Clichês em rosa, roxo e azul — Maria Freitas

Título: Clichês em Rosa, Roxo e Azul: coleção de contos com protagonismo bissexual 
Autora: Maria Freitas 
Editora: Publicação independente 
Páginas: 685 
Ano: 2021

Introdução

Durante a pandemia que se iniciou em 2020 e, aqui no Brasil, se prolongou com um cenário tão terrível quanto em 2021, inúmeros autores e editoras deixaram, em algum momento, suas obras liberadas para download gratuito

“Acho que o mundo não vai acabar. Ele só vai ser diferente daqui em diante”

(Conto: Amor de janela)

Muitos artistas — ao menos aqueles que conseguiram manter um pouco de sanidade em meio ao caos — também aproveitaram esse período para produzir e publicar. 

“Via na expressão artística a chance de escapar um pouquinho, de atingir o outro, de mudar o mundo”

(Conto: As razões de Henrique)

Foi justamente nessa época que surgiram os contos da Maria Freitas, reunidos, posteriormente no livro Clichês em rosa, roxo e azul: coleção de contos com protagonismo bissexual

“Estou muito longe de ser aquilo que esperam que eu seja e de amar o tipo de pessoa que eles esperam que eu ame”

(Conto: Mas… e se?)

Foram inúmeras as vezes que essas histórias apareceram para mim, mas foi somente agora que realmente parei para entrar em contato com elas. E, como sempre, acredito que foi no momento certo.

“É difícil não se sentir um incômodo quando você passou a vida inteira se sentindo exatamente desse jeito”

(Conto: um corpo de verão)

O livro me tocou bastante e os contos, cada um à sua maneira, ao seu estilo, me fizeram refletir sobre inúmeros assuntos (para além, claro, do protagonismo bissexual). Assim sendo, achei que seria justo comentar um a um, então esse post talvez fique um pouco longo, mas é por uma ótima causa.

“Eu entendo, Cecília. Mas é preciso estar vivo pra militar”

(Conto: Azeitonas)

Sobre o livro

Antes, porém, alguns apontamentos sobre a obra como um todo: apesar da grande quantidade de páginas (são mais de 600), a leitura flui muito rapidamente, afinal são diversos contos reunidos e todos eles conseguem nos fazer mergulhar na história.

“Não preciso nem abrir os olhos para saber que estou no lugar certo”

(Conto: Emma, Cobra e a criatura na parede)

Além disso, é muito interessante ver que diversas narrativas, de alguma forma, se conectam, assim como há elementos que se repetem, como, por exemplo, a presença de pesadelos. Também dei altas risadas a cada título ou nome de autor real que vi levemente modificado ao longo dessas páginas. Sem contar o quentinho no coração de ver a literatura nacional sendo valorizada dentro da literatura nacional. 

“Se ela gosta dos livros do Mariano, é porque tem bom caráter, não é?”

(Conto: Bregafunk do amor)

Gostei muito das descrições dos personagens, sempre inseridas de maneira natural e nos possibilitando uma visualização melhor deles. Outro ponto positivo é que a maioria dos personagens é “fora do padrão“, trazendo uma diversidade muito maior e natural à obra.

“Quando eu era criança, confiava demais em todo mundo. Mas aí me tornei um adolescente solitário, com tantas questões internas, tantas coisas guardadas dentro de mim, flutuando entre mil “eus”, que me fechei”

(Conto: Um papai Noel de outro planeta)

Sem mais delongas, vamos a cada uma das histórias, na ordem em que aparecem no livro que as reúne. Ao clicar sobre o título, você irá acessar a página da Amazon do conto em si. Ao final do post, deixarei o link para a obra completa, caso você, assim como eu, não queira perder nenhuma dessas maravilhosas histórias.

Mas… e se?

Depois de uma (longa) temporada de shows, o cantor sertanejo Henrique finalmente volta para casa. 

“Cansei de dormir no banco de passageiro, cansei de chorar de saudade com a cabeça encostada no vidro frio da janela”

(Conto: Mas… e se?)

Mas, além de ter que se readaptar à calmaria da vida numa cidade do interior de Minas, ele também tem de se acostumar com o novo (não tão novo assim) namorado de sua esposa

“Preciso beber algo quente, preciso da cafeína para me situar, para entender todas as mudanças que aconteceram na minha vida, quando eu não estava vivendo”

(Conto: Mas… e se?)

Confuso? Bem, esse conto já começa nos mostrando que o amor é algo realmente complexo e que, por vezes, há espaço para mais de um amor verdadeiro dentro de nossos corações.

“Quem nos bagunça são os outros”

(Conto: Mas… e se?)

E bota amor verdadeiro nisso, viu? Nem as traições do passado foram capazes de diminuí-lo (e claro que não darei mais detalhes, porque se eu estava muito curiosa para entender o passado desses personagens, também quero deixar a curiosidade te dominar).

“Porque o amor muda tudo”

(Conto: Mas… e se?)

Um corpo de verão

Acho que o título desse conto já deixa bem claro um dos pontos principais dessa narrativa: a insegurança que temos com relação aos nossos corpos, principalmente diante de tantas pressões estéticas impostas pela mídia e pela sociedade.

“As pessoas sempre vão encontrar algo para dizer. Sempre. Não importa o que você faça, elas sempre vão estar lá para te julgar”

(Conto: um corpo de verão)

Mas Vanessa também tem muitas outras coisas com as quais lidar, como as dificuldades pelas quais a mãe passou e tudo o que teve de abrir mão para que a protagonista tivesse uma vida razoável.

“Nunca achei justo o sacrifício que ela teve que fazer. Nunca achei justo não termos escolha”

(Conto: um corpo de verão)

Não bastasse isso, Vanessa ainda queria poder beijar a amiga de infância. Amiga da qual havia se afastado quando tudo ficou confuso dentro dela.

“Parecia que a gente tinha se perdido uma da outra, se desconhecido”

(Conto: um corpo de verão)

E nessa busca uma pela outra e por si mesmas, vamos enxergando o quanto Vanessa guarda dentro de si, e vamos aprendendo a amá-la como ela mesma, aos poucos, também vai aprendendo.

“Algo se revirou no meu estômago. Uma sensação ruim de quem está sentindo coisas demais, coisas que não sabe como decifrar”

(Conto: um corpo de verão)

Espero que não perca

Acho que esse é um dos contos mais diferentes deste livro, numa pegada mais romance de época. Sim, com protagonismo bi, por que não?

“Ninguém se importa com o que sentimos”

(Conto: Espero que não perca)

Mas essa não era a única dificuldade das protagonistas dessa história: Mercedes pertencia à burguesia, enquanto Alzira era uma mulher negra. Já imaginou o tamanho do problema para uma história que começa por volta dos anos 30?

A história das duas se cruza pela primeira vez no velório da avó de Mercedes, uma mulher que, segundo as descrições, parece ter sido incrível.

“Há uma linha tênue que separa a vida da morte. Um suspiro. Um último sorriso. Mas nem sempre a morte é o fim de uma história. Às vezes, ela é o começo”

(Conto: Espero que não perca)

Dali para frente elas têm de lidar com os sentimentos do coração e os preconceitos que a cercam, fazendo nascer uma história cujo final emociona até o mais duro dos corações.

“As partes quebradas dos dois se encaixavam”

(Conto: Espero que não perca)

Amor de janela

Amor de janela era um conto que eu tinha curiosidade em ler, porque o título já deixa bem explícito o período em que se passa a narrativa: a pandemia.

“— Ficar em casa é mais difícil pra algumas pessoas que pra outras, né?”

(Conto: Amor de janela)

Apesar de estar acostumada à paz do seu quarto, a pandemia também mexe muito com Camila, que tem de aprender (e tentar) a conviver com sua família.

“Já estava acostumada a ficar em casa o dia inteiro, mas a impossibilidade de sair deixa as coisas muito piores. É essa falta de escolha que me incomoda, não a limitação de opções de lazer”

(Conto: Amor de janela)

Um belo dia, porém, algo (alguém) quebra a monotonia dessa vida reclusa: Erick, o vizinho de Camila.

“Ando sentindo tão pouco, que sentir algo, mesmo que bobo, faz meu coração saltar”

(Conto: Amor de janela)

E enquanto os dois vão se conhecendo, nós vamos nos apaixonando por cada um e torcendo por aquele quentinho no coração necessário. 

“Para você que está em casa, sonhando com abraços e lidando com a solidão. Nós vamos vencer isso!”

(Conto: Amor de janela)

Outra dimensão para nós dois

Já imaginou se ver vivendo cenários futuros que dependem das escolhas que você faz hoje?

Pois é isso que encontramos em Outra dimensão para nós dois, história na qual conhecemos Maycon, apaixonado por Rafael, o melhor amigo com quem divide a casa.

“Em algum ponto desastroso do tempo ou das nossas escolhas”

(Conto: Outra dimensão para nós dois)

E claro que Rafael não facilita em nada a situação. Primeiro porque ele é daqueles que quer pegar todo mundo e não ficar com ninguém (bem diferente de Maycon). E segundo porque ele é muito tranquilo, acha que a vida não precisa ser levada tão a sério.

“A gente faz escolhas erradas todos os dias. Ainda estamos aqui, não estamos?”

(Conto: Outra dimensão para nós dois)

Este é um conto leve, apesar de trazer questões pesadas. Um conto que começa como uma nuvem cinza pairando, deságua e, enfim, faz o sol brilhar sobre nós.

Estrela e a Flor

Aqui temos um conto que está mais no gênero da fantasia, retratando uma região que era de terras pacíficas — Alveiros —, até que um brilho forte surge no céu e muda a história local. 

“As coisas não começam do meio, Estrela…”

(Conto: Estrela e a flor)

Na noite em que começa a história, tudo está ainda mais diferente: o pai de Estrela, única pessoa capaz de acender uma fogueira que resista ao frio da região, já não está mais vivo para desempenhar seu papel.

“Esta noite, em especial, tudo parece grande demais para suportar”

(Conto: Estrela e a flor)

Mas a festa é salva por uma figura que também desperta sentimentos e reflexões dentro de Estrela, que tem muito a aprender sobre sua própria história.

“Eu nem sabia que estava sentindo tantas coisas até todas elas transbordarem”

(Conto: Estrela e a flor)

Azeitonas

Óbvio que eu, que amo azeitonas, fiquei intrigada com o título desse conto. Só não imaginava que essa simples maravilha poderia ser tão significativa para a história de um relacionamento.

“Rótulos são políticos. Você deve usá-los para se reunir com pessoas iguais a você, para reivindicar direitos e debater sobre dores em comum. Não para se diminuir”

(Conto: Azeitonas)

Ao mesmo tempo, a história nada tem a ver com as azeitonas em si, indo muito além disso. Aliás, este é outro conto que retrata muito bem o período da pandemia.

“Passo o mais longe dele que consigo e vou (mais uma vez) tomar um banho. Já estou de saco cheio. Essa pandemia tem que acabar!”

(Conto: Azeitonas)

Cecília está vivendo esse período com o avô, e resolveu se voluntariar para fazer as compras para ele e para outros vizinhos idosos. 

Ela tem todo um esquema para organizar as compras, mas um dia, perdida em pensamentos, acaba misturando as coisas, dando início a uma troca de bilhetes entre seu avô e um dos vizinhos.

“Acho que preciso focar um pouco mais no mundo que está aqui à minha frente”

(Conto: Azeitonas)

A troca de bilhetes, os sentimentos de Cecília e as conversas que ela tem com seu avô fazem com que a jovem acabe entendendo um pouco melhor o término do seu relacionamento, além de compreender as novas relações em sua vida.

“Pra mim é isso o que mais importa, Cecília. Ter alguém que preencha, ao menos um pouquinho, o meu vazio”

(Conto: Azeitonas)

Nós também temos muito a aprender com essa história, que retrata o amor na sua forma mais pura, simples e verdadeira.

“Quero falar sobre sentir dor, sobre estar triste, sobre… amar as pessoas…”

(Conto: Azeitonas)

As razões de Henrique

Henrique mora no interior de Minas com sua mãe, Débora, e suas irmãs, Vanessa, Carol e Alessandra. O pai vive com outra família.

“A separação dos pais é um acontecimento traumático para a maioria das pessoas. Para Henrique não. Sentia-se aliviado” 

(Conto: As razões de Henrique)

O drama na vida de Henrique, porém, são as inúmeras vezes que teve de trocar de escola devido a problemas.

“Ele queria dizer a ela que nunca tinha feito aquilo. Queria dizer que, na verdade, estava fugindo das perseguições dos colegas das outras escolas onde havia estudado”

(Conto: As razões de Henrique)

O que ninguém sabe, porém, é que os “problemas” dele são o bullying sofrido por ser diferente de seus colegas.

“Henrique queria ser hétero, queria muito, mas não era”

(Conto: As razões de Henrique)

Em Santa Maria Madalena, contudo, as coisas parecem ser diferentes.

“Nunca havia sido acolhido em escola nenhuma antes, nem tinha passado por sua cabeça a possibilidade de que ali ele pudesse se sentir bem. Mas ele se sentiu, assim que Malu se sentou na cadeira do lado dele”

(Conto: As razões de Henrique)

E realmente são. É nessa cidade que Henrique passa a viver um amontoado de sentimentos, buscando entender o que se passa em seu coração.

“Em todos os seus quinze anos, Henrique nunca havia sentido o coração bater tão forte no peito”

(Conto: As razões de Henrique)

Mais do que falar sobre a descoberta da bissexualidade (em um lugar onde ainda há muito preconceito com o que “foge à norma”), esse conto também nos faz refletir sobre o tempo, sobre olhar com calma ao nosso redor.

“É que… às vezes, a gente está com tanta pressa, tão preso na nossa própria vida, que esquece de todas as vidas que nos cercam. Elas também são importantes, mas ninguém vê”

(As razões de Henrique)

Um conto que também faz com que nos apaixonemos pelos personagens.

“Pela primeira vez na vida, Henrique quis parar. E permanecer”

(As razões de Henrique)

Emma, Cobra e a criatura na parede

Devo confessar que o título deste conto não despertava muito da minha curiosidade, mas hoje eu leria até mesmo o livro que aprofunda essa história.

Emma e Cobra eram bons amigos. Até deixarem de se falar. E claro que o afastamento deles se deve a um mix de sentimentos que só a adolescência e essa fase de descobertas é capaz de despertar em nós.

Alguns acontecimentos estranhos, porém, juntam esses dois amigos novamente: Emma ouve vozes vindas da sua parede (e não são vizinhos, pois ela mora na última casa da cidade), enquanto Cobra é capaz de ler os pensamentos dos outros.

“E eu penso que está muito além da nossa compreensão entender como aquele meteoro nos transformou na nova geração dos X-Men, só que no interior de Minas Gerais”

(Conto: Emma, Cobra e a criatura na parede)

Enquanto tentam entender o que está acontecendo, Emma e Cobra se reaproximam, conhecem criaturas vindas de outra dimensão do tempo e espaço e têm a oportunidade de perdoar um ou outro.

“Ela respeitou meu pronome no íntimo de sua mente… E pensar nisso faz com que eu me sinta culpado”

(Conto: Emma, Cobra e a criatura na parede)

Acho que eu fiz uma música

Ao contrário do último conto, este aqui obviamente já ganhou meu coração só pelo nome, apesar do começo ter sido um pouco mais arrastado do que eu esperava.

Tudo começa com Juan indo assistir a uma apresentação de Lili simplesmente porque ela um dia fora parceira musical de João Vinícius, por quem Juan é apaixonado desde a adolescência.

“Perdi mais uma vez para João Vinícius”

(Conto: Acho que fiz uma música)

Acontece que Juan não tem ideia do fim desastroso que a parceria e a amizade de Lili e João Vinícius tivera.

Ainda assim (e mesmo que muito a contragosto), Lili aceita a proposta de Juan: ela o ajuda a conhecer João Vinícius e ele a ajuda a melhorar seu marketing. 

“Parte de mim ainda acha que deveria lutar contra isso. Só que tenho lutas demais na vida, não preciso de mais uma”

(Conto: Acho que fiz uma música)

Juan só não contava em se apaixonar mais uma vez no meio desse caminho. E é difícil não torcer por esse amor.

“Eu não havia reparado tanto nela antes, mas Lili é muito bonita. Do tipo de beleza que parece um tapa na cara, você só percebe quando bate. E te tira do eixo”

(Conto: Acho que fiz uma música)

Bregafunk do amor

Preciso confessar que eu jamais imaginaria que um conto com esse título poderia falar, também, de uma paixão que me move: livros.

“Há um lugar, porém, onde sempre posso encontrar um refúgio, onde sei que irei me identificar com os personagens vivendo suas vidas de forma extremamente mágica… ou não. E esse lugar são os livros do Mariano Madeira”

(Conto: Bregafunk do amor)

E é justamente isso que une Ana Cecília, Felipe e Mirela, três jovens apaixonados pelos livros de Mariano Madeira

“Então vocês também gostam do Madeira? — Mirela pergunta baixinho. Parece até que estamos planejando derrubar o presidente. O que não seria uma má ideia”

(Conto: Bregafunk do amor)

Felipe e Mirela já se conhecem de longa data e têm um passado que fica pairando no ar a todo momento.

“E meu coração acelerou por Felipe por muito, muito tempo. Até o dia em que ele o feriu”

(Conto: Bregafunk do amor)

Ana, por sua vez, também parece ter um passado e tanto, mas é nova na cidade e está tentando recomeçar e se reencontrar ali.

“O olhar de Ana é puro terror. Parece que já viu mais coisas do que deveria ser aceito uma adolescente ver”

(Conto: Bregafunk do amor)

Ao descobrir a paixão em comum, porém, os três jovens se unem em um plano infalível (só que não) para ir à sessão de autógrafos do autor na cidade vizinha.

“Nossa sintonia é tão palpável que eu poderia morar nesse espaço que estamos construindo”

(Conto: Bregafunk do amor)

Narrado em primeira pessoa, cada vez por um desses personagens, este conto nos entrega muitas reflexões e muita profundidade, disfarçadas de uma história totalmente leve e até engraçada.

“Só posso me responsabilizar por aquilo que eu faço. As atitudes, mentiras e silêncios deles, são responsabilidades deles”

(Conto: Bregafunk do amor)

Um papai Noel de outro planeta

É natal, mas a data não está nada celebrativa para Gal, pois sua namorada está desaparecida.

“O vazio que eu sinto ao perceber que minha mãe não me conhece mais — que ela nunca me conheceu — foi até suportável em outros natais, mas não neste”

(Conto: Um papai Noel de outro planeta)

O que Gal não imagina é que é justamente um Papai Noel (um pouco diferente talvez) a pessoa que irá ajudar nessa busca.

“É engraçado como naturalizamos o que não deveria ser naturalizado”

(Conto: Um papai Noel de outro planeta)

Este é o último conto do livro e ele consegue reunir muitas das outras histórias lidas. É muito gostoso passar pelas aventuras de Gal, que por si só já dão muito pano para manga, e, ao mesmo tempo, relembrar um pouco do que foi lido ao longo do livro.

Aqui, novamente, temos viagem pelo tempo e espaço, mistérios a serem resolvidos e muitos sentimentos envolvidos.

“Viajar no tempo é conviver com sua própria inexistência”

(Conto: Um papai Noel de outro planeta)

E também temos muita reflexão disfarçada em meio a algo que pode parecer leve.

“Eu me deixei de lado, por muito tempo, tentando ser aquilo que esperavam de mim”

(Conto: Um papai Noel de outro planeta)

Conclusão

Como eu disse lá no começo dessa resenha, Clichês em rosa, roxo e azul foi uma obra que me tocou bastante. Com ela, pude ter ótimos momentos de lazer, mas também aprendi muito.

“Não é a quantidade nem a frequência das mensagens, é a conversa em si e a atenção que você dá a ela”

(Conto: Azeitonas)

Através dos personagens, passei a enxergar a diversidade com olhos ainda mais amplos, compreendendo, também, que são inúmeras e variadas as formas de amar verdadeiramente. Além de enxergar com mais clareza uma parte de mim também.

“É muito fácil me acostumar com ele aqui, como se sua presença fosse natural”

(Conto: Mas… e se?)

E para quem, assim como eu, não saberia escolher apenas um conto para ler, deixo aqui o link para a obra completa. Aproveite para também conhecer as redes sociais da autora (Site | Instagram | Twitter) e ficar por dentro dos lançamentos dela.

Profissão Fangirl — Ana Farias Ferrari

Título: Profissão fangirl 
Autora: Ana Farias Ferrari 
Editora: Publicação independente 
Páginas: 258 
Ano: 2022

Você já teve a sensação de que um livro foi escrito para você ou sobre você?

Pois ao iniciar a leitura de Profissão fangirl eu tive essas duas sensações juntas. 

Logo de cara, um livro que — infelizmente — tocou diretamente no meu coração.

“Amiga, desculpa, mas que idiota! Quem termina por mensagem?”

A sensação de tamanha identificação foi estranha, porque ao pegar Profissão fangirl para ler, eu imaginava uma protagonista muito distante de mim, uma vez que nunca fui uma pessoa com ídolos que admire tanto a ponto de me considerar uma fangirl.

Seguindo a leitura, porém, a impressão de que o livro era sobre mim foi logo substituída pela sensação de um livro escrito para mim. E para tantas pessoas que certamente precisam desta leitura.

“A gente sempre acha que a melhor época da nossa vida ou já passou, ou vai chegar, em vez de tentar aproveitar a época em que estamos vivendo”

Como dito ali no início, essa história começa com o término de um relacionamento de cinco anos entre Alice e Diego, deixando a protagonista completamente sem rumo.

“Durante todo o resto da manhã fui fazendo as tarefas automaticamente enquanto deixava minha mente vagar pelos últimos cinco anos da minha vida, todos aqueles em que o Diego esteve presente”

Conversando sobre o acontecimento com suas inseparáveis amigas, porém, Alice percebe que tem muito mais coisa fora do lugar em sua vida.

“Por quase dois anos eu estava acomodada a um emprego que não era nada daquilo que eu queria, e se eu tinha aprendido alguma coisa com o meu relacionamento é que não dá para continuar em um lugar só porque é confortável, eventualmente você vai receber uma mensagem te dizendo que tudo acabou e o que vai restar é o vazio de saber que você só estava ali por medo de mudar”

Decidida a recomeçar — e talvez um pouco alcoolizada também — Alice resolve acompanhar a turnê dos The Rabbits, sua amada banda que, de repente, ela descobre que estará no Brasil em breve. E claro que, para esse momento, ela também decide reativar o blog que criara, anos antes, com as amigas.

“Eu precisava descobrir de novo o que era ser feliz, e não era me adequando aos padrões dos outros que eu conseguiria isso”

Após pedir demissão do emprego que não a fazia feliz, Alice embarca para Belo Horizonte, onde acompanhará sozinha o primeiro show, e depois para o Rio de Janeiro, onde ficará alguns dias na casa de seu amigo Fred e cidade na qual acompanhará o segundo show da banda.

“A felicidade é feita de momentos, e o responsável por fazer esses momentos existirem somos nós!”

Mas é claro que essas viagens não seriam transformadoras por si só. O que mais mexe com Alice, para além das tantas mudanças com as quais ela tem de lidar ao mesmo tempo, é o fato dela ter conhecido Theo, uma figura misteriosa, distante, mas que tem seus motivos e suas vivências para ser assim.

“— Eu sei o que é estar em um relacionamento ruim e em um emprego que você odeia — ele disse, e agora seu sorriso parecia triste. — Nem todo mundo tem coragem de admitir isso e fazer algo para mudar”

É difícil essa história não mexer em algum nível com você. E eu preciso deixar bem claro aqui que mesmo que você ache que shows e a vida de uma fangirl não têm nada a ver contigo, a narrativa desta obra vai muito além disso: ela fala sobre sentimentos, perdas, inseguranças, felicidade. Fala sobre relacionamentos e amizades e aborda cada tema de maneira leve e madura, nos arrancando suspiros, risadas, lágrimas e muita vontade de viver um final feliz.

“Eu só quero descobrir o que é ser feliz de novo, sabe? Aos quinze anos eu sabia de alguma coisa que hoje eu já não consigo mais lembrar”

A narrativa em primeira pessoa nos permite um mergulho no universo da protagonista, tornando a leitura ainda mais intensa. A construção da narrativa também ajuda a tornar os acontecimentos factíveis, nos aproximando ainda mais de cada linha desta história.

“Droga, como alguém podia ser tão ignorante dos próprios sentimentos?”

Se você acha que essa história é para você, já clica ali embaixo para saber mais. E não deixe de seguir a autora em suas redes sociais (Instagram | Twitter).

Ah, e se por acaso você prefere ler fantasias, Ana Farias Ferrari também é autora de Os guardiões dos livros. Não deixe de conferir a resenha! 

O lado extraordinário da falta — Ana Hantt e Josie Baron

Título: O lado extraordinário da falta 
Autoras: Ana Hantt e Josie Baron 
Editora: Publicação independente 
Páginas: 184 
Ano: 2020

Logo de cara, o que chama a atenção nesse livro é o título: O lado extraordinário da falta.

“Afinal, o ‘felizes para sempre’ poderia ser diferente em cada história”

Na vida, podemos sentir um vazio por diversos motivos e, aos poucos, é isto que esse livro vai nos mostrando, mesmo que nem sempre tão diretamente.

“Mas, aí, ela me falou sobre todas as novas possibilidades que as perdas iriam me proporcionar. Assim que meu coração estivesse forte o suficiente para entender o que acontecera, eu iria procurar por novas aventuras, me arriscar, descobrir caminhos que não consideraria se fosse de outro modo”

O começo pode ser um pouco confuso, porque a história alterna entre as duas protagonistas e, até que nos acostumemos com ambas, as coisas podem ficar um pouco perdidas.

“— Meu nome é Jackie.

— Meu nome é Elena.

E aquele foi o momento em que suas vidas mudaram para sempre”

Aliás, Jackie e Elena, as tais protagonistas, tinham tudo para jamais cruzarem o caminho uma da outra, mas o destino quis que não apenas elas se encontrassem, mas que virassem amigas. Praticamente a única amiga uma da outra. 

“Tenho que saber que consigo fazer as coisas sozinha, que não preciso contar com ninguém”

A vida de Jackeline Foster é marcada por episódios difíceis desde cedo. A perda, ali, parece natural (mas não deveria).

“Ela já não queria ser a princesa de Niagara Falls. O reino perdera o encanto”

Elena Whitehill, por outro lado, deveria ter tudo. Mas ela não necessariamente quer tudo o que tem e, para buscar seus verdadeiros desejos, terá de abdicar de muita coisa.

“Vai cursar o seu semestre na Itália, Elena. Você não pode viver uma vida que não é sua. Eu não posso viver uma vida que não é minha. Nós vamos dar um jeito de fazer a nossa mãe entender isso”

A história dessas duas se cruza, ainda, com a de muitas outras pessoas, principalmente suas próprias famílias e o fardo que elas trazem à vivência dessas jovens.

“Ela sabia que, depois de uma vida inteira de mudanças constantes, tudo o que Daniel queria era um lugar para pertencer”

O lado extraordinário da falta é uma história (ou várias, se pararmos para analisar), portanto, que vai nos ensinando a lidar com as mudanças, com as perdas, com o deixar para trás para seguir em frente.

Quando comecei a ler, encontrei algo totalmente diferente do que eu esperava (o que eu esperava, afinal?) e demorei um pouco para me conectar à história, até que fui enredada pelo que poderia acontecer com as protagonistas e em que ponto a história delas se concluiria.

Sim, porque não posso dizer que a narrativa termina: são dores reais demais, acontecimentos palpáveis. Acompanhamos as meninas desde a infância até o início da vida adulta e só podemos esperar que o que acontece depois da última página seja o melhor para elas.

Se você quer (ou precisa) dar novos significados às suas perdas, recomendo a leitura de O lado extraordinário da falta, já alertando para os possíveis nós na garganta que essa história vai te dar. 

“Seu maior oponente vencera aquela batalha e técnica nenhuma ajudaria a aplacar a dor dessa perda”

Clique aqui embaixo para saber mais e não deixe de seguir as autoras nas redes sociais (Instagram).

Madeleine Butchertz — Renata Mariotto

Título: Madeleine Butchertz
Autora: Renata Mariotto
Editora: Publicação independente
Páginas: 296
Ano: 2021

Madeleine Butchertz é um livro surreal e assustadoramente real, já que se utiliza de elementos de nossa realidade — como guerras, uma busca incessante por riquezas e poder e um vírus devastador —, além de trabalhar com realidades que ainda podem vir a nos atingir, com tecnologias avançadas que podem ser úteis para o bem e para o mal.

“Eles foram muito além, inexplicavelmente conseguiram criar um vírus para escravizar toda a humanidade sem prisões. Eles fizeram do próprio corpo humano uma prisão”

Por trabalhar com elementos da nossa realidade, porém, devo ressaltar que a história torna-se delicada, podendo nos levar a interpretações perigosas. Então enfatizo que, apesar das similaridades com alguns elementos de nossa vida, essa ainda é uma obra totalmente de ficção.

O título do livro é também o nome da protagonista, uma menina que se torna uma grande mulher, inspirada por seu pai — um importante pesquisador —, que ela perde ainda pequena.

“Nesta busca por compreender o inexorável, chegou à vida adulta. Decidiu então povoar o vazio com a medicina. A ciência médica e a capacidade de regenerar vidas através da cirurgia plástica começaram a trazer um novo sentido ao seu ser”

Mas toda a enredada trama não conta, claro, com apenas a figura de Madeleine e, para citar ao menos mais um personagem essencial à história, temos Aaron. Juntos, esses dois vão mover montanhas para salvar àqueles que puderem salvar.

“Aaron cresceu introspectivo, afastado do pai. Carter mantinha-se distante. O sofrimento pelo falecimento da esposa o tornou um homem de pouca afetuosidade, um pai presente em suas responsabilidades legais, porém, ao mesmo tempo contido ao demonstrar suas emoções”

Só que Madeleine dá nome ao livro não apenas por ser filha de um grande homem, mas porque ela, sozinha, é uma pessoa extremamente poderosa. E tem um poder que nem ela mesma conhece, mas que se mostrará extremamente precioso e necessário.

“Houve dias no início em que tive medo de mim mesma. Hoje tenho medo de não fazer o que devo, o que posso por tantos inocentes!”

O livro é permeado de ação e de uma dura luta do “bem” contra o “mal” ou, para melhor explicar, de humanos que só pensam em si e em riqueza contra humanos que enxergam uns aos outros.

“Não conseguia acreditar que existisse qualquer sentimento dentro de uma alma tão calculista, mas ali, naquele instante, ele transparecia humanidade”

Uma obra extremamente atual e que, mesmo que às vezes nos percamos um pouco nela, nos fará pensar e refletir sobre como temos vivido nossas vidas e deixado que o mundo siga se transformando, quase nunca para melhor.

“A doença propagava-se impiedosamente, fugindo de qualquer controle médico que a ciência pudesse almejar. A progressão da nova peste não seguia nenhum parâmetro previamente observado em outras pandemias na história da medicina. Os acometidos se debatiam em busca de ar, num sofrimento lento e letal, que avançava ceifando a vida de tantos”

E mesmo em meio ao caos e à ação constante, o amor também faz-se forte e presente nesta narrativa, trazendo mais algumas pitadas de fogo, mas também de calmaria, mostrando, uma vez mais, a força de tal sentimento, que não tem hora e nem lugar para acontecer.

“Ela jamais poderia compreender como o amor florescera diante do desespero e a ameaça de destruição de toda a humanidade como a conhecemos”

Para além da história, o que chama atenção nesta obra é o trabalho gráfico feito nele, com diversas fotos ilustrativas coloridas, coisa bem rara de encontrarmos em livros como esse, principalmente por se tratar de uma edição independente.

Se consegui te deixar com uma pulga atrás da orelha sobre como tudo isso que descrevi pode ser possível e ainda caber em um livro de menos de 300 páginas, você pode clicar abaixo para ler o ebook ou então comprar a edição física (e outros mimo) no site da autora. Aproveite para também segui-la nas redes sociais.

100 canções para salvar sua vida — Camila Dornas

Título: 100 canções para salvar sua vida 
Autora: Camila Dornas 
Editora: Publicação independente 
Páginas: 379 
Ano: 2019

Começo esta resenha com uma frase que pode ser um pouco óbvia, mas que fica ainda mais clara quando concluímos a leitura de 100 canções para salvar a sua vida: a música une as pessoas.

“Música era a conexão entre meu pai e eu”

Mas não se deixe enganar por essa capa fofa e colorida e por essa frase capaz de conquistar qualquer um que, assim como eu, ama músicas e histórias. Este livro traz uma narrativa forte e aborda muitos assuntos que podem ser grandes gatilhos (como consumo excessivo de álcool, suicídio, violência sexual, relacionamentos familiares). 

“Tentei fazer suas palavras fazerem sentido, tentei entender, ao menos superficialmente, o que ele sentia. Mas não pude, é claro que não pude”

O livro já começa intenso, o que só nos faz querer saber como tudo aquilo pode acabar. Será que tem como acabar “bem”?

“Tudo é a mais pura e vibrante energia. E energia nunca desaparece. Apenas se transforma em algo diferente”

Nesta história conhecemos Alícia e Natasha que, um ano depois, ainda estão tentando entender e superar a morte de Valentina, que completava o inseparável trio. Uma garota que só podemos conhecer através das palavras de suas melhores amigas.

“Alguns dias eram piores que os outros. Alguns dias, sua ausência era tão forte que parecia tangível”

Neste ponto já podemos ver como cada uma lida com essa dor e é bonito perceber que sim, cada um de nós vive o luto ao seu modo.

“Às vezes tudo que precisamos é uma oportunidade de dizer adeus”

Mas esse panorama é apenas o começo. E a verdadeira história se desenrola a partir do momento em que Ali e Tasha resgatam a cápsula do tempo delas — uma tradição criada alguns anos antes — e, como de certa forma já esperavam, encontram algo deixado por Valentina. Elas só não imaginavam que esse algo seriam seis cartas, um iPod rosa com 100 canções e um mapa. 

“Não saber o que acontece em seguida é a melhor parte”

É a partir dessa descoberta que Ali e Tasha se jogam na estrada à bordo da Kombi grafitada de Alícia, que está ao volante, mas sendo conduzida por Valentina. Numa espécie de caça ao tesouro do além, as amigas iniciam assim a sua jornada.

“Ir embora só é difícil quando você tem algo pra deixar pra trás”

As duas amigas saem, portanto, em busca das respostas não dadas enquanto Valentina era viva e descobrem coisas dolorosas, que jamais esperaram descobrir (mas que, a partir de um certo ponto passamos a desconfiar, mesmo não querendo).

“Alguns segredos são terríveis demais, devastadores demais. Algumas verdades, quando desenterradas, destroem tudo”

Mas nem tudo é lágrima e dor nesta narrativa. Enquanto rodam o Brasil, as duas amigas vivem aventuras únicas e, principalmente, conhecem pessoas que serão igualmente capazes de transformar suas vidas.

“As pessoas que eu encontrei e suas histórias eram os tesouros mais preciosos pelo quais eu podia pedir, eram um lembrete de que nem todos eram ruins”

Confesso que me espantei com a facilidade que esse povo tem de cair na estrada. Mas é muito difícil não se deixar levar pelo espírito de liberdade deles. Ah, e aqui não estou mais falando somente de Ali e Tasha, mas dos amigos que elas conheceram pelo caminho também.

“Eu gosto de escapar de vez em quando, mas sou um paulista assumido. Gosto do barulho, da variedade de estilos, da vida cultural sempre pulsando, do ar pesado, até das pessoas rabugentas”

100 canções para salvar sua vida é um livro intenso, que vai te fazer pensar sobre a vida (e a morte), sobre amizades e valores, sobre força, coragem e sorrisos.

“Valentina era uma das pessoas mais corajosas que eu já conheci, e mesmo assim, ela nunca contou pra ninguém”

Uma história que vai te fazer sentir muitas coisas ao mesmo tempo e que, provavelmente, irá te marcar de alguma forma.

“Apesar do sorriso sempre presente, ela se escondia em suas aventuras por que tinha medo do nada, medo do que aconteceria se ficasse sozinha tempo demais consigo mesma”

Este foi meu primeiro contato com a escrita da Camila Dornas e sinto que, inicialmente, fui com muita expectativa para a leitura. Depois, porém, realmente me conectei à história e agora, além de tudo, percebo que destaquei alguns trechos bem fortes e significativos e que fiquei bem mexida com o que li.

“Um minuto é a diferença entre nada e alguma coisa. Alguns minutos podem mudar tudo”

Se você também quer conhecer está história, clique aqui embaixo. E se quiser saber mais sobre o trabalho da Camila, não deixe de segui-la nas redes sociais (Site | Instagram | Twitter).

Citações #53 — A longa noite de Bê

A longa noite de Bê, obra do autor Fernando Ferrone, foi uma leitura que fiz em janeiro e que, felizmente, se faz presente até hoje em meio a reflexões e lembranças.

Na resenha, alguns trechos que gostei ficaram de fora e agora você pode conferi-los aqui. É o caso, por exemplo, das passagens que falam sobre as energias que gastamos (ou não) com os outros.

“O nosso corpo não é feito pra suportar o ódio. Odiar alguém requer muita energia”

“Eu precisava não me preocupar tanto se quisesse ter energia para me preocupar sempre”

A história também aborda, de diversas formas, a presença, a ausência, o pertencimento, temas que, por si só, já têm muito a despertar em nós.

“Ele nunca te fez falta porque nunca se fez presente. Não tem como sentir saudades do que nunca se conheceu”

“Naquele momento, tive uma sensação que não experimentava há anos: senti um despertencimento”

A longa noite de Bê fala, ainda, sobre o tornar-se mãe (principalmente sem planejamento e sem realmente desejar isso).

“Naquele instante, Lila era uma forma vazia dentro de um espaço vazio”

“Sendo então duas pessoas, Lila sentiu-se nenhuma”

Uma coisa que gostei muito ao longo da leitura foi a forma como o autor trabalhou lugares comuns (não apenas da literatura), nos dando novas perspectivas em relação a eles.

“Esse prazer de rever pela última vez os momentos marcantes da nossa vida antes de não ter mais vida não existe”

Uma obra múltipla, que vale muito a leitura, assim como o primeiro livro do Fernando, À deriva. E se você quiser saber mais sobre eles e conhecer um pouco do autor, não deixe de assistir esse bate-papo que tive a oportunidade de participar (e mediar) lá na Livraria Ponta de Lança.

Citações #52 — Uma noite inesquecível

Não sei se você chegou a ler a resenha de Uma noite inesquecível, escrito por Adrielli Almeida e publicado em 2021, de forma independente. Caso o tenha feito, deve ter percebido que me encantei com essa história e, por isso, agora trago aqui mais alguns trechinhos dela, para você saborear e ficar com ainda mais vontade de ler também.

Como dito na resenha, o dia da formatura de Darin Moon sai totalmente daquilo que ele planejara e imaginara. E tudo isso começa com um belo pé na bunda.

“Agora, segurando as flores no batente da porta de um lugar no qual não iria entrar, vendo uma namorada que não era mais a dele, Darin se sentia… um completo idiota”

“Por quase nove meses, ela foi Dora para ele. Agora era a causa do coração partido dele”

Mas outra coisa que fica clara é que o pé na bunda é apenas o começo. Porque Darin não poderia imaginar que havia muito mais por vir naquela noite.

“Foi como se aquele garoto tivesse acabado de roubar uma batida do coração dele”

E, para tais acontecimentos, não podemos deixar de mencionar Camilo, o exato oposto de Darin.

“Ao contrário de Camilo, Darin desfilou debaixo de holofotes o tempo todo”

“Camilo percebeu que realmente gostava de coisas bonitas”

“Camilo abriu um sorriso que poderia iluminar toda aquela maldita cidade”

Uma noite inesquecível é uma breve história de amor, mas é também uma narrativa carregada de outros sentimentos.

“Ele detestava chorar. Detestava que prestassem atenção nele em momentos tão… frágeis. Era como estar nu. Era como estar nu usando tênis”

“Volte quando se apaixonar, Darin. Dói na mesma medida que alivia”

Um assunto que não é central, mas que também chamou minha atenção na leitura, são as relações familiares ali construídas e descritas.

“Cadu e Camilo, por mais que não parecessem, eram família”

“Eu não tenho irmãos — Camilo disse, dando de ombros. — Mas Cadu… Cadu é isso para mim. Eu acho”

Se quiser saber o que mais essa história guarda (e são muitos os seus mistérios), não deixe de clicar aí embaixo.

Citações #50 — Laços Divergentes

Depois da resenha de Laços Divergentes, da autora Michele Meneses, trago aqui alguns trechos que separei durante a leitura, mas que acabei não inserindo no meu post anterior.

Vale lembrar que a obra nos apresenta a Amtullah, uma jovem iraquiana que vem fazer um intercâmbio no Brasil.

“Uma coisa é certa: esse intercâmbio me fará voltar pra casa uma quantidade incontável de vezes mais sentimental que já fui em toda a minha vida”

Para além deste grande tema, contudo, a obra também fala sobre outros assuntos importantes, como os caminhos que decidimos percorrer em nossas vidas e o quanto as escolhas que temos de fazer nos afetam.

“Quando pensava no futuro, nada parecia ser o que desejava”

Ou então sobre a necessidade de valorizamos melhor aquilo que temos de mais importante em nossas vidas: o tempo.

“A vida nem sempre é perfeita com as pessoas que convivemos, mas, com o tempo tão escasso que teremos ao seu lado, não podemos nos dar ao luxo de prolongar dias ruins”

Como não poderia deixar de ser — e isso provavelmente já até ficou claro —, esta é uma história recheada dos mais variados sentimentos.

“Eu nunca o tinha visto chorar, mas, naquele instante, uma lágrima solitária escorreu pelo seu rosto e me fez desmontar por dentro. Ele também sofria”

E ainda conta com uma pitada necessária e gostosa de romance.

“Talvez, muita gente nem saiba que, vez ou outra, um grande amor pode ser vivido sem nem ser revelado”

Por fim, dando um toque especial à narrativa, temos o fato da protagonista ser uma garota como nós, real, cheia de sonhos, desejos, angústias e necessidades.

“Eu não sou alguém vaidosa, mas há momentos em que uma garota precisa de certas palavras para se sentir bem consigo mesma”

Se quiser ler esta obra, clique abaixo. Além de garantir o seu exemplar, você ainda contribui para o Blog das Tatianices (sem pagar nada a mais por isso).

À deriva — Fernando Ferrone

À deriva — Fernando Ferrone

Título: À deriva 
Autor: Fernando Ferrone 
Editora: Publicação Independente 
Páginas: 212  
Ano:  2017 (2º Edição)

Há livros que caem em nossas mãos e, por todo o seu conjunto, nos conquistam de tal maneira que só nos resta mergulhar na leitura e devorar cada página, até o fim.

“a gente fica tão preocupado com o fim das coisas. de repente, vai que não tem fim, né?”

Com À deriva foi assim. Depois de ter a honra de conhecer o autor Fernando Ferrone, e de ganhar um exemplar físico da obra, fui saboreando o prazer de observar os detalhes desta edição: a foto da capa, os elementos que remetem ao mar, a sinopse.

“existem várias maneiras de saber as coisas, né? e uma delas é saber de tudo, mas desconhecer as consequências. principalmente as consequências para os outros”

Iniciei a leitura nessa empolgação e, antes de continuar, não posso deixar de comentar uma estranheza que tive: as frases não são iniciadas com letra maiúscula. Estas, aliás, apenas são usadas nos nomes próprios. 

Passada esta primeira estranheza, porém, logo adentrei a história, sedenta por saber das aventuras e desventuras de Isabela.

“você me conheceu numa época muito estranha da minha vida”

É gostoso conhecer essa paulistana com a qual dificilmente não temos algo em comum: seja a insatisfação com o trabalho, o cansaço de viver em uma metrópole como São Paulo, o sentimento de solidão ou os conflitos familiares.

“você tem os seus problemas, e eles são grandes o suficiente para você ficar mal”

O interessante, contudo, é que nenhum desses assuntos está, sozinho, no foco da obra. Ao iniciarmos a leitura, aliás, já vemos que há muito mais, pois Isabela está mandando um áudio para seu ex, contando aquilo que tanto queremos descobrir: o que ela viveu em sua viagem.

“em retrospectiva, aquele deve ter sido o primeiro momento em que Isabela começou a terminar o namoro”

Para descansar um pouco de toda a agitação, Isabela decide passar um final de semana acampando em Trindade e, mesmo indo sozinha, ela acaba por conhecer pessoas que enriquecem as reflexões e confusões desta história, como os tão importantes personagens Caetano e Bruno.

“Isabela se inquieta, porque nessas horas lembra como, mesmo após seis meses, ainda se surpreende involuntariamente pensando no ex. apesar de tudo”

Estes dois, ao lado de Isabela, compõem o cerne da narrativa, mas há outros personagens que igualmente enriquecem a narrativa e o principal dela: a vontade de encontrar respostas e a dificuldade que temos de encontrá-las, mesmo quando elas estão bem embaixo do nosso nariz.

Devo confessar que fiquei admirada com o quanto Isabela realmente entregou-se à aventura que resolveu viver, conversando com estranhos (realmente estranhos) sem o menor medo ou desconfiança. Cheguei até a me questionar como uma pessoa sai de São Paulo e aceita caronas e conselhos de pessoas semi desconhecidas!

Por mais estranhos que alguns personagens sejam, devo admitir que conforme eu lia o livro, sempre me lembrava de algum conhecido por um ou outro motivo. Ou seja, esta é uma história que realmente nos faz sentir conectados e, assim, ela flui muito facilmente. A linguagem empregada também ajuda bastante para que a leitura embale e não nos deixa tão perdidos diante da temporalidade não linear da narrativa.

Eu poderia ainda comentar muitos outros aspectos deste livro, mas como já fiquei quase uma hora na Livraria Ponta de Lança batendo um papo com o Fernando sobre À deriva e A longa noite de Bê, deixo para os mais curioso o link deste encontro e convido a todos a seguir o autor nas redes sociais (Instagram) e, claro, garantir o seu exemplar desta obra:

A ruiva ao lado — Taynara Melo

Título: A ruiva ao lado 
Autora: Taynara Melo 
Editora: Publicação Independente 
Páginas: 78  
Ano: 2021 (2º edição)

A ruiva ao lado é uma obra razoavelmente curta e, por isso, rápida de ler. Além disso, um dos principais plots da narrativa está colocado logo no início, mas, mesmo assim, o mistério perdura por toda a obra.

“Já vi aquele olhar. Mas não me lembro em quem”

Celine tem 32 anos e ainda carrega consigo a dor de ter sido abandonada pela mãe aos 10 anos de idade, tendo crescido apenas com o pai, alcoólatra.

“Até hoje sinto que a minha felicidade foi embora com minha mãe, no dia que ela partiu”

Apesar de tantos percalços, Celine conseguiu construir sua vida e, ao contrário da mãe, jamais abandonou o pai, mesmo diante da dificuldade e da tristeza de conviver sob o mesmo teto que alguém com um vício tão complicado e destrutivo quanto o álcool.

“Nesse exato momento, ele está na reunião do AA. Fico feliz por ele estar se empenhando. No mês anterior, ele havia completado quatro anos de sobriedade. Aquilo, para ele, era uma vitória diária. E eu estava orgulhosa dele”

Mas claro que, quando as coisas começam a se ajeitar, a vida vem e traz novas surpresas e desafios.

“Só quero seguir em frente, sem esse drama à minha volta”

Voltando de um delicioso final de semana com as amigas, Celine conhece Laura, a ruiva que pede para sentar ao seu lado no ônibus.

Desse momento, nasce uma linda e surpreende relação. Um elo que não é sempre que conseguimos criar em tão pouco tempo.

Mas é também por causa desse momento que todo o passado de Celine vem à tona e sua vida vira um caos.

A ruiva ao lado é, portanto, uma história que fala sobre abandono, alcoolismo, depressão e, acima de tudo, perdão.

“Compreendi que o perdão deve ser dado de coração”

Se quiser realizar esta leitura, prepare-se para encontrar sentimentos intensos e, claro, para chorar. Clique aí embaixo para saber mais e não deixe de seguir a autora nas redes sociais (Twitter e Instagram) para conhecer esta e suas demais obras.