque a protagonista perde uma mãe para a morte, perde uma mãe porque a sociedade não pode aceitar que uma criança tenha duas mães e, por fim, perde um lar.

“Achei que ela apenas dormia e demorei um tempo para entender que ela não acordaria, quando compreendi, chorei”

Em casa é um conto e, como tal, é curto. Para tratar de tantos assuntos em tão poucas páginas é preciso, portanto, ser direto. Mas a autora consegue fazer isso com uma linguagem rica de sentimentos e sensações, transmitindo tudo o que uma narrativa como essa pode nos propiciar.

Uma leitura de poucos minutos que foi uma grata surpresa para mim. Aquele tipo de história que combina com um domingo chuvoso e um café quente, que vai mexer com você e te fazer perceber que existem prazer nas menores coisas da vida.

Se interessou por Em casa? Então não deixe de clicar aqui. E se você gosta de marcadores, ao final do ebook a autora te dá a possibilidade de solicitar alguns.

Quando você perde também ganha — T. S. Rodriguez

Título: Quando você perde também ganha
Autora: T. S. Rodriguez
Editora: Publicação independente
Páginas: 27
Ano: 2019

quando você perde blog

Pedro é aquele garoto que tem tudo na vida e que insiste em passar uma imagem de si apenas para ser ainda mais aceito pelo seu círculo social. Ao mesmo tempo, ele provavelmente nunca refletira muito sobre isso.

“Você é o tipo garoto branquinho, bonitinho e cheio de privilégios, que desperdiça tudo isso agindo feito um babaca”

Um dia, porém, um acidente de carro faz com que Pedro tenha de ficar de cama, com as duas pernas engessadas. E, para não perder o ano escolar, o colégio lhe manda os conteúdos via email e pede que Vinicius, o melhor aluno da sala, vá visitá-lo todos os dias para explicar aquilo que o colega possa ter dificuldades em aprender sozinho.

“Não há nada de mal em parecer fraco às vezes. Todo mundo precisa de ajuda”

Acontece, porém, que Vinicius sempre fora alvo de piadinhas feitas pelos amigos de Pedro, e ainda que este nunca dissesse nada para ofender, era sempre conivente, rindo daquilo que os amigos diziam.

No primeiro dia que Vinicius vai até a casa de Pedro, este descobre que o colega dança ballet. Mas, ao contrário do que aconteceria se estivesse com os amigos, Pedro não faz nenhuma piada sobre o assunto e, pelo contrário, parece até se interessar pelo hobby do amigo, perguntando se ele tem interesse em seguir carreira na área.

Mas não é somente Pedro que se surpreende nesse primeiro encontro: Vinicius percebe que o colega é bem diferente daquela imagem que ele passava. Tinha livros no quarto e era mais inteligente do que demonstrava ser.

E é assim que vamos conhecendo mais desses dois jovens e vemos como um tem muito a ensinar ao outro. Vinicius dá várias lições em Pedro e este passa a se enxergar de formas que nunca imaginara antes.

Quando você perde também ganha é um conto rápido e cheio de lições. Uma história que poderia, inclusive, virar livro, mostrar os desdobramentos de cada acontecimento, ensinar ainda mais.

Brincadeira seria se todos achassem engraçado. Eu não acho. Quando só uma das partes ri e outra fica ofendida ou chateada, deixa de ser brincadeira e vira bullying, sabia?”

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Meu policial envolvente — Juju Figueiredo

Título: Meu policial envolvente 
Autora: Juju Figueiredo
Editora: Publicação independente
Páginas: 597
Ano: 2019

policial envolvente

Antes de começar a resenha de mais um livro da Série Envolvente, eu não posso deixar de dizer que estava bem curiosa com essa história desde que li Meu juiz envolvente, porque ali já dava para imaginar que muita coisa deveria ser explicada sobre a Verônica e o Guilherme, protagonistas deste livro.

“Tinha como um coração quebrado voltar a se quebrar?”

E já adianto aqui que não me decepcionei. Aliás, mais do que isso, até me surpreendi comigo mesma e logo mais eu explico isso, mas antes, tenho de contar um pouquinho do enredo e da estrutura do livro.

“Me perdi mas fui capaz de me reencontrar”

Como nos outros volumes da série, em Meu policial envolvente temos capítulos narrados ora por Verônica, ora por Guilherme, fazendo com que possamos enxergar os dois lados de uma mesma história, nos aproximando ainda mais dos personagens.

“Falar era muito fácil, afinal, você não estava ali sentindo a dor, não estava sofrendo”

Verônica e Guilherme se conheceram ainda jovens e nutriram um pelo outro um amor desses raros e lindos de se ver. Ela engravidou quando eles ainda sequer tinham condições de iniciar uma vida em conjunto, mas superaram tudo um ao lado do outro e se tornaram não apenas uma bela família, mas também grandes policiais.

“— Infelizmente, as coisas não são como queremos e às vezes nossas vidas tomam rumos completamente diferentes do esperado”

Claro que nem tudo são flores, porém, e a vida perfeita que levavam juntos uma hora veio abaixo. O problema foi a forma como tudo aconteceu: Guilherme simplesmente deixou um bilhete para Verônica, dizendo que eles haviam se conhecido cedo demais e que ele queria viver novas aventuras (!) e… SUMIU DO MAPA.

“Às vezes as palavras nos machucam mais que uma surra”

Dá vontade de matar um cara desses, né? Não. Mas calma! Claro que dá vontade de matar um cara desses, mas apenas quando não conhecemos a real história por trás desse bilhete. E vocês se lembram que eu disse lá em cima que a narrativa dessa história é alternada entre esses dois personagens, certo? Pois então, Guilherme, na verdade, não quer viver uma aventura. Ele tem uma missão. E, aos poucos, tantos detalhes vão sendo revelados e tudo vai, cada vez mais, se encaixando, que fica difícil não torcer para que, no final das coisas, tudo dê certo, inclusive entre Verônica e Guilherme.

 “Eu consigo reconhecer as lutas que perdi”

Ao mesmo tempo, porém, a gente vai acompanhando os dilemas da Verônica sobre perdoar ou não Guilherme e, mesmo conhecendo o lado dele da história, é muito compreensível essa dúvida dela. Ela sofrera demais e, mesmo ouvindo as explicações dele, não era possível apagar tudo o que ela vivera enquanto ele estava longe. E foi justamente isso que me fez refletir tanto. Tentei me colocar no lugar da Verônica, mas como é difícil imaginar ter de passar por qualquer coisa minimamente semelhante ao que ela passou. Que angustiante (num bom sentido, se é que isso é possível), foi acompanhar as idas e vindas, os altos e baixos desse casal.

“Quando a minha vida começou a dar tão errado?”

E, para melhorar, Meu policial envolvente não é um mero romance, mas também um livro cheio de ação, com crimes a serem resolvidos, histórias do passado intimamente ligadas às aventuras do presente de cada um. E esse livro ainda consegue nos deixar com vontade de conhecer mais a fundo alguns de seus outros personagens.

“A dor de perder alguém nunca passava, mas amenizava com o tempo”

Eu realmente me surpreendi com essa história e, sem dúvidas, é a minha preferida da série Envolvente.

Ficou com vontade de conhecer também? Então clica aqui.